A VIAJANTE DO TEMPO

Volume 1

Diana Gabaldon


      DIANA GABALDON formou-se em zoologia, tem mestrado em biologia marinha e  Ph.D. em ecologia. Trabalhou como resenhista de revistas de informtica. Comeou
a escrever por acaso, quando, para um de seus artigos, precisou analisar um site da Internet dedicado  troca de idias para escritores. Diana acabou se apaixonando 
pela literatura e tornou-se escritora em tempo integral. Hoje, vive com o marido e trs filhos em Scottsdale, no estado americano do Arizona.




















Ttulo original OUTLANDER
EDITORA ROCCO LTDA.
Digitalizao: Vtor Chaves
Correo: Marcilene Aparecida Alberton Ghisi Chaves










 memria de minha me, que me ensinou a ler - Jacqueline Sykes Gabaldon

        Pessoas desaparecem o tempo todo. Pergunte a qualquer policial. Melhor ainda, pergunte a um jornalista. Os desaparecimentos fazem parte do dia-a-dia dos 
jornalistas.
        Adolescentes fogem de casa. Crianas desgarram-se dos pais e nunca mais so vistas. Donas-de-casa chegam ao limite de sua pacincia, pegam o dinheiro das 
compras e um txi para a estao de trem. Banqueiros internacionais mudam de nome e desaparecem na fumaa de seus charutos importados.
        Muitos dos desaparecidos sero encontrados, por fim, vivos ou mortos. Afinal, os desaparecimentos tm explicao.
        Quase sempre.
        
        
1 - RECOMEO
        
        No era um lugar muito provvel para desaparecimentos, ao menos  primeira vista. A pousada da sra. Baird era igual a milhares de outros estabelecimentos 
que ofereciam hospedagem e caf da manh nas High-lands, a regio montanhosa da Esccia, em 1945; limpa e tranqila, com papel de parede floral desbotado, assoalhos 
reluzentes e um aquecedor de gua no banheiro operado com moedas. A sra. Baird era atarracada e afvel, e no fazia nenhuma objeo ao fato de Frank cobrir sua minscula 
sala de visitas, decorada com raminhos de rosas, com as dezenas de livros e papis com que ele sempre viajava.
        Encontrei a sra. Baird no vestbulo quando eu saa. Ela me parou com a mo rechonchuda em meu brao e deu leves toques nos meus cabelos.
        - Nossa, sra. Randall, no pode sair assim! Vamos, deixe-me ajeitar aqui um pouco para voc. Pronto! Assim est melhor. Sabe, minha prima estava me falando 
de um novo permanente que ela experimentou, fica lindo e dura que  uma beleza. Talvez devesse experimentar esse tipo da prxima vez.
        No tive coragem de dizer-lhe que a rebeldia dos meus cachos castanho-claros era obra exclusiva da natureza e no devida a qualquer negligncia da parte 
dos fabricantes de permanente. Suas prprias ondas firmemente marcadas no sofriam de tal perversidade.
        - Sim, farei isso, sra. Baird - menti. - S estou indo  vila me encontrar com Frank. Voltaremos para o ch.
        Sa apressadamente pela porta a caminho da rua antes que ela pudesse detectar quaisquer outros defeitos em minha aparncia indisciplinada. Aps quatro anos 
como enfermeira do exrcito britnico, eu estava livre de uniformes e restries, cedendo ao desejo de usar vestidos leves de algodo, vivamente estampados, totalmente 
inadequados para as acidentadas caminhadas atravs das urzes.
        No que eu tivesse originalmente planejado fazer muitas dessas caminhadas; meus pensamentos estavam mais voltados para dormir at tarde todas as manhs e 
passar longas tardes preguiosas na cama com Frank, e no para dormir. Entretanto, era difcil manter o adequado estado de esprito lnguido e romntico com a sra. 
Baird diligentemente passando o aspirador de p do lado de fora do nosso quarto.
        - Esse deve ser o pedao de carpete mais sujo de toda a Esccia - Frank observara naquela manh quando estvamos na cama ouvindo o ronco feroz do aspirador 
de p no corredor.
        - Quase to sujo quanto a mente da proprietria - concordei. - Talvez devssemos ter ido para Brighton, no final das contas.
        Escolhemos as Highlands como roteiro de frias antes de Frank assumir o cargo de professor de histria em Oxford, considerando que a Esccia de certa forma 
fora menos atingida pelos horrores fsicos da guerra do que o resto da Gr-Bretanha e era menos suscetvel  frentica alegria ps-guerra que contagiava pontos tursticos 
mais populares.
        Mesmo sem discutir o assunto, acho que ns dois sentimos que era um local simblico para restabelecermos nosso casamento; ns nos casamos e passamos uma 
lua-de-mel de dois dias nas Highlands, pouco antes da deflagrao da guerra h sete anos. Um refgio tranqilo onde pudssemos redescobrir um ao outro, pensamos, 
sem perceber que, enquanto o golfe e a pesca so os esportes ao ar livre mais praticados da Esccia, o mexerico  o esporte de salo mais popular. E do jeito que 
chove na Esccia, as pessoas passam muito mais tempo dentro de casa.
        - Aonde voc vai? - perguntei, quando Frank atirou os ps para fora da cama.
        - Detestaria ver a pobre velhinha decepcionada conosco - respondeu.
        - Sentando-se na beira da cama antiga, comeou a balanar-se devagar para cima e para baixo, criando um rangido rtmico e penetrante. O ronco do aspirador 
de p no corredor parou bruscamente. Aps um ou dois minutos balanando-se, ele deu um gemido alto e teatral e deixou-se cair para trs com uma vibrao de protesto 
das molas. No pude conter uma risadinha abafada no travesseiro, para no perturbar o silncio sepulcral do lado de fora.
        Frank ergueu as sobrancelhas para mim.
        - Voc deveria gemer em xtase, no dar risadinhas - repreendeu-me num sussurro. - Ela vai achar que eu no sou um bom amante.
        - Voc vai ter que continuar por mais tempo do que isso, se espera gemidos empolgados - respondi. - Dois minutos no merecem mais do que uma risadinha.
        - Que mulherzinha sem considerao. Eu vim aqui descansar, lembra-se?
        - Preguioso. Nunca vai conseguir colocar o prximo ramo familiar em sua rvore genealgica se no mostrar um pouco mais de empenho.
        A paixo de Frank por genealogia era outra razo para termos escolhido as Highlands. Segundo um dos encardidos pedaos de papel que ele carregava de um lado 
para o outro, um antepassado seu tivera alguma coisa a ver com os acontecimentos naquela regio em meados do sculo XVIII - ou seria sculo XVII?
        - Se eu acabar como um toco sem descendentes na minha rvore genealgica, sem dvida ser por culpa de nossa incansvel anfitri l fora. Afinal, estamos 
casados h quase oito anos. O pequeno Frank Jr. ser perfeitamente legtimo sem precisar ser concebido na presena de uma testemunha.
        - Se vier a ser concebido - eu disse, pessimista. Ficramos decepcionados mais uma vez na semana anterior  partida para nosso retiro nas Highlands.
        - Com todo este revigorante ar puro e esta comida saudvel? Como poderamos falhar aqui?
        O jantar na noite anterior fora arenque, frito. O almoo fora arenque, em conserva. E o cheiro penetrante que agora bafejava pelo vo da escada sugeria com 
elevado grau de certeza que o caf da manh deveria ser arenque, defumado.
        - A menos que voc esteja pensando em mais uma edificante performance para a sra. Baird - sugeri -,  melhor se vestir. No vai se encontrar com aquele pastor 
s dez? - O reverendo Reginald Wakefield, o vigrio da parquia local, deveria prover algumas fascinantes certides de batismo para inspeo de Frank, sem mencionar 
a esfuziante perspectiva de que possa ter desenterrado alguns bolorentos despachos do exrcito ou algo parecido que mencionassem o famoso antepassado.
        - Como  mesmo o nome daquele seu av do tatarav? - perguntei. - Aquele que andou fazendo besteira por aqui durante uma das rebelies? No consigo me lembrar 
se era Willy ou Walter.
        - Na verdade, era Jonathan.
        Frank aceitava placidamente meu total desinteresse por sua histria familiar, mas permanecia sempre alerta, pronto para aproveitar-se da menor expresso 
de curiosidade como desculpa para me contar todos os fatos conhecidos at a presente data sobre os antigos Randall e suas conexes. Seus olhos assumiram o brilho 
febril de professor fantico enquanto abotoava a camisa.
        - Jonathan Wolverton Randall. Wolverton pelo tio de sua me, um cavaleiro insignificante de Sussex. Era, entretanto, conhecido pelo apelido um tanto arrojado 
de "Black Jack", algo que adquiriu no exrcito, provavelmente durante a poca em que serviu aqui.
        Deixei-me cair na cama com o rosto enfiado no travesseiro fingindo roncar. Ignorando-me, Frank continuou com sua exegese erudita.
        - Ele recebeu sua patente oficial em meados dos anos 30, isto , em meados de 1730, e serviu como capito dos drages. Segundo aquelas cartas antigas que 
a prima May me enviou, ele se saiu muito bem no exrcito. Uma boa escolha para um segundo filho, como voc sabe; seu irmo mais novo tambm seguiu a tradio tornando-se 
um cura, mas ainda no encontrei muita coisa sobre ele. De qualquer modo, Jack Randall foi altamente elogiado pelo duque de Sandringham por suas atividades antes 
e durante a Conspirao Jacobita de 1745, a segunda, como voc sabe -detalhou, em proveito dos ignorantes em sua platia, isto , eu. - Com o prncipe Carlos Eduardo* 
e toda aquela gente.
        - No estou totalmente certa de que os escoceses achem que perderam essa - interrompi, sentando-me e tentando domesticar meus cabelos. - Ouvi perfeitamente 
o barman daquele pub ontem  noite referir-se a ns como Sassenachs.
        - Bem, por que no? - Frank disse tranqilamente. - Afinal, significa apenas "ingleses" ou, na pior das hipteses, "forasteiros", e ns somos tudo isso.
        - Sei o que significa. Foi o tom com que ele falou que me incomodou. Frank procurou um cinto na gaveta da cmoda.
        - Ele s estava zangado porque eu disse que a cerveja estava aguada. Eu disse a ele que a verdadeira cerveja das Highlands exige que uma botina velha seja 
acrescentada ao tonel e que o produto final seja coado por uma cueca usada.
        - Ah, isso explica o total da conta.
        - Bem, eu disse isso com um pouco mais de tato, mas s porque a lngua galica no possui uma palavra especfica para ceroulas.
        Peguei as minhas prprias calcinhas, intrigada.
        - Por que no? Os antigos celtas da Esccia no usavam roupa de baixo?
        Frank lanou-me um olhar malicioso.
        - Nunca ouviu aquela velha cano sobre o que o escocs usa por baixo do kilt?
        - Provavelmente no aqueles elegantes cales at os joelhos - eu disse secamente. - Talvez, enquanto voc fica brincando por a com vigrios, eu saia  
cata de algum habitante local usando saiote escocs e lhe pergunte.
        - Bem, tente no ser presa, Claire. O reitor do St. Giles College no iria gostar nada.
        Na realidade, no havia ningum perambulando de kilt pela praa central ou pelas lojas que a rodeavam. No entanto, havia vrias outras pessoas por l, a 
maioria donas de casa do tipo da sra. Baird, fazendo as compras dirias. Eram tagarelas e alcoviteiras, e suas presenas slidas, de vestido estampado, enchiam as 
lojas de um calor aconchegante; um esteio contra a nvoa fria da manh no lado de fora.
        Ainda sem minha prpria casa para manter, havia pouca coisa que precisasse comprar, mas gostava de dar uma olhada nas prateleiras recm-abastecidas, pelo 
simples prazer de ver muitos artigos novamente  venda. Fora um longo perodo de racionamento, de ter que se abster de coisas simples como sabo e ovos, e mais longo 
ainda sem os pequenos luxos da vida, como a gua-de-colnia L'Heure Bleu.
        Meus olhos demoraram-se em uma vitrine repleta de utenslios domsticos - toalhas de ch e anjinhos para cobrir bules bordados, jarras e copos, uma pilha 
de frmas de lata para tortas caseiras e um conjunto de trs vasos de plantas.
        Jamais tive um vaso de planta em minha vida. Durante os anos de guerra, vivi,  claro, nos alojamentos de enfermeiras, primeiro no Pembroke Hospital, depois 
numa base militar na Frana. No entanto, mesmo antes disso, nunca moramos tempo suficiente em um s lugar para justificar a compra de um artigo como esse. Se eu 
tivesse tal pea, refleti, tio Lamb a teria enchido de cacos de louas muito antes que eu pudesse chegar perto dela com um buqu de margaridas.
        Quentin Lambert Beauchamp. "Q" para seus alunos de arqueologia e para os amigos. "Dr. Beauchamp" nos crculos acadmicos em que ele transitava, lecionava 
e ganhava a vida. Mas sempre tio Lamb para mim.
        O nico irmo de meu pai e meu nico parente vivo na poca se vira de repente s voltas comigo, uma menina com cinco anos de idade, quando meus pais morreram 
num acidente de carro. s vsperas de uma viagem para o Oriente Mdio na poca, interrompeu seus preparativos o tempo suficiente para providenciar o funeral, desfazer-se 
dos bens de meus pais e matricular-me num internato para meninas. Para o qual me recusei terminantemente a ir.
        Diante da necessidade de arrancar meus dedos gorduchos da maaneta do carro e me arrastar pelos calcanhares pelas escadas da escola, tio Lamb, que detestava 
conflitos pessoais de qualquer natureza, suspirou exasperado, depois finalmente encolheu os ombros e jogou sua sensata deciso pela janela, juntamente com meu recm-adquirido 
chapu de palha.
        - Maldito chapu - resmungou, olhando pelo espelho retrovisor e vendo-o rolar alegremente para longe, enquanto o carro continuava descendo o caminho, roncando 
em alta velocidade. - Sempre detestei chapus femininos, de qualquer modo. - Fixou em mim um olhar feroz.
        - Uma coisa - disse, em tom ameaador. - Voc no pode brincar de boneca com minhas estatuetas de tmulos persas. Qualquer coisa, menos isso. Entendeu?
        Balancei a cabea, feliz. E fui com ele para o Oriente Mdio, para a Amrica do Sul, para dezenas de stios arqueolgicos em todo o mundo. Aprendi a ler 
e escrever com os rascunhos dos artigos cientficos, a cavar latrinas e ferver gua e a fazer um sem-nmero de outras coisas inadequadas para uma jovem bem-nascida 
- at encontrar o historiador atraente, de cabelos escuros, que veio consultar tio Lamb a respeito de uma questo da filosofia francesa relacionada  prtica religiosa 
egpcia.
        Mesmo depois de nosso casamento, Frank e eu levamos a vida nmade de um jovem professor universitrio, dividido entre congressos pela Europa e apartamentos 
temporrios, at que a deflagrao da guerra o enviou para o Treinamento de Oficiais na Unidade de Inteligncia do Ml-6 e a mim para o treinamento de enfermeiras. 
Embora estivssemos casados h quase oito anos, a nova casa em Oxford seria nosso primeiro lar verdadeiro.
        Enfiando a bolsa firmemente debaixo do brao, entrei com passos firmes na loja e comprei os vasos.
        Encontrei-me com Frank no cruzamento da High Street com a Gereside Road e comeamos a subir por esta ltima. Ele ergueu as sobrancelhas diante das minhas 
compras.
        - Vasos? - Sorriu. - timo. Talvez agora voc pare de colocar flores nos meus livros.
        - No so flores, so espcimes. E foi voc quem sugeriu que eu me interessasse por botnica. Para ocupar minha mente, agora que no sou mais enfermeira 
- lembrei a ele.
        -  verdade. - Balanou a cabea com bom humor. - Mas eu no sabia que teria galhinhos e folhas caindo no meu colo toda vez que abrisse uma obra de referncia. 
O que era aquela coisa horrvel, marrom e esfarelada, que voc colocou no meu livro do Banks?
        - Sabugueiro. Boa para hemorridas.
        - Preparando-se para a minha iminente velhice, no ? Hum, muito gentil de sua parte, Claire.
        Atravessamos juntos o porto, rindo, e Frank parou para que eu subisse os estreitos degraus da entrada  sua frente. De repente, agarrou-me pelo brao.
        - Cuidado! No pise nisso a!
        Parei com o p cuidadosamente erguido acima de uma grande mancha vermelho-amarronzada no degrau superior.
        - Que estranho - disse. - A sra. Baird esfrega os degraus toda manh; eu j vi. O que voc acha que pode ser isso?
        Frank inclinou-se sobre o degrau, delicadamente procurando sentir o cheiro.
        - Assim de improviso, eu diria que se trata de sangue.
        - Sangue! - Recuei um passo. - De quem? - Olhei nervosamente para a casa. - Voc acha que a sra. Baird sofreu algum tipo de acidente? - No podia imaginar 
nossa imaculada senhoria deixando manchas de sangue secando na soleira da porta, a no ser que uma enorme catstrofe tivesse ocorrido. Imaginei por um instante se 
a sala de visitas no estaria abrigando um assassino ensandecido, preparando-se naquele mesmo instante para saltar sobre ns com um grito arrepiante.
        Frank sacudiu a cabea. Ficou na ponta dos ps para espreitar o jardim do vizinho por cima da cerca viva.
        - Acho que no. H uma mancha igual a essa na entrada da casa dos Collins tambm.
        -  mesmo? - Cheguei mais perto de Frank, tanto para olhar por cima da cerca quanto em busca de apoio moral. As Highlands dificilmente pareceriam um lugar 
provvel para um assassinato em massa, por outro lado eu duvidava que essas pessoas usassem qualquer tipo de critrio lgico ao escolher o local do crime. - Isso 
 um tanto... desagradvel - observei. No havia nenhum sinal de vida na casa ao lado. - O que voc acha que aconteceu?
        Frank franziu a testa, pensando, depois bateu a mo rapidamente na perna da cala, como se tivesse uma sbita inspirao.
        - Acho que sei! Espere um instante. - Partiu em direo ao porto e comeou a descer a rua quase correndo, deixando-me desamparada na entrada da casa.
        Voltou logo depois, radiante com a confirmao.
        - Sim, isso mesmo, tem que ser. Todas as casas deste lado tiveram isso.
        - Isso o qu? A visita de um manaco homicida? - perguntei um pouco rispidamente, ainda nervosa por ter sido bruscamente abandonada sozinha, na companhia 
apenas de uma grande mancha de sangue.
        Frank riu.
        - No, um sacrifcio ritual. Fascinante! - Estava de quatro na grama, examinando atentamente a poa de sangue.
        Aquilo no me parecia nada melhor do que um manaco homicida. Agachei-me ao lado dele, contorcendo o nariz diante do cheiro. Ainda era cedo para moscas, 
mas dois mosquitos das Highlands, grandes e lentos, giravam em torno da mancha.
        - O que quer dizer com "sacrifcio ritual"? - indaguei. - A sra. Baird freqenta a igreja, assim como todos os seus vizinhos. Isso aqui no  o Monte dos 
Druidas ou nada semelhante, no ?
        Levantou-se, limpando os pedacinhos de grama das calas.
        - Voc  que no sabe, meu bem - ele disse. - No h nenhum lugar na Terra com mais magia e supersties antigas influenciando o cotidiano das pessoas do 
que as Highlands. Com ou sem igreja, a sra. Baird acredita nas lendas dos povos antigos, assim como todos os seus vizinhos. -Apontou para a mancha com o bico do 
sapato perfeitamente engraxado. -O sangue  de um galo preto - explicou, satisfeito. - As casas so novas, voc sabe. Pr-fabricadas. Olhei-o friamente.
        - Se voc acha que isso explica tudo, pense melhor. Que diferena faz a idade das casas? E afinal, onde est todo mundo?
        - No pub, eu acho. Vamos at l verificar? - Tomando-me pelo brao, conduziu-me pelo porto e comeamos a descer a Gereside Road.
        - Antigamente - ele explicou conforme andvamos -, e no faz tanto tempo assim, quando uma casa era construda, era costume matar algum e enterr-lo nos 
alicerces, como uma oferenda aos espritos da terra. Sabe, "Ali ele lanar os alicerces em seu primognito e em seu filho mais novo erguer os portes". Antigo 
como os montes.
        Estremeci diante da citao.
        - Nesse caso, suponho que seja bem mais moderno e compreensvel que estejam usando galinhas. Voc quer dizer, j que as casas so relativamente novas, nada 
foi enterrado sob elas e os moradores agora esto tentando remediar a omisso.
        - Exatamente. - Frank parecia satisfeito com meu progresso e deu uns tapinhas nas minhas costas. - Segundo o vigrio, muitos dos habitantes locais acham 
que a guerra foi em parte causada pelo fato de as pessoas estarem abandonando suas razes e deixando de tomar as devidas precaues, como enterrar uma oferenda sob 
os alicerces das casas ou queimar espinhas de peixes na lareira. Exceto hadoques,  claro. Sabia? Ou voc nunca mais pescar um. Ao invs disso, sempre enterre as 
espinhas de um hadoque.
        - Vou me lembrar disso - prometi. - Diga-me o que se deve fazer para nunca mais ver um arenque e eu o farei imediatamente.
        Ele sacudiu a cabea, absorto em um de seus acessos de lembrana, aqueles breves perodos de xtase erudito quando ele perdia o contato com o mundo  sua 
volta, completamente empenhado em evocar conhecimentos de todas as fontes.
        - No sei nada sobre arenques - disse, distrado. - Mas para ratos, penduram-se ramos de choupo tremedor por toda parte. "Choupo treme-dor na casa, e voc 
nunca ver um rato", como se diz. Quanto a corpos nos alicerces...  da que vm muitos dos fantasmas locais. Conhece Mountgerald, a casa grande no final da High 
Street? H um fantasma l, um operrio que trabalhava na construo da casa e foi assassinado em sacrifcio para os alicerces. Em algum momento do sculo XVIII; 
isso, na verdade,  bastante recente - acrescentou, pensativamente.
        - Diz-se que, por ordem do dono da casa, uma parede foi construda primeiro, depois um bloco de pedra foi empurrado de cima da parede sobre um dos operrios. 
Provavelmente algum sujeito de que ningum gostava foi escolhido para o sacrifcio. Ento, ele foi enterrado no poro e o resto da casa foi construdo sobre ele. 
Agora, assombra o poro onde foi assassinado, exceto na data de aniversrio de sua morte e nos quatro Dias Antigos.
        - Dias Antigos?
        - As festividades dos povos antigos da regio - ele explicou, ainda perdido em suas anotaes mentais. - Hogmanay, ou seja, o Ano Novo, o Midsummer Day, 
que  o solstcio de vero, o Beltane, festival da primavera, e o Ali Hallows, que corresponde ao nosso Halloween. Os druidas, os beakers da Idade da Pedra e os 
antigos pictos, todos celebravam as festas dos fogos e as festas do sol, pelo que sabemos. De qualquer modo, os fantasmas esto  solta nos dias sagrados e podem 
ficar vagando por a como quiserem, fazer o bem ou o mal, de acordo com sua vontade. - Esfregou o queixo pensativamente. - Estamos nos aproximando do Beltane, perto 
do equincio da primavera.  melhor ficar de olho da prxima vez que passar pelo ptio da igreja. - Ele pestanejou e eu percebi que sara do transe.
        Dei uma risada.
        - Ento, h muitos fantasmas locais famosos? Deu de ombros.
        - No sei. Vamos perguntar ao vigrio da prxima vez que o virmos? De fato, encontramos o vigrio pouco tempo depois. Estava no pub, juntamente com os demais 
habitantes do vilarejo, tomando uma cerveja leve e clara em comemorao  nova santificao das casas.
        Pareceu um pouco envergonhado ao ser flagrado acobertando atos de paganismo, por assim dizer, mas minimizou o fato como sendo apenas um costume local com 
conotao histrica.
        - Na verdade,  bem fascinante, sabe - confidenciou e reconheci, com um suspiro, o canto de um estudioso, um som to caracterstico quanto o trinado de um 
melro. Atendendo ao chamado de um esprito iluminado, Frank imediatamente entrou na dana de pares da academia e logo estavam mergulhados at o pescoo em arqutipos 
e comparaes entre supersties antigas e religies modernas. Encolhi os ombros e abri meu prprio caminho pela multido at o bar e de volta, com um brandy-and-splash 
em cada mo.
        Sabendo por experincia o quanto era difcil desviar a ateno de Frank desse tipo de discusso, simplesmente peguei sua mo, envolvi seus dedos em torno 
da haste da taa e deixei-o entregue a seus prprios interesses.
        Encontrei a sra. Baird em um banco fundo junto  janela, compartilhando uma amigvel jarra de cerveja preta com um senhor idoso que ela me apresentou como 
o sr. Crook.
        -  o senhor de quem lhe falei, sra. Randall - ela disse, os olhos brilhantes com o estmulo do lcool e da companhia. - O que conhece plantas de todas as 
espcies.
        - A sra. Randall interessa-se muito por plantas - confidenciou ao seu acompanhante, que inclinou a cabea numa mistura de educao e surdez. - Prensa-as 
nos livros e tudo o mais.
        -  mesmo? - perguntou o sr. Crook, o tufo branco de sobrancelha erguido em sinal de interesse. - Tenho algumas prensas, as verdadeiras, veja bem, para ervas 
e similares. Ganhei-as do meu sobrinho, quando veio da universidade passar as frias. Ele as trouxe para mim e no tive coragem de dizer-lhe que nunca uso coisas 
desse tipo. Deix-las penduradas  o melhor para as ervas, sabe, ou talvez sec-las em um estrado, dentro de um saco de gaze ou em um pote, mas por que iria querer 
esmagar as plantinhas at ficarem achatadas eu no fao a menor idia.
        - Bem, para olh-las, talvez - a sra. Baird intercedeu afavelmente. - A sra. Randall fez lindos arranjos com botes de malva e violetas, que se pode emoldurar 
e pendurar na parede.
        - Hum. - Diante dessa sugesto, o rosto sulcado do sr. Crook pareceu estar admitindo uma duvidosa possibilidade. - Bem, se tiverem alguma utilidade para 
a senhora, pode ficar com as prensas, de bom grado. Eu no queria jog-las fora, mas confesso que no tenho nenhuma utilidade para elas.
        Assegurei ao sr. Crook que eu ficaria encantada em usar prensas de plantas e mais encantada ainda se ele me mostrasse onde algumas das plantas mais raras 
da regio poderiam ser encontradas. Fitou-me incisivamente por um instante, a cabea inclinada para o lado como um velho falco, mas finalmente pareceu decidir que 
meu interesse era genuno. Combinamos que eu deveria encontr-lo pela manh para uma excurso aos arbustos locais. Frank, eu sabia, pretendia passar o dia em Inverness 
para consultar uns registros na prefeitura de l e eu fiquei satisfeita de ter uma desculpa para no acompanh-lo. Para mim, os registros eram todos iguais.
        Pouco depois, Frank conseguiu desgrudar-se do vigrio e caminhamos de volta para casa na companhia da sra. Baird. Eu mesma hesitei em mencionar o sangue 
de galo na soleira da porta, mas Frank no sofria de tal acanhamento e interrogou-a avidamente sobre as origens do costume.
        - Suponho, ento, que seja muito antigo, no? - perguntou, agitando uma vara pelos arbustos ao longo da calada. O quenopdio e a cinco-em-rama j estavam 
florescendo e eu podia ver os botes das giestas-das-vassouras avolumando-se; mais uma semana e estariam floridos.
        - Ah, sim. - Gingando, a sra. Baird nos acompanhava a passos rpidos. - Mais velho do que podemos imaginar, sr. Randall. Anterior  poca dos gigantes.
        - Gigantes? - perguntei.
        - Sim. Fionn e Feinn.
        - Contos folclricos galicos - Frank observou com interesse. - Heris, sabe. Provavelmente de origem nrdica. H muita influncia nrdica por aqui e ao 
longo de toda a costa oeste. Alguns nomes dos locais so escandinavos, e no galicos.
        Revirei os olhos, pressentindo uma nova exploso de conhecimento, mas a sra. Baird sorriu cordialmente e encorajou-o, dizendo que era verdade, ela havia 
estado no norte e visto a pedra Dois Irmos e isso era escandinavo, no era?
        - Os escandinavos visitaram essa costa centenas de vezes entre 500 e 1300 d.C, aproximadamente - Frank disse, olhando sonhadoramente para o horizonte, vendo 
barcos normandos na nuvem varrida pelo vento. -Vikings. E trouxeram muitos de seus mitos com eles.  um pas bom para mitos. As coisas parecem criar razes aqui.
        Nisso eu podia acreditar. O crepsculo se aproximava, assim como uma tempestade. Na estranha luz sob as nuvens, at as casas totalmente modernas ao longo 
da rua pareciam to antigas e sinistras quanto a desgastada pedra do povo picto que ficava a uns trinta metros de distncia, guardando a encruzilhada que marcava 
h mil anos. Parecia uma boa noite para ficar em casa com as persianas fechadas.
        Ao invs de permanecer confortavelmente sentada na sala de visitas da sra. Baird, vendo imagens estereoscpicas de Perth Harbor, entretanto, Frank preferiu 
comparecer ao seu compromisso com o sr. Bainbridge, um tabelio com interesse em registros histricos locais, para tomar um xerez. Lembrando-me do encontro anterior 
que tivera com o sr. Bainbridge, resolvi permanecer em casa com Perth Harbor.
        - Procure voltar antes da tempestade - disse a Frank, dando-lhe um beijo de despedida. - E d lembranas minhas ao sr. Bainbridge.
        - Humm, sim. Sim, claro. - Cuidadosamente evitando meus olhos, Frank encolheu os ombros dentro do seu sobretudo e partiu, pegando um guarda-chuva do suporte 
junto  porta.
        Fechei a porta quando ele saiu, mas deixei-a destrancada para que ele pudesse entrar ao voltar. Dirigi-me languidamente de volta  sala de visitas, refletindo 
que Frank iria sem dvida fingir que no tinha mulher. Uma farsa  qual o sr. Bainbridge iria se unir alegremente. No que eu, particularmente, pudesse culp-lo.
        No comeo, tudo correra muito bem em nossa visita  casa do sr. Bainbridge na tarde do dia anterior. Eu me mostrara recatada, bem-educada, inteligente, mas 
modesta, elegante e discretamente vestida - tudo que a mulher perfeita do professor universitrio deveria ser. At o ch ser servido.
        Agora, virei a minha mo direita, examinando, com tristeza, a grande bolha que se estendia pela base dos quatro dedos. Afinal, no era culpa minha que o 
sr. Bainbridge, um vivo, se contentasse com um bule barato de metal, ao invs de um bule adequado de loua. Nem que o tabelio, procurando ser gentil, tivesse me 
pedido para servir o ch. Nem que a luva de panela que ele me deu apresentasse uma parte gasta que permitiu que o cabo em brasa do bule entrasse em contato direto 
com minha mo quando o segurei.
        No, conclu. Deixar cair o bule foi uma reao perfeitamente normal. Deix-lo cair no colo do sr. Bainbridge foi apenas um infeliz acidente; tinha que deix-lo 
cair em algum lugar. Foi minha exclamao "Puta que pariu!" em voz mais alta do que o berro de dor do sr. Bainbridge que fez Frank me olhar enfurecido por cima dos 
pezinhos.
        Quando se recuperou do choque, o sr. Bainbridge mostrou-se muito gentil, examinando minha mo e ignorando as tentativas de Frank de se desculpar pelo meu 
linguajar, alegando que eu servira em um hospital de campanha por quase dois anos.
        - Receio que minha mulher acabou pegando algumas, h, expresses mais pitorescas dos ianques e de outros - Frank sugeriu com um sorriso nervoso.
        -  verdade - eu disse, cerrando os dentes enquanto envolvia minha mo com um guardanapo embebido em gua. - Os homens tendem a ser muito "pitorescos" quando 
se est tirando estilhaos do corpo deles.
        Com muito tato, o sr. Bainbridge tentou desviar a conversa para o campo neutro da histria dizendo que sempre se interessara pelas variaes do que fora 
considerado discurso profano atravs dos tempos. Havia "Gorblimey", por exemplo, uma corruptela recente da imprecao "God blind me".
        - Sim,  claro - disse Frank, aceitando de bom grado o desvio da conversa. - Sem acar, obrigado, Claire. E quanto a "Gadzooks"? A parte "Gad"  perfeitamente 
clara, naturalmente vem de "God", mas "zook"...
        - Bem, sabe - interps o tabelio -, s vezes eu acho que possa ser uma corruptela de uma antiga palavra escocesa, na verdade, "yeuk". Significa "tentao, 
nsia, desejo". Faria sentido, no?
        Frank concordou, balanando a cabea e deixando seu pouco erudito topete cair na frente da testa. Empurrou-o para trs automaticamente.
        - Interessante - disse -, toda a evoluo do sacrilgio.
        - Sim, e continua a acontecer - eu disse, pegando cuidadosamente um cubo de acar com a pina.
        -  mesmo? - disse o sr. Bainbridge. - A senhora encontrou algumas variaes importantes durante a sua, h, experincia na guerra?
        - Ah, sim - eu disse. - A minha favorita eu aprendi com um ianque. Um homem chamado Williamson, de Nova York, eu acho. Ele a dizia toda vez que eu trocava 
seu curativo.
        - E qual era?
        - "Jesus H. Roosevelt Cristo" - eu disse, deixando o cubo de acar cair cuidadosamente no caf de Frank.
        Depois de passar algum tempo na sala com a sra. Baird, numa conversa amena e nada desagradvel, subi para o meu quarto, para aprontar-me antes de Frank chegar. 
Sabia que o limite dele era de duas taas de xerez e, portanto, esperava-o de volta logo.
        O vento comeava a soprar forte e o prprio ar do quarto estava carregado de eletricidade. Passei a escova nos cabelos, fazendo os cachos estalarem com a 
esttica e saltarem, emaranhando-se furiosamente. Meus cabelos teriam que passar sem as cem escovadelas esta noite, decidi. Com as atuais condies do tempo, iria 
apenas escovar os dentes. Fios de cabelo grudavam-se no meu rosto, agarrando-se teimosamente enquanto eu tentava afast-los para trs.
        Nenhuma gua no jarro; Frank a usara, arrumando-se antes de sair para seu encontro com o sr. Bainbridge, e no se dera ao trabalho de ench-lo novamente 
na torneira do banheiro. Peguei o frasco de L'Heure Bleu e despejei uma boa poro na palma da mo. Esfregando rapidamente as mos antes que o perfume se evaporasse, 
passei-as pelos cabelos. Despejei mais um pouco na escova e penteei os cachos para trs das orelhas.
        Bem. Assim estava melhor, pensei, girando a cabea de um lado para o outro para examinar os resultados no espelho manchado. A umidade dissipara a eletricidade 
dos meus cabelos, de modo que eles agora flutuavam em ondas brilhantes e pesadas  volta do meu rosto. O lcool evaporado deixara um perfume muito agradvel no ar. 
Frank iria gostar, pensei. L'Heure Bleu era sua colnia favorita.
        De repente o claro de um relmpago bem prximo, seguido imediatamente pelo estrondo de um trovo, fez com que todas as luzes se apagassem. Praguejando baixinho, 
comecei a tatear dentro das gavetas.
        Em algum lugar, eu vira velas e fsforos; a queda da energia eltrica era uma ocorrncia to freqente nas Highlands que as velas constituam um suprimento 
indispensvel em todos os quartos de hotis e hospedarias. Eu as vira at mesmo nos hotis mais elegantes, onde eram perfumadas com madressilvas e apresentadas em 
castiais de vidro fosco com pingentes brilhantes.
        As velas da sra. Baird eram bem mais utilitrias - velas brancas comuns -, mas havia muitas delas, assim como trs caixas de fsforos. No estava inclinada 
a ser exigente quanto  elegncia num momento como aquele.
        Coloquei uma vela no suporte de cermica azul sobre a penteadeira iluminada pelo relmpago seguinte, depois acendi outras pelo quarto, at que todo o aposento 
fosse tomado por uma luminosidade suave e bruxuleante. Muito romntico, pensei, e com certa presena de esprito desliguei o interruptor, de modo que uma volta repentina 
da luz no estragasse o clima em algum momento inoportuno.
        As velas no haviam queimado mais do que um centmetro quando a porta abriu-se e Frank entrou como um furaco. Literalmente, porque a rajada de vento que 
o seguiu escadas acima apagou trs velas.
        A porta fechou-se atrs dele com uma pancada que apagou mais duas velas. Esforando-se para enxergar na escurido repentina, passou a mo pelos cabelos desalinhados. 
Levantei-me e reacendi as velas, admoestando-o brandamente sobre os modos bruscos de entrar num aposento. Foi somente ao terminar e me virar para perguntar-lhe se 
gostaria de um drinque que vi que ele parecia um pouco plido e perturbado.
        - O que foi? - perguntei. - Viu um fantasma?
        - Bem, sabe - ele disse devagar -, no tenho certeza se no vi. -Distraidamente, ele pegou minha escova e ergueu-a para arrumar seus cabelos. Quando a fragrncia 
repentina de L'Heure Bleu atingiu suas narinas, franziu o nariz e colocou-a de volta sobre a penteadeira, voltando a ateno para o pente que carregava no bolso.
        Olhei pela janela, onde os olmos agitavam-se de um lado para o outro como manguais. Uma persiana aberta batia em algum lugar do outro lado da casa e ocorreu-me 
que talvez devssemos fechar as nossas, embora o alvoroo l fora fosse interessante de observar.
        - Acho que est um pouco tempestuoso para um fantasma - eu disse. - Eles no gostam de noites calmas e enevoadas em cemitrios?
        Frank riu um pouco timidamente.
        - Bem, provavelmente foram apenas as histrias de Bainbridge e um pouco de xerez a mais do que eu deveria ter tomado. Nada de mais.
        Agora eu estava curiosa.
        - O que voc viu exatamente? - perguntei, sentando-me no banquinho da penteadeira. Indiquei a garrafa de usque erguendo uma das sobrancelhas e Frank imediatamente 
foi servir dois drinques.
        - Bem, na verdade, apenas um homem - ele comeou, medindo uma dose para ele e duas para mim. - Parado na rua l fora.
        - O qu? Do lado de fora desta casa? - perguntei com uma risada. -Ento, deve ter sido um fantasma; no posso imaginar ningum parado por a em uma noite 
como essa.
        Frank inclinou o jarro de gua sobre seu copo, depois olhou acusadoramente para mim quando no saiu nenhuma gua.
        - No olhe para mim - eu disse. - Voc usou toda a gua. Mas eu prefiro o usque puro mesmo. - Tomei um gole para demonstrar.
        Frank pareceu inclinado a dar um pulo no lavatrio para pegar gua, mas abandonou a idia e continuou sua histria, tomando pequenos goles cautelosamente, 
como se seu copo contivesse cido sulfrico ao invs do melhor usque Glenfiddich de puro malte.
        - Sim, ele estava na borda do jardim, deste lado, parado junto  cerca. Eu pensei - hesitou, olhando dentro do copo -, achei que ele estava olhando para 
a sua janela.
        - Minha janela? Que extraordinrio! - No pude conter um ligeiro estremecimento e atravessei o quarto para fechar as persianas, embora fosse um pouco tarde 
para isso. Frank seguiu-me, ainda falando.
        - Sim, eu mesmo pude v-la l de baixo. Voc escovava os cabelos e resmungava porque estavam arrepiados.
        - Nesse caso, o sujeito provavelmente estava se divertindo - eu disse, asperamente.
        Frank sacudiu a cabea, embora sorrisse e alisasse meus cabelos.
        - No, ele no estava rindo. Na verdade, ele parecia terrivelmente infeliz com alguma coisa. No que eu tenha podido ver bem seu rosto; foi alguma coisa 
na maneira como estava ali parado. Eu vim por trs dele e, quando ele no se moveu, perguntei educadamente se poderia ajud-lo em alguma coisa. Primeiro, ele agiu 
como se no tivesse me ouvido, e eu achei que talvez no tivesse mesmo, com o barulho do vento, ento repeti o que dissera e estendi a mo para tocar seu ombro, 
chamar sua ateno, sabe. Mas antes que eu pudesse toc-lo, ele girou repentinamente nos calcanhares, passou por mim e comeou a descer a rua.
        - Parece um tanto grosseiro, mas no muito prprio de um fantasma -observei, esvaziando meu copo. - Como ele era?
        - Um sujeito grandalho - Frank disse, franzindo a testa ao se recordar. - E escocs, em trajes completos das Highlands, com a bolsa de plos usada pelos 
escoceses na frente do kilt e um lindo broche de um veado correndo prendendo o xale xadrez. Quis perguntar-lhe onde o tinha conseguido, mas se afastou antes que 
eu tivesse a oportunidade.
        Dirigi-me  escrivaninha e servi outra dose de usque.
        - Bem, no  uma aparncia muito estranha para essa regio, certo? De vez em quando vejo um homem vestido assim na vila.
        - No... - Frank parecia duvidar. - No, no eram suas roupas que pareciam estranhas. Mas quando passou por mim, eu poderia jurar que ele estava suficientemente 
perto para esbarrar na manga do meu casaco, mas no o fez. Fiquei to intrigado que me virei para observ-lo conforme se afastava. Ele desceu a Gereside Road, mas 
quase ao chegar  esquina, ele... desapareceu. Foi quando comecei a sentir um calafrio na espinha.
        - Talvez sua ateno tenha sido desviada por um instante e ele simplesmente tenha mergulhado nas sombras. H muitas rvores no fim da rua.
        - Posso jurar que no tirei os olhos dele nem por um segundo - Frank murmurou. Ergueu os olhos subitamente. - J sei! Lembro-me agora porque eu o achei to 
estranho, embora no tivesse percebido isso na hora.
        - O qu? - Eu estava ficando um pouco cansada do fantasma e queria passar para questes mais interessantes, como a cama.
        - Estava ventando forte, mas as pregas, sabe, do saiote e do xale quadriculados, elas simplesmente no se mexiam, exceto com o movimento de seus passos.
        Fitamo-nos.
        - Bem - eu disse finalmente -, isso  um pouco arrepiante. Frank deu de ombros e sorriu de repente, descartando o assunto.
        - Ao menos, terei alguma coisa para contar ao vigrio da prxima vez que o encontrar. Talvez seja um famoso fantasma local e ele poder me contar sua histria 
sangrenta. - Deu uma olhada em seu relgio. - Mas agora eu diria que  hora de ir para a cama.
        - , sim - murmurei.
        Observei-o pelo espelho, enquanto tirava a camisa e procurava um cabide. De repente, parou enquanto desabotoava a camisa.
        - Voc teve muitos escoceses sob seus cuidados, Claire? - perguntou bruscamente. - No hospital de campanha ou em Pembroke?
        - Claro - respondi, um pouco intrigada. - Havia muitos Seaforth e Cameron na base militar em Amiens e, um pouco mais tarde, depois de Caen, tivemos muitos 
Gordon. Bons sujeitos, na maioria. Muito esticos a respeito de tudo de um modo geral, mas terrivelmente covardes quando se tratava de injees. - Sorri, lembrando-me 
particularmente de um deles.
        - Tivemos um, na verdade um sujeito muito rabugento, um gaiteiro dos Seaforth, que no suportava injeo, especialmente nas ndegas. Passava horas no mais 
terrvel desconforto antes de deixar que algum se aproximasse dele com uma seringa e, mesmo assim, tentava nos fazer dar-lhe a injeo no brao, embora fosse intramuscular. 
- Ri diante da lembrana do cabo Chisholm. - Ele me disse: "Se vou ficar deitado de barriga para baixo, com minha bunda de fora, quero que a garota fique embaixo 
de mim, no atrs de mim com uma agulha!"
        Frank sorriu, mas pareceu um pouco apreensivo, como sempre acontecia com minhas histrias de guerra menos delicadas.
        - No se preocupe - assegurei-lhe, percebendo sua expresso -, no vou contar essa na hora do ch na sala dos professores.
        O sorriso arrefeceu e ele aproximou-se, parando atrs de mim, sentada  penteadeira. Beijou o topo de minha cabea.
        - No se preocupe - disse. - Os professores vo ador-la, quaisquer que sejam as histrias que contar. Hum. Seus cabelos esto com um perfume delicioso.
        - Gosta?
        Em resposta, suas mos deslizaram para a frente por cima dos meus ombros, segurando meus seios na camisola fina. Eu podia ver seu rosto acima do meu no espelho, 
o queixo descansando sobre minha cabea.
        - Gosto de tudo em voc - ele disse com a voz rouca. - Voc fica linda  luz de velas. Seus olhos so como xerez no cristal e sua pele brilha como marfim. 
Uma feiticeira  luz de velas,  o que voc . Talvez eu devesse desligar as lmpadas permanentemente.
        - Fica difcil ler na cama - eu disse, o corao comeando a acelerar.
        - Posso pensar em coisas melhores para fazer na cama - murmurou.
        - Pode mesmo? - eu disse, levantando-me e virando-me para passar os braos em volta de seu pescoo. - Como o qu, por exemplo?
        Algum tempo depois, aconchegados por trs das persianas trancadas, ergui minha cabea dos seus ombros e disse:
        - Por que voc me perguntou aquilo? Se eu tive contato com escoceses, quero dizer, deve saber que tive, h todo tipo de homens nesses hospitais.
        Ele se mexeu e deslizou a mo pelas minhas costas.
        - Hum. Ah, por nada, na verdade.  que, quando vi aquele sujeito l fora, ocorreu-me que pudesse ser - hesitou, apertando-me mais um pouco em seus braos 
-, h, voc sabe, que pudesse ser algum de quem voc cuidou, talvez... talvez tivesse ouvido falar que voc estava aqui e veio ver... algo assim.
        - Nesse caso - eu disse, de modo prtico -, por que ele no entraria e pediria para me ver?
        - Bem - a voz de Frank pareceu muito descontrada -, talvez ele no quisesse dar de cara comigo.
        Ergui-me sobre um dos cotovelos, fitando-o. Havamos deixado uma vela acesa e eu podia v-lo bastante bem. Virara a cabea e olhava distraidamente para a 
cromolitografia do prncipe Carlos Eduardo com a qual a sra. Baird achara apropriado decorar nossa parede.
        Agarrei seu queixo e virei seu rosto para mim. Ele arregalou os olhos, simulando surpresa.
        - Est querendo dizer - indaguei - que o homem que viu l fora era alguma espcie de, de... - hesitei, em busca da palavra certa.
        - Ligao? - sugeriu, solcito.
        - Amorosa de minha parte? - conclu.
        - No, no, claro que no - afirmou de maneira pouco convincente. Retirou minhas mos de seu rosto e tentou me beijar, mas agora foi a minha vez de virar 
o rosto. Contentou-se em puxar-me de volta para deitar a seu lado na cama.
        -  que... - comeou. - Bem, voc sabe, Claire, foram seis anos. E nos vimos apenas trs vezes e apenas por um dia na ltima vez. No seria extraordinrio 
se... quero dizer, todos sabem que mdicos e enfermeiras ficam sob um terrvel estresse durante as emergncias e... bem, eu...  apenas que... bem, eu compreenderia, 
sabe, se alguma coisa, h, de natureza espontnea...
        Interrompi aquela lengalenga desvencilhando-me do seu abrao e saltando para fora da cama.
        - Acha que fui infiel a voc? - indaguei. - Acha? Porque se acha, pode sair deste quarto agora mesmo. Ir embora desta casa! Como ousa insinuar tal coisa? 
- Eu estava furiosa e Frank, sentando-se na cama, estendeu os braos tentando me acalmar.
        - No toque em mim! - retruquei. - Apenas me diga: voc acha, diante do fato de um estranho estar olhando para a minha janela, que eu tenha tido algum caso 
amoroso com um dos meus pacientes?
        Frank levantou-se da cama e envolveu-me em seus braos. Permaneci petrificada como a mulher de Lot, mas ele insistiu, acariciando meus cabelos e esfregando 
meus ombros da maneira que sabia que eu gostava.
        - No, eu no acho nada disso - ele disse com firmeza. Puxou-me para mais junto dele e eu relaxei um pouco, embora no o suficiente para abra-lo.
        Aps um longo tempo, murmurou nos meus cabelos:
        - No, eu sei que voc nunca faria tal coisa. S quis dizer que ainda que tivesse feito... Claire, no faria nenhuma diferena para mim. Eu a amo. Nada do 
que voc tenha feito jamais vai me impedir de am-la. - Tomou meu rosto nas mos - apenas dez centmetros mais alto do que eu, ele podia olhar diretamente dentro 
dos meus olhos sem dificuldade - e disse brandamente: - Me perdoa? - Senti seu hlito quente, ligeiramente perfumado com o travo do Glenfiddich, no meu rosto e seus 
lbios, cheios e convidativos, ficaram perturbadoramente prximos.
        Outro relmpago do lado de fora anunciou o sbito irrompimento da tempestade e uma chuva estrondosa comeou a aoitar o telhado. Devagar, passei os braos 
em torno de sua cintura.
        - "O verdadeiro perdo no  forado" - eu disse -, "mas cai como o suave sereno do cu...
        Frank riu e olhou para cima; as diversas manchas no teto eram um mau agouro para as perspectivas de podermos dormir secos a noite toda.
        - Se esta  uma amostra do seu perdo - ele disse -, detestaria ver a sua vingana.
        A tempestade ecoou como um ataque de morteiros, como se respondesse as suas palavras, e ns dois rimos, descontrados outra vez
        Somente mais tarde, ouvindo sua respirao regular ao meu lado foi que comecei a pensar. Como eu disse, no havia nenhuma prova que implicasse em infidelidade 
de minha parte. De minha parte. Mas seis anos como ele dissera, era um longo tempo.
        
        
        
2 - MONUMENTO DE PEDRAS
        
        O sr. Crook veio me buscar, como combinado, pontualmente s sete horas da manh seguinte.
        - Assim poderemos pegar o sereno nos botes-de-ouro, no , menina? - ele disse, piscando os olhos como um velho galanteador. Veio numa motocicleta, aproximadamente 
da sua prpria idade, para nos transportar ao campo. As prensas de plantas estavam cuidadosamente amarradas s laterais de sua enorme mquina, como pra-choques 
de um rebocador. Foi uma lenta excurso pelo campo tranqilo, ainda mais sossegado em contraste com o ronco estrondoso da moto do sr. Crook, repentinamente silenciada. 
Descobri que o velho senhor realmente possua um grande conhecimento das plantas locais. No s onde elas podiam ser encontradas, mas suas propriedades medicinais 
e a maneira de prepar-las. Lamentei no ter levado um bloco de anotaes para registrar tudo, mas ouvi atentamente a voz entrecortada e procurei gravar as informaes 
na memria, enquanto guardava nossos espcimes nas pesadas prensas.
        Paramos para fazer um lanche ao sop de uma curiosa colina de topo plano. Verde como a maioria de suas vizinhas, com as mesmas salincias e escarpas rochosas, 
tinha algo diferente: um caminho bem usado que subia por um dos flancos e desaparecia bruscamente atrs de um afloramento de granito.
        - O que h l em cima? - perguntei, apontando com um sanduche de presunto. - Parece um local difcil para um piquenique.
        - Ah. - O sr. Crook olhou para a colina. - Essa  a Craigh na Dun, menina. Eu pretendia mostrar-lhe depois do lanche.
        -  mesmo? H alguma coisa especial a respeito desta colina?
        - Ah, sim - ele respondeu, recusando-se a dar maiores detalhes, dizendo meramente que eu veria quando chegasse l.
        Eu tinha algum receio quanto  sua habilidade de subir um caminho to ngreme, mas logo se desvaneceu quando eu me vi arquejante, seguindo em seu rasto. 
Finalmente, o sr. Crook estendeu a mo nodosa e puxou-me para cima da beira do monte.
        - A est. - Fez um gesto amplo com a mo, como se fosse o proprietrio.
        - Ora,  um monumento megaltico! - exclamei, encantada. - Um crculo de pedras em miniatura!
        Por causa da guerra, j fazia vrios anos que eu viajara  plancie de Salisbury, mas Frank e eu visitamos Stonehenge logo depois de casados. Como os outros 
turistas andando maravilhados entre os enormes blocos de pedra verticais do monumento, ficamos boquiabertos diante da Pedra do Altar ("onde os antigos druidas realizavam 
seus terrveis sacrifcios humanos", anunciara o sonoro guia turstico com seu sotaque cockney a um grupo de turistas italianos, que diligentemente tirava fotografias 
do bloco de pedra de aparncia bastante comum).
        Com a mesma paixo pela exatido que fazia com que Frank arrumasse as gravatas no cabide de modo que as pontas ficassem exatamente da mesma altura, percorremos 
at mesmo a circunferncia do crculo, medindo os passos entre os buracos Z e os buracos Y e contando os dintis no Crculo de Sarsen, o anel mais externo das monstruosas 
pedras verticais.
        Trs horas depois, sabamos quantos buracos Y e Z havia (cinqenta e nove, se quer saber; eu no quis), mas continuvamos sem fazer idia da finalidade da 
estrutura, da mesma forma que as dezenas de arquelogos profissionais e amadores que se arrastaram por aquele stio nos ltimos quinhentos anos.
        No por falta de opinies,  claro. A vida entre acadmicos ensinara-me que uma opinio bem expressada em geral  melhor do que um fato mal expressado no 
que diz respeito a progresso profissional.
        Um templo. Um cemitrio. Um observatrio astronmico. Um local de execuo (da o nome inadequado de "Pedra do Massacre", inclinada para o lado, semi-enterrada 
em seu prprio buraco). Um mercado a cu aberto. Gostei dessa ltima sugesto, visualizando donas de casa megalticas caminhando entre os dintis, cestos nos braos, 
analisando o verniz do ltimo carregamento de vasos e cermica vermelha, e ouvindo com ceticismo os proclames de padeiros da idade da pedra e de vendedores de contas 
de mbar e de ps feitas com ossos de cervos.
        A nica coisa que a meu ver contrariava essa hiptese era a presena de corpos sob a Pedra do Altar e restos humanos incinerados nos buracos Z. A menos que 
fossem os desafortunados restos mortais de mercadores acusados de roubar os fregueses no peso, parecia um pouco anti-higinico enterrar pessoas no mercado.
        No havia nenhum sinal de sepultamento no crculo de pedras em miniatura no topo desta colina. Por "miniatura" quero dizer apenas que o crculo de pedras 
verticais era menor do que Stonehenge; ainda assim, cada pedra tinha o dobro da minha altura e propores macias.
        Eu ouvira de outro guia turstico em Stonehenge que esses crculos megalticos ocorrem por toda a Inglaterra e Europa - alguns mais conservados do que outros, 
alguns diferindo ligeiramente na orientao e na forma, todos de finalidade e origem desconhecidas.
        O sr. Crook ficou sorrindo afavelmente, enquanto eu circulava pelas pedras, parando de vez em quando para tocar de leve em uma delas, como se o toque de 
meus dedos pudesse deixar uma impresso nos monumentais blocos de pedra.
        Algumas das lajes verticais eram rajadas, listradas de cores quase imperceptveis. Outras eram pontilhadas de flocos de mica que refletiam a luz do sol matinal 
com um brilho alegre. Todas eram notavelmente diferentes dos amontoados de pedras nativas que se projetavam das samambaias  volta. Quem quer que tenha construdo 
os crculos de pedra, e para que finalidade fosse, achou importante ter extrado, modelado e transportado blocos especiais de pedra para a edificao de seu tributo. 
Modelado - como? Transportado - como e de que distncia inimaginvel?
        - Meu marido ficaria fascinado - eu disse ao sr. Crook, parando para agradecer-lhe por me mostrar o lugar e as plantas. - Vou traz-lo aqui depois para que 
ele o veja.
        O idoso cavalheiro elegantemente me ofereceu o brao no alto da trilha. Aceitei-o, concluindo depois de dar uma olhada na ngreme ribanceira que, apesar 
da idade, ele provavelmente tinha as pernas mais firmes do que as minhas.
        Naquela tarde, desci a rua em direo ao povoado para buscar Frank na casa do vigrio. Inspirava com satisfao aquela estonteante mistura das Highlands 
de urze, slvia e giesta, temperadas aqui e ali por fumaa de chamin e cheiro forte de arenque frito  medida que eu passava pelas poucas casas. A vila ficava aninhada 
em um pequeno declive ao sop de uma daquelas elevadas escarpas que se erguiam quase verticalmente das charnecas das Highlands. As casas junto  rua eram bonitas. 
A prosperidade florescente do ps-guerra podia ser vista at em uma nova pintura e mesmo a propriedade do proco, que devia ter pelo menos cem anos, exibia uma borda 
amarelo-viva em torno dos frouxos caixilhos das janelas.
        A governanta do vigrio atendeu  porta, uma mulher alta e de ar severo, com trs voltas de prolas artificiais no pescoo. Ouvindo quem eu era, pediu que 
eu entrasse e me conduziu por um corredor longo, estreito e escuro, coberto de gravuras em spia de pessoas que podiam ter sido personagens famosos em sua poca 
ou parentes queridos do atual vigrio, mas que tambm podiam muito bem ser membros da famlia real, pelo que pude divisar de suas feies na escurido.
        O gabinete do vigrio, ao contrrio, ofuscava com a luz que entrava pelas enormes janelas que cobriam uma das paredes, praticamente do teto ao cho. Um cavalete 
junto  lareira, ostentando uma pintura a leo inacabada de penhascos negros contra um cu noturno, mostrava a razo das janelas, que devem ter sido acrescentadas 
muito depois da construo da casa.
        Frank e um homem baixo e gorducho, com um colarinho de padre, debruavam-se confortavelmente sobre uma pilha de papis velhos espalhados pela escrivaninha 
do outro lado da sala. Frank mal levantou a cabea para me cumprimentar, mas o vigrio educadamente abandonou suas explicaes e apressou-se a vir apertar minha 
mo, o rosto redondo radiante de prazer.
        - Sra. Randall! - exclamou, sacudindo minha mo entusiasticamente. - Que prazer rev-la! E chegou bem na hora de ouvir as novidades!
        - Novidades? - Lanando um olhar no aspecto encardido e na tipologia dos documentos sobre a Escrivaninha, calculei que as novidades em questo deviam datar 
de 1750. Portanto, no eram exatamente as manchetes do dia.
        - Sim, isso mesmo. Estivemos rastreando um ancestral de seu marido, Jack Randall, atravs dos despachos do exrcito na poca. - O vigrio inclinou-se em 
minha direo, falando pelo canto da boca como um gngster de filme americano. - Eu, h, "peguei emprestado" os despachos originais dos arquivos da Sociedade Histrica 
local. No vai contar para ningum?
        Achando graa, prometi que no revelaria seu terrvel segredo e olhei  minha volta em busca de uma poltrona confortvel onde pudesse receber as ltimas 
revelaes do sculo XVIII. A poltrona mais prxima das janelas pareceu-me adequada, mas quando me aproximei para vir-la para a escrivaninha, descobri que j estava 
ocupada. O ocupante, um garoto com uma surpreendente cabeleira negra e lustrosa, estava enroscado no fundo da poltrona, dormindo profundamente.
        - Roger! - O vigrio, vindo em meu auxlio, estava to surpreso quanto eu. O garoto, acordado de repente, ficou de p num salto, os olhos verdes-musgo arregalados.
        - Ora, o que voc est fazendo aqui, moleque? - O vigrio repreendeu-o afetuosamente. - Ah, adormeceu lendo histrias em quadrinhos outra vez? - Pegou as 
folhas vivamente coloridas e entregou-as ao menino. - Agora, v, Roger, tenho assuntos a tratar com os Randall. Ah, espere, esqueci-me de apresent-lo. Sra. Randall, 
este  meu filho, Roger.
        Fiquei um pouco surpresa. Se houvesse um solteiro inveterado no mundo, eu diria que era o reverendo Wakefield. Ainda assim, segurei a mozinha educadamente 
estendida e apertei-a calorosamente, resistindo  necessidade urgente de limpar na saia um certo resduo pegajoso.
        O reverendo Wakefield ficou olhando afetuosamente o menino sair marchando em direo  cozinha.
        - Filho da minha sobrinha, na verdade - confidenciou. - O pai levou um tiro na travessia do canal e a me foi morta durante um bombardeio, assim eu fiquei 
com ele.
        - Muito generoso de sua parte - murmurei, pensando em tio Lamb. Ele, tambm, morrera durante um bombardeio, em um ataque ao auditrio do Museu Britnico, 
onde dava uma palestra. Conhecendo-o como conhecia, acho que seu ltimo sentimento foi de satisfao pelo fato de a vizinha ala de antiguidades persas no ter sido 
atingida.
        - De modo algum, de modo algum. - O vigrio sacudiu a mo, encabulado. -  bom ter um pouco de juventude na casa. Vamos, sente-se, por favor.
        Frank comeou a falar antes mesmo de eu ter colocado a minha bolsa sobre a poltrona.
        - Uma sorte incrvel, Claire - exclamou, entusiasmado, folheando a pilha j surrada. - O vigrio encontrou toda uma srie de despachos militares que mencionam 
Jonathan Randall.
        - Bem, parece que grande parte da importncia deve-se ao prprio capito Randall - observou o vigrio, pegando alguns papis de Frank. - Ele esteve no comando 
da guarnio em Fort William durante aproximadamente quatro anos, mas parece ter passado grande parte de seu tempo atormentando o interior da Esccia, acima da fronteira, 
em nome da Coroa. Este lote - cuidadosamente, ele separou uma pilha de documentos e espalhou-os sobre a escrivaninha -  de relatrios de queixas apresentadas contra 
o capito por vrias famlias e proprietrios, reclamando de tudo, desde interferncia dos soldados da guarnio com as criadas ao roubo de cavalos, sem mencionar 
diversos casos de "insulto" ou "no especificados".
        No pude deixar de rir.
        - Quer dizer ento que voc tem o proverbial ladro de cavalos em sua rvore genealgica? - perguntei a Frank.
        Ele deu de ombros, sem se perturbar.
        - Ele era o que era e no h nada que eu possa fazer a respeito. S quero descobrir. As queixas no so estranhas, para essa poca especfica; os ingleses 
de um modo geral, e o exrcito em particular, eram bastante impopulares nas Highlands. No, o que  estranho  que parece que nada aconteceu em decorrncia das queixas, 
nem mesmo das mais graves.
        O vigrio, incapaz de se manter quieto por mais tempo, interrompeu.
        - Isso mesmo. No que os oficiais naquela poca tivessem que se pautar pelos mesmos padres modernos; podiam agir praticamente por conta prpria em questes 
de menor importncia. Mas isso  estranho. No  que as queixas tenham sido investigadas e descartadas; elas simplesmente nunca mais so mencionadas. Sabe do que 
eu desconfio, Randall? Seu antepassado devia ter um benfeitor. Algum que podia proteg-lo da censura de seus superiores.
        Frank coou a cabea, estreitando os olhos para os despachos.
        - Talvez tenha razo. No entanto, tinha que ser algum muito poderoso. No topo da hierarquia militar, talvez, ou talvez um membro da nobreza.
        - Sim, ou possivelmente... O vigrio foi interrompido em suas teorias pela entrada da governanta, a sra. Graham.
        - Trouxe um pouco de ch, senhores - anunciou, colocando a bandeja com firmeza no meio da escrivaninha, de onde o vigrio resgatou os preciosos despachos 
no momento exato. Ela me examinou de cima a baixo com um olhar perspicaz, avaliando os braos e pernas nervosamente contrados e o olhar ligeiramente vitrificado.
        - S trouxe duas xcaras, porque pensei que talvez a sra. Randall quisesse acompanhar-me  cozinha. Tenho um pouco de... No esperei pela concluso de seu 
convite e levantei-me prontamente. Pude ouvir as teorias irrompendo outra vez s minhas costas enquanto atravessvamos a porta de vaivm que levava  cozinha.
        O ch era verde, quente e perfumado, com pedaos de folhas dando voltas no lquido.
        - Mirim - eu disse, abaixando a xcara. - H muito tempo que no tomo Dolong.
        A sra. Graham balanou a cabea, radiante com o meu prazer em sua bebida. Ela certamente se esmerara, colocando paninhos de renda bordados  mo sob as xcaras 
de fina porcelana e oferecendo creme espesso e coalhado acompanhando os pezinhos.
        - Sim, eu no o conseguia durante a guerra. No entanto,  o melhor para a leitura. Tive muita dificuldade com o Earl Grey. As folhas despedaam-se to depressa 
que fica difcil ler qualquer coisa nelas.
        - Ah, a senhora l folhas de ch? - perguntei, achando engraado. Nada poderia estar mais distante da concepo popular de uma adivinha cigana do que a sra. 
Graham, com seu permanente curto e cinza e seu colar de prolas de trs voltas. Um gole de ch percorreu visivelmente o pescoo longo e vigoroso e desapareceu sob 
as contas reluzentes.
        - Ora, certamente, minha querida. Assim como minha av me ensinou e a av dela antes dela. Esvazie sua xcara e eu verei o que tem a.
        Ficou em silncio por um longo tempo, de vez em quando inclinando a xcara para ilumin-la melhor ou girando-a lentamente nas palmas magras para obter um 
ngulo diferente.
        Colocou a xcara de volta no pires cuidadosamente, como se receasse que fosse explodir no seu rosto. As linhas em torno de sua boca aprofundaram-se e as 
sobrancelhas uniram-se numa expresso intrigada.
        - Bem - disse, finalmente. - Essa  uma das mais estranhas que j vi.
        -  mesmo? - Eu ainda achava graa, mas comecei a ficar curiosa. -Vou conhecer um estranho alto e moreno ou fazer uma viagem atravs do oceano?
        - Poderia ser. - A sra. Graham percebeu o tom irnico em minha voz e repetiu-o, sorrindo ligeiramente. - E poderia no ser. Isso  que  estranho sobre sua 
xcara, minha querida. Tudo nela  contraditrio. H a folha curvada para uma viagem, mas est cruzada pela folha quebrada que significa permanecer no lugar. E h 
estranhos, sem dvida, vrios deles. E um deles  o seu marido, se eu li as folhas direito.
        Meu ar zombeteiro se dissipou um pouco. Aps seis anos separados e seis meses juntos, meu marido de certa forma era realmente um estranho. Embora eu no 
conseguisse ver como uma folha de ch pudesse saber disso.
        A sra. Graham continuava com a testa franzida.
        - Deixe-me ver sua mo, minha filha - ela disse.
        A mo que segurou a minha era ossuda, mas surpreendentemente aquecida. Uma fragrncia de alfazema emanava da cabea grisalha e bem arrumada que se inclinava 
sobre a palma da minha mo. Examinou minha mo cuidadosamente por um longo tempo, de vez em quando traando uma das linhas com o dedo, como se seguisse um mapa cujas 
estradas acabassem todas nas guas de uma costa arenosa ou em terras ermas e desertas.
        - Bem, o que diz a? - perguntei, tentando manter um ar despreocupado. - Ou o meu destino  horrvel demais para ser revelado?
        A sra. Graham ergueu os olhos inquiridores e fitou o meu rosto pensativamente, mas continuou segurando a minha mo. Sacudiu a cabea, enrugando os lbios.
        - Ah, no, minha querida. No  o destino que est em sua mo. Apenas a semente dele. - Inclinou a cabea para um lado, considerando o que dizia. - Como 
sabe, as linhas da mo vo mudando ao longo do tempo. Em outro momento de sua vida, elas podem ser bastante diferentes do que so agora.
        - No sabia disso. Pensei que a gente nascia com elas e pronto. - Eu reprimia uma vontade premente de retirar minha mo. - Nesse caso, de que adianta a leitura 
da mo? - No queria parecer mal-educada, mas estava achando aquele escrutnio um pouco desconcertante, especialmente depois da leitura das folhas de ch. A sra. 
Graham sorriu inesperadamente e fechou os meus dedos sobre a palma da minha mo.
        - Ora, as linhas de sua mo mostram quem voc , querida.  por isso que mudam, ou deveriam mudar. Em algumas pessoas, no mudam; naquelas suficientemente 
infelizes para nunca mudarem interiormente, mas so poucas assim. - Apertou minha mo dobrada e deu-lhe um tapinha. - Duvido que voc seja uma delas. Sua mo j 
demonstra mudanas demais para algum to jovem. Deve ser por causa da guerra,  claro - disse, como se falasse para si mesma.
        Fiquei novamente curiosa e abri minha mo voluntariamente.
        - O que sou, ento, segundo a palma de minha mo?
        A sra. Graham franziu o cenho, mas no segurou minha mo outra vez.
        - No sei dizer.  estranho, porque a maioria das mos tem semelhanas. Veja bem, no estou querendo dizer que se voc viu uma, viu todas, mas em geral  
assim. H padres, sabe? - Sorriu repentinamente, um riso estranhamente simptico, exibindo dentes muito brancos e evidentemente postios.
        -  assim que uma adivinha funciona. Fao isso para a quermesse da igreja todos os anos. Ou fazia, antes da guerra; acho que voltarei a fazer, agora. Mas 
uma jovem entra na tenda e l estou eu, ostentando um turbante com uma pena de pavo que peo emprestada ao sr. Donaldson e "trajes de esplendor oriental", que  
o roupo do vigrio, repleto de desenhos de pavo e amarelo como o sol. De qualquer forma, eu a examino de cima a baixo enquanto finjo estar olhando sua mo e vejo 
que usa uma blusa decotada quase at o umbigo, um perfume barato e brincos que vo at o pescoo. No preciso de uma bola de cristal para lhe dizer que ter um filho 
antes da festa do ano que vem. - A sra. Graham fez uma pausa, os olhos cinzas acesos de malcia. - Mas se a mo que voc estiver segurando estiver sem anis,  diplomtico 
prever primeiro que ela se casar em breve.
        Eu ri e ela tambm.
        - Ento, a senhora no analisa as mos delas? - perguntei. - S para verificar os anis?
        Ela pareceu surpresa.
        - Ah, claro que examino.  que voc j sabe com antecedncia o que vai ver. Geralmente. - Fez um sinal com a cabea indicando minha mo aberta. - Mas nunca 
vi um padro assim antes. O polegar grande - nesse momento, ela realmente inclinou-se para a frente e tocou-o de leve -, isso no mudaria muito. Significa que voc 
tem fora de vontade e uma determinao que dificilmente pode ser contrariada. - Piscou os olhos para mim. - Imagino que seu marido j tenha lhe dito isso. Da mesma 
forma, isso aqui. - Apontou para o montinho carnudo na base do polegar.
        - O que ?
        - Chama-se Monte de Vnus. - Comprimiu os lbios finos com fora, embora no conseguisse impedir os cantos de se elevarem. - Em um homem, eu diria que significa 
que ele gosta de mulheres. Para uma mulher,  um pouco diferente. Para ser delicada a respeito, farei uma pequena previso para voc e direi que seu marido provavelmente 
no se afastar muito de sua cama. - Deu uma risadinha surpreendentemente profunda e imoral e eu fiquei levemente corada.
        A idosa governanta examinou minha mo cuidadosamente outra vez, batendo com o dedo em riste aqui e ali para enfatizar suas palavras.
        - Bem, vejamos, uma linha da vida bem definida; est com boa sade e  provvel que permanea assim. A linha da vida est interrompida, significando que 
sua vida sofreu uma grande mudana. Bem, isso  verdade para todos ns, no ? Mas a sua  mais retalhada do que eu normalmente vejo; toda em pedacinhos. E a sua 
linha do casamento - sacudiu a cabea outra vez -  dividida; no  incomum, significa dois casamentos...
        Minha reao foi de descrena, que reprimi imediatamente, mas ela percebeu e no mesmo instante ergueu o olhar. Achei que ela devia ser uma adivinha muito 
perspicaz. A cabea grisalha balanou em minha direo, procurando tranqilizar-me.
        - No, no, menina. No significa que v acontecer alguma coisa com seu marido.  que, se acontecesse - e ela enfatizou o "se" apertando ligeiramente a minha 
mo -, voc no seria do tipo que iria definhar e ficar de luto o resto de sua vida. O que significa  que voc  uma dessas pessoas capazes de amar novamente se 
perder seu primeiro amor.
        Apertou os olhos mopes para a minha mo, percorrendo delicadamente, com uma unha dura e pontuda, a minha profunda linha do casamento.
        - Mas a maioria das linhas do casamento  interrompida, a sua bifurca-se. - Ergueu os olhos com um sorriso brincalho. - Certamente voc no  uma bgama 
em segredo, no ?
        Sacudi a cabea, rindo.
        - No. Quando teria tempo para isso? - Em seguida, virei a mo, mostrando a borda externa.
        - Ouvi dizer que pequenas marcas no lado da mo indicam quantos filhos voc vai ter? - Esperava ter falado em tom casual. O decepcionante lado externo da 
minha palma era completamente liso. A sra. Graham sacudiu a mo desdenhando a idia.
        - Que nada! Depois de ter um ou dois filhos, vai ter linhas a. Mais provavelmente vai t-las no rosto. No prova nada de antemo.
        - Ah, no? - Fiquei tolamente aliviada de ouvir aquilo. Estava prestes a perguntar se as linhas profundas na base do meu pulso significavam alguma coisa 
(um potencial para o suicdio?), quando fomos interrompidas nesse ponto pelo reverendo Wakefield, que entrou na cozinha carregando as xcaras vazias. Colocou-as 
na pia e comeou uma busca desajeitada e espalhafatosa no armrio, obviamente na esperana de que algum fosse ajud-lo.
        A sra. Graham ps-se de p num salto para defender a santidade de sua cozinha e, empurrando o reverendo habilmente para o lado, comeou a reunir acompanhamentos 
de ch na bandeja para levar ao gabinete. Ele me puxou para o lado, fora do caminho.
        - Por que no vem ao gabinete tomar outra xcara de ch comigo e com seu marido, sra. Randall? Fizemos uma descoberta extremamente gratificante.
        Pude notar que, apesar do aparente comedimento externo, ele estava esfuziante de alegria com o que quer que tivessem descoberto, como um garotinho com um 
sapo no bolso. Obviamente, eu teria que ir ler o rol de roupas sujas do capito Jonathan Randall, o recibo do conserto das botas ou algum outro documento igualmente 
fascinante.
        Frank estava to absorvido com os papis corrodos que mal ergueu os olhos quando entrei no gabinete. Entregou-os relutantemente nas mos gorduchas do vigrio 
e deu a volta para ficar de p atrs do reverendo Wakefield e espreitar por cima de seu ombro, como se no pudesse suportar que os papis ficassem fora de sua vista 
nem por um instante.
        - Sim? - eu disse educadamente, manuseando os pedaos de papis encardidos. - Hummm, sim, muito interessante. - Na realidade, a floreada caligrafia manuscrita 
estava to desgastada e era to rebuscada que no parecia valer a pena decifr-la. Uma folha, mais bem preservada do que o resto, ostentava uma espcie de timbre 
no topo.
        - O duque de... Sandringham, no ? - perguntei, analisando atentamente o timbre, com a figura desbotada de um leopardo deitado e as letras impressas embaixo, 
mais ntidas do que o texto manuscrito.
        - Sim, isso mesmo - disse o vigrio, ainda mais radiante. - Um ttulo agora j extinto, como sabe.
        Eu no sabia, mas confirmei inteligentemente com um aceno da cabea, conhecendo como eu conhecia os historiadores no af desvairado da descoberta. Raramente 
era necessrio mais do que balanar a cabea de vez em quando, exclamando "Ah,  mesmo?" ou "Absolutamente fascinante!" a intervalos apropriados.
        Aps uma certa dose de troca de deferncias entre Frank e o vigrio, o ltimo ganhou a honra de me contar a respeito da descoberta. Evidentemente, toda aquela 
papelada velha indicava que o antepassado de Frank, o famoso Black Jack Randall, no fora apenas um valente soldado da coroa, mas um agente de confiana - e secreto 
- do duque de Sandringham.
        - Quase um agente provocador, no diria, sr. Randall? - O vigrio elegantemente passou a bola de volta para Frank, que no perdeu a oportunidade.
        - Sim,  verdade. A linguagem  muito velada,  claro... - Virou as pginas delicadamente com o indicador bem limpo.
        - Ah,  mesmo? - exclamei.
        - Mas parece, por esses documentos, que Jonathan Randall foi incumbido da tarefa de trazer  luz sentimentos jacobitas, se existia algum, entre as proeminentes 
famlias escocesas de sua rea. O objetivo era eliminar qualquer baronete e chefe de cl que pudesse estar abrigando simpatias secretas nessa direo. Mas isso  
estranho. O prprio Sandringham no era suspeito de ser um jacobita? - Frank virou-se para o vigrio com o cenho franzido numa expresso inquiridora. A cabea lisa 
e careca do vigrio enrugou-se numa expresso idntica.
        - Ora, sim, acho que tem razo. Mas espere, vamos verificar no Cameron. - Deu um salto em direo s prateleiras de livros, abarrotadas de volumes com capa 
de couro. - Certamente ele menciona Sandringham.
        - Absolutamente fascinante - murmurei, deixando minha ateno desviar-se para a enorme placa de cortia que revestia uma das paredes do gabinete, do cho 
ao teto.
        Estava coberta com uma impressionante diversidade de objetos; a maioria papis de algum tipo, contas de gs, correspondncias, avisos do Conselho Diocesano, 
pginas soltas de romances, bilhetes de prprio punho do vigrio, mas tambm pequenos itens como chaves, tampas de garrafas e o que pareciam pequenas peas de carro, 
presas com tachas e barbante.
        Dei uma olhada lnguida pela miscelnea, mantendo um dos ouvidos sintonizado na discusso que transcorria atrs de mim. (O duque de Sandringham provavelmente 
foi um jacobita, concluram.) Minha ateno foi atrada por um mapa genealgico, pregado com cuidado especial,  parte, com quatro tachas, uma em cada canto. O topo 
do mapa inclua nomes datados do comeo do sculo XVII. Mas foi o nome na parte inferior do mapa que chamou minha ateno: "Roger W. (MacKenzie) Wakefield".
        - Desculpe-me - eu disse, interrompendo uma discusso final se o leopardo no timbre do duque tinha um lrio na pata, ou seria um aafro? -Essa  a rvore 
genealgica de seu filho?
        - Hein? Ah, sim, , sim. - Tendo a ateno desviada, o vigrio aproximou-se s pressas, mais uma vez radiante. Desprendeu cuidadosamente o mapa da parede 
e colocou-o na mesa  sua frente.
        - No queria que ele esquecesse a prpria famlia - explicou. -  uma linhagem muito antiga, do sculo XVI. - O dedo indicador grosso e curto traou a linha 
de descendncia quase reverentemente.
        - Dei-lhe meu prprio nome porque me pareceu mais adequado, j que ele vive aqui, mas no queria que esquecesse suas origens. - Deu um sorriso contrafeito. 
- Receio que minha prpria famlia no seja nada de se orgulhar, em termos de genealogia. Vigrios e curas, com um ou outro livreiro para variar, e s pode ser rastreada 
at 1762. Registros bastantes falhos, sabe - disse, abanando a cabea pesarosamente diante da letargia de seus antepassados.
        J estava ficando tarde quando finalmente deixamos a residncia do vigrio, que prometeu levar as cartas para a cidade para copi-las logo de manh cedo. 
Frank foi tagarelando alegremente sobre espies e jacobitas durante a maior parte do caminho de volta  pousada da sra. Baird. Finalmente, entretanto, ele notou 
meu silncio.
        - O que foi, amor? - perguntou, segurando meu brao atenciosamente. - No est se sentindo bem? - A pergunta foi feita num tom misto de preocupao e esperana.
        - No, estou perfeitamente bem. S estava pensando... - hesitei, porque j havamos discutido a questo anteriormente. - Estava pensando em Roger.
        - Roger?
        Fiz um gesto de impacincia.
        - Realmente, Frank! Como pode ser to... desligado?! Roger, o filho do reverendo Wakefield.
        - Ah. Sim,  claro - disse vagamente. - Uma criana adorvel. O que tem ele?
        - Bem...  que existem muitas crianas como ele. rfos. Lanou-me um olhar penetrante e sacudiu a cabea.
        - No, Claire. Realmente, eu gostaria, mas j lhe disse como eu me sinto a respeito de adoo.  que... eu no iria me sentir bem em relao a uma criana 
que no ... bem, do meu prprio sangue. Sei que isso  ridculo e egosta da minha parte, mas  assim que eu me sinto. Talvez mude de idia com o tempo, mas agora... 
- Andamos alguns passos num silncio pesado. De repente, ele parou e virou-se para mim, tomando minhas mos.
        - Claire - disse com voz rouca -, eu quero o nosso filho. Voc  a coisa mais importante do mundo para mim. Quero que seja feliz, acima de tudo, mas quero... 
bem, quero voc para mim. Receio que uma criana de fora, com quem no temos nenhum relacionamento verdadeiro, venha a ser um intruso e eu me ressentiria disso. 
Mas poder lhe dar um filho, v-lo crescer em voc, v-lo nascer... eu sentiria como se fosse mais uma... extenso de voc, talvez. E de mim. Uma parte verdadeira 
da famlia. - Seus olhos estavam arregalados, suplicantes.
        - Sim, tudo bem. Eu compreendo. - Estava disposta a abandonar o assunto, por enquanto. Virei-me para continuar andando, mas ele tomou-me em seus braos.
        - Claire. Eu a amo. - A ternura em sua voz era irresistvel e apoiei minha cabea em seu casaco, sentindo seu calor e a fora de seus braos  minha volta.
        - Eu tambm o amo. - Ficamos ali abraados por alguns instantes, balanando ligeiramente ao vento que varria a rua. De repente, Frank recuou um pouco, sorrindo 
para mim.
        - Alm disso - disse num sussurro, alisando meus cabelos revoltos pelo vento -, ns ainda no desistimos, no ?
        Devolvi o sorriso. -No.
        Tomou minha mo, enfiando-a carinhosamente na dobra do brao, e voltamo-nos na direo de nossa hospedaria.
        - Pronta para nova tentativa?
        - Sim. Por que no? - Caminhamos a passos largos, de mos dadas, em direo  Gereside Road. Foi a viso de Baragh Mhor, a pedra do povo picto que se ergue 
na esquina dessa rua, que me fez lembrar de outro monumento antigo.
        - Eu me esqueci! - exclamei. - Tenho algo impressionante para lhe mostrar. - Frank abaixou os olhos para mim e puxou-me mais para junto de si. Apertou minha 
mo.
        - Eu tambm - disse, rindo. - Voc pode me mostrar o seu amanh.
        Quando o amanh chegou, tnhamos outras coisas para fazer. Eu me esquecera que havamos planejado uma viagem de um dia ao Great Glen, o extenso vale do lago 
Ness.
        Era uma longa viagem atravs do vale e samos bem cedo, antes do nascer do sol. Depois da corrida no amanhecer gelado para o carro que nos aguardava, era 
reconfortante relaxar sob a manta que cobria nossas pernas e sentir o calor retornando aos ps e s mos. Com ele, veio uma deliciosa sonolncia e senti-me adormecer 
tranqilamente no ombro de Frank, sendo a minha ltima viso consciente a cabea do motorista em silhueta contra o cu vermelho da aurora.
        J passava das nove horas quando chegamos e o guia que Frank contratara aguardava-nos na beira do lago com um pequeno barco.
        - Se estiver de acordo, senhor, pensei em darmos uma pequena volta no lago at o Castelo Urquhart. Talvez possamos fazer um lanche l, antes de continuar. 
- O guia, um homenzinho austero, vestindo uma camisa de algodo e calas de sarja surradas, guardou um cesto de piquenique cuidadosamente sob o banco e ofereceu-me 
a mo calejada para me ajudar a descer para o fundo do barco.
        Era um lindo dia, com a florescente vegetao das margens ngremes refletindo nebulosamente na superfcie ondulada do lago. Nosso guia, apesar do ar severo, 
era comunicativo e conhecedor, apontando ilhas, castelos e runas que ladeavam o lago longo e estreito.
        - L, aquele  o Castelo Urquhart. - Apontou para uma muralha lisa de pedra, mal visvel entre as rvores. - Ou o que restou dele. Foi amaldioado pelas 
bruxas do vale e viu uma desgraa atrs da outra.
        Contou-nos a histria de Mary Grant, filha do senhor do Castelo Urquhart, e de seu amante, Donald Donn, poeta e filho de MacDonald de Bohuntin. Proibidos 
de se encontrar por causa da objeo do pai dela aos hbitos de Donald de "surrupiar" qualquer cabea de gado que encontrasse (uma profisso antiga e honrada das 
Highlands, segundo nos assegurou o guia), eles se encontravam mesmo assim. O pai ficou sabendo, Donald foi atrado para um falso local de encontro e assim capturado. 
Condenado  morte, suplicou para ser decapitado como um cavaleiro, ao invs de enforcado como um criminoso. Seu pedido foi atendido e o jovem dirigiu-se ao cadafalso 
repetindo "O Diabo se apossar do Senhor de Grant e Donald Donn no ser enforcado". No foi e a lenda diz que, quando sua cabea decapitada rolou do cadafalso, 
ela falou, dizendo: "Mary, levante minha cabea."
        Estremeci e Frank passou o brao ao meu redor.
        - Resta um trecho de um de seus poemas - disse serenamente. - De Donald Donn. Diz o seguinte:
        "Amanh deverei estar numa colina, sem a cabea. No tem compaixo de minha triste donzela, Minha Mary, de cabelos louros galhos meigos?"
        Segurei sua mo e apertei-a de leve.
         medida que as histrias de traio, assassinato e violncia eram recontadas, parecia que o lago fazia jus  sua sinistra reputao.
        - E o monstro? - perguntei, espreitando pela beirada do barco as profundezas sombrias. Parecia perfeitamente adequado quele cenrio.
        Nosso guia deu de ombros e cuspiu na gua.
        - Bem, o lago  estranho, quanto a isso no resta dvida. H histrias,  verdade, de algo antigo e maligno que um dia viveu nas profundezas do lago. Sacrifcios 
foram feitos a ele. Vacas, e s vezes at mesmo criancinhas, lanadas s guas em cestos de vime. - Cuspiu outra vez. - E alguns dizem que o lago no tem fundo. 
Tem um buraco no centro mais profundo do que qualquer outro na Esccia. Por outro lado - os olhos enrugados do guia enrugaram-se um pouco mais -, houve uma famlia 
aqui de Lan-cashire h alguns anos que foi correndo  delegacia em Invermoriston, gritando que havia visto o monstro sair da gua e esconder-se no meio das samambaias. 
Disseram que era uma terrvel criatura, coberta de plos vermelhos e chifres assustadores, e mastigava alguma coisa, com o sangue escorrendo da boca. - Ergueu uma 
das mos, estancando minha exclamao horrorizada.
        - O policial que mandaram para investigar voltou e disse que, bem, exceto pelo sangue gotejante, era uma descrio bem precisa - fez uma pausa para causar 
impacto -, de uma bela vaca das Highlands, ruminando nas samambaias!
        Seguimos de barco at a metade do lago antes de desembarcar para um lanche tardio. Encontramos o carro l e voltamos nele pelo vale, no vendo nada mais 
sinistro do que uma raposa vermelha na estrada, que nos olhou espantada, com um pequeno animal pendendo frouxamente de suas mandbulas, quando viramos uma curva 
em grande velocidade. Ela saltou para a beira da estrada e fugiu, rpida como uma sombra.
        Era bem tarde quando finalmente cambaleamos pelo caminho de entrada da pousada, mas permanecemos agarrados um ao outro na soleira da porta enquanto Frank 
tateava os bolsos em busca da chave, ainda rindo dos acontecimentos do dia.
        Somente quando j nos despamos para ir dormir  que eu me lembrei de mencionar o crculo de pedras em miniatura, em Craigh na Dun. Seu cansao desapareceu 
instantaneamente.
        - Verdade? E voc sabe onde fica? Que maravilha, Claire! - Ficou exultante e comeou a remexer em sua mala.
        - O que est procurando?
        - O despertador - respondeu, retirando-o.
        - Para qu? - perguntei, espantada.
        - Quero me levantar bem cedo para v-las.
        - Quem?
        - As bruxas.
        - Bruxas? Quem lhe disse que h bruxas?
        - O vigrio - Frank respondeu, claramente divertindo-se com a histria. - A governanta dele  uma das bruxas.
        Pensei na digna sra. Graham e torci o nariz com ar zombeteiro.
        - No seja ridculo!
        - Bem, na verdade, no so bruxas. Tem havido bruxas por toda a Esccia h centenas de anos. Eram queimadas at quase o limiar do sculo XIX. Mas este grupo 
na verdade pretende ser de druidisas ou algo parecido. No creio que seja realmente um congresso de bruxas, quero dizer, no so adoradoras do diabo. Mas o vigrio 
disse que h um grupo local que ainda observa rituais nos dias das antigas festas do sol. Ele no pode se dar ao luxo de se interessar muito em tais acontecimentos, 
sabe, por causa de sua posio, mas tambm  um homem curioso demais para ignor-los completamente. Ele no sabia onde as cerimnias eram realizadas, mas se h um 
crculo de pedras prximo, deve ser l. - Esfregou as mos na expectativa. - Que sorte!
        Acordar uma vez no escuro para aventurar-se num passeio j  uma travessura. Duas vezes em dois dias cheira a masoquismo.
        Desta vez, nem sequer um bom carro aquecido com mantas e garrafas trmicas. Segui Frank aos tropees pela colina acima, dando topadas em razes e pedras. 
Estava frio e enevoado, e enfiei as mos mais fundo nos bolsos do meu cardig.
        Um ltimo impulso no topo da colina e o monumento megaltico estava diante de ns, os blocos de pedra quase invisveis na meia-luz que antecedia o alvorecer. 
Frank parou, imvel, fascinado, admirando, enquanto eu me deixava cair sobre uma rocha convenientemente situada, arfando.
        - Lindo - ele murmurou. Deslizou silenciosamente at a borda externa do crculo, a figura indistinta desaparecendo entre os vultos maiores das pedras. Lindas 
elas eram e muito estranhas tambm. Estremeci e no inteiramente por causa do frio. Se quem quer que as tenha erguido tinha a inteno de impressionar, sabia o que 
estava fazendo.
        Frank voltou em um instante.
        - Ningum aqui ainda - sussurrou de repente por trs de mim, fazendo-me dar um salto. - Venha, encontrei um lugar de onde podemos observar.
        A luz comeava a subir do leste, apenas um matiz de cinza-claro no horizonte, mas o suficiente para impedir que eu tropeasse enquanto Frank me conduzia 
por uma trilha que encontrara em alguns arbustos de amieiro perto do alto da trilha. Havia uma pequena clareira dentro do amontoado de arbustos, apenas o suficiente 
para ficarmos de p, ombro a ombro. No entanto, a trilha era perfeitamente visvel, assim como o interior do crculo de pedras, a no mais do que seis metros de 
distncia. No pela primeira vez, eu me perguntava que tipo de trabalho Frank realizara durante a guerra. Ele sem dvida parecia saber deslocar-se silenciosamente 
no escuro.
        Sonolenta como estava, s queria enroscar-me sob um arbusto aconchegante e voltar a dormir. Entretanto, no havia lugar para isso e, assim, continuei de 
p, espreitando a trilha ngreme em busca das druidisas que estavam para chegar. Estava ficando com torcicolo e meus ps doam, mas no deveria demorar muito mais; 
o fio de luz a leste tornara-se rosa-claro e calculei que deveria faltar menos de meia hora para o raiar do dia.
        A primeira locomovia-se quase to silenciosamente quanto Frank. Ouviu-se apenas um leve farfalhar quando seus ps deslocaram um cascalho perto do topo da 
colina e, em seguida, a cabea grisalha bem penteada surgiu silenciosamente no campo de viso. A sra. Graham. Ento, era verdade. A governanta do vigrio estava 
adequadamente vestida com uma saia de tweed e um casaco de l, carregando uma trouxa branca embaixo do brao. Desapareceu atrs de uma das pedras verticais, silenciosa 
como um fantasma.
        Elas chegaram bem rapidamente depois disso, sozinhas, em duas ou em trs, com risinhos e sussurros contidos ao longo da trilha, mas que eram rapidamente 
silenciados quando avistavam o crculo.
        Reconheci algumas delas. L vinha a sra. Buchanan, a agente dos correios da vila, cabelos louros recentemente ondulados com permanente e o aroma de Evening 
in Paris desprendendo-se fortemente das ondas de seus cabelos. Reprimi o riso. Ento era assim uma druidisa moderna!
        Eram quinze ao todo, todas mulheres, variando em idade dos sessenta anos da sra. Graham a uma jovem de vinte poucos anos, que eu vira empurrando um carrinho 
de beb pelas lojas h dois dias. Todas estavam vestidas para uma caminhada difcil, com trouxas embaixo do brao. Com um mnimo de conversa, desapareceram atrs 
das pedras ou de arbustos, emergindo de mos vazias e braos nus, completamente vestidas de branco. Senti o aroma de sabo em p quando uma delas roou nosso aglomerado 
de arbustos e reconheci os trajes como lenis, enrolados em torno do corpo e amarrados em um dos ombros.
        Reuniram-se fora do anel de pedras, em uma fila da mais velha para a mais nova, e ficaram paradas em silncio,  espera. A luz no leste tornou-se mais forte.
        Quando o sol comeou a subir lentamente no horizonte, a fila de mulheres moveu-se, caminhando devagar entre duas das pedras. A lder levou-as diretamente 
para o centro do crculo e comearam a dar voltas, ainda movendo-se lentamente, majestosas como cisnes em uma procisso circular.
        De repente, a lder parou, ergueu os braos e deu um passo para o centro do crculo. Erguendo o rosto para o par de pedras mais a leste, deu um brado com 
voz forte. No foi um grito, mas foi suficientemente claro para ser ouvido em todo o crculo. A nvoa imvel captou as palavras e as fez ecoar, como se viessem de 
toda a volta, das prprias pedras.
        Qualquer que tenha sido o brado, foi repetido pelas danarinas. Porque agora eram danarinas. Sem se tocar, mas mantendo os braos estendidos em direo 
umas das outras, elas balanavam-se e ziguezagueavam, ainda movendo-se em crculos. De repente, o crculo se dividiu ao meio. Sete das danarinas passaram a se mover 
no sentido horrio, ainda num movimento circular. As outras se moviam na direo oposta. Os dois semicrculos passavam um pelo outro a velocidades cada vez maiores, 
s vezes formando um crculo completo, s vezes uma linha dupla. E no centro, a lder mantinha-se imvel, repetindo de vez em quando aquele brado triste e agudo, 
em uma lngua h muito desaparecida.
        Deveriam parecer ridculas e talvez fossem. Um bando de mulheres enroladas em lenis, muitas delas corpulentas e desajeitadas, desfilando em crculos no 
cume de uma colina. Mas os cabelos de minha nuca ficavam em p ao som daquele grito.
        Pararam todas ao mesmo tempo e voltaram-se de frente para o sol, formando dois semicrculos, com um caminho perfeitamente definido entre as duas metades 
do crculo assim formado. Conforme o sol subia no horizonte, sua luz flua entre as pedras do leste, estendia-se entre as metades do crculo e atingia a majestosa 
pedra dividida ao meio do outro lado do monumento.
        As danarinas ficaram paradas por alguns instantes, paralisadas nas sombras de cada lado do raio de luz. Ento, a sra. Graham disse alguma coisa, na mesma 
lngua estranha, mas desta vez num tom de voz normal. Girou nos calcanhares e caminhou, empertigada, as ondas grisalhas dos cabelos brilhando ao sol, ao longo da 
faixa de luz. Sem uma palavra, as danarinas seguiram-na. Passaram uma a uma pela fenda na pedra principal e desapareceram em silncio.
        Ficamos agachados nos amieiros at as mulheres, agora rindo e conversando normalmente, recuperarem suas roupas e partirem em grupo pela colina abaixo, para 
tomar caf na casa do vigrio.
        - Meu Deus! - Estiquei-me, tentando desfazer a rigidez das minhas pernas e costas. - Que cena, hein?
        - Maravilhosa! - exclamou Frank, entusiasmado. - Eu no teria perdido isso por nada no mundo. - Deslizou como uma cobra para fora dos arbustos, deixando-me 
sozinha para me desvencilhar do mato, enquanto ele andava de um lado para o outro no interior do crculo, o nariz voltado para o solo como um co de caa.
        - O que est procurando? - perguntei. Entrei no crculo com alguma hesitao, mas o dia j nascera completamente e as pedras, embora ainda impressionantes, 
haviam perdido muito do ar ameaador da penumbra do alvorecer.
        - Marcas - respondeu, arrastando-se de quatro, os olhos atentos  relva curta. - Como sabiam onde comear e onde parar?
        - Boa pergunta. Eu no vejo nada. - Lanando um olhar ao solo, entretanto, o que realmente vi foi uma planta interessante que crescia na base de uma das 
pedras verticais. Miostis? No, provavelmente no. Estas eram flores de um azul-escuro com centros cor-de-laranja. Intrigada, comecei a caminhar em direo a ela. 
Frank, com a audio mais aguada do que a minha, ficou de p num salto e agarrou meu brao, tirando-me apressadamente para fora do crculo um segundo antes de uma 
das danarinas da manh surgir do outro lado.
        Era a srta. Grant, a mulherzinha gorducha que tendo em vista sua figura, administrava a confeitaria da High Street na cidade. Olhou  sua volta apertando 
os olhos, depois remexeu no bolso  procura dos culos. Pendurando-os no nariz, deu uma volta pelo crculo, finalmente lanando-se sobre a travessa de cabelo que 
havia perdido e pela qual voltara. Tendo recolocado-a no lugar em suas mechas grossas e brilhantes, no parecia com nenhuma pressa de retornar ao trabalho. Ao invs 
disso, sentou-se em uma rocha, recostou-se em uma das pedras gigantes em clima de camaradagem e acendeu um cigarro.
        Frank deu um suspiro abafado de exasperao a meu lado.
        - Bem - disse, resignado -,  melhor irmos. Ela pode ficar l sentada o resto da manh, pelo que parece. E no vi nenhuma marca bvia, de qualquer modo.
        - Talvez possamos voltar mais tarde - sugeri, ainda curiosa com a trepadeira de flores azuis.
        - Sim, est bem. - Mas ele obviamente havia perdido o interesse no crculo em si, estando agora absorto nos detalhes da cerimnia. Interrogou-me implacavelmente 
no caminho de volta, instando-me a lembrar o mais detalhadamente possvel as palavras exatas dos brados e o compasso da dana.
        - Escandinavo - disse finalmente, com satisfao. - As razes das palavras so do escandinavo antigo, tenho quase certeza. Mas a dana - sacudiu a cabea, 
ponderando. No, a dana  muito mais antiga. No que no existam danas vikings em crculo - disse, erguendo as sobrancelhas com ar de censura, como se eu tivesse 
sugerido que no existissem. - Mas aquela mudana de lugar com a fileira dupla, isso ... hummm,  como... bem, alguns dos desenhos nas cermicas dos Beakers, mostram 
um padro parecido, mas por outro lado... hummm.
        Entrou em um de seus transes eruditos, murmurando para si mesmo de vez em quando. O transe foi quebrado somente quando tropeou inesperadamente em um obstculo 
perto da base do monte. Lanou os braos no ar com um grito de surpresa quando tropeou e rolou desajeitadamente pelos ltimos metros da trilha, indo parar numa 
moita de erva-cicutria.
        Disparei pela ladeira abaixo atrs dele, mas encontrei-o j sentado entre os ramos trmulos da planta quando consegui chegar ao sop da colina.
        - Voc est bem? - perguntei, embora pudesse ver que estava.
        - Acho que sim. - Passou a mo, aturdido, pela testa, alisando os cabelos escuros para trs. - Em que foi que eu tropecei?
        - Nisto. - Ergui uma lata de sardinha, descartada por algum visitante anterior. - Uma das ameaas da civilizao.
        - Ah. - Pegou-a da minha mo, olhou o interior da lata, depois a atirou por cima do ombro. - Pena que est vazia. Estou com fome depois desta excurso. Vamos 
ver o que a sra. Baird pode arranjar para um caf da manh tardio?
        - Vamos - eu disse, arrumando as ltimas mechas de cabelo para ele. -Mas, ao invs disso, podemos almoar cedo. - Nossos olhos se encontraram.
        - Ah - repetiu, num tom completamente diferente. Passou a mo lentamente pelo meu brao e pelo lado do meu pescoo, o polegar tocando delicadamente o lbulo 
da minha orelha. - Podemos, sim.
        - Se voc no estiver com muita fome - eu disse. A outra mo deslizou para as minhas costas. Com a mo espalmada, pressionou-me gentilmente contra ele, os 
dedos descendo cada vez mais. Sua boca abriu-se ligeiramente e ele respirou, bem de leve, pela gola do meu vestido, seu hlito morno fazendo ccegas nos meus seios.
        Deitou-me cuidadosamente na grama, as flores da erva-cicutria parecendo plumas flutuando no ar em volta da minha cabea. Inclinou-se e beijou-me, devagar, 
e continuou me beijando enquanto desabotoava minha blusa, um boto de cada vez, provocando, parando para enfiar a mo dentro do meu vestido e brincar com os bicos 
enrijecidos dos meus seios. Finalmente, tinha o vestido aberto do pescoo  cintura.
        - Ah - disse mais uma vez, em outro tom diferente. - Como veludo branco. - Sua voz era rouca e seus cabelos haviam cado para a frente outra vez mas ele 
no fez nenhuma tentativa de arrum-los para trs.
        Soltou o fecho do meu suti com um eficiente toque do polegar e inclinou-se para prestar uma hbil homenagem aos meus seios. Depois, recuou e, segurando 
meus seios com as duas mos, juntou as palmas lentamente at se encontrarem entre as duas protuberncias e, sem parar, afastou-as novamente, traando a Unhadas minhas 
costelas para trs. Para cima outra vez, para baixo e ao redor, at eu gemer e curvar-me para ele. Mergulhou os lbios nos meus e apertou-me contra seu corpo, at 
nossos quadris encaixarem-se perfeitamente. Inclinou a cabea para mim, mordendo de leve o lbulo da minha orelha.
        A mo que acariciava minhas costas desceu cada vez mais para baixo, parando repentinamente, surpreso. Tateou de novo, depois Frank ergueu a cabea e olhou 
para mim, rindo.
        - O que  isso? - perguntou, imitando um policial da vila. - Ou melhor, o que no  isso?
        - Estou sempre preparada - respondi, afetadamente. - As enfermeiras aprendem a se antecipar s contingncias.
        - Realmente, Claire - murmurou, deslizando a mo por baixo da minha saia e subindo pela coxa at o calor macio e desprotegido entre minhas pernas -, voc 
 a pessoa mais terrivelmente prtica que j conheci.
        Frank surgiu por trs de mim quando estava sentada na sala de visitas naquela noite, com um grande livro aberto no colo.
        - O que est fazendo? - perguntou. As mos descansaram delicadamente sobre meus ombros.
        - Procurando aquela planta - respondi, colocando o dedo entre as pginas para marcar o lugar. - A que vi no crculo de pedras. Veja... - Abri o livro. - 
Poderia estar nas Campanulaceae ou nas Gentianaceae, nas Polemoniaceae, nas Boraginaceae. Esta  bem provvel, eu acho, miostis -mas poderia at mesmo ser uma variante 
desta, a Anemone patens. -Apontei para a ilustrao colorida de uma pulsatila. - No acho que seja uma genciana de qualquer espcie; as ptalas no eram bem redondas, 
mas.
        - Bem, por que no volta l e pega uma amostra? - sugeriu. - O sr. Crook poderia lhe emprestar seu calhambeque, talvez, ou... No, tive uma idia melhor. 
Pea o carro da sra. Baird emprestado,  mais seguro.  uma caminhada curta da estrada ao sop da colina.
        - E depois mais ou menos mil metros de subida at o topo - eu disse. - Por que est to interessado nessa planta? - Girei o corpo para olhar para ele. O 
abajur da sala contornava sua cabea com uma fina linha dourada, como a gravura medieval de um santo.
        - No  na planta que estou interessado. Mas se voc for at l de qualquer modo, gostaria que desse uma olhada pelo lado de fora do crculo.
        - Tudo bem - respondi, prestativa. - Para qu?
        - Vestgios de fogo - ele disse. - Em tudo que pude ler sobre Beltane, o fogo  sempre mencionado nos rituais, mas as mulheres que vimos hoje de manh no 
usaram nenhum. Imagino se talvez no tenham acendido o fogo de Beltane na noite anterior, depois voltado de manh para a dana. Embora historicamente fossem os rebanhos 
de gado que deveriam acender o fogo. No havia nenhum sinal de fogueira no interior do crculo - acrescentou. - Mas viemos embora antes de eu pensar em verificar 
a parte de fora.
        - Est bem - eu disse novamente, bocejando. O fato de levantar cedo dois dias seguidos estava cobrando seu tributo. Fechei o livro e levantei-me. - Desde 
que eu no tenha que me levantar antes das nove.
        Na verdade, eram quase nove horas quando cheguei ao crculo de pedras. Chuviscava e eu estava inteiramente molhada, no tendo pensado em levar uma capa. 
Fiz um exame superficial do lado de fora do crculo, mas se alguma vez houve uma fogueira ali, algum se dera ao trabalho de remover todos os vestgios.
        A planta foi mais fcil de encontrar. Estava onde eu me lembrava de t-la visto, junto  base da pedra vertical mais alta. Peguei vrias amostras da trepadeira 
e guardei-as provisoriamente no meu bolso, pretendendo lidar com elas adequadamente quando voltasse ao minsculo carro da sra. Baird, onde deixara as pesadas prensas 
de plantas.
        A pedra mais alta do crculo era fendida, com uma fissura vertical dividindo-a em duas partes macias. Estranhamente, as duas partes haviam sido afastadas 
de algum modo. Embora fosse possvel ver que as duas superfcies de frente uma para a outra se encaixavam, estavam separadas por uma brecha de quase um metro.
        Havia um zumbido profundo vindo de algum lugar bem prximo. Imaginei que deveria haver uma colmia alojada em algum nicho da rocha e coloquei a mo sobre 
a pedra, a fim de inclinar-me para dentro da fenda.
        A pedra gritou.
        Recuei o mais depressa que pude, to depressa que tropecei na relva curta e ca sentada com toda a fora. Fitei a pedra, espantada, suando.
        Nunca ouvira um som semelhante de nenhum ser vivo. No  possvel descrev-lo, exceto dizer que era o tipo de grito que se poderia esperar de uma pedra. 
Era horrvel.
        As outras pedras comearam a gritar. Ouvi sons de batalha, os gritos de homens morrendo e cavalos feridos.
        Sacudi a cabea violentamente para clare-la, mas o barulho continuou. Levantei-me aos tropees e cambaleei em direo  margem do crculo. Os sons estavam 
por todo lado  minha volta, fazendo meus dentes doerem e minha cabea girar. Minha viso comeou a turvar.
        No sei agora se caminhei em direo  fenda na pedra principal ou se isso foi acidental, um deslocamento cego pelo nevoeiro de barulho.
        Certa vez, viajando  noite, adormeci no banco do carona de um carro em movimento, embalada pelo barulho e pelo deslocamento, at  iluso de uma serena 
ausncia de peso. O motorista do carro entrou numa ponte a uma velocidade alta demais e perdeu o controle do carro. Acordei do meu sonho de estar flutuando direto 
no claro de faris e na sensao nauseante de estar caindo em alta velocidade. Essa transio brusca  o mais prximo que posso chegar para descrever a sensao 
que experimentei, mas ainda deixa dolorosamente a desejar.
        Poderia dizer que meu campo de viso contraiu-se a um nico ponto escuro, depois desapareceu completamente, sem deixar nenhuma escurido, mas apenas um brilhante 
vazio. Poderia dizer que senti como se estivesse girando ou como se estivesse sendo virada do avesso. Tudo isso  verdade, mas nenhuma dessas comparaes transmite 
a sensao que tive de total perturbao, de estar sendo atirada com fora contra alguma coisa que no estava l.
        A verdade  que nada se movia, nada mudava, nada parecia acontecer e, ainda assim, eu experimentava uma sensao de terror to grande que perdi completamente 
a noo de quem ou o qu eu era, ou de onde me encontrava. Estava no mago do caos e nenhuma fora fsica ou mental era til contra isso.
        No conseguiria dizer realmente se perdi a conscincia, mas sem dvida no tive noo de mim mesma durante algum tempo. "Acordei", se essa for a palavra, 
quando tropecei numa pedra perto da base do monte. Praticamente resvalei pelos poucos metros restantes e acabei num espesso tufo de capim ao p da colina. Sentia-me 
enjoada e tonta. Arrastei-me at um aglomerado de carvalhos novos e apoiei-me contra um deles para me equilibrar. Havia uma gritaria confusa perto dali, que me fez 
lembrar dos sons que eu ouvira, e sentira, no crculo de pedras. No havia, entretanto, o tom estridente de violncia inumana. Aquele era o som normal de conflito 
humano e eu segui em sua direo.
        
        
        
        3 - O HOMEM NO BOSQUE
        
        Os homens estavam a alguma distncia quando os avistei. Dois ou trs, trajando kilts, corriam como demnios por uma pequena clareira. Ouviam-se uns estampidos 
distantes que eu, meio aturdida, identifiquei como tiros.
        Eu tinha absoluta certeza de que ainda estava tendo alucinaes quando ao barulho de tiros seguiu-se o aparecimento de cinco ou seis soldados ingleses, vestindo 
antigos casacos vermelhos e calas na altura dos joelhos, brandindo mosquetes. Pisquei os olhos e fiquei olhando, paralisada. Ergui a mo e estendi dois dedos diante 
do rosto. Eu via dois dedos, correta e distintamente. Nenhuma perturbao visual. Cautelosamente, inspirei, sentindo o cheiro do ar. O aroma pungente de rvores 
na primavera e uma leve fragrncia de trevos de um punhado junto aos meus ps. Nenhuma iluso olfativa.
        Apalpei minha cabea. Nenhum ponto dolorido. Portanto, uma concusso cerebral era improvvel. Pulso um pouco acelerado, mas regular.
        O som de gritos distantes mudou bruscamente. Ouviu-se um trovo de cascos e vrios cavalos surgiram, lanando-se em minha direo, montados por escoceses 
de kilts, entoando canes em galico. Esquivei-me rapidamente do caminho, com uma agilidade que pareceu provar que no estava fisicamente ferida, qualquer que fosse 
meu estado mental.
        Ento, me ocorreu, quando um dos homens de casaco vermelho, derrubado por um escocs em disparada, levantou-se e brandiu o punho cerrado teatralmente na 
direo dos cavalos.  claro. Um filme! Sacudi a cabea diante da minha prpria lentido mental. Estavam filmando alguma histria, vestidos a carter, apenas isso. 
Um daqueles filmes romnticos sobre o prncipe escocs Carlos Eduardo, sem dvida.
        Muito bem. Independente do mrito artstico, a produo do filme no iria me agradecer por introduzir um tom de inautenticidade histrica em suas cenas. 
Voltei para dentro do bosque, pretendendo fazer um amplo crculo em torno da clareira e sair na estrada onde eu havia deixado o carro. Entretanto, a ida foi mais 
difcil do que eu esperava. O bosque era jovem, denso de mato rasteiro que se agarrava em minhas roupas. Tinha que avanar cuidadosamente pelo meio das rvores novas 
e espigadas, desenredando minha saia das amoreiras selvagens conforme prosseguia.
        Se fosse uma cobra, eu teria pisado nele. Estava parado to silenciosamente entre as rvores novas que parecia uma delas e eu no o vi at sua mo surgir 
de repente e me agarrar pelo brao.
        A outra mo tapou minha boca enquanto eu era arrastada para trs, para dentro do bosque de carvalhos, debatendo-me ferozmente em pnico. Meu captor, quem 
quer que fosse, no parecia muito mais alto do que eu, mas era extremamente forte nos braos. Senti um leve perfume floral, como de colnia de alfazema, e de algo 
mais picante, misturados ao cheiro mais forte de suor masculino. No entanto, enquanto as folhagens chicoteavam de volta  posio inicial ao longo de nossa passagem, 
notei algo familiar a respeito da mo e do antebrao agarrados em torno da minha cintura.
        Sacudi a cabea livrando-me da restrio sobre a minha boca.
        - Frank! - exclamei. - Que brincadeira  essa, pelo amor de Deus? - Estava dividida entre o alvio de encontr-lo ali e a irritao com o gracejo. Perturbada 
como estava pela minha experincia nas pedras, no sentia disposio para brincadeiras de mau gosto.
        As mos me soltaram, mas no momento em que me voltei para ele pressenti que alguma coisa estava errada. No se tratava apenas da colnia desconhecida, mas 
de algo mais sutil. Fiquei parada, imvel, sentindo os cabelos da minha nuca se arrepiarem.
        - Voc no  Frank - disse, num sussurro.
        - No, no sou - ele concordou, examinando-me com grande interesse. - Embora tenha um primo com este nome. Duvido, no entanto, que seja com ele que voc 
tenha me confundido, madame. Ns no somos muito parecidos.
        Com quem quer que seu primo se parecesse, ele prprio poderia ser irmo de Frank. Havia a mesma constituio fsica gil, esbelta, e boa ossatura; os mesmos 
contornos bem delineados do rosto; as sobrancelhas uniformes e os grandes olhos castanho-claros; e os mesmos cabelos escuros, lisos e macios, penteados para o lado, 
sobre a fronte.
        Mas os cabelos deste homem eram compridos, amarrados na nuca com uma tira de couro. E a pele curtida e bronzeada evidenciava os meses, no, anos de exposio 
ao tempo, muito diferente da cor dourado-clara que Frank adquirira em nossas frias na Esccia.
        - Quem  voc? - perguntei, sentindo-me extremamente confusa. Embora Frank tivesse muitos parentes e conexes, eu achava que conhecia todo o ramo britnico 
de sua famlia. Certamente, no havia ningum que se parecesse com este homem. E certamente Frank teria mencionado qualquer parente prximo que vivesse nas Highlands. 
No s o teria mencionado, como teria insistido que o visitssemos, armado com a costumeira coleo de mapas genealgicos e cadernos de notas, ansioso por qualquer 
migalha de histria familiar sobre o famoso Black Jack Randall.
        O estranho ergueu as sobrancelhas diante da minha pergunta.
        - Quem sou eu? Devo lhe fazer a mesma pergunta, madame, e com uma justificativa consideravelmente maior. - Seus olhos vasculharam-me lentamente da cabea 
aos ps, viajando com uma aprovao insolente pelo fino vestido de algodo estampado de penias que eu estava usando e demorando-se com um estranho olhar divertido 
em minhas pernas. No compreendi o motivo daquele olhar, mas deixou-me extremamente nervosa e eu recuei um ou dois passos, at bater bruscamente em uma rvore.
        O homem finalmente desviou o olhar e virou-se. Foi como se tivesse tirado as mos de cima de mim e eu deixei escapar um suspiro de alvio, sem ter percebido 
que at ento estivera prendendo a respirao.
        Ele se virara para pegar seu casaco, atirado no galho mais baixo de um dos carvalhos novos. Sacudiu algumas folhas esparsas do casaco e comeou a vesti-lo.
        Devo ter arfado, porque ele ergueu os olhos para mim outra vez. O casaco era vermelho-escuro, com uma longa cauda e sem lapelas, com gales na frente. O 
forro cor de camura dos punhos virados para cima estendia-se por uns quinze centmetros da manga e um pequeno cadaro dourado, retorcido, brilhava de uma das dragonas. 
Era um casaco dos drages, o casaco de um oficial da cavalaria. Ento, ocorreu-me: claro, ele era um ator, da companhia que eu vira do outro lado do bosque. Embora 
a espada curta que ele amarrava  cintura parecesse muito mais real do que qualquer artefato cenogrfico que eu j vira.
        Encostei-me com mais fora contra o tronco da rvore s minhas costas. A solidez do tronco era real e isso me animou outra vez. Cruzei os braos defensivamente.
        - Quem  voc afinal? - perguntei novamente. A pergunta desta vez saiu como um grasnido que soou assustador at para os meus ouvidos.
        Como se no me ouvisse, ele ignorou a pergunta, amarrando sem pressa os gales da frente do seu casaco. Somente quando terminou  que voltou sua ateno 
para mim outra vez. Fez uma mesura cnica, a mo sobre o corao.
        - Eu sou Jonathan Randall, capito da Oitava Companhia dos Drages de Sua Majestade. A seu servio, madame.
        Desatei a correr. Minha respirao roncava no peito  medida que eu abria caminho entre a cortina de carvalhos e amieiros, ignorando amoreiras selvagens, 
urtigas, pedras, troncos cados, tudo que estivesse em meu caminho. Ouvi um grito s minhas costas, mas estava apavorada demais para verificar de onde vinha.
        Corri s cegas, os galhos das rvores arranhando meu rosto e meus braos, os tornozelos torcendo-se conforme eu pisava em buracos e tropeava em pedras. 
No havia lugar em minha mente para qualquer forma de pensamento racional; eu s queria fugir daquele homem.
        Algo pesado atingiu com fora os meus quadris e eu fui lanada para a frente, caindo estirada, com um baque surdo, que tirou o ar dos meus pulmes. Mos 
rudes me viraram de frente e o capito Jonathan Randall ergueu-se sobre os joelhos acima de mim. Respirava pesadamente e perdera sua espada na corrida. Parecia desalinhado, 
sujo e bastante contrariado.
        - Que diabos pretende fugindo desse jeito? - indagou. Uma grossa mecha de cabelos castanho-escuros soltara-se e ondulava em sua testa, aumentando de forma 
desconcertante sua semelhana com Frank.
        Inclinou-se para a frente e agarrou-me pelos braos. Ainda tentando recuperar o flego, debati-me para me libertar, mas tudo que consegui foi arrast-lo 
para cima de mim.
        Ele perdeu o equilbrio e caiu com todo o peso do seu corpo sobre o meu, achatando-me outra vez. Para minha surpresa, isso fez sua contrariedade desaparecer 
por completo.
        - Ah, ento  assim, hein? - disse, com um risinho. - Bem, gostaria muito de servi-la, benzinho, mas acontece que voc escolheu um momento um tanto inoportuno. 
- Seu peso pressionava meus quadris contra o solo. E uma pequena pedra cravava-se dolorosamente na base da minha coluna. Retorci-me para desaloj-la. Ele apertou 
os quadris com mais fora contra os meus e suas mos prenderam meus ombros no cho. Abri a boca, indignada.
        - O que voc... - comecei a dizer, mas ele abaixou a cabea e beijou-me, interrompendo os meus protestos. Enfiou a lngua na minha boca e explorou-a com 
uma ousada familiaridade, girando e mergulhando, recolhendo-se e arremessando-se outra vez. Em seguida, da mesma forma repentina como iniciara, afastou-se.
        Deu uns tapinhas na minha bochecha.
        - Muito bom, benzinho. Talvez mais tarde, quando eu tiver tempo de folga para cuidar de voc.
        A essa altura, eu j havia recuperado o flego e usei-o. Gritei diretamente dentro do seu ouvido e ele deu um salto para trs como se eu tivesse lhe dado 
um choque eltrico. Aproveitei o movimento para erguer o joelho e crav-lo na lateral do seu corpo, fazendo-o se esparramar na camada de folhas.
        Consegui levantar-me com dificuldade. Ele rolou sobre si mesmo agilmente e surgiu ao meu lado. Olhei desesperadamente  minha volta, procurando uma sada, 
mas havamos sido levados para a base de um desses elevados penhascos de granito que se erguem bruscamente do solo nas Highlands escocesas. Ele me encurralara num 
lugar em que uma reentrncia na superfcie rochosa formava uma caixa de pedra de pouca profundidade.
        Ele bloqueou a entrada para o declive, os braos abertos e firmemente apoiados nas paredes da rocha, uma mistura de raiva e curiosidade na expresso do belo 
rosto moreno.
        - Com quem voc estava? - perguntou. - Um tal de Frank? No tenho nenhum homem com este nome na minha companhia. Ou  algum que vive aqui perto? - Sorriu 
com escrnio. - Sua pele no cheira a estrume, portanto no estava com um campons. Alis, voc parece mais cara do que um fazendeiro local poderia pagar.
        Cerrei os punhos e o queixo. O que quer que aquele palhao tivesse em mente, eu no iria aturar.
        - No fao a menor idia do que voc est falando e agradeo se me deixar passar agora mesmo! - eu disse, adotando meu melhor tom de enfermeira-chefe. Geralmente, 
surtia um bom efeito em ordenanas recalcitrantes e estudantes de medicina, mas pareceu apenas divertir o capito Randall. Eu reprimia resolutamente os sentimentos 
de medo e desorientao que batiam sob as minhas costelas como um bando de galinhas em pnico.
        Ele sacudiu a cabea lentamente, examinando-me minuciosamente mais uma vez.
        - No neste momento, benzinho. Estou perguntando a mim mesmo -disse, em tom casual -, por que uma vagabunda fora da sua terra, em roupas de baixo, estaria 
usando sapatos? Alis, sapatos muito bons - acrescentou, olhando para os meus simples mocassins marrons.
        - Uma o qu! - exclamei.
        Ignorou-me completamente. Seu olhar retornou ao meu rosto e, repentinamente, deu um passo para a frente e agarrou meu queixo com uma das mos. Agarrei seu 
pulso e dei um puxo.
        - Solte-me! - Ele tinha dedos de ao. Indiferente aos meus esforos para me libertar, virou meu rosto de um lado para o outro, de modo que a luz mortia 
da tarde incidisse sobre ele.
        - A pele de uma dama, posso jurar - murmurou para si mesmo. Inclinou-se para a frente e cheirou. - E um aroma francs nos cabelos. - Soltou-me e eu esfreguei 
meu queixo, indignada, como se quisesse apagar o toque de sua mo que ainda sentia em minha pele.
        - O resto deve ter conseguido com dinheiro do seu benfeitor - resmungou para si mesmo -, mas tambm fala como uma dama.
        - Muito obrigada! - retorqui. - Saia da minha frente. Meu marido est  minha espera; se eu no voltar em dez minutos, ele vir  minha procura.
        - Ah, seu marido? - A expresso de admirao e escrnio retrocedeu um pouco, mas no desapareceu inteiramente. - E qual  o nome de seu marido, pode me dizer? 
Onde est ele? E por que permite que sua mulher ande sozinha pelos bosques desertos quase despida?
        Eu continuava a pressionar aquela parte do meu crebro que estava se debatendo para dar algum sentido quela tarde. Consegui um momento de lucidez suficientemente 
longo para me dizer que, por mais absurdas que eu considerasse suas conjecturas, dar a esse homem o nome de Frank, o mesmo nome dele, s iria levar a mais confuses. 
Assim, sem responder-lhe, fiz meno de passar por ele. Bloqueou minha passagem com um brao musculoso e agarrou-me com a outra mo.
        Ouviu-se um chiado repentino acima de nossas cabeas, seguido imediatamente por uma figura indistinta diante dos meus olhos e um baque surdo. O capito Randall 
estava no cho aos meus ps, sob uma massa arquejante que parecia uma trouxa de farrapos velhos de tecido xadrez. Um punho moreno e macio como uma rocha ergueu-se 
da massa e abateu-se com fora considervel, chocando-se resolutamente com alguma protuberncia ssea, pelo barulho resultante. As pernas agitadas do capito, em 
botas marrons longas e brilhantes, relaxaram imediatamente.
        Vi-me diante de um par de penetrantes olhos negros. A mo robusta que temporariamente distrara as indesejadas atenes do capito prendeu-se como um molusco 
no meu antebrao.
        - E quem diabos  voc? - perguntei, estarrecida. Meu salvador, se podia cham-lo assim, era alguns centmetros mais baixo do que eu e de constituio pequena, 
mas os braos nus que se projetavam da camisa rasgada eram musculosos e toda a sua estrutura dava a impresso de ser feita de algum material elstico, como molas 
de cama. Tambm no possua nenhuma beleza - pele com marcas de varola, fronte baixa e maxilar estreito.
        - Por aqui. - Deu um puxo em meu brao e eu, estupefata com a sucesso dos ltimos acontecimentos, segui obedientemente.
        Meu novo companheiro abriu caminho rapidamente atravs de uma cortina de amieiros, deu a volta bruscamente em uma grande rocha e de repente estvamos em 
um caminho. Tomado por urzes e tojos, e ziguezagueando de forma que nunca fosse visvel a mais de dois metros  frente, ainda assim era indubitavelmente um caminho, 
um aclive ngreme que levava ao topo da colina.
        Foi somente quando avanvamos cautelosamente pelo outro lado da colina que consegui reunir flego e presena de esprito suficientes para perguntar onde 
estvamos indo. No recebendo nenhuma resposta do meu companheiro, repeti num tom mais alto:
        - Para onde afinal estamos indo?
        Para minha considervel surpresa, virou-se para mim, o rosto contorcido, e arrastou-me para fora do caminho. Quando abria minha boca para protestar, ele 
espalmou a mo sobre ela e derrubou-me no cho, rolando o corpo para cima do meu.
        Ah, outra vez, no!, pensei, e contorcia-me desesperadamente para me libertar quando ouvi o que ele ouvira e, de repente, fiquei imvel. Vozes iam e vinham, 
acompanhadas pelo barulho de passos pesados. Eram, sem dvida, vozes inglesas. Lutei violentamente para liberar minha boca. Enfiei os dentes em sua mo e s tive 
tempo de registrar o fato de que ele andara comendo arenque em conserva com as mos, antes de alguma coisa se abater contra a parte de trs de minha cabea e tudo 
ficar escuro.
        A cabana de pedra surgiu de repente em meio  neblina noturna. As janelas estavam trancadas, mostrando apenas um fio de luz. Sem a menor idia de quanto 
tempo ficara desacordada, no sabia a que distncia ficava esse lugar da colina de Craigh na Dun ou da cidade de Inverness. Estvamos a cavalo, eu na frente do meu 
captor, as mos amarradas ao aro da sela. Entretanto, no havia nenhuma estrada, de modo que avanvamos muito lentamente.
        Calculei que no ficara inconsciente muito tempo; no demonstrava nenhum sintoma de concusso ou outros efeitos colaterais da pancada, a no ser uma regio 
dolorida na base do crnio. Meu captor, um homem de poucas palavras, respondia s minhas perguntas, reclamaes e observaes de mau humor, com o mesmo rudo escocs 
que servia para todas as ocasies e que melhor pode ser representado foneticamente como "Mmmmhum". Se eu tivesse alguma dvida quanto  sua nacionalidade, esse som 
seria suficiente para afast-la.
        Meus olhos haviam se adaptado gradualmente  penumbra do anoitecer conforme o cavalo tropeava pelas pedras e pelas tojeiras, de modo que foi um choque sair 
da semi-escurido para o que parecia uma luz incandescente no interior da cabana. A medida que a viso ficou menos ofuscada, pude ver que de fato o nico aposento 
era iluminado apenas pelo fogo na lareira, vrias velas e um lampio perigosamente antigo.
        - O que tem a, Murtagh?
        O homem com cara de fuinha agarrou-me pelo brao e empurrou-me para a luz do fogo.
        - Uma vagabunda Sassenach, Dougal, pelo modo de falar.
        Havia vrios homens no aposento, todos me olhando fixamente, alguns com curiosidade, outros com inegvel malcia. Meu vestido rasgara-se em vrios lugares 
durante as atividades da tarde e eu avaliei apressadamente os danos. Olhando para baixo, podia ver claramente a curva de um dos seios atravs de um rasgo e tinha 
certeza que o grupo de homens tambm. Decidi que fazer uma tentativa de juntar os pedaos rasgados s iria chamar mais ainda a ateno; ao invs disso, escolhi um 
rosto qualquer e fitei-o corajosamente, na esperana de desviar os olhares.
        - Ei, bonita, Sassenach ou no - disse o homem, um tipo gordo, seboso, sentado junto ao fogo. Segurava um pedao de po e no se deu ao trabalho de larg-lo 
quando se levantou e caminhou na minha direo. Ergueu meu queixo com as costas da mo, afastando os cabelos do meu rosto. Alguns farelos de po caram pela gola 
do meu vestido. Os outros homens amontoaram-se ao redor, um bando em tecido quadriculado escocs e costeletas, com o forte odor de suor e lcool. Foi somente ento 
que eu vi que todos eles usavam kilt - estranho, mesmo para aquela parte das Highlands. Eu teria me deparado com a reunio de uma associao de cls ou talvez com 
uma reunio poltica?
        - Venha c, dona. - Um homem corpulento, de barba preta, permaneceu sentado a uma mesa junto  janela enquanto me chamava. Pelo ar de comando, devia ser 
o chefe do bando. Os homens abriram caminho relutantemente quando Murtagh empurrou-me para a frente, aparentemente respeitando seus direitos de captor.
        O homem moreno analisou-me cuidadosamente, o rosto sem expresso. Era bem-apessoado, pensei, e no parecia inamistoso. No entanto, havia rugas de tenso 
entre suas sobrancelhas e no era um rosto que algum gostaria de contrariar.
        - Qual  o seu nome, dona? - Sua voz era fina para um homem do seu tamanho, no a voz grave e profunda que eu esperaria de um trax to volumoso.
        - Claire... Claire Beauchamp - eu disse, resolvendo de improviso usar meu nome de solteira. Se era resgate o que tinham em mente, no queria ajud-los dando 
um nome que pudesse levar a Frank. E no tinha certeza se queria que aqueles homens de aparncia grosseira soubessem quem eu era, antes de descobrir quem eram eles. 
- E exatamente o que voc acha que est... - O homem moreno ignorou-me, estabelecendo um padro do qual eu iria me cansar muito em breve.
        - Beauchamp? - As grossas sobrancelhas ergueram-se e todo o grupo agitou-se de surpresa. - Um nome francs, no ? - Ele de fato havia pronunciado o nome 
corretamente em francs, embora eu o tivesse dito na pronncia inglesa comum de "Beecham".
        Sim, isso mesmo - respondi, um pouco surpresa.
        - Onde encontrou essa moa? - Dougal indagou, virando-se para Murtagh, que se revigorava bebendo de um frasco de couro.
        O homenzinho moreno encolheu os ombros.
        - Ao sop da Craigh na Dun. Estava discutindo com um certo capito dos drages que por acaso eu conhecia - acrescentou, erguendo significativamente uma das 
sobrancelhas. - Parecia haver uma dvida se a madame era ou no uma prostituta.
        Dougal examinou-me de cima a baixo mais uma vez, atentando para cada detalhe do meu vestido de algodo estampado e meus sapatos de caminhada.
        - Sei. E qual era a posio da madame nessa discusso? - perguntou, com uma nfase sarcstica na palavra "madame" que no me agradou. Observei que, embora 
seu escocs fosse menos carregado do que o do homem chamado Murtagh, seu sotaque ainda era bastante pronunciado, dando  palavra um som aberto.
        Murtagh pareceu achar graa; ao menos, um dos cantos de sua boca fina curvou-se para cima.
        - Ela disse que no era. O prprio capito parecia no ter certeza, mas estava disposto a fazer um teste.
        - Poderamos fazer o mesmo, por falar nisso. - O homem gordo, de barba preta, deu um passo em minha direo, rindo, as mos puxando o cinto. Recuei depressa 
o mais que pude, o que no era muito longe, dadas as dimenses da cabana.
        - Chega, Rupert. - Dougal ainda me olhava preocupado, mas sua voz tinha o tom da autoridade e Rupert parou onde estava, fazendo uma careta engraada de decepo.
        - Eu no admito estupros e no temos tempo para isso de qualquer forma. - Fiquei contente de ouvir essa declarao de poltica, por mais duvidosa que sua 
base moral pudesse ser, mas continuei um pouco nervosa diante dos olhares abertamente lascivos em alguns dos outros rostos. Tinha a sensao absurda de estar em 
pblico vestida com minhas roupas de baixo. E embora eu no fizesse a menor idia de quem ou o qu esses bandidos das Highlands estavam perseguindo ou tramando, 
eles pareciam bastante perigosos. Mordi a lngua, reprimindo algumas observaes mais ou menos imprudentes que afloravam  minha boca.
        - O que acha, Murtagh? - Dougal perguntou ao meu captor. - Pelo menos, ela no parece gostar de Rupert.
        - Isso no prova nada - objetou um homem baixo, meio careca. - Ele no lhe ofereceu nenhum dinheiro. No pode esperar que uma mulher aceite algum como Rupert 
sem um pagamento substancial, antecipado - acrescentou, para grande hilaridade de seus companheiros. Dougal, no entanto, calou a barulheira com um gesto brusco e 
fez um sinal com a cabea indicando a porta. O sujeito careca, ainda rindo, saiu obedientemente para a escurido.
        Murtagh, que no se juntara  risada geral, franzia o cenho enquanto me examinava. Sacudiu a cabea, fazendo a franja lisa balanar-se na testa.
        - No - disse definitivamente. - No fao a menor idia do que ela possa ser, ou quem, mas aposto a minha melhor camisa que no  uma prostituta. - Torci, 
nesse caso, para que sua melhor camisa no fosse a que ele estava vestindo, que mal parecia valer a aposta.
        - Bem, voc deve saber, Murtagh, voc conheceu muitas - debochou Rupert, mas foi bruscamente silenciado por Dougal.
        - Resolveremos isso mais tarde - disse asperamente. - Temos uma boa distncia para percorrer esta noite e temos que fazer alguma coisa por Jamie primeiro; 
ele no pode viajar assim.
        Encolhi-me nas sombras junto  lareira, esperando no ser mais notada. O homem chamado Murtagh desamarrara minhas mos antes de me conduzir para dentro da 
cabana. Talvez eu conseguisse fugir enquanto estivessem ocupados em algum outro lugar. A ateno dos homens voltara-se para um jovem agachado em um banco no canto. 
Ele mal erguera os olhos durante o meu aparecimento e interrogatrio, mas manteve a cabea abaixada, a mo segurando o ombro oposto, balanando-se levemente para 
a frente e para trs de dor.
        Dougal retirou delicadamente a mo agarrada ao ombro. Um dos homens puxou para trs o xale quadriculado do jovem, revelando uma camisa de linho suja de terra 
e manchada de sangue. Um homem pequeno, com um grande bigode, surgiu por trs do rapaz com uma faca e, segurando a camisa pelo colarinho, cortou-a na frente e ao 
longo da manga, de modo que a camisa abriu-se e caiu do ombro ferido.
        Soltei uma arfada, como vrios dos homens. O ombro estava ferido; havia um sulco profundo e dilacerado na parte superior e o sangue escorria livremente pelo 
peito do rapaz. Porm mais chocante era a prpria junta do ombro. Um terrvel calombo erguia-se na articulao e o brao estava pendurado num ngulo impossvel.
        Dougal grunhiu.
        - Hummm. Desconjuntado, pobre diabo.
        O jovem ergueu os olhos pela primeira vez. Embora contorcido de dor e com uma barba ruiva por fazer, era um rosto forte e bem-humorado.
        - Ca em cima da mo, quando a bala do mosquete me arrancou da sela. Ca com todo o peso do corpo sobre a mo e craque!, desconjuntou-se.
        - Desconjuntou mesmo. - O homem de bigode, um escocs, e educado, a julgar pelo seu sotaque, examinava o ombro, levando o rapaz a fazer uma careta de dor. 
- O ferimento no  problema. A bala atravessou direto e est limpo, o sangue est escorrendo livremente. - O homem pegou um chumao de pano sujo da mesa e usou-o 
para estancar o sangue. -- Mas no sei bem o que fazer com o deslocamento. Precisamos de um cirurgio para colocar o brao de volta no lugar certo. Voc no pode 
cavalgar assim, no , Jamie?
        Bala de mosquete?, pensei, aturdida. O jovem sacudiu a cabea, plido.
        -- J di muito aqui sentado. No poderia conduzir um cavalo. - Apertou os olhos e cravou os dentes com fora no lbio inferior.
        Murtagh falou com impacincia.
        - Bem, no podemos deix-lo para trs, no ? Os soldados ingleses no so grande coisa para rastrear no escuro, mas vo encontrar este lugar mais cedo ou 
mais tarde, com ou sem janelas fechadas. E Jamie no consegue se fazer passar por um campons inocente, com esse enorme ferimento.
        - No se preocupe - Dougal disse, interrompendo-o. - No pretendo deix-lo para trs.
        O homem de bigode suspirou.
        - Ento, no h outro jeito. Vamos ter que tentar recolocar o brao no lugar. Murtagh, voc e Rupert segurem-no; eu vou tentar.
        Fiquei observando com pena do jovem enquanto o homem de bigode pegava o brao do rapaz pelo pulso e pelo cotovelo e comeava a for-lo para cima. O ngulo 
estava totalmente errado; devia estar causando uma dor excruciante. O suor escorria pelo rosto do jovem, mas ele no emitiu nenhum som alm de um gemido baixo. De 
repente, ele desabou com todo o peso para a frente e s no caiu no cho por causa dos homens que o seguravam.
        Um dos homens abriu um frasco de couro e pressionou-o contra seus lbios. O cheiro penetrante da bebida forte e pouco refinada chegou at onde eu estava. 
O jovem tossiu e engasgou, mas assim mesmo engoliu, deixando o lquido cor de mbar escorrer da boca sobre o que restava de sua camisa.
        - Pronto para outra tentativa, rapaz? - o careca perguntou. - Ou talvez Rupert devesse tentar - sugeriu, voltando-se para o rufio atarracado, de barba preta.
        Rupert, assim convidado, flexionou as mos como se fosse praticar arremesso de mastro e pegou o pulso do rapaz, obviamente pretendendo colocar a junta no 
lugar pela fora bruta; uma operao, era bvio, capaz de arrancar o brao do rapaz como o cabo de uma vassoura.
        - No se atreva a fazer isso! - Qualquer pensamento de fuga desapareceu diante da indignao profissional. Lancei-me para a frente, sem me importar com os 
olhares espantados dos homens  minha volta.
        - O que quer dizer? - retorquiu o careca, claramente irritado com a minha intromisso.
        - Quero dizer que vai quebrar o brao dele se fizer desse modo - retruquei. - Saiam do caminho, por favor. - Afastei Rupert com o cotovelo e eu mesma segurei 
o pulso do paciente. O paciente parecia to surpreso quanto os outros, mas no resistiu. Sua pele estava muito quente, mas no febril, considerei.
        -  preciso colocar o osso da parte superior do brao no ngulo certo antes de encaix-lo na junta outra vez - eu disse, grunhindo enquanto puxava o pulso 
para cima e o cotovelo para dentro. O rapaz era alto e forte; seu brao pesava como chumbo.
        - Essa  a pior parte - avisei o paciente. Encaixei minha mo no seu cotovelo, pronta para dar um tranco para cima.
        Sua boca contorceu-se, no que no parecia um sorriso.
        - No pode doer muito mais do que est doendo. V em frente.
        O suor porejava no meu prprio rosto a essa altura. Recolocar um ombro no lugar  uma tarefa rdua mesmo nas melhores condies. Em um homem grande que passara 
horas com o deslocamento, os msculos agora inchados e cobrindo a junta, a tarefa iria requerer todas as minhas foras. O fogo estava perigosamente perto; esperava 
que ns dois no cassemos nele, se a junta voltasse ao lugar com um tranco.
        De repente, o ombro fez um suave pop! e a articulao voltou ao lugar. O paciente ficou admirado. Colocou a mo no ombro, incrdulo, para explor-lo.
        - No di mais! - Um amplo sorriso de alvio e satisfao espalhou-se por seu rosto e os homens irromperam em exclamaes de admirao e aplausos.
        - Vai doer. - Eu suava do esforo, mas fiquei satisfeita e orgulhosa com o resultado. - Ficar dolorido por vrios dias. No deve de modo algum estender 
a junta nos prximos dois ou trs dias; quando voltar a usar o brao, comece bem devagar. Pare imediatamente se comear a doer e use compressas quentes diariamente.
        Percebi, no meio dessas recomendaes, que enquanto o paciente ouvia respeitosamente, os outros homens olhavam-me com expresses que iam da absoluta admirao 
 bvia suspeita.
        - Sou enfermeira - expliquei, sentindo-me um pouco na defensiva. Os olhos de Dougal, assim como os de Rupert, recaram sobre meu colo e l permaneceram com 
uma espcie de horrorizado fascnio. Trocaram olhares, depois Dougal olhou de novo para o meu rosto.
        - Que assim seja - disse, erguendo as sobrancelhas para mim. - Para uma ama, voc parece ter alguma habilidade de cura. Pode estancar o ferimento do rapaz 
o suficiente para ele montar um cavalo?
        - Posso fazer um curativo no ferimento, sim - eu disse com considervel rispidez. - Desde que tenha alguma coisa para cobri-lo. Mas o que quer dizer com 
"ama"? E por que acha que eu iria querer ajud-lo?
        Fui ignorada enquanto Dougal virava-se e falava para uma mulher agachada no canto em uma lngua que eu indistintamente reconheci como sendo o galico. Cercada 
pelo bando de homens, eu no havia notado a sua presena. Vestia-se de modo estranho, pensei, numa saia longa e esfarrapada e uma blusa de mangas compridas semi-coberta 
por uma espcie de corpete ou colete. Tudo parecia meio encardido, inclusive seu rosto.
        Entretanto, olhando  minha volta, pude notar que a cabana no s no tinha eletricidade como tambm no possua gua encanada; talvez houvesse uma desculpa 
para a sujeira.
        A mulher fez uma rpida mesura e, passando rapidamente por Rupert e Murtagh, comeou a remexer num ba de madeira pintada que estava junto  lareira, finalmente 
surgindo com uma pilha de trapos.
        - No, isso no serve - eu disse, manipulando-os com cuidado. -Primeiro, o ferimento tem que ser desinfetado, depois coberto com um pano limpo, se no houver 
ataduras esterilizadas.
        As sobrancelhas ergueram-se por todo o aposento.
        - Desinfetado? - disse o homenzinho, cautelosamente.
        - Sim, isso mesmo - eu disse com firmeza, achando-o um pouco simplrio, apesar do seu sotaque educado. - Toda a sujeira tem que ser removida do ferimento 
e ele tem que ser tratado com um composto que desencoraje a proliferao de germes e promova a cura.
        - Como o qu, por exemplo?
        - Como iodo - respondi. No vendo nenhum sinal de compreenso nos rostos  minha frente, tentei de novo. - Mertiolate? cido carblico diludo? - sugeri. 
- Ou talvez apenas lcool? - Olhares de alvio. Finalmente, eu encontrara uma palavra que pareciam reconhecer. Murtagh enfiou o frasco de couro em minhas mos. Suspirei 
com impacincia. Sabia que as Highlands eram primitivas, mas aquilo era quase inacreditvel.
        - Olhe - eu disse, com toda a pacincia que pude reunir. - Por que vocs simplesmente no o levam at  cidade? No deve ficar muito longe e tenho certeza 
que haver um mdico l que poder cuidar dele.
        A mulher me olhou boquiaberta.
        - Que cidade?
        O homem grandalho chamado Dougal ignorava a discusso, espreitando cautelosamente a escurido l fora pela borda da cortina. Deixou-a cair de volta no lugar 
e caminhou silenciosamente para a porta. Os homens fizeram silncio quando ele desapareceu na noite.
        Em poucos instantes, estava de volta. Trazendo o careca e o aroma pungente e frio dos pinheiros escuros com ele. Sacudiu a cabea em resposta aos olhares 
interrogativos dos homens.
        - No, nada por perto. Vamos imediatamente, enquanto  seguro. Vendo-me, parou por um instante, pensando. De repente, indicou-me
        com um movimento da cabea, a deciso tomada.
        - Ela vir conosco. - Remexeu na pilha de panos sobre a mesa e escolheu uma tira esfarrapada; parecia um leno de pescoo que j vira dias melhores.
        O homem de bigode no pareceu inclinado a concordar com que me levassem, onde quer que estivessem indo.
        - Por que ns simplesmente no a deixamos aqui?
        Dougal lanou-lhe um olhar impaciente, mas deixou a explicao a cargo de Murdoch.
        - Onde quer que os soldados ingleses estejam agora, estaro aqui ao amanhecer, o que no falta muito, se pensarmos bem. Se esta mulher for uma espi inglesa, 
no podemos nos arriscar a deix-la aqui para lhes dizer para onde fomos. E se ela no estiver em bons termos com eles - olhou para mim em dvida -, certamente no 
podemos deixar uma mulher sozinha aqui em suas roupas de baixo. - Animou-se um pouco, manuseando o tecido da minha saia. - Ela deve valer um bocado para um resgate; 
apesar da pouca roupa,  coisa fina.
        - Alm do mais - Dougal acrescentou, interrompendo -, ela pode ser til no caminho; ela parece saber um pouco de cuidados mdicos. Mas no temos tempo para 
isso agora. Receio que voc tenha que passar sem ser "desinfetado", Jamie - disse, dando um tapa de leve nas costas do jovem. - Pode cavalgar com uma das mos?
        - Posso.
        - Bom rapaz. Tome - disse, atirando o pano ensebado para mim. - Enfaixe o ferimento dele, depressa. Vamos partir imediatamente. Vocs dois, peguem os cavalos 
- disse, virando-se para o cara de fuinha e o gordo chamado Rupert.
        Revirei o farrapo nas mos com repugnncia.
        - No posso usar isto - reclamei. - Est imundo.
        Sem v-lo se mover, deparei-me com o grandalho agarrando-me pelo ombro, os olhos escuros a poucos centmetros dos meus.
        - Ande logo - disse.
        Libertando-me com um empurro, caminhou a passos largos em direo  porta e desapareceu atrs de seus dois capangas. Bastante abalada, voltei-me para a 
tarefa de enfaixar o ferimento  bala da melhor forma possvel. A idia de usar o imundo leno de pescoo era algo que minha formao de enfermeira no me deixava 
considerar. Tentei esconder minha confuso e pavor na tarefa de tentar encontrar algo mais adequado e, aps uma busca rpida e intil na pilha de farrapos, finalmente 
decidi-me por tiras de rayon rasgadas da bainha da minha combinao. Embora estivessem longe de estarem esterilizadas, era sem dvida o material mais limpo  mo.
        O linho da camisa do meu paciente era velho e gasto, mas ainda assim surpreendentemente forte. Com um certo esforo, rasguei o resto da manga e usei-a para 
improvisar uma tipia. Dei um passo atrs para analisar o resultado do curativo improvisado e esbarrei no grandalho, que entrara silenciosamente para observar.
        Olhou com ar de aprovao para a minha obra.
        - Bom trabalho, dona. Vamos, estamos prontos.
        Dougal entregou uma moeda para a mulher e conduziu-me apressadamente para fora da cabana, seguido mais lentamente de Jamie, ainda um pouco plido. Tendo 
se levantado do banquinho baixo, meu paciente mostrou ser bastante alto; ultrapassava Dougal em vrios centmetros, ele prprio um homem bem alto.
        Rupert, o sujeito de barba preta, e Murtagh seguravam seis cavalos, sussurrando-lhes palavras carinhosas em galico no escuro. Era uma noite sem lua, mas 
a luz das estrelas refletia-se nas tachas de metal das selas em lampejos prateados. Ergui os olhos e quase perdi a respirao, maravilhada; o cu noturno estava 
esplendorosamente coberto de estrelas de uma forma que eu jamais vira. Olhando para a floresta  minha volta, compreendi. Sem nenhuma cidade nas proximidades para 
velar o cu com sua luz, as estrelas dominavam a noite sem concorrncia.
        Ento, parei de repente, sentindo muito mais frio do que o frescor da noite justificava. Nenhuma luz de cidades. "Que cidade?", a mulher l dentro perguntara. 
Acostumada como eu estava a blecautes e ataques areos dos anos de guerra, a ausncia de luz no me perturbara no comeo. Mas estvamos em tempos de paz e as luzes 
de Inverness deveriam ser visveis por vrios quilmetros.
        Os homens eram figuras indistintas na escurido. Pensei em tentar escapar silenciosamente para o meio das rvores, mas Dougal, aparentemente adivinhando 
meus pensamentos, agarrou-me pelo cotovelo e empurrou-me em direo aos cavalos.
        -Jamie, suba - disse. - A moa vai cavalgar com voc. - Apertou meu cotovelo. - Pode segurar as rdeas, se Jamie no conseguir apenas com uma das mos, mas 
tenha cuidado de se manter sempre perto de ns. Se tentar alguma outra coisa, cortarei sua garganta. Compreendeu?
        Balancei a cabea, a garganta seca demais para responder. Sua voz no era particularmente ameaadora, mas eu acreditava em cada palavra. Eu era a menos inclinada 
a "tentar alguma coisa", j que no fazia a menor idia do que eu poderia tentar. No sabia onde estava, quem eram meus acompanhantes, por que estvamos partindo 
com tanta pressa ou para onde nos dirigamos, mas no tinha nenhuma alternativa razovel a no ser acompanh-los. Estava preocupada com Frank, que h muito tempo 
j devia ter comeado a me procurar, mas aquele no parecia o momento mais adequado para mencion-lo.
        Dougal deve ter pressentido o meu movimento de cabea, porque largou meu brao e abaixou-se ao meu lado. Fiquei parada, olhando estupidamente para ele, at 
ele dizer entre dentes:
        - O p, dona! Me d o seu p! Seu p esquerdo. - acrescentou, contrariado. Rapidamente, tirei meu p direito de sua mo e ergui o esquerdo.
        Resmungando baixinho, ele me ergueu para a sela, na frente de Jamie, que me apertou contra si com o brao bom.
        Apesar da estranheza geral da minha situao, senti-me grata pelo calor do jovem escocs. Cheirava fortemente a lenha queimada, sangue e odor masculino, 
mas o frio da noite atravessava meu vestido fino e fiquei contente em poder recostar-me contra ele.
        Sem mais do que um leve tinir dos freios, partimos na noite estrelada. No havia conversa entre os homens, somente uma cautelosa vigilncia geral. Os cavalos 
comearam a trotar assim que chegamos  estrada e eu mesma sacolejava desconfortavelmente demais para querer falar, mesmo supondo que algum estivesse disposto a 
me ouvir.
        Meu companheiro parecia no estar tendo muita dificuldade, apesar de no poder usar a mo direita. Eu podia sentir suas coxas atrs das minhas, s vezes 
mexendo-se e pressionando para guiar o cavalo. Agarrei-me  borda da pequena sela para me manter sentada; eu j montara antes, mas no era nem de longe o cavaleiro 
que esse Jamie era.
        Aps algum tempo, chegamos a uma encruzilhada, onde paramos por um instante enquanto o careca e o lder confabulavam em voz baixa. Jamie largou as rdeas 
sobre o pescoo do cavalo, deixando que se afastasse para a margem da estrada para pastar, e comeou a remexer-se e contorcer-se atrs de mim.
        - Cuidado! - eu disse. - No se remexa assim ou a atadura sair! O que est tentando fazer?
        - Soltar meu xale para cobri-la - respondeu. - Voc est tremendo de frio. Mas no consigo fazer isso s com uma das mos. Pode alcanar o prendedor do meu 
broche para mim?
        Depois de muitos esforos desajeitados, conseguimos soltar o xale. Com uma destreza surpreendente, ele fez o tecido girar e recair, como uma manta, em torno 
dos seus ombros. Em seguida, puxou as pontas por cima dos meus ombros e prendeu-as cuidadosamente embaixo das bordas da sela, de modo que ns dois ficamos confortavelmente 
cobertos.
        - Pronto! - disse. - No vamos querer que voc congele antes de chegarmos l.
        - Obrigada - eu disse, agradecida pela proteo. - Mas para onde estamos indo?
        Eu no podia ver seu rosto, atrs e acima de mim, mas ele fez uma pausa antes de responder.
        Finalmente, deu uma pequena risada.
        - Para lhe dizer a verdade, dona, eu no sei. Acho que vamos descobrir quando chegarmos, no ?
        Algo parecia ligeiramente familiar naquela regio rural que estvamos atravessando. Eu no conhecia aquela grande formao rochosa  nossa frente, a que 
se parecia com um rabo de galo?
        - Cocknammon Rock! - exclamei.
        - Sim, acho que sim - disse meu acompanhante, pouco interessado naquela revelao.
        - Os ingleses no a usavam para emboscadas? - perguntei, tentando me lembrar dos detalhes sombrios da histria local com que Frank passara horas me regalando 
na semana passada. - Se houver uma patrulha inglesa na vizinhana... - hesitei. Se houvesse uma patrulha inglesa na vizinhana, talvez fosse um erro eu chamar ateno 
para isso. No entanto, no caso de uma emboscada, eu no seria distinguida de meu companheiro, cobertos como estvamos com um nico xale. Alm do mais, pensei novamente 
no capito Jonathan Randall e estremeci involuntariamente. Tudo que eu vira desde que entrara na fenda da pedra apontava para a concluso inteiramente irracional 
de que o homem que eu encontrara no bosque era na verdade o antepassado de Frank. Lutei obstinadamente contra essa concluso, mas no era capaz de formular nenhuma 
outra que combinasse com os fatos.
        No incio, imaginei que estivesse apenas sonhando mais vividamente do que o normal, mas o beijo de Randall, rudemente familiar e imediatamente fsico, dissipara 
essa impresso. Nem eu imaginava que tivesse sonhado que fora acertada com um golpe na cabea por Murtagh; o ponto dolorido no meu couro cabeludo igualava a parte 
interna das minhas coxas roando contra a sela, o que no tinha nada de fantasioso. E o sangue; sim, estava suficientemente familiarizada com sangue para j ter 
sonhado com ele. Mas nunca sonhei com o cheiro do sangue; aquele cheiro forte, penetrante, morno, que eu ainda sentia no homem atrs de mim.
        Ele estalou a lngua para tocar o cavalo e emparelhou com o lder, entabulando uma tranqila conversa em galico com a sombra corpulenta. Os cavalos reduziram 
a marcha.
        A um sinal do lder, Jamie, Murtagh e o homem pequeno e careca deixaram-se ficar para trs, enquanto os outros dois incitaram os cavalos com as esporas e 
galoparam em direo  rocha, a uns quatrocentos metros  nossa direita. Uma lua crescente surgira no cu e a claridade era suficiente para distinguir as folhas 
de malva que cresciam nas margens da estrada, mas as sombras nas reentrncias da rocha poderiam esconder qualquer coisa.
        No exato instante em que as figuras a galope passaram diante da enorme pedra, o lampejo do disparo de um mosquete brilhou de uma cavidade na parede da rocha. 
Um grito de gelar o sangue nas veias partiu de trs de mim e o cavalo deu um salto para a frente como se tivesse sido espetado com uma vara pontuda. De repente, 
estvamos correndo desabalados em direo  rocha, atravs das urzes, Murtagh e os outros homens ao lado, berros horripilantes cortando o ar da noite.
        Agarrei-me com todas as foras no aro da sela. De repente, puxando as rdeas e freando perto de um grande arbusto de tojo, Jamie agarrou-me pela cintura 
e sem nenhuma cerimnia descarregou-me sobre ele. O cavalo girou bruscamente e disparou outra vez, dando a volta na rocha para vir pelo lado sul. Pude ver o cavaleiro 
agachar-se bem baixo na sela enquanto o cavalo desaparecia nas sombras da rocha. Quando surgiu novamente, ainda galopando, a sela estava vazia.
        As superfcies da rocha eram cravejadas de sombras; podia ouvir gritos e um ou outro tiro de mosquete, mas, no conseguia saber se os movimentos que via 
eram dos homens ou apenas as sombras dos carvalhos atrofiados que brotavam nas fendas da rocha.
        Desembaracei-me do arbusto com alguma dificuldade, tirando fragmentos espinhosos de tojo da minha saia e dos meus cabelos. Lambi um arranho em minha mo, 
perguntando-me o que deveria fazer agora. Poderia esperar que a batalha na rocha fosse decidida. Se os escoceses vencessem, ou ao menos sobrevivessem, imaginei que 
poderiam voltar  minha procura. Caso contrrio, eu poderia aproximar-me dos ingleses, que poderiam presumir que, se eu estava viajando com os escoceses, deveria 
estar mancomunada com eles. Mancomunada para fazer o qu eu no fazia a menor idia, mas era bvio pelo comportamento dos homens na cabana que estavam empenhados 
em alguma coisa que os ingleses deveriam desaprovar inteiramente.
        Talvez fosse melhor evitar os dois lados do conflito. Afinal, agora que eu sabia onde estava, tinha alguma chance de voltar a uma cidade ou vila que eu conhecesse, 
ainda que tivesse que percorrer todo o trajeto a p. Parti decididamente em direo  estrada, tropeando em incontveis pedaos de granito, os filhotes bastardos 
de Cocknammon Rock.
        O luar tornava a caminhada enganadora; embora pudesse ver cada detalhe do solo, no tinha percepo de profundidade; plantas rasteiras e pedras pontiagudas 
pareciam ter a mesma altura, fazendo com que eu levantasse meus ps absurdamente alto sobre obstculos inexistentes e desse topada com os dedos nas pedras protuberantes. 
Andava o mais rpido que conseguia, atenta aos sons de perseguio atrs de mim.
        Os rudos da batalha haviam desaparecido quando cheguei  estrada. Percebi que ficaria muito visvel na estrada, mas precisava segui-la, se quisesse encontrar 
meu caminho para uma cidade. No tinha nenhuma noo de direo no escuro e nunca aprendera com Frank sua habilidade de se orientar pelas estrelas. Pensar em Frank 
me deu vontade de chorar, ento tentei distrair-me procurando compreender os acontecimentos daquela tarde.
        Parecia inconcebvel, mas todas as evidncias indicavam que eu estava em um lugar onde os costumes e a poltica do final do sculo XVIII ainda vigoravam. 
Eu teria imaginado que tudo no passava de algum tipo de espetculo  fantasia, se no fosse pelos ferimentos do jovem a quem chamam de Jamie. Aquele ferimento fora 
realmente provocado por algo muito semelhante a um tiro de mosquete, a julgar pelos estragos que deixara. O comportamento dos homens na cabana tambm no era consistente 
com nenhum tipo de representao teatral. Eram homens srios e as adagas e espadas eram reais.
        Poderia ser algum enclave isolado do resto do mundo, talvez, onde os aldees reencenavam parte de sua histria periodicamente? Ouvi falar de coisas semelhantes 
na Alemanha, embora nunca na Esccia. Voc tambm nunca ouviu falar dos atores atirarem uns contra os outros com mosquetes, ouviu? Escarnecia a parte incomodamente 
racional da minha mente.
        Olhei para trs, para a rocha, a fim de verificar a minha posio, depois para a frente, para o horizonte, e meu sangue congelou nas veias. No havia nada 
l seno os galhos pontiagudos dos pinheiros, impenetravelmente negros contra a vastido de estrelas. Onde estavam as luzes de Inverness? Se esta era Cocknammon 
Rock atrs de mim, como eu sabia que era, ento Inverness deveria estar a menos de cinco quilmetros a sudoeste. A essa distncia, eu deveria poder ver o claro 
da cidade contra o cu. Se ela estivesse l.
        Sacudi a cabea com irritao, abraando meus cotovelos contra o frio. Mesmo admitindo por um instante a idia completamente implausvel de que eu estivesse 
em outro tempo que no o meu, Inverness j existia no lugar atual h cerca de seiscentos anos. Ela estava l. Mas, tudo indicava, no tinha luz. Nas circunstncias 
atuais, isso indicava que no havia luz eltrica. Mais uma prova, se eu precisava. Mas prova de qu, exatamente?
        Uma figura saiu da escurido to perto de mim que eu quase esbarrei nela. Contendo um grito, virei-me para correr, mas a mo grande e forte agarrou meu brao, 
impedindo-me de fugir.
        - No se preocupe, dona. Sou eu.
        - Era o que eu temia - disse asperamente, embora na realidade ficasse aliviada por ser Jamie. Eu no sentia tanto medo dele quanto dos outros homens, embora 
parecesse igualmente perigoso. Ainda assim, ele era jovem, at mais novo do que eu, conclu. Era difcil para mim sentir medo de algum a quem h to pouco tempo 
eu havia tratado como meu paciente.
        - Espero que no tenha usado esse ombro - eu disse, num tom de censura de uma enfermeira-chefe de hospital. Se eu pudesse estabelecer um certo tom de autoridade, 
talvez pudesse convenc-lo a me deixar partir.
        - Aquele confronto no ajudou muito - admitiu, massageando o ombro com a mo livre.
        Nesse momento, ele entrou numa faixa de luar e eu pude ver a enorme mancha de sangue na frente de sua camisa. Sangramento arterial, pensei imediatamente; 
mas, ento, como ele ainda est de p?
        - Voc est ferido! - exclamei. - Voc abriu o ferimento do ombro ou  um ferimento novo? Sente-se, deixe-me ver! - Empurrei-o para uma pilha de pedras, 
repensando rapidamente os procedimentos para tratamento emergencial em campo. Nenhum recurso  mo, a no ser o que eu estava usando. Estava pegando o que restava 
da minha combinao, pretendendo us-la para estancar o sangramento, quando ele riu.
        - No, no se preocupe, dona. Esse no  meu sangue. Pelo menos, grande parte dele - acrescentou, cuidadosamente afastando o tecido encharcado do seu corpo.
        Engoli em seco, sentindo-me um pouco tonta.
        - Ah - balbuciei.
        - Dougal e os outros esto esperando na estrada. Vamos. - Segurou-me pelo brao, menos um gesto cavalheiresco do que uma forma de me forar a acompanh-lo. 
Resolvi arriscar e finquei os calcanhares no cho.
        - No! Eu no vou com vocs!
        Ele parou, surpreso com a minha resistncia.
        - Vai, sim.
        No parecia contrariado com a minha recusa; na verdade, parecia achar engraado que eu me recusasse a ser seqestrada outra vez.
        - E se eu no for? Vai cortar minha garganta? - perguntei, forando a discusso. Ele considerou as alternativas e respondeu calmamente.
        - Ora, no. Voc no parece pesada. Se no andar, vou peg-la e carreg-la no ombro. Quer que eu faa isso? - Deu um passo em minha direo e eu recuei apressadamente. 
No tinha a menor dvida de que ele faria exatamente isso, ferido ou no.
        - No! No pode fazer isso; vai prejudicar o ombro outra vez.
        No era possvel distinguir suas feies com clareza, mas o luar fez seus dentes brilharem quando ele riu.
        - Bem, ento, j que no deseja que eu me machuque, suponho que isso signifique que vai me acompanhar?
        Busquei desesperadamente uma resposta, mas no consegui encontrar uma a tempo. Tomou meu brao outra vez, com firmeza, e partimos em direo  estrada.
        Jamie segurava meu brao com fora, erguendo-me e equilibrando-me quando eu tropeava em pedras e plantas. Ele prprio caminhava como se a charneca cheia 
de tocos e buracos fosse uma estrada pavimentada em plena luz do dia. Ele tem sangue de gato, refleti amargamente, sem dvida foi assim que conseguiu se aproximar 
to silenciosamente de mim no escuro.
        Os outros homens estavam, como anunciado, esperando com os cavalos a pouca distncia; aparentemente, no houve perdas ou feridos, pois estavam todos presentes. 
Erguendo-me com dificuldade e de modo vexatrio, deixei-me cair na sela outra vez. Minha cabea deu uma pancada involuntria no ombro ferido de Jamie e ele prendeu 
a respirao com um chiado.
        Tentei disfarar meu ressentimento por ter sido recapturada e meu remorso por t-lo machucado com um ar de ameaadora impertinncia.
        - Bem feito, brigando por a e correndo atrs dos outros no meio do mato e das pedras. Eu lhe disse para no mexer a articulao; agora, provavelmente tem 
msculos distendidos, alm de contuses.
        Ele parecia divertir-se com minha repreenso.
        - Bem, no tive muita escolha. Se no movesse meu ombro, nunca mais ia mover nada. Posso dar conta de um soldado ingls com uma das mos, talvez at mesmo 
de dois - disse, gabando-se um pouco -, mas no de trs.
        - Alm do mais - disse, puxando-me para junto de sua camisa coberta de sangue -, voc pode cuidar dele para mim quando chegarmos onde estamos indo.
        -  o que voc pensa - eu disse friamente, afastando-me do tecido pegajoso. Ele estalou a lngua para o cavalo e partimos outra vez. Os homens estavam exaltados 
e bem-humorados aps a luta e havia muito riso e brincadeiras. Minha pequena participao em abortar a emboscada foi muito elogiada e brindes foram feitos em minha 
honra com os frascos que vrios dos homens carregavam.
        Ofereceram-me um pouco do contedo, mas logo declinei com a justificativa de que j achava bastante difcil me manter na sela estando sbria. Da discusso 
dos homens, compreendi que se tratara de uma pequena patrulha de cerca de dez soldados ingleses, armados com mosquetes e sabres.
        Algum passou um frasco para Jamie e pude sentir o cheiro da bebida forte enquanto ele bebia. Eu no estava com sede, mas o leve aroma de mel me fez lembrar 
que estava faminta e j h algum tempo. Meu estmago roncou com um barulho alto e constrangedor, protestando contra a minha negligncia.
        - Ei, Jamie, meu rapaz! Com fome, hein? Ou tem uma gaita de foles a com voc? - gritou Rupert, confundindo a origem do rudo.
        - Com fome suficiente para comer um monte de gaitas de foles, eu acho - Jamie gritou, elegantemente assumindo a culpa. Um instante depois, sua mo surgiu 
 minha frente com um frasco.
        -  melhor tomar um pequeno gole - sussurrou para mim. - No vai encher sua barriga, mas vai fazer voc esquecer que est com fome.
        E muitas outras coisas tambm, esperava. Inclinei o frasco e engoli.
        Meu acompanhante tinha razo; o usque criou um leve e agradvel calor que queimou confortavelmente no meu estmago, encobrindo a fome aguda. Prosseguimos 
sem outros incidentes por vrios quilmetros, revezando tanto com as rdeas quanto com o frasco de usque. Entretanto, perto de uma cabana em runas, a respirao 
regular do meu acompanhante mudou gradativamente para uma respirao arquejante e entrecortada. Nosso precrio equilbrio, at aqui controlado num balano sbrio, 
tornou-se muito mais errtico. Fiquei confusa; se eu no estava bbada, parecia improvvel que ele estivesse.
        - Parem! Ajudem! - gritei. - Ele vai cair! - Lembrei-me da minha ltima descida repentina e no estava inclinada a repeti-la.
        Vultos escuros fizeram a volta e aglomeraram-se  nossa volta, num sussurro confuso de vozes. Jamie deslizou de cima do cavalo de cabea, como um saco de 
pedras, felizmente aterrissando nos braos de algum. Quando finalmente consegui desmontar, o resto dos homens j descera dos cavalos e o deitara no cho.
        - Est respirando - algum disse.
        - Bem, grande ajuda - retruquei, buscando freneticamente sentir seu pulso na escurido. Encontrei-o finalmente, rpido, mas bastante forte. Colocando a mo 
em seu peito e o ouvido junto  sua boca, pude sentir uma subida e uma descida regular, menos arquejante. Ergui-me.
        - Acho que ele apenas desmaiou - eu disse. - Coloque um alforje sob seus ps e, se houver gua, tragam um pouco. - Fiquei surpresa de ver que minhas ordens 
foram imediatamente obedecidas. Aparentemente, o jovem era importante para eles. Ele resmungou e abriu os olhos, as olheiras negras sob a luz das estrelas. Na luz 
fraca, seu rosto parecia uma caveira, a pele branca estendida sobre os ossos proeminentes em torno das rbitas.
        - Estou bem - disse, tentando se sentar. - S um pouco tonto. -Coloquei a mo em seu peito e obriguei-o a deitar-se outra vez.
        - Deite-se quieto - ordenei. Fiz um rpido exame com as mos, ergui-me sobre os joelhos e me virei para uma figura que assomava acima de mim e que deduzi, 
pelo tamanho, que deveria ser o lder, Dougal.
        - O ferimento de bala est sangrando outra vez e o idiota foi esfaqueado tambm. Acho que no  grave, mas ele perdeu muito sangue. Sua camisa est ensopada, 
mas no sei quanto desse sangue  dele. Precisa repousar e ficar quieto; deveramos acampar aqui pelo menos at amanhecer.
        A figura fez um movimento negativo.
        - No. Estamos mais longe do que a guarnio se aventuraria, mas ainda temos que nos preocupar com a patrulha. Ainda temos mais de trinta quilmetros de 
viagem. - A cabea sem feies inclinou-se para trs, estimando o movimento das estrelas.
        - Cinco horas, pelo menos, e mais provvel sete. Podemos ficar o tempo suficiente para voc estancar o sangramento e fazer um novo curativo; no muito mais 
do que isso.
        Comecei a trabalhar, resmungando comigo mesma, enquanto Dougal, com um sussurro, despachou uma das outras sombras para montar guarda junto aos cavalos perto 
da estrada. Os outros homens relaxaram, bebendo de seus frascos e conversando em voz baixa. Murtagh, com seu rosto de fuinha, ajudava-me, rasgando tiras de linho, 
buscando mais gua e erguendo o paciente para que a atadura fosse colocada, j que Jamie estava terminantemente proibido de se mexer, apesar de reclamar que estava 
perfeitamente bem.
        - Voc no est bem e no  de admirar - retruquei, dando vazo ao meu medo e irritao. - Que tipo de idiota  esfaqueado e no pra nem para cuidar do 
ferimento? No podia ter dito que estava sangrando? Tem sorte de no estar morto, andando por a a noite toda, brigando, lutando e se atirando de cima de cavalos... 
fique quieto, seu tolo desgraado. - As tiras de linho e de rayon com que eu trabalhava eram irritantemente enganosas no escuro. Escorregavam, escapando da minha 
mo, como peixes arremessando-se para guas profundas com um lampejo zombeteiro de barrigas brancas. Apesar do frio, o suor escorria pelo meu pescoo. Finalmente, 
consegui amarrar uma das pontas e tentei alcanar a outra, que insistia em deslizar para trs do meu paciente.
        - Volte aqui, seu... ah, seu desgraado maldito filho-da-me! -Jamie mexera-se e a ponta que j estava amarrada se soltou.
        Fez-se um momento de silncio chocado.
        - Nossa! - exclamou o gordo de nome Rupert. - Nunca ouvi uma mulher usar essa linguagem em toda a minha vida.
        - Ento voc no conheceu minha tia Grisel - disse outra voz, seguida de uma risada geral.
        - Seu marido devia lhe ensinar, dona - retorquiu uma voz austera sada da escurido sob uma rvore. - So Paulo disse "Que uma mulher fique em silncio e..."
        - Meta-se com sua vida - falei entre dentes, o suor escorrendo por trs de minhas orelhas - e So Paulo tambm. - Limpei a testa com a manga do meu vestido. 
- Vire-o para a esquerda. E se voc - dirigindo-me a meu paciente - mover um msculo sequer enquanto eu estiver amarrando essa atadura, vou esgan-lo.
        - Ah, est bem - respondeu docemente.
        Puxei com muita fora a ltima atadura e todo o curativo se soltou.
        - Maldito, que v para o inferno! - berrei, batendo a mo no cho, frustrada. Fez-se outro momento de silncio escandalizado e, em seguida, enquanto eu tateava 
no escuro procurando as pontas soltas da atadura, ouviram-se novos comentrios a respeito da minha linguagem nada feminina.
        - Talvez devssemos envi-la para St. Anne, Dougal - sugeriu uma das figuras sem rosto agachada junto  estrada. - No ouvi Jamie praguejar nem uma vez desde 
que deixamos a costa e ele costumava ter uma boca de deixar qualquer marinheiro envergonhado. Quatro meses em um mosteiro devem ter surtido algum efeito. Voc j 
nem usa o nome de Deus em vo, no , rapaz?
        - Voc tambm no usaria se tivesse que pagar penitncia por isso deitado por trs horas no meio da noite no cho de pedra de uma capela, em fevereiro, vestindo 
apenas a sua camisa - respondeu meu paciente.
        Todos os homens riram, enquanto ele continuava.
        - A penitncia foi apenas de duas horas, mas foi preciso mais uma para conseguir me levantar do cho; eu achei que meu... h, eu achei que tinha congelado 
at os ossos, mas s estava emperrado.
        Aparentemente, sentia-se melhor. Sorri involuntariamente, mas ainda assim falei com firmeza:
        - Voc fique quieto a ou vou machuc-lo.
        Tocou com cuidado no curativo e eu afastei sua mo com um tapa.
        - Ah, ameaas, hein? - perguntou com insolncia. - E mesmo depois de eu ter compartilhado minha bebida com voc!
        O frasco terminou de percorrer a roda de homens. Ajoelhando-se ao meu lado, Dougal inclinou-o cuidadosamente para que o paciente bebesse. O cheiro penetrante, 
queimado, do usque nada refinado elevou-se no ar e eu coloquei a mo no frasco, retendo-o.
        - Nada mais de bebida alcolica - eu disse. - Ele precisa de ch ou, na pior das hipteses, gua. No de lcool.
        Dougal puxou o frasco da minha mo, ignorando-me completamente, e despejou um grande gole da aguardente pela garganta do meu paciente, fazendo-o tossir. 
Esperando apenas o suficiente para que o homem deitado no cho recuperasse o flego, repetiu a dose.
        - Pare com isso! - Tentei pegar o usque outra vez. - Quer que ele fique to bbado que no consiga ficar em p?
        Fui rudemente afastada com uma cotovelada.
        - Uma bruxa mal-humorada, no ? - disse meu paciente, achando graa.
        - Cuide de sua vida, dona - Dougal ordenou. - Ainda temos um bom caminho para percorrer esta noite e ele vai precisar de todas as foras que a bebida puder 
lhe dar.
        Assim que as ataduras foram bem amarradas, meu paciente tentou sentar-se. Empurrei-o de costas outra vez e finquei o joelho no seu peito para mant-lo na 
posio.
        - Voc no vai se mexer - eu disse, furiosa. Agarrei a bainha do kilt de Dougal e puxei-a rudemente, fazendo com que se ajoelhasse novamente ao meu lado.
        - Olhe isso - ordenei, no melhor tom de enfermeira-chefe. Enfiei em sua mo a trouxa encharcada da camisa descartada. Ele deixou-a cair no cho com uma exclamao 
de nojo.
        Peguei sua mo e coloquei-a no ombro do paciente.
        - E olhe aqui. Algum tipo de lmina atravessou o msculo trapzio.
        - Uma baioneta - acrescentou o paciente, solcito.
        - Uma baioneta! - exclamei. - E por que no me disse? Encolheu os ombros e reprimiu um leve grunhido de dor.
        - Senti quando entrou, mas no sabia se o ferimento fora grande. No doeu muito.
        - Est doendo agora?
        - Est - respondeu laconicamente.
        - timo - retruquei, completamente irritada. - Voc merece. Talvez isso lhe ensine a no sair por a correndo, seqestrando mulheres e matando pessoas e... 
- senti-me ridiculamente  beira das lgrimas e parei, lutando para me controlar.
        Dougal estava ficando impaciente com aquela conversa.
        - Bem, voc consegue manter um p de cada lado do cavalo, rapaz?
        - Ele no pode ir a lugar algum! - protestei, indignada. - Ele devia estar no hospital! Certamente no pode...
        Meus protestos, como sempre, foram completamente ignorados.
        - Pode montar? - Dougal repetiu.
        - Sim, se voc tirar a moa de cima do meu peito e me arranjar uma camisa limpa.
        
        
        
        4 - CHEGO AO CASTELO
        
        O resto da viagem transcorreu sem novos incidentes, se no considerarmos incidentes cavalgar mais de trinta quilmetros por uma regio agreste  noite, em 
geral sem o benefcio de estradas, na companhia de homens de kilt armados at os dentes e compartilhando um cavalo com um ferido. Ao menos, no fomos emboscados 
por ladres de estrada, no nos deparamos com nenhum animal feroz e no choveu. Pelos padres a que estava ficando acostumada, foi bastante sem graa.
        O alvorecer aproximava-se com raios e faixas de luz sobre a charneca enevoada. Nosso destino assomou  frente, uma enorme construo de pedra escura delineada 
contra a luz cinzenta.
        A vizinhana j no era tranqila e deserta. Havia um pequeno fluxo de pessoas grosseiramente vestidas dirigindo-se ao castelo. Deslocaram-se para a margem 
da estrada estreita para deixar os cavalos passarem, olhando com espanto para minhas roupas, que obviamente consideravam estranhas.
        Como se poderia esperar, a neblina era espessa, mas havia luz suficiente para revelar uma ponte de pedra, formando um arco sobre um riacho que corria em 
frente ao castelo, em direo a um lago que brilhava fosca-mente a uns quatrocentos metros de distncia.
        O castelo em si era slido e de linhas bruscas. Nada de pequenas torres excntricas ou muralhas denteadas. Parecia mais uma enorme fortaleza, com grossos 
muros de pedra e janelas altas e estreitas, no mais do que uma fenda. Diversas chamins soltavam fumaa acima das pedras lisas do telhado de ardsia, contribuindo 
para a impresso cinzenta geral.
        Os portes de entrada do castelo eram suficientemente largos para deixarem passar duas carroas lado a lado. Digo isso sem receio de contradio, porque 
era exatamente o que estava acontecendo quando atravessvamos a ponte. Uma das carroas puxadas a bois estava carregada de barris e a outra de feno. Nossa pequena 
procisso de cavaleiros aglomerou-se na ponte, esperando impacientemente que as carroas terminassem sua difcil entrada.
        Arrisquei uma pergunta enquanto os cavalos avanavam com cuidado pelas pedras escorregadias do ptio molhado. No falara com meu acompanhante desde que refizera 
o curativo de seu ombro  beira da estrada. Ele tambm permanecera em silncio, exceto por um ou outro gemido de desconforto quando um passo em falso do cavalo o 
sacudia.
        - Onde estamos? - perguntei, a voz rouca do frio e da falta de uso.
        - Na fortaleza Leoch - respondeu laconicamente.
        Castelo Leoch. Bem, ao menos agora eu sabia onde estava. Quando o conheci, o Castelo Leoch era uma runa pitoresca, a uns cinqenta quilmetros ao norte 
de Bargrennan. Era bem mais pitoresco agora, com os porcos fuando a terra sob as muralhas da fortaleza e o penetrante mau cheiro de esgoto no tratado. Eu estava 
comeando a aceitar a idia fantstica de que eu estava, provavelmente, em algum momento do sculo XVIII.
        Tinha certeza de que tanta sujeira e caos no existiam em nenhum lugar da Esccia de 1945, com ou sem crateras de bombas. E definitivamente estvamos na 
Esccia; o sotaque das pessoas no ptio do castelo no deixava nenhuma dvida a respeito.
        - Ol, Dougal - gritou um cavalario, correndo para agarrar o cabresto do cavalo do lder. - Chegou cedo, hein! No espervamos v-lo antes do Grande Encontro!
        O lder de nosso pequeno grupo desceu da sela, deixando as rdeas com o jovem imundo.
        - Sim, bem, tivemos sorte, tanto boa quanto m. Vou ver meu irmo. Pode chamar a sra. Fitz para dar comida aos rapazes? Esto precisando de uma refeio 
e de camas.
        Fez sinal para que Murtagh e Rupert o acompanhassem e, juntos, desapareceram sob um arco pontiagudo.
        O resto de ns desmontou e ficou parado no ptio mido, soltando o vapor da respirao, por mais uns dez minutos at que a sra. Fitz, quem quer que fosse, 
concordou em aparecer. Um punhado de crianas curiosas reuniu-se  nossa volta, especulando sobre a minha possvel origem e funo. Os mais ousados comeavam a reunir 
coragem para tocar a minha saia quando uma mulher robusta e decidida, vestida de linho rstico marrom-escuro, tecido em tear manual, surgiu com grande estardalhao 
e botou as crianas em fuga.
        - Willy, querido! - gritou. - Que bom ver voc! E Neddie! - Deu um caloroso beijo de boas-vindas no homenzinho careca que quase o derrubou. - Imagino que 
estejam mortos de fome. H muita comida na cozinha. Vo l e sirvam-se. - Virando-se para mim e Jamie, deu um salto para trs como se tivesse sido mordida por uma 
cobra. Olhou-me estupefata, depois se virou para Jamie em busca de uma explicao para aquela apario.
        - Claire - ele disse, com uma ligeira inclinao da cabea em minha direo. -  a sra. Fitz-Gibbons - acrescentou, com uma inclinao para o outro lado. 
- Murtagh encontrou-a ontem e Dougal disse que deveramos traz-la conosco - acrescentou, deixando claro que no adiantava culp-lo.
        A sra. Fitz-Gibbons fechou a boca e olhou-me de cima a baixo com um ar de sbia avaliao. Aparentemente, concluiu que eu parecia bastante inofensiva, independente 
da minha aparncia estranha e escandalosa, porque sorriu - afavelmente, apesar da ausncia de vrios dentes - e tomou-me pelo brao.
        - Bem, Claire. Seja bem-vinda. Venha comigo e encontraremos algo um pouco mais...hum... - Examinou minha saia curta e sapatos inadequados, sacudindo a cabea.
        Conduzia-me com firmeza para longe dos demais quando me lembrei do meu paciente.
        - Ah, espere, por favor! Esqueci-me de Jamie! A sra. Fitz-Gibbons surpreendeu-se.
        - Ora, Jamie pode se defender sozinho. Ele sabe onde encontrar comida e algum achar uma cama para ele.
        - Mas ele est ferido. Levou um tiro ontem e foi esfaqueado  noite. Fiz uma atadura para que ele pudesse cavalgar, mas no tive tempo de limpar o ferimento 
ou fazer um curativo adequado. Tenho que cuidar disso agora, antes que fique infeccionado.
        - Infeccionado?
        - Sim, isto , quer dizer, antes que inflame, sabe, fique inchado e com pus e tenha febre.
        - Ah, sim, entendi. Mas quer dizer que voc sabe o que fazer nesse caso?  uma feiticeira, ento? Uma Beatori?
        - Algo assim. - No fazia a menor idia do que uma Beaton poderia ser, nem tinha nenhuma vontade de entrar em detalhes a respeito das minhas qualificaes 
mdicas, ali parada na garoa fria que comeara a cair. A sra. Fitz-Gibbons pareceu ser da mesma opinio, pois chamou Jamie, que partia na direo oposta, e tomando-o 
pelo brao tambm, nos arrastou para dentro do castelo.
        Aps uma longa caminhada por corredores estreitos e frios, mal iluminados por janelas que no passavam de fendas nas paredes, chegamos a um aposento razoavelmente 
grande, equipado com uma cama, uns dois bancos e, mais importante, uma lareira.
        Ignorei meu paciente temporariamente, at descongelar minhas mos. A sra. Fitz-Gibbons, aparentemente imune ao frio, fez Jamie sentar-se em um dos bancos 
junto  lareira e delicadamente retirou os restos de sua camisa esfarrapada, substituindo-a por uma coberta quente que tirou da cama. Estalou a lngua em desaprovao 
ao ver seu ombro, que estava roxo e inchado, e cutucou meu desajeitado curativo.
        Virei-me do fogo.
        - Acho que vai ter que ser molhado para ser retirado e depois o ferimento ter que ser limpo com uma soluo para... para evitar febres.
        A sra. Fitz-Gibbons teria sido uma tima enfermeira.
        - O que voc vai precisar? - perguntou simplesmente.
        Pensei diligentemente. O que, em nome de Deus, as pessoas usavam para evitar infeco antes do surgimento de antibiticos? E daquelas limitadas frmulas, 
quais poderiam estar disponveis em um primitivo castelo escocs logo ao amanhecer?
        - Alho! - disse, triunfante. - Alho e, se tiver, hamamlis. Tambm vou precisar de vrias tiras limpas e de uma chaleira para ferver gua.
        - Ah, sim, acho que podemos arranjar isso; talvez um pouco de confrei tambm. Que tal um pouco de ch de eupatrio, ou de camomila? Parece que esse rapaz 
atravessou uma longa noite.
        O jovem na verdade mal conseguia permanecer sentado, cansado demais para protestar contra o fato de estarmos discutindo a seu respeito como se fosse um objeto 
inanimado.
        Logo a sra. Fitz-Gibbons estava de volta, com um avental cheio de cabeas de alho, saquinhos de gaze de ervas secas e tiras de linho. Uma pequena chaleira 
preta de ferro pendia do brao carnudo e ela segurava um grande garrafo empalhado de gua como se no passasse de penugem de ganso.
        - Bem, minha querida, o que quer que eu faa? - disse animadamente. Pedi que fervesse gua e fosse descascando os dentes de alho, enquanto eu inspecionava 
o contedo dos pacotes de ervas. L estavam a hamamlis que eu pedira, o eupatrio e o confrei para ch e algo que identifiquei experimentalmente como casca de cerejeira.
        - Analgsico - murmurei alegremente, lembrando-me do sr. Crook explicando-me as propriedades das cascas e ervas que encontrvamos. timo, amos precisar 
disso.
        Atirei vrios dentes de alho na gua fervente com um pouco da hamamlis, em seguida acrescentei as tiras de pano na mistura. O confrei, o eupatrio e a casca 
de cerejeira estavam em infuso em uma pequena panela de gua quente colocada junto ao fogo. Os preparativos haviam me animado um pouco. Se no sabia ao certo onde 
estava, ou por que estava ali, ao menos sabia o que fazer nos prximos quinze minutos.
        - Obrigada... ah, sra. Fitz-Gibbons - eu disse respeitosamente. - Posso dar conta sozinha agora, se tem outras coisas para fazer. - A corpulenta senhora 
riu, os seios erguendo-se.
        - Ah, menina! Tenho realmente muitas coisas para fazer! Mandarei um pouco de sopa aqui para vocs. Mande me chamar se precisar de alguma coisa. - Saiu gingando 
em direo  porta com uma velocidade surpreendente e desapareceu para cuidar de seus afazeres.
        Retirei as ataduras com o maior cuidado possvel. Ainda assim, o chumao de rayon grudara na carne e saiu com um pequeno estalido de sangue seco. Gotculas 
de sangue afloraram nas bordas do ferimento e eu pedi desculpas por estar machucando-o, embora ele no tivesse se mexido ou emitido nenhum som.
        Ele sorriu ligeiramente, talvez com um leve toque de flerte.
        - No se preocupe, dona. J sofri ferimentos muito mais graves e por pessoas bem menos bonitas.
        Inclinou-se para a frente para que eu pudesse lavar o ferimento com a decoco de alho e a coberta escorregou de seus ombros.
        Vi imediatamente que, fosse ou no um elogio, seu comentrio era a afirmao de um fato verdadeiro; ele sofrera ferimentos muito mais graves. A parte de 
cima de suas costas era encoberta de esmaecidas linhas brancas entrecruzadas. Ele havia sido cruelmente aoitado. E mais de uma vez. Havia pequenos verges de tecido 
prateado em alguns pontos, onde as chicotadas se cruzavam, e reas irregulares onde vrios golpes haviam atingido o mesmo ponto, esfolando a pele e cortando o msculo.
        Eu j vira,  claro, uma grande variedade de ferimentos e machucados, sendo uma enfermeira no campo de batalha, mas havia algo naquelas cicatrizes que parecia 
terrivelmente brutal. Devo ter prendido a respirao ao v-las, porque ele virou a cabea e viu a expresso do meu rosto. Encolheu o ombro bom.
        - Soldados ingleses. Me aoitaram duas vezes no espao de uma semana. Teriam feito isso duas vezes no mesmo dia, eu acho, se no tivessem medo de me matar. 
No h graa em aoitar um homem morto.
        Tentei manter a voz firme enquanto limpava seu ferimento.
        - No imagino que algum possa fazer isso por prazer.
        - No? Deveria t-lo visto.
        - Quem?
        - O capito ingls que arrancou a pele das minhas costas. Se no estava exatamente feliz, estava pelo menos muito satisfeito consigo mesmo. Mais do que eu 
- acrescentou ironicamente. - Seu nome era Randall.
        - Randall! - No consegui disfarar a surpresa em minha voz. Olhos azuis e frios fitaram os meus.
        - Conhece o sujeito? - A voz tornou-se repentinamente desconfiada.
        - No, no! Conheci uma famlia com este nome h muito, muito tempo. - Em meu nervosismo, deixei cair o pano com que limpava o ferimento.
        - Droga, agora vai ter que ser fervido outra vez. - Peguei-o do cho e sa s pressas em direo  lareira, tentando esconder o estado de confuso em que 
me encontrava. Seria possvel que esse capito Randall fosse o ancestral de Frank, o soldado com excelentes referncias, galante no campo de batalha, digno de louvores 
de duques? E se assim fosse, poderia algum aparentado do meu amvel e gentil Frank ser capaz de infligir as horripilantes marcas nas costas daquele rapaz?
        Procurei me manter ocupada junto ao fogo, despejando mais alguns punhados de hamamlis e alho na gua, colocando mais panos para ferver. Quando achei que 
conseguia controlar minha voz e meu rosto, voltei para perto de Jamie, o pano na mo.
        - Por que foi aoitado? - perguntei bruscamente.
        No foi muito educado perguntar, mas eu queria saber e estava cansada demais para fazer uma colocao menos brusca.
        Ele suspirou, remexendo o ombro nervosamente sob os meus cuidados. Tambm estava cansado e eu sem dvida estava machucando-o, por mais delicada que procurasse 
ser.
        - A primeira vez foi fuga e a segunda foi roubo, ou ao menos era o que dizia a acusao.
        - De que estava fugindo?
        - Dos ingleses - ele disse, erguendo a sobrancelha ironicamente. - Se quer saber de onde, Fort William.
        - Imaginei que fosse dos ingleses - eu disse, com a mesma aridez do seu tom de voz. - O que estava fazendo em Fort William para comear?
        Esfregou a testa com a mo livre.
        - Ah, sim. Acho que foi obstruo.
        - Obstruo, fuga e roubo. Voc parece um sujeito perigoso - disse em tom de brincadeira, esperando distra-lo do que eu estava fazendo.
        Funcionou ao menos um pouco; um dos cantos de sua boca ergueu-se e um olho azul-escuro brilhou por cima do seu ombro em minha direo.
        - Ah, sou mesmo - ele disse. -  de admirar que se sinta segura no mesmo quarto, comigo e sendo voc uma rapariga inglesa.
        - Bem, no momento voc parece bastante inofensivo. - Isto era totalmente falso; sem camisa, com cicatrizes e sujo de sangue, com a barba por fazer e olheiras 
roxas da longa viagem noturna, parecia assustador. E cansado ou no, parecia inteiramente capaz de causar mais desordem, caso a necessidade se apresentasse.
        Riu, um riso surpreendentemente profundo e contagiante.
        - Inofensivo como um pombo - concordou. - Estou faminto demais para ser uma ameaa para qualquer coisa que no seja uma refeio. Mas deixe um po que acabou 
de assar passar por perto e no respondo pelas conseqncias. Oooh!
        - Perdo - murmurei. - O ferimento da lmina foi fundo e est sujo.
        - Tudo bem. - Mas ele ficara plido sob o tom acobreado da barba espetada. Tentei traz-lo de volta  conversa.
        - O que exatamente significa obstruo? - perguntei despreocupada-mente. - Devo dizer que no parece um crime grave.
        Ele respirou fundo, fixando os olhos resolutamente na perna esculpida da cama, enquanto eu limpava mais fundo.
        - Ah. Bem, suponho que seja qualquer coisa que os ingleses digam que . No meu caso, significava defender minha famlia e minha propriedade e quase ser morto 
por isso. - Apertou os lbios, como se no quisesse prosseguir, mas aps um instante continuou, como se procurasse concentrar sua ateno em qualquer outra coisa 
que no fosse o seu ombro.
        - Foi h quase quatro anos. Criaram um tributo para os proprietrios de terras prximas de Fort William: alimentos para a guarnio, cavalos para transporte 
e coisas assim. Ningum gostava, mas a maioria dava o que tinha que dar. Pequenos grupos de soldados passavam de casa em casa com um oficial e uma ou duas carroas, 
recolhendo os alimentos e objetos. E um dia em outubro, o capito Ranftil veio at... - ele calou-se subitamente, conteve-se rapidamente, com um rpido olhar em 
minha direo -...a nossa propriedade.
        Balancei a cabea, encorajando-o a continuar, os olhos fixos no meu trabalho.
        - Ns pensvamos que eles no iriam to longe; o lugar fica a uma boa distncia do forte e o caminho  difcil. Mas eles foram.
        Fechou os olhos por um instante.
        - Meu pai no estava, fora a um enterro na fazenda vizinha. Eu estava no campo com a maior parte dos homens, porque j estava perto da colheita e havia muito 
o que fazer. Assim, minha irm estava sozinha em casa, exceto por duas ou trs empregadas e todas correram para a cama, para esconder suas cabeas sob as cobertas 
quando viram os soldados ingleses. Achavam que os soldados eram enviados do diabo... e no posso dizer que estavam erradas.
        Descartei o pano. A pior parte estava feita; agora, tudo que precisvamos era de um tipo de emplastro - sem iodo ou penicilina, era o melhor que eu podia 
fazer contra infeco - e um bom curativo. Os olhos ainda fechados, o jovem no pareceu notar.
        - Eu voltei para casa por trs, pretendendo pegar arreios na estrebaria, e ouvi gritos, minha irm gritando dentro de casa.
        - Oh? - Procurei tornar minha voz o menos perturbadora possvel. Queria muito saber mais a respeito deste capito Randall; at agora, esta histria pouco 
fizera para dissipar minha impresso original a seu respeito.
        - Entrei pela cozinha e encontrei dois deles assaltando a despensa, enchendo suas sacolas de farinha e toucinho. Acertei um na cabea e atirei o outro pela 
janela, com sacola e tudo. Em seguida, irrompi na sala, onde encontrei dois soldados com minha irm, Jenny. Seu vestido estava um pouco rasgado e um deles tinha 
o rosto arranhado.
        Abriu os olhos e sorriu, um pouco sombriamente.
        - No parei para fazer perguntas. Nos atracamos e eu estava me saindo bem, pois s havia dois deles, quando Randall entrou.
        Randall parou a briga simplesmente apontando uma pistola para a cabea de Jenny. Forado a se render, Jamie foi rapidamente dominado e amarrado pelos dois 
soldados. Randall sorriu para seu prisioneiro e disse:
        - Ora, ora. Temos dois gatos selvagens aqui. Acho que um pouco de trabalho forado vai curar seu temperamento, mas, se no o fizer, bem, vai conhecer um 
outro gato, chamado chicote. Mas h outras curas para outros gatos, no , minha gatinha?
        Jamie parou por um instante, o maxilar cerrado.
        - Ele segurava o brao de Jenny dobrado para trs, mas soltou-a, para levar a mo  frente e enfi-la em seu vestido, em volta dos seios. - Lembrando-se 
da cena, sorriu inesperadamente. - Assim - resumiu -, Jenny pisou no p dele com toda a fora e enfiou o cotovelo em sua barriga. Ele se dobrou ao meio, sem ar, 
e ela girou e deu uma boa joelhada entre suas pernas. - Deu uma pequena risada, um som nasalado, achando graa.
        - Bem, com isso ele deixou a pistola cair e ela tentou peg-la, mas um dos soldados alcanou-a primeiro.
        Eu terminara de cobrir o ferimento e fiquei parada em silncio atrs dele, a mo pousada em seu ombro bom. Parecia importante que ele me contasse tudo, mas 
temia que parasse, se fosse lembrado da minha presena.
        - Depois que recuperou flego suficiente para falar, Randall fez seus homens nos arrastar para fora. Eles arrancaram minha camisa, amarraram-me ao mastro 
da carroa e Randall golpeou-me nas costas com a parte plana de seu sabre. Ele estava furioso, mas um pouco cansado, pode-se dizer. Doeu-me um pouco, mas ele no 
conseguiu continuar batendo por muito tempo.
        A breve expresso divertida desaparecera por completo e o ombro sob a minha mo estava rgido de tenso.
        - Quando parou, virou-se para Jenny, um dos drages a mantinha presa, e perguntou-lhe se queria ver mais ou se preferia ir para dentro de casa com ele e 
oferecer-lhe uma diverso melhor. - O ombro remexeu-se nervosamente.
        - Eu no podia me mover muito, mas gritei para ela que eu no estava ferido, e na verdade no estava muito, e que ela no devia ir com ele, ainda que cortassem 
minha garganta diante de seus olhos.
        - Eles a seguravam atrs de mim, de modo que no podia v-la, mas pelo barulho, ela cuspiu no rosto dele. Ela deve ter feito isso mesmo, porque em seguida 
ele agarrou um punhado do meu cabelo, puxou minha cabea para trs e colocou a faca na minha garganta.
        - "Estou pensando seriamente em aceitar sua sugesto", Randall disse entre dentes e enfiou a ponta da faca sob a minha pele, o suficiente para tirar sangue.
        - Eu podia ver a adaga junto ao meu rosto - Jamie continuou - e o desenho que meu sangue fazia na terra embaixo da carroa. O tom de sua voz era quase irreal 
e percebi que, de cansao e dor, ele havia resvalado para uma espcie de estado hipntico. Talvez nem se lembrasse que eu estava ali.
        - Fiz meno de gritar para a minha irm, dizer-lhe que eu preferia morrer a v-la desonrar-se com aquele canalha. Randall tirou a adaga da minha garganta 
e enfiou a lmina entre meus dentes, de modo que eu no pudesse gritar. - Limpou a boca, como se ainda sentisse o gosto amargo do ao. Parou de falar, os olhos fixos 
diretamente  sua frente.
        - Mas o que aconteceu depois disso? - Eu no deveria ter falado, mas precisava saber.
        Ele estremeceu, como se acordasse, e esfregou a mo grande e pesada, de modo exausto, pela nuca.
        - Ela foi com ele - disse bruscamente. - Achou que ele me mataria e talvez tivesse razo. Depois disso, no sei o que aconteceu. Um dos drages golpeou-me 
na cabea com a coronha de seu mosquete. Quando acordei, estava amarrado na carroa, com as galinhas, sacolejando pela estrada em direo a Fort William.
        - Sei - eu disse em voz baixa. - Lamento muito. Deve ter sido terrvel para voc.
        Sorriu repentinamente, sem vestgios do torpor do cansao.
        - Ah, sim. As galinhas so uma pssima companhia, especialmente numa viagem longa.
        Percebendo que o curativo estava pronto, ergueu o ombro experimentalmente, sobressaltando-se ao faz-lo.
        - No faa isso! - exclamei, assustada. - Voc realmente no deve mexer o brao. Na realidade - olhei para a mesa para verificar se restavam algumas tiras 
de pano seco -, vou prender seu brao junto ao corpo. No se mexa.
        Ele no falou mais, mas relaxou um pouco sob minhas mos quando percebeu que no iria doer. Senti uma estranha sensao de intimidade com aquele jovem escocs 
estranho, devido em parte, pensei,  terrvel histria que acabara de me contar e em parte  nossa longa cavalgada na escurido, os corpos pressionados um contra 
o outro num silncio sonolento. Eu no dormira com muitos homens alm de meu marido, mas notara que dormir, realmente dormir com algum, dava aquela sensao de 
intimidade, como se seus sonhos flussem de voc para se misturar com os dele e envolvessem a ambos em um manto de conhecimento inconsciente. Uma espcie de regresso, 
pensei. Em tempos antigos, mais primitivos (como estes?, Perguntou outra parte de minha mente), era um ato de confiana dormir na Presena de outra pessoa. Se a 
confiana fosse mtua, o simples sono era capaz de uni-los mais do que a juno de corpos.
        Terminada a tipia, ajudei-o a vestir a camisa de linho cru, colocando-a sobre o ombro ferido. Levantou-se para enfi-la embaixo do kilt apenas com uma das 
mos e sorriu para mim.
        - Muito obrigado, Claire. Voc tem mos boas. - Estendeu o brao para tocar meu rosto, mas pareceu desistir da idia; abanou a mo e deixou-a cair ao lado 
do corpo. Aparentemente, ele tambm sentira aquela estranha onda de intimidade. Desviei o olhar apressadamente, agitando a mo num gesto que dizia no-tem-de-qu.
        Meu olhar vagou pelo aposento, passando pela lareira enegrecida de fumaa, pelas janelas estreitas, sem vidraa, e pelos macios mveis de carvalho. Nenhum 
acessrio eltrico. Nenhum tapete. Nenhum metal brilhante na armao da cama.
        Parecia, na verdade, um castelo do sculo XVIII. Mas e quanto a Frank? O homem que eu encontrara no bosque parecia-se com ele de maneira perturbadora, mas 
a descrio que Jamie fizera do capito Randall era completamente estranha a tudo que eu sabia de meu gentil e pacfico marido. Mas, se fosse verdade - e eu estava 
comeando a admitir, at para mim mesma, que pudesse ser -, ele poderia ser na realidade praticamente qualquer coisa. Um homem que eu conhecia apenas de um mapa 
genealgico no estava necessariamente fadado a se parecer com seus descendentes em conduta.
        Mas era com o prprio Frank que eu estava preocupada no momento. Se eu estivesse, de fato, no sculo XVIII, onde ele estaria? O que faria quando eu deixasse 
de aparecer na pousada da sra. Baird? Eu jamais voltaria a v-lo? Pensar em Frank foi a gota d'gua. Desde o instante em que dei um passo para dentro da rocha e 
a vida comum deixou de existir, fora assaltada, ameaada, seqestrada e arrastada. No comia ou dormia direito h mais de vinte e quatro horas. Tentei me controlar, 
mas meus lbios tremeram e meus olhos encheram-se de lgrimas a despeito de mim mesma.
        Virei-me para o fogo para esconder o rosto, mas era tarde demais. Jamie segurou minha mo, perguntando gentilmente o que era. A luz do fogo reluziu na minha 
aliana de ouro e eu comecei realmente a fungar.
        - Ah, eu... eu vou ficar bem, est tudo bem, sinceramente,  que... meu... meu marido... eu no.
        - Ah, dona, ento voc ficou viva? - Sua voz era to repleta de cuidado e ateno que eu perdi inteiramente o controle.
        - No... sim... quero dizer, eu no... sim, acho que sou! - Dominada pela emoo e pelo cansao, desmoronei sobre ele, soluando histericamente.
        O rapaz tinha bons sentimentos. Ao invs de pedir ajuda ou retirar-se perplexo, sem saber o que fazer, ele sentou-se, puxou-me com firmeza para seu colo 
com o brao bom e ficou embalando-me suavemente, murmurando palavras carinhosas em galico ao meu ouvido e alisando meus cabelos com uma das mos. Chorei amargamente, 
sucumbindo momentaneamente ao medo,  confuso e ao desnimo, mas lentamente comecei a me acalmar um pouco, enquanto Jamie acariciava afetuosamente meu pescoo e 
minhas costas, oferecendo-me o conforto de seu peito largo e aconchegante. Meus soluos diminuram e comecei a serenar, recostando-me, exausta, na curva de seu ombro. 
No era de admirar que fosse to bom com cavalos, pensei indistintamente, sentindo seus dedos acariciando-me suavemente atrs das orelhas, ouvindo as palavras tranqilizadoras 
e incompreensveis. Se eu fosse um cavalo, deixaria que me conduzisse para onde quisesse.
        Esse pensamento absurdo coincidiu infelizmente com a minha clara percepo de que o jovem, afinal, estava completamente exausto. De fato, estava comeando 
a ficar embaraosamente bvio para ambos. Tossi e clareei a garganta, limpando os olhos com a manga do vestido, enquanto descia do seu colo.
        - Sinto muito... isto , quero dizer, obrigada por... mas eu... - Estava balbuciando, afastando-me dele com o rosto em chamas. Ele tambm estava um pouco 
afogueado, mas no envergonhado. Pegou a minha mo, puxou-me de volta e, com cuidado para no me tocar de outra forma, colocou a mo sob meu queixo e forou-me a 
erguer a cabea e fit-lo.
        - No precisa ter medo de mim - disse serenamente. - Nem de ningum aqui, enquanto eu estiver com voc. - Soltou a mo e virou-se para a lareira.
        - Voc precisa de alguma coisa quente, dona - disse, de modo prtico -, e de algo para comer tambm. A barriga cheia vai ajudar mais do que qualquer outra 
coisa.
        Ri meio trmula diante de seus esforos de servir sopa com uma das mos e fui ajud-lo. Tinha razo; a comida realmente ajudou. Tomamos a sopa e comemos 
po num silncio amigvel, compartilhando a crescente sensao de saciedade, conforto e bem-estar.
        Por fim, ele se levantou, pegando a coberta cada no cho. Colocou-a de novo sobre a cama e fez um sinal para mim para que fosse me deitar.
        - Durma um pouco, Claire. Est exausta e  provvel que logo algum queira falar com voc.
        Era um lembrete sinistro de minha precria posio, mas eu estava cansada demais para me importar. Manifestei no mais do que um protesto por rotina por 
ocupar a cama; nunca vira algo to convidativo. Jamie assegurou-me que poderia encontrar uma cama em outro lugar. Deixei-me cair pesadamente na pilha de cobertas 
e estava adormecida antes que ele alcanasse a porta.
        
        
        
        5 - MACKENZIE
        
        Acordei num estado de total confuso. Lembrava-me vagamente de que algo estava errado, mas no conseguia lembrar o qu. De fato, eu dormira to profundamente 
que por um instante no consegui nem me lembrar quem eu era, muito menos onde estava. Estava aquecida, mas o aposento ao meu redor estava gelado. Tentei me enfiar 
de novo no meu casulo de cobertores, mas a voz que me acordara continuava a importunar.
        - Vamos, mocinha! Vamos, precisa se levantar! - A voz era grave e amistosamente assustadora, como o latido de um co pastor. Com relutncia, abri um olho 
apenas o suficiente para ver uma montanha de tecido rstico marrom.
        Sra. Fitz-Gibbons! A viso sacudiu-me de volta  plena conscincia e a memria retornou. Ento, ainda era verdade.
        Enrolando um cobertor ao redor do corpo contra o frio, arrastei-me para fora da cama e dirigi-me para a lareira o mais rpido possvel. A sra. Fitz-Gibbons 
tinha uma xcara de caldo quente  minha espera; tomei pequenos goles, sentindo-me uma sobrevivente de algum grande bombardeamento areo, enquanto ela colocava uma 
pilha de roupas sobre a cama. Uma blusa larga e comprida, semelhante a uma camisola, de linho bege, com um fino debrum de renda, uma angua de algodo fino, duas 
sobressaias em tons de marrom e um corpete amarelo-limo claro. Meias compridas de l, listradas de marrom, e um par de sapatilhas amarelas completavam a vestimenta.
        Sem aceitar protestos e com grande alvoroo, a mulher me fez sair de minhas roupas inadequadas e supervisionou todo o processo de me vestir. Por fim, deu 
um passo para trs, examinando com satisfao o resultado de seu trabalho.
        - O amarelo lhe cai bem, moa. Achei que cairia. Vai bem com os cabelos castanhos e ressalta o dourado de seus olhos. Mas fique onde est, est precisando 
de umas fitas. - Revirando um bolso que parecia um saco de aniagem, apresentou um punhado de fitas e algumas bijuterias.
        Espantada demais para resistir, deixei que arrumasse meus cabelos, prendendo para trs os cachos laterais com uma fita amarelada, estalando a lngua e reclamando 
da inconvenincia pouco feminina do corte curto dos meus cabelos, na altura dos ombros.
        - Pelo amor de Deus, minha querida, o que estava pensando para cortar seu cabelo to curto? Estava disfarada? Ouvi falar de algumas moas que fazem isso, 
para esconder sua condio feminina quando esto viajando e para ficar a salvo dos malditos ingleses. Que desgraa quando as moas j no podem viajar pelas estradas 
em segurana. - Continuou a tagarelar, ajeitando aqui e ali, prendendo um cacho ou arrumando um lao. Finalmente, eu estava vestida a seu gosto.
        - Ora, veja s, est muito bom. Agora, voc tem tempo apenas para comer alguma coisa e depois devo lev-la a ele.
        - Ele? - exclamei. No gostei de ouvir aquilo. Quem quer que "ele" fosse, era provvel que fizesse perguntas difceis de responder.
        - Ora, o prprio MacKenzie, sem dvida. Quem mais poderia ser?
        Quem mais, na verdade? O Castelo Leoch, eu me recordava vagamente, ficava no centro das terras do cl MacKenzie. Obviamente, o chefe do cl ainda era o MacKenzie. 
Comecei a compreender por que o nosso pequeno grupo de cavaleiros viajara  noite para chegar ao castelo; devia ser um lugar de inexpugnvel segurana para homens 
perseguidos pelos sditos da Coroa. Nenhum oficial ingls com um mnimo de bom senso conduziria seus homens para o interior das terras de um cl. Seria arriscar-se 
 morte em uma emboscada no primeiro bosque que atravessassem. Somente um exrcito de bom tamanho viria at os portes do castelo. Eu tentava me lembrar se o exrcito 
ingls de fato chegara a vir to longe, quando repentinamente percebi que o destino final do castelo era muito menos relevante do que o meu futuro imediato.
        No tinha nenhum apetite para os bolos e o mingau que a sra. Fitz-Gibbons trouxera para o meu desjejum, mas esfarelei um pedao e fingi comer, a fim de ganhar 
algum tempo para pensar. Quando a sra. Fitz-Gibbons voltou para me conduzir ao MacKenzie, eu j havia alinhavado um plano rudimentar.
        O senhor daquela propriedade recebeu-me em um aposento situado no alto de um lance de escadas de pedra. Era o aposento de uma torre, redondo, ricamente decorado 
com quadros e tapearias pendurados nas paredes curvas. Enquanto o resto do castelo parecia confortvel, apesar de um pouco espartano, aquela sala era luxuosamente 
mobiliada, abarrotada de mveis ricamente ornamentados e confortavelmente aquecida e iluminada por uma lareira e velas, contra a chuva fina do dia l fora. As paredes 
externas do castelo ostentavam apenas as altas fendas das janelas, apropriadas para resistirem a um ataque, porm a parede interna era guarnecida de longas janelas 
de caixilhos, que deixavam entrar a escassa luz do dia.
        Quando entrei, minha ateno foi atrada de imediato para uma enorme gaiola de metal, engenhosamente construda para ajustar-se  curva da
        parede do cho ao teto, repleta de dezenas de pequenos pssaros: tentilhes, trigueires, canrios e diversos outros tipos de pssaros canoros. Aproximando-me, 
minha vista encheu-se de corpos rolios e macios e brilhantes olhos de contas, incrustados como jias em um cenrio verde aveludado, lanando-se entre as folhas 
de carvalhos, olmos e castanheiras, cuidadosamente podados, plantados em vasos protegidos com palha e arranjados no assoalho da gaiola. A alegre algazarra dos pssaros 
era acentuada pelo agitar das asas e pelo farfalhar das folhas, conforme os habitantes esvoaavam e saltitavam no seu ambiente.
        - Criaturinhas agitadas, no? - uma voz grave e agradvel soou atrs de mim e eu me virei com um sorriso que congelou em meu rosto.
        Colum MacKenzie tinha o mesmo rosto largo e testa alta de seu irmo Dougal, embora a fora vital que conferia a Dougal um ar de intimidao aqui fosse abrandada 
em algo mais afvel, porm no menos vigoroso. Mais moreno, com olhos cinzentos, da cor de pombos, e no castanho-claros, Colum dava aquela mesma impresso de intensidade, 
de proximidade excessiva para que voc pudesse se sentir  vontade. No momento, entretanto, meu desconforto devia-se ao fato de a cabea to bem delineada e o torso 
longo terminarem em pernas horrivelmente arqueadas, curtas e atrofiadas. O homem que facilmente deveria ultrapassar um metro e oitenta, mal chegava aos meus ombros.
        Ele manteve os olhos fitos nos pssaros, discretamente proporcionando-me um momento muito necessrio para recuperar o controle das feies do meu rosto. 
Naturalmente, ele devia estar acostumado  reao das pessoas que o viam pela primeira vez. Olhando em torno do aposento, perguntei a mim mesma com que freqncia 
ele conhecia novas pessoas. Aquela sala era obviamente um santurio; o mundo construdo por um homem para quem o mundo exterior no era desejado - ou no estava 
disponvel.
        - Seja bem-vinda, senhora - ele disse, com uma pequena mesura. -Meu nome  Columban Campbell MacKenzie, senhor deste castelo. Soube por meu irmo que ele, 
h, encontrou-a a alguma distncia daqui.
        - Ele me seqestrou, se quer saber - eu disse. Gostaria de manter a conversa em nvel cordial, mas o desejo de ir embora daquele castelo e voltar  colina 
com o crculo de pedras era mais forte. O que quer que tivesse me acontecido, a resposta estava l - se houvesse uma resposta.
        As espessas sobrancelhas do senhor do castelo ergueram-se ligeiramente e um sorriso curvou os lbios bem delineados.
        - Bem, talvez - concordou. - Dougal s vezes  um pouco... impetuoso.
        - Bem. - Abanei a mo, indicando um educado abrandamento da questo. - Estou preparada para admitir que pode ter havido um mal-entendido. Mas agradeceria 
muito se me devolvesse... ao lugar de onde me tiraram.
        - Hum. - Sobrancelhas ainda erguidas, Colum indicou uma cadeira. Sentei-me, relutantemente, e ele fez um sinal com a cabea para um dos criados, que desapareceu 
pela porta.
        - Mandei buscar um lanche, senhora... Beauchamp, no ? Pelo que sei, meu irmo e seus homens a encontraram em... h, numa situao difcil. - Ele parecia 
estar reprimindo um sorriso e imaginei a que ponto haviam lhe descrito meu suposto estado de nudez.
        Respirei fundo. Chegara a hora da explicao que eu planejara. Enquanto imaginava o que iria dizer, lembrara-me de Frank ter me contado, durante seu treinamento 
de oficial, sobre um curso que fizera sobre como enfrentar um interrogatrio. Um princpio bsico, at onde eu me lembrava, era ater-se  verdade at onde fosse 
humanamente possvel, alterando somente aqueles detalhes que deviam ser mantidos em segredo. Menos chance, explicou o instrutor, de escorregar nos aspectos menos 
importantes da histria inventada. Bem, teramos que ver at onde isso seria eficaz.
        - Bem, sim. Sabe, eu tinha sido atacada.
        Ele balanou a cabea, o rosto vivamente interessado.
        -  mesmo? Atacada por quem? Diga a verdade.
        - Por soldados ingleses. Em particular, por um homem chamado Randall.
        O rosto aristocrtico mudou repentinamente ao ouvir o nome. Embora Colum continuasse a parecer interessado, havia uma crescente intensidade no contorno da 
boca e um aprofundamento das rugas que a confinavam. Obviamente, o nome lhe era familiar. O chefe dos MacKenzie reclinou-se um pouco na cadeira e uniu os dedos, 
examinando-me cuidadosamente por cima deles.
        - Ah? - disse. - Conte-me mais.
        Assim, valha-me Deus, contei mais. Fiz um relato detalhado do confronto entre os escoceses e os homens de Randall, j que ele poderia conferir a histria 
com Dougal. Contei-lhe os fatos principais da minha conversa com Randall, j que eu no sabia quanto o homem chamado Murtagh ouvira.
        Balanou a cabea, absorvido, prestando toda a ateno.
        - Sei - disse. - Mas como a senhora foi parar naquele lugar?  muito longe da estrada para Inverness. Suponho que pretendia pegar o navio l.
        Assenti e respirei fundo. Agora obrigatoriamente entrvamos nos domnios da inveno. Desejei ter prestado mais ateno s observaes de Frank a respeito 
de assaltantes de estrada, mas teria que fazer o melhor possvel. Eu era uma viva de Oxfordshire, respondi (verdade, at certo ponto) viajando com um criado, ao 
encontro de parentes distantes na Frana  (parecia bastante distante para ser seguro). Fomos atacados por ladres de estrada e meu criado ou fora assassinado ou 
fugira. Eu mesma corri para dentro do bosque em meu cavalo, mas fui pega a alguns quilmetros da estrada. Para conseguir fugir dos bandidos, fora obrigada a abandonar 
meu cavalo e tudo que eu possua. E enquanto vagava pelo bosque, me deparei com o capito Randall e seus homens.
        Recostei-me um pouco para trs, satisfeita com a histria. Simples, clara, verdade em todos os detalhes que poderiam ser verificados. O rosto de Colum no 
expressava nada alm de uma educada ateno. Estava abrindo a boca para me fazer uma pergunta, quando ouvimos um leve rudo junto  porta. Um homem, um dos que eu 
vira no ptio quando chegamos, estava parado na soleira da porta, segurando uma pequena caixa de couro em uma das mos.
        O chefe do cl MacKenzie pediu licena educadamente e deixou-me examinando os pssaros, com a certeza de que ele logo voltaria para continuarmos nossa muito 
interessante conversa.
        To logo a porta fechou-se atrs dele, aproximei-me da estante de livros, correndo a mo pelas encadernaes de couro. Havia talvez umas duas dzias de livros 
naquela prateleira; mais na parede oposta. Rapidamente, folheei as primeiras pginas de cada volume. Vrios deles no tinham nenhuma data de publicao; os que tinham, 
eram todos datados de 1720 a 1742. Colum MacKenzie obviamente gostava de luxo, mas o resto de seu aposento no dava nenhuma indicao de que fosse um antiqurio. 
As encadernaes eram novas, sem nenhuma rachadura no couro ou pginas manchadas no miolo.
        Agora inteiramente desprovida dos escrpulos mais bsicos, revirei a escrivaninha de oliveira, atenta a quaisquer passos que retornassem.
        Encontrei o que achei que procurava na gaveta central. Uma carta inacabada, escrita numa caligrafia cursiva e floreada, ainda mais ilegvel pela ortografia 
excntrica e a ausncia total de pontuao. O papel era novo e limpo e a tinta vivamente preta. Legvel ou no, a data no alto da folha saltou aos meus olhos como 
se escritas a fogo: 20 de abril de 1743.
        Quando retornou instantes mais tarde, Colum encontrou sua hspede sentada junto s janelas, as mos dignamente unidas sobre o colo. Sentada, porque minhas 
pernas j no me mantinham em p. As mos entrelaadas, para esconder o tremor que quase me impedia de recolocar a carta no seu devido lugar.
        Ele trazia a bandeja com o lanche; canecas de cerveja e biscoitos de aveia besuntados de mel. Apenas belisquei o que me fora oferecido; meu estmago revirava 
demais para que eu pudesse sentir qualquer apetite.
        Aps uma rpida desculpa por sua ausncia, condoeu-se de minha m sorte. Em seguida, reclinou-se, analisou-me especulativamente e perguntou:
        - Mas como foi, sra. Beauchamp, que os homens de meu irmo encontraram-na vagando em suas roupas de baixo? Ladres de estrada relutariam em molest-la, j 
que provavelmente a prenderiam para pedir resgate. E mesmo com tudo que j ouvi falar desse capito Randall, ficaria surpreso de ouvir que um oficial do exrcito 
ingls tivesse o hbito de estuprar viajantes perdidas.
        - Ah,  mesmo? - retorqui. - Bem, o que quer que tenha ouvido a respeito dele, asseguro-lhe que ele  inteiramente capaz disso. - Eu havia negligenciado 
o detalhe das minhas roupas quando planejei minha histria e perguntei a mim mesma em que ponto de nosso encontro o homem chamado Murtagh encontrara a mim e ao capito.
        - Ah, bem - disse Colum. - Possvel, reconheo. O sujeito tem m reputao, de fato.
        - Possvel? - perguntei. - Por qu? No acredita no que lhe disse? - O rosto do lder dos MacKenzie exibia um ligeiro, mas inequvoco ceticismo.
        - No disse que no acreditava na senhora - respondeu sem se alterar. - Mas no chefio um grande cl por mais de vinte anos sem aprender a no engolir toda 
histria que me contam.
        - Bem, se no acredita que eu sou quem eu digo ser, quem diabos acha que eu sou? - indaguei.
        Ele piscou, desconcertado com o meu linguajar. Logo em seguida, as feies bem delineadas se recompuseram.
        - Isso  o que vamos ver. Enquanto isso, a senhora  uma hspede bem-vinda a Leoch. - Ergueu a mo dispensando-me educadamente e o criado sempre parado junto 
 porta aproximou-se, evidentemente para me acompanhar de volta aos meus aposentos.
        Colum no pronunciou as palavras a seguir, mas era como se o tivesse feito. Elas ficaram pairando no ar s minhas costas to claramente como se tivessem 
sido ditas, enquanto eu me afastava:
        "At eu descobrir quem voc realmente ."
        
        
        
6 - O CONSELHO DE COULUM
        
        O garoto a quem a sra. Fitz-Gibbons se referia como "o Jovem Alec" veio me buscar para o jantar. Este era servido num salo comprido e estreito com mesas 
ao longo de todo o comprimento de cada parede, abastecidas por um fluxo contnuo de criados que saam dos arcos em cada ponta do salo, carregados de travessas, 
tbuas de trinchar carne e jarros. Os raios de sol do entardecer do comeo do vero infiltravam-se pelas janelas altas e estreitas; castiais ao longo das paredes 
abaixo das janelas sustentavam archotes a serem acesos quando escurecesse.
        Estandartes e tarts pendiam das paredes entre as janelas, padres de tecido xadrez e brases de todos os tipos salpicando as pedras de cores. Em contraste, 
a maioria das pessoas reunidas embaixo para jantar vestia-se em tons prticos de cinza e marrom ou no suave padro de xadrez marrom e verde dos kilts de caa, em 
tons escuros, adequados para se esconder no meio das urzes.
        Eu podia sentir olhares curiosos sondando minhas costas enquanto o Jovem Alec me conduzia para o extremo oposto do salo, mas a maior parte dos comensais 
manteve os olhos educadamente em seus pratos. Havia pouca cerimnia ali; as pessoas comiam como lhes aprouvesse, servindo-se das travessas ou levando seus pratos 
de madeira at o final do salo, onde dois rapazes giravam a carcaa de um carneiro em um espeto na enorme lareira. Havia umas quarenta pessoas sentadas para jantar 
e talvez mais dez para servir. O vozerio da conversa enchia o ar, a maior parte em galico.
        Colum j estava sentado a uma mesa na cabeceira do salo, as pernas atrofiadas fora da vista, embaixo do carvalho arranhado. Cumprimentou-me cortesmente 
com um aceno da cabea quando entrei e fez sinal para que eu fosse me sentar  sua esquerda, ao lado de uma mulher ruiva, bonita e rolia, que ele me apresentou 
como sua esposa, Letitia.
        - E este  meu filho, Hamish - disse, descansando a mo no ombro de um bonito garoto ruivo de sete ou oito anos, que tirou os olhos da travessa a sua frente 
apenas o tempo suficiente para me cumprimentar com um rpido sinal da cabea.
        Olhei para o garoto com interesse. Parecia-se a todos os outros homens MacKenzie que eu vira, com as mesmas mas do rosto planas e largas e olhos fundos. 
Na realidade, levando em considerao a diferena na cor da pele e dos cabelos, ele poderia ser uma verso menor de seu tio Dougal, sentado ao seu lado. As duas 
adolescentes sentadas perto de Dougal, que deram risinhos e cutucaram-se quando foram apresentadas a mim, eram suas filhas, Margaret e Eleanor.
        Dougal lanou-me um sorriso breve, mas amistoso, antes de arrancar a travessa da frente de uma de suas filhas que pretendia se servir e empurr-la para mim.
        - No tem educao, menina? - repreendeu-a. - As visitas primeiro! Com certa hesitao, peguei a enorme colher feita de chifre que me era oferecida. No 
sabia ao certo que tipo de comida iria ser servido e fiquei bastante aliviada ao descobrir que a travessa continha uma fileira dos caseiros e totalmente familiares 
arenques defumados.
        Nunca havia tentado comer arenque com uma colher, mas no vi nada semelhante a um garfo e me lembrei vagamente que talheres com dentes s seriam usados dali 
a muitos anos.
        A julgar pelo comportamento dos comensais nas outras mesas, sempre que a colher mostrava ser impraticvel, a sempre til adaga era usada para fatiar a carne 
e remover os ossos. No dispondo de uma adaga, resolvi mastigar cuidadosamente e inclinei-me para a frente para pegar um arenque com a colher, mas deparei-me com 
os olhos azul-escuros de Hamish fitando-me acusadoramente.
        - Voc ainda no fez a orao - disse severamente, com uma expresso carrancuda no pequeno rosto. Obviamente, ele me considerava uma pag desmiolada, seno 
simplesmente depravada.
        - H, talvez voc pudesse fazer a gentileza de diz-la para mim? -arrisquei.
        Os olhos azuis arregalaram-se de surpresa, mas aps alguns instantes de reflexo, ele assentiu e uniu as mos diligentemente. Olhou  volta da mesa para 
assegurar-se de que todos estivessem numa atitude adequadamente reverente antes de abaixar a cabea. Satisfeito, entoou:
        Alguns tm carne que no podem comer, E outros poderiam comer, mas no tm carne. Ns temos carne e podemos comer E assim damos graas a Deus. Amm.
        Erguendo os olhos das minhas mos respeitosamente entrelaadas, encontrei os olhos de Colum e dei um sorriso que o cumprimentava pelo sangue-frio de seu 
rebento. Ele prprio reprimiu um sorriso e balanou a cabea solenemente para seu filho.
        - Muito bem, rapaz. Pode passar o po  volta da mesa?
        A conversa  mesa limitava-se a alguns pedidos ocasionais de mais comida, j que todos dedicavam-se seriamente a comer. Eu quase no sentia apetite, devido 
em parte ao choque das circunstncias em que me encontrava e em parte ao fato de que no gostava muito de arenque afinal de contas. No entanto, a carne de carneiro 
estava muito boa e o po delicioso, quente e crocante, com grandes bocados de manteiga fresca sem sal.
        - Espero que o sr. MacTavish esteja se sentindo melhor - arrisquei, durante uma pequena pausa. - No o vi quando entrei.
        - MacTavish? - As delicadas sobrancelhas de Letitia curvaram-se em torno dos redondos olhos azuis. Senti, mais do que vi, os olhos de Dougal erguerem-se 
ao meu lado.
        - O jovem Jamie - disse secamente, antes de retornar sua ateno para o osso de carneiro em suas mos.
        - Jamie? Ora, o que aconteceu com o rapaz? - Seu semblante rechonchudo contraiu-se de preocupao.
        - S um arranho, minha querida - Colum tranqilizou-a. Olhou para seu irmo do outro lado da mesa. - Mas onde ele est, Dougal? -Imaginei que talvez os 
olhos azul-escuros abrigassem um leve trao de suspeita.
        Seu irmo deu de ombros, os olhos ainda no prato.
        - Mandei-o  estrebaria para ajudar o Velho Alec com os cavalos. Pareceu-me o melhor lugar para ele, considerando sua situao. - Ergueu os olhos para fitar 
diretamente o irmo. - Ou voc tinha outra idia?
        Colum pareceu em dvida.
        - A estrebaria? Sim, bem... voc confia nele?
        Dougal passou a mo pela boca despreocupadamente e estendeu-a para pegar um pedao de po.
        - Voc  quem sabe, Colum, se no concordar com minhas ordens. Os lbios de Colum estreitaram-se um pouco.
        - No, acho que ele vai se dar bem l - disse, antes de retornar  sua refeio.
        Eu tambm tinha as minhas dvidas se a estrebaria seria o lugar adequado para um paciente ferido  bala, mas tive receio de emitir uma opinio naquela companhia. 
Decidi procurar o rapaz em questo pela manh, s para me assegurar de que estava recebendo um mnimo dos cuidados necessrios.
        Recusei o pudim e pedi licena para me retirar, alegando que estava muito cansada, o que no era nenhuma mentira. Estava to exausta que mal prestei ateno 
quando Colum disse:
        - Boa noite, ento, sra. Beauchamp. Enviarei algum para traz-la ao Conselho no salo pela manh.
        Uma das criadas, ao me ver no corredor tateando no escuro, gentilmente me acompanhou, iluminando o caminho at meus aposentos. Acendeu a vela sobre a minha 
mesa com a que ela estava carregando e uma luz suave bruxuleou nas pedras macias das paredes, dando-me por um instante a sensao de estar num mausolu. Depois 
que saiu, no entanto, puxei a cortina bordada que encobria a janela e a sensao desfez-se com a entrada do ar fresco. Tentei pensar em tudo que acontecera, mas 
minha mente recusava-se a considerar qualquer outra atividade que no dormir. Deslizei para debaixo das cobertas, apaguei a vela e adormeci observando a lua erguer-se 
lentamente no cu.
        Foi a enorme e pesada sra. FitzGibbons quem chegou novamente para me acordar pela manh, carregando o que parecia ser uma coleo completa dos artigos de 
toalete disponveis a uma dama escocesa bem-nascida. Um lpis de grafite para escurecer as sobrancelhas e as pestanas, potes de p-de-arroz e de raiz de ris em 
p, at mesmo um basto do que imaginei ser kohl, embora nunca tivesse visto algum, e uma delicada tigela de porcelana de ruge francs, com uma tampa gravada com 
uma fileira de cisnes dourados.
        A sra. Fitz-Gibbons tambm trazia uma sobressaia listrada de verde e um corpete de seda, com meias amarelas de tecido fino, ao contrrio das meias rsticas 
que me dera no dia anterior. O que quer que "Conselho" significasse, parecia ser uma ocasio de certa importncia. Senti-me tentada a insistir em comparecer usando 
as minhas prprias roupas, s para contrariar, mas a lembrana da reao do gordo Rupert diante do meu vestido foi o suficiente para me conter.
        Alm do mais, eu at que gostava de Colum, apesar do fato de que tudo indicasse que ele pretendia manter-me ali por tempo indeterminado. Bem,  o que iramos 
ver, pensei, enquanto fazia o melhor possvel com o ruge. Dougal dissera que o rapaz de quem eu cuidara estava na estrebaria, no? E estrebarias tinham cavalos, 
com os quais se poderia fugir. Decidi ir procurar Jamie MacTavish, to logo essa questo do Conselho tivesse acabado.
        O Conselho, como se viu, era apenas isso mesmo; uma reunio no salo onde o jantar fora servido na noite anterior. Agora, entretanto, estava transformado; 
as mesas, bancos compridos e banquetas haviam sido encostados nas paredes, a mesa principal na cabeceira do salo fora retirada e substituda por uma cadeira imponente, 
de madeira escura esculpida, coberta com o que eu presumi que devia ser o tart dos MacKenzie, o padro exclusivo de tecido xadrez verde-escuro e preto, com finas 
linhas vermelhas e brancas sobrepostas, que simbolizava o cl. Ramos de azevim decoravam as paredes e via-se palha fresca espalhada pelas lajes de pedra do assoalho.
        Um jovem gaiteiro soprava seu instrumento atrs da cadeira vazia, com numerosos suspiros e chiados. Perto dele, estavam o que eu presumi ser os membros mais 
ntimos da equipe de Colum: um homem de rosto fino, vestindo calas justas de tecido xadrez e uma camisa larga de pregas, displicentemente encostado na parede; um 
homenzinho quase careca com um elegante casaco de brocado, claramente uma espcie de escrivo, j que estava sentado a uma pequena mesa equipada com tinteiro feito 
de chifre, penas de escrever e papel; dois homens musculosos trajando kilts, com atitude de guardas; e ao lado, um dos maiores homens que eu j vira.
        Fiquei olhando estarrecida para o gigante. Cabelos pretos e grossos cados na testa, quase se unindo s sobrancelhas salientes. Um emaranhado similar cobria 
os antebraos, expostos pelas mangas enroladas de sua camisa. Ao contrrio da maioria dos homens que eu vira, o gigante no parecia armado, a no ser por um pequeno 
punhal que carregava preso  meia comprida. Mal se via o cabo grosso e curto em meio aos tufos de cabelos pretos encaracolados que cobriam suas pernas acima das 
meias de xadrez alegremente coloridas. Um largo cinto de couro cingia o que devia ser uma cintura de um metro, mas no ostentava nenhuma espada ou adaga. Apesar 
do seu tamanho, o sujeito tinha uma expresso amistosa e parecia estar fazendo pilhria com o homem de rosto fino, que parecia uma marionete em comparao a seu 
imenso interlocutor.
        De repente, o gaiteiro comeou a tocar, com uma ruidosa expirao preliminar, seguida imediatamente de um rangido agudo e dissonante que finalmente se reduziu 
a algo semelhante a uma afinao.
        Havia umas trinta ou quarenta pessoas presentes, todas parecendo um pouco mais bem-vestidas e arrumadas do que os comensais na noite anterior. Todas as cabeas 
voltaram-se para o extremo oposto do salo, onde aps uma pausa para a msica tomar corpo, Colum entrou, seguido a poucos passos por seu irmo Dougal.
        Os dois MacKenzie estavam claramente vestidos para uma cerimnia, em kilts verde-escuros e casacos bem talhados, o de Colum de um verde plido e o de Dougal 
de um tom marrom-dourado, ambos com o xale axadrezado atravessado no peito e preso em um dos ombros com um grande broche cravejado de pedras preciosas. Os cabelos 
pretos de Colum estavam soltos hoje, cuidadosamente untados e penteados sobre os ombros. Os de Dougal continuavam presos na nuca em uma trana quase da mesma cor 
castanho-dourada e acetinada de seu casaco.
        Colum percorreu lentamente toda a extenso do salo, acenando com a cabea e sorrindo para os rostos em cada lado. Olhando para o outro lado do salo, eu 
podia ver outra entrada em arco, prxima ao local onde estava sua cadeira. Obviamente, ele poderia ter entrado por esse arco, ao invs do outro, no extremo oposto 
do salo. Ento era deliberada essa exibio de suas pernas aleijadas e do gingado desajeitado ao longo de todo o percurso at sua cadeira. Tambm intencional era 
o contraste com seu irmo mais novo, alto e empertigado, que no olhava nem para a direita nem para a esquerda, mas em frente, caminhando diretamente atrs de Colum 
at a cadeira de madeira e assumindo sua posio de p logo atrs do irmo.
        Colum sentou-se e aguardou um instante, em seguida ergueu uma das mos. O gemido da gaita-de-foles extinguiu-se lentamente num lamento pattico e a cerimnia 
comeou.
        Logo ficou evidente que aquela era uma reunio regular em que o senhor do Castelo de Leoch dispensava justia aos rendeiros e arrendatrios de suas terras, 
ouvindo os casos e resolvendo disputas. Havia uma agenda; o escriba careca lia os nomes em voz alta e, a cada vez, as partes interessadas adiantavam-se.
        Embora alguns casos fossem apresentados em ingls, a maior parte dos procedimentos transcorria em galico. Eu j notara que a linguagem gestual era bastante 
usada: o revirar de olhos e o bater de ps para dar nfase, tornando difcil julgar a seriedade de um caso pelo comportamento dos participantes.
        No momento em que eu compreendi que um dos homens, um espcime gasto pelo tempo, com uma enorme bolsa presa no cinto, feita com a pele inteira de um texugo, 
acusava seu vizinho de nada menos do que assassinato, incndio criminoso e roubo de sua mulher, Colum ergueu as sobrancelhas e disse alguma coisa rapidamente em 
galico que fez com que tanto o queixoso quanto o acusado se dobrassem de rir. Enxugando os olhos, o queixoso finalmente assentiu balanando a cabea e ofereceu 
a mo a seu adversrio, enquanto o escrivo registrava tudo rapidamente, a pena rangendo como as patas de um rato.
        Eu era a quinta na agenda. Uma posio, pensei, calculadamente planejada para indicar para as pessoas ali reunidas o grau de importncia da minha presena 
no castelo.
        Em meu benefcio, falou-se em ingls durante a minha apresentao.
        - Sra. Beauchamp, poderia adiantar-se?
        Apressada por um empurro desnecessrio da mo gorducha da sra. Fitz-Gibbons, sa com um tropeo para o espao livre diante de Colum e, de forma um tanto 
desajeitada, fiz uma mesura, como vira outras mulheres fazerem. Os sapatos que haviam me dado no faziam diferena entre p direito e p esquerdo, sendo apenas um 
couro moldado numa forma oval alongada, o que tornava difcil executar movimentos graciosos. Um zun-zum de interesse percorreu a multido quando Colum fez a deferncia 
de levantar-se de sua cadeira. Ofereceu-me a mo, que aceitei para no cair de cara no cho.
        Ao me levantar de minha reverncia, amaldioando mentalmente as sapatilhas, vi-me diante do peito de Dougal. Como meu captor, tudo indicava que cabia a ele 
fazer o pedido formal para o meu acolhimento - ou cativeiro, dependendo do ponto de vista.
        - Senhor - comeou Dougal, inclinando-se formalmente para Colum -, rogamos sua indulgncia e clemncia com respeito a uma senhora necessitada de socorro 
e refgio. Claire Beauchamp, uma senhora inglesa de Oxford, tendo sido atacada por ladres de estrada e seu criado morto traioeiramente, fugiu para a floresta de 
suas terras, onde foi descoberta e resgatada por mim e meus homens. Suplicamos que o Castelo Leoch possa oferecer refgio a essa senhora at que - fez uma pausa 
e um sorriso cnico entortou sua boca - suas ligaes inglesas possam ser informadas de seu paradeiro e que seu transporte em segurana possa ser providenciado.
        No me passou despercebida a nfase em inglesas e nem a nenhum dos presentes, eu tinha certeza. Assim, eu deveria ser tolerada, mas mantida sob suspeita. 
Se ele tivesse dito francesas, eu teria sido considerada uma intrusa amistosa ou, na pior das hipteses, neutra. Fugir do castelo poderia ser mais difcil do que 
eu esperava.
        Colum fez uma reverncia corts para mim e ofereceu-me a hospitalidade ilimitada de sua humilde casa, ou algo nesse sentido. Fiz uma nova mesura, com um 
pouco mais de sucesso, e retirei-me para junto dos outros, seguida de olhares curiosos, porm mais ou menos amistosos.
        At esse ponto, os casos pareciam ser do interesse principalmente das partes envolvidas. Os espectadores conversavam entre si em voz baixa, aguardando sua 
vez. Minha prpria apresentao fora recebida com um murmrio interessado de especulao e, acredito, de aprovao.
        Agora, entretanto, um burburinho nervoso percorria o salo. Um homem forte adiantou-se para o centro do espao vazio, arrastando uma jovem pela mo. Ela 
aparentava ter uns dezesseis anos, com um rosto bonito e emburrado, e longos cabelos louros amarrados na nuca com uma fita azul. Adiantou-se aos tropees para o 
meio do espao e ficou parada ali sozinha, enquanto o homem atrs dela protestava em galico, agitando os braos e apontando para ela para exemplificar ou acusar. 
Murmrios percorriam a multido enquanto ele falava.
        A sra. Fitz-Gibbons, o corpo volumoso assentado em uma banqueta torta, espichava o pescoo com interesse. Inclinei-me para a frente e perguntei em seu ouvido:
        - O que ela fez?
        A enorme mulher respondeu sem mover os lbios ou desviar os olhos da cena.
        - O pai dela a acusa de comportamento licencioso; de encontrar-se desapropriadamente com rapazes contra as suas ordens - balbuciou a sra. Fitz-Gibbons, inclinando 
o corpo volumoso para trs. - Seu pai quer que o MacKenzie a castigue por desobedincia.
        - Castigar? Como? - sussurrei, o mais baixo possvel.
        - Shhh.
        No centro, as atenes agora se voltavam para Colum, que ponderava sobre a jovem e o pai. Olhando de um para o outro, comeou a falar. Franzindo a testa, 
bateu bruscamente com os ns dos dedos no brao da cadeira e um estremecimento percorreu a multido.
        - Ele j decidiu - murmurou a sra. Fitz-Gibbons, desnecessariamente. O que ele havia decidido tambm era claro; o gigante mexeu-se pela primeira vez, desabotoando 
vagarosamente seu cinto de couro. Os dois guardas seguraram a aterrorizada jovem pelos braos e viraram-na de modo que ficasse de costas para Colum e seu pai. Ela 
comeou a chorar, mas no fez nenhum apelo. A platia observava com a espcie de intenso entusiasmo presente em execues pblicas e acidentes de trnsito. Repentinamente, 
uma voz galica ergueu-se na multido, audvel acima da movimentao e do burburinho.
        As cabeas se voltaram para localizar a pessoa que falara. A sra. Fitz-Gibbons levantou-se, ficando at mesmo na ponta dos ps, para ver. Eu no fazia a 
menor idia do que fora dito, mas achei que conhecia aquela voz, grave, mas suave, com um jeito pronunciado de cortar as consoantes finais.
        A multido apartou-se e Jamie MacTavish surgiu no espao vazio. Inclinou a cabea respeitosamente para MacKenzie, em seguida continuou a falar. O que quer 
que tenha dito, pareceu gerar mais controvrsia. Colum, Dougal, o pequeno escrivo e o pai da jovem, todos pareciam estar avaliando a situao.
        - O que foi? - murmurei para a sra. Fitz-Gibbons. Meu paciente parecia muito melhor do que na ltima vez em que o vi, embora ainda um pouco plido, pensei. 
Arranjara uma camisa limpa; a manga direita vazia fora dobrada e enfiada na cintura de seu kilt.
        A sra. Fitz-Gibbons acompanhava os acontecimentos com grande interesse.
        - O rapaz est se oferecendo para receber o castigo pela jovem - disse distraidamente, tentando espreitar pelos lados da cabea do espectador  nossa frente.
        - O qu? Mas ele est ferido! Certamente no vo deix-lo fazer uma coisa dessas! - falei o mais baixo que pude sob o zumbido da multido.
        A sra. Fitz-Gibbons sacudiu a cabea.
        - No sei. Esto discutindo isso agora. Veja bem,  permitido que um homem de seu prprio cl se oferea por ela, mas o rapaz no  um MacKenzie.
        - No ? - Fiquei surpresa, tendo suposto ingenuamente que todos os homens do grupo que me capturara pertencessem ao Castelo Leoch.
        - Claro que no - respondeu a sra. Fitz-Gibbons com impacincia. -No v o tart dele?
        Claro que sim, uma vez que ela chamou minha ateno para isso. Embora Jamie tambm usasse um tart de caa em tons de verde e marrom, as cores eram diferentes 
dos tarts dos outros homens presentes. O marrom era mais escuro, quase um tom de casca de rvore, com uma fina listra azul.
        Tudo indicava que a contribuio de Dougal fora o argumento definitivo. O grupo de conselheiros dispersou-se e a multido fez silncio, aguardando os prximos 
acontecimentos. Os dois guardas soltaram a jovem, que correu de volta para o meio da multido, e Jamie deu um passo  frente para tomar o lugar dela entre os guardas. 
Observei horrorizada quando fizeram meno de segurar seus braos, mas ele falou em galico para o homem com o cinto de couro e os dois guardas se afastaram. Surpreendentemente, 
um sorriso largo e insolente iluminou seu rosto por um instante. Mais estranho ainda, viu-se um breve sorriso de resposta no rosto do gigante.
        - O que ele disse? - indaguei  minha intrprete.
        - Ele prefere os punhos em vez da correia. Um homem pode fazer essa escolha, mas uma mulher no.
        - Punhos? - No tive tempo para novas perguntas. O carrasco afastou para trs o punho cerrado como um tacape e arremessou-o no estmago de Jamie, fazendo 
com que se dobrasse e soltasse a respirao com uma arfada. O homem esperou que ele se soerguesse outra vez antes de administrar-lhe uma srie de golpes vigorosos 
nas costelas e braos. Jamie no fez nenhum esforo para se defender, meramente tentando equilibrar-se para se manter de p diante do ataque.
        O prximo soco foi no rosto. Contra-me e apertei os olhos involuntariamente quando a cabea de Jamie foi atirada para trs. O carrasco demorava-se entre 
um golpe e outro, com cuidado para no nocautear sua vitima ou bater muitas vezes em um nico lugar. Era um espancamento cientfico, habilmente conduzido para infligir 
dor, mas no para aleijar ou mutilar. Um dos olhos de Jamie estava inchando e ele respirava com dificuldade, mas fora isso no parecia em muito mau estado.
        Eu estava angustiada de apreenso, com medo de que um dos golpes reabrisse o ferimento no ombro. Minhas ataduras continuavam no lugar,
        mas no durariam muito diante deste tipo de tratamento. Por quanto tempo aquilo iria continuar? O salo estava em silncio, exceto pelos baques surdos de 
carne contra carne e um ou outro gemido leve.
        - O pequeno Angus interromper quando ele sangrar - sussurrou a Sra. Fitz, aparentemente adivinhando minha pergunta no proferida. - Em geral, quando o nariz 
 quebrado.
        - Isso  uma selvageria! - exclamei entre dentes, furiosa. Diversas pessoas ao nosso redor olharam-me severamente.
        Agora, aparentemente o carrasco decidira que a punio j transcorrera pelo tempo devido. Deu um passo para trs e desfechou um golpe fulminante; Jamie cambaleou 
e caiu de joelhos. Os dois guardas apressaram-se para coloc-lo de p e, quando ele levantou a cabea, pude ver o sangue jorrando de sua boca espancada. A multido 
explodiu num zumbido de alvio e o carrasco recuou, satisfeito com o seu desempenho.
        Um guarda segurou Jamie pelo brao, amparando-o enquanto ele sacudia a cabea para desanuvi-la. A jovem desaparecera. Jamie ergueu a cabea e olhou nos 
olhos do enorme carrasco. Surpreendentemente, riu outra vez, da melhor forma que podia. Os lbios, sangrando, moveram-se:
        - Obrigado - disse, com dificuldade, e inclinou-se formalmente para o homem maior do que ele, antes de se voltar para ir embora. A ateno da multido voltou 
para MacKenzie e o prximo caso diante dele.
        Vi Jamie abandonar o salo pela porta na parede oposta. Tendo agora mais interesse nele do que nos procedimentos, despedi-me da sra. Fitz-Gibbons com uma 
rpida palavra e abri caminho pelo salo para segui-lo.
        Encontrei-o num pequeno ptio interno, recostado contra uma fonte e tocando de leve a boca com a ponta da camisa.
        - Tome, use isto - eu disse, oferecendo-lhe um leno do meu bolso.
        Aceitou-o com um rudo que entendi como sendo um agradecimento. Um sol plido e fraco j sara e eu examinei o jovem cuidadosamente  sua luz. Um lbio cortado 
e um olho extremamente inchado pareciam ser os principais danos, embora houvesse marcas no maxilar e no pescoo que logo se transformariam em manchas roxas.
        - Sua boca est cortada por dentro tambm?
        - Hum-hum. - Inclinou-se e eu puxei seu maxilar inferior, virando delicadamente o lbio para baixo para examinar o interior da boca. Havia um corte profundo 
na mucosa brilhante da bochecha e umas duas perfuraes pequenas na membrana rsea da parte interna do lbio. O sangue misturado  saliva acumulou-se e escorreu.
        - gua - ele disse com dificuldade, tentando enxugar o fio de sangue que escorria pelo queixo.
        - Certo. - Felizmente, havia um balde e um copo de chifre na borda da fonte. Ele lavou a boca e cuspiu vrias vezes, depois jogou gua no resto do rosto.
        - Por que fez aquilo? - perguntei com curiosidade.
        - O qu? - disse, endireitando-se e enxugando o rosto na manga da camisa. Tocou de leve o lbio rachado, encolhendo-se ligeiramente.
        - Oferecer-se para receber a punio no lugar daquela garota. Voc a conhece? - Senti uma certa timidez em perguntar, mas eu realmente queria saber o que 
havia por trs daquele gesto quixotesco.
        - Sei quem . Mas nunca falei com ela.
        - Ento, por que fez isso?
        Encolheu os ombros, um movimento que tambm o fez contrair-se.
        - Teria sido uma vergonha para a garota, levar uma surra em pleno Conselho. Era mais fcil para mim.
        - Mais fcil? - repeti, incrdula, olhando para seu rosto surrado. Ele apalpava as costelas doloridas com a mo livre, mas ergueu os olhos e deu um sorriso 
enviesado.
        - Sim. Ela  muito jovem. Teria sido envergonhada diante de todo mundo que a conhece e levaria muito tempo at superar isso. Estou dolorido, mas nada realmente 
grave; vou me recuperar em um ou dois dias.
        - Mas por que voc? - perguntei. Olhou-me como se achasse a pergunta estranha.
        - Por que no eu? - retrucou.
        Por que no?, tive vontade de dizer. Porque voc no a conhecia, ela no significava nada para voc. Porque voc j estava ferido. Porque  preciso uma coragem 
especial para ficar parado diante de uma multido e deixar algum surr-lo no rosto, qualquer que fosse o motivo.
        - Bem, um trapzio perfurado por uma bala de mosquete poderia ser considerado um bom motivo - eu disse secamente.
        - Trapzio, hein? No sabia disso.
        - Ah, a est voc, rapaz! Vejo que j encontrou quem cuide de voc; talvez no precise de mim. - A sra. Fitz-Gibbons veio gingando, espremendo-se um pouco 
pela passagem estreita que dava para o ptio. Segurava uma bandeja com alguns potes, uma tigela larga e uma toalha de linho limpa.
        - No fiz nada alm de ir buscar um pouco d'gua - eu disse. - Acho que no est muito ferido, mas no sei o que podemos fazer por ele alm -de lavar seu 
rosto.
        - Ah, ora, sempre h alguma coisa, sempre h alguma coisa que pode ser feita - ela disse, descontraidamente. - Ora, esse olho, rapaz, deixe-me v-lo. - Jamie 
sentou-se obedientemente na borda da fonte e virou o rosto para ela. Os dedos rechonchudos pressionaram delicadamente o inchao arroxeado, deixando marcas brancas 
que desapareceram rapidamente.
        -- Ainda est sangrando sob a pele. Ento, as sanguessugas vo ser teis. -- Levantou a tampa da tigela, revelando vrias lesmas escuras e pequenas, de trs 
a cinco centmetros, cobertas com um lquido de aspecto asqueroso. Com a mo em concha, retirou duas delas e aplicou uma na pele logo abaixo do osso da sobrancelha 
e a outra abaixo do olho.
        - Veja bem - explicou-me -, quando uma contuso se estabelece, as sanguessugas no adiantam mais. Mas quando se tem um inchao como esse, que ainda est 
se formando, significa que o sangue est fluindo sob a pele e as sanguessugas podem extra-lo.
        Fiquei observando, fascinada e com nojo.
        - No di? - perguntei a Jamie. Ele sacudiu a cabea, fazendo as sanguessugas balanarem-se de forma repugnante.
        - No. Do uma sensao fria, s isso.
        A sra. Fitz estava ocupada com suas botijas e frascos.
        - Muita gente no sabe usar sanguessugas - informou-me. - s vezes so muito teis, mas  preciso saber us-las. Quando usadas numa contuso antiga, s retiram 
o sangue saudvel, e isso no adianta nada para o hematoma. Alm disso,  preciso ter cuidado para no usar muitas de uma vez; elas enfraquecem uma pessoa que est 
muito doente ou que j perdeu muito sangue.
        Ouvi respeitosamente, absorvendo todas as informaes, embora eu sinceramente esperasse que nunca me pedissem para usar aquilo.
        - Agora, rapaz, faa um bochecho com isso; vai limpar os cortes e aliviar a dor. Ch de casca de salgueiro - explicou-me -, com um uma pitada de raiz de 
ris moda. - Balancei a cabea; lembrava-me vagamente de ter ouvido em uma antiga aula de botnica que a casca do salgueiro continha cido saliclico, o ingrediente 
ativo de uma aspirina.
        - A casca de salgueiro no aumenta a possibilidade de sangramento? -perguntei.
        A sra. Fitz confirmou balanando a cabea.
        - Sim. s vezes, sim.  por isso que em seguida voc d um punhado de erva-de-so-joo embebida em vinagre; isso estanca o sangramento, se tiver sido colhida 
na lua cheia e bem moda.
        Jamie obedientemente lavou a boca com a soluo adstringente, os olhos lacrimejando com o cheiro penetrante do vinagre aromatizado.
        As sanguessugas j estavam gordas a essa altura, inchadas e com o tamanho quadruplicado. A pele escura e enrugada agora estava lisa e brilhante; pareciam 
pedras redondas e polidas. De repente, uma das sanguessugas se desprendeu, saltando no cho e parando junto aos meus ps. A sra. Fitz pegou-a habilmente, abaixando-se 
com facilidade apesar do seu volume, e colocou-a de volta na tigela. Segurando delicadamente a outra sanguessuga logo atrs das mandbulas, puxou-a devagar fazendo 
a cabea esticar-se.
        - No pode puxar com muita fora - ela disse. - s vezes, estouram. - Estremeci involuntariamente diante da idia. - Mas quando esto quase cheias, em geral 
saem facilmente. Se no sarem, deixe-as mais algum tempo e cairo sozinhas.
        De fato, a sanguessuga saiu com facilidade, deixando uma gota de sangue onde estivera presa. Enxuguei o minsculo ferimento com a ponta da toalha imersa 
na soluo de vinagre. Para minha surpresa, as sanguessugas funcionaram; o inchao fora substancialmente reduzido e o olho estava ao menos parcialmente aberto, embora 
a plpebra ainda estivesse intumescida. A sra. Fitz examinou-o e concluiu que no deveria usar outra sanguessuga.
        - Voc vai ficar com uma aparncia horrvel amanh, rapaz, no resta a menor dvida - ela disse, sacudindo a cabea -, mas ao menos poder ver um pouco com 
este olho. O que voc precisa agora  colocar um pouco de carne crua em cima dele e pingar uma gota de caldo de carne com cerveja, para fortalecer o olho. V at 
a cozinha mais tarde e eu arranjarei um pouco para voc. - Pegou sua bandeja e parou por um instante.
        - O que voc fez foi de bom corao, rapaz. Laoghaire  minha neta, voc sabe; eu lhe agradeo por ela. Embora ela deva agradecer pessoalmente a voc, se 
tiver um pouco de educao. - Deu uns tapinhas afetuosos no rosto de Jamie e saiu caminhando pesadamente.
        Examinei-o com cuidado; o arcaico tratamento mdico fora surpreendentemente eficaz. O olho ainda estava um pouco inchado, mas apenas levemente arroxeado, 
e o corte no lbio reduzira-se a uma linha limpa, sem sangue, somente um pouco mais escura do que o tecido  sua volta.
        - Como se sente? - perguntei.
        - Bem. - Devo ter olhado de esguelha, com um ar de descrena, porque ele sorriu, ainda tomando cuidado com a boca. - So apenas machucados, sabe. Parece 
que tenho que lhe agradecer outra vez; com essa, so trs vezes em trs dias que voc cuidou de mim. Deve estar achando que sou um pouco atrapalhado.
        Toquei uma mancha roxa em seu queixo.
        - Atrapalhado, no. Um pouco insensato, talvez.
        Uma movimentao na entrada do ptio chamou minha ateno; um lampejo de azul e amarelo. A jovem chamada Laoghaire recuou timidamente ao me ver.
        - Acho que algum quer falar com voc a ss - eu disse. - Vou embora. Mas as ataduras do ombro podem ser retiradas amanh. Irei  sua procura.
        - Sim. Mais uma vez, obrigado. - Apertou minha mo levemente em despedida. Ao sair, olhei a jovem com curiosidade. Era ainda mais bonita de perto, com meigos 
olhos azuis e uma pele lisa e suave como uma ptala de rosa. Iluminou-se ao olhar para Jamie. Deixei o ptio, imaginando se na realidade seu gesto cavalheiresco 
fora assim to altrustico quanto eu imaginara.
        Na manh seguinte, acordada ao raiar do dia pela algazarra dos pssaros no lado de fora e das pessoas no lado de dentro, vesti-me e descobri meu caminho 
pelos corredores frios at o salo. Devolvido  sua identidade normal como refeitrio, enormes caldeires de mingau eram servidos, com pes assados na lareira e 
untados com melado. O forte aroma dos alimentos sendo preparados era quase palpvel. Ainda me sentia tonta e confusa, mas um desjejum quente e reforado reanimou-me 
o suficiente para fazer uma pequena explorao.
        Encontrando a sra. Fitz-Gibbons mergulhada at os cotovelos rechonchudos em massa enfarinhada, anunciei que queria encontrar Jamie, a fim de retirar as ataduras 
e examinar a cicatrizao do ferimento  bala. Ela convocou um de seus criados com um aceno da mo redonda e branca de farinha.
        -Jovem Alec, v procurar Jamie, o novo domador de cavalos. Diga-lhe para vir com voc para fazer curativo no ombro. Estaremos no canteiro de ervas. - Um 
sonoro estalo de dedos fez o rapaz sair correndo para localizar meu paciente.
        Passando a tarefa de sovar a massa para uma criada, a sra. Fitz lavou as mos e virou-se para mim.
        - Ainda vai levar algum tempo at voltarem. Gostaria de dar uma olhada no canteiro de ervas? Parece que voc tem algum conhecimento de plantas e, se quiser, 
pode dar uma mozinha l quando tiver tempo.
        O canteiro de ervas, um valioso repositrio de plantas aromticas e medicinais, ficava protegido em um ptio interno, suficientemente grande para receber 
sol, mas bastante abrigado dos ventos da primavera e com sua prpria fonte. Moitas de alecrim limitavam o canteiro a oeste, camomila ao sul e uma fileira de pau-roxo 
delimitava o canteiro ao norte, com a prpria parede do castelo.na extremidade leste, um abrigo adicional aos ventos freqentes. Identifiquei corretamente os estiletes 
verdes do aafro e as folhas macias da azedinha francesa brotando da terra escura e adubada. A sra. Fitz mostrou-me a dedaleira, a beldroega e a betnica, alm 
de algumas outras plantas que eu no conhecia.
        O final da primavera era hora de plantio. A cesta que a sra. Fitz trazia no brao carregava uma profuso de dentes de alho, a primeira colheita do vero. 
A rolia senhora entregou-me o cesto, juntamente com uma pazinha para escavar. Tudo indicava que eu j ficara tempo suficiente  toa no castelo; at Colum encontrar 
uma funo para mim, a sra. Fitz sempre teria trabalho para mais duas mos.
        - Tome, querida. Plante-os aqui, ao longo do lado sul, entre o tomilho e a dedaleira.
        Mostrou-me como dividir as cabeas em brotos individuais sem desfazer o invlucro duro e, depois, como plant-los. Era bastante simples, bastava enfiar cada 
dente no cho, a parte rombuda para baixo, enterrado cerca de quatro centmetros abaixo da superfcie. Ergueu-se, limpando as volumosas saias.
        - Guarde algumas cabeas - avisou-me. - Divida-as e plante os dentes separados aqui e l, por todo o canteiro. O alho no deixa que as outras plantas sejam 
atacadas por bichinhos. Cebolas e mileflios surtem o mesmo efeito. E tire as pontas mortas dos cravos-da-ndia, mas guarde-as, so teis.
        Havia muitos ps de cravos-da-ndia espalhados pelo canteiro, irrompendo em flores douradas. Nesse instante, o Jovem Alec que ela enviara  procura de Jamie 
chegou, quase sem flego da corrida. Informou que o paciente recusara-se a largar o trabalho.
        - Ele disse - informou, arquejante, o rapaz - que j no sente dor e que no precisa mais de curativos, mas mandou agradecer seu interesse.
        A sra. Fitz encolheu os ombros diante da notcia no muito tranqilizadora.
        - Bem, se no quer vir, tudo bem. Mas, se quiser, v at o curral por volta do meio-dia, dona. Ele pode no parar para ser atendido, mas vai parar para comer, 
se eu conheo bem os rapazes. O Jovem Alec vir busc-la e a levar at l.
        Deixando-me com a tarefa de plantar o restante do alho, a sra. Fitz partiu como um galeo, o Jovem Alec bamboleando atrs dela.
        Trabalhei alegremente durante toda a manh, plantando alho, retirando as pontas de flores mortas, arrancando ervas daninhas e levando adiante a batalha sem 
fim de um jardineiro contra caracis, lesmas e pragas similares. Aqui, entretanto, a batalha era travada com as mos vazias, sem nenhuma ajuda de pesticidas. Estava 
to absorta em meu trabalho que no notei a chegada do Jovem Alec at ele tossir educadamente para chamar minha ateno. No sendo afeito a muitas palavras, esperou 
apenas o tempo suficiente para eu me levantar e limpar minha saia, antes de desaparecer pelo porto do ptio.
        O curral aonde ele me levou ficava um pouco distante da estrebaria, em uma campina gramada e cercada. Trs cavalos jovens saltitavam alegremente no prado. 
A outra, uma gua baia, jovem e reluzente, estava amarrada  cerca, com um cobertor leve sobre o dorso.
        Jamie aproximava-se cautelosamente pelo lado da gua, que observava sua aproximao com uma boa dose de desconfiana. Ele colocou o brao livre levemente 
em seu dorso, falando baixinho, pronto para recuar se a gua se opusesse. Ela revirou os olhos e resfolegou, mas no se mexeu. Movendo-se lentamente, encostou-se 
no cobertor, ainda sussurrando para a gua, e aos poucos, bem devagar, descansou o peso do seu corpo sobre as costas do animal. Ela retrocedeu um pouco e arrastou 
as patas, mas ele insistiu, erguendo a voz apenas um pouco.
        Nesse exato instante, a gua virou a cabea e nos viu chegando. Pressentindo alguma ameaa, recuou, relinchando, e virou-se para nos olhar diretamente, imprensando 
Jamie contra a cerca. Resfolegando e corco-veando, ela saltava e procurava se livrar da corda que a prendia  cerca. Jamie rolou por baixo da cerca, fora do alcance 
dos coices. Levantou-se com dificuldade, praguejando em galico, e virou-se para ver o que havia causado aquele contratempo em seu trabalho.
        Quando viu quem era, sua expresso furiosa mudou imediatamente para um amvel cumprimento de boas-vindas, embora eu receie que nosso aparecimento no tenha 
sido to oportuno quanto era de se desejar. O cesto com o lanche, providencialmente enviado pela sra. Fitz, que realmente conhecia os jovens, contribuiu bastante 
para recuperar seu bom humor.
        - Ah, acalme-se, maldito animal - advertiu a gua, ainda bufando e dando pinotes. Liberando o Jovem Alec com um sopapo amigvel, recuperou o cobertor que 
cara da gua e, sacudindo a poeira do curral, gentilmente estendeu-o para que eu me sentasse.
        Diplomaticamente, evitei qualquer referncia ao recente contratempo com a gua e, em vez disso, servi-lhe cerveja e pedaos de po e de queijo.
        Ele comeu com uma concentrao to absoluta que me fez lembrar de sua ausncia do jantar h duas noites.
        - Dormi direto - ele disse rindo quando lhe perguntei por onde andara. - Fui dormir assim que a deixei no castelo e s acordei ontem de manh. Trabalhei 
um pouco ontem, aps o Conselho, depois me sentei em um fardo de feno para descansar um pouco antes do jantar. Acordei hoje de manh ainda sentado l, com um cavalo 
mordiscando a minha orelha.
        Achei que o descanso fizera-lhe bem; as contuses da surra do dia anterior estavam escuras, mas a pele ao redor tinha uma boa cor saudvel e ele certamente 
tinha bom apetite.
        Observei-o terminar toda a comida, catando farelos de po da camisa com a ponta do dedo molhada e jogando-os dentro da boca.
        - Tem um apetite saudvel - eu disse, rindo. - Aposto que poderia comer capim se no tivesse outra coisa.
        - J comi - ele disse, srio. - No tem gosto ruim, mas no alimenta muito.
        Fiquei perplexa, depois achei que estivesse brincando comigo.
        - Quando? - perguntei.
        - Inverno, no ano anterior ao ltimo. Eu estava vivendo precariamente, sabe, na floresta, com os... com um grupo de rapazes, fazendo incurses na fronteira. 
No tivemos sorte por mais de uma semana e no havia mais nenhuma comida. De vez em quando conseguamos um pouco de mingau na casa de um ou outro campons, mas eles 
mesmos so to pobres que raramente podem oferecer alguma coisa. Mas, veja bem, eles sempre acham alguma coisa para dar a um estranho, mas vinte estranhos  demais, 
mesmo para a hospitalidade de um habitante das Highlands.
        Abriu um largo sorriso repentinamente.
        -J ouviu falar... bem, no teria ouvido. Eu ia perguntar se voc j tinha ouvido a orao de graas que dizem nas pequenas fazendas.
        - No. Como ?
        Ele sacudiu a cabea para afastar os cabelos dos olhos e recitou:
        Corra, corra,  volta da mesa, Coma tanto quanto puder. Coma muito, no surrupie nada, Corra, corra, Amm.
        - "No surrupie nada?" - perguntei, achando graa. Ele bateu na bolsa presa ao cinto.
        - Coloque a comida na barriga, no na bolsa - explicou.
        Pegou uma longa lmina de grama e puxou-a delicadamente de sua base. Enrolou-a devagar entre as palmas da mo, fazendo as minsculas sementes voarem da haste.
        - Era fim de inverno, e um inverno ameno, o que foi sorte, ou no teramos sobrevivido. Sempre podamos capturar alguns coelhos com armadilhas, s vezes 
os comamos crus, se no pudssemos nos arriscar a acender um fogo, e de vez em quando um cervo, mas no achvamos caa h vrios dias, nessa poca de que estou 
falando.
        Dentes brancos e retos mastigaram o talo de grama. Eu mesma arranquei um talo e mordisquei a ponta. Era adocicado e ligeiramente cido, mas s havia mais 
ou menos uns dois centmetros de talo macio o suficiente para comer; no dava para sustentar ningum.
        Jogando fora o talo parcialmente comido, Jamie arrancou outro e continuou sua histria.
        - Nevara um pouco alguns dias antes; apenas uma crosta sob as rvores e lama em todo o resto. Eu procurava cogumelos, sabe, aqueles enormes, cor de laranja, 
que crescem na base das rvores, s vezes. Enfiei o p em uma crosta de neve e por baixo havia um bom pedao de terra com grama, crescendo num espao aberto entre 
as rvores, acho que batia um pouco de sol ali s vezes. Geralmente, os veados encontram esses trechos de grama. Eles tiram a neve com as patas e comem a grama at 
as razes.
        No haviam encontrado aquela ali ainda e achei que se eles conseguiam atravessar o inverno dessa forma, por que no eu? Estava to faminto que Poderia ter 
cozinhado minhas botas e comido, se no precisasse delas para andar. Assim, comi a grama, at as razes, como os veados fazem.
        -- H quanto tempo voc no comia? - perguntei, fascinada e horrorizada.
        - Trs dias sem nada; uma semana sem nada mais do que um punhado de aveia com um pouco de leite. Sim - disse, olhando pensativamente o talo de grama em sua 
mo -, a grama de inverno  dura e azeda, no  como esta, mas eu no me importei. - Riu para mim repentinamente.
        - Tambm no dei muita importncia ao fato de que um cervo tem quatro estmagos, enquanto eu s tinha um. Tive clicas terrveis e gases durante dias. Um 
dos homens mais velhos disse-me mais tarde que, para comer grama,  preciso cozinh-la na gua primeiro, mas eu no sabia disso na hora. No teria feito diferena; 
estava faminto demais para esperar.
        Levantou-se e me deu a mo para me ajudar a ficar de p.
        -  melhor voltar ao trabalho. Obrigado pela comida, dona. - Entregou-me o cesto e dirigiu-se para o curral, o sol brilhando em seus cabelos como num tesouro 
de moedas de ouro e cobre.
        Voltei lentamente para o castelo, pensando nos homens que viviam na lama fria e comiam grama. No me ocorreu, at chegar ao ptio, que eu me esquecera completamente 
de seu ombro.
        
        
        
        7 - O CONSULTRIO DE DAVIE BEATON
        
        Para minha surpresa, um dos soldados de kilt de Colum esperava por mim junto ao porto quando retornei ao castelo. O sr. MacKenzie ficaria agradecido, disse-me, 
se o aguardasse em seus aposentos.
        Os longos postigos das janelas estavam abertos no santurio particular do chefe dos MacKenzie e o vento sacudia os ramos das rvores cativas com uma agitao 
e um murmrio que davam a iluso de se estar ao ar livre.
        O prprio MacKenzie estava sentado  sua escrivaninha quando entrei, mas parou de escrever imediatamente e levantou-se para me cumprimentar. Aps algumas 
indagaes quanto  minha sade e bem-estar, levou-me  gaiola junto  parede, onde ficamos admirando os minsculos habitantes trinando e saltitando pela folhagem, 
animados com o vento.
        - Dougal e a sra. Fitz-Gibbons falaram-me sobre sua grande habilidade de curar - Colum observou descontraidamente, enfiando um dedo pela tela da gaiola. 
Aparentemente acostumado a isso, um pequeno trigueiro cinza lanou-se para baixo e pousou com preciso, as pequenas garras firmemente presas ao dedo e as asas ligeiramente 
abertas para manter o equilbrio. Ele acariciou delicadamente a cabea do pssaro com o nodoso dedo indicador da outra mo. Vi a pele grossa em torno da unha e fiquei 
intrigada; no parecia provvel que ele fizesse muito trabalho manual.
        Encolhi os ombros.
        - No  preciso muita habilidade para fazer curativo em um ferimento superficial.
        Ele sorriu.
        - Talvez no, mas  preciso um pouco de habilidade para fazer isso em total escurido ao lado da estrada, hein? E a sra. Fitz diz que voc consertou um dedo 
quebrado de um de seus rapazes e que tambm tratou do brao escaldado de uma das cozinheiras hoje de manh.
        - Isso tambm no  muito difcil - repliquei, imaginando onde ele estaria querendo chegar. Fez um sinal para um dos criados, que rapidamente foi pegar uma 
pequena tigela de uma das gavetas da escrivaninha. Retirando a tampa, Colum comeou a espalhar sementes atravs da tela da gaiola. Os passarinhos lanaram-se dos 
galhos como um bando de bolas de crquete arremessadas no meio da quadra e o trigueiro fez o mesmo, unindo-se a seus companheiros no cho da gaiola.
        - No tem nenhuma ligao com o cl dos Beaton, tem? - perguntou.
        Lembrei-me da sra. Fitz-Gibbons ter perguntado:  uma feiticeira, ento? Uma Beaton?
        - Nenhuma. O que o cl Beaton tem a ver com tratamento mdico? Colum olhou-me surpreso.
        - Ento nunca ouviu falar deles? Os curandeiros do cl Beaton so famosos em toda a regio das Highlands. Muitos deles so curandeiros viajantes. Na verdade, 
tivemos um aqui conosco durante algum tempo.
        - Tiveram? O que aconteceu a ele? - perguntei.
        - Morreu - Colum respondeu sem rodeios. - Pegou uma febre e isso o levou em menos de uma semana. Desde ento no tivemos mais um curandeiro, exceto a sra. 
Fitz.
        - Ela parece muito competente - eu disse, pensando no tratamento eficaz dos machucados do jovem Jamie. Pensar nisso me fez lembrar do que os causara e senti 
uma onda de ressentimento em relao a Colum. Ressentimento e cautela tambm. Este homem, disse a mim mesma, era a lei, o jri e o juiz para o povo que vivia em 
seus domnios - e obviamente acostumara-se a impor sua vontade.
        Ele assentiu, ainda atento aos pssaros. Espalhou o restante dos gros, favorecendo um pequeno pssaro canoro cinza-azulado que chegara atrasado.
        - Ah, sim. Ela  de grande ajuda nessas questes, mas ela j tem mais do que suficiente para cuidar, administrando o castelo inteiro e todos que vivem aqui, 
inclusive eu - disse, com um repentino sorriso encantador.
        - Eu estava imaginando - disse, aproveitando-se rapidamente do meu sorriso em resposta -, vendo que no tem muito com que ocupar seu tempo no momento, que 
talvez quisesse dar uma olhada nas coisas que Davie Beaton deixou. Talvez conhea o uso de alguns dos seus remdios e poes.
        - Bem... creio que sim. Por que no? - De fato, eu estava ficando ligeiramente entediada com o vaivm entre a horta, a despensa e a cozinha. Estava curiosa 
para ver a parafernlia que o falecido sr. Beaton considerava til.
        - Angus ou eu poderamos acompanhar a senhora at l embaixo, senhor - o criado sugeriu respeitosamente.
        - No se preocupe, John - Colum disse, dispensando educadamente o criado com um gesto da mo. - Eu mesmo acompanharei a sra. Beauchamp.
        A descida da escada era obviamente lenta e dolorosa para ele. Igualmente bvio era que ele no queria ajuda e eu no ofereci nenhuma.
        O consultrio do finado Beaton ficava em um canto remoto do castelo, oculto atrs das cozinhas. Ficava prximo apenas do cemitrio, onde seu ex-proprietrio 
agora repousava. Situado na parede externa do castelo, o aposento era dotado apenas de uma daquelas janelas estreitas e compridas, bem alta, de modo que uma faixa 
plana de luz do sol cortava o ar, separando as trevas do teto alto e abobadado da escurido ainda mais sombria ao rs do cho.
        Espreitando os recessos turvos do aposento  frente de Colum, divisei uma cmoda alta com dezenas de gavetas minsculas, cada qual com uma etiqueta em uma 
escrita floreada. Potes, caixas e frascos de todas as formas e tamanhos estavam cuidadosamente arrumados nas prateleiras acima de uma bancada onde o finado Beaton 
evidentemente costumava preparar os remdios, a julgar pelos resduos das manchas e por uma vasilha para triturar, cheia de crostas.
        Colum entrou na sala  minha frente. Partculas reluzentes, alvoroadas por sua entrada, giraram para cima, para a faixa de luz do sol, como poeira erguida 
pela violao de um tmulo. Parou por um instante, deixando que seus olhos se acostumassem  escurido, depois caminhou lentamente para a frente, olhando de um lado 
para o outro. Achei que talvez fosse a primeira vez que ele entrava naquele aposento.
        Observando seu avano hesitante ao atravessar a sala estreita, eu disse:
        - A massagem pode ajudar um pouco. Quero dizer, com a dor. Captei um lampejo nos olhos verdes e por um instante desejei no ter falado, mas a centelha desapareceu 
quase imediatamente, substituda por sua expresso gentil de costume.
        - Tem que ser feita vigorosamente - eu disse -, na base da coluna, especialmente.
        - Eu sei - ele disse. - Angus Mhor faz isso para mim,  noite. - Fez uma pausa, manuseando um dos frascos. - Parece que a senhora realmente conhece um pouco 
da arte de curar.
        - Um pouco - disse, com cautela, esperando que ele no resolvesse me por  prova perguntando para que serviam os diversos medicamentos. O rtulo no frasco 
que ele segurava dizia PURLES OVIS. Difcil adivinhar o que seria aquilo. Felizmente, ele recolocou o frasco no lugar e passou o dedo cuidadosamente pela poeira 
em uma grande arca junto  parede.
        -- Faz algum tempo que ningum entra aqui - ele disse. - Vou falar com a sra. Fitz para mandar umas de suas meninas aqui para fazer uma limpeza, no acha?
        Abri a porta de um armrio e tossi com a nuvem de poeira que se levantou.
        -- Acho que  melhor - concordei.
        Havia um livro na prateleira mais baixa do armrio, um volume grosso encadernado em couro azul. Erguendo-o, descobri um livro menor embaixo, este simplesmente 
encadernado em tecido preto, bem desgastado nas bordas.
        Verifiquei que esse segundo livro era o registro dirio de Beaton, onde ele anotava ordenadamente os nomes dos pacientes, detalhes de seus males e o curso 
do tratamento prescrito. Um homem metdico, pensei com aprovao. Uma anotao dizia: "2 de fevereiro, 1741 d.C. Sarah Graham MacKenzie, ferimento no polegar por 
ter ficado preso na borda da bobina de fiar. Aplicao de infuso de menta, seguida de uma cataplasma de uma parte de cada: mileflio, erva-de-so-joo, tatuzinho 
modo e orelha-de-rato, misturados em uma base de argila fina." Tatuzinho? Orelha-de-rato? Algumas das ervas nas prateleiras, sem dvida.
        - O polegar de Sarah MacKenzie sarou direito? - perguntei a Colum, fechando o livro.
        - Sarah? Ah - ele disse pensativamente. - No, acho que no.
        -  mesmo? Imagino o que ter acontecido - eu disse. - Talvez eu possa dar uma olhada depois.
        Ele sacudiu a cabea e eu achei ter visto o vislumbre de um sorriso amargo nos contornos de seus lbios cheios e bem delineados.
        - Por que no? - perguntei. - Ela no est mais no castelo?
        - Acho que pode dizer que sim - respondeu. O sorriso agora era evidente. - Ela est morta.
        Fiquei olhando-o fixamente enquanto ele atravessava cuidadosamente o assoalho de pedra empoeirado em direo  porta.
        - Espero que voc se saia melhor como curandeira do que o finado Davie Beaton, sra. Beauchamp - ele disse. Virou-se e parou  porta, olhando-me sarcasticamente. 
O facho de luz do sol projetava-se diretamente sobre ele.
        - Dificilmente poderia se sair pior - ele disse, desaparecendo na escurido.
        Fiquei andando de um lado para o outro no minsculo aposento, examinando tudo. A maior parte parecia imprestvel, mas devia haver algumas coisas que mereciam 
ser salvas. Abri uma das gavetinhas da cmoda do boticrio, liberando uma lufada de cnfora. Bem, isso era til, certamente. Fechei a gavetinha e esfreguei meus 
dedos empoeirados na saia. Talvez eu devesse esperar at que as ajudantes da sra. Fitz tivessem limpado o lugar para continuar minhas investigaes.
        Espreitei o corredor. Deserto. Tampouco ouvi rudo. Mas eu no era to ingnua a ponto de pensar que no houvesse algum nas proximidades. Quer fosse por 
ordens ou por tato, eram bastante discretos a respeito, mas eu sabia que era permanentemente vigiada. Quando eu ia para a horta, algum me acompanhava. Quando subia 
para o meu quarto, via algum casualmente olhar para cima, do p das escadas, para ver que direo eu tomava. E quando chegamos de nossa cavalgada, no deixei de 
perceber os guardas armados abrigados da chuva sob o ressalto do telhado. No, definitivamente eu no poderia simplesmente sair e ir embora dali, quanto mais que 
me fornecessem transporte e meios para partir.
        Suspirei. Ao menos, estava sozinha no momento. E solido era algo que eu desejava muito, ao menos por algum tempo.
        Tentara inmeras vezes pensar em tudo que me acontecera desde que atravessei o monumento de pedras. No entanto, tudo acontecia to depressa naquele lugar 
que mal tivera um instante comigo mesma, a no ser quando estava dormindo.
        Aparentemente, agora eu poderia ter um momento s para mim. Afastei a arca empoeirada da parede e sentei-me sobre ela, recostando as costas nas pedras. Eram 
muito slidas. Estendi os braos e descansei as palmas das mos sobre elas, pensando no crculo de pedras, tentando me lembrar de cada detalhe do que acontecera.
        As pedras gritando eram na verdade a ltima cena da qual eu podia dizer que realmente me lembrava. E, mesmo sobre elas, tinha dvidas. A gritaria continuara 
o tempo inteiro, sem parar. Era possvel, pensei, que o barulho viesse no das pedras propriamente, mas de... o que quer que fosse... em que eu entrara. Seriam as 
pedras uma porta de algum tipo? E para onde se abriam? Simplesmente no havia palavras para descrever o que eram. Uma fenda no tempo, talvez, porque obviamente eu 
existia ento e eu existia agora, e as pedras eram a nica conexo.
        E os sons. Eram devastadores, mas pensando melhor agora que algum tempo j transcorrera, pareciam-me muito semelhantes aos sons de uma batalha. O hospital 
de campanha onde eu servira fora bombardeado trs vezes. Mesmo sabendo que as frgeis paredes de nossas estruturas temporrias no nos protegeriam, mesmo assim mdicos, 
enfermeiras e serventes corriam todos para dentro ao primeiro alarme, aconchegando-se para ter coragem.  preciso muita coragem quando h balas de canho chiando 
acima de nossas cabeas e bombas explodindo ao redor. O tipo de terror que eu sentira na poca era o que mais se assemelhava ao que eu sentira no monumento de pedras.
        Agora eu percebia que me lembrava de alguns pontos da viagem atravs da pedra. Detalhes muito pequenos. Lembrei-me de uma sensao de luta fsica, como se 
tivesse ficado presa em algum tipo de corrente. Sim, lutara com todas as foras contra aquilo, o que quer que fosse. Havia imagens na corrente tambm, pensei. No 
exatamente figuras, mas algo como Pensamentos incompletos. Alguns eram aterrorizantes e eu lutara para fugir deles enquanto eu... bem, "passava". Teria lutado em 
direo a outros? Tinha uma certa conscincia de lutar em direo a uma espcie de superfcie. Eu teria na verdade escolhido esta poca em particular porque oferecia 
uma espcie de refgio daquele turbilho voraz?
        Sacudi a cabea. No obtinha respostas com meus pensamentos. Nada estava claro, exceto o fato de que eu teria que voltar ao crculo de pedras.
        - Madame? - Uma suave voz escocesa vinda da porta me fez erguer o olhar. Duas jovens, talvez com dezesseis ou dezessete anos, permaneciam timidamente paradas 
no corredor. Estavam vestidas grosseiramente, com tamancos nos ps e xales tecidos  mo cobrindo os cabelos. A que falara carregava uma vassoura e vrios panos 
dobrados, enquanto sua companheira segurava um balde com gua fervente. As ajudantes da sra. Fitz, para limpar o consultrio.
        - No estamos incomodando, madame? - perguntou uma delas, ansiosamente.
        - No, no - assegurei-lhes. - Eu j estava mesmo de sada.
        - A senhora perdeu a refeio de meio-dia - a outra me informou. -Mas a sra. Fitz pediu-me para lhe dizer que h comida para a senhora na cozinha quando 
quiser ir at l.
        Olhei pela janela ao fim do corredor. O sol, de fato, j ultrapassara o znite e tomei conscincia da crescente nsia de fome no meu estmago. Sorri para 
as jovens.
        - Vou fazer isso. Obrigada.
        Levei o almoo para o campo outra vez, temendo que Jamie no comesse nada at o jantar. Sentado na grama, vendo-o comer, perguntei-lhe por que levara uma 
vida desgovernada, atravessando a fronteira para roubar gado. A essa altura, eu j vira o suficiente, tanto das pessoas que iam e vinham da aldeia mais prxima quanto 
dos habitantes do castelo para ser capaz de dizer que Jamie era mais bem-nascido e recebera uma educao muito melhor do que a maioria. Era provvel que viesse de 
uma famlia bastante rica, a julgar pela breve descrio que me dera de sua propriedade rural. Por que estaria to longe de casa?
        - Sou um fora-da-lei - disse, como se estivesse surpreso por eu no saber. - Os ingleses colocaram uma recompensa de dez libras pela minha cabea. No tanto 
como um assaltante de estrada - disse, com zombaria -, mas como um ladro de galinhas.
        - S por obstruo? - perguntei, incrdula. Dez libras aqui eram metade da renda anual de uma pequena fazenda; eu no podia imaginar que um nico fugitivo 
pudesse valer tanto para o governo ingls.
        - Ah, no. Assassinato. - Engasguei com um bocado de po e picles. Jamie bateu nas minhas costas para me ajudar at eu poder falar outra vez.
        Com os olhos lacrimejantes, perguntei:
        - Q-quem voc m-matou? Deu de ombros.
        - Bem,  um pouco estranho. Eu na verdade no matei o homem por cujo assassinato sou procurado. Mas, veja bem, matei alguns soldados ingleses ao longo do 
caminho, de modo que suponho que no seja injusto.
        Parou e remexeu os ombros, como se roasse em alguma parede invisvel. Eu j o vira fazer isso antes, na minha primeira manh no castelo, quando cuidei de 
seu ferimento e vi as cicatrizes em suas costas.
        - Foi em Fort William. Passei um ou dois dias em que mal podia me mexer, depois de ter sido chicoteado pela segunda vez e, depois, tive febre por causa dos 
ferimentos. Quando -pude ficar de p outra vez, alguns... amigos tentaram me tirar do forte, por meios que prefiro no comentar. De qualquer modo, houve um certo 
tumulto quando partimos e um sargento-mor ingls foi morto com um tiro. Por coincidncia, era o homem que havia me aoitado pela primeira vez. Mas no fui eu que 
atirei nele; eu no tinha nada pessoal contra ele e, de qualquer modo, estava fraco demais para fazer mais do que me agarrar ao cavalo. - A boca expressiva estreitou-se 
e contraiu-se. - Embora, se fosse o capito Randall, talvez eu tivesse feito o esforo. - Relaxou os msculos outra vez, fazendo a camisa de linho cru ficar esticada 
nas costas, e em seguida deu de ombros.
        - Mas isso foi o que aconteceu.  por essa razo que no me afasto muito do castelo sozinho. Aqui no meio das Highlands, h pouca chance de esbarrar com 
guardas ingleses, embora eles realmente atravessem a fronteira com freqncia. E depois h a patrulha, embora tambm no se aproxime do castelo. Colum no precisa 
muito dos servios deles, tendo seus prprios homens. - Sorriu, passando a mo pelos cabelos curtos e brilhantes at ficarem espetados como os plos de um porco-espinho.
        - No sou exatamente uma pessoa que passe despercebida, voc sabe. Duvido que haja informantes no prprio castelo, mas deve haver um ou outro no campo que 
ficaria muito feliz de ganhar algum dinheiro informando aos ingleses onde estou, se soubessem que sou procurado. - Sorriu. - Deve ter percebido que meu nome no 
 MacTavish.
        - O senhor do castelo sabe?
        - Que sou um fora-da-lei? Ah, sim, Colum sabe.  provvel que a maior parte das pessoas desta regio das Highlands saiba; o que aconteceu em Fort William 
causou muita agitao na poca e as notcias andam depressa por aqui. O que no devem saber  que Jamie MacTavish  o homem procurado; desde que ningum que me conhea 
pelo meu verdadeiro nome me veja. - Seus cabelos ainda estavam ridiculamente espetados. Tive o impulso repentino de alis-los, mas me contive.
        -- Por que usa os cabelos cortados to curtos? - perguntei repentina-mente, corando em seguida. - Desculpe, no  da minha conta. S fiquei curiosa, j que 
a maioria dos outros homens que vi aqui usa cabelos compridos...
        Ele abaixou as mechas pontiagudas, parecendo um pouco acanhado.
        - Eu tambm costumava usar os meus longos. Esto curtos agora porque os monges tiveram que raspar a parte de trs da minha cabea e s tiveram alguns meses 
para crescer de novo. - Dobrou-se para a frente na cintura, convidando-me a inspecionar o local.
        - Est vendo aqui atrs? - Eu certamente podia sentir a cicatriz do ferimento e tambm v-la quando afastei os cabelos espessos. A marca tinha cerca de quinze 
centmetros de tecido recm-cicatrizado, ainda rosado e ligeiramente alto. Pressionei delicadamente ao longo de todo o comprimento. Bem cicatrizado e um bom trabalho 
fora feito por quem costurara; um ferimento como aquele deve ter aberto e sangrado consideravelmente.
        - Voc tem dores de cabea? - perguntei profissionalmente. Ele endireitou-se, alisando os cabelos por cima da cicatriz. Balanou a cabea.
        - s vezes, embora nada parecido com o que sentia no comeo. Fiquei cego por mais ou menos um ms depois do que aconteceu e minha cabea doa insuportavelmente 
o tempo inteiro. A dor de cabea comeou a desaparecer quando minha viso retornou. - Piscou diversas vezes, como se testasse sua capacidade de ver.
        - s vezes, turva um pouco - explicou -, quando estou muito cansado. As coisas ficam com contornos indistintos.
        -  de se admirar que no tenha morrido - eu disse. - Voc deve ter uma cabea bem dura.
        - Isso eu tenho. Dura que nem pedra, segundo minha irm. - Ns dois rimos.
        - Como aconteceu? - perguntei. Ele franziu a testa e uma expresso de dvida tomou conta de seu rosto.
        - Bem, eu tambm no sei - respondeu devagar. - No me lembro de nada. Eu estava perto do Carryarick Pass com alguns rapazes de Loch Laggan. A ltima coisa 
que sei  que estava abrindo caminho por uma subida difcil, em meio a um mato cerrado; lembro-me de ter espetado a mo num azevinho e pensado que as gotas de sangue 
pareciam amoras silvestres. Depois disso, s me lembro de acordar na Frana, no Mosteiro de St. Anne de Beaupr, com a cabea latejando como um tambor e algum que 
eu no conseguia ver me dando algo frio para beber.
        Esfregou a parte de trs da cabea como se ainda doesse.
        - s vezes, acho que me lembro de pequenas coisas: um lampio acima da minha cabea, balanando de um lado para o outro, um gosto doce e oleoso nos lbios, 
pessoas falando comigo. Mas no sei se isso foi real. Sei que os monges me deram pio e eu sonhava praticamente o tempo inteiro. - Pressionou os dedos sobre as plpebras 
cerradas.
        - Havia um sonho que sempre se repetia. Trs razes crescendo dentro de minha cabea, grandes e retorcidas, crescendo e inchando, saindo pelos meus olhos, 
enfiando-se pela minha garganta para me sufocar. Continuava assim, sem parar, com as razes enroscando-se e enrolando-se, e ficando cada vez maiores. Finalmente, 
cresciam tanto que explodiam meu crnio e eu acordava ouvindo o barulho de ossos estilhaando-se. - Abriu um amplo sorriso. - Uns estalidos gosmentos, como tiros 
embaixo d'gua.
        - Credo!
        Uma sombra recaiu de repente sobre ns e uma bota grande e pesada cutucou Jamie nas costelas.
        - Filho-da-me preguioso - o recm-chegado disse sem compaixo. - Empanturrando-se enquanto os cavalos ficam largados por a. E quando essa potranca vai 
ser domada, hein, rapaz?
        - No enquanto eu estiver com fome, Alec - Jamie replicou. - Enquanto isso, coma um pouco; tem bastante. - Estendeu um pedao de queijo para a mo nodosa 
nas articulaes por causa de artrite. Os dedos, permanentemente curvados, quase como uma garra, fecharam-se lentamente sobre o queijo, enquanto seu proprietrio 
deixava-se cair na grama.
        Com modos inesperadamente educados, Jamie apresentou o visitante; Alec MacMahon MacKenzie, estribeiro-mor do Castelo Leoch.
        Uma figura atarracada de calas de couro at os joelhos e uma camisa rstica, o estribeiro-mor tinha um ar de autoridade suficiente, pensei, para dominar 
o mais recalcitrante garanho. Um "olho como o de Marte, para ameaar ou comandar", a citao veio no mesmo instante  minha mente. E era um nico olho, o outro 
estando coberto com uma venda de pano preto. Como se para compensar a perda, as sobrancelhas cresciam profusamente de um ponto central, ostentando longos fios grisalhos 
como antenas de um inseto que se balanavam ameaadoramente dos tufos castanhos bsicos.
        Aps um curto sinal de cumprimento com a cabea, o Velho Alec (pois assim Jamie se referia a ele, sem dvida para distingui-lo do Jovem Alec que fora meu 
guia), ignorou-me, dividindo sua ateno entre a comida e os trs potros que sacudiam a cauda no prado l embaixo. Aos poucos, fui perdendo o interesse na conversa, 
durante uma longa discusso envolvendo o parentesco de vrios ilustres cavalos, que no estavam entre aqueles presentes, detalhes de registros de pedigree de toda 
a cocheira durante vrios anos e inmeros pontos incompreensveis da conformao eqina, referente a jarretes, cernelhas, espduas e outros itens de anatomia, como 
os nicos pontos de um cavalo que eu notava eram focinho, rabo e orelhas, as sutilezas nada significavam para mim.
        Reclinei-me sobre os cotovelos e fiquei me aquecendo no calor agradvel do sol de primavera. Havia uma paz curiosa neste dia, uma sensao de coisas seguindo 
tranqilamente seu curso, sem se preocupar com os transtornos e tumultos das preocupaes humanas. Talvez fosse a paz que sempre se encontra ao ar livre, longe de 
prdios e do vozerio. Talvez fosse o resultado da jardinagem, aquela serena sensao de prazer em tocar coisas vivas, a satisfao de ajud-las a florescer. Talvez 
fosse apenas o alvio de finalmente ter encontrado uma atividade para exercer, ao invs de ficar vagando pelo castelo sentindo-me deslocada, to visvel quanto um 
borro de tinta no pergaminho.
        Apesar do fato de no tomar parte na conversa sobre cavalos, eu no me sentia absolutamente deslocada ali. O Velho Alec agia como se eu fosse apenas parte 
da paisagem e, enquanto Jamie lanava um olhar em minha direo de vez em quando, ele tambm, gradualmente, passou a me ignorar, conforme a conversa entre eles resvalava 
para os ritmos escorregadios do galico, sinal seguro do envolvimento emocional de um escocs com o assunto em pauta. Como eu no entendia nada do que estava sendo 
dito, o som era to tranqilizador quanto o zumbido de abelhas nas flores das urzes. Estranhamente satisfeita e sonolenta, afastei todos os pensamentos sobre as 
suspeitas de Colum, a gravidade de minha situao e outras idias perturbadoras. "A cada dia uma tribulao", pensei preguiosamente, resgatando a citao bblica 
dos recessos da memria.
        Pode ter sido o frio causado por uma nuvem que encobriu o sol ou a alterao do tom da conversa dos homens que me despertou algum tempo depois. Voltaram 
a falar em ingls, em tom grave, no mais aquele bate-papo descontrado dos aficionados por cavalos.
        - Falta apenas uma semana para o Grande Encontro, rapaz - dizia Alec. - J resolveu, o que vai fazer?
        Jamie exalou um longo suspiro.
        - No, Alec, ainda no. s vezes, penso de uma maneira, s vezes, de outra.  bom estar aqui, trabalhando com os animais e com voc. - A voz do jovem pareceu 
ostentar um sorriso, que desapareceu quando continuou a falar. - E Colum me prometeu que... bem, voc no sabe de nada sobre isso. Mas beijar o ferro da espada, 
mudar meu nome para MacKenzie e renegar toda a minha origem? No, no consigo me decidir a fazer isso.
        - Teimoso como seu pai,  o que voc  - observou Alec, embora as palavras carregassem um tom de ressentida aprovao. - s vezes, voc se parece muito com 
ele, apesar de ser alto e claro como a famlia de sua me.
        - Voc o conheceu? - Jamie pareceu interessado.
        - Ah, um pouco. Foi mais de ouvir falar. Estou aqui em Leoch desde antes do casamento de seus pais, voc sabe. E ouvir Dougal e Colum falarem do Black Brian, 
parecia que ele era o prprio diabo, se no pior. E a sua me a Virgem Maria, raptada e levada para o Inferno por ele.
        Jamie riu.
        - E eu sou como ele, ento?
        - Tudo isso e muito mais, rapaz. Sim, entendo por que no pode admitir ser um homem de Colum. Mas h consideraes em contrrio, no? Se for preciso lutar 
pelos Stuart, digamos, e Dougal conseguir o que quer. Fique no lado certo nesta luta, rapaz, e ter suas terras de volta e muito mais, independente do que Colum 
faa.
        Jamie respondeu com o que eu considerava um "rudo escocs", aquele som indeterminado, grave, do fundo da garganta, que pode ser interpretado praticamente 
de qualquer modo. Esse som especfico parecia indicar alguma dvida quanto  probabilidade de resultado to desejvel.
        - Sim - disse -, e se Dougal no conseguir fazer valer sua vontade, o que acontece? Ou se a luta for contra a casa dos Stuart?
        Alec emitiu seu prprio som gutural.
        - Ento, voc permanece aqui, rapaz. Vai ser o estribeiro-mor em meu lugar; no vou durar muito mais e nunca vi ningum melhor com cavalos do que voc.
        O grunhido modesto de Jamie indicou agradecimento pelo elogio. O homem mais velho continuou, sem dar ouvidos a tais interrupes.
        - Os MacKenzie so seus parentes, tambm; no se trata de renegar o seu sangue. E ainda h outras consideraes - sua voz adquiriu um tom de zombaria -, 
como a srta. Laoghaire, talvez?
        Obteve outro grunhido em resposta, este indicando constrangimento e rejeio da idia.
        - Ora, vamos, rapaz, um jovem no se deixa surrar por uma garota pela qual no sente nada. E voc sabe que o pai dela no vai deixar que se case fora do 
cl.
        - Ela era muito nova, Alec, e fiquei com pena dela - Jamie disse, defendendo-se. - No h nada alm disso. - Desta vez, coube a Alec emitir o rudo escocs, 
um resfolegar gutural, repleto de incredulidade e ironia.
        - Conte essa para outro, rapaz; voc no engana ningum. Bem, ainda que no seja por Laoghaire - e, veja bem, voc poderia se sair muito pior -, voc seria 
um partido para casamento muito melhor se tivesse um pouco de dinheiro e um futuro; como teria, se fosse o prximo estribeiro-mor, poderia escolher a garota que 
quisesse, se uma delas no escolher voc primeiro! - Alec resfolegou com aquela risada meio engasgada de um homem que raramente ri. - Pior que moscas no mel, rapaz! 
Sem um tosto e sem um nome como est agora, as raparigas ainda suspiram por voc... eu tenho visto! - Mais respirao ruidosa e irnica. - At essa Sassenach no 
consegue ficar longe de voc e ela acaba de ficar viva!
        Para evitar o que prometia ser uma srie de observaes pessoais cada vez mais desagradveis, resolvi que era hora de ficar oficialmente acordada. Espreguiando-me 
e bocejando, sentei-me, esfregando os olhos ostensivamente para evitar olhar para qualquer um dos interlocutores.
        - Hummm. Acho que peguei no sono - disse, piscando repetidamente para eles. Jamie, meio vermelho em torno das orelhas, mostrava-se exageradamente interessado 
em arrumar o que restara -do piquenique. O Velho Alec fitou-me, aparentemente notando a minha presena pela primeira vez.
        - Se interessa por cavalos, dona? - perguntou. Naquelas circunstncias, no poderia dizer que no. Concordando que os cavalos eram muito interessantes, fui 
brindada com uma exegese detalhada sobre a potranca no curral, agora sonolentamente parada, o rabo abanando-se preguiosamente de vez em quando por causa de uma 
ou outra mosca.
        - Pode vir observ-los quando quiser, dona - Alec concluiu -, desde que no se aproxime tanto que perturbe os animais. Sabe, eles precisam trabalhar. - Isso 
tinha a bvia inteno de me dispensar, mas fiquei irredutvel, lembrando-me do meu propsito original de ter ido at l.
        - Sim, terei mais cuidado da prxima vez - prometi. - Mas antes de voltar para o castelo, queria verificar o ombro de Jamie e retirar as ataduras.
        Alec assentiu devagar, mas para minha surpresa, foi Jamie quem recusou meus cuidados, virando-se para voltar ao curral.
        - Ah, isso vai ter que esperar um pouco, dona - ele disse, desviando o olhar. - H muito o que fazer ainda hoje; talvez mais tarde, depois da ceia, hein? 
- Era estranho; antes, no estava com nenhuma pressa de voltar ao trabalho. De qualquer modo, no podia for-lo a se submeter aos meus cuidados se ele no queria. 
Dando de ombros, concordei em encontr-lo depois do jantar e virei-me para comear a subir a colina em direo ao castelo.
        Enquanto subia, considerei a forma da cicatriz na cabea de Jamie. No era uma linha reta, como seria feita por uma espada larga inglesa. O ferimento era 
curvo, como se tivesse sido feito por uma lmina bem curva. Uma lmina como a de um machado Lochaber, o antigo machado de guerra dos escoceses? Mas at onde eu sabia, 
essas armas assassinas foram -no, eram, corrigi a mim mesma - carregadas apenas por membros de cls.
        Somente quando j me afastara consideravelmente  que me ocorreu. Para um jovem fugitivo, com inimigos desconhecidos, Jamie confiara demais em uma estranha.
        Deixando a cesta de piquenique na cozinha, voltei ao consultrio do finado Beaton, agora imaculadamente limpo, aps a visita das vigorosas auxiliares da 
sra. Fitz. At as dezenas de frascos no armrio reluziam na luz turva que entrava pela janela.
        O armrio parecia um bom lugar por onde comear, com um inventrio das ervas e medicamentos j existentes. Eu havia passado algum tempo na noite anterior, 
antes do sono me dominar, folheando o livro encadernado de couro azul que eu pegara no consultrio. Tratava-se do Guia prtico do mdico, uma relao de receitas 
para o tratamento de diversos sintomas e doenas, os ingredientes para os quais estariam aparentemente dispostos diante de mim.
        O livro dividia-se em vrias sees: "Quebra-febres, vomitrios, eleturios", "Trociscos", "Emplastros diversos e suas aplicaes", "Decoces e Teriaga" 
alm de uma extensa seo ameaadoramente intitulada com uma nica palavra: "Purgantes".
        Lendo algumas das receitas, a razo para a falta de xito do falecido Davie Beaton tornou-se bvia. "Para dor de cabea", dizia um dos registros, "pegue 
uma bola de estrume de cavalo, que deve ser cuidadosamente secada, socada at transformar-se em p e este inteiramente bebido, misturado a cerveja quente." "Para 
convulses em crianas, cinco sanguessugas a serem aplicadas atrs da orelha." E algumas pginas mais adiante, "decoces feitas das razes de quelidnia, aafroeiro-da-ndia 
e suco de 200 tatuzinhos so de grande utilidade em casos de ictercia". Fechei o livro, admirada com o grande nmero de pacientes do falecido doutor que, segundo 
seu meticuloso livro de registro, no s sobreviveram ao tratamento que lhes fora prescrito, como realmente se curaram de seus males originais.
        Havia um grande pote de vidro marrom contendo vrias bolas de aparncia suspeita e, diante das receitas de Beaton, eu fazia uma boa idia do que deveriam 
ser. Virando-o, li triunfantemente a etiqueta escrita  mo: ESTRUME DE CAVALOS. Imaginando que tal substncia no devia melhorar com o tempo de armazenamento, separei 
o pote cuidadosamente sem abri-lo.
        Investigaes subseqentes mostraram que PURLES OVIS era uma verso latinizada de uma substncia similar, desta vez proveniente de ovelhas. Orelha-de-rato 
tambm demonstrou ser de natureza animal, em vez de herbcea; afastei um frasco de minsculas orelhas rosadas e secas com um estremecimento.
        Eu estava intrigada com os "tatuzinhos" - a erva tambm chamada de baratinha" - que parecia ser um ingrediente importante em vrios remdios, de modo que 
fiquei satisfeita ao ver um frasco transparente, fechado com uma rolha de cortia, com esse nome na etiqueta. O frasco estava at a metade com o que pareciam ser 
pequenas plulas cinzas. No tinham mais do que meio centmetro de dimetro e eram to perfeitamente redondas que me admirei das habilidades farmacuticas de Beaton. 
Aproximei o frasco do rosto, intrigada com a leveza. Ento, vi as finas estrias transversais de cada "plula" e as pernas microscpicas, dobradas l dentro do vinco 
central. Devolvi o frasco rapidamente  prateleira, limpando a mo no meu avental, e fiz mais uma anotao na lista mental que estava compilando. Para "tatuzinhos", 
leia-se "bichos-de-conta".
        Havia diversas substncias mais ou menos inofensivas nos potes de Beaton, bem como diversos contendo ervas secas ou extratos que poderiam ser teis. Encontrei 
um pouco do p de raiz de ris e o vinagre aromatizado que a sra. Fitz usara para tratar dos ferimentos de Jamie MacTavish. Tambm encontrei anglica, absinto, alecrim 
e algo etiquetado como ABIES FTIDO. Abri o frasco cautelosamente, mas no se tratava de nada alm das pontas tenras de galhos de abeto e uma agradvel fragrncia 
balsmica desprendeu-se do frasco destampado. Deixei-o aberto e coloquei-o sobre a mesa para perfumar o ar na salinha escura enquanto eu continuava com meu inventrio.
        Joguei fora potes de caramujos secos; LEO DE MINHOCAS - que parecia ser exatamente isso; VINUM MILLEPEDATUM - embus miripodes, triturados em pedaos e 
embebidos em vinho; P DE MMIA EGPCIA - um p de aparncia indefinida, cuja origem me pareceu mais provvel ser de um sedimento de beira de rio do que o tmulo 
de um fara; SANGUE DE POMBOS, ovos de formiga, vrios sapos secos laboriosamente envolvidos em musgo e crnio humano, EM P. De quem?, me perguntei.
        Levei quase a tarde inteira para terminar minhas inspees do armrio e da cmoda de muitas gavetas. Quando terminei, havia uma grande pilha de frascos, 
caixas e potes descartados do lado de fora da porta do consultrio para ser levada para o lixo e uma coleo bem menor de itens possivelmente teis novamente guardados 
no armrio.
        Durante um bom tempo, considerei um grande pacote de teias de aranha, hesitando sobre o que fazer com elas. Tanto o Guia de Beaton quanto minhas prprias 
lembranas vagas de medicina popular diziam que teia de aranha era eficaz em curativos. Enquanto minha prpria tendncia era de considerar tais usos extremamente 
anti-higinicos, minha experincia com ataduras de linho  beira da estrada mostrara-me a necessidade de ter alguma substncia adesiva e com propriedades absorventes 
para curativos. Finalmente, coloquei o pacote de teias de aranha de volta no armrio, decidindo ver se haveria algum meio de esteriliz-las. No fervendo, pensei. 
Talvez o vapor pudesse limp-las sem destruir a capacidade adesiva.
        Esfreguei as mos no avental, examinando a idia. J havia inventariado praticamente tudo - exceto a arca de madeira junto  parede. Abri a tampa e recuei 
imediatamente diante do mau cheiro liberado.
        A arca era o repositrio do lado cirrgico das atividades de Beaton. Dentro, havia serras, facas, bisturis e outros instrumentos de aparncia sinistra, parecendo 
mais adequados  construo de prdios do que aos delicados tecidos humanos. O cheiro ftido aparentemente provinha do fato de que Davie Beaton no vira nenhuma 
utilidade em limpar seus instrumentos entre uma utilizao e outra. Fiz uma careta de nojo diante das manchas escuras em algumas das lminas e fechei a arca batendo 
a tampa com fora.
        Arrastei a arca em direo  porta, pretendendo dizer  sra. Fitz que os instrumentos, uma vez adequadamente fervidos, deveriam ser dados ao carpinteiro 
do castelo, se houvesse tal personagem.
        Um movimento atrs de mim alertou-me a tempo de evitar dar de encontro com a pessoa que acabava de entrar. Virei-me e vi dois homens, um sustentando o outro, 
que mancava de um dos ps. O p machucado estava envolvido num monte de trapos, manchados de sangue vivo.
        Olhei  minha volta, em seguida fiz um gesto indicando a arca, por falta de melhores acomodaes.
        - Sente-se - eu disse. Tudo indicava que a nova mdica do Castelo Leoch comeara a atender seus pacientes.
        
        
        
        8 - UM ENTRETENIMENTO NOTURNO
        
        Fiquei deitada na cama, sentindo-me completamente exausta. Por estranho que parea, eu gostara de vasculhar a memorabilia do finado Beaton e de tratar daqueles 
poucos pacientes. Apesar dos parcos recursos, fizera-me sentir realmente segura e til outra vez. Sentir carne e ossos sob meus dedos, tomar o pulso, inspecionar 
lnguas e olhos, toda a rotina familiar, contribura muito para aplacar a sensao oca de pnico que me acompanhava desde a minha queda atravs da rocha. Por mais 
estranhas que minhas circunstncias pudessem parecer, e por mais deslocada que eu estivesse, de certo modo era reconfortante que aquelas fossem realmente outras 
pessoas. Com cabelos e pele quente, com coraes cujos batimentos podiam ser sentidos e pulmes que respiravam de modo audvel. Algumas imundas, cheias de piolhos 
e cheirando mal, mas isso no era nenhuma novidade para mim. Certamente no era pior do que em um hospital de campanha e os ferimentos eram, ainda bem, infinitamente 
menores. Era muito gratificante ser capaz outra vez de aliviar a dor, restaurar uma junta, consertar danos. Assumir responsabilidade pelo bem-estar de outras pessoas 
me fez sentir menos vitimada pelos caprichos de um destino impossvel que me trouxera at ali - e agradecia a Colum por isso.
        Colum MacKenzie. Eis um homem estranho. Culto, gentil diante de uma falta e tambm atencioso, com uma reserva que apenas escondia o mago de ao. Esse interior 
de ao era muito mais visvel em seu irmo Dougal. Este um guerreiro nato. E, no entanto, ao v-los juntos, ficava evidente quem era o mais forte. Colum era um lder, 
com ou sem pernas tortas.
        Sndrome de Toulouse-Lautrec. Nunca vira um caso antes, mas j o haviam descrito para mim. Com o nome de sua vtima mais famosa (que ainda no havia nascido, 
lembrei a mim mesma), era uma doena degenerativa dos ossos e dos ligamentos. As pessoas acometidas dessa doena pareciam normais, embora enfermas, at a adolescncia, 
quando os longos ossos das pernas, sob a presso de sustentar um corpo ereto, comeavam a desfazer-se e desmoronar-se sobre si mesmos.
        A compleio plida, prematuramente enrugada, era outro efeito aparente da m circulao que caracterizava a doena. Igualmente, os dedos das mos e dos 
ps, ressecados e cheios de calosidades, que eu j notara. A medida que as pernas entortavam-se e arqueavam-se, a espinha ficava sob grande presso e em geral tambm 
entortava, causando imenso desconforto  vtima. Reli mentalmente a descrio no livro mdico, alisando languidamente os cachos do meu cabelo com os dedos. Baixa 
contagem de leuccitos aumentava a suscetibilidade  infeco e  artrite precoce. Devido  m circulao e  degenerao dos ligamentos, as vtimas eram invariavelmente 
estreis e em geral tambm impotentes.
        Parei repentinamente, pensando em Hamish. Meu filho, Colum dissera, apresentando orgulhosamente o menino. Hummm, pensei comigo mesma. Ento, talvez no impotente. 
Ou talvez, sim. Felizmente para Letitia, a maior parte dos homens do cl MacKenzie possuam um alto grau de semelhana fsica.
        Fui arrancada dessas interessantes ruminaes por uma repentina batida na porta. Um daqueles onipresentes garotos estava do lado de fora, trazendo um convite 
do prprio Colum. Haveria um espetculo de msica no salo, disse, e Colum MacKenzie se sentiria honrado com minha presena, se eu fizesse a gentileza de descer.
        Estava curiosa para ver Colum de novo,  luz das minhas recentes especulaes. Assim, com uma rpida olhada no espelho e um gesto intil para assentar meus 
cabelos, fechei a porta atrs de mim e segui meu acompanhante pelos corredores sinuosos e frios.
        O salo parecia diferente  noite, muito festivo com tochas de pinheiro estalando ao longo de todas as paredes, s vezes lanando uma chama azul de terebintina. 
A imensa lareira, com seus mltiplos espetos e caldeires, diminura sua atividade desde o frenesi do jantar; agora, apenas um nico fogo queimava na lareira, sustentado 
por duas toras enormes e de combusto lenta e os espetos haviam sido dobrados de volta para dentro da cavernosa chamin.
        As mesas e bancos ainda estavam ali, mas ligeiramente empurrados para trs, a fim de criar um espao livre junto  lareira; aparentemente, aquele deveria 
ser o centro do entretenimento, pois a enorme cadeira esculpida de Colum estava colocada em um dos lados. O prprio Colum a ocupava, uma manta de l sobre as pernas 
e uma mesinha com uma bela garrafa ornamental para servir vinho e taas  mo.
        Vendo-me hesitar no arco da entrada, fez um sinal amistoso para que eu me sentasse a seu lado, indicando um banco prximo.
        - Fico satisfeito que tenha vindo, sra. Claire - ele disse, de modo agradavelmente informal. - Gwyllyn ficar contente de ter uma nova ouvinte Para as suas 
canes, embora ns sempre estejamos vidos para ouvi-lo.
        O chefe dos MacKenzie parecia cansado, pensei; os ombros largos estavam um pouco curvados e as rugas prematuras de seu rosto pareciam mais pronunciadas.
        Murmurei alguma coisa casual e olhei  minha volta. As pessoas comeavam a chegar, algumas s vezes saam, parando em pequenos grupos para conversar, gradualmente 
assumindo seus lugares nos bancos arrumados junto s paredes.
        - Como disse? - Virei-me, tendo perdido as palavras de Colum no vozerio crescente, e deparei-me com ele oferecendo-me a garrafa de vinho, uma linda pea 
no formato de um sino, de cristal verde-gua. O lquido, visto atravs do cristal, parecia verde como as profundezas do mar, mas uma vez servido mostrava ter uma 
adorvel cor rosa-clara, com um delicioso buqu. O sabor correspondia plenamente  promessa e cerrei os olhos de felicidade, deixando que os vapores do vinho tocassem 
o cu da minha boca antes de relutantemente permitir que cada gole do nctar descesse lentamente pela minha garganta.
        - Bom, no? - A voz grave carregava um tom de divertimento e eu abri os olhos para ver Colum sorrindo para mim com aprovao.
        Abri a boca para responder e descobri que a suave delicadeza do sabor era enganadora; o vinho era suficientemente forte para causar uma leve paralisia das 
cordas vocais.
        - Ma-maravilhoso - consegui emitir. Colum balanou a cabea, concordando.
        - Sim,  verdade. Do Reno, sabe. No conhece?
        Sacudi a cabea, enquanto ele inclinava a garrafa sobre minha taa, enchendo-a com o resplandecente rosa. Segurou sua prpria taa pela haste, girando-a 
diante do rosto de modo que a luz do fogo iluminasse o contedo com pitadas de cinabre.
        - Mas conhece um bom vinho - Colum disse, inclinando a taa para desfrutar o encorpado aroma de frutas. - Mas  natural, imagino, sendo sua famlia francesa. 
Ou parcialmente francesa, deveria dizer - corrigiu-se com um rpido sorriso. - De que parte da Frana  sua famlia?
        Hesitei por um instante, em seguida lembrei que devia me manter fiel  verdade, at onde fosse possvel, e respondi:
        - So laos antigos, mas no muito prximos, Esses parentes que devo ter l so do norte, perto de Compigne. - Fiquei ligeiramente espantada ao perceber, 
neste momento, que meus parentes de fato ficavam perto de Compigne. Realmente, fiel  verdade.
        - Ah. Ento, a senhora mesma nunca esteve l?
        Inclinei a taa, sacudindo a cabea ao faz-lo. Cerrei os olhos e respirei fundo, inalando o aroma do vinho.
        - No - disse, os olhos ainda cerrados. - Tambm no conheo nenhum dos meus parentes que vivem l. - Abri os olhos para v-lo observando-me atentamente. 
- Eu lhe disse isso.
        Ele assentiu, no parecendo nem um pouco perturbado:
        -  verdade.
        Seus olhos eram de um belo tom cinza-claro, emoldurados por espessas pestanas negras. Um homem muito atraente, Colum MacKenzie, pelo menos at a cintura. 
Meu olhar passou por ele e recaiu sobre o grupo mais prximo da lareira, onde pude ver sua mulher, Letitia, em um grupo de vrias mulheres, todas envolvidas numa 
animada conversa com Dougal MacKenzie. Tambm um homem muito atraente, e completo.
        Voltei minha ateno de novo para Colum e o vi fitando distraidamente uma das tapearias penduradas na parede.
        - E tambm j lhe disse - falei bruscamente, despertando-o de seu alheamento momentneo - que gostaria de partir para a Frana o mais cedo possvel.
        -  verdade - repetiu, amavelmente, e pegou a garrafa de bebida com um arqueamento interrogativo da sobrancelha. Segurei minha taa com firmeza, fazendo 
um sinal de que s queria um pouco, mas ele encheu o delicado recipiente quase at a borda outra vez.
        - Bem, como eu lhe disse, sra. Beauchamp - falou, os olhos fixos no vinho -, acho que deveria ficar por aqui um pouco, at que as providncias adequadas 
para o seu transporte possam ser tomadas. Afinal, no  preciso pressa. Ainda estamos na primavera e meses antes as tempestades de outono tornam a travessia do canal 
arriscada. - Ergueu os olhos e a garrafa ao mesmo tempo e fitou-me com um olhar astuto.
        - Mas se me der os nomes de seus parentes na Frana, posso enviar uma mensagem antes, para que fiquem avisados da sua chegada, hein?
        Depois do blefe, no tinha muita escolha seno murmurar algo do tipo sim-bem-talvez-mais tarde e pedir licena apressadamente sob o pretexto de visitar o 
lavatrio antes do incio da apresentao de canto. Colum tinha as cartas, mas o jogo ainda no terminara.
        Meu pretexto no era inteiramente fictcio e levei algum tempo, vagando pelos corredores escuros do castelo, para encontrar o lugar que estava procurando. 
Tateando pelo caminho de volta, a taa de vinho ainda na mo, encontrei a entrada iluminada para o salo, mas percebi, ao entrar, que chegara  entrada inferior 
e agora estava no extremo oposto do salo em relao a Colum. Nas atuais circunstncias, isso me era bem conveniente, e entrei discretamente no longo salo, esforando-me 
para me confundir com pequenos grupos de pessoas conforme avanava ao longo da parede em direo a um dos bancos.
        Lanando um olhar para o extremo superior do salo, vi um homem mais esbelto que devia ser o bardo Gwyllyn, a julgar pela pequena harpa que carregava. A 
um sinal de Colum, um criado apressou-se a trazer um banquinho para o bardo, no qual ele sentou-se e comeou a afinar a harpa, tocando levemente as cordas, o ouvido 
junto ao instrumento. Colum serviu outra taa de vinho de sua prpria garrafa e, com outro sinal, despachou-a pelo criado na direo do bardo.
        Irreverentemente, comecei a cantarolar baixinho uma cano, provocando um olhar de estranheza da jovem Laoghaire. Ela estava sentada sob uma tapearia ostentando 
um caador com seis cachorros alongados e vesgos, numa perseguio errtica de uma nica lebre.
        - Um pouco de exagero, no acha? - eu disse despreocupadamente, indicando a cena com um gesto da mo e deixando-me cair sentada a seu lado no banco.
        - Ah! H, sim - respondeu cautelosamente, afastando-se um pouco. Tentei envolv-la numa conversa amistosa, mas ela respondia quase sempre em monosslabos, 
ruborizando e sobressaltando-se quando eu falava com ela. Assim, logo desisti, voltando minha ateno para a cena no outro lado do salo.
        Satisfeito com a afinao da harpa, Gwyllyn retirou do casaco trs flautas de madeira de tamanhos diferentes, colocando-as sobre uma mesinha providencialmente 
colocada a seu lado.
        De repente, notei que Laoghaire no compartilhava meu interesse no bardo e seus instrumentos. Ela endireitara-se ligeiramente e espreitava por cima do meu 
ombro em direo  entrada em arco mais baixa, ao mesmo tempo inclinando-se para trs, para as sombras da tapearia, para evitar ser notada.
        Seguindo a direo do seu olhar, vi a figura alta, de cabelos avermelhados, de Jamie MacTavish, que acabava de entrar no salo.
        - Ah! O heri galante! Gosta dele, no? - perguntei  jovem ao meu lado. Sacudiu a cabea energicamente, mas as faces brilhantes e rosadas eram uma resposta 
mais convincente.
        - Bem, vamos ver o que podemos fazer, hein? - eu disse, sentindo-me expansiva e magnnima. Levantei-me e acenei animadamente para atrair sua ateno.
        Percebendo meu sinal, o jovem abriu caminho pela multido, sorrindo. Eu no sabia o que se passara entre eles no ptio, mas achei que sua maneira de cumprimentar 
a jovem era calorosa, embora ainda formal. A mesura que fez para mim foi ligeiramente mais relaxada; aps a forada intimidade de nosso relacionamento at o momento, 
no dava para me tratar como uma estranha.
        Algumas notas experimentais do lado superior do salo anunciaram o iminente comeo da apresentao e ns tomamos nossos lugares apressadamente, Jamie sentando-se 
entre Laoghaire e mim.
        Gwyllyn era um homem de aparncia insignificante, de ossatura pequena e cabelos ralos, mas ficava invisvel quando comeava a cantar. Servia apenas como 
foco, um ponto para descansar os olhos enquanto os ouvidos deliciavam-se com seu canto. Comeou com uma cano simples, algo em galico com um forte repique rimado 
nos versos, acompanhado pelo mais leve toque das cordas da harpa, de modo que a vibrao de cada corda parecia carregar o eco das palavras de um verso para o outro. 
A voz tambm era enganadoramente simples. A princpio, achava-se que no havia nada demais no seu canto dolente - agradvel, mas sem muita fora. No entanto, em 
seguida descobria-se que o som atravessava-o diretamente e cada slaba era lmpida, quer voc a entendesse ou no, ecoando pungentemente dentro de sua cabea.
        A cano foi recebida com uma calorosa onda de aplausos e o cantor imediatamente iniciou outra, desta vez em galico, pensei. Soava como uma espcie de melodioso 
gargarejo para mim, mas as pessoas ao meu redor pareciam entender bem a letra; sem dvida, no era a primeira vez que a ouviam.
        Durante uma breve pausa para uma nova afinao, perguntei a Jamie em voz baixa:
        - Gwyllyn j est h muito tempo no castelo? - Em seguida, lembrando-me, disse: - Ah, mas voc no saberia, no ? Havia me esquecido que voc mesmo  muito 
novo aqui.
        - J estive aqui antes - respondeu, voltando sua ateno para mim. -Passei um ano em Leoch quando tinha mais ou menos dezesseis anos e Gwyllyn j estava 
aqui naquela poca. Colum aprecia muito a sua msica. Paga bem a Gwyllyn para que permanea aqui.  preciso, porque o gals seria bem-vindo junto  lareira de qualquer 
senhor onde escolhesse cantar.
        - Lembro-me de quando voc esteve aqui, antes. - Era Laoghaire, ainda ruborizada, mas resolvida a entrar na conversa. Jamie voltou-se para ela, com um leve 
sorriso.
        - Ah, ento voc se lembra? Voc mesma no devia ter mais do que sete ou oito anos. Acho que no era grande coisa na poca, para ser lembrado. - Voltando-se 
educadamente para mim, perguntou: - Voc sabe gauls, ento?
        - Bem, mas eu me lembro - Laoghaire disse, continuando. - Voc era, h... quero dizer... ento, voc no se lembra de mim naquela poca? - Suas mos brincavam 
nervosamente com as pregas da saia. Notei que roa as unhas.
        A ateno de Jamie foi atrada para um grupo de pessoas do outro lado do aposento, discutindo em galico.
        -- Hein? - disse vagamente. - No, acho que no. De qualquer forma -- continuou, com um sorriso, repentinamente voltando sua ateno para ela outra vez -, 
 provvel que no fosse me lembrar mesmo. Um adolescente de dezesseis anos  muito cheio de si para prestar ateno ao que acha que no passa de um bando de meninas 
de nariz sardento.
        Entendi que ele fez essa observao com a inteno de depreciar a si mesmo, e no sua interlocutora, mas o efeito no foi o desejado. Achei que uma pequena 
pausa para permitir que Laoghaire se recobrasse fazia-se necessria e interrompi apressadamente dizendo:
        - No, no sei nada de gauls. Tem alguma idia do que ele estava dizendo?
        - Ah, sim. - E Jamie lanou-se no que parecia ser a recitao palavra por palavra da cano, traduzida para o ingls. Aparentemente, tratava-se de uma antiga 
balada sobre um jovem que amava uma jovem (o que mais?), mas sentindo-se indigno dela por ser pobre, partiu para fazer fortuna no mar. O jovem sofreu um naufrgio, 
deparou-se com serpentes marinhas que o ameaaram e sereias que o encantaram, teve aventuras e voltou finalmente para casa somente para encontrar a jovem casada 
com seu melhor amigo, que embora um pouco mais pobre, aparentemente tambm tinha mais juzo.
        - E quem voc seria? - perguntei, em tom de troa. - Seria o jovem que no casaria sem dinheiro ou ficaria com a jovem sem se importar com o dinheiro? - 
Essa pergunta pareceu interessar tambm a Laoghaire, que inclinou a cabea para ouvir a resposta, enquanto fingia prestar grande ateno a uma cano que Gwyllyn 
comeara a tocar na flauta.
        - Eu? - Jamie pareceu divertir-se com a pergunta. - Bem, como no tenho nenhum dinheiro, e bem pouca chance de jamais ganhar algum, acho que ficaria feliz 
de achar uma jovem que quisesse casar comigo assim mesmo. - Sacudiu a cabea, rindo. - No tenho estmago para serpentes marinhas.
        Abriu a boca para dizer mais alguma coisa, mas foi silenciado por Laoghaire, que colocou a mo timidamente em seu brao, depois corou e retirou-a bruscamente 
como se a pele dele estivesse em brasa.
        - Sshh - disse. - Quero dizer... ele vai contar histrias. No quer ouvir?
        - Ah, sim. - Jamie chegou um pouco mais para a frente do banco na expectativa, percebeu que bloqueava a minha viso e insistiu para que eu sentasse do outro 
lado dele, deslocando Laoghaire para mais longe no banco. Pude notar que a jovem no ficou muito satisfeita com o novo arranjo e eu tentei protestar, dizendo que 
estava bem onde estava, mas ele manteve-se firme.
        - No, voc vai ver e ouvir melhor daqui. E depois, se ele cantar em galico, posso sussurrar no seu ouvido o que ele est dizendo.
        Cada parte da atuao do bardo era saudada com calorosos aplausos, embora as pessoas conversassem em voz baixa enquanto ele tocava, produzindo um zumbido 
grave abaixo dos acordes melodiosos e agudos da harpa. Agora, entretanto, uma espcie de silncio de expectativa abateu-se sobre o salo. A voz de Gwyllyn era to 
clara quanto seu canto, cada palavra lanada para alcanar sem esforo o lado oposto do salo alto e bafejado por correntes de ar.
        - Era uma vez, h duzentos anos... - Falava em ingls e tive uma sensao repentina de dj vu. Era exatamente a mesma maneira de falar de nosso guia no 
lago Ness, contando lendas do Great Glen.
        No entanto, no era uma histria de fantasmas e heris que ele contava mas uma histria do Povo Pequeno, de fadas e duendes.
        - Havia um cl do Povo Pequeno que vivia perto de Dundreggan -comeou. - E a colina que havia l tinha o nome do drago que vivia nela, que Fionn matou e 
enterrou ali mesmo, dando o nome  colina. Depois da morte de Fionn e de Feinn, o Povo Pequeno que foi morar na colina veio a precisar das mes de seres humanos 
para serem amas-de-leite dos prprios filhos das fadas, pois o ser humano tem algo que as fadas no tm e o Povo Pequeno achou que isso deveria passar pelo leite 
das mes para suas prprias crianas.
        "Ora, Ewan MacDonald de Dundregaua estava l fora no escuro, cuidando de seus animais, na noite em que sua mulher deu  luz seu primeiro filho. Um sopro 
do vento noturno passou por ele e na corrente do vento ele ouviu o suspiro de sua mulher. Ela suspirou como suspirara antes da criana nascer e, ouvindo-a ali, Ewan 
MacDonald virou-se e lanou sua faca no vento em nome da Trindade. E sua mulher caiu s e salva no cho a seu lado."
        Ao final, a histria foi recebida com uma espcie de "ah" coletivo, rapidamente seguido por histrias sobre a inteligncia e a ingenuidade do Povo Pequeno, 
alm de outras sobre as interaes com o mundo dos homens. Algumas eram em galico, outras em ingls, aparentemente segundo a que melhor se adequasse ao ritmo das 
palavras, pois todas elas possuam uma beleza no desenrolar das palavras que ia alm do contedo da histria propriamente dito. Como prometera, Jamie traduziu o 
galico para mim em voz baixa, to rapidamente e com tanta facilidade que achei que j devia ter ouvido essas histrias muitas vezes antes.
        Houve uma que particularmente chamou minha ateno, sobre o homem que ficava na escurido da noite em uma colina de fadas e que ouviu o canto "triste e lamurioso" 
de uma mulher vindo das prprias pedras da colina. Ele ouviu com mais ateno e entendeu a letra da cano:
        "Sou a mulher do Senhor de Balnain As fadas me levaram outra vez."
        Assim, o homem correu para a casa de Balnain e descobriu que o proprietrio fora embora e que a mulher e o filho haviam desaparecido. O homem imediatamente 
procurou um padre e levou-o at o monte das fadas. O padre benzeu as pedras da colina e aspergiu gua benta sobre elas. De repente, a noite ficou mais escura e ouviu-se 
um barulho ensurdecedor como o de um trovo. Ento, a lua saiu de trs de uma nuvem e iluminou a mulher, a esposa de Balnain, que jazia exausta na grama com o menino 
nos braos. A mulher estava cansada, como se tivesse viajado para longe. mas no sabia dizer onde estivera nem como chegara l.
        Outras pessoas no salo tinham histrias para contar e Gwylynn ficou descansando em seu banquinho, apreciando o vinho em pequenos goles, enquanto outros 
contadores de histrias se revezavam junto  lareira, mantendo a platia embevecida.
        Algumas eu mal ouvi. Eu mesma estava arrebatada, mas pelos meus prprios pensamentos, que giravam, formando padres sob a influncia do vinho, da msica 
e das lendas de fadas.
        "Houve uma poca, h duzentos anos..."
        So sempre duzentos anos nas histrias das Highlands, disse a voz do reverendo Wakefield em sua memria. O mesmo que o nosso indefinido "Era uma vez", de 
hoje.
        E mulheres presas nas pedras de colinas de fadas, viajando para longe e chegando exaustas, que no sabiam onde haviam estado, nem como haviam chegado l.
        Pude sentir os plos nos meus braos se eriarem, como se estivesse com frio, e esfreguei-os nervosamente. Duzentos anos. De 1945 a 1743; sim, bem prximo. 
E mulheres que viajavam atravs das rochas. Seriam sempre mulheres?, perguntei-me repentinamente.
        Outra coisa me ocorreu. As mulheres voltavam. gua benta, feitio ou faca, elas voltavam. Assim, talvez, apenas talvez, fosse possvel. Preciso voltar ao 
monumento de pedras em Craigh na Dun. Senti uma agitao crescente que me deixou um pouco zonza e estendi o brao para a taa de vinho para me acalmar.
        - Cuidado! - Meus dedos trmulos atrapalharam-se na borda da taa de cristal quase cheia que eu descuidadamente colocara no banco ao meu lado. O longo brao 
de Jamie passou como uma flecha por cima do meu colo, salvando a taa por pouco de um desastre. Ergueu a taa, segurando-a delicadamente pela haste entre dois dedos 
grandes, e passou-a suavemente de um lado para o outro sob o nariz. Entregou-me a taa, as sobrancelhas erguidas.
        - Do Reno - expliquei.
        - Eu sei - ele disse, ainda parecendo intrigado. - De Colum, no?
        - Isso mesmo. Gostaria de experimentar?  muito bom. - Estendi a taa, com pouca firmeza. Aps um instante de hesitao, aceitou a taa e experimentou um 
pequeno gole.
        - Sim, muito bom - disse, devolvendo-me a taa. - Tambm duplamente forte. Colum toma-o  noite, porque suas pernas doem. Quanto tomou? - perguntou, olhando-me 
com os olhos semicerrados.
        - Duas, no, trs taas - respondi, com alguma dignidade. - Est querendo dizer que estou bbada?
        - No - respondeu, as sobrancelhas ainda erguidas. - Estou impressionado que no esteja. Muitas pessoas que bebem com Colum esto debaixo da mesa depois 
da segunda taa. - Estendeu o brao e tirou a taa da minha mo novamente.
        - Mesmo assim - acrescentou com firmeza -, acho melhor no tomar mais ou no vai conseguir subir as escadas. - Inclinou a taa e ele mesmo a esvaziou. Em 
seguida, entregou a taa vazia a Laoghaire sem olhar para ela.
        - Leve isso de volta, por favor, menina - disse, informalmente. - J  tarde. Acho que vou acompanhar a sra. Beauchamp aos seus aposentos. -E colocando a 
mo sob meu cotovelo, me fez girar em direo  passagem em arco, deixando a garota fitando-nos com uma expresso que me fez sentir aliviada de saber que olhares 
no podem matar.
        Jamie acompanhou-me ao meu quarto e, para minha surpresa, entrou atrs de mim. A surpresa desvaneceu-se quando ele fechou a porta e imediatamente tirou a 
camisa. Eu me esquecera das ataduras, que h dois dias eu pretendia remover.
        - Vou gostar de me livrar disso - disse, esfregando a tipia de rayon e linho sob seu brao. - Est me irritando h dias.
        - Ento, surpreende-me que voc mesmo no a tenha tirado - eu disse, comeando a desatar os ns.
        - Fiquei com medo, depois do pito que levei quando a colocou -disse, rindo descaradamente para mim. - Achei que ia levar umas palmadas se mexesse a.
        - Vai levar agora se no se sentar e ficar quieto - respondi, fingindo estar zangada. Coloquei as duas mos em seu ombro bom e, um pouco sem firmeza, empurrei-o 
para baixo, sobre o banquinho do quarto.
        Retirei a tipia e cuidadosamente examinei a regio da articulao do ombro. Ainda estava ligeiramente inchada, com hematomas, mas felizmente no encontrei 
nenhuma evidncia de msculos distendidos.
        - Se estava to ansioso para se livrar das ataduras, por que no deixou que eu as tirasse para voc ontem  tarde? - Seu comportamento no campo me intrigara 
na ocasio e mais ainda agora que podia ver as reas de pele avermelhada onde as pontas speras das ataduras de linho roaram tanto sua pele que quase a deixaram 
em carne viva. Levantei o curativo cautelosamente, mas tudo estava bem.
        Ele me olhou de vis, depois abaixou os olhos um pouco timidamente.
        -- Bem,  que... ah,  que eu no queria tirar minha camisa diante de Alec.
        --  recatado, no? - perguntei secamente, fazendo com que erguesse o brao para testar a extenso da junta. Ele piscou rapidamente com o movimento, mas 
sorriu diante da minha observao.
        -- Se eu fosse, no estaria aqui sentado quase nu no seu quarto, no ? No. so as marcas nas minhas costas. - Vendo minhas sobrancelhas erguidas, continuou 
com a explicao. - Alec sabe quem eu sou, quero dizer, ouviu dizer que fui chicoteado, mas ele no viu. E saber algo assim no  o mesmo que ver com seus prprios 
olhos. - Apalpou o ombro machucado, desviando os olhos. Franziu a testa, fitando o cho. -  que... talvez voc no compreenda o que quero dizer. Mas quando voc 
sabe que um homem sofreu algum mal, trata-se apenas de uma das coisas que sabe a respeito dele e no faz muita diferena na maneira com que voc o v. Alec sabe 
que fui aoitado, como sabe que tenho cabelos ruivos, e isso no faz diferena na maneira como ele me trata. - Ergueu os olhos, buscando algum sinal de compreenso 
em meu rosto.
        - Mas quando voc realmente v,  como - hesitou, buscando as palavras -,  um pouco... pessoal, talvez,  o que quero dizer. Eu acho... se ele visse as 
cicatrizes, ele no conseguiria mais me ver sem pensar nas minhas costas. E eu veria que ele estava pensando nisso, o que me faria lembrar e... - interrompeu-se, 
encolhendo os ombros.
        - Bem.  uma explicao bem ruim, no? Acho que sou muito suscetvel a esse respeito, de qualquer modo. Afinal, eu mesmo no posso ver minhas costas; talvez 
no seja to ruim quanto eu imagino.
        Eu j vira homens feridos andando de muletas na rua e as pissoas desviarem o olhar ao passar por eles e achei que absolutamente no era uma explicao ruim.
        - No se importa que eu veja suas costas?
        - No, no me importo. - Pareceu ligeiramente surpreso e parou por um instante para pensar naquilo. - Acho que...  que voc tem um jeito de me dizer que 
sente muito, sem me fazer sentir pena de mim mesmo.
        Continuou pacientemente sentado, sem se mover, enquanto eu dava a volta por trs dele, inspecionando suas costas. Eu no sabia o que ele achava, mas era 
uma viso difcil. Mesmo  luz de velas e j as tendo visto antes, fiquei horrorizada. Antes, eu vira apenas um ombro. As cicatrizes cobriam suas costas inteiras 
dos ombros  cintura. Embora muitas houvessem esmaecido, quase no passando de finas linhas brancas, as piores formavam espessos cordes prateados, retalhando os 
msculos bem torneados. Pensei com alguma tristeza que deviam ter sido costas muito bonitas em outra poca. Sua pele era clara e viosa e os contornos de ossos e 
msculos ainda eram firmes e graciosos, os ombros retos e quadrados, a espinha dorsal um sulco reto, liso e profundo, entre as colunas arredondadas de msculos que 
se erguiam de cada lado.
        Jamie tambm tinha razo. Vendo aquele dilaceramento gratuito, no podia evitar uma imagem mental do processo que o causara. Tentei no imaginar os braos 
musculosos erguidos, estirados e amarrados, as cordas cortando os pulsos, a cabea pressionada com fora contra o poste, em agonia, mas as marcas traziam essas imagens 
prontamente  imaginao. Teria ele gritado? Afastei apressadamente a idia. Eu ouvira as histrias sobre a Alemanha do ps-guerra,  claro, soubera de atrocidades 
muito piores do que esta, mas ele tinha razo; saber no  o mesmo que ver.
        Involuntariamente, estendi a mo, como se eu pudesse cur-lo e apagar as marcas com um toque dos dedos. Ele suspirou profundamente, mas no se moveu, enquanto 
eu percorria as cicatrizes profundas, uma a uma, como se quisesse mostrar-lhe a extenso dos danos que ele no podia ver. Finalmente, descansei as mos o mais levemente 
possvel sobre seus ombros em silncio, procurando as palavras.
        Ele colocou a prpria mo sobre a minha e apertou-a levemente, como se compreendesse o que eu no-conseguia dizer.
        - Coisas piores aconteceram a outros, dona - disse serenamente. Em seguida, soltou a mo e o encanto se desfez.
        - Sinto que est sarando bem - disse, tentando olhar de lado e ver o ombro ferido. - Quase no di mais.
        - timo - eu disse, limpando a garganta de alguma obstruo que parecia ter se instalado ali. - Est realmente sarando bem; formou uma casca boa e no h 
nenhuma secreo. Basta mant-lo limpo e no usar o brao mais do que o necessrio por mais dois ou trs dias. - Dei um tapinha no ombro bom, significando que estava 
dispensado. Ele recolocou a camisa sem ajuda, enfiando as longas pontas para dentro do kilt.
        Houve um momento embaraoso quando ele parou junto  porta, procurando alguma coisa para dizer em despedida. Finalmente, convidou-me para ir  estrebaria 
no dia seguinte e ver um potro recm-nascido. Prometi que iria e nos despedimos, ambos dizendo boa-noite ao mesmo tempo. Rimos e balanamos a cabea ridiculamente 
um para o outro enquanto eu fechava a porta. Fui imediatamente para a cama e adormeci numa espcie de nvoa provocada pelo vinho, comeando a ter sonhos perturbadores 
dos quais no me lembrava mais pela manh.
        No dia seguinte, depois de uma longa manh tratando dos novos pacientes, vasculhando a despensa  cata de ervas teis para reabastecer o armrio de suprimentos 
mdicos e - com alguma cerimnia - registrar os detalhes no livro preto de Davie Beaton, deixei minha salinha em busca de ar fresco e exerccio.
        No havia ningum por perto no momento e aproveitei a oportunidade para explorar os andares superiores do castelo, espiando quartos vazios e escadas em caracol, 
mapeando o castelo mentalmente. Era um projeto muito irregular, para dizer o mnimo. Vrios anexos haviam sido acrescentados aqui e ali ao longo dos anos, at ficar 
difcil dizer se teria havido um Projeto original. Neste corredor, por exemplo, havia uma alcova construda sob as escadas, aparentemente sem nenhuma serventia alm 
de preencher um espao vazio pequeno demais para um aposento completo.
        A alcova ficava parcialmente oculta por uma cortina de linho listrado; eu teria passado sem parar se um lampejo branco l dentro no tivesse atrado minha 
ateno. Parei junto  abertura e espreitei l dentro para ver o que era. Era a manga da camisa de Jamie, envolvendo as costas de uma jovem, atraindo-a para si para 
beij-la. Ela sentou-se em seu colo e seus cabelos louros capturaram a luz do sol que penetrava por uma fenda, refletindo a luz como a superfcie de um rio de trutas 
numa manh luminosa.
        Parei, sem saber o que fazer. No tinha o menor desejo de espion-los, mas receei que o barulho dos meus passos nas pedras do corredor chamaria a ateno 
deles. Enquanto hesitava, Jamie separou-se do abrao e ergueu os olhos. Seus olhos encontraram os meus e seu rosto mudou do alarme para o reconhecimento. Com uma 
sobrancelha erguida e um dar de ombros ligeiramente irnico, ajeitou a jovem com mais firmeza sobre os joelhos e inclinou-se para fazer o que tinha que fazer. Por 
minha vez, tambm dei de ombros e sa de mansinho. No era da minha conta. No tinha dvidas, entretanto, que tanto Colum quanto o pai da jovem considerariam aquela 
"ligao" altamente imprpria. A prxima surra poderia muito bem ser por culpa dele mesmo, se no fossem mais cuidadosos na escolha de um local de encontro.
        Ao encontr-lo durante o jantar naquela noite com Alec, sentei-me em frente a eles na longa mesa. Jamie cumprimentou-me amavelmente, mas com uma expresso 
vigilante nos olhos. O Velho Alec brindou-me com seu costumeiro "Mmmhum". As mulheres, como me explicara ele, no possuem uma apreciao natural de cavalos e portanto 
 difcil conversar com elas.
        - Como vai o trabalho com os cavalos? - perguntei, para interromper a laboriosa mastigao do outro lado da mesa.
        - Bastante bem - Jamie respondeu cautelosamente. Olhei para ele por cima de uma travessa de nabos cozidos.
        - Sua boca parece um tanto inchada, Jamie. Levou uma pancada de um cavalo? - perguntei maldosamente.
        - Sim - respondeu -, virando a cabea quando eu no estava olhando. - Falou serenamente, mas senti um p grande pisar no meu por baixo da mesa. No momento, 
ficou parado ali de leve, mas a ameaa era explcita.
        - Hum, essas potrancas podem ser perigosas - eu disse, com ar de inocncia.
        O p pressionou o meu com mais fora quando Alec disse:
        - Potranca? No est trabalhando com potrancas no momento, est, rapaz?
        Usei meu outro p como alavanca; no obtendo sucesso, usei-o para chutar seu tornozelo com fora. Jamie deu um solavanco repentino.
        - O que h com voc? - Alec perguntou.
        - Mordi a lngua - Jamie balbuciou, fitando-me por cima da mo que levara  boca.
        - Desajeitado, hein? O que mais se poderia esperar de um idiota que no consegue nem se desviar de um cavalo... - Alec continuou por vrios minutos, acusando 
seu assistente incansavelmente de desajeitado, preguioso, estpido e incapaz de um modo geral. Jamie, provavelmente a pessoa menos desajeitada que eu j vira na 
vida, manteve a cabea baixa e continuou comendo impassvel durante toda a descompostura, embora as faces ardessem, vermelhas. Mantive os olhos no meu prato recatadamente 
durante o resto da refeio.
        Recusando uma segunda poro de ensopado, Jamie deixou a mesa bruscamente, pondo um fim  repreenso de Alec. O velho chefe da cavalaria e eu mastigamos 
silenciosamente por alguns minutos. Limpando o prato com o seu ltimo pedao de po, o Velho Alec enfiou-o dentro da boca e reclinou-se para trs, examinando-me 
ironicamente com seu nico olho azul.
        - No devia infernizar o pobre rapaz, sabia? - disse em tom de conversa. - Se o pai dela ou Colum ficarem sabendo, o jovem Jamie pode acabar com mais do 
que um olho roxo.
        - Com uma esposa, por exemplo? - eu disse, olhando-o diretamente no olho. Ele balanou a cabea devagar.
        - Poderia ser. E essa no  a mulher que serviria para ele.
        - No? - Fiquei um pouco surpresa com aquilo, depois de ter ouvido as observaes de Alec na estrebaria.
        - No, ele precisa de uma mulher, no de uma criana. E Laoghaire continuar a ser uma criana mesmo quando tiver cinqenta anos. - A boca amarga e enrugada 
curvou-se numa espcie de sorriso. - Voc pode achar que eu vivi numa estrebaria toda a minha vida, mas eu tive uma esposa que era uma mulher e eu sei muito bem 
a diferena. - O olho azul brilhou quando ele fez meno de se levantar. - E voc tambm, dona.
        Estendi a mo num impulso para impedi-lo de ir.
        - Como voc sabia... - comecei a dizer. O Velho Alec bufou com escrnio.
        -- Posso ter s um olho, dona, no significa que seja cego. - Saiu, rangendo os ossos e bufando. Encontrei as escadas e subi para o meu quarto, considerando 
o que o velho estribeiro-mor quis dizer com sua ltima observao.
        


9 - O GRANDE ENCONTRO
        
        Minha vida parecia estar adquirindo alguma forma, ainda que no fosse uma rotina formal. Levantando-me ao raiar do dia com o resto dos habitantes do castelo, 
fazia o desjejum no salo e, em seguida, se a sra. Fitz no tivesse pacientes para mim, ia trabalhar nos imensos jardins e hortas do castelo. Diversas outras mulheres 
trabalhavam l regularmente, com uma tropa de ajudantes de diversos tamanhos, que iam e vinham, rebocando lixo, apetrechos e cargas de estrume fertilizante. Geralmente, 
eu trabalhava o dia inteiro nas hortas, s vezes indo para a cozinha para ajudar a preparar uma colheita recente, para consumo imediato ou para conservas, a menos 
que alguma emergncia mdica me chamasse de volta ao Sarcfago, como eu chamava a sala de horrores do finado Beaton.
        De vez em quando, eu aceitava o convite de Alec e visitava o estbulo e o cercado, apreciando a viso dos cavalos soltando a emaranhada cobertura de inverno, 
em tufos, tornando-se fortes e lustrosos como a grama da primavera.
        Em algumas noites, eu ia diretamente para a cama aps o jantar, exausta com a labuta do dia. Outras vezes, quando conseguia manter os olhos abertos, unia-me 
aos outros no salo para ouvir o entretenimento da noite - histrias, canes ou a msica de harpas e gaitas-de-foles. Eu podia ficar ouvindo Gwyllyn o Gauls durante 
horas, encantada, apesar da minha total ignorncia sobre o que ele estaria dizendo, na maior parte das vezes.
        A medida que os moradores do castelo acostumavam-se com a minha presena, e eu com a deles, algumas das mulheres comearam a fazer algumas tmidas tentativas 
de aproximao e a me incluir em suas conversas. A curiosidade a meu respeito era evidente, mas eu respondia a todas as suas perguntas veladas com variaes da histria 
que contara a Colum e, depois de algum tempo, aceitaram-na como tudo que provavelmente iriam conseguir saber de mim. No entanto, ao descobrirem que eu sabia alguma 
coisa de medicina e farmcia, ficaram mais interessadas em mim e comearam a fazer perguntas sobre as doenas de seus filhos, maridos e animais, na maioria dos casos 
fazendo pouca distino entre os dois ltimos em nvel de importncia.
        Alm das perguntas e dos mexericos normais, falava-se muito do prximo Grande Encontro que eu ouvira o Velho Alec mencionar no campo. Conclu que era uma 
ocasio importante e fiquei cada vez mais convencida disso com a extenso dos preparativos. Um fluxo permanente de vveres era entregue nas grandes cozinhas e havia 
mais de vinte carcaas sem pele penduradas no abatedouro, por trs de uma cortina de fumaa aromtica que mantinha as moscas afastadas. Barris de cerveja eram entregues 
por grandes carroas e transportadas por carroas menores para as adegas do castelo, sacas de trigo refinado eram trazidas do moinho do vilarejo para os pes, bolos 
e pasteles, e inmeros cestos de cerejas e damascos eram colhidos diariamente nos pomares fora das muralhas do castelo.
        Fui convidada a participar de uma dessas expedies para colher frutas com diversas mulheres jovens do castelo e aceitei com entusiasmo, ansiosa para sair 
da sombra ameaadora das paredes do castelo.
        O pomar era lindo e eu adorei ficar andando em meio  nvoa fria da manh escocesa, enfiando a mo entre as folhas midas das rvores frutferas para colher 
cerejas viosas e damascos polpudos e macios, apertando-os delicadamente para ver se estavam maduros. Pegvamos apenas os melhores frutos, colocando-os em nossos 
cestos em montes suculentos, comendo o mximo que conseguamos e levando o restante de volta, para serem transformados em tortas. As enormes prateleiras da despensa 
j estavam quase cheias de doces, licores, presuntos e iguarias diversas.
        - Quantas pessoas costumam vir ao Grande Encontro? - perguntei a Magdalen, uma das moas com quem fizera amizade.
        Ela enrugou o nariz sardento e arrebitado, pensando.
        - No sei ao certo. O ltimo Grande Encontro em Leoch foi h mais de vinte anos e ento, ah, talvez uns duzentos homens tenham vindo quando o velho Jacob 
morreu, e Colum tornou-se o chefe do cl. Talvez venham mais este ano; tem sido um ano bom para as colheitas e as pessoas tero um pouco mais de dinheiro para gastar, 
de modo que muitos traro a mulher e os filhos.
        Os visitantes j comeavam a chegar ao castelo, embora eu tenha ouvido que a programao oficial do Grande Encontro - o juramento, o tynchal e os jogos - 
s comearia dentro de alguns dias. Os arrendatrios e locatrios mais ilustres de Colum seriam hospedados no prprio castelo, enquanto os soldados e rendeiros, 
mais pobres, armavam um acampamento num terreno baldio, abaixo do rio que alimentava o lago do castelo. Funileiros ambulantes, ciganos e mascates de miudezas haviam 
montado uma espcie de feira improvisada perto da ponte. Tanto os habitantes do castelo quanto do vilarejo mais prximo comearam a visitar o local  noite, aps 
a faina do dia, para comprar utenslios e apetrechos, ver os malabaristas e se atualizar com os fuxicos mais recentes.
        Fiquei atenta s idas e vindas e firmei o propsito de fazer visitas freqentes  estrebaria e ao pasto. Havia cavalos em abundncia agora, com os animais 
dos visitantes sendo acomodados na estrebaria do castelo. No meio da confuso e do alvoroo do Grande Encontro, pensava, eu no deveria ter dificuldade em encontrar 
minha oportunidade de fugir.
        Foi numa das expedies para colher frutas no pomar que conheci Geillis Duncan. Encontrando uma pequena rea de Ascaria sob as razes de um amieiro, comecei 
a procurar mais. Os chapus vermelhos dos cogumelos cresciam em pequenos amontoados, apenas quatro ou cinco por grupo, mas havia vrios aglomerados espalhados pela 
grama alta nesta parte do pomar. As vozes das mulheres colhendo frutas ficaram cada vez mais distantes enquanto eu avanava para a periferia do pomar, inclinando-me 
ou ficando de quatro no cho para recolher os talos frgeis.
        - Esse tipo  venenoso - disse uma voz atrs de mim. Ergui-me do canteiro de Ascaria sobre o qual estava abaixada, batendo a cabea com fora em um galho 
do pinheiro sob o qual os cogumelos cresciam.
        Quando minha vista clareou, pude ver que as gargalhadas vinham de uma mulher alta e jovem, talvez alguns anos mais velha do que eu, de cabelos louros e pele 
clara, com os mais lindos olhos verdes que eu j vira.
        - Desculpe-me por estar rindo de voc - disse, ainda rindo enquanto descia para o buraco onde eu estava. - No consegui me conter.
        - Imagino que devia estar muito engraada mesmo - disse um pouco indelicadamente, esfregando o local dolorido no topo da minha cabea. -E obrigada pelo aviso, 
mas sei que esses cogumelos so venenosos.
        - Ah, sabe? E de quem  que est planejando se livrar, ento? Seu marido, talvez? Diga-me se funcionar e eu experimentarei no meu. - Seu sorriso era contagiante 
e eu me vi sorrindo tambm.
        Expliquei que, embora os chapus dos cogumelos crus fossem realmente venenosos, podia-se fazer um preparado em p com o cogumelo seco que era muito eficaz 
para estancar sangramentos quando aplicado sobre o ferimento. Ou assim dissera a sra. Fitz; eu estava mais inclinada a confiar nela do que no Guia do mdico, de 
Davie Beaton.
        - Ora, vejam s! - ela disse, ainda sorrindo. - E voc sabia que estas aqui - abaixou-se e surgiu com um punhado de minsculas flores azuis com folhas em 
forma de corao - podem provocar sangramento?
        - No - disse, espantada. - Por que algum iria querer provocar um sangramento?
        Olhou-me com uma expresso de exasperada pacincia.
        - Para se livrar de um filho que no deseja. Faz sua menstruao descer, mas somente se us-las no comeo da gestao. Mais tarde, pode matar voc e a criana.
        - Parece saber muito sobre isso - observei, ainda melindrada por ter parecido estpida.
        - Um pouco. As moas da aldeia vm a mim de vez em quando para coisas desse tipo e s vezes mulheres casadas tambm. Dizem que sou uma bruxa - continuou, 
arregalando os olhos brilhantes num espanto fingido. Riu. - Mas meu marido  o procurador fiscal do distrito, de modo que no dizem isso em voz alta.
        - Agora, o rapaz que voc trouxe com voc - continuou, balanando a cabea com aprovao -, ali est um por quem foram compradas algumas poes do amor. 
Ele  seu?
        - Meu? Quem? Est falando, h, de Jamie? - Estava perplexa.
        A mulher parecia estar se divertindo. Sentou-se em um tronco cado, enrolando preguiosamente um dos cachos dos cabelos louros em volta do dedo indicador.
        - Ah, sim. H muitas que gostariam de conquistar um rapaz com aqueles olhos e aqueles cabelos, qualquer que seja o preo por sua cabea ou o fato de no 
ter nenhum dinheiro. Seus pais devem pensar de modo diferente,  claro.
        - Quanto a mim - continuou, com o olhar distante -, sou uma pessoa prtica. Casei-me com um homem com uma boa casa, boas economias e uma boa posio. Quanto 
aos cabelos, no tem, e os olhos, nunca os notei, mas ele no me d muito trabalho. - Estendeu para mim o cesto que carregava para que eu o olhasse. Havia quatro 
razes bulbosas no fundo.
        - Razes de malva - explicou. - Meu marido sofre de um problema no estmago de vez em quando. Peida que nem um boi.
        Achei melhor parar por ali naquela linha de conversa antes que as coisas sassem do controle.
        - No me apresentei - disse, estendendo a mo para ajud-la a se levantar do tronco. - Meu nome  Claire. Claire Beauchamp.
        A mo que pegou a minha era esbelta, com dedos longos e adelgaados, embora eu notasse que as pontas eram manchadas, provavelmente com o sumo das plantas 
e frutas silvestres que jaziam ao lado das razes de malva em seu cesto.
        - Sei quem  - ela disse. - A aldeia est fervilhando de conversas a seu respeito, desde que chegou ao castelo. Meu nome  Geillis, Geillis Duncan. - Olhou 
dentro do meu cesto. - Se  balgan-buachrach o que voc est procurando, posso mostrar-lhe onde crescem mais.
        Aceitei a oferta e andamos durante algum tempo pelas ravinas prximas ao pomar, examinando embaixo de troncos apodrecidos e rastejando Pela beirada dos pequenos 
e reluzentes lagos, onde os minsculos chapus-de-sapo cresciam em profuso. Geillis era boa conhecedora das plantas locais e de seus usos medicinais, embora tenha 
sugerido algumas aplicaes que considerei questionveis, para dizer o mnimo. Achei muito improvvel, por exemplo, que a sanguinria fosse uma erva eficaz em fazer 
crescer verrugas no nariz de uma rival e duvidava muito que a betnica verdadeira fosse til para transformar sapos em pombos. Ela deu essas explicaes com um olhar 
malicioso que sugeria que ela estava testando meus prprios conhecimentos ou talvez a suspeita local de bruxaria.
        Apesar da provocao ocasional, era uma companhia agradvel, com uma vivacidade sagaz e uma viso otimista, ainda que cnica, da vida. Ela parecia saber 
tudo que havia para se saber sobre todas as pessoas da vila, do campo e do castelo e nossas exploraes eram pontuadas por perodos de descanso durante os quais 
ela me entretinha com queixas sobre o problema estomacal de seu marido e com bisbilhotices divertidas, embora um pouco maliciosas.
        - Dizem que o pequeno Hamish no  filho de seu pai - disse em determinado momento, referindo-se ao filho nico de Colum, o garoto ruivo de cerca de oito 
anos que eu vira no jantar no salo.
        No fiquei particularmente alarmada com esse mexerico, j tendo tirado minhas prprias concluses sobre o assunto. S fiquei surpresa que houvesse apenas 
uma criana de paternidade discutvel, concluindo que Letitia tivera muita sorte ou fora bastante inteligente para procurar algum como Geilie a tempo. Imprudentemente, 
eu disse isso a Geilie.
        Ela lanou para trs os longos cabelos louros e riu.
        - No, eu no. A boa Letitia no precisa de nenhuma ajuda nessas questes, acredite-me. Se as pessoas estiverem procurando uma bruxa nestas redondezas, seria 
melhor olhar no castelo do que na vila.
        Ansiosa para mudar para um assunto mais seguro, agarrei-me ao primeiro pensamento que passou pela minha cabea.
        - Se o pequeno Hamish no  filho de Colum, de quem deve ser? -perguntei, arrastando-me por um monte de pedras.
        - Ora, do rapaz,  claro. - Virou-se para me encarar, a boca pequena zombeteira e os olhos verdes brilhantes de malcia. - Do jovem Jamie.
        Voltando sozinha para o pomar, encontrei-me com Magdalen, os cabelos soltando-se por baixo do leno e os olhos arregalados de preocupao.
        - Ah, a est voc - disse, dando um suspiro de alvio. - Estvamos voltando ao castelo, quando dei por sua falta.
        - Muita gentileza sua voltar para me buscar - eu disse, pegando o cesto de cerejas que eu deixara na grama. - Mas eu sei o caminho.
        Ela sacudiu a cabea.
        - Devia ter cuidado, minha querida, andando sozinha pelo bosque, com todos os funileiros e ambulantes que vieram para o Grande Encontro. Colum deu ordens... 
- Parou repentinamente, a mo sobre a boca.
        - De que devo ser vigiada? - sugeri afavelmente. Ela assentiu com relutncia, de certo temendo que eu fosse ficar ofendida. Dei de ombros e tentei tranqiliz-la 
com um sorriso.
        - Bem, acho que isso  natural - eu disse. - Afinal, ele no tem a palavra de ningum, a no ser a minha prpria, de quem eu sou ou como cheguei aqui. - 
A curiosidade superou meu bom senso. - Quem ele pensa que eu sou? - perguntei. Mas a jovem s conseguiu sacudir a cabea.
        - Voc  inglesa - foi tudo que disse.
        No voltei ao pomar no dia seguinte. No porque tivesse recebido ordem de permanecer no castelo, mas porque houve uma repentina exploso de intoxicao alimentar 
entre os habitantes do castelo que requereu meus cuidados mdicos. Depois de fazer o que era possvel pelos doentes, sa no encalo da origem do problema.
        Verifiquei que se tratava de carne de vaca contaminada proveniente do abatedouro. Fui l no dia seguinte e estava dando ao principal defumador minha opinio 
quanto aos mtodos adequados de preservao de carne, quando a porta abriu-se de repente atrs de mim, lanando uma espessa onda de fumaa sufocante sobre mim.
        Virei-me, os olhos lacrimejando, e vi Dougal MacKenzie assomando em meio s nuvens de fumaa de madeira de carvalho.
        - Alm de mdica, agora supervisiona o abate, dona? - perguntou com ironia. - Logo ter todo o castelo sob seu domnio e a sra. Fitz estar procurando emprego 
em outro lugar.
        - No tenho a menor vontade de ter nada a ver com seu castelo imundo - retorqui, limpando meus olhos cheios d'gua e deixando meu leno cheio de manchas 
de carvo. - Tudo que eu quero  ir embora daqui, o mais rpido possvel.
        Ele inclinou a cabea respeitosamente, ainda rindo.
        - Bem, acho que estou na posio de atender seu pedido, dona - disse. - Ao menos, temporariamente.
        Deixei cair o leno e olhei-o fixamente.
        - O que quer dizer?
        Ele tossiu e abanou a fumaa, agora fluindo em sua direo. Levou-me para fora do matadouro e voltou-se na direo da estrebaria.
        -- Voc dizia ontem a Colum que precisava de betnica e outras ervas estranhas?
        -- Sim, para preparar alguns remdios para as pessoas que esto com intoxicao alimentar. O que tem isso? - perguntei, ainda desconfiada. Ele deu de ombros 
com bom humor.
        -- Apenas que vou descer at o ferreiro na vila, levando trs cavalos para ferrar. A mulher do fiscal  entendida em ervas e tem estoques  mo. Sem dvida, 
tem os espcimes de que precisa. E se quiser, madame, pode montarn um dos cavalos e vir comigo at a vila.
        - A mulher do fiscal? A sra. Duncan? - Senti-me mais contente no mesmo instante. S a perspectiva de escapar do castelo, ainda que por pouco tempo, era irresistvel.
        Limpei o rosto apressadamente e enfiei o leno sujo no meu cinto.
        - Vamos - disse.
        Apreciei a curta cavalgada at a vila, apesar do dia escuro e nublado. O prprio Dougal estava bem-humorado e conversou e brincou agradavelmente durante 
todo o trajeto.
        Paramos primeiro no ferreiro, onde ele deixou os trs cavalos extras, erguendo-me para trs dele na sela para o percurso at a casa dos Duncan. Era uma imponente 
manso, parcialmente em madeira, de quatro andares, os dois primeiros com elegantes janelas de vitrais; painis em forma de losango em tons pastis de roxo e verde.
        Geilie nos saudou encantada, satisfeita por ter companhia em um dia to lgubre.
        - Que maravilha! - exclamou. - Ando querendo uma desculpa para ir ao depsito e separar algumas coisas. Anne!
        Uma criada baixa, de meia-idade, com um rosto parecendo uma ma desidratada, surgiu por uma porta que eu no notara, escondida como estava na curva da chamin.
        - Leve a sra. Claire l em cima ao depsito - Geilie ordenou - e depois v buscar um balde de gua da fonte. Da fonte, veja bem, no do poo da praa! - 
Virou-se para Dougal. - Tenho guardado o tnico que prometi a seu irmo. Pode vir at a cozinha comigo por um instante?
        Segui o traseiro em forma de abbora da criada por um lance de escadas estreitas de madeira, emergindo repentinamente em um sto grande e arejado. Ao contrrio 
do resto da casa, este aposento tinha janelas de caixilhos, os postigos agora fechados por causa da umidade externa, mas ainda assim proporcionando muito mais luz 
do que havia na elegante e sombria sala de visitas no andar trreo.
        Era evidente que Geilie conhecia seu ofcio como herbanria. O aposento estava equipado com longas molduras de secagem forradas de gaze, ganchos acima da 
pequena lareira para secagem por calor e prateleiras abertas ao longo das paredes, furadas para permitir a circulao do ar. Um delicioso e condimentado aroma de 
manjerico, alecrim e alfazema enchia o ar. Uma bancada longa e surpreendentemente moderna ia de uma ponta  outra de uma das paredes, exibindo uma notvel variedade 
de piles, almofarizes, tigelas e colheres, tudo imaculadamente limpo.
        Passou-se algum tempo antes de Geilie aparecer, afogueada com a subida das escadas, mas sorrindo diante da perspectiva de uma longa tarde de conversa fiada 
e preparao de ervas.
        Comeou a chover um pouco, as gotas salpicando os longos batentes das janelas, mas o fogo ardia na pequena lareira do depsito e o aposento estava muito 
aconchegante. Gostei imensamente da companhia de Geilie; ela possua uma viso irnica, cnica, que era um revigorante contraste com as mulheres meigas e tmidas 
do castelo. E obviamente ela era bem-educada, para uma mulher numa pequena vila.
        Ela tambm conhecia cada escndalo que ocorrera tanto na vila quanto no castelo nos ltimos dez anos e contou-me inmeras histrias divertidas. Estranhamente, 
fez poucas perguntas a meu respeito. Achei que essa no era sua maneira de agir; ela iria descobrir o que queria saber de mim atravs de outras pessoas.
        Durante algum tempo, eu tinha conscincia de barulhos vindos da rua l fora, mas atribura-os ao trfego dos habitantes da vila vindos da missa de domingo; 
a igreja ficava no final da rua e a rua principal ia da igreja  praa, dali espalhando-se como um leque de pequenas vielas e caminhos.
        Na realidade, eu me distrara no caminho para o ferreiro imaginando uma vista area da vila como a representao do esqueleto de um antebrao e sua mo; 
a rua principal era o rdio, ao longo do qual ficavam as lojas, escritrios e residncias dos mais abastados. A travessa de St. Margaret era o cbito, uma rua mais 
estreita que corria paralelamente  principal, ocupada por ferreiros, curtumes e por artesos e negcios menos elegantes. A praa da vila (que, como todas as praas 
de vila que eu j vira, era mais ou menos retangular) formava os carpos e metacarpos da mo, enquanto as diversas ruelas de pequenas casas constituam as juntas 
falangianas dos dedos.
        A casa dos Duncan ficava na praa, como era prprio  residncia do procurador fiscal. Era uma questo de convenincia e tambm de status; a praa podia 
ser usada para as questes judiciais que, por fora do interesse pblico ou necessidade legal, ultrapassavam os estreitos limites do escritrio de Arthur Duncan. 
E era, como Dougal explicou, conveniente para o pelourinho, uma geringona tosca de madeira que ficava sobre uma Pequena plataforma de pedra no centro da praa, 
ao lado do poste de madeira usado - com bem-sucedida economia de propsitos - como poste de aoite, mastro de enfeites para as festividades de maio, mastro de bandeira 
e lugar para amarrar o cavalo, dependendo das necessidades.
        O barulho do lado de fora se tornou muito mais alto e muito mais desordenado do que parecia apropriado a pessoas voltando comportadamente da igreja para 
casa para o jantar. Geilie largou os jarros com uma exclamao de impacincia e abriu a janela de par em par para ver o que estava causando aquela baderna.
        Juntando-me a ela  janela, pude ver uma multido de pessoas vestidas Com suas roupas dominicais de bata, saia, casaco e gorro, conduzidas pela figura troncuda 
do padre Bain, o sacerdote que atendia tanto a vila quanto o castelo. Tinha em sua custdia um garoto, talvez de uns doze anos, cujas calas justas de xadrez, esfarrapadas, 
e camisa suja e fedida o identificavam como filho de um curtidor. O padre segurava o rapaz pela nuca, uma posio difcil de manter devido ao fato de o garoto ser 
ligeiramente mais alto do que seu temvel captor. A multido seguia os dois de perto, resmungando crticas e comentrios como uma nuvem de trovoada que passa no 
rasto de um relmpago.
        Enquanto olhvamos da janela de cima, o padre Bain e o garoto desapareceram abaixo de ns, entrando na casa. A multido permaneceu do lado de fora, murmurando 
e empurrando. Uns poucos mais ousados meteram a cara nos peitoris das janelas, tentando espreitar dentro da casa.
        Geilie fechou a janela com uma forte pancada, provocando uma interrupo no burburinho l embaixo.
        - Roubo, muito provavelmente - disse laconicamente, voltando  mesa de ervas. - Geralmente , quando se trata de filhos de curtidores.
        - O que vai acontecer com ele? - perguntei com curiosidade. Ela encolheu os ombros, esmigalhando alecrim seco entre os dedos diretamente dentro do pilo.
        - Depende se Arthur est ou no com dispepsia hoje, eu acho. Se ele tomou um bom desjejum, o rapaz pode sair apenas com umas chicotadas. Mas se estiver com 
gases ou constipado - fez uma careta de desgosto -, o rapaz perder uma orelha ou uma das mos, provavelmente.
        Fiquei horrorizada, mas hesitante em interferir diretamente na questo. Eu era uma forasteira e uma intrusa inglesa. Embora pensasse que poderia ser tratada 
com certo respeito como moradora do castelo, tinha visto muitos aldees furtivamente fazerem o sinal-da-cruz quando eu passava. Minha interferncia poderia facilmente 
piorar a situao do garoto.
        - Voc pode fazer alguma coisa? - perguntei a Geilie. - Falar com seu marido, quero dizer; pedir-lhe para ser, h, tolerante?
        Geilie ergueu os olhos de seu trabalho, surpresa. Obviamente a idia de interferir nos negcios de seu marido jamais passara por sua cabea.
        - Por que voc deveria se importar com o que acontecer a ele? - perguntou, apenas por curiosidade, sem nenhum significado hostil.
        - Claro que me importo! - exclamei. -  apenas um garoto; o que quer que tenha feito, no merece ser mutilado para a vida inteira!
        Ela ergueu as sobrancelhas claras; evidentemente esse argumento no era convincente. Ainda assim, deu de ombros e entregou-me o pilo.
        - Qualquer coisa para satisfazer uma amiga - disse, revirando os olhos. Passou os olhos pelas prateleiras e selecionou uma garrafa com uma substncia verde, 
rotulada numa elegante caligrafia cursiva e floreada, EXTRATO DE MENTA.
        - Vou dar uma dose para o Arthur e, enquanto estiver fazendo isso, verei o que pode ser feito pelo garoto. Mas pode ser tarde demais, - avisou. - E se aquele 
padre pustulento tiver alguma coisa a ver com isso, vai querer a punio mais severa possvel. Mesmo assim, vou tentar. Continue a socar; o alecrim leva muito tempo.
        Peguei o pilo depois que ela saiu e comecei a socar e triturar automaticamente, prestando pouca ateno aos resultados. A janela fechada bloqueava tanto 
o barulho da chuva quanto o da multido; misturavam-se em um sussurro de ameaa, reverberante e surdo. Como qualquer estudante, eu lera Dickens. E autores mais antigos 
tambm, com suas descries da justia cruel daqueles tempos, aplicada a todos os malfeitores, independente de idade ou circunstncias. Mas ler, da confortvel distncia 
de cem a duzentos anos, relatos de enforcamentos de crianas e mutilaes judiciais era muito diferente do que ficar tranqilamente socando ervas alguns metros acima 
de tal ocorrncia.
        Eu teria a coragem de interferir diretamente, se a sentena fosse contra o garoto? Aproximei-me da janela, levando o pilo comigo, e espreitei l fora. A 
multido aumentara, conforme comerciantes e donas-de-casa, atrados pelo tumulto, passavam pela rua para averiguar. Os recm-chegados aglomeravam-se enquanto os 
espectadores repassavam os detalhes nervosamente, em seguida fundiam-se na multido, mais rostos voltados ansiosamente para a porta da casa.
        Olhando para o ajuntamento, aguardando pacientemente na garoa  espera do veredicto, tive repentinamente a compreenso vivida de um fato. Como tantos, eu 
ouvira, perplexa, os relatos divulgados da Alemanha do ps-guerra; as histrias de deportaes e genocdios, de campos de concentrao e de incineraes. E como 
tantos outros haviam feito, e fariam, ainda por muitos anos, perguntei a mim mesma: "Como o povo deixou que isso acontecesse? Deviam saber, deviam ter visto os caminhes, 
o vaivm, as cercas, a fumaa. Como puderam ficar assistindo sem fazer nada?" Bem, agora eu sabia.
        Neste caso, no era nem uma questo de vida ou morte. E o apoio de Colum provavelmente evitaria qualquer ataque fsico  minha pessoa. Mas as minhas mos 
ficaram pegajosas em torno da tigela de porcelana ao me imaginar descendo as escadas, sozinha e sem nenhum poder, para confrontar aquela multido de cidados virtuosos 
e inabalveis, vidos pela empolgao do castigo e do sangue para aliviar o tdio da existncia.
        As pessoas so gregrias por necessidade. Desde a poca dos primeiros habitantes das cavernas, os seres humanos - sem plos, fracos e desamparados, a no 
ser pela inteligncia - sobreviveram unindo-se em grupos; percebendo, como tantas outras criaturas haviam descoberto, que h proteo em ajuntamentos. E esse conhecimento, 
impregnado nos ossos,  que est por trs da autoridade das aglomeraes. Porque dar um passo fora do grupo, sem falar em colocar-se contra ele, significava h incontveis 
milhares de anos a morte para a criatura que ousasse faz-lo. Para opor-se a uma multido era preciso mais do que a coragem comum; algo que fosse alm do instinto 
humano. E eu temia no ter essa fora e, ao temer, sentia-me envergonhada.
        Pareceu que uma eternidade havia se passado at a porta abrir-se e Geilie entrar, tranqila e controlada como sempre, com um pequeno basto de carvo na 
mo.
        - Vamos ter que filtrar depois de ferver - observou, como se continuasse nossa conversa anterior. - Acho que vamos coar a mistura pelo carvo sobre musselina; 
 o melhor.
        - Geilie - eu disse, com impacincia. - No tente me enganar. O que aconteceu com o garoto do curtume?
        - Ah, isso. - Ergueu um dos ombros como se descartasse o assunto, mas um sorriso malicioso esquivava-se nos cantos dos seus lbios. Ento, deixou de lado 
a fachada e riu.
        - Voc devia ter me visto - disse, com uma risadinha. - Eu fui muito boa, tenho que confessar. Uma esposa toda solcita, cheia de bondade feminina, com uma 
pitada de compaixo maternal. "Ah, Arthur" - dramatizou -, "se a nossa prpria unio tivesse sido abenoada..." Sem muita chance, se tenho algo a dizer a respeito 
- acrescentou, deixando cair a mscara de sentimentalismo por um instante com uma inclinao da cabea em direo s prateleiras de ervas - "... como voc se sentiria, 
meu bem, se seu prprio filho fosse levado assim? Sem dvida foi a fome que fez o pobre rapaz entregar-se ao roubo. Ah, Arthur, no poderia encontrar em seu corao 
a piedade, ainda mais sendo voc a alma da justia?" - Deixou-se cair em um banco, rindo e batendo o punho levemente na perna. - Que pena que no haja um lugar para 
se representar aqui!
        O barulho da multido l fora mudara e aproximei-me da janela para ver o que estava acontecendo, ignorando a satisfao de Geilie com seu prprio desempenho. 
O pblico dividiu-se e o filho do curtidor saiu, andando devagar entre o padre e o juiz. Arthur Duncan exultava de benevolncia, fazendo reverncia e cumprimentando 
com um balano da cabea os membros mais eminentes do grupo. O padre Bain, ao contrrio, parecia uma batata contrariada, o rosto moreno contrado de ressentimento.
        A pequena procisso seguiu at o centro da praa, onde a autoridade policial da vila, um tal de John MacRae, destacou-se da multido para ir ao encontro 
deles. Esse personagem vestia-se, como convinha ao seu ofcio, de maneira sbria e elegante, com calas escuras amarradas na altura dos joelhos e casaco e chapu 
de veludo cinza (no momento, removido e cuidadosamente protegido da chuva sob a cauda do seu casaco). Ele no era, como eu inicialmente presumira, o carcereiro da 
vila, embora num aperto ele realmente desempenhasse essa funo. Seus deveres eram basicamente os de policial, fiscal de costumes e, quando necessrio, carrasco; 
carregava uma concha de madeira pendurada no cinto, com a qual podia retirar uma porcentagem de cada saca de gros vendida no mercado de quinta-feira; a remunerao 
pelos seus prstimos.
        Eu descobrira tudo isso com o prprio policial. Ele estivera no castelo h apenas alguns dias para ver se eu podia tratar de um persistente panarcio em 
seu polegar. Eu o lancetei com uma agulha esterilizada e apliquei uma pomada de broto de lamo, constatando que MacRae era um homem tmido, de fala mansa, com um 
sorriso aptico.
        Mas no havia nenhum sinal de sorriso agora; o rosto de MacRae estava carrancudo, como era apropriado. Faz sentido, pensei; ningum quer ver um carrasco 
sorridente.
        O vilo foi levado para cima da plataforma no centro da praa. O garoto estava plido e assustado, mas no se mexeu quando Arthur Duncan, procurador fiscal 
da parquia de Cranesmuir, ajeitou sua gordura para tentar conferir  sua aparncia um ar de dignidade e preparou-se para proferir a sentena.
        - O idiota j havia confessado quando cheguei - disse uma voz junto ao meu ouvido. Geilie espreitava com interesse por cima do meu ombro. -No consegui livr-lo 
completamente. Ainda assim, consegui a pena mais leve possvel; somente uma hora no pelourinho e uma orelha pregada.
        - Uma orelha pregada! Pregada em que?
        - Ora, no pelourinho,  claro. - Lanou-me um olhar intrigado, mas voltou para a janela para observar a execuo da pena leve obtida graas  sua piedosa 
interveno.
        Havia tantos corpos comprimindo-se em volta do pelourinho que o vilo quase no podia ser visto, mas a multido recuou um pouco para dar espao suficiente 
ao policial para que pudesse pregar a orelha do garoto. Este, plido e pequeno nas garras do pelourinho, tinha os dois olhos cerrados com fora e os mantinha assim, 
tremendo de medo. Emitiu um grito agudo e alto quando o prego foi inserido, audvel at mesmo atravs das janelas fechadas, e eu mesma estremeci um pouco.
        Retornamos ao nosso trabalho, como a maioria das pessoas na praa, mas eu no conseguia deixar de me levantar para olhar para fora de vez em quando. Alguns 
ociosos que passavam por ali paravam para zombar da vtima e atirar-lhe bolas de lama e, ocasionalmente, um cidado mais sbrio era visto aproveitando um momento 
dos afazeres dirios para cuidar do aPerfeioamento moral do delinqente por meio de algumas palavras selecionadas de censura e conselho.
        Ainda faltava uma hora para o tardio pr-do-sol de primavera e tomvamos ch na sala de visitas no andar trreo, quando uma batida na porta anunciou a chegada 
de um visitante. O dia estava to escuro por causa da chuva que mal se conseguia saber o nvel do sol. A casa dos Duncan, no entanto, era equipada com um relgio, 
um magnfico aparelho de painis de mbuia, pndulos de bronze e um mostrador decorado com querubins, e esse instrumento indicava seis e meia.
        A copeira abriu a porta que dava para a sala de visitas e sem cerimnia anunciou "Por aqui". Jamie MacTavish agachou-se automaticamente ao passar pela porta, 
os cabelos brilhantes escurecidos pela chuva, assumindo um tom de bronze envelhecido. Usava um reles casaco velho contra a chuva e carregava uma grossa capa de montar 
de veludo verde dobrada sob um dos braos.
        Fez um cumprimento com a cabea quando me levantei e o apresentei a Geilie.
        - Sra. Duncan, sra. Beauchamp. - Apontou em direo  janela. - Vejo que tiveram um acontecimento aqui esta tarde.
        - Ele ainda est l? - perguntei, espreitando pela janela. O garoto era apenas uma figura escura, vista atravs da distoro dos painis ondulados da sala. 
- Deve estar encharcado.
        - Est. - Jamie abriu a capa e segurou-a para mim. - Voc tambm ficaria, foi o que Colum pensou. Eu tinha coisas para fazer na vila, ento ele enviou a 
capa comigo para voc. Deve voltar comigo.
        - Foi muita gentileza dele - falei distrada, pois minha mente ainda continuava no garoto.
        - Por quanto tempo mais ele deve ficar l? - perguntei a Geilie. - O garoto no pelourinho - acrescentei impacientemente, vendo seu olhar sem expresso.
        - Ah, ele - disse, franzindo ligeiramente a testa diante da introduo de um tpico to sem importncia. - Uma hora, eu lhe disse. O policial j deveria 
t-lo libertado do pelourinho.
        - Ele o fez -Jamie assegurou. - Eu o vi quando atravessava o gramado.  que o garoto ainda no teve coragem de arrancar o prego de sua orelha.
        Fiquei boquiaberta.
        - Quer dizer que o prego no ser tirado de sua orelha? Ele tem que rasgar a orelha para se ver livre?
        - Ah, sim. - Jamie disse, animadamente e despreocupado. - Ele ainda est um pouco nervoso, mas acho que vai resolver isso logo. Est chovendo l fora e logo 
estar escuro tambm. Ns temos que ir ou s pegaremos as sobras do jantar. - Fez uma mesura para Geilie e virou-se para ir embora.
        - Espere um instante - ela me disse. - J que tem um rapaz forte e grande como ele para lev-la para casa, tenho uma caixa de repolho-do-brejo seco e outras 
plantas que prometi  sra. Fitz-Gibbons no castelo. Talvez o sr. MacTavish pudesse fazer a gentileza de levar?
        Jamie concordou e ela mandou um criado ir buscar a caixa em seu depsito, para isso entregando-lhe a enorme chave de ferro forjado. Enquanto o criado no 
voltava com a caixa, ela sentou-se a uma pequena escrivaninha no canto da sala. Quando a caixa, uma arca de madeira de bom tamanho, com tiras de lato, foi trazida, 
ela terminara de escrever seu bilhete. Enxugou-o rapidamente, dobrou-o e selou-o com uma bolha de cera da vela e enfiou-o na minha mo.
        - Pronto - disse. -  a conta pela caixa. Pode entreg-la ao Dougal para mim?  ele que lida com os pagamentos. No entregue a mais ningum ou no serei 
paga to cedo.
        - Sim, claro.
        Abraou-me calorosamente e, com advertncias para evitar o frio, acompanhou-nos at a porta.
        Fiquei abrigada sob a beirada do telhado enquanto Jamie amarrava a caixa  sela do cavalo. A chuva havia se intensificado e um lenol d'gua escorria das 
calhas.
        Observei as costas largas e os braos musculosos levantarem a pesada caixa sem nenhum esforo aparente. Em seguida, olhei para o pelourinho, onde o garoto 
do curtume, apesar do encorajamento dado pela multido que voltara a se reunir, continuava firmemente preso. Apesar de no se tratar de uma linda jovem de cabelos 
platinados, os atos anteriores de Jamie no tribunal de Colum fizeram-me pensar que talvez ele no fosse indiferente ao infortnio do garoto.
        - H, sr. MacTavish - comecei, hesitante. No houve resposta. O belo rosto no alterou a expresso; a boca larga continuou relaxada, os olhos azuis focalizados 
na tira que amarrava.
        - Ah, Jamie? - tentei outra vez, um pouco mais alto, e ele ergueu os olhos imediatamente. Ento, o nome dele realmente no era MacTavish. Imaginei qual seria 
seu verdadeiro nome.
        - Sim? - disse.
        - Voc  bastante grande, no? - eu disse. Um ligeiro sorriso fez seus lbios se curvarem e ele balanou a cabea, claramente imaginando aonde eu queria 
chegar.
        - Bastante grande para a maioria dos casos - respondeu.
        Fiquei animada e aproximei-me dele casualmente, de modo que a nossa conversa no pudesse ser ouvida por nenhum transeunte da praa.
        -- Tem fora nos dedos? - perguntei.
        Flexionou uma das mos e o sorriso se ampliou.
        -- Ah, certamente. Tem algumas castanhas que quer quebrar? - Olhou Para mim com um brilho maroto e alegre no olhar.
        Olhei rapidamente para o bando de espectadores na praa. Na verdade, era para tirar algum da fogueira, eu acho. - Ergui os olhos e me deparei com seu olhar 
azul e indagador. - Poderia fazer isso?
        Ficou parado olhando para mim por uns instantes, ainda sorrindo, depois deu de ombros. - Sim, se o prego for suficientemente longo para eu agarrar. Mas voc 
consegue desviar a ateno da multido? Uma interferncia no seria vista com bons olhos, ainda mais sendo eu um estranho.
        Eu no previra a possibilidade de que meu pedido pudesse coloc-lo em perigo de alguma forma e hesitei, mas ele parecia disposto a entrar no jogo, a despeito 
do perigo.
        - Bem, se ns dois nos aproximssemos para olhar mais de perto e ento eu desmaiasse diante do que via, voc acha?
        - Sendo voc uma pessoa to desacostumada com sangue e tudo o mais? - Ergueu uma das sobrancelhas sarcasticamente e riu. - Sim, acho que serve. Se voc puder 
fingir cair da plataforma, melhor ainda.
        Eu na verdade havia me sentido um pouco receosa de olhar, mas no era uma viso to assustadora quanto eu temera. A orelha estava firmemente pregada pela 
parte superior, perto da borda, e havia uns cinco centmetros do prego quadrado, sem cabea, livre acima do apndice pregado. Quase no havia sangue e era evidente 
pelo rosto do garoto que, embora estivesse desconfortvel e assustado, no estava sentindo muita dor. Comecei a achar que Geilie talvez tivesse razo em considerar 
aquela uma pena bastante leve, considerando-se o estado geral da atual jurisprudncia escocesa, embora isso no alterasse nem um pouco minha opinio quanto  barbaridade 
do ato praticado.
        Jamie foi se aproximando despreocupadamente pelas beiradas da multido de curiosos. Sacudiu a cabea, como se repreendesse o garoto.
        - Ora, garoto - disse, estalando a lngua. - Se meteu numa grande enrascada, hein? - Colocou a mo grande e firme sobre a madeira do pelourinho, a pretexto 
de olhar a orelha mais de perto. - Muito bem, rapaz - disse, com menosprezo -, no precisa fazer uma tempestade em copo d'gua. Um puxo de cabea e tudo est terminado. 
Vamos, quer que eu o ajude? - Estendeu o brao como se fosse agarrar o garoto pelos cabelos e puxar sua cabea com toda a fora. O garoto deu um berro de medo.
        Reconhecendo a minha deixa, dei um passo para trs, tomando o cuidado de pisar com toda a fora nos dedos da mulher atrs de mim, que ganiu de dor quando 
o salto da minha bota esmigalhou seus metatarsos.
        - Desculpe-me - disse, arfando. - Estou... to tonta! Por favor... - Virei as costas para o pelourinho e dei dois ou trs passos, cambaleando astuciosamente 
e agarrando-me s mangas das roupas das pessoas mais prximas. A beirada da plataforma estava a apenas quinze centmetros de distncia; segurei com fora em uma 
jovem de compleio frgil que eu escolhera para esse fim e mergulhei de cabea no cho, levando-a comigo.
        Rolamos na grama molhada numa confuso de saias e gritos. Largando finalmente a sua blusa, relaxei dramaticamente com os braos abertos, a chuva tamborilando 
no meu rosto virado para cima.
        Fiquei, de fato, um pouco sem ar com o impacto - a jovem cara em cima de mim - e tentei recuperar o flego, ouvindo a algazarra de vozes preocupadas, reunidas 
 minha volta. Especulaes, sugestes e interjeies de espanto recaam sobre mim, com mais fora do que as gotas d'gua do cu, mas foram dois braos conhecidos 
que me ergueram e me colocaram sentada, e um par de olhos azuis gravemente preocupados que eu vi quando abri os meus prprios. Um leve adejar de plpebras disse-me 
que a misso fora cumprida e, de fato, pude ver o filho do curtidor, um pano apertado contra a orelha, fugindo a toda velocidade na direo de sua casa, sem ser 
notado pela multido que voltara as atenes para esta nova sensao.
        Os habitantes da vila, to vidos do sangue do garoto, foram extremamente gentis comigo. Fui cuidadosamente erguida e levada para a casa dos Duncan, onde 
fui cumulada de conhaque, ch, cobertores quentes e simpatia. S permitiram que eu partisse quando Jamie afirmou categoricamente que tnhamos que ir, tirou-me do 
sof carregando-me no colo e dirigiu-se para a porta, sem dar ouvidos aos protestos dos meus anfitries.
        Montada outra vez  frente dele, meu prprio cavalo conduzido pela rdea, tentei agradec-lo pela ajuda.
        - No foi nada, dona - disse, rejeitando meus agradecimentos.
        - Mas foi um risco para voc - eu disse, insistindo. - No percebi que colocaria voc em perigo quando lhe pedi para me ajudar.
        - Ah - disse, enigmaticamente. Um instante depois, com um ar de divertimento, disse: - No esperava que eu fosse menos corajoso do que uma inglesinha, esperava?
        Fez os cavalos trotarem quando as sombras da noite recaram sobre a estrada. No falamos muito durante o resto da viagem de volta. Quando chegamos ao castelo, 
deixou-me no porto com no mais do que uma despedida ligeiramente irnica: "Boa noite, Sassenach." No entanto, senti que tivera incio uma amizade um pouco mais 
profunda do que a troca de conversa fiada e de intrigas sobre a vida alheia embaixo das macieiras.
        


10 - O JURAMENTO
        
        Houve um incrvel alvoroo nos dois dias seguintes, com idas e vindas e preparativos de toda espcie. Minha prtica mdica caiu drasticamente; as vtimas 
de intoxicao alimentar recuperaram-se e todos pareciam ocupados demais para ficar doentes. Fora um leve surto de farpas nos dedos entre os rapazes que pegavam 
lenha nos bosques para as fogueiras e um surgimento similar de queimaduras entre as atarefadas cozinheiras, tambm no houve acidentes.
        Eu mesma estava empolgada. Esta era a noite. A sra. Fitz dissera-me que todos os guerreiros do cl MacKenzie estariam no salo naquela noite, para fazer 
seus juramentos de lealdade a Colum. Com uma cerimnia dessa importncia acontecendo no interior do castelo, ningum estaria vigiando a estrebaria.
        Durante as horas que ajudava nas cozinhas e nos pomares, eu conseguira armazenar alimentos suficientes para me sustentar por vrios dias, pensei. Eu no 
possua nenhum recipiente de gua, mas inventara um substituto usando um dos frascos de vidro mais pesados do consultrio. Tinha botas resistentes e um manto grosso, 
cortesias de Colum. Teria um bom cavalo; em minha visita  tarde  estrebaria, eu decidi o que pretendia levar. No possua nenhum dinheiro, mas meus pacientes haviam 
me dado um punhado de pequenas bugigangas, fitas, pequenas esculturas ou jias. Se necessrio, poderia us-las para trocar por qualquer outra coisa que precisasse.
        Sentia-me mal por abusar da hospitalidade e da amizade dos habitantes do castelo partindo sem uma palavra ou bilhete de despedida, mas afinal o que eu poderia 
dizer? Considerei o problema por algum tempo, mas finalmente resolvi simplesmente ir embora. Para comear, eu no tinha papel para escrever e no estava disposta 
a correr o risco de visitar os aposentos de Colum para procurar.
        Uma hora depois do anoitecer, aproximei-me da estrebaria cautelosamente, os ouvidos atentos para qualquer sinal de presena humana, mas parecia que todos 
estavam no salo, preparando-se para a cerimnia. A porta emperrou, mas cedeu com um leve empurro, as dobradias de couro permitindo que ela virasse silenciosamente 
para dentro.
        O ar dentro da cavalaria era quente e animado pelos leves movimentos dos cavalos em repouso. Tambm era escuro como o interior do chapu de um coveiro, 
como tio Lamb costumava dizer. As poucas janelas que havia para ventilao eram fendas estreitas, pequenas demais para admitir a fraca claridade das estrelas l 
fora. Com as mos estendidas, caminhei lentamente para a parte principal da estrebaria, arrastando os ps na palha.
        Tateava cuidadosamente  minha frente, procurando a borda de uma baia para me guiar. Minhas mos encontravam apenas o vazio, mas minhas pernas esbarraram 
em uma slida obstruo no solo e eu ca de cabea para a frente com um grito de espanto que repercutiu nas vigas do telhado da antiga construo de pedras.
        A obstruo rolou no cho com uma imprecao de surpresa e agarrou-me com fora pelos braos. Vi-me presa contra um grande corpo masculino, sua respirao 
roando em minha orelha.
        - Quem  voc? - perguntei, arfando e com um solavanco para trs. - E o que est fazendo aqui? - Ouvindo minha voz, o atacante despercebido relaxou os braos, 
soltando-me.
        - Devo fazer a mesma pergunta a voc, Sassenach - disse a voz grave e terna de Jamie MacTavish e relaxei um pouco, aliviada. Houve um movimento na palha 
e ele sentou-se.
        - Embora eu ache que posso adivinhar - acrescentou secamente. - At onde acha que conseguiria ir, dona, numa noite escura, com um cavalo estranho, com metade 
do cl MacKenzie em seu encalo pela manh?
        Eu estava desgrenhada, confusa e irritada.
        - No iriam atrs de mim. Esto todos l no salo e se um entre cinco estiver sbrio o suficiente para ficar em p de manh, quanto mais cavalgar um cavalo, 
eu ficaria muito surpresa.
        Ele riu e, levantando-se, estendeu a mo para ajudar-me a ficar em p. Tirou a palha da parte de trs da minha saia batendo com um pouco mais de fora do 
que eu achava estritamente necessrio.
        - Ah, esse  um raciocnio certo de sua parte, Sassenach - disse, parecendo ligeiramente surpreso que eu fosse capaz de raciocinar. - Ou seria -acrescentou 
-, se Colum no tivesse guardas a postos ao redor de todo o castelo e espalhados pelos bosques. Ele nunca deixaria o castelo desprotegido com os guerreiros de todo 
o cl l dentro. Considerando-se que pedra no queima to bem quanto madeira...
        Imaginei que estivesse se referindo ao hediondo Massacre de Glencoe, quando um homem chamado John Campbell, por ordens do governo, matara trinta e oito membros 
do cl MacDonald e ateara fogo  casa onde estavam. Calculei rapidamente. Isso teria ocorrido h apenas cinqenta e Poucos anos; bastante recente para justificar 
quaisquer precaues defensivas da parte de Colum.
        -- De qualquer forma, dificilmente poderia ter escolhido uma noite pior para fugir - MacTavish continuou. Parecia inteiramente despreocupado com o fato de 
que eu tinha realmente tentado escapar, mas apenas com as razes pelas quais no iria dar certo, o que me pareceu um pouco estranho. - Alm dos guardas, e do fato 
de que os melhores cavaleiros num raio de muitos quilmetros esto aqui, o caminho para o castelo deve estar cheio de gente que vem do campo para o tynchal e os 
jogos.
        - Tynchal?
        - Uma caada. Geralmente veados, talvez um javali desta vez. Um dos rapazes da cavalaria disse ao Velho Alec que h um grande na floresta a leste. - Colocou 
a mo grande e forte no meio das minhas costas e virou-me na direo do esmaecido retngulo da porta aberta.
        - Vamos - disse. - Vou lev-la de volta ao castelo. Afastei-me dele com um safano.
        - No precisa se preocupar, posso achar o caminho sozinha. Segurou meu cotovelo com firmeza.
        - Acredito que sim. Mas no vai querer encontrar nenhum dos guardas de Colum sozinha.
        - E por que no? - retruquei. - No estou fazendo nada de errado; no h nenhuma lei proibindo caminhar fora do castelo, h?
        - No. Duvido que quisessem lhe causar algum mal - disse, espreitando as sombras cuidadosamente. - Mas no  nada incomum que um homem leve um pouco de bebida 
para lhe fazer companhia quando est montando guarda. E a bebida pode ser uma grande companheira, mas no costuma ser boa conselheira, quando uma pequena e meiga 
jovem como voc surge diante de um homem na escurido.
        - Eu apareci diante de voc sozinha no escuro - lembrei a ele, com certa ousadia. - E no sou particularmente pequena, nem muito meiga, ao menos no momento.
        - Sim, bem, estava dormindo, no bbado - respondeu resumidamente. - E  parte a questo do seu temperamento, voc  bem menor do que a maioria dos guardas 
de Colum.
        Deixei aquele comentrio de lado como uma linha de argumentao improdutiva e tentei uma nova direo.
        - E por que voc estava dormindo na estrebaria? - perguntei. - No tem uma cama em algum lugar? - Havamos chegado aos limites externos das hortas e eu podia 
ver seu rosto na luz fraca. Ele estava atento, verificando cuidadosamente os arcos de pedra conforme avanvamos, mas diante da minha pergunta, lanou um olhar penetrante 
na minha direo.
        - Sim - disse. Continuou a caminhar com passos largos, ainda agarrando meu cotovelo, mas continuou depois de uns instantes: - Achei melhor ficar fora do 
caminho.
        - Porque no pretende jurar lealdade a Colum MacKenzie? - arrisquei. - E no quer aturar nenhum rebulio por causa disso?
        Olhou para mim, achando graa das minhas palavras.
        - Mais ou menos - admitiu.
        Um dos portes laterais fora deixado totalmente escancarado em sinal de boas-vindas e um lampio pendurado no alto de um parapeito de pedra a seu lado lanava 
uma claridade amarela sobre o caminho. J havamos quase atingido esse farol quando de repente minha boca foi tampada por algum vindo por trs e eu fui bruscamente 
arrancada do cho.
        Esperneei e mordi, mas meu captor usava uma luva grossa e, como Jamie dissera, era bem maior do que eu.
        O prprio Jamie parecia estar tendo um pouco de dificuldades, a julgar pelos rudos. Os grunhidos e imprecaes sufocadas cessaram bruscamente com um baque 
surdo e um sonoro palavro em galico.
        A luta no escuro cessou e ouviu-se uma risada desconhecida.
        - Por Deus,  o rapaz; o sobrinho de Colum. Est chegando tarde para o juramento, no, rapaz? E quem  esse com voc?
        -  uma garota - respondeu o homem que me segurava. - E bastante apetitosa, tambm, a julgar pelo peso. - A mo soltou minha boca e administrou um belisco 
em outra parte. Dei um guincho de indignao, levantei a mo por cima do ombro, agarrei seu nariz e dei um puxo. O sujeito me colocou no cho com uma pequena blasfmia, 
bem inadequada para a ocasio que estava sendo celebrada no castelo. Dei um passo para trs diante da baforada de vapores de usque, sentindo uma repentina satisfao 
pela presena de Jamie. Talvez, afinal de contas, tenha sido prudente ele me acompanhar.
        Ele no parecia estar pensando dessa forma, ao fazer uma tentativa v de libertar-se dos dois soldados que o seguravam. No havia nada de hostil em suas 
aes, mas havia uma considervel firmeza. Comearam a se mover decididamente em direo ao porto aberto, arrastando seu prisioneiro.
        - No, deixem ir me aprontar primeiro, rapazes - protestou. - No posso comparecer ao juramento vestido deste jeito.
        Sua tentativa de escapar foi frustrada pelo sbito aparecimento de Rupert, exuberante em sua opulncia, com uma camisa de babados e casaco bordado a ouro, 
que saltou do porto estreito como a rolha de cortia de uma garrafa.
        - No se preocupe com isso, rapaz - disse, inspecionando Jamie com um olhar brilhante. - Vamos vesti-lo adequadamente l dentro. - Atirou a cabea para um 
lado, indicando o porto, e Jamie desapareceu, sob coao. A mo musculosa do meu captor agarrou meu cotovelo e eu o segui, a contragosto.
        Rupert parecia estar muito bem-humorado, como os outros homens de dentro do castelo. Havia talvez uns sessenta ou setenta homens, em seus melhores trajes, 
ornamentados com adagas, espadas, pistolas e a bolsa de plo usada no cinto do kilt, andando de um lado para o outro no ptio mais prximo  entrada do grande salo. 
Rupert acenou indicando uma porta na parede e os homens empurraram Jamie para dentro de uma pequena sala iluminada. Aparentemente, era usada como depsito; uma miscelnea 
de artigos de toda ordem enchia as mesas e prateleiras que mobiliavam a sala.
        Rupert inspecionou Jamie com olhar crtico, percebendo as hastes de palha em seus cabelos e as manchas em sua camisa. Vi seu olhar relancear para as palhas 
nos meus prprios cabelos e um riso cnico atravessou seu rosto.
        - No  de admirar que esteja atrasado, rapaz - disse, cutucando Jamie nas costelas. - No o culpo nem um pouco.
        - Willie! - gritou para um dos homens que estavam do lado de fora. -Precisamos de algumas roupas aqui. Algo adequado para o sobrinho do chefe. V providenciar, 
rapaz, depressa!
        Jamie olhou  sua volta, os lbios semi-cerrados, para os homens que o rodeavam. Seis membros do cl, todos arrebatados diante da perspectiva do juramento 
e transbordando de um desenfreado orgulho MacKenzie. Evidentemente, os nimos haviam sido exacerbados por um amplo consumo da cerveja do barril que eu vira no ptio. 
Os olhos de Jamie recaram sobre mim, a expresso ainda enfurecida. Isso era culpa minha, pareciam dizer.
        Ele podia,  claro, anunciar que no pretendia prestar juramento de lealdade a Colum e voltar para sua cama quente na estrebaria. Isto , se quisesse levar 
uma surra ou ter a garganta cortada. Ergueu uma sobrancelha para mim, encolheu os ombros e submeteu-se com uma boa dose de boa vontade aos cuidados de Willie, que 
veio correndo com uma pilha de linho branco nos braos e uma escova de cabelos na mo. A pilha era encimada por um gorro de veludo azul, adornado com uma insgnia 
de metal com um ramo de azevinho. Peguei o gorro para examin-lo, enquanto Jamie lutava para entrar numa camisa limpa e escovava os cabelos com uma ferocidade reprimida.
        A insgnia era redonda e a gravao surpreendentemente refinada. Na borda, lia-se um lema: Luceo non Uro.
        - Eu brilho, no queimo - traduzi em voz alta.
        - Sim, senhora. O lema dos MacKenzie - disse Willie, balanando a cabea como um sinal de aprovao para mim. Tomou o gorro das minhas mos e enfiou-o nas 
de Jamie, antes de sair apressado em busca de mais roupas.
        - H... desculpe-me - eu disse em voz baixa, aproveitando a ausncia de Willie para me aproximar. - No quis...
        Jamie, que estivera olhando a insgnia no gorro com desaprovao, voltou-se para mim e a linha irada de sua boca relaxou.
        - Ah, no se preocupe por minha causa, Sassenach. Teria acontecido mais cedo ou mais tarde. - Retirou a insgnia do gorro e sorriu melancolicamente para 
mim, manuseando-o especulativamente na mo.
        - Sabe qual  meu prprio lema, dona? - perguntou. - Do meu cl, quero dizer?
        - No - respondi, surpresa. - Qual ?
        Lanou a insgnia uma vez no ar, pegou-a e colocou-a cuidadosamente dentro da bolsa em sua cintura. Olhou um tanto desolado em direo  arcada aberta, onde 
os membros do cl MacKenzie aglomeravam-se em filas desordenadas.
        - Je suis prest - respondeu, num francs  surpreendentemente bom. Olhou para trs e viu Rupert e outro MacKenzie grandalho que eu no conhecia, os rostos 
afogueados de animao e bebida, avanando com um propsito determinado. Rupert segurava um longo tecido estampado com o tart dos MacKenzie.
        Sem preliminares, o outro homem estendeu a mo para a fivela do kilt de Jamie.
        -  melhor ir embora, Sassenach - Jamie avisou laconicamente. - No  lugar para mulheres.
        - Estou vendo - respondi secamente e fui recompensada com um sorriso retorcido enquanto seus quadris eram enrolados no novo kilt e o velho era arrancado 
habilmente por baixo, preservando o recato. Rupert e o amigo seguraram-no firmemente pelos braos e empurraram-no em direo  arcada.
        Sa no mesmo instante e dirigi-me para as escadas que levavam  galeria dos menestris, evitando cuidadosamente o olhar de qualquer membro do cl ao passar. 
Uma vez dobrado o corredor, parei, encolhendo-me contra a parede para no ser notada. Esperei um instante, at o corredor ficar temporariamente deserto, em seguida 
passei furtivamente pela porta da galeria, fechando-a rapidamente atrs de mim, antes que outra pessoa qualquer dobrasse o corredor e visse onde eu estava indo. 
As escadas estavam fracamente iluminadas pela claridade que vinha de cima e no tive dificuldades em manter os ps firmemente nas lajes de pedra desgastadas. Subi 
em direo ao barulho e  luz, pensando naquela ltima e breve troca de palavras.
        Je suis prest. Estou pronto. Esperava que ele realmente estivesse.
        A galeria estava iluminada por tochas de pinheiro, chamas brilhantes que se erguiam diretamente para cima em seus suportes, delineadas em negro pela fuligem 
que suas antecessoras haviam deixado nas paredes. Diversos rostos se voltaram, piscando os olhos, para me olhar quando sa das cortinas ao fundo da galeria; parecia 
que todas as mulheres do castelo estavam ali em cima. Reconheci Laoghaire, Magdalen e algumas das outras mulheres que eu conhecera nas cozinhas e,  claro, a figura 
robusta da sra. Fitz-Gibbons, em posio de honra junto  balaustrada.
        Ao me ver, acenou amavelmente para mim e as mulheres apertaram-se para me deixar passar. Quando cheguei  frente, pude ver toda a extenso do salo abaixo.
        As paredes estavam decoradas com ramos de murta, teixo e azevinho e sua fragrncia erguia-se at a galeria, misturada  fumaa das tochas e ao pungente odor 
de homens. Havia dezenas deles, vindo, indo, parados em pequenos grupos espalhados pelo salo e todos trajando alguma verso do tart do cl, fosse apenas o xale 
ou um gorro de tart usado com uma camisa comum de trabalho e calas rotas, do tipo amarrado nos joelhos. Os padres de xadrez eram muito variados, mas as cores 
eram basicamente as mesmas - tons de verde-escuro e branco.
        A maioria dos homens usava traje completo, como Jamie agora, com kilt, xale do mesmo xadrez, gorro e - na maior parte dos casos - insgnias. Eu o vi de relance, 
parado junto  parede, ainda com um ar ameaador. Rupert desapareceu na multido, mas dois outros MacKenzie mais musculosos ladeavam Jamie, obviamente guardas.
        A confuso no salo gradualmente comeava a se organizar,  medida que os residentes do castelo empurravam e conduziam os recm-chegados para seus lugares 
no extremo inferior do aposento.
        Era uma noite especial; o jovem que tocava a gaita-de-foles no salo fora reforado por dois outros gaiteiros, um deles um homem cuja atitude e gaitas montadas 
em marfim indicavam ser um mestre. Esse homem fez um sinal com a cabea para os outros dois e logo o salo encheu-se do arrebatado bordo da msica de gaita-de-foles. 
Muito menores do que as majestosas gaitas nortistas usadas nos campos de batalha, essas verses menores faziam uma algazarra muito eficaz.
        Os cantores lanavam um vibrato acima dos acordes graves e prolongados das gaitas, fazendo o sangue dos ouvintes alvoroar-se nas veias. As mulheres agitaram-se 
 minha volta e lembrei-me de um verso de "Maggie Lauder":
        "Ah, eles me chamam de Rab, o Cantador, e todas as moas ficam loucas, Quando solto a minha voz."
        Se no loucas, as mulheres  minha volta demonstravam grande apreciao e ouviam-se muitos murmrios de admirao, enquanto se debruavam sobre o parapeito, 
apontando para um ou outro homem que andava pelo salo exibindo seus melhores trajes. Uma das jovens localizou Jamie e com uma exclamao abafada, fez sinal para 
que suas amigas fossem ver. Houve um murmrio e um burburinho considerveis com sua apario.
        Em parte, era admirao por sua bela aparncia, porm tratava-se mais de especulao sobre seu comparecimento ao juramento. Notei que Laoghaire, em particular, 
iluminou-se como uma vela ao observ-lo e lembrei-me do que Alec dissera "Sabe que o pai dela no vai permitir que ela se case fora do cl". E ele era sobrinho de 
Colum? Quanto a isso, o rapaz devia ser um bom partido. Fora o detalhe da condenao,  claro.
        A msica das gaitas elevou-se a um volume intenso e em seguida, bruscamente, parou. No silncio sepulcral do sto, Colum MacKenzie entrou pela arcada superior 
e caminhou com passos decididos para uma pequena plataforma que fora erguida na cabeceira do aposento. Se no fazia nenhum esforo para ocultar sua deficincia, 
tambm no a exibia. Estava magnfico num casaco azul-celeste profusamente bordado a ouro, abotoado com botes de prata e com punhos de seda cor-de-rosa, virados 
para cima at quase os cotovelos. Um kilt de tart de fina l descia at abaixo dos joelhos, cobrindo a maior parte de suas pernas e das meias axadrezadas que as 
cobriam. Seu gorro era azul, mas a insgnia de prata sustentava plumas, no azevinho. O salo inteiro prendeu a respirao quando ele assumiu o centro do palco. 
O que quer que fosse, Colum MacKenzie era um showman.
        Encarou diretamente o cl reunido, ergueu os braos e cumprimentou-os com um grito ressonante.
        - Tulach Ardi
        - Tulach Ardi - responderam os membros do cl com um rugido. A mulher ao meu lado estremeceu.
        Em seguida, Colum fez um breve discurso, em galico. Suas palavras eram recebidas com peridicos urros de aprovao. Ento, a cerimnia de juramento propriamente 
dita comeou.
        Dougal MacKenzie foi o primeiro a avanar at a plataforma de Colum. A pequena tribuna dava a Colum altura suficiente para que os irmos se olhassem frente 
a frente nos olhos. Dougal estava ricamente vestido, mas em veludo castanho, sem nenhum bordado a ouro, de modo a no desviar a ateno da magnificncia de Colum.
        Dougal sacou sua adaga com um gesto floreado e abaixou-se sobre um dos joelhos, segurando a adaga para cima, pela lmina. Sua voz soou menos estrondosa do 
que a de Colum, mas suficientemente alta para que cada Palavra reverberasse pelo salo.
        --Juro pela cruz de nosso Senhor Jesus Cristo e pela lmina sagrada que seguro, dar-lhe minha fidelidade e prometer-lhe minha lealdade ao nome do cl MacKenzie. 
Se alguma vez minha mo erguer-se contra o senhor em rebelio, rogo que essa lmina sagrada seja cravada em meu corao.
        Abaixou a adaga, beijou-a na juno do cabo e do metal e enfiou-a novamente na bainha. Ainda ajoelhado, estendeu as mos postas a Colum, que as tomou entre 
as suas e levou-as aos lbios, aceitando o juramento assim oferecido. Em seguida, ajudou Dougal a se levantar.
        Virando-se, Colum pegou uma taa de prata da mesa coberta com tart atrs dele. Ergueu a pesada taa de duas alas com as duas mos, bebeu da taa e ofereceu-a 
a Dougal. Este tomou um bom gole e devolveu a taa. Em seguida, com uma mesura final para o senhor do cl MacKenzie, afastou-se para o lado, para dar lugar ao prximo 
homem da fila.
        O mesmo processo foi encenado repetidamente, da promessa ao brinde cerimonial. Vendo o nmero de homens na fila, fiquei mais uma vez impressionada com a 
capacidade de Colum. Eu estava tentando calcular quantos litros de bebida ele teria que consumir at o final da noite, considerando-se um gole para cada juramento, 
quando vi Jamie aproximar-se da frente da fila.
        Dougal, terminado seu prprio juramento, assumira uma posio atrs de Colum. Viu Jamie antes de Colum, que estava ocupado com outro homem, e eu vi sua repentina 
expresso de surpresa. Deu um passo para junto de seu irmo e sussurrou-lhe alguma coisa. Colum manteve o olhar fixo no homem  sua frente, mas vi que se empertigou 
ligeiramente. Tambm ficou surpreso e, achei, no muito satisfeito.
        O nvel de comoo no recinto, alto desde o incio, elevara-se com o decorrer da cerimnia. Se Jamie se recusasse a fazer o juramento a essa altura, acho 
que poderia ser rapidamente estraalhado pelos j incitados homens do cl  sua volta. Limpei as palmas das mos disfaradamente na minha saia, sentindo-me culpada 
de t-lo colocado naquela difcil situao.
        Ele parecia sereno. Apesar do calor dominante no salo, ele no estava suando. Aguardou pacientemente na fila, sem dar nenhum sinal de ter conscincia de 
estar cercado de centenas de homens, armados at os dentes, que no demorariam em se ressentir de qualquer insulto feito ao MacKenzie e seu cl. Je suis prest, de 
fato. Ou talvez tivesse decidido afinal seguir o conselho de Alec?
        Minhas unhas perfuravam as palmas das minhas mos quando chegou a vez dele.
        Agachou-se cortesmente sobre um dos joelhos e fez uma profunda mesura diante de Colum. Entretanto, em vez de sacar sua adaga para o juramento, ps-se de 
p e fitou Colum de frente. Totalmente erguido, ficava ombro a ombro com a maioria dos homens no salo e ultrapassava Colum em sua plataforma por vrios centmetros. 
Virei os olhos para Laoghaire. Ela empalidecera quando ele se levantou. E vi que ela tambm cerrara os punhos com fora.
        Todos os olhares no salo concentravam-se nele, mas falou como se fosse apenas a Colum. Sua voz era grave como a de Colum e cada palavra claramente audvel.
        - Colum MacKenzie, venho  sua presena como um parente e um aliado. No lhe fao nenhum juramento, pois meu juramento est prometido ao nome que carrego. 
- Ouviu-se um murmrio baixo e ameaador da multido, mas ele ignorou-o e continuou. - Mas lhe dou voluntariamente tudo que possuo; minha ajuda e minha boa vontade, 
onde e quando precisar. Dou-lhe minha obedincia, como parente e como senhor dos MacKenzie, fiel  sua palavra, enquanto meus ps permanecerem nas terras do cl 
MacKenzie.
        Parou de falar e ficou imvel, imponente e ereto, os braos relaxados ao longo do corpo. A bola agora estava com Colum, pensei. Uma palavra dele, um sinal, 
e pela manh as mulheres estariam esfregando o sangue do rapaz das lajes de pedra do assoalho. Colum permaneceu imvel por um momento, depois sorriu e estendeu as 
mos. Aps um instante de hesitao, Jamie colocou suas prprias mos sobre as palmas de Colum.
        - Sentimo-nos honrados com sua oferta de amizade e boa vontade -Colum disse com clareza. - Aceitamos sua obedincia e consideramos de boa-f como um aliado 
do cl MacKenzie.
        Houve um arrefecimento da tenso no recinto e um suspiro de alvio quase audvel na galeria quando Colum bebeu da taa e ofereceu-a a Jamie. O jovem aceitou-a 
com um sorriso. Em vez do tradicional gole cerimonial, ele ergueu cuidadosamente a taa quase cheia, inclinou-a e bebeu. E continuou bebendo. Uma exclamao entrecortada, 
misto de respeito e divertimento, elevou-se entre os espectadores, quando os poderosos msculos da garganta continuaram a se mover. Certamente, logo ele teria que 
parar para respirar, pensei, mas no. Esvaziou a pesada taa at a ultima gota, abaixou-a com uma explosiva arfada para recuperar o flego e entregou-a de volta 
a Colum.
        - A honra  minha - disse, um pouco rouco -, de ser aliado de um cl com um gosto to refinado para usque.
        Ouviu-se um grande alarido diante dessas palavras e ele encaminhou-se Para a arcada, interrompido a todo instante para apertos de mos e tapas nas costas 
de congratulaes enquanto passava. Aparentemente, Colum no era o nico membro da famlia com uma queda para uma boa encenao teatral.
        o calor na galeria era sufocante e a fumaa que subia do salo j fazia minha cabea doer antes do trmino da cerimnia de juramento com algumas palavras 
comoventes de Colum, segundo presumi. Insensvel s seis taas de usque compartilhadas, a voz forte ainda ressoou pelas pedras do salo. Ao menos suas pernas no 
o fariam sofrer esta noite, pensei, apesar de permanecer em p por tanto tempo.
        Um brado estrondoso elevou-se do andar de baixo, uma exploso de sons agudos de gaitas-de-foles, e o cenrio solene dissolveu-se em uma onda crescente de 
turbulenta gritaria. Uma algazarra ainda maior saudou os barris de cerveja e de usque que eram trazidos em suportes, acompanhados por travessas fumegantes de pes, 
carnes e pratos de midos. A sra. Fitz, que deve ter organizado aquela parte dos procedimentos, inclinou-se precariamente sobre a balaustrada, mantendo um olho vigilante 
no comportamento dos serviais, a maioria rapazes jovens demais para prestarem um juramento formal.
        - E onde esto os faises? - murmurou entre dentes, inspecionando as travessas que chegavam. - Ou as enguias recheadas? Aquele Mungo Grant desgraado, vou 
arrancar o couro dele se tiver queimado as enguias! -Decidindo-se, virou e comeou a se espremer em direo ao fundo da galeria, obviamente disposta a no deixar 
a administrao de algo to crucial quanto o banquete nas mos inexperientes de Mungo Grant.
        Aproveitando a oportunidade, fui me esgueirando atrs dela, aproveitando a esteira de bom tamanho que ela deixava no meio da multido. Outras, claramente 
gratas por uma oportunidade para ir embora, juntaram-se a mim no xodo.
        A sra. Fitz, virando-se no p das escadas, viu o bando de mulheres acima e repreendeu-as furiosamente.
        - Vocs, meninas, vo para seus quartos imediatamente - ordenou. -Se no ficarem a em cima fora de vista,  melhor fugir para seus prprios alojamentos. 
Mas no se demorem pelos corredores, nem fiquem espreitando pelos cantos. No h um nico homem neste lugar que j no esteja bbado e estaro muito mais em uma 
hora. No  um lugar para moas esta noite.
        Abrindo a porta de par em par, espreitou cautelosamente o corredor. No havendo obstculos  vista, enxotou as mulheres pela porta afora, uma de cada vez, 
enviando-as apressadamente para seus quartos nos andares de cima.
        - Precisa de ajuda? - perguntei quando fiquei ao seu lado. - Quero dizer, na cozinha?
        Ela sacudiu a cabea, mas sorriu diante da oferta.
        - No, no h necessidade, menina. V andando voc tambm, no est mais segura do que as outras. - Com um amvel empurro nas minhas costas, abaixo da cintura, 
me fez atravessar zunindo a passagem mal-iluminada.
        Estava disposta a seguir seu conselho, aps o encontro com os guardas do lado de fora. Os homens no salo estavam fazendo baderna, danando e bebendo, sem 
nenhuma idia de conteno ou controle. No era lugar para uma mulher, concordei.
        Encontrar meu caminho de volta para o quarto era uma outra questo. Estava numa parte desconhecida do castelo e embora soubesse que o andar de cima possua 
uma passagem que o ligava ao corredor que levava aos meus aposentos, no conseguia encontrar nada que se assemelhasse a escadas.
        Dobrei um corredor e dei de frente com um grupo de homens do cl. No os conhecia, deviam ser procedentes de terras distantes e desabituados aos modos gentis 
e bem-educados de um castelo. Ou assim deduzi pelo fato de um dos homens, aparentemente  cata de latrinas, ter desistido de procurar e resolvido aliviar-se no prprio 
corredor quando me deparei com eles.
        Girei nos calcanhares no mesmo instante, pretendendo voltar pelo mesmo caminho por onde viera, com ou sem escadas. Mas vrias mos estenderam-se para me 
impedir e eu me vi imprensada contra a parede do corredor, cercada por homens barbudos das Highlands, com usque no hlito e estupro na mente.
        No vendo razo para preliminares, o homem  minha frente agarrou-me pela cintura e enfiou a outra mo no meu corpete. Inclinou-se para mais perto e esfregou 
o rosto barbudo na minha orelha.
        - E agora que tal um beijinho para os jovens corajosos do cl MacKenzie? Tulach Ardi!
        - Erin go bragh - eu disse rispidamente, empurrando-o com todas as minhas foras. Trpego com a bebida, cambaleou para trs, caindo sobre um de seus companheiros. 
Esquivei-me para o lado e fugi, livrando-me dos meus sapatos desajeitados enquanto corria.
        Outra figura assomou diante de mim e eu hesitei. Entretanto, parecia haver apenas um homem  minha frente e pelo menos dez s minhas costas, aproximando-se 
rapidamente apesar da carga de bebida. Corri para a frente, pretendendo esquivar-me dele. No entanto, ele colocou-se com firmeza na minha frente e eu estaquei, to 
repentinamente que tive que colocar as mos em seu peito para evitar uma coliso. Era Dougal MacKenzie.
        - Que diabos...? - comeou, depois viu os homens atrs de mim. Puxou-me para trs dele e gritou alguma coisa em galico para meus perseguidores. Eles protestaram 
na mesma lngua, mas aps uma breve troca de palavras como rosnados de lobos, desistiram e foram embora em busca de melhor diverso.
        -- Obrigada - eu disse, um pouco zonza. - Obrigada. Eu vou... j vou. deveria estar aqui embaixo. - Dougal olhou-me e segurou meu brao, puxando-me e fazendo-me 
encar-lo. Estava desalinhado e obvia-mente andara participando da baderna no salo.
        --  verdade, dona - disse. - No deveria estar aqui. J que est, bem, ter que pagar uma pena por isso - murmurou, os olhos brilhando na semi-escurido. 
E sem aviso prvio, puxou-me com fora contra seu corpo e beijou-me. Beijou-me com fora suficiente para machucar meus lbios e for-los a se abrirem. Sua lngua 
moveu-se contra a minha, o gosto de usque forte na boca. Suas mos agarraram-me com firmeza pelo traseiro e me pressionaram contra ele, fazendo-me sentir sua rgida 
ereo embaixo do kilt e atravs das minhas camadas de saias e anguas.
        Soltou-me to repentinamente quanto me agarrara. Balanou a cabea e fez um gesto com a mo indicando o corredor, respirando com certa dificuldade. Uma mecha 
de cabelos castanho-avermelhados cara sobre a testa e ele ajeitou-a para trs com uma das mos.
        - V indo, dona - disse. - Antes que pague um preo maior.
        Eu fui, descala.
        Tendo em vista os acontecimentos da noite anterior, esperava que a maioria dos habitantes do castelo dormisse at tarde na manh seguinte, talvez cambaleando 
at o salo para uma revigorante caneca de cerveja quando o sol estivesse alto - se  que em algum momento resolveriam sair de seus quartos,  claro. Mas os escoceses 
das Highlands do cl MacKenzie eram um bando mais valente do que eu imaginara, pois o castelo parecia uma colmia efervescente muito antes do raiar do dia, com vozes 
barulhentas indo e vindo pelos corredores, alm de um enorme clangor de armas e baques surdos de botas conforme os homens se preparavam para o tynchal.
        Estava frio e nevoento, mas Rupert, que encontrei no ptio quando me dirigia ao salo, assegurou-me de que aquelas eram as melhores condies do tempo para 
caar javali.
        - Essas feras tm a pele muito grossa, o frio no  empecilho para elas - explicou, afiando uma lana com entusiasmo em uma pedra de amolar movida a pedais 
- e elas se sentem seguras com a neblina cerrada ao redor delas. No conseguem ver os homens se aproximando.
        Abstive-me de salientar que os caadores tampouco seriam capazes de ver o javali do qual estavam se aproximando, at estarem perto demais.
        Quando o sol comeou a cortar a neblina com seus raios dourados e cor de sangue, o grupo de caadores reuniu-se no trio, reluzentes com as gotculas da 
umidade do ar e com os olhos brilhantes de expectativa. Fiquei contente de ver que no se esperava que as mulheres participassem, bastava que oferecessem bolo e 
doses de cerveja aos heris de partida. Vendo o grande nmero de homens que partia para a floresta a leste, armados at os dentes com lanas, machados, arcos, aljavas 
e adagas, senti um pouco de pena do javali.
        Essa atitude foi revista e modificada para respeito e temor uma hora mais tarde, quando fui convocada s pressas  margem da floresta para tratar dos ferimentos 
de um homem que, segundo conclu, se deparara inesperadamente com a fera no nevoeiro.
        - Nossa! - exclamei, ao examinar um ferimento aberto, dilacerado, que ia do joelho ao tornozelo. - Um animal fez isso? O que ele tem, dentes de ao inoxidvel?
        - Hein? - A vtima estava branca de choque e abalada demais para me responder, mas um dos companheiros que ajudara a tir-lo da floresta lanou-me um olhar 
curioso.
        - Deixe pra l - disse e puxei com um safano a atadura de compresso com a qual eu envolvera a perna ferida. - Levem-no para o castelo e peam  sra. Fitz 
para providenciar um caldo quente e cobertores. Isso vai ter que ser costurado e no tenho recursos para fazer isso aqui.
        Os gritos rtmicos dos mesmos batedores ainda ecoavam na nvoa da encosta da colina. De repente, ouviu-se um grito lancinante que se ergueu acima da neblina 
e das rvores e um faiso assustado irrompeu de seu esconderijo nas proximidades batendo as asas assustadoramente.
        - Nosso Senhor Jesus Cristo, o que foi isso agora? - Agarrando um monte de ataduras, abandonei meu paciente aos cuidados de seus companheiros e entrei pela 
floresta numa corrida desenfreada.
        O nevoeiro estava ainda mais denso sob os galhos das rvores e eu no conseguia ver mais do que dois ou trs passos  frente, mas o barulho de vozes e movimentos 
agitados no meio dos arbustos guiou-me na direo certa.
        Passou roando por mim, vindo de trs. Atenta ao vozerio, no o ouvi e no o vi at ter passado, um corpo volumoso e escuro movendo-se a uma velocidade incrvel, 
os cascos fendidos, absurdamente pequenos, quase silenciosos nas folhas encharcadas.
        Fiquei to impressionada com a inesperada apario que no comeo no me ocorreu sentir medo. Fiquei simplesmente parada, fitando a nvoa onde o vulto negro 
enfurecido desaparecera. Em seguida, erguendo a mo para puxar para trs os cachos midos que caam sobre meu rosto, vi a mancha vermelha no dorso. Olhando para 
baixo, vi uma mancha igual em minha saia. A fera estava ferida. O grito teria vindo do javali, talvez?
        Achei que no; eu conhecia o som do ferimento mortal. E o porco selvagem movia-se bem, com todas as suas foras, quando passou por mim. despirei fundo e 
continuei pela cortina de nvoa,  procura de um homem ferido.
        Encontrei-o no sop de uma pequena elevao, cercado por homens de kilt. Haviam estendido seus xales sobre ele para mant-lo aquecido, mas o tecido que cobria 
suas pernas estava sombriamente empapado de sangue.
        Uma faixa larga de lama preta raspada na encosta mostrava por onde ele descera escorregando ao longo da descida e uma balbrdia de folhas enlameadas e terra 
revolvida marcava o lugar onde ele encontrara o javali. Ca de Joelhos ao lado do ferido, tirei a coberta e comecei a trabalhar.
        Mal havia comeado quando os gritos dos homens  nossa volta me fizeram virar e ver o vulto assustador surgir, mais uma vez silenciosamente, do meio das 
rvores.
        Desta vez, tive tempo de ver o punho da adaga projetando-se do flanco do animal, talvez obra do homem no cho diante de mim. E o vil marfim amarelo das presas, 
manchado de vermelho como os olhinhos enfurecidos.
        Os homens ao meu redor, to perplexos quanto eu, comearam a se mexer e pegar suas armas. Mais rpido do que os outros, um homem alto pegou uma lana das 
mos de um companheiro que estava petrificado e saiu para o meio da clareira.
        Era Dougal MacKenzie. Caminhou quase despreocupadamente, carregando a lana abaixada, segura com as duas mos, como se estivesse prestes a levantar uma p 
de terra. Estava concentrado na fera, falando com ela em voz baixa, murmurando em galico, como se quisesse atrair o animal para fora da proteo da rvore junto 
 qual estava parado.
        A primeira investida foi repentina como uma exploso. A fera passou disparada por ele, to perto que o tart marrom de caa ondulou com o deslocamento de 
ar provocado. Girou imediatamente e voltou, uma ndoa indistinta de fria muscular. Dougal saltou para o lado como um toureador, perfurando a fera com a lana. Meia-volta, 
para a frente e outra vez. Era mais uma dana do que uma luta, os dois adversrios baseados na fora, mas to geis que pareciam flutuar acima do solo.
        Tudo durou apenas pouco mais de um minuto, embora tivesse parecido muito mais tempo. Terminou quando Dougal, desviando-se das presas dilacerantes, ergueu 
a ponta da lana curta e forte e enfiou-a diretamente entre as espduas curvas do animal. Ouviu-se o golpe seco da espada e um guincho estridente que fez os plos 
dos meus braos se eriarem. Os olhos midos reviraram-se de um lado para o outro, girando freneticamente em busca de vingana, e os cascos delicados afundaram-se 
na lama, conforme o javali cambaleava e oscilava. Os guinchos continuaram, elevando-se a um volume indescritvel quando o corpo pesado caiu para um lado, fazendo 
com que a adaga protuberante fosse enfiada at o punho na carne peluda. Os pequenos cascos escavaram o cho, revirando grossos torres de terra mida.
        Os guinchos cessaram bruscamente. Fez-se silncio por um instante, seguido por um ronco semelhante ao de um porco, e o volumoso animal ficou imvel.
        Dougal no esperou para se certificar da morte, deu a volta no animal que se contorcia e voltou para junto do homem que fora ferido. Ajoelhou-se e passou 
o brao por trs dos ombros da vtima, assumindo o lugar do homem que estava sustentando-o. O sangue salpicara as proeminentes mas do rosto e gotculas de sangue 
seco grudaram seus cabelos de um lado.
        - Vamos, Geordie - disse, a voz rouca repentinamente suave. - Vamos. Eu o peguei, companheiro. Est tudo bem.
        - Dougal?  voc, amigo? - O ferido voltou a cabea na direo de Dougal, esforando-se para abrir os olhos.
        Fiquei surpresa, ouvindo enquanto rapidamente verificava o pulso e os sinais vitais do ferido. Dougal o brbaro, Dougal o cruel, falava em voz branda com 
a vtima, repetindo palavras de conforto, abraando-a com fora contra o corpo, alisando os cabelos em desalinho.
        Sentei nos calcanhares e estendi a mo novamente para a pilha de panos no cho ao meu lado. Havia um corte profundo, de pelo menos vinte centmetros ao longo 
da coxa, a partir da virilha, de onde o sangue flua sem parar. No entanto, no estava jorrando; a artria femoral no fora cortada, o que significava que havia 
uma boa chance de estanc-lo.
        O que no podia ser estancado era o vazamento da barriga de Geordie, onde as presas afiadas haviam dilacerado pele, msculos, mesentrio e intestinos. No 
havia grandes vasos cortados ali, mas o intestino fora perfurado; podia v-lo perfeitamente, atravs do rasgo na pele. Esse tipo de ferimento abdominal geralmente 
era fatal, mesmo com uma moderna sala de cirurgia, suturas e antibiticos  mo. O contedo das entranhas rompidas, vazando na cavidade abdominal, simplesmente contaminava 
toda a regio e fazia da infeco uma certeza mortal. E ali, com nada alm de dentes de alho e flores de mileflio para tratamento...
        Meu olhar encontrou-se com o de Dougal quando ele tambm olhou para o terrvel ferimento. Seus lbios moveram-se, balbuciando sem som por cima da cabea 
do ferido as palavras: "Ele conseguir viver?"
        Sacudi a cabea sem proferir nenhuma palavra. Ele parou por um instante, segurando Geordie, depois estendeu a mo e deliberadamente desamarrou o torniquete 
improvisado que eu colocara em torno da perna do ferido. Olhou para mim, desafiando-me a protestar, mas no fiz nenhum gesto a no ser um breve sinal com a cabea. 
Eu podia estancar o sangramento e permitir que Geordie fosse transportado em maca de volta ao castelo. Voltaria ao castelo para ficar prolongando uma crescente agonia, 
 medida que a barriga supurasse, at que a infeco se espalhasse o suficiente para mat-lo, degenerando-se talvez durante dias em longo sofrimento, uma morte mais 
digna, talvez, era o que Dougal estava lhe proporcionando. Morrer de forma limpa sob o cu, o sangue de seu corao manchando as mesmas folhas tingidas do sangue 
do animal que o matara. Arrastei-me pelas folhas midas at a cabea de Geordie e segurei parte de seu peso no meu prprio brao.
        - Logo estar melhor - eu disse e minha voz era firme, como sempre fora treinada para ser. - A dor vai passar logo.
        - Sim. Est melhor... agora. No consigo mais sentir a minha perna... nem minhas mos... Dougal... est a? Est a, companheiro? - As mos entorpecidas 
agitavam-se cegamente diante do seu rosto. Dougal segurou-as com firmeza entre suas prprias mos e aproximou-se, murmurando no seu ouvido.
        As costas de Geordie arquearam-se de repente e seus calcanhares afundaram-se no solo lamacento, o corpo em violento protesto contra o que sua mente j comeara 
a aceitar. Arquejava profundamente de vez em quando, como um homem que est sangrando at a morte, luta por ar, faminto do oxignio que seu corpo exige.
        A floresta estava em completo silncio. Nenhum pssaro cantava no nevoeiro e os homens que esperavam pacientemente acocorados nas sombras das rvores estavam 
to silenciosos quanto as prprias rvores. Dougal e eu nos debruamos sobre o corpo agitado, murmurando e confortando, compartilhando a difcil, dolorosa e necessria 
tarefa de assistir um homem em sua morte.
        A subida da colina em direo ao castelo transcorreu em silncio. Caminhei ao lado do morto, carregado numa maca improvisada com galhos de pinheiro. Atrs 
de ns, sustentado de maneira semelhante, vinha o corpo de seu inimigo. Dougal caminhava  frente, sozinho.
        Quando atravessamos o porto e entramos no ptio principal, avistei a figura pequena e atarracada do padre Bain, o sacerdote da vila, apressando-se tardiamente 
para ajudar um falecido membro da congregao.
        Dougal parou, estendendo a mo para me deter quando me virei em direo s escadas que levavam ao consultrio. Os carregadores com o corpo de Geordie coberto 
por xales de xadrez passaram por ns, em direo  capela, deixando-nos sozinhos no corredor deserto. Dougal segurou-me pelo pulso, olhando-me intensamente.
        - Voc j viu homens morrerem antes - disse sem rodeios. - De morte violenta. - No era uma pergunta, era quase uma acusao.
        - Muitos - eu disse, igualmente sem rodeios. E libertando-me de sua mo, deixei-o ali parado e fui cuidar dos meus pacientes vivos.
        A morte de Geordie, embora terrvel, colocou apenas um amortecedor temporrio nas comemoraes. Uma prdiga missa funerria foi rezada por ele naquela tarde 
na capela do castelo e os jogos comearam na manh seguinte.
        Eu vi poucos deles, estando ocupada em remendar os participantes. Tudo que eu podia dizer ao certo dos autnticos jogos das Highlands  que eram disputados 
com sofreguido. Tratei um perna-de-pau que havia conseguido se cortar tentando danar entre espadas, imobilizei a perna de uma vtima azarada que ficara no caminho 
de um martelo atirado de forma imprudente e ministrei leo de rcino e xarope de capuchinha a inmeras crianas que haviam abusado dos doces. No final do dia, eu 
estava  beira da exausto.
        Subi na mesa do consultrio a fim de esfriar a cabea pela minscula janela e respirar um pouco de ar puro. Os gritos, as risadas e a msica que vinham do 
campo onde os jogos estavam sendo realizados haviam emudecido. timo. Nenhum paciente novo, portanto, ao menos at o dia seguinte. O que Rupert dissera que fariam 
em seguida? Competio de arco e flecha? Hummm. Verifiquei o suprimento de ataduras e, exausta, fechei a porta do consultrio atrs de mim.
        Deixando o castelo, desci a colina em direo  estrebaria. Precisava de um pouco de uma boa companhia que no fosse humana, no falasse e no sangrasse. 
Tambm tinha em mente que eu devia procurar Jamie, qualquer que fosse seu sobrenome, e tentar me desculpar novamente por envolv-lo no juramento. Na verdade, ele 
se sara muito bem, mas certamente ele nem sequer teria ido l, preferindo ficar entregue a seus prprios afazeres. Quanto ao mexerico que Rupert agora devia estar 
espalhando sobre nossa suposta travessura amorosa, eu preferia no pensar.
        Quanto  gravidade da minha prpria situao, preferia no pensar nisso tambm, mas no poderia deixar de faz-lo, mais cedo ou mais tarde. Tendo fracassado 
to espetacularmente na minha tentativa de fuga no comeo do Grande Encontro, imaginava se as chances seriam melhores no final do evento.  verdade que a maior parte 
dos cavalos estariam indo embora, com seus donos. Mesmo assim, haveria um bom nmero de cavalos do castelo ainda disponvel. com sorte, o desaparecimento de um seria 
contabilizado como um roubo aleatrio; havia muitos vagabundos pela rea da feira e do campo de jogos com aparncia de salteadores. E na confuso da partida, poderia 
se passar algum tempo at algum descobrir que eu havia desaparecido.
        Fui caminhando devagar ao longo da cerca do estbulo, considerando rotas diferentes de fuga. A dificuldade  que eu tinha apenas uma vaga idia de onde estava, 
com referncia ao local para onde queria ir. E como agora eu era praticamente conhecida de todo MacKenzie entre Leoch e a fronteira, graas  minha prtica mdica 
durante os festejos, no poderia pedir informaes pelo caminho.
        Perguntei-me de repente se Jamie teria contado a Colum ou a Dougal sobre minha tentativa frustrada de fugir na noite do juramento. Nenhum dos dois mencionara 
o fato para mim, portanto era provvel que no tivesse dito nada.
        No havia nenhum cavalo no cercado. Abri a porta da estrebaria e meu corao deu um pequeno salto ao ver Dougal e Jamie sentados lado a lado num fardo de 
feno. Pareceram quase to surpresos com a minha chegada,
        quanto eu com a presena deles, mas levantaram-se educadamente e me convidaram a sentar.
        - Tudo bem - eu disse, recuando em direo  porta. - No pretendia interromper a conversa de vocs.
        - No, dona - Dougal disse. - O que eu acabava de dizer a Jamie diz respeito a voc tambm.
        Lancei um olhar de relance para Jamie, que respondeu com um movimento quase imperceptvel da cabea. Ento ele no havia contado a Dougal sobre a minha tentativa 
de fuga.
        Sentei-me, um pouco temerosa de Dougal. Lembrava-me da pequena cena no corredor na noite do juramento, embora desde ento ele no tivesse se referido a isso 
nem com palavras, nem com gestos.
        - Vou partir dentro de dois dias - disse bruscamente. - E vou levar vocs dois comigo.
        - Nos levar para onde? - perguntei, assustada. Meu corao comeou a bater com fora.
        - Pelas terras dos MacKenzie. Colum no viaja, portanto cabe a mim visitar os locatrios e rendeiros que no podem vir ao Grande Encontro. E para cuidar 
de pequenos negcios aqui e ali... - Fez um gesto amplo com a mo, descartando esses negcios como trivialidades.
        - Mas por que eu? Por que ns, quero dizer? - perguntei.
        Ele parou um instante considerando a pergunta antes de responder.
        - Bem, Jamie  um rapaz muito til com cavalos. E quanto a voc, dona, Colum achou por bem lev-la at Fort William. O comandante de l pode ser capaz de... 
ajud-la a encontrar sua famlia na Frana.
        Ou ajudar vocs, pensei, a descobrir quem eu sou realmente. E quanto mais estariam escondendo de mim? Dougal fitava-me, obviamente imaginando como eu receberia 
essa notcia.
        - Tudo bem - respondi serenamente. - Parece uma boa idia. Externamente tranqila, por dentro regozijando-me. Que sorte!
        Agora no iria precisar fugir do castelo. O prprio Dougal me levaria por boa parte do caminho. De Fort William, poderia encontrar meu caminho sem maiores 
dificuldades. Para Craig na Dun. Ao monumento megaltico. E, com sorte, de volta para casa.
        
        

PARTE III
NA ESTRADA



11 - CONVERSAS COM UM ADVOGADO
        
        Atravessamos os portes do Castelo Leoch dois dias depois, pouco antes do amanhecer. Em grupos de dois, trs e quatro, ao som das exclamaes de despedidas 
e dos gritos dos gansos selvagens no lago, os cavalos cruzaram cuidadosamente a ponte de pedras. Eu olhava para trs de vez em quando, at o vulto do castelo desaparecer 
atrs de uma cortina de nvoa reluzente. A idia de que talvez eu nunca mais visse a sombria construo de pedra ou seus habitantes me fez sentir uma estranha sensao 
de pesar.
        O barulho dos cascos dos cavalos parecia abafado no nevoeiro. As vozes transportavam-se estranhamente pelo ar mido, de modo que os chamados em uma das pontas 
da longa fila s vezes eram facilmente ouvidos na outra ponta, enquanto os sons de uma conversa prxima perdiam-se em murmrios interrompidos. Era como cavalgar 
pelo meio de uma neblina povoada de fantasmas. Vozes sem corpo flutuavam no ar, soando distantes, depois espantosamente perto.
        Meu lugar era no meio do grupo, flanqueada de um lado por um soldado cujo nome eu no sabia e, do outro, por Ned Gowan, o pequeno escriba que eu vira trabalhando 
no Conselho de Colum. Ele era mais do que um escriba, como descobri, quando comeamos a conversar na estrada.
        Ned Gowan era advogado. Nascido, criado e educado em Edimburgo, era o advogado tpico. Um homem franzino e idoso, de hbitos organizados e meticulosos, usava 
um casaco de casimira de boa qualidade, finas meias de l, uma camisa de linho com um discreto peitilho de renda e calas presas abaixo do joelho de um tecido que 
era um compromisso bem calculado com os rigores de viagens e o status de sua profisso. Um pequeno par de culos de aro de ouro, um elegante lao de cabelo e um 
chapu de duas pontas, de feltro azul, completavam a figura. Era a imagem to perita de um homem da lei que eu no conseguia olhar para ele sem sorrir.
        Cavalgava a meu lado em uma gua tranqila cuja sela estava carregada com duas enormes sacolas de couro gasto. Explicou-me que uma transportava as ferramentas 
do seu ofcio: tinteiro, penas de escrever e papel.
        -- E para que serve a outra? - perguntei, examinando-a. Enquanto a primeira sacola estava rechonchuda com seu contedo, a segunda parecia quase vazia.
        - Ah, so para os tributos do senhorio - respondeu o advogado, dando umas Palmadinhas na sacola flcida.
        - Ento, ele deve estar esperando muito dinheiro, no? - sugeri. O sr. Gowan encolheu os ombros afavelmente.
        - Nem tanto, minha querida. A maior parte ser paga com nqueis, centavos e outras moedinhas. E essas, infelizmente, ocupam mais espao que outras espcies 
mais valiosas. - Sorriu, uma rpida curva dos lbios finos e ressequidos. - Quanto a isso, uma pesada quantidade de cobre e prata ainda  mais fcil de ser transportada 
do que o grosso da renda do nosso senhorio.
        Voltou-se para lanar um olhar significativo por cima do ombro para as duas grandes carroas puxadas por mulas que acompanhavam o grupo.
        - Sacas de gros e feixes de nabos ao menos tm a vantagem de ausncia de motilidade. Quanto a aves, se devidamente engaioladas, no tenho nada contra. Nem 
contra cabras, embora demonstrem certa inconvenincia com seus hbitos onvoros; uma delas comeu um leno meu no ano passado, embora tenha que admitir que a culpa 
foi minha em deixar o tecido despontando imprudentemente de um dos bolsos do meu casaco. - Os lbios finos cerraram-se numa linha determinada. - Este ano, no entanto, 
dei ordens explcitas. No aceitaremos porcos vivos.
        A necessidade de proteger os alforjes do sr. Gowan e as duas carroas explicava a presena dos vinte e poucos homens que integravam o resto do grupo de coleta 
de aluguis, imaginei. Todos estavam armados e montados e havia alguns animais de carga, transportando o que presumi tratar-se de suprimentos para o sustento do 
grupo. A sra. Fitz, entre despedidas e advertncias, dissera-me que as acomodaes seriam primitivas ou inexistentes, com muitas noites passadas em acampamentos 
ao longo da estrada.
        Eu estava muito curiosa para saber o que levara um homem com as bvias qualificaes do sr. Gowan a aceitar um cargo nas remotas Highlands da Esccia, longe 
das convenincias da vida civilizada  qual devia estar acostumado.
        - Bem, quanto a isso - disse, em resposta s minhas perguntas -, quando eu era jovem, possua um pequeno escritrio de advocacia em Edimburgo. Com cortinas 
de renda na janela e uma placa de lato reluzente na porta, com meu nome gravado. Mas fiquei cansado de fazer testamentos e redigir escrituras, e de ver os mesmos 
rostos na rua, dia aps dia. Assim, fui embora - disse com simplicidade.
        Comprara um cavalo e alguns suprimentos e partira, sem fazer idia para onde iria ou o que faria quando l chegasse.
        - Veja bem, devo admitir - disse, tocando o nariz afetadamente com um leno bordado com seu monograma - um certo gosto por... aventura. Entretanto, nem minha 
compleio fsica, nem meus antecedentes familiares me habilitaram para a vida de um salteador de estradas ou de um homem do mar, que eram as ocupaes mais aventurescas 
que eu podia vislumbrar na poca. Como alternativa, resolvi que o melhor caminho para mim estava nas Highlands. Achei que talvez, com o tempo, pudesse convencer 
algum chefe de cl a..., bem, permitir que o servisse de algum modo.
        E no curso de suas viagens, ele havia, de fato, encontrado tal chefe.
        - Jacob MacKenzie - disse, com um sorriso afetuoso, nostlgico. -Velho patife desgraado. - O sr. Gowan balanou a cabea em direo  frente da comitiva, 
onde os cabelos brilhantes de Jamie MacTavish reluziam na neblina. - Seu neto parece-se muito com ele, sabe. Nos encontramos pela primeira vez na ponta de uma pistola, 
Jacob e eu, quando ele me roubava. Entreguei meu cavalo e minhas sacolas sem resistncia, no tendo mesmo outra escolha. Mas acredito que ele ficou um tanto surpreso 
quando insisti em acompanh-lo, a p se necessrio.
        -Jacob MacKenzie. Seria o pai de Colum e Dougal? - perguntei. O idoso advogado confirmou, balanando a cabea.
        - Sim. Claro, ele no era um proprietrio de terras na poca. Isso aconteceu alguns anos mais tarde... com uma pequena ajuda de minha parte - acrescentou 
modestamente. - As coisas eram menos... civilizadas naquela poca - disse nostalgicamente.
        - Ah, eram? - exclamei educadamente. - E Colum, h, herdou-o, por assim dizer?
        - Algo assim - disse o sr. Gowan. - Houve uma certa confuso quando Jacob morreu. Colum era o herdeiro de Leoch, sem dvida, mas ele... - O advogado parou, 
olhando para a frente e para trs, para se certificar de que ningum estivesse perto para ouvi-lo. O soldado havia se adiantado para emparelhar com alguns companheiros 
e uns quatro corpos de cavalos nos separavam do carroceiro que conduzia a carroa mais prxima.
        - Colum era um homem perfeito aos dezoito anos - continuou sua histria - e prometia ser um grande lder. Casou-se com Letitia como parte de uma aliana 
com os Cameron. Eu redigi o contrato de casamento - acrescentou, como uma nota de rodap. - Mas logo aps o casamento ele sofreu uma queda grave, durante um ataque 
de surpresa. Quebrou o osso longo da coxa e ele nunca se remendou direito.
        Assenti. No poderia mesmo,  claro.
        - E depois - continuou o sr. Gowan com um suspiro -, levantou-se da cama cedo demais e levou um tombo das escadas que quebrou a outra perna. Ficou na cama 
quase um ano, mas logo ficou claro que os danos eram irreversveis. Foi quando Jacob morreu, infelizmente.
        O homem franzino fez uma pausa para ordenar os pensamentos. Olhou novamente para a frente, como se procurasse algum. No encontrando, acomodou-se na sela 
outra vez.
        - Foi nessa poca que houve toda aquela confuso sobre o casamento de sua irm tambm - disse. - E Dougal... bem, receio que Dougal no se comportou muito 
bem nesse caso. Caso contrrio, Dougal teria sido nomeado chefe na ocasio, mas as pessoas viram que ele ainda no tinha juzo para isso. - Sacudiu a cabea. - Ah, 
houve um grande tumulto sobre tudo isso. Havia primos, tios e arrendatrios. Foi necessrio um Grande Encontro para resolver a questo.
        - Mas escolheram Colum, afinal? - Eu me admirava mais uma vez com a fora de personalidade de Colum MacKenzie. E, lanando um olhar ao homenzinho encarquilhado 
que cavalgava a meu lado, pensei ainda que Colum tambm tivera sorte ao escolher seus aliados.
        - Sim, mas somente porque os irmos permaneceram firmemente unidos. No havia dvida, veja bem, sobre a coragem de Colum, nem mesmo de sua capacidade mental, 
mas apenas de seu corpo. Era bvio que ele jamais poderia liderar seus homens em uma batalha outra vez. Mas havia Dougal, forte e saudvel, ainda que um pouco imprudente 
e exaltado. Ele colocou-se atrs do trono do irmo e prometeu seguir a palavra de Colum e ser suas pernas e seu brao armado no campo. Assim, foi feita uma sugesto 
de que Colum pudesse se tornar o chefe do cl, como faria normalmente, e Dougal fosse nomeado comandante de guerra, para liderar o cl em tempo de batalhas. No 
era uma situao sem precedentes -acrescentou, para ser mais preciso.
        A modstia com que disse "Foi feita uma sugesto..." deixou claro de quem fora a sugesto.
        - E voc  um homem de quem? - perguntei. - Colum ou Dougal?
        - Meus interesses devem estar com o cl MacKenzie como um todo -disse o sr. Gowan prudentemente. - Mas, formalmente, fiz meu juramento a Colum.
        Formalmente uma ova, pensei. Eu vira aquela cerimnia de juramento, embora no me lembre especificamente da figura pequena do advogado entre tantos homens. 
Nenhum homem poderia estar presente naquela cerimnia e permanecer impassvel, nem mesmo um advogado nato. E o homenzinho na gua baia, por mais ressequidos que 
fossem seus ossos, e afundado em leis at a medula, tinha por seu prprio testemunho a alma de um romntico.
        - Ele deve consider-lo uma grande ajuda - eu disse diplomaticamente.
        - Ah, fao alguma coisa de vez em quando - ele disse, com modstia.
        - Como fao pelos outros. Caso precise de meus prstimos, minha querida - disse, radiante de contentamento -, sinta-se  vontade de pedir o meu auxlio. 
Pode confiar em minha discrio, asseguro-lhe. - Fez uma mesura graciosamente antiquada de sua sela.
        - Na mesma extenso de sua lealdade a Colum MacKenzie? - perguntei, arqueando as sobrancelhas. Os pequenos olhos castanhos fitaram os meus diretamente e 
eu vi tanto a astcia quanto o humor que se escondiam em suas turvas profundezas.
        - Ah, sim - disse, sem se desculpar. - Vale tentar.
        - Acho que sim - retruquei, mais com vontade de rir do que com raiva. - Mas eu lhe asseguro, sr. Gowan, que no tenho nenhuma necessidade de sua discrio, 
ao menos no momento. -  contagiante, pensei, ao ouvir a mim mesma. Estou falando exatamente como ele.
        - Sou uma dama inglesa - acrescentei com firmeza - e nada mais. Colum est perdendo o tempo dele, e o seu, tentando extrair segredos de mim que no existem. 
- Ou que realmente existem, mas no podem ser revelados, pensei. A discrio do sr. Gowan podia ser ilimitada, mas no sua f.
        - Ele no o enviou conosco apenas para me coagir a revelaes prejudiciais, enviou? - perguntei, atingida repentinamente pelo pensamento.
        - Ah, no. - O sr. Gowan deu uma pequena risada diante da idia. -No, ora essa, minha querida. Eu desempenho uma funo essencial, lidando com os recibos 
e com a contabilidade para Dougal, e realizando algumas pequenas exigncias legais que os homens do cl nas reas mais remotas possam ter. E receio que mesmo na 
minha idade avanada, no superei completamente a necessidade de ir em busca de aventuras. As coisas so muito mais pacatas hoje do que costumavam ser - soltou um 
suspiro que devia ser de arrependimento -, mas sempre h a possibilidade de assalto nas estradas ou ataques perto das fronteiras.
        Bateu levemente no segundo alforje em sua sela.
        - Esta sacola no est inteiramente vazia, sabe. - Levantou a aba o suficiente para que eu pudesse ver as coronhas reluzentes de um par de pistolas de cabos 
ornamentados, habilmente instaladas em presilhas gmeas que as mantinham ao alcance fcil da mo.
        Examinou-me com um olhar que assimilava cada detalhe das minhas roupas e aparncia.
        - Voc mesma deveria andar armada, minha querida - disse em tom de ligeira reprovao. - Embora imagine que Dougal no acharia conveniente... ainda. Vou 
falar com ele sobre isso - prometeu.
        Passamos o resto do dia em agradvel conversa, vagando pelas reminiscncias dos bons tempos de outrora quando os homens eram homens e a erva daninha da civilizao 
era menos avassaladora nas trevas agradveis e incultas das Highlands.
        Ao cair da noite, armamos um acampamento numa clareira perto da estrada. Eu tinha um cobertor, enrolado e amarrado atrs da minha sela, e com isso preparei-me 
para passar minha primeira noite de liberdade do castelo. Entretanto, quando deixei a fogueira e me encaminhei para um lugar atrs de uma rvore, tinha conscincia 
dos olhares que me seguiam. Mesmo ao ar livre, ao que parecia, a liberdade tinha limites bem definidos.
        Chegamos  primeira parada por volta de meio-dia do segundo dia. No passava de um aglomerado de trs ou quatro cabanas erguidas fora da estrada, junto a 
um pequeno vale. Um banco foi trazido- de uma das pequenas casas para uso de Dougal e uma prancha - providencialmente trazida em uma das carroas - foi colocada 
sobre dois outros para servir como uma superfcie sobre a qual o sr. Gowan poderia escrever.
        Ele retirou um enorme quadrado de linho engomado do bolso da aba de seu casaco e estendeu-o cuidadosamente sobre um tronco, temporariamente retirado de sua 
funo normal de apoio para rachar lenha. Sentou-se sobre ele e comeou a arrumar o tinteiro, os livros de contabilidade e um bloco de recibos, to composto em seus 
gestos como se ainda estivesse atrs de suas cortinas de renda em Edimburgo.
        Um a um, os homens das pequenas fazendas das proximidades foram aparecendo, para conduzir seus negcios anuais com o representante do proprietrio. Era um 
trabalho calmo e conduzido com bem menos formalidade do que os trmites no salo do Castelo Leoch. Cada homem aproximava-se, recm-chegado do campo ou dos estbulos, 
e puxando um banco, sentava-se ao lado de Dougal em aparente igualdade, explicando, queixando-se ou apenas conversando.
        Alguns vinham acompanhados de um ou dois filhos vigorosos, carregando sacas de gros ou de l. Ao final de cada conversa, o infatigvel Ned Gowan lavrava 
um recibo pelo pagamento do aluguel anual, registrava a transao cuidadosamente no livro-razo e estalava os dedos para um dos ajudantes, que obedientemente carregava 
o pagamento para uma das carroas. Com menos freqncia, uma pequena pilha de moedas desaparecia nas profundezas de sua sacola de couro com um leve tinido de metal. 
Enquanto isso, os soldados descansavam sob as rvores ou desapareciam na floresta da encosta - para caar, suponho.
        Variaes dessa cena repetiram-se muitas vezes nos dias seguintes. De vez em quando, eu era convidada a uma cabana para tomar cidra ou leite e todas as mulheres 
amontoavam-se no nico cmodo pequeno para conversar comigo. Algumas vezes, um aglomerado de casinhas rsticas era grande o suficiente para comportar uma taberna 
ou mesmo uma estalagem, que se tornava o quartel-general de Dougal naquele dia.
        Uma vez ou outra, os aluguis incluam um cavalo, uma ovelha ou outro animal domstico vivo. Em geral, essas formas de pagamento eram trocadas com algum 
na vizinhana por algo mais fcil de transportar. No entanto, se Jamie julgasse que um cavalo era bastante bom para ser includo na estrebaria do castelo, este era 
acrescentado  nossa comitiva.
        Eu me perguntava sobre a presena de Jamie no grupo. Embora o rapaz obviamente conhecesse cavalos muito bem, a maioria dos homens do grupo tambm conhecia, 
inclusive o prprio Dougal. Considerando-se ainda que os cavalos constituam uma forma rara de pagamento e que geralmente no eram nada de especial em termos de 
raa, perguntava-me por que acharam necessrio trazer um especialista. Foi uma semana depois de nossa partida, numa vila com um nome impronuncivel, que eu descobri 
o verdadeiro motivo de Dougal querer a presena de Jamie.
        A vila, embora pequena, era grande o suficiente para ostentar uma taberna com duas ou trs mesas e vrios bancos bambos. Ali Dougal concedeu suas audincias 
e recolheu os aluguis. Aps um almoo um tanto indigesto de carne salgada e nabos, ele fez as honras, pagando cerveja para os arrendatrios que haviam se demorado 
por ali aps as transaes, alm de alguns aldees que vinham ao final da jornada diria de trabalho, para observar os estranhos e ouvir as novidades que tivessem 
para contar.
        Fiquei sentada quieta numa cadeira no canto, bebendo cerveja amarga e aproveitando a trgua do lombo do cavalo. Eu quase no estava prestando ateno  conversa 
de Dougal, que ia e vinha entre o ingls e o galico, abrangendo de mexericos, assuntos de lavoura e criao de animais ao que soava como piadas grosseiras e conversa 
fiada.
        Eu imaginava indolentemente quanto tempo levaria, naquele passo, para chegar a Fort William. Uma vez l, qual seria exatamente a melhor forma de me desgarrar 
dos escoceses do Castelo Leoch sem me tornar igualmente enredada na guarnio militar inglesa. Perdida em meus prprios pensamentos, no notara que Dougal falava 
sozinho h algum tempo, como se fizesse uma espcie de discurso. Seus ouvintes seguiam-no atentamente, com uma ou outra exclamao ou interjeio. Voltando aos poucos 
a tomar conscincia do ambiente  minha volta, percebi que ele habilmente inflamava os nimos de sua platia a respeito de alguma coisa.
        Olhei ao redor. O gordo Rupert e o pequeno advogado, Ned Gowan, estavam sentados atrs de Dougal, recostados  parede, as canecas de cerveja esquecidas no 
banco ao lado, ouvindo atentamente. Jamie, com a testa franzida e olhando para dentro de sua prpria caneca, inclinou-se para a frente com os cotovelos sobre a mesa. 
O que quer que Dougal estivesse dizendo, ele no parecia estar prestando ateno.
        Sem aviso prvio, Dougal levantou-se, agarrou o colarinho da camisa de Jamie e puxou. Velha e de m qualidade, a camisa rasgou-se facilmente nas costuras. 
Tomado inteiramente de surpresa, Jamie ficou paralisado. Seus olhos estreitaram-se e eu vi seu maxilar travar-se com fora, mas ele no se mexeu quando Dougal afastou 
as tiras de pano rasgadas para exibir suas costas para os espectadores.
        Houve um grito sufocado de espanto e horror diante das cicatrizes, seguido de um burburinho de agitada indignao. Abri a boca, mas ouvi a palavra "Sassenach", 
pronunciada num tom nada amistoso, e fechei-a novamente.
        
        
        
Diana
        
        Jamie, com o rosto petrificado, levantou-se e afastou-se do pequeno ajuntamento que se formou ao seu redor. Retirou cuidadosamente os remanescentes de sua 
camisa, enrolando-a numa trouxa. Uma mulher pequena e idosa, que chegava  altura de seu cotovelo, sacudia a cabea e batia de leve em suas costas, fazendo o que 
pareciam ser comentrios de conforto em galico. Se fossem, certamente no pareciam estar surtindo o efeito desejado.
        Ele respondeu sucintamente a algumas perguntas dos homens presentes. As duas ou trs jovens que haviam chegado para pegar a cerveja para o jantar de suas 
famlias amontoaram-se junto  parede oposta, cochichando entre si, com olhares freqentes e arregalados para o outro lado da sala.
        Com um olhar para Dougal que poderia por direito transform-lo em pedra, Jamie atirou o que restou de sua camisa em um canto da lareira e deixou o aposento 
com trs passadas largas, livrando-se dos murmrios de comiserao da multido.
        Privados do espetculo, todas as atenes voltaram-se outra vez para Dougal. Eu no entendi a maior parte dos comentrios, embora o pouco que tenha captado 
parecesse de natureza altamente anti-inglesa. Fiquei dividida entre a vontade de seguir Jamie l fora e permanecer discretamente onde estava. Mas eu duvidava que 
ele quisesse alguma companhia e, assim, encolhi-me no canto e mantive a cabea abaixada, estudando meu reflexo plido e indistinto na superfcie da caneca de cerveja.
        O tilintar de metal me fez erguer a cabea. Um dos homens, um sitiante robusto, de calas de couro, atirara algumas moedas em cima da mesa diante de Dougal 
e parecia estar fazendo seu prprio discurso. Deu um passo para trs, os polegares enfiados no cinto, como se desafiasse os outros a fazerem alguma coisa. Aps um 
momento de hesitao, um ou dois corajosos fizeram o mesmo, seguidos de mais alguns, tirando moedas de cobre da bolsa presa  cintura do kilt. Dougal agradeceu-lhes 
fervorosamente, fazendo um gesto para o estalajadeiro para que trouxesse nova rodada de cerveja. Notei que o advogado Ned Gowan guardava as novas contribuies cuidadosamente 
em uma bolsa separada daquela usada para os aluguis dos MacKenzie destinados aos cofres de Colum. Compreendi, ento, qual devia ser o propsito da pequena encenao 
de Dougal.
        As rebelies, como a maioria das proposies de negcios, requerem capital. A criao e a manuteno de um exrcito requerem ouro, assim como o sustento 
de seus lderes. Do pouco que eu me lembrava da histria do prncipe Carlos Eduardo, o Jovem Pretendente ao trono, parte de seu sustento viera da Frana, mas parte 
das finanas por trs de seu mal-sucedido levante viera dos bolsos rasos e esfarrapados das pessoas que ele se propunha a governar. Assim, Colum, ou Dougal, ou ambos, 
eram jacobitas; partidrios do Jovem Pretendente e contrrios ao ocupante legal do trono da Inglaterra, Jorge II.
        Por fim, os ltimos arrendatrios foram embora para suas casas e Dougal levantou-se e espreguiou-se, parecendo satisfeito, como um gato que tomou um prato 
de leite, seno de creme. Avaliou o peso da pequena bolsa e atirou-a para Ned Gowan para que fosse guardada.
        - Ah, muito bem - comentou. - No se pode esperar muito de um lugar pequeno como este. Mas se conseguirmos outras tantas como esta, teremos uma quantia respeitvel 
no final.
        - "Respeitvel" no  exatamente a palavra que eu usaria - eu disse, erguendo-me do meu canto de observao.
        Dougal virou-se, como se somente agora percebesse a minha presena.
        - No? - disse, a boca curva, achando graa. - Por que no? Tem alguma objeo a que sditos leais dem uma pequena contribuio para apoiar seu soberano?
        - Nenhuma - eu disse, olhando-o nos olhos. - Independente de quem seja o soberano. So os seus mtodos de coleta que eu no aprecio.
        Dougal examinou-me cuidadosamente, como se minhas feies pudessem lhe dizer alguma coisa.
        - Independente de quem seja o soberano? - repetiu em voz baixa. -Pensei que no soubesse galico.
        - E no sei - respondi laconicamente. - Mas tenho a inteligncia com que nasci e dois ouvidos em bom estado. O que quer que " sade do rei Jorge" seja em 
galico, duvido muito que soe como "Bragh Stuart".
        Atirou a cabea para trs e riu.
        - No soa mesmo - concordou. - Eu lhe diria em galico o que penso do seu soberano e governante, mas no  uma palavra adequada para os lbios de uma dama, 
Sassenach ou no.
        Inclinando-se, pegou a camisa enrolada e atirada nas cinzas da lareira e sacudiu a maior parte da fuligem.
        - J que no gosta de meus mtodos, talvez queira remedi-los - sugeriu, atirando a camisa rasgada em minhas mos. - Arranje uma agulha com a dona da casa 
e conserte-a.
        -- Conserte-a voc mesmo! - Enfiei-a de novo em seus braos e me virei para ir embora.
        -- Como quiser - Dougal disse afavelmente s minhas costas. - Ento, Jamie pode consertar sua prpria camisa, se no est disposta a ajudar.
        Parei, virei-me relutantemente e estendi a mo.
        -- Est bem - comecei, mas fui interrompida pela mo grande de Jamie, que passou por cima do meu ombro e arrancou a camisa da mo de dougal. Dividindo um 
olhar sem brilho entre ns dois, Jamie enfiou a camisa embaixo do brao e saiu da sala to silenciosamente quanto havia entrado.
        Encontramos abrigo para aquela noite na casa de um rendeiro. Ou devo dizer que eu encontrei. Os homens dormiram do lado de fora, espalhados em diversos montes 
de feno, camas em carroas e canteiros de samambaias. Em deferncia  minha condio feminina ou meu estado de semi-prisioneira, ofereceram-me uma cama dura no cho 
dentro da casa, perto da lareira.
        Embora meu catre parecesse imensamente prefervel  nica cama de estrado onde toda a famlia de seis pessoas dormia, invejava os homens l fora, em suas 
camas improvisadas ao ar livre. O fogo no estava apagado, apenas reduzido para a noite, e o ar na cabana era sufocante com o calor, os cheiros e os sons dos seus 
habitantes, remexendo-se, tossindo, resmungando, roncando, suando e expelindo ventosidades.
        Aps algum tempo, desisti de tentar dormir naquela atmosfera abafada. Levantei-me e sa silenciosamente, levando um cobertor comigo. O ar do lado de fora 
estava to fresco em contraste com o ar congestionado no interior da casa que me recostei contra a parede de pedra, inspirando profundamente aquela aragem fria e 
deliciosa.
        Havia um guarda, sentado e silenciosamente vigilante sob uma rvore junto ao caminho, mas apenas relanceou o olhar para mim. Aparentemente decidindo que 
eu no iria muito longe em minha roupa de baixo, voltou a descascar um pequeno objeto em suas mos. A lua brilhava e a lmina da minscula sgian dhu tremeluziu nas 
sombras da rvore.
        Dei a volta na cabana e subi um pequeno monte que havia atrs, com cuidado para no tropear em formas adormecidas na grama. Encontrei um lugar reservado 
e agradvel entre duas pedras grandes e fiz um ninho confortvel para mim mesma com um monte de capim e o cobertor. Estendida ao comprido no cho, fiquei observando 
a lua cheia em sua lenta jornada atravs do cu.
        Dessa mesma forma, eu observara a lua se levantar pela janela do Castelo Leoch, em minha primeira noite como hspede compulsria de Colum. Um ms, portanto, 
desde a minha calamitosa passagem pelo crculo de pedras. Pelo menos, eu agora sabia por que as pedras haviam sido colocadas ali.
        Provavelmente sem nenhuma importncia por si mesmas, eram, entretanto, sinalizadores. Assim como uma placa adverte contra deslizamento de pedras na beira 
de um penhasco, as pedras verticais destinavam-se a assinalar um local de perigo. Um local onde... a crosta do tempo era fina? Onde um portal de algum tipo estava 
aberto? No que os construtores dos crculos soubessem o que estavam marcando. Para eles, seria um local de terrvel mistrio e poderosa magia; um lugar onde as 
pessoas desapareciam sem deixar vestgios. Ou apareciam, talvez, do nada.
        Era uma idia. O que teria acontecido, imaginava, se algum estivesse presente na colina de Craigh na Dun quando fiz minha brusca apario? Suponho que devia 
depender da poca em que a pessoa entrava. Aqui, se um colono me encontrasse em tais circunstncias, sem dvida eu teria sido considerada uma bruxa ou uma fada. 
Mais provavelmente uma fada, surgindo naquela colina em particular, com a sua reputao.
        E deve ser exatamente da que veio a sua reputao, pensei. Se as pessoas atravs dos anos houvessem desaparecido repentinamente, ou igualmente surgido de 
repente em determinado local, esta seria uma boa razo para adquirir uma fama de mgico.
        Tirei um p de baixo da coberta e remexi os dedos ao luar. No era uma atitude muito prpria de uma fada, pensei de maneira crtica. Com um metro e setenta, 
eu era uma mulher bastante alta para esta poca; da altura de muitos homens. Como dificilmente poderia passar por um duende, seria, portanto, considerada uma bruxa 
ou um esprito maligno de algum tipo. Do pouco que eu sabia a respeito dos mtodos correntes para lidar com tais manifestaes, s podia agradecer pelo fato de ningum 
ter me visto aparecer.
        Imaginava languidamente o que aconteceria se tivesse acontecido o contrrio. E se algum desaparecesse desta poca e surgisse na minha? Isso, afinal, era 
exatamente o que eu estava pretendendo fazer, se houvesse alguma maneira de tornar isso possvel. Como um escocs moderno, como a sra. Buchanan, a agente dos correios, 
reagiria se algum como Murtagh, por exemplo, surgisse repentinamente da terra sob seus ps?
        A reao mais provvel, pensei, seria correr, para chamar a polcia, ou talvez no fazer nada, alm de contar aos amigos e vizinhos sobre o acontecimento 
mais extraordinrio que presenciara no outro dia...
        E quanto ao visitante? Bem, ele poderia conseguir encaixar-se nessa nova poca sem suscitar muita ateno, se fosse cauteloso e tivesse sorte. Afinal, eu 
estava conseguindo passar, com certo grau de sucesso, como residente normal desta poca e lugar, embora minha aparncia e linguagem certamente tivessem levantado 
muitas suspeitas.
        E se, entretanto, uma pessoa assim deslocada fosse muito diferente ou sasse proclamando aos berros o que lhe acontecera? Se tivesse sado em tempos primitivos, 
 provvel que um evidente estranho fosse simplesmente morto ali mesmo sem mais perguntas. E em tempos mais esclarecidos, provavelmente teria sido considerado louco 
e internado em alguma instituio, se no se calasse.
        Esse tipo de acontecimento podia estar se desenrolando desde o incio dos tempos, refleti. Mesmo quando acontecesse diante de testemunhas, no haveria nenhuma 
pista; nada para contar o que acontecera, porque a
        nica pessoa que sabia  quem havia desaparecido. E quanto ao desaparecido, Provavelmente ficariam de boca fechada no outro lado da conexo.
        Mergulhada em meus pensamentos, no notei o fraco murmrio de vozes ou o movimento de passos pela grama e fiquei absolutamente surpresa ao ouvir uma voz 
a apenas alguns metros de distncia.
        - Para o inferno, Dougal MacKenzie - disse. - Parente ou no, eu no lhe devia isso. - A voz era em tom baixo, mas carregada de raiva.
        - Ah, no? - disse a outra voz, achando graa. - Estou me lembrando de um certo juramento, prometendo sua obedincia. "Enquanto meus ps permanecerem nas 
terras do cl MacKenzie", acho que foi o que ouvi. -Ouviu-se uma batida surda, como a de um p sobre a terra dura. - E essa terra  dos MacKenzie, rapaz.
        - Dei minha palavra a Colum, no a voc. - Ento, era o jovem Jamie MacTavish e eu sabia exatamente o que o enfurecia.
        - Somos um s, rapaz, e voc sabe muito bem disso. - Ouviu-se o som de um leve tapa, como se Dougal batesse de leve no rosto de Jamie. - Sua obedincia  
para o chefe do cl e, fora de Leoch, eu sou a cabea, os braos e as mos, bem como as pernas de Colum.
        - E nunca vi um caso mais evidente da mo direita no saber o que a esquerda est fazendo - veio a resposta rpida. Apesar da contrariedade do tom, havia 
um laivo de sagacidade e astcia que se divertia com esse embate de egos. - O que acha que a direita vai dizer quando souber que a esquerda recolhe dinheiro para 
os Stuart?
        Fez-se uma breve pausa antes de Dougal responder.
        - Os MacKenzie, os MacBeolain e os MacVinich, todos so homens livres. Ningum pode for-los a contribuir contra a sua vontade e ningum pode impedi-los 
tampouco. E quem sabe? Pode ser que Colum contribua mais para o prncipe Carlos Eduardo do que todos eles juntos, no final das contas.
        - Pode ser - a voz mais grave concordou. - Tambm pode chover de baixo para cima amanh. Isso no significa que vou ficar no alto da escada esperando com 
meu baldinho virado para baixo.
        - No? Voc tem mais a ganhar de um trono Stuart do que eu, rapaz. E nada dos ingleses, a no ser a forca. Se no se importa com seu prprio pescoo...
        - Meu pescoo  problema meu -Jamie interrompeu bruscamente. -Assim como as minhas costas.
        - No enquanto estiver viajando comigo, meu rapaz - disse a voz sarcstica do tio. - Se quiser ouvir o que Horrocks tem a lhe dizer, far o que eu mandar. 
E ser o mais sensato. Voc pode ser muito bom com uma agulha, mas s tem uma camisa limpa.
        Ouviu-se um movimento arrastado, como se algum se levantasse de seu lugar em uma pedra, e seguisse pela grama. No entanto, apenas os passos de uma s pessoa, 
pensei. Sentei-me o mais silenciosamente possvel e espreitei cautelosamente pela borda de uma das rochas que me escondiam. Jamie continuava l, agachado sobre uma 
pedra h alguns passos de distncia, os cotovelos apoiados nos joelhos, o queixo enterrado nas mos. Estava quase de costas para mim. Comecei a retroceder cautelosamente, 
no querendo me intrometer em sua solido, quando ele falou repentinamente.
        - Sei que est a - disse. - Saia, se quiser. - Pelo seu tom de voz, era completamente indiferente para ele. Levantei-me e comecei a sair, quando percebi 
que estava em minhas roupas de baixo. Refletindo que ele j tinha muito com que se preocupar, alm de ficar constrangido por minha causa, enrolei-me discretamente 
no cobertor antes de emergir.
        Sentei-me ao lado dele e recostei-me numa pedra, observando-o um pouco timidamente. Fora um leve aceno com a cabea, ele ignorou-me, absorto em seus prprios 
e no muito agradveis pensamentos, a julgar pela carranca sombria em seu rosto. Um dos ps batia nervosamente na pedra onde estava sentado e torcia os dedos, fechando-os, 
estendendo-os em seguida, com uma fora que fazia vrias articulaes estalarem.
        Foram os estalidos dos ns dos dedos que me fizeram lembrar do capito Manson. O oficial responsvel pelos suprimentos no hospital de campanha onde eu trabalhava, 
capito Manson, enfrentava escassez de materiais, encomendas que no chegavam e as infindveis idiotices da burocracia do exrcito como seus prprios problemas pessoais. 
Normalmente um homem agradvel e tranqilo, quando as frustraes tornavam-se muito grandes, ele se retirava para seu escritrio particular e socava a parede atrs 
da porta com todas as foras que conseguia reunir. Os visitantes na sala de recepo observavam fascinados a frgil parede de fibras prensadas estremecer sob o impacto 
de seus golpes. Alguns instantes depois, o capito Manson emergia novamente, com os ns dos dedos feridos, mas outra vez sossegado, para lidar com a crise do momento. 
Quando foi transferido para outra unidade, a parede atrs da porta estava coberta com dezenas de marcas de socos.
        Vendo o jovem na pedra tentando desconjuntar os prprios dedos, fui levada a me lembrar de como o capito enfrentava os seus problemas.
        - Voc precisa bater em alguma coisa - eu disse.
        Hein? - Ergueu os olhos, surpreso, aparentemente esquecido da minha presena.
        -- Bata em alguma coisa - aconselhei. - Vai se sentir muito melhor depois.
        Sua boca moveu-se, como se estivesse prestes a dizer alguma coisa, mas ao invs disso levantou-se da pedra e caminhou resolutamente para uma cerejeira robusta 
e aplicou-lhe um forte soco. Aparentemente encontrando no impacto um certo paliativo para seus sentimentos, golpeou o tronco da rvore vrias vezes, fazendo-o sacudir 
e lanar uma chuva de ptalas cor-de-rosa sobre sua cabea.
        Sugando o n de um dedo ferido, voltou instantes depois.
        - Obrigado - disse, com um sorriso enviesado. - Talvez afinal eu consiga dormir esta noite.
        - Feriu a mo? - Levantei-me para examin-la, mas ele sacudiu a cabea, esfregando os ns dos dedos delicadamente com a palma da outra mo.
        - No, no foi nada.
        Permanecemos de p por um instante, num silncio constrangedor. Eu no queria fazer referncia  cena que ouvira nem aos acontecimentos anteriores da noite. 
Por fim, rompi o silncio dizendo:
        - No sabia que voc era canhoto.
        - Canhoto? Ah, sim, sempre fui. O professor costumava amarrar minha mo esquerda ao meu cinto atrs das costas, para me obrigar a escrever com a outra.
        - E voc consegue? Escrever com a direita, quero dizer.
        Ele balanou a cabea, levando a mo machucada novamente  boca.
        - Sim. Mas isso faz minha cabea doer.
        - Voc tambm luta com a mo esquerda? - perguntei, querendo distra-lo. - Com a espada, quero dizer. - Ele no carregava nenhuma arma no momento, exceto 
sua adaga e sua sgiandhu, mas durante o dia ele geralmente carregava tanto a espada quanto as pistolas, como a maioria dos homens no grupo.
        - No, uso bem a espada em qualquer uma das mos. Um espadachim canhoto fica em desvantagem, sabe, com uma espada pequena, porque voc luta com seu lado 
esquerdo virado para o adversrio e seu corao fica desse lado, certo?
        Com energia demais para se manter quieto, comeou a andar em passos largos de um lado para o outro na clareira gramada, fazendo gestos ilustrativos com uma 
espada imaginria.
        - Com uma espada grande, no faz diferena - disse. Estendeu os dois braos para a frente, as mos unidas e fez um movimento amplo e gracioso, em arco, pelo 
ar. - Em geral usa-se as duas mos - explicou.
        - Ou se estiver bem prximo do inimigo para usar apenas uma das mos, no faz muita diferena qual delas usar, porque voc vem de cima e atinge o sujeito 
no ombro. No na cabea, porque a lmina pode escorregar facilmente. Mas corte-o no ponto certo - ele golpeou a juno do pescoo com o ombro usando o lado da mo 
- e ele estar morto. E se no for um golpe certeiro, ainda assim o sujeito no poder mais lutar naquele dia, provavelmente nunca mais - acrescentou.
        Levou a mo esquerda  cintura e sacou sua adaga em um movimento como o de gua entornando de um copo.
        - Agora, para lutar com uma espada e uma adaga ao mesmo tempo, se no tiver nenhum escudo para proteger a mo que segura a adaga, voc deve favorecer seu 
lado direito, com a espada pequena nessa mo, e vir de baixo com a adaga, se estiver lutando de perto. Mas se a mo da adaga estiver bem protegida, pode vir de qualquer 
um dos lados e girar o corpo -ele agachava-se e rodopiava, ilustrando - para manter a lmina do inimigo  distncia, e usar a adaga somente se tiver perdido a espada 
ou no puder mais usar o brao que a empunhava.
        Agachou-se quase ao rs do cho e ergueu a lmina numa estocada rpida e mortfera, que parou a um centmetro do meu peito. Dei um passo para trs involuntariamente 
e ele endireitou-se imediatamente, guardando a adaga na bainha com um sorriso de desculpas.
        - Perdo. Estou me exibindo. No quis assust-la.
        - Voc  muito bom nisso - eu disse, sinceramente. - Quem o ensinou a lutar? Imagino que tenha precisado de outro lutador canhoto para ensin-lo.
        - Sim, era um lutador canhoto. O melhor que j vi. - Sorriu brevemente, sem humor. - Dougal MacKenzie.
        A essa altura, a maioria das flores de cerejeira j havia cado de seus cabelos; somente algumas ptalas cor-de-rosa agarravam-se a seus ombros e estendi 
a mo para tir-las. A costura de sua camisa havia sido habilmente refeita, reparei, ainda que toscamente. At um rasgo no tecido fora remendado.
        - Ele far isso outra vez? - perguntei, sem conseguir me conter.
        Ele fez uma pausa antes de responder, mas no fingiu no entender o que eu queria dizer.
        - Ah, sim - disse finalmente, balanando a cabea. - Ele faz o que bem entende, sabe.
        - E vai deix-lo agir? Vai deixar que use voc dessa forma?
        Ele olhou alm de mim, para baixo da colina, em direo  taberna, onde uma nica luz ainda brilhava pelas frestas dos troncos de madeira. Seu rosto estava 
impassvel e indecifrvel como uma parede.
        -- Por enquanto.
        Continuamos em nossas andanas, deslocando-nos no mais do que alguns quilmetros por dia, parando muitas vezes para que Dougal pudesse conduzir seus negcios 
em uma encruzilhada ou em uma cabana, onde diversos arrendatrios reuniam-se com suas sacas de gros e punhados de Moedas cuidadosamente economizadas. Tudo era registrado 
nos livros pela Pena gil de Ned Gowan e os recibos necessrios eram distribudos de sua sacola de papis e pergaminhos.
        Quando alcanvamos uma vila ou aldeia bastante grande para ostentar uma estalagem ou taberna, Dougal mais uma vez encenava seu ato, pagando bebidas, contando 
histrias, fazendo discursos e, finalmente, se julgasse as perspectivas bastante boas, forando Jamie a ficar de p e mostrar suas cicatrizes. E mais algumas moedas 
seriam acrescentadas  segunda sacola, a bolsa que deveria ir para a Frana e para a corte do pretendente.
        Tentei julgar essas cenas  medida que se desenrolavam e saa antes que atingissem o clmax, a crucificao pblica no tendo sido nunca do meu agrado. Embora 
a reao inicial diante da viso das costas de Jamie fosse de horrorizada compaixo, seguida de exploses de investidas contra o exrcito ingls e o rei Jorge, em 
geral havia um leve sabor de desprezo que at eu conseguia perceber. Em uma ocasio, ouvi um homem observar em voz baixa para um amigo em ingls: "Que viso horrvel, 
no? Cristo, eu preferia morrer do que deixar um Sassenach fazer isso comigo."
        Com raiva e infeliz, Jamie tornou-se a cada dia mais triste. Enfiava a camisa assim que possvel, evitando perguntas e comiserao, e com uma desculpa para 
deixar o grupo, evitava a todos at prosseguirmos viagem na manh seguinte.
        O ponto de colapso aconteceu alguns dias mais tarde, em um vilarejo chamado Tunnaig. Desta vez, Dougal ainda exortava a multido, uma das mos no ombro nu 
de Jamie, quando um dos espectadores, um rapaz grosseiro, de cabelos castanhos longos e ensebados, fez um comentrio pessoal para Jamie. No pude entender o que 
foi dito, mas o efeito foi instantneo. Jamie livrou-se da mo de Dougal com um safano e golpeou o rapaz no estmago, deixando-o estirado no cho.
        Eu estava aprendendo a assimilar algumas palavras em galico, embora ainda no pudesse absolutamente dizer que entendia a lngua. Entretanto, notara que 
em geral eu conseguia entender o que estava sendo dito pela atitude da pessoa que falava, quer entendesse as palavras ou no.
        "Levante-se e repita o que disse" parece o mesmo dito em qualquer ptio de escola, bar ou beco do mundo.
        Da mesma forma, "Tem razo, companheiro" e "Peguem-no, rapazes".
        Jamie desapareceu sob uma avalanche de roupas sujas de trabalho quando a mesa virou e caiu com um estrondo sob o peso do sujeito de cabelos castanhos e dois 
amigos dele. Espectadores inocentes comprimiram-se contra as paredes da taberna e prepararam-se para divertir-se com o espetculo. Aproximei-me de Ned e Murtagh, 
olhando a arquejante massa humana com inquietao. Um lampejo solitrio de cabelos ruivos aparecia ocasionalmente no emaranhado de braos e pernas.
        - No deveria ajud-lo? - murmurei para Murtagh, pelo canto da boca. Ele pareceu surpreso com a idia.
        - No, por qu?
        - Ele pedir ajuda, se precisar - disse Ned Gowan, observando tranqilamente ao meu lado.
        - Como queiram. - Aquiesci sem muita certeza.
        Tinha minhas dvidas de que Jamie conseguiria pedir ajuda se precisasse; no momento, estava sendo estrangulado por um robusto rapaz de verde. Minha opinio 
pessoal era de que Dougal logo ficaria sem sua principal pea de exibio, mas ele no parecia preocupado. Na realidade, nenhum dos espectadores parecia nem um pouco 
preocupado com as leses corporais que estavam acontecendo no cho a nossos ps. Algumas apostas foram feitas, mas a atmosfera geral era de tranqilo divertimento.
        Fiquei contente de perceber que Rupert barrou como que por acaso o caminho de dois homens que pareciam estar alimentando a idia de entrar na briga. Quando 
deram um passo em direo  refrega, ele interps-se no caminho, pretensamente distrado, a mo pousada na adaga. Os dois homens recuaram, decidindo no interferir 
nos acontecimentos.
        A sensao geral parecia ser a de que trs contra um era uma proporo razovel. Considerando-se que esse um era forte e grande, um consumado lutador e obviamente 
tomado por uma fria insana, isso poderia ser verdade.
        A competio pareceu se igualar com a sada repentina do sujeito de verde, escorrendo sangue em conseqncia de uma cotovelada em cheio no nariz.
        A contenda continuou por mais algum tempo, mas a concluso tornou-se cada vez mais bvia, quando um segundo participante caiu e rolou para baixo da mesa, 
gemendo e segurando a virilha com as duas mos. Jamie e seu adversrio inicial ainda trocavam socos no meio da sala, mas os espectadores que haviam apostado em Jamie 
j recolhiam seus prmios. Um golpe de antebrao na traquia, acompanhado de um violento soco nos rins, mostraram ao sujeito de cabelos castanhos que a discrio 
 a melhor parte da coragem.
        Acrescentei uma traduo mental de "Chega, eu desisto"  minha crescente lista de frases em galico/ingls.
        Jamie ergueu-se lentamente de cima do seu ltimo oponente aos brados e vivas da multido. Balanando a cabea em agradecimento, sem flego, cambaleou at 
um dos bancos que ainda estavam de p e deixou-se cair sentado, escorrendo sangue e suor, para aceitar uma caneca de cerveja do taberneiro. Tomando-a de um gole 
s, colocou a caneca vazia no banco e inclinou-se para a frente, arquejante, os cotovelos nos joelhos e as cicatrizes em suas costas desafiadoramente expostas.
        Pela primeira vez, ele no pareceu ter pressa para recolocar a camisa; Apesar do frio no local, permaneceu seminu, somente vestindo a camisa quando chegou 
a hora de buscarmos acomodaes para passar a noite. Saiu debaixo de um coro de cumprimentos respeitosos, parecendo mais relaxado do que nos ltimos dias, apesar 
da dor dos cortes, arranhes e contuses diversas.
        - Um queixo ralado, um superclio cortado, um lbio cortado, um nariz sangrando, seis ns dos dedos esmagados, um polegar torcido e dois dentes frouxos. 
Alm de mais contuses do que eu poderia contar. -Terminei meu inventrio com um suspiro. - Como se sente? - Estvamos sozinhos, o pequeno barraco atrs da estalagem 
onde eu o levara para administrar primeiros socorros.
        - Bem - disse, rindo. Fez meno de se levantar, mas parou bruscamente, com uma careta de dor. - Sim, bem. Talvez as costelas doam um pouco.
        - Claro que doem. Voc est cheio de hematomas. Outra vez. Por que faz isso consigo mesmo? Do qu, em nome de Deus, acha que  feito? De ferro? - perguntei 
com irritao.
        Riu melancolicamente e tocou o nariz inchado.
        - No. Quem me dera ser.
        Suspirei outra vez e apalpei-o cuidadosamente no torso.
        - No acho que estejam quebradas; so apenas contuses. Mas vou enfaix-las, por precauo. Fique em p direito, enrole a camisa para cima e estenda os braos 
para os lados. - Comecei a rasgar em tiras uma velha manta que eu conseguira com a mulher do estalajadeiro. Resmungando baixinho sobre gesso e outras amenidades 
da vida civilizada, improvisei uma atadura, apertando-a e prendendo-a com o broche de seu xale.
        - No consigo respirar - queixou-se.
        - Se respirar, vai doer. No se mova. Onde aprendeu a lutar assim? Com Dougal tambm?
        - No. - Contraiu-se com o vinagre que eu estava aplicando no corte do superclio. - Meu pai me ensinou.
        -  mesmo? Quem era seu pai, o campeo de boxe do lugar?
        - O que  boxe? No, ele era um fazendeiro. Tambm criava cavalos. - Jamie inspirou com fora e prendeu a respirao, quando continuei com a aplicao de 
vinagre em seu queixo ralado.
        - Quando eu tinha nove ou dez anos, ele disse que achava que eu ia ser grandalho como a famlia da minha me e que, portanto, teria que aprender a lutar. 
- Respirava com mais facilidade agora e estendeu uma das mos para deixar que eu passasse pomada de cravos-da-ndia nas articulaes dos dedos.
        - Ele disse: "Se voc  grande, metade dos homens que encontrar vai tem-lo e a outra metade vai querer desafi-lo. Derrube um deles e o resto o deixar 
em paz. Mas aprenda a fazer isso de maneira rpida e limpa ou vai ficar lutando toda a sua vida." Assim, ele me levava para o celeiro e me derrubava na palha, at 
eu aprender a me defender. Ai! Isso arde.
        - Arranhes de unhas so ferimentos detestveis - eu disse, esfregando seu pescoo.- Especialmente se o patife no lava as mos com regularidade.
        E duvido que aquele sujeito de cabelos sebosos tome banho uma vez por ano. "De maneira rpida e limpa" no  exatamente como eu descreveria o que voc fez 
esta noite, mas foi realmente impressionante. Seu pai teria orgulho de voc.
        Falei com certo sarcasmo e fiquei surpresa ao ver seu rosto tornar-se sombrio.
        - Meu pai est morto - disse sem rodeios.
        - Sinto muito. - Terminei a limpeza dos ferimentos e disse-lhe em voz baixa: - Mas falei sinceramente. Ele teria se orgulhado de voc.
        No respondeu, mas esboou um meio sorriso. De repente, parecia muito jovem e perguntei-me que idade deveria ter. Estava prestes a perguntar quando uma tosse 
spera atrs de mim anunciou a chegada de um visitante ao barraco.
        Era o homenzinho nervoso chamado Murtagh. Fitou as costelas atadas de Jamie com um ar divertido e lanou uma pequena e velha bolsa de couro no ar. Jamie 
estendeu a mo enorme e pegou-a com facilidade, fazendo o contedo da bolsa tilintar.
        - E o que  isso? - perguntou.
        Murtagh ergueu uma sobrancelha sem forma definida.
        - Sua parte das apostas, o que mais poderia ser?
        Jamie sacudiu a cabea e preparou-se para atirar a bolsa de volta.
        - No apostei nada.
        Murtagh ergueu uma das mos para impedi-lo.
        - Voc fez o trabalho.  um sujeito muito popular no momento, ao menos entre aqueles que o apoiaram.
        - Mas no com Dougal, imagino - intrometi-me.
        Murtagh era um desses homens que sempre parecia um pouco surpreso de descobrir que uma mulher tinha voz, mas assentiu educadamente.
        - Sim, isso  verdade. Ainda assim, no vejo como isso deva perturb-lo - disse a Jamie.
        - No? - Os dois homens trocaram um olhar, com uma mensagem que eu no compreendi. Jamie soltou o ar dos pulmes devagar entre os dentes, balanando a cabea 
devagar para si mesmo.
        - Quando? - perguntou.
        - Uma semana. Dez dias, talvez. Perto de um lugar chamado Lag Cruime. Conhece?
        Jamie balanou a cabea novamente, confirmando. Parecia mais consciente do que eu o via h algum tempo.
        - Conheo.
        Olhei de um rosto para o outro, ambos fechados, escondendo um segredo. Ento, Murtagh descobrira alguma coisa. Algo a ver com o misterioso "Horrocks", talvez? 
Encolhi os ombros. Qualquer que fosse o motivo, parecia que os dias de Jamie como pea de exibio haviam acabado.
        - Suponho que Dougal sempre possa fazer um nmero de sapateado - eu disse.
        - Hein? - Os olhares secretos transformaram-se em olhares de espanto.
        - Nada. Durma bem. - Peguei minha caixa de suprimentos mdicos e fui procurar meu prprio descanso.
        
        
        
        12 - O COMANDANTE DA GUARNIO
        
        Estvamos nos aproximando de Fort William e eu comecei a pensar seriamente no meu plano de ao, quando chegssemos l.
        Iria depender, pensei, do comandante da guarnio. Se acreditasse que eu era uma respeitvel senhora em apuros, poderia me fornecer uma escolta temporria 
em direo  costa e ao meu suposto embarque para a Frana.
        Mas ele poderia suspeitar de mim, surgindo na companhia dos Mac-Kenzie. Ainda assim, eu evidentemente no era escocesa; e se ele imaginasse que eu fosse 
algum tipo de espi? Obviamente, era isso que Colum e Dougal pensavam - que eu fosse uma espi inglesa.
        O que me fazia imaginar o que eu supostamente deveria estar espionando. Bem, atividades impatriticas, suponho; entre as quais, sem dvida, inclua-se coletar 
dinheiro para apoiar o prncipe Carlos Eduardo Stuart.
        Entretanto, nesse caso, por que Dougal permitira que eu presenciasse suas atividades? Poderia facilmente mandar que eu sasse antes dessa parte dos procedimentos. 
Claro, tudo se desenrolara em galico, argumentei comigo mesma.
        No entanto, talvez esse fosse o ponto. Lembro-me do estranho brilho em seus olhos e da frase "Pensei que no soubesse galico". Talvez fosse um teste, para 
ver se eu realmente ignorava a lngua. Porque um espio ingls dificilmente seria enviado s Highlands sendo incapaz de falar com metade da populao do lugar.
        No, a conversa entre Dougal e Jamie que eu ouvira parecia indicar que Dougal realmente era um jacobita, embora Colum aparentemente no fosse - ainda.
        Minha cabea estava comeando a zumbir com todas essas suposies e fiquei satisfeita ao constatar que nos aproximvamos de uma vila razoavelmente grande. 
Provavelmente, isso tambm significava uma boa hospedaria e um bom jantar.
        A hospedaria era realmente confortvel, pelos padres a que me acostumara. Se a cama era aparentemente projetada para anes - e, alis, mordidos de pulgas, 
- aO menos ficava num quarto isolado. Nas diversas estalagens menores, eu dormira num estrado numa sala comum a todos, cercada por homens roncando e as sombras dobradas 
de vultos envoltos em seus xales.
        Em geral, eu adormecia logo, quaisquer que fossem as condies, cansada de um dia na sela e uma noite de politicagem de Dougal. Na primeira noite em uma 
estalagem, no entanto, permanecera acordada por mais de meia hora, fascinada pela notvel variedade de rudos que os aparelhos respiratrios masculinos eram capazes 
de produzir. Um dormitrio inteiro cheio de estudantes de enfermagem no chegava nem perto.
        Ocorreu-me, ouvindo o coro, que os homens numa enfermaria de hospital raramente roncam. Sim, respiram pesadamente. Soltam arfadas, gemem ocasionalmente e 
s vezes soluam ou choram durante o sono. Mas no havia comparao com aquele saudvel pandemnio. Talvez homens feridos ou doentes no pudessem dormir profundamente 
o bastante para relaxarem naquela espcie de algazarra.
        Se minhas observaes estivessem corretas, podia concluir que meus companheiros gozavam da mais perfeita sade. Sem dvida, assim pareciam, braos e pernas 
descontraidamente espraiados, rostos relaxados e brilhando  luz do fogo. O completo abandono de seu sono em tbuas duras de madeira era a satisfao de um apetite 
to forte quanto aquele com que se sentavam  mesa de jantar. Obscuramente reconfortada pela cacofonia, puxei minha capa de viagem em volta dos ombros e tambm fui 
dormir.
        Em comparao, agora me sentia um pouco solitria no esplendor de meu sto minsculo e fedorento. Apesar de ter removido as roupas de cama e batido o colcho 
para desencorajar co-habitantes indesejveis, tinha certa dificuldade em dormir, to silencioso e escuro o quarto pareceu depois que apaguei a vela.
        Ouviam-se alguns ecos fracos da sala comum dois andares abaixo e um breve rudo de agitao e movimento, mas serviam apenas para realar meu prprio isolamento. 
Era a primeira vez que me deixavam to completamente sozinha desde a minha chegada ao castelo e no estava bem certa se gostava da situao.
        Pairava nervosamente  beira do sono quando meus ouvidos captaram um sinistro ranger das tbuas do assoalho no corredor do lado de fora de meu quarto. Os 
passos eram vagarosos e incertos, como se o intruso hesitasse em seu caminho, escolhendo a tbua de aparncia mais firme a cada novo passo. Sentei-me na cama com 
um pulo, tateando em busca da vela e da caixa de slex junto  cama.
        Minha mo, na busca s cegas, bateu na caixa de slex, derrubando-a no cho com uma pancada fraca. Fiquei paralisada e os passos do lado de fora tambm.
        Ouviu-se um leve arranhar na porta, como se algum procurasse o trinco. Eu sabia que a porta estava destrancada; embora tivesse suportes para o trinco, eu 
vasculhara o quarto inutilmente  cata do trinco antes de ir para a cama. Agarrei o castial, arranquei o toco de vela e deslizei da cama to silenciosamente quanto 
pude, brandindo a pesada pea de cermica.
        A porta rangeu levemente nas dobradias quando cedeu. A nica janela do quarto estava hermeticamente fechada tanto contra os elementos do tempo quanto contra 
a luz; mesmo assim, pude divisar, ainda que vagamente, o contorno turvo da porta ao abrir. O contorno cresceu, em seguida para minha surpresa, encolheu-se e desapareceu 
quando a porta foi novamente fechada. Tudo ficou silencioso outra vez.
        Fiquei comprimida contra a parede pelo que me pareceu uma eternidade, prendendo a respirao e tentando ouvir em meio ao barulho das batidas do meu corao. 
Por fim, avancei centmetro a centmetro em direo  porta, cuidadosamente dando a volta pelos cantos do quarto ao longo das paredes, considerando que as tbuas 
do assoalho deviam ser bem mais firmes ali. A cada passo, descia o p devagar, colocando meu peso sobre ele, depois parando e tateando com os dedos dos ps descalos 
em busca da juno entre as duas tbuas, antes de apoiar o outro p com a firmeza que eu julgasse possvel.
        Quando alcancei a porta, parei, o ouvido pressionado contra as tbuas finas, as mos agarradas ao batente, alerta contra uma sbita invaso. Achei que ouvia 
uns sons leves, mas no tinha certeza. Seriam apenas os sons da movimentao l embaixo ou seria a respirao presa de algum do outro lado das tbuas da porta?
        O fluxo constante de adrenalina estava me deixando tonta. Cansando-me finalmente daquela tolice, agarrei meu castial com firmeza, abri a porta com um safano 
e me precipitei no corredor.
        Digo "me precipitei"; na verdade, dei dois passos, pisei com fora em algo macio e ca de cabea no corredor, ralando os ns dos dedos e batendo a cabea 
dolorosamente em algo slido.
        Sentei-me, segurando minha testa com as duas mos, sem a menor preocupao de que pudesse ser assassinada a qualquer momento.
        A pessoa em quem eu pisara praguejava com a respirao entrecortada. Atravs da nvoa de dor, percebi vagamente que ele (presumi pelo tamanho e pelo cheiro 
de suor que meu visitante era um homem) se levantara e tateava para encontrar o fecho das persianas na parede acima de ns.
        Uma repentina lufada de ar fresco me fez encolher e fechar os olhos, quando os abri novamente, a luz do cu noturno era suficiente para eu ver o intruso.
        - O que voc est fazendo aqui? - perguntei de modo acusador.
        Ao mesmo tempo, Jamie perguntou, tambm num tom de acusao.
        - Quanto  que voc pesa, Sassenach?
        Ainda um pouco confusa, respondi sem pensar:
        - Cinqenta e sete quilos. - S ento pensei em perguntar: - Por qu?
        - Voc quase esmagou meu fgado - respondeu, apalpando cuidadosamente a rea afetada. - Sem mencionar que quase me matou de susto! -Estendeu a mo para baixo 
e me iou. - Voc est bem?
        - No, bati a cabea. - Esfregando o local, olhei intrigada o corredor inteiramente vazio, sem nenhum objeto ou pea de moblia. - Onde foi que bati com 
a cabea? - perguntei.
        - Na minha cabea - ele disse, com uma certa irritao, pensei.
        - Bem-feito - eu disse, cruelmente. - O que estava fazendo, se esgueirando dissimuladamente do lado de fora da minha porta?
        Lanou-me um olhar furioso.
        - Eu no estava "me esgueirando dissimuladamente", pelo amor de Deus. Eu estava dormindo, ou tentando. - Esfregou o que parecia ser um galo se formando em 
sua tmpora.
        - Dormindo? 
        - Olhei de um lado para o outro do imundo corredor com exagerada surpresa. - Voc sem dvida escolhe os locais mais estranhos; primeiro, a estrebaria, agora 
isto.
        - Talvez lhe interesse saber que h um pequeno grupo de drages ingleses na taberna a embaixo - informou-me com frieza. - Esto meio bbados e se divertindo 
um pouco desregradamente com duas mulheres da cidade. Como s h duas mulheres e cinco homens, alguns dos soldados pareciam um tanto inclinados a se aventurarem 
nos andares de cima em busca de... ah, parceiras. Achei que voc no iria gostar muito de tais atenes. - Atirou seu xale xadrez por cima do ombro e virou-se na 
direo das escadas. - Se me enganei nessa impresso, peo desculpas. No tinha inteno de perturbar seu descanso. Boa noite.
        - Espere um instante. - Ele parou, mas no se virou, forando-me a dar a volta em torno dele para olh-lo de frente. Retribuiu o olhar, educadamente, mas 
com frieza.
        - Obrigada - eu disse. - Foi muita gentileza sua. Desculpe-me por ter pisado em voc.
        Ele sorriu, o rosto mudando de uma mscara hostil para sua expresso habitual de bom humor.
        - No foi nada, Sassenach - disse. - Quando a dor de cabea passar e a costela quebrada sarar, ficarei novo em folha.
        Virou-se e empurrou a porta do meu quarto, que se fechara na esteira da minha sada apressada, devido ao fato de que o construtor aparentemente erguera a 
estalagem sem o benefcio de um fio de prumo. No havia um nico ngulo reto no local.
        - Volte para a cama, ento - ele sugeriu. - Estarei aqui.
        Olhei para o cho. Alm de essencialmente duro e frio, as tbuas de carvalho estavam manchadas de cusparadas, lquidos entornados e outras formas de imundcie 
que eu no queria nem imaginar. A marca do construtor na verga da porta dizia 1732 e obviamente essa fora a nica vez que as tbuas do assoalho haviam sido limpas.
        - No pode dormir aqui fora - eu disse. - Entre, ao menos o cho do quarto no est to ruim.
        Jamie ficou paralisado, a mo no batente da porta.
        - Dormir no quarto com voc? - Pareceu verdadeiramente chocado. - Eu no poderia fazer isso! Sua reputao ficaria arruinada!
        Ele falava a srio. Comecei a rir, mas diplomaticamente transformei a risada em um acesso de tosse. Dadas as exigncias da viagem, a superlotao das hospedarias 
e a crueza ou completa ausncia de instalaes sanitrias, eu estava to acostumada  intimidade fsica com esses homens, inclusive Jamie, que achei hilariante a 
idia de tanto pudor.
        - Voc j dormiu no mesmo aposento que eu outras vezes - ressaltei, quando me recobrei. - Voc e mais outros vinte homens.
        Ele gaguejou um pouco.
        - No  a mesma coisa! Quero dizer, eram locais totalmente pblicos e... - Parou, acometido por um terrvel pensamento. - Voc no pensou que eu quis dizer 
que voc estivesse sugerindo alguma coisa imprpria, pensou? - perguntou ansiosamente. - Acredite, eu...
        - No, no. Absolutamente. - Apressei-me a tranqiliz-lo, assegurando-lhe que no me ofendera.
        Vendo que no conseguiria persuadi-lo, insisti para que ao menos ele usasse os cobertores da minha cama para se deitar. Ele concordou com alguma relutncia 
e somente depois de eu afirmar vrias vezes que de qualquer modo eu no iria us-los, mas que pretendia dormir como sempre enrolada na minha grossa manta de viagem.
        Tentei agradecer-lhe novamente, quando parei junto  cama improvisada, antes de retornar ao meu ftido santurio, mas ele descartou meus agradecimentos com 
um gesto gracioso da mo.
        - No foi uma gentileza inteiramente desinteressada de minha parte, sabe - ele observou. - Eu mesmo no queria ser notado.
        Havia me esquecido que ele tinha suas prprias razes para se manter longe dos soldados ingleses. Tambm no me passou despercebido, no entanto, que isso 
poderia ter sido conseguido bem mais facilmente, sem falar mais confortavelmente, se ele dormisse na aquecida e arejada estrebaria, ao invs do cho diante da minha 
porta.
        -- Mas se algum realmente vier aqui em cima - protestei -, ir encontr-lo.
        Estendeu o brao longo para segurar a persiana giratria e fechou-a. O corredor mergulhou na escurido e Jamie no parecia mais do que um Vulto sem formas 
definidas.
        - No podem ver meu rosto - ressaltou. - E nas condies em que esto, meu nome tambm no despertaria nenhum interesse, ainda que lhes desse meu nome verdadeiro, 
o que no pretendo fazer.
        -  verdade - eu disse, sem muita convico. - Mas ser que no se perguntaro o que voc est fazendo aqui em cima no escuro? - Eu no podia ver nada da 
expresso do seu rosto, mas o tom de sua voz dizia-me que ele estava sorrindo.
        - De jeito nenhum, Sassenach. Vo achar apenas que estou esperando a minha vez.
        Com isso, ri e entrei. Enrolei-me na cama e fui dormir, admirada com a mente que podia fazer piadas to lascivas ao mesmo tempo em que se horrorizava com 
a idia de dormir no mesmo quarto que eu.
        Quando acordei, Jamie j fora embora. Descendo para o desjejum, encontrei Dougal ao p das escadas, aguardando-me.
        - Coma rapidamente, dona - disse. - Voc e eu vamos a Brockton. Absteve-se de me dar maiores informaes, mas parecia um pouco nervoso. Comi rapidamente 
e logo estvamos trotando pela nvoa do comeo da manh. Os pssaros agitavam-se nos arbustos e o ar anunciava um quente dia de vero.
        - Quem vamos ver? - perguntei. - Pode me dizer, porque se eu no conhecer, ficarei surpresa, e se conhecer, sou inteligente o bastante para fingir que estou 
surpresa, de qualquer modo.
        Dougal olhou-me de soslaio, considerando o que eu dissera, mas decidiu que meu argumento fazia sentido.
        - O comandante da guarnio de Fort William - disse.
        Senti um pequeno choque. No estava preparada para isso. Achava que ainda teramos trs dias at alcanarmos o forte.
        - Mas estamos muito longe de Fort William! - exclamei.
        - Mmmhum.
        Pelo visto, este comandante de guarnio era do tipo irrequieto. No satisfeito em permanecer em casa cuidando de sua guarnio, saa para inspecionar o 
campo com um grupo de drages. Os soldados que estiveram em nossa hospedaria na noite anterior faziam parte deste grupo e disseram a Dougal que o comandante no momento 
estava instalado na hospedaria em Brockton.
        Esse fato criava um novo problema e eu fiquei em silncio pelo resto do percurso, analisando-o. Eu contara em poder me afastar da companhia de Dougal em 
Fort William, que eu achava ficar a um dia de viagem da colina de Craigh na Dun. Mesmo no estando preparada para acampar e no tendo comida nem outros recursos, 
achava que poderia cobrir essa distncia sozinha e achar meu caminho at o crculo de pedras. Quanto ao que aconteceria depois - bem, s poderia saber indo at l.
        No entanto, este novo acontecimento colocou um obstculo inesperado nos meus planos. Se eu me separasse de Dougal aqui, como provavelmente aconteceria, estaria 
a quatro dias de viagem da colina, no um. Alm disso, eu no tinha bastante confiana em meu senso de direo, quanto mais minha resistncia fsica, para me arriscar 
sozinha a p entre os pntanos e penhascos desertos. As ltimas semanas de viagem em condies precrias me deram um cauteloso respeito pelos rochedos acidentados 
e riachos traioeiros das Highlands, sem falar de um ou outro animal selvagem. No tinha nenhuma vontade em particular de me deparar com um javali, por exemplo, 
cara a cara em alguma ravina deserta.
        Chegamos a Brockton no meio da manh. A neblina se dissipara e o dia estava ensolarado o suficiente para me incutir uma sensao de otimismo. Talvez fosse 
uma tarefa simples, afinal de contas, persuadir o comandante da guarnio a me fornecer uma pequena escolta que me levasse at a colina.
        Eu pude compreender por que o comandante escolhera Brockton para seu quartel-general temporrio. A vila era bastante grande para abrigar duas tabernas, uma 
delas um imponente edifcio de trs andares com uma estrebaria anexa. Paramos ali, entregando nossos cavalos aos cuidados do cavalario, que se movia to lentamente 
que parecia fossilizado. Ele mal conseguira chegar  porta da estrebaria quando j estvamos l dentro e Dougal pedira algo para se comer ao dono da taberna.
        Fui deixada no trreo, diante de um prato de bolachas de aveia velhas, enquanto Dougal subia as escadas at o quarto particular do comandante. Tive uma sensao 
estranha ao v-lo se afastar. Havia trs ou quatro soldados ingleses na taberna, que me olharam especulativamente, conversando entre si em voz baixa. Aps um ms 
entre os escoceses do cl MacKenzie, a presena dos drages ingleses deixava-me inexplicavelmente nervosa. Disse a mim mesma que estava sendo tola. Afinal, eram 
meus prprios compatriotas, em outra poca ou no.
        Ainda assim, sentia falta da companhia agradvel do sr. Gowan e a familiaridade reconfortante de Jamie no-sei-o-qu. Sentia que no tivera a oportunidade 
de me despedir de ningum antes de partir de manh, quando ouvi a voz de Dougal chamando da escada atrs de mim. Ele estava no topo da escada, acenando para que 
eu subisse.
        Parecia um pouco mais sombrio do que o normal, pensei, quando afastou-se para o lado sem dizer nenhuma palavra e fez sinal para que eu entrasse no aposento. 
O comandante da guarnio estava parado junto  Janela aberta, sua figura esbelta e ereta em silhueta contra a luz. Deu uma risada curta ao me ver.
        - Sim, foi o que eu pensei. Tinha que ser voc, pela descrio do MacKenzie. - A porta fechou-se atrs de mim e eu fiquei sozinha com o capito Jonathan 
Randall da Oitava Companhia dos Drages de Sua Majestade.
        Desta vez, trajava um uniforme vermelho e castanho-amarelado, limpo, com um peitilho enfeitado de renda e uma peruca perfeitamente cacheada e empoada. Mas 
o rosto era o mesmo - o rosto de Frank. Minha respirao ficou presa na garganta. Desta vez, entretanto, notei as pequenas rugas de crueldade em torno de sua boca 
e o toque de arrogncia na postura dos ombros. Ainda assim, sorriu afavelmente e convidou-me a sentar.
        O quarto estava escassamente mobiliado, apenas com uma mesa e uma cadeira, uma longa mesa de reunio e algumas banquetas. O capito Randall fez um sinal 
para um jovem cabo que montava guarda perto da porta e uma caneca de cerveja foi desajeitadamente servida e colocada  minha frente.
        O capito mandou o cabo de volta  sua posio com um gesto da mo e serviu-se ele prprio da cerveja. Em seguida, acomodou-se elegantemente em uma das banquetas 
do outro lado da mesa, diante de mim.
        - Muito bem - disse, gentilmente. - Por que no me conta quem voc  e como veio parar aqui?
        No tendo outra escolha no momento, repeti a mesma histria que contara a Colum, omitindo apenas as referncias menos diplomticas a seu prprio comportamento, 
que de qualquer modo ele conhecia. Eu no fazia a menor idia de quanto Dougal lhe contara e no queria me arriscar a cometer um erro grave.
        O capito pareceu amvel, mas ctico durante toda a narrao. Deu-se menos ao trabalho de ocultar seus sentimentos do que Colum, refleti. Inclinou-se para 
trs em sua banqueta, considerando.
        - Oxfordshire, voc diz? No h nenhum Beauchamp em Oxfordshire que eu conhea.
        - Como poderia saber? - retorqui. - Voc mesmo  de Sussex. Seus olhos se arregalaram de surpresa. Eu podia morder a lngua.
        - E posso lhe perguntar como  exatamente que voc sabe disso? - perguntou.
        - H, sua voz. Sim,  o seu sotaque - respondi apressadamente. - Claramente Sussex.
        As graciosas sobrancelhas escuras quase tocavam os cachos de sua peruca.
        - Nem meus tutores, nem meus pais ficariam muito satisfeitos em saber que minha maneira de falar reflete com tanta clareza meu local de nascimento, madame 
- disse secamente. - Eles se deram a muito trabalho e gastos considerveis para consertar isso. Mas, sendo a especialista em padres locais de linguagem que voc 
 - virou-se para o homem parado junto  parede - sem dvida tambm pode identificar o local de origem de meu cabo. Cabo Hawkins, poderia me fazer o favor de recitar 
alguma coisa? Qualquer coisa serve - acrescentou, vendo a confuso no rosto do sujeito. - Um verso popular, por exemplo.
        O cabo, um jovem de ombros largos, com uma expresso idiota no rosto carnudo, olhou desesperadamente  volta do aposento em busca de inspirao, depois se 
colocou em posio de sentido e entoou:
        A viosa Meg, ela lavava minhas roupas, E levou todas embora.
        Esperei assim com grande aflio,
        E depois eu a fiz pagar por isso.
        - Ah, j chega, cabo, obrigado. - Randall fez um gesto para que se retirasse e o cabo recolheu-se junto  parede, suando em bicas.
        - E ento? - Randall voltou-se para mim, aguardando uma resposta.
        - H, Cheshire - arrisquei.
        - Quase. Lancashire. - Estreitou os olhos, examinando-me. Unindo as mos atrs das costas, caminhou at a janela e olhou para fora. Verificando se Dougal 
trouxera homens com ele?, pensei.
        Repentinamente, ele girou nos calcanhares, novamente de frente para mim, com um repentino:
        - Parlez-vous franais?
        - Trs bien - respondi prontamente. - O que tem isso?
        A cabea inclinada para um lado, examinou-me atentamente.
        - Duvido que seja francesa - disse, como se falasse consigo mesmo. -Poderia ser, eu creio, mas ainda tenho que encontrar um francs que pudesse diferenciar 
um londrino de um habitante da Cornualha.
        As unhas cuidadosamente manicuradas tamborilaram na madeira do tampo da mesa.
        - Qual era mesmo seu nome de solteira, sra. Beauchamp?
        - Olhe, capito - eu disse, sorrindo o mais graciosamente possvel -, por mais divertido que seja brincar de adivinhao com o senhor, eu realmente gostaria 
de concluir esses preliminares e preparar a continuao da minha viagem. J fiquei bastante tempo retida e...
        -- Voc no ajuda em nada o seu caso adotando essa atitude frvola, madame - interrompeu, estreitando os olhos. Eu j vira Frank fazer isso, quando contrariado 
com alguma coisa e senti um enfraquecimento nos joelhos. Coloquei as mos nas coxas para controlar-me.
        - No tenho nenhum caso a ser ajudado - eu disse, reunindo toda a coragem que podia. - No estou reivindicando nada a voc,  guarnio, mesmo aos MacKenzie. 
Tudo que quero  que me permitam retomar minha viagem em paz. E no vejo nenhuma razo pela qual voc teria alguma objeo quanto a isso.
        Olhou-me fixamente, os lbios apertados de irritao.
        - Ah, no v? Bem, considere minha posio por um instante, madame, e talvez minhas objees se tornem mais claras. Um ms atrs, eu estava com meus homens 
numa perseguio violenta a um bando de bandidos escoceses no identificados que havia fugido com um pequeno rebanho de gado de uma propriedade perto da fronteira, 
quando...
        - Ah, ento era isso que estavam fazendo! - exclamei. - Fiquei me perguntando - acrescentei, frouxamente.
        O capito Randall respirou pesadamente, depois resolveu desistir do que quer que pretendia dizer, a fim de continuar sua histria.
        - No meio dessa perseguio por fora da lei - continuou, medindo as palavras -, encontrei uma inglesa semi-vestida, em um lugar onde nenhuma inglesa deveria 
estar, ainda que acompanhada de uma escolta adequada, que resiste s minhas perguntas, ataca a minha pessoa...
        - Voc me atacou primeiro! - eu disse, indignada.
        - Cujo cmplice me deixa inconsciente com um ataque covarde e que depois foge do local, obviamente com a ajuda de algum. Meus homens e eu fizemos uma busca 
rigorosa naquela rea e asseguro-lhe, madame, no havia sinal de seu criado assassinado, sua bagagem saqueada, suas roupas arrancadas, nem o menor sinal de que haja 
alguma verdade em sua histria!
        - Oh? - exclamei, debilmente.
        - Sim. Alm disso, no tinha havido nenhuma denncia de bandidos naquela regio nos ltimos quatro meses. E agora, madame, voc aparece na companhia do comandante 
de guerra do cl MacKenzie, que me diz que seu irmo Colum est convencido de que  uma espi, provavelmente trabalhando para mim.
        - Bem, no sou, sou? - eu disse, razoavelmente. - Ao menos, sabe disso.
        - Sim, eu sei disso - repetiu demonstrando exagerada pacincia. - O que eu no sei  quem diabos  voc! Mas pretendo descobrir, madame, no tenha dvidas 
quanto a isso. Sou o comandante desta guarnio. Como tal, tenho o poder de tomar certas medidas a fim de assegurar a segurana desta regio contra traidores, espies 
e qualquer outra pessoa cujo comportamento eu considere suspeito. E essas medidas, madame, estou plenamente preparado para tomar.
        - E exatamente quais seriam essas medidas? - perguntei. Queria realmente saber, embora suponho que o tom da minha pergunta deva ter soado um pouco provocante.
        Ele se levantou, olhou-me pensativamente por um instante, depois deu a volta na mesa, estendeu a mo e me colocou de p.
        - Cabo Hawkins - disse, ainda olhando-me fixamente -, vou requerer sua assistncia por um instante.
        O jovem junto  parede pareceu profundamente perturbado, mas aproximou-se de ns.
        - Fique atrs da senhora, por favor, cabo - Randall disse, parecendo entediado. - E segure-a com firmeza pelos dois braos.
        Ele afastou o brao para trs e desfechou um soco na boca do meu estmago.
        No emiti nenhum som, porque fiquei totalmente sem ar. Sentei-me no cho, dobrei o corpo, lutando para conseguir inspirar algum ar para os pulmes. Eu estava 
chocada muito alm da dor do golpe em si, que j se fazia sentir, juntamente com uma onda de vertigem e enjo. Numa vida bastante cheia de acontecimentos, ningum 
jamais me golpeara de propsito.
        O capito agachou-se diante de mim. Sua peruca estava ligeiramente inclinada, mas fora isso e um certo brilho em seus olhos, no demonstrava nenhuma alterao 
de sua controlada elegncia habitual.
        - Espero que no esteja grvida, madame - disse em tom casual -, porque se estiver, no ser por muito tempo.
        Eu estava comeando a emitir um estranho chiado, conforme os primeiros bocados de oxignio conseguiram passar dolorosamente pela minha garganta. Rolei sobre 
as mos e os joelhos e tateei fracamente em busca da borda da mesa. O cabo, aps um olhar nervoso para o capito, estendeu a mo para me ajudar a ficar em p.
        Ondas de escurido pareciam tomar conta do aposento. Deixei-me cair na banqueta e fechei os olhos.
        - Olhe para mim. - A voz era to suave e calma como se ele estivesse me oferecendo ch. Abri os olhos e olhei para ele atravs de uma ligeira nvoa. Tinha 
as mos apoiadas nos quadris elegantemente trajados.
        - Tem alguma coisa a me dizer agora, madame? - perguntou.
        - Sua peruca est torta - disse, e fechei os olhos outra vez.
        
        
        
        13 - UM CASAMENTO  ANUNCIADO
        
        Sentei-me a uma mesa na taberna l embaixo, fitando uma xcara de leite e tentando conter nsias de vmito.
        Dougal deu uma olhada em meu rosto quando eu desci, apoiada em um jovem cabo musculoso, e passou por mim em passos largos e determinados, subindo as escadas 
at o aposento de Randall. As portas e assoalhos da hospedaria eram fortes e bem construdos, mas ainda assim eu podia ouvir vozes altercadas no andar de cima.
        Levantei a xcara de leite, mas minhas mos ainda tremiam demais para que eu pudesse beb-lo.
        Gradualmente, comecei a me recuperar dos efeitos fsicos do soco no estmago, mas no do choque sofrido. Eu sabia que o sujeito no era meu marido, mas a 
semelhana era to forte e meus hbitos to enraizados, que eu me sentira inclinada a confiar nele e falei com ele como teria falado com Frank, esperando civilidade, 
se no franca solidariedade. O que estava me deixando doente agora era ver esses sentimentos bruscamente virados do avesso pelo seu ataque perverso.
        Doente e amedrontada tambm. Eu vira seus olhos quando se agachou ao meu lado no cho. Algo se movera em suas profundezas, apenas por um segundo. Desapareceu 
num relmpago, mas eu jamais queria ver aquele olhar outra vez.
        O barulho de uma porta se abrindo em cima me tirou dos meus devaneios. As pancadas surdas de passos pesados foram seguidas pela pronta apario de Dougal, 
seguido de perto pelo capito Randall. To perto, na verdade, que o capito parecia estar perseguindo o escocs e parou bruscamente quando Dougal, avistando-me, 
estancou de repente no p da escada.
        Com um olhar fulminante por cima do ombro ao capito Randall, Dougal caminhou rapidamente para onde eu estava, atirou uma moeda sobre a mesa como pagamento 
e me colocou de p com um safano, sem dizer uma s palavra. Estava me empurrando pela porta afora antes de eu ter tido tempo de registrar qualquer outra coisa alm 
da expresso extraordinria de especulativa cobia no rosto do oficial ingls.
        Estvamos montados e partindo antes que eu tivesse tempo de enfiar minhas saias volumosas em torno das minhas pernas e o tecido encapelava-se  minha volta 
como um pra-quedas assentando-se. Dougal permaneceu silencioso, mas os cavalos pareciam perceber seu senso de pressa; estvamos quase galopando quando chegamos 
 estrada principal. 
        Perto de uma encruzilhada marcada com uma cruz picta, Dougal repentinamente puxou as rdeas e parou. Desmontando, agarrou as bridas dos dois cavalos e amarrou-as 
frouxamente em uma pequena rvore. Ajudou-me a descer, desapareceu repentinamente no meio dos arbustos, acenando para que eu o seguisse.
        Segui o balano de seu kilt pela colina acima, desviando-me conforme os galhos que ele afastava do caminho e ricocheteavam pela trilha, zumbindo acima de 
minha cabea. A encosta da colina estava coberta de carvalhos e pequenos pinheiros. Eu podia ouvir abelharucos no bosque  esquerda e um bando de gaios gritando 
uns com os outros enquanto se alimentavam, mais adiante. O capim tinha o verde vioso do comeo do vero, moitas robustas desenvolvendo-se no meio das pedras e forrando 
o solo sob os carvalhos. Nada crescia embaixo dos pinheiros,  claro; as agulhas formavam uma camada de vrios centmetros, oferecendo proteo s minsculas criaturas 
rastejantes que se escondiam ali do sol e dos predadores.
        Os cheiros penetrantes faziam minha garganta arder. Eu j estivera nessas colinas antes e sentira esses mesmos aromas de primavera. Mas na ocasio a fragrncia 
do mato e dos pinheiros dilua-se com o cheiro dos vapores da gasolina da estrada l embaixo e as vozes dos turistas do dia substituam o canto dos gaios. Na ltima 
vez que percorri uma dessas trilhas, o cho estava coberto de embalagens de sanduches e tocos de cigarro, ao invs de violetas e flores de malva. Embalagens de 
sanduches pareciam um preo bem razovel a pagar, creio, por tais bnos da civilizao, como antibiticos e telefones, mas no momento estava disposta a me contentar 
com as violetas. Precisava extremamente de um pouco de paz e havia paz ali.
        Dougal virou bruscamente para o lado logo abaixo do topo da colina e desapareceu numa vegetao cerrada de giestas. Avanando atrs dele com certa dificuldade, 
encontrei-o sentado numa pedra plana ao lado de um pequeno lago. Um bloco de pedra gasto pelo tempo erguia-se inclinadamente atrs dele, com uma figura humana fraca 
e indistinta gravada na superfcie manchada. Deve ser o lago de um santo, pensei. Esses pequenos santurios dedicados a um ou outro santo pontilhavam as Highlands 
e geralmente eram encontrados em locais mais retirados, embora mesmo ali, remanescentes de tiras de pano rasgadas esvoaassem dos galhos de uma sorveira que pendia 
sobre a gua; promessas de visitantes que faziam splicas ao santo, por sade ou uma viagem segura, talvez.
        Dougal saudou meu aparecimento com um sinal da cabea. Fez o sinal-da-cruz, abaixou a cabea e, com as duas mos em concha, pegou gua do lago. A gua tinha 
uma estranha cor escura e um cheiro ainda pior. Provavelmente uma fonte de gua sulfurosa, pensei. Mas o dia estava quente e eu estava com sede, de modo que segui 
o exemplo de Dougal. A gua tinha um gosto um pouco amargo, mas era fria e no de todo desagradvel ao paladar. Bebi um pouco, depois joguei gua no rosto. A estrada 
estava empoeirada.
        Ergui os olhos, o rosto pingando, para deparar-me com ele observando-me com uma expresso muito estranha. Algo entre curiosidade e avaliao, pensei.
        - Uma subida um pouco grande para um gole d'gua, no? - comentei. Havia garrafas de gua nos cavalos. E eu duvidava que Dougal pretendesse fazer um pedido 
ao padroeiro da fonte pelo nosso retorno seguro de volta  estalagem. Considerava-o um crente em mtodos mais mundanos.
        - Voc conhece bem o capito? - perguntou repentinamente.
        - Menos do que voc - retorqui. - S o encontrei uma vez antes e por acaso. No nos demos bem.
        Surpreendentemente, o rosto severo abrandou-se um pouco.
        - Bem - admitiu -, eu mesmo no posso dizer que gosto do sujeito. -Tamborilou os dedos na borda de pedra da fonte, pensando. - No entanto,  muito bem considerado 
por algumas pessoas - disse, olhando-me. -Um soldado corajoso e um bom guerreiro, pelo que ouo dizer.
        Ergui as sobrancelhas.
        - No sendo um general ingls, no estou impressionada.
        Ele riu, exibindo dentes extremamente brancos. O barulho perturbou trs gralhas na rvore acima de ns, que saram batendo as asas, queixando-se com seus 
gritos roucos.
        - Voc  uma espi dos ingleses ou dos franceses? - perguntou, com mais uma desconcertante mudana de assunto. Ao menos, estava sendo direto, para variar.
        - Claro que no - disse irritada. - Sou apenas Claire Beauchamp e nada mais. - Molhei meu leno na gua e usei-o para limpar o pescoo. Pequenas gotas refrescantes 
escorreram pelas minhas costas, por baixo da sarja cinza do meu vestido de viagem. Pressionei o tecido molhado no meu peito e o espremi, produzindo um efeito similar.
        Dougal permaneceu em silncio por vrios minutos, observando-me intensamente enquanto eu conduzia minhas ablues aleatrias.
        - Voc viu as costas de Jamie - ele disse repentinamente.
        - Dificilmente poderia ter deixado de ver - disse com certa frieza. Eu desistira de tentar adivinhar o que ele queria com essas perguntas desconexas. Provavelmente, 
me diria quando estivesse pronto.
        - Est perguntando se eu sabia que Randall fez aquilo? Ou voc mesmo j sabia?
        - Sim, eu sabia muito bem disso - respondeu, avaliando-me calmamente -, mas no tinha certeza se voc sabia.
        Encolhi os ombros, deixando implcito que o que eu sabia ou deixava de saber no era problema dele.
        - Eu estava l, sabe - disse distraidamente.
        - Onde?
        - Em Fort William. Eu tinha algo a fazer l, com a guarnio. O funcionrio l sabia que Jamie era parente meu e mandou me avisar quando o prenderam. Ento, 
fui at l para ver o que podia ser feito por ele.
        - Pelo visto, no teve muito sucesso - disse, incisivamente. Dougal encolheu os ombros.
        - Infelizmente, no. Se fosse o sargento-mor que costumava estar no comando, talvez tivesse conseguido salvar Jamie, ao menos da segunda rodada, mas Randall 
era novo no comando. Ele no me conhecia e no estava disposto a ouvir o que eu tinha a dizer. Percebi, na poca, que ele queria fazer de Jamie um exemplo, para 
mostrar a todos desde o incio que no haveria misericrdia com ele. - Bateu de leve na espada curta que carregava na cintura. -  um princpio bastante legtimo, 
quando se est no comando de homens. Ganhe o respeito deles antes de mais nada. E, se no puder, ganhe seu temor.
        Lembrei-me da expresso no rosto do cabo de Randall e achei que sabia o caminho que o capito escolhera.
        Os olhos profundos de Dougal fitavam meu rosto com interesse.
        - Voc sabia que tinha sido Randall. Jamie lhe contou?
        - Um pouco - respondi cautelosamente.
        - Ele deve ter grande considerao por voc - disse pensativamente. - Em geral, ele no fala a respeito disso com ningum.
        - No consigo imaginar por qu - disse sarcasticamente. Eu ainda prendia a respirao toda vez que chegvamos a uma nova taberna ou hospedaria, at ficar 
claro que o grupo se instalara para uma noite de bebidas e conversa fiada junto  lareira. Dougal sorriu com cinismo, obviamente entendendo o que eu queria dizer.
        - Bem, no era necessrio me dizer, era? Uma vez que eu j sabia. -Passou a mo languidamente pela gua estranhamente escura, provocando vapores de enxofre.
        -- No sei como  em Oxfordshire - ele disse, com uma nfase sarcstica que me fez estremecer ligeiramente -, mas por aqui, as mulheres geralmente no so 
expostas a vises como a de um aoite. J viu um?
        -- No, e na verdade no quero - respondi incisivamente. - Mas posso imaginar o que seria preciso para causar marcas como as que Jamie tem nas costas.
        Dougal sacudiu a cabea, atirando um pouco da gua do lago numa gralha curiosa que se aventurou mais perto.
        -- Nisso voc est errada, dona, e perdoe-me por dizer isso. Imaginar  uma coisa, mas no  o mesmo que ver um homem ter suas costas retalhadas.  uma viso 
terrvel.  para alquebrar um homem e em geral consegue.
        - No com Jamie. - Falei com um pouco mais de veemncia do que pretendia. Jamie era meu paciente e, at certo ponto, meu amigo tambm. No tinha nenhuma 
inteno de discutir sua histria pessoal com Dougal, embora pudesse admitir, se pressionada, uma certa curiosidade mrbida. Nunca conhecera ningum mais franco 
e ao mesmo tempo mais misterioso do que o alto e jovem MacTavish.
        Dougal deu uma risada curta e passou a mo molhada pelos cabelos, grudando para trs as mechas que haviam se desprendido durante nossa fuga - pois isso  
o que me parecera - da taberna.
        - Bem, Jamie  teimoso como o resto da famlia. So como rochas, todos eles, e ele  o pior. - Mas havia um indisfarvel tom de respeito em sua voz, por 
mais que quisesse esconder.
        - Jamie contou-lhe que foi aoitado por tentativa de fuga?
        - Sim.
        - Sim, ele escalou o muro do forte logo depois do anoitecer, no mesmo dia em que os drages o trouxeram. Era uma ocorrncia bastante freqente ali, as acomodaes 
dos presos no sendo to seguras quanto desejvel. Assim, os ingleses mantinham patrulhas perto dos muros todas as noites. O funcionrio da guarnio disse-me que 
Jamie lutou com todas as foras, pela sua aparncia quando o trouxeram de volta, mas eram seis contra um e todos os seis com mosquetes, de modo que no levou muito 
tempo. Jamie passou a noite acorrentado e foi para o poste de aoite logo de manh. - Parou, procurando indcios de iminente desmaio ou enjo.
        - Os aoites eram executados logo de manh, depois da reunio da tropa, de modo a que todos j comeassem o dia adequadamente enquadrados no esprito do 
capito. Havia trs a serem aoitados naquele dia e Jamie era o ltimo.
        - Voc realmente viu a execuo?
        - Ah, sim. E vou lhe dizer, dona, ver homens serem aoitados no  uma viso agradvel. Tive a sorte de nunca experimentar esse sofrimento, mas imagino que 
seja terrvel. Ver acontecer a outra pessoa, enquanto espera a sua prpria vez, deve ser pior ainda.
        - No duvido - murmurei. Dougal balanou a cabea.
        - Jamie tinha uma expresso bastante sombria, mas no moveu um nico fio de cabelo, mesmo ouvindo os urros de dor e outros rudos. Sabia que se pode ouvir 
a carne sendo dilacerada?
        -Ugh!
        - Foi assim que me senti tambm, dona - disse, fazendo uma careta diante da lembrana. - Sem falar no sangue e nas escoriaes. Ech! - Cuspiu, evitando cuidadosamente 
o lago e sua borda. - Revirou meu estmago ver aquilo, e no sou de modo algum um homem fraco.
        Dougal continuou sua histria macabra.
        - Chegando a vez de Jamie, ele caminha at o poste - alguns homens tm que ser arrastados, mas ele no - e estende as duas mos para que o cabo possa abrir 
as algemas que est usando. O cabo faz meno de pux-lo pelo brao, como se tivesse que arrast-lo  posio, mas Jamie livra-se dele e d um passo para trs. Eu 
pensei que ele fosse arrancar em disparada mas em vez disso ele apenas tira a camisa. Est rasgada e imunda como um esfrego, mas ele a dobra cuidadosamente como 
se fosse sua melhor camisa de domingo e coloca-a no cho. Em seguida, caminha at o poste ereto como um soldado e levanta as mos para serem atadas.
        Dougal sacudiu a cabea, admirado. A luz do sol filtrando-se atravs das folhas de sorveira marcava-o com sombras rendadas, de modo que parecia um homem 
visto atravs de um pano decorativo de mesa. Sorri diante da idia e ele balanou a cabea em aprovao, achando que era minha reao  sua histria.
        - Sim, dona, coragem assim  extremamente rara. No era ignorncia, veja bem; ele acabara de ver dois homens serem aoitados e sabia que o mesmo tratamento 
o aguardava. Ele simplesmente decidiu que no havia jeito de escapar. A bravura no campo de batalha no  nada impossvel para um escocs, mas dominar o medo com 
sangue-frio  raro em qualquer homem. Ele tinha apenas dezenove anos na poca - Dougal acrescentou como uma reflexo tardia.
        - Deve ter sido terrvel ficar observando - eu disse ironicamente. -Admiro-me que no tenha ficado nauseado.
        Dougal percebeu a ironia e no reagiu.
        - Quase fiquei, dona - disse, erguendo as sobrancelhas escuras. - A primeira chicotada arrancou sangue e as costas do rapaz ficaram metade vermelha e metade 
azul em um minuto. Mas ele no gritou, no implorou misericrdia, nem se contorceu para tentar esquivar-se. Apenas pressionou a cabea com fora contra o poste e 
ficou imvel. Contraa-se a cada chicotada,  claro, mas nada alm disso. Duvido que eu fosse capaz disso -admitiu -, nem h muitos que sejam. Desmaiou no meio da 
execuo e eles o acordaram com gua de um jarro e foram at o fim.
        - Realmente abominvel - comentei. - Por que est me contando tudo isso?
        - Ainda no terminei de contar tudo. - Dougal tirou a adaga da cinta e comeou a limpar as unhas com a ponta. Era um homem meticuloso e exigente, apesar 
das dificuldades de se manter limpo na estrada.
        - Jamie estava pendurado pelas cordas, o sangue escorrendo e manchando seu kilt. No achava que ele tivesse desmaiado, estava apenas mal demais para ficar 
em p naquele momento. Mas nesse exato momento o capito Randall desceu ao ptio. No sei por que ele no estava l desde o incio; alguns negcios o fizeram se 
atrasar, talvez. De qualquer modo, Jamie o viu aproximar-se e teve a presena de esprito de fechar os olhos e deixar a cabea cair, como se estivesse inconsciente.
        Dougal franziu as sobrancelhas, concentrando-se implacavelmente em um recalcitrante pedao de pele na base da unha.
        - O capito ficou decepcionado por j terem aoitado Jamie; pelo visto, era um prazer que tinha reservado para si prprio. No entanto, no havia mais o que 
fazer por enquanto. Ento, comeou a fazer perguntas sobre como Jamie veio a escapar.
        Levantou a adaga, examinando-a para ver se havia dentes, em seguida comeou a amolar o gume na pedra em que estava sentado.
        - Deixou vrios soldados tremendo nas botas antes de terminar. O sujeito sabe aterrorizar com as palavras, tenho que admitir.
        - Isso  verdade - disse secamente.
        A adaga continuava a ser ritmadamente raspada na pedra. De vez em quando, uma fagulha fraca saltava do metal quando atingia alguma aspereza na rocha.
        - Bem, no curso dessa investigao, descobriu que Jamie tinha uma ponta de po e um pedao de queijo com ele quando foi pego, levara com ele quando escalou 
o muro. Com isso, o capito pensou um instante, depois exibiu um sorriso que eu teria detestado ver no rosto de minha av. Ento, declara que, sendo o roubo um crime 
grave, a penalidade devia ser proporcional, e sentencia Jamie na hora a mais cem chicotadas.
        Encolhi-me involuntariamente.
        - Isso iria mat-lo!
        Dougal balanou a cabea, concordando.
        - Sim, foi o que o mdico da guarnio disse. Disse que no iria permitir tal coisa; em s conscincia, deve-se conceder dez dias ao prisioneiro para que 
ele se cure antes de ser aoitado novamente.
        - Ora, que gesto humanitrio da parte dele - eu disse. - S conscincia, pelo amor de Deus! E o que o capito Randall achou disso?
        - No comeo, no ficou nem um pouco satisfeito, mas aceitou. Tomada a deciso, o sargento-mor, que conhecia um desmaio de verdade, desamarrou Jamie. O rapaz 
cambaleou um pouco, mas manteve-se em p, e alguns dos homens presentes aplaudiram e deram vivas, o que no agradou nem um pouco o capito. Tambm no ficou nada 
satisfeito quando o sargento pegou a camisa de Jamie e entregou-a de volta ao rapaz, embora tenha sido um gesto muito louvado pelos homens.
        Dougal virou a lmina de um lado para o outro, examinando-a com olhar crtico. Em seguida, colocou-a sobre os joelhos e olhou-me diretamente nos olhos.
        - Sabe, dona,  bastante fcil ser corajoso, sentado numa taberna aconchegante com um copo de cerveja. No  to fcil, agachado num descampado frio, com 
balas de mosquete zunindo junto  sua cabea e as urzes espetando seu traseiro. E  menos fcil ainda quando voc est cara a cara com seu inimigo, com seu prprio 
sangue escorrendo pelas pernas.
        - Imagino que no - eu disse. Eu realmente me sentia um pouco tonta, apesar de tudo. Mergulhei as duas mos na gua, deixando que o lquido escuro esfriasse 
meus pulsos.
        - Eu voltei para falar com Randall durante a semana - Dougal disse em defesa prpria, como se sentisse necessidade de justificar a ao. -Conversamos durante 
um bom tempo e eu at lhe ofereci compensao...
        - Ah, estou realmente impressionada - murmurei, mas desisti diante de seu olhar furioso. - No, falo a srio. Foi muita bondade sua. Imagino que Randall 
tenha declinado sua oferta, no?
        - Sim, foi o que fez. E eu ainda no sabia por qu, pois no tenho visto oficiais ingleses serem to escrupulosos quando se trata de seu bolso e roupas como 
as do capito so bastante caras.
        - Talvez ele tenha... outras fontes de renda - sugeri.
        - Tem, sim, de fato - Dougal confirmou, mas com um olhar penetrante em minha direo. - Ainda assim... - hesitou, depois prosseguiu, mais devagar.
        - Voltei l novamente para dar apoio a Jamie quando ele fosse castigado outra vez, embora no houvesse muito que eu pudesse fazer por ele a essa altura, 
pobre rapaz.
        Da segunda vez, Jamie era o nico prisioneiro a ser aoitado. Os guardas haviam retirado sua camisa antes de traz-lo para fora, logo aps o raiar do dia 
em uma fria manh de outubro.
        - Eu podia ver que o rapaz estava apavorado - Dougal disse -, embora caminhasse sem auxlio e no permitisse que o guarda o tocasse. Podia v-lo tremer, 
tanto de frio quanto de pavor, a pele dos braos e do peito arrepiada, mas o rosto tambm molhado de suor.
        Alguns minutos depois, Randall apareceu, o chicote enfiado debaixo do brao e as bolas de chumbo nas pontas das tiras de couro retinindo ao se chocarem umas 
contra as outras, enquanto ele caminhava. Olhou Jamie de alto a baixo friamente, depois fez um sinal para que o sargento-mor virasse o prisioneiro e mostrasse suas 
costas. O rosto de Dougal contraiu-se.
        - Uma viso dolorosa... ainda em carne viva, os lanhos apenas parcial-mente fechados, com as marcas enegrecidas e o resto amarelo de hematomas. A idia de 
um chicote se abater sobre tais ferimentos foi suficiente para me fazer encolher, juntamente com a maioria das outras pessoas.
        ---- Randall voltou-se para o sargento-mor e disse: "Belo trabalho, sargento Wilkes. Vamos ver se consigo me sair to bem." Com imensa meticulosidade, mandou 
chamar o mdico da guarnio e fez com que ele certificasse oficialmente que Jamie estava em condies de ser aoitado outra vez.
        - J viu um gato brincar com um ratinho? - Dougal perguntou. - Foi assim. Randall circulou em volta do rapaz, fazendo um ou outro comentrio, nenhum agradvel. 
E Jamie continuou ali firme como um carvalho, sem dizer nada e mantendo os olhos fixos no poste, sem olhar para Randall em nenhum momento. Pude ver que o rapaz agarrava 
os cotovelos para tentar parar de tremer e Randall tambm viu.
        - Sua boca retesou-se e ele disse: "Pensei que este fosse o jovem que h apenas uma semana gritava que no tinha medo de morrer. Certamente um homem que 
no tem medo de morrer no teme algumas chicotadas, no ?" E enfiou o cabo do chicote na barriga de Jamie.
        - Jamie, ento, olhou Randall nos olhos e disse: "No, mas tenho medo de morrer congelado antes que voc pare de falar."
        Dougal suspirou.
        - Bem, foi um discurso corajoso, mas totalmente imprudente. Bem, flagelar um homem no  um negcio agradvel, mas h maneiras de tornar isso pior do que 
deveria ser; bater de lado para cortar mais fundo ou golpear com fora em cima dos rins, por exemplo. - Sacudiu a cabea. -Terrvel.
        Franziu o cenho, escolhendo com cuidado as palavras.
        - O rosto de Randall estava... concentrado, pode-se dizer... e como que excitado, como acontece quando um homem olha para uma mulher que lhe agrada, se entende 
o que quero dizer. Era como se estivesse fazendo algo muito pior a Jamie do que apenas esfol-lo vivo. O sangue escorria pelas pernas do rapaz no dcimo quinto golpe 
e as lgrimas escorriam pelo seu rosto com o suor.
        Oscilei um pouco e estendi a mo para me apoiar na pedra da beirada da fonte.
        - Bem - disse bruscamente, percebendo a expresso no meu rosto -, no direi mais nada, exceto que ele sobreviveu a isso. Depois, o cabo desamarrou suas mos, 
ele quase caiu, mas o cabo e o sargento-mor, cada um agarrou-o de um lado pelos braos e o ampararam at ele conseguir ficar de p. Ele tremia ainda mais, do choque 
e do frio, mas mantinha a cabea erguida e seus olhos flamejavam - eu podia ver de seis metros de distncia. Manteve os olhos fixos em Randall enquanto o ajudavam 
a descer da plataforma, deixando pegadas de sangue, como se encarar Randall fosse a nica coisa capaz de mant-lo em p. O rosto de Randall estava quase to plido 
quanto o de Jamie e seus olhos estavam pregados nos olhos do rapaz, como se qualquer um deles fosse cair se desviasse os olhos. - Os prprios olhos de Dougal estavam 
fixos, ainda vendo a cena assustadora.
        Tudo estava silencioso na pequena clareira, exceto pela leve agitao do vento nas folhas da sorveira. Fechei os olhos e fiquei ouvindo-o durante algum tempo.
        - Por qu? - perguntei finalmente. - Por que me contou tudo isso? Dougal observava-me intensamente quando abri os olhos. Mergulhei uma das mos na fonte 
outra vez e apliquei a gua fria nas minhas tmporas.
        - Achei que poderia servir para o que voc poderia chamar de ilustrao de carter - disse.
        - De Randall? - exclamei com uma risada curta, sem jbilo. - No preciso de mais nenhuma evidncia do carter dele, obrigada.
        - De Randall - concordou - e de Jamie tambm. Olhei para ele, repentinamente pouco  vontade.
        - Veja bem, eu tenho ordens - enfatizou a palavra sarcasticamente - do bom capito.
        - Ordens de fazer o qu? - perguntei, a aflio aumentando.
        - De apresentar a pessoa de uma sdita inglesa, de nome Claire Beauchamp, no Fort William, na segunda-feira, 18 de junho. Para interrogatrio.
        Devo ter me mostrado realmente alarmada, porque ele se ps de p num salto e se aproximou de mim.
        - Coloque a cabea entre os joelhos, dona - instruiu, empurrando a parte de trs do meu pescoo -, at a sensao de desmaio passar.
        - Sei o que  preciso fazer - disse, irritada, mas obedecendo ainda assim. Fechei os olhos, sentindo o sangue que fugira comear a pulsar nas minhas tmporas 
outra vez. A sensao fria e mida no meu rosto e nas orelhas comeou a desaparecer, embora minhas mos ainda estivessem geladas. Concentrei-me em respirar regularmente, 
contando: inspirar, um-dois-trs-quatro; expirar, um-dois; inspirar, um-dois-trs-quatro....
        Finalmente, sentei-me, sentindo-me mais ou menos de posse das minhas faculdades. Dougal retomara seu lugar na beira da fonte e esperava pacientemente, observando-me 
para ter certeza de que eu no cairia para trs, dentro da fonte.
        - H uma maneira de fugir disso - disse bruscamente. - A nica que consigo ver.
        - Conte-me - eu disse, com uma tentativa pouco convincente de sorrir.
        - Ento, muito bem. - Inclinou-se para a frente, voltado para mim, para explicar. Randall tem o direito de lev-la a interrogatrio porque  sdita da coroa 
inglesa. Bem, ento, temos que mudar isso. Fitei-o, sem compreender.
        O que quer dizer? Voc tambm  um sdito da coroa, no? Como Poderia mudar isso?
        - A lei escocesa e a lei inglesa so muito semelhantes - disse, franzindo a testa -, mas no so iguais. E um oficial ingls no pode forar um escocs, 
a menos que tenha prova concreta de um crime cometido ou base para graves suspeitas. Mesmo com suspeitas, ele no pode retirar um sdito escocs das terras do seu 
cl sem a permisso do senhor desse cl.
        - Andou conversando com Ned Gowan - eu disse, comeando a me sentir um pouco tonta outra vez.
        Balanou a cabea, confirmando.
        - Sim, conversei. Achei que chegaramos a esse ponto, sabe. E o que ele me disse  o que eu imaginava; a nica maneira de eu me recusar legalmente a entreg-la 
a Randall  mud-la de inglesa para escocesa.
        - Escocesa? - exclamei, a sensao de vertigem rapidamente substituda por uma terrvel suspeita.
        Suas palavras seguintes confirmaram minha suspeita.
        - Sim - disse, balanando a cabea diante da expresso do meu rosto. - Voc tem que se casar com um escocs. Com o jovem Jamie.
        - Eu no poderia fazer isso!
        - Bem - ele franziu a testa, considerando a minha reao. - Suponho que possa aceitar Rupert, ao invs de Jamie. Ele  vivo e arrendatrio de uma pequena 
fazenda. No entanto, ele  bem mais velho e...
        - Tambm no quero me casar com Rupert! Essa ...  a mais absurda... - As palavras me faltavam. Levantando-me, agitada e abalada, comecei a andar de um 
lado para o outro na pequena clareira, esmagando os frutos cados da sorveira sob os ps.
        - Jamie  um bom rapaz - Dougal argumentou, ainda sentado na pedra da fonte. - No momento, no tem nenhuma propriedade,  verdade, mas tem um bom corao. 
Nunca seria cruel com voc. E  um timo lutador, com muita razo para odiar Randall. Se casar com ele, lutar at o ltimo suspiro para proteg-la.
        - Mas... mas eu no posso me casar com ningum! - exclamei. Os olhos de Dougal aguaram-se de repente.
        - Por que no, dona? Ainda tem um marido vivo?
        - No.  que... isso  ridculo! Essas coisas no acontecem! Dougal relaxara quando respondi que no. Agora, ergueu os olhos para o sol e preparou-se para 
partir.
        -  melhor irmos andando, dona. Temos providncias a tomar. Ter que haver uma permisso oficial - murmurou, como se falasse consigo mesmo. - Mas Ned pode 
resolver isso.
        Segurou-me pelo brao, ainda murmurando consigo mesmo. Desvencilhei-me de sua mo.
        - No vou me casar com ningum - disse com firmeza.
        Ele no se deixou perturbar, erguendo meramente as sobrancelhas.
        - Quer que eu a entregue a Randall?
        - No! - Algo me ocorreu. - Ento, pelo menos acredita em mim quando digo que no sou uma espi inglesa?
        - Agora acredito. - Falou com certa nfase.
        - Por que agora e no antes?
        Balanou a cabea indicando a fonte e a figura quase indistinta gravada na pedra. Devia ter centenas de anos, muito mais antiga do que a sorveira gigante 
que sombreava a fonte e lanava suas flores brancas na gua escura.
        - Fonte de St. Ninian. Voc bebeu a gua antes que eu lhe pedisse. A essa altura, eu estava completamente confusa.
        - O que isso tem a ver?
        Ele pareceu surpreso, depois sua boca contorceu-se num sorriso.
        - No sabia? Tambm a chamam de fonte do mentiroso. A gua tem cheiro dos vapores do inferno. Qualquer um que beba da gua e depois conte uma mentira, ter 
as entranhas arrancadas.
        - Compreendo. - Falei entre dentes. - Bem, minhas entranhas esto perfeitamente intactas. Portanto, pode acreditar em mim quando digo que no sou uma espi, 
francesa ou inglesa. E pode acreditar em outra coisa, Dougal MacKenzie. No vou me casar com ningum!
        Ele no estava ouvindo. Na realidade, j abrira caminho pelos arbustos que encobriam a fonte. Somente um galho de carvalho agitado marcava sua passagem. 
Fumegando de raiva, segui-o.
        Continuei protestando por mais algum tempo na viagem de volta para a estalagem. Dougal finalmente advertiu-me a poupar minhas palavras e depois disso prosseguimos 
em silncio.
        Ao chegarmos  estalagem, atirei as rdeas do meu cavalo no cho, sa batendo os ps e subi as escadas para o refgio do meu quarto.
        A idia toda no s era ultrajante, como impensvel. Eu andava de um lado para o outro no quarto estreito, sentindo-me cada vez mais como um rato na armadilha. 
Por que diabos eu no tivera a coragem de fugir dos escoceses antes, qualquer que fosse o risco?
        Sentei-me na cama e tentei pensar com calma. Considerada estritamente do ponto de vista de Dougal, sem dvida a idia era digna de mrito. Se ele simplesmente 
se recusasse a me entregar a Randall, sem nenhuma desculpa, o capito poderia facilmente tentar me resgatar  fora. E quer ele acreditasse em mim ou no, Dougal 
compreensivelmente poderia no querer entrar em atrito com um monte de drages por minha causa.
        Alm disso, vista a sangue-frio, a idia tambm tinha certo mrito do meu lado. Se eu fosse casada com um escocs, provavelmente no seria mais vigiada e 
guardada. Seria muito mais fcil fugir quando chegasse a hora. E se fosse Jamie - bem, ele gostava de mim, sem dvida. E conhecia as Highlands como a palma de sua 
mo. Talvez me levasse a Craigh na Dun ou ao menos naquela direo. Sim, provavelmente o casamento era a melhor forma de atingir meu objetivo.
        Essa era a maneira de encarar a situao a sangue-frio. Meu sangue, no entanto, estava longe de estar frio. Eu estava fervendo de raiva e agitao e no 
conseguia me acalmar, andando de um lado para o outro, furiosa, buscando uma sada. Qualquer sada. Aps uma hora nesse estado, meu rosto estava afogueado e minha 
cabea latejava. Levantei-me e abri as persianas, enfiando a cabea para fora na brisa fresca.
        Ouviu-se uma batida decidida na porta atrs de mim. Dougal entrou quando eu colocava a cabea para dentro. Segurava uma folha rgida de papel como uma salva 
e vinha seguido de Rupert e do imaculado Ned Gowan, fechando a raia como se fossem cavalarios reais.
        - Por favor, entrem - eu disse graciosamente.
        Ignorando-me como sempre fazia, Dougal removeu um urinol de seu lugar em cima da mesa e espalhou as folhas de papel sem cerimnia sobre a spera superfcie 
de carvalho.
        - Tudo arranjado - disse, com o orgulho de algum que conduziu um projeto difcil  sua concluso com sucesso. - Ned j redigiu os documentos; nada como 
um advogado, desde que ele esteja do seu lado, hein, Ned?
        Todos os homens riram, evidentemente de bom humor.
        - No foi na verdade difcil - Ned disse modestamente. -  apenas um contrato simples. - Folheou os papis com o dedo de um proprietrio, em seguida parou, 
franzindo a testa com um pensamento repentino.
        - No tem nenhuma propriedade na Frana, tem? - perguntou, olhando-me com preocupao por cima dos pequenos culos que usava para leitura. Sacudi a cabea 
e ele relaxou, arrumando os papis novamente numa pilha e batendo-os cuidadosamente para que todas as pontas coincidissem.
        - Ento,  isso. Voc s precisa assinar aqui no p da pgina e Dougal e Rupert no lugar das testemunhas.
        O advogado colocou sobre a mesa o tinteiro que trouxera e, retirando habilmente uma pena de escrever limpa do bolso, entregou-a a mim com um gesto cerimonioso.
        - E o que  isso exatamente? - perguntei. Era uma pergunta de natureza retrica, pois a folha de cima da pilha dizia CONTRATO DE CASAMENTO numa caligrafia 
perfeitamente legvel, as letras com cinco centmetros de altura e fortemente negras, de um lado ao outro da pgina.
        Dougal reprimiu um suspiro de impacincia diante da minha recalcitrncia.
        - Sabe muito bem do que se trata - disse em poucas palavras. - E a menos que tenha alguma outra idia brilhante para escapar das garras de Randall, vai assin-lo 
e acabar com isso. O tempo  curto.
        Idias brilhantes estavam particularmente em falta no momento, apesar da hora que eu despendera martelando o problema. Realmente comeava a parecer que essa 
incrvel alternativa era o melhor que eu podia fazer, por mais que esperneasse.
        - Mas eu no quero me casar! - disse teimosamente. Ocorreu-me tambm que o meu ponto de vista no era o nico envolvido. Lembrei-me da garota de cabelos 
louros que eu vira Jamie beijando na alcova do castelo.
        - E talvez Jamie no queira casar comigo! - eu disse. - O que me diz? Dougal descartou a questo como insignificante.
        - Jamie  um soldado, far o que mandarem. E voc tambm - disse enfaticamente. - A menos,  claro, que prefira uma priso inglesa.
        Olhei-o furiosa, resfolegando. Eu estivera num redemoinho desde a nossa brusca partida do escritrio de Randall e agora meu nvel de agitao aumentara substancialmente, 
confrontada com uma escolha em preto e branco, por assim dizer.
        - Quero falar com ele - disse de repente. As sobrancelhas de Dougal ergueram-se instantaneamente.
        - Jamie? Por qu?
        - Por qu? Porque voc est me forando a casar com ele e, pelo que vejo, nem comunicou a ele!
        Obviamente, isso era uma irrelevncia, no que dizia respeito a Dougal, mas por fim cedeu e, acompanhado de seus servos favoritos, foi buscar Jamie na taberna 
l embaixo.
        Jamie apareceu logo depois, parecendo desnorteado.
        - Voc sabia que Dougal quer que nos casemos? - perguntei sem rodeios.
        Sua expresso desanuviou-se.
        - Ah, sim. Sabia.
        - Mas certamente - eu disse - um jovem como voc, quero dizer, no a ningum mais em quem voc esteja, ah, interessado? - Ficou parado, o rosto inexpressivo 
por um instante, depois pareceu compreender.
        -- Ah, se estou prometido? No, no sou um grande partido para uma Jovem. - Continuou apressadamente, como se achasse que aquilo poderia ser tomado como 
uma ofensa. - Quero dizer, no tenho nenhuma propriedade e nada mais do que o soldo de um soldado para viver. Esfregou o queixo, lanando-me um olhar dbio. -- E 
depois, h essa pequena dificuldade que minha cabea est a prmio. Nenhum pai quer ver a filha casada com um homem que pode ser preso e enforcado a qualquer momento. 
J pensou nisso?
        Com um gesto da mo, descartei o problema da condenao como uma questo de menor importncia, comparada quela monstruosa idia. Fiz uma ltima tentativa.
        - O fato de eu no ser virgem o incomoda? - Ele hesitou por um instante antes de responder.
        - Bem, no - disse devagar -, desde que no a incomode o fato de eu ser. - Riu diante da minha expresso de queixo cado e recuou em direo  porta.
        - Imagino que um de ns dois deva saber o que est fazendo - disse. A porta fechou suavemente atrs dele; obviamente, o perodo de namoro estava encerrado.
        Os papis devidamente assinados, desci cautelosamente as escadas ngremes da estalagem e sentei-me  uma mesa de bar na taberna.
        - Usque - disse  criatura velha e desgrenhada atrs do balco. Fitou-me com olhos remelentos, mas um sinal de Dougal com a cabea fez com que trouxesse 
uma garrafa e um copo. Este ltimo era grosso e esverdeado, com uma lasca na borda, mas era aberto na parte de cima e isso era tudo que importava no momento.
        Quando o efeito abrasador de engolir a bebida passou, provocou-me uma certa calma espria. Senti-me desligada, observando detalhes  minha volta com uma 
intensidade peculiar: o pequeno vitral acima do bar, lanando sombras coloridas sobre o mal-encarado proprietrio e suas mercadorias, a curva do cabo de uma concha 
de sopa com fundo de cobre que estava pendurada na parede ao meu lado, uma mosca de barriga verde esperneando nas beiradas de uma poa pegajosa em cima da mesa. 
Com uma certa dose de solidariedade, empurrei-a para fora da poa com o fundo do meu copo.
        Gradualmente, tomei conscincia de vozes alteradas por trs de uma porta fechada no outro lado do salo. Dougal desaparecera l dentro depois da concluso 
de seus negcios comigo, provavelmente para concretizar as providncias com o outro lado contratante. Fiquei satisfeita de ouvir, a julgar pelas vozes altercadas, 
que meu futuro marido estava se encrespando, apesar de sua aparente falta de objees anterior. Talvez no tenha querido me ofender.
        - Fique firme, rapaz - murmurei e tomei outro gole.
        Algum tempo depois, percebi vagamente a mo de algum abrindo meus dedos a fim de remover o copo esverdeado. Outra mo segurou-me com firmeza pelo cotovelo.
        - Cristo, est bbada como um gamb - disse uma voz no meu ouvido. A voz arranhava desagradavelmente, pensei, como se o dono tivesse comido lixa. Ri baixinho 
diante da idia.
        - Fique quieta, mulher! - disse a desagradvel voz spera. Tornou-se mais fraca quando o dono da voz virou-se para falar com outra pessoa. -Bbada como um 
gamb e falando como um papagaio... o que espera...
        Outra voz interrompeu a primeira, mas no pude ouvir o que dizia; as palavras estavam vagas e indistintas. Entretanto, era um som agradvel, grave e de certa 
forma tranqilizador. Aproximou-se e pude entender algumas palavras. Esforcei-me para me concentrar, mas minha ateno comeara a divagar outra vez.
        A mosca achara seu caminho de volta  poa e debatia-se no meio, irremediavelmente atolada. A luz filtrada pela janela de vitral recaa sobre ela, reluzindo 
como fascas na barriga verde esticada. Meu olhar fixou-se no minsculo ponto verde, que parecia pulsar conforme a mosca contorcia-se e debatia-se.
        - Minha irm... voc no tem a menor chance - eu disse, e a fasca apagou-se.
        
        
        
        14 - UM CASAMENTO  CELEBRADO
        
        Havia um teto baixo, de vigas largas, acima de mim quando acordei, e uma colcha grossa cuidadosamente cobrindo-me at o queixo. Eu parecia estar vestida 
apenas com minhas roupas de baixo. Comecei a me sentar para procurar minhas roupas, mas mudei de opinio no meio da operao. Deitei-me novamente, bem devagar, fechei 
os olhos e segurei a cabea para impedir que sasse rolando do travesseiro e batesse no cho.
        Acordei novamente, algum tempo depois, quando a porta do quarto se abriu. Entreabri um olho, cautelosamente. Um vulto ondulante definiu-se aos poucos na 
figura circunspecta de Murtagh, olhando-me com desaprovao do p da cama. Fechei o olho. Ouvi um rudo escocs abafado, provavelmente indicando uma expresso horrorizada, 
mas quando olhei de novo ele se fora.
        Estava comeando a recair num agradvel estado de inconscincia quando a porta abriu-se novamente, desta vez revelando uma mulher de meia-idade que deduzi 
tratar-se da mulher do estalajadeiro, carregando um jarro de gua e uma bacia.
        Entrou alegremente no quarto, fazendo barulho, e abriu as persianas com uma forte batida, que reverberou pela minha cabea como a coliso de um tanque. Avanando 
sobre a cama como uma diviso panzer, arrancou a colcha do frgil aperto da minha mo e atirou-a para o lado, deixando-me trmula e exposta.
        - Vamos, meu bem - ela disse. - Temos de apront-la agora. - Passou um brao troncudo pelos meus ombros e me iou  posio sentada. Segurei a cabea com 
uma das mos e o estmago com a outra.
        - Aprontar? - disse, com um gosto de ressaca na boca. A mulher comeou a lavar meu rosto com energia.
        - Ah, sim - disse. - No vai querer perder seu prprio casamento, vai?
        - Vou, sim - disse, mas fui ignorada enquanto ela me despia sem a menor cerimnia e me colocava de p no meio do assoalho para cuidados mais ntimos.
        Um pouco depois, sentei-me na cama, totalmente vestida, sentindo-me confusa e beligerante, mas graas a uma taa de vinho do porto oferecida pela dona da 
casa, consegui pelo menos parecer funcional. Bebi cuidadosamente uma segunda dose, enquanto a mulher enfiava um pente pelos cachos desgrenhados do meu cabelo.
        Dei um salto e estremeci, entornando o porto, quando a porta abriu-se com um estrondo mais uma vez. Uma coisa atrs da outra, pensei com dio. Desta vez, 
era uma visita dupla, Murtagh e Ned Gowan, com os mesmos olhares de desaprovao. Troquei olhares com Ned enquanto Murtagh entrava no quarto e, rodeando a cama bem 
devagar, inspecionava-me de todos os ngulos. Voltou para Ned e murmurou alguma coisa em um tom de voz baixo demais para que eu pudesse ouvir. Com um ltimo olhar 
de desespero em minha direo, fechou a porta atrs deles.
        Finalmente, meus cabelos estavam penteados ao agrado da mulher, puxados para trs e enrolados num coque no alto da cabea, com alguns cachos soltos caindo 
nas costas e anis  frente de minhas orelhas. Parecia que meu couro cabeludo iria se soltar com a tenso dos cabelos puxados para trs e para cima, mas o efeito 
no espelho que a mulher me ofereceu era inegavelmente apropriado. Comecei a me sentir um pouco mais humana e at consegui agradecer-lhe por seus esforos. Deixou 
o espelho comigo e foi embora, comentando que era uma bno se casar no vero, no?, j que haveria muitas flores para os meus cabelos.
        - Ns que estamos prestes a morrer - disse  minha imagem refletida, esboando uma saudao no espelho. Deixei-me cair sobre a cama, cobri o rosto com um 
pano mido e voltei a dormir.
        Estava tendo um sonho bastante agradvel, algo a ver com campos cobertos de flores silvestres, quando percebi que o que eu considerara uma brisa refrescante 
esvoaando as mangas do meu vestido era um par de mos no to delicadas. Sentei-me num solavanco, chacoalhando cegamente.
        Quando consegui abrir os olhos, vi que meu pequeno quarto agora se parecia a uma estao do metr, com rostos de parede a parede: Ned Gowan, Murtagh, o estalajadeiro, 
a mulher do estalajadeiro e um rapaz magro, que vinha a ser o filho do estalajadeiro, com os braos cheios de diversos tipos de flores, responsveis pelo aroma em 
meu sonho. Havia tambm uma mulher jovem, armada com um cesto de vime redondo, que me sorriu amavelmente, exibindo a ausncia de vrios dentes importantes.
        Essa mulher, como se viu em seguida, era a costureira da vila, recrutada para reparar as deficincias do meu guarda-roupa fazendo ajustes em um vestido, 
obtido sem aviso prvio de algum contato local do dono da estalagem. Ned carregava o vestido em questo, pendurado de uma das mos como um animal morto. Alisado 
sobre a cama, viu-se que era um vestido longo, com um decote na frente, de cetim grosso, na cor creme, com um corpete separado que se abotoava com dezenas de botes 
recobertos com mesmo tecido, cada qual bordado com uma flor-de-lis em fio de ouro. A linha do decote e as mangas em forma de sino eram ricamente ornadas com rendas, 
assim como a sobressaia bordada, de veludo cor de chocolate. O estalajadeiro estava semi-enterrado nas anguas que carregava, as costeletas eriadas quase desaparecidas 
sob as camadas vaporosas.
        Olhei para a mancha de vinho do porto na minha saia de sarja cinza e a vaidade venceu. Se eu devia de fato me casar, no queria faz-lo parecendo uma criada 
da vila.
        Aps um curto espasmo de atividade frentica, comigo parada como um manequim de costureira e todos os outros correndo de um lado para o outro pegando, carregando, 
criticando e tropeando uns nos outros, o produto final ficou pronto, completo com steres brancas e rosas amarelas presas nos meus cabelos e um corao batendo 
loucamente por baixo do corpete de renda. O ajuste no estava absolutamente perfeito e o vestido ainda tinha um cheiro um pouco forte da proprietria anterior, mas 
o cetim era pesado e fazia um ruge-ruge fascinante em torno dos meus ps, sobre as camadas de anguas. Senti-me uma rainha e bastante bonita.
        - No pode me obrigar a fazer isso, voc sabe - sibilei ameaadora-mente para as costas de Murtagh enquanto o seguia pelas escadas, mas tanto ele quanto 
eu sabamos que minhas palavras no passavam de bravata vazia. Se alguma vez eu tivera a fora de carter de desafiar Dougal e arriscar a sorte com os ingleses, 
ela se esvara com o usque.
        Dougal, Ned e o resto estavam no salo principal da taberna ao p das escadas, bebendo e trocando amenidades com alguns habitantes da vila que no pareciam 
ter nada melhor a fazer com sua tarde do que ficar por ali  toa, embebedando-se.
        Dougal avistou-me descendo devagar e repentinamente parou de falar. Os outros tambm fizeram silncio e eu flutuei at o trreo numa gratificante urea de 
reverente admirao. Os olhos fundos de Dougal cobriram-me lentamente da cabea aos ps e retornaram ao meu rosto com um aceno de reconhecimento sem nenhum sinal 
de rancor.
        Em virtude dos acontecimentos, j fazia algum tempo desde que um homem olhara para mim daquela forma e eu tambm respondi com um gracioso aceno de cabea.
        Aps o primeiro instante de silncio, os demais presentes na taberna comearam a expressar sua admirao e at Murtagh se permitiu um ligeiro sorriso, balanando 
a cabea, satisfeito com os resultados de seus esforos. E quem foi que o nomeou editor de moda? Pensei, de modo irritante. Ainda assim, tinha que admitir que ele 
era o responsvel por eu no me casar de sarja cinza.
        Casar. Ah, meu Deus. Temporariamente encorajada pelo vinho do porto e pelas rendas de cor creme, conseguira momentaneamente ignorar o significado da ocasio. 
Segurei com fora o corrimo quando a sbita compreenso me atingiu como um soco no estmago.
        Relanceando os olhos pela multido, entretanto, notei uma flagrante ausncia. Meu noivo no estava em nenhum lugar  vista. Alentada pelo pensamento de que 
ele pudesse ter escapado por alguma janela e estar a quilmetros de distncia a essa altura, aceitei uma ltima taa de vinho do proprietrio antes de seguir Dougal 
para fora.
        Ned e Rupert foram buscar os cavalos. Murtagh desaparecera em algum lugar, talvez atrs de pistas de Jamie.
        Dougal segurava-me pelo brao; ostensivamente para me apoiar, com receio de que eu tropeasse em minhas sapatilhas de cetim, mas na verdade para evitar qualquer 
tentativa de fuga de ltima hora.
        Era um "quente" dia escocs, significando com isso que a nvoa no estava suficientemente forte para ser qualificada de garoa, mas no muito longe disso, 
tampouco. De repente, a porta da estalagem se abriu e o sol surgiu, na pessoa de Jamie. Se eu era uma noiva radiante, o noivo era sem dvida resplandecente. Fiquei 
de boca aberta e assim permaneci.
        Um escocs das Highlands em roupas de gala  uma viso impressionante - qualquer um, por mais velho, feio ou desgracioso que seja. Um jovem escocs das Highlands, 
alto, empertigado e de forma alguma desgracioso, visto de perto  de se perder o flego.
        Os fartos cabelos vermelho-dourados haviam sido escovados at adquirirem um aspecto brilhante e macio que roava o colarinho de uma elegante camisa de linho 
fino com a frente de pregas, mangas em forma de sino, punhos de babados enfeitados de renda, combinando com a cascata de babados e renda do jab engomado, preso 
na altura da garganta e ornamentado com um alfinete de rubi.
        Seu tart era de um xadrez vermelho vivo e preto que ofuscava o mais sereno verde e branco dos MacKenzie. A l flamejante, amarrada por um broche redondo 
de prata, caa de seu ombro direito num drapejo gracioso, preso por um cinto de espada cravejado de tachas de prata, antes de continuar seu volteio pelas panturrilhas 
elegantemente recobertas por meias de l e parando logo acima das botas de couro preto com fivela de prata. Espada, adaga e bolsa de pele de texugo completavam o 
traje.
        Com quase um metro e noventa de altura, de ombros largos e traos marcantes, ele estava longe de se parecer com o sujo domador de cavalos com quem eu estava 
acostumada - e ele sabia disso.
        Com um gesto elegante, fez uma reverncia impecvel para mim, murmurando "A seu servio, madame", os olhos brilhando de malcia.
        - Ah! - exclamei, quase desmaiando.
        Nunca antes vira o taciturno Dougal embaraado, sem conseguir encontrar palavras. As sobrancelhas grossas franzidas num rosto afogueado, parecia, a seu modo, 
to surpreso quanto eu com essa apario.
        - Est louco, homem? - disse, finalmente. - E se algum o vir? Jamie arqueou uma sobrancelha sarcasticamente para o homem mais velho.
        - Ora, tio - disse. - Insultos? E alm do mais no dia do meu casamento? No ia querer que eu envergonhasse minha mulher, no ? Alm disso - acrescentou 
com um brilho malicioso nos olhos -, acho que o casamento nem seria legtimo se eu no me casasse no meu prprio nome. E voc quer que seja, no ?
        Com um evidente esforo, Dougal recuperou seu autocontrole.
        - Se j terminou, Jamie, podemos continuar - disse.
        Mas Jamie ainda no havia terminado, ao que parecia. Ignorando a fria de Dougal, retirou um colar de contas brancas de sua bolsa. Deu um passo  frente 
e fechou o colar em volta do meu pescoo. Olhando para baixo, pude ver que era um colar de pequenas prolas barrocas, aquelas contas de forma irregular que so produto 
de moluscos de gua doce, entremeadas com minsculas contas de ouro. Prolas menores pendiam das contas de ouro.
        - So apenas prolas escocesas - disse, desculpando-se -, mas ficam lindas em voc. - Seus dedos demoraram-se um pouco no meu pescoo.
        - Essas prolas eram de sua me! - disse Dougal, olhando para as prolas com ar ameaador.
        - Sim - disse Jamie calmamente. - E agora so de minha mulher. Podemos ir?
        Onde quer que estivssemos indo, ficava a alguma distncia da vila. Formvamos um grupo de casamento um tanto carrancudo, o casal de noivos rodeados pelos 
demais como condenados que estavam sendo escoltados para alguma priso distante. A nica conversa foi uma desculpa de Jamie, em voz baixa, por ter chegado atrasado, 
explicando que houve alguma dificuldade em encontrar uma camisa limpa e um casaco grande que coubesse nele.
        - Acho que esta pertence ao filho do escudeiro local - disse, agitando o jab de renda. - Um pouco almofadinha, me parece.
        Desmontamos e deixamos os cavalos no sop de um pequeno monte. Uma trilha em meio s urzes levava para cima.
        - Tomou todas as providncias? - ouvi Dougal dizer em voz baixa para Rupert, quando amarravam os animais.
        - Ah, sim. - Viu-se um claro de dentes na barba negra. - Foi um pouco difcil convencer o padre, mas ns lhe mostramos a licena especial-- Bateu na bolsa 
 cintura, que retiniu musicalmente, dando-me uma idia da natureza da licena especial.
        Em meio  garoa e  nvoa, avistei a capela projetando-se das urzes. Com uma sensao de completa incredulidade, vi a cpula arredondada e as estranhas janelas 
com muitas vidraas pequenas, que eu vira na brilhante manh ensolarada do meu casamento com Frank Randall.
        - No! - exclamei. - Aqui no! No posso!
        - Shh, vamos, shh. No se preocupe, dona, no se preocupe. Tudo vai dar certo. - Dougal colocou a mo grande sobre meu ombro, produzindo sons tranqilizadores 
em escocs, como se eu fosse um cavalo arisco. -  natural um pouco de nervosismo - disse para todos ns. A outra mo firme na minha cintura instava-me a continuar 
subindo a trilha. Meus sapatos afundavam-se na camada mida de folhas cadas.
        Jamie e Dougal caminhavam junto a mim, um de cada lado, para evitar uma fuga. Suas dominantes presenas eram intimidantes e senti uma crescente sensao 
de histeria. Duzentos anos  frente, mais ou menos, eu me casara naquela capela, encantada na poca com sua natureza antiga e pitoresca. A capela agora estava estalando 
de nova, as tbuas ainda no estavam assentadas com aquele charme que iria adquirir ao longo do tempo, e eu estava prestes a casar com um escocs de vinte e trs 
anos, catlico e virgem, com a cabea a prmio, cujo...
        Virei-me para Jamie, repentinamente em pnico.
        - No posso me casar com voc! Eu nem sei seu sobrenome! Olhou para mim e arqueou uma sobrancelha ruiva.
        - Ah.  Fraser. James Alexander Malcolm MacKenzie Fraser. - Pronunciou-o formalmente, cada nome devagar e distintamente.
        Completamente perturbada, eu disse, estendendo a mo tolamente.
        - Claire Elizabeth Beauchamp.
        Aparentemente tomando o gesto como um pedido de apoio, segurou minha mo e enfiou-a firmemente na dobra do seu brao. Assim irremediavelmente presa, continuei 
caminhando em silncio para o meu casamento.
        Rupert e Murtagh esperavam por ns na capela, montando guarda ao lado do padre prisioneiro, um jovem sacerdote alto e magro, com um nariz vermelho e uma 
expresso justificadamente aterrorizada. Rupert indolentemente tirava lascas de um raminho de salgueiro com uma faca grande e, embora tivesse posto de lado suas 
pistolas de cabo de chifre quando entrou na igreja, elas permaneciam ao alcance da mo na beira da pia batismal.
        Os outros homens tambm se desarmaram, como era prprio na casa de Deus, deixando uma pilha de letalidade impressionantemente rutilante no banco da igreja. 
Somente Jamie conservou sua adaga e sua espada, provavelmente como uma parte cerimonial de seu traje.
        Ajoelhamo-nos diante do altar de madeira, Murtagh e Dougal assumiam seus lugares como testemunhas e a cerimnia comeou.
        O formato da cerimnia de casamento catlica no mudou muito em vrias centenas de anos e as palavras unindo-me ao estranho ruivo a meu lado, eram basicamente 
as mesmas que haviam consagrado meu casamento com Frank. Sentia-me como uma concha oca e fria. As palavras balbuciadas pelo jovem padre ecoavam em algum lugar vazio 
da boca do meu estmago.
        Levantei-me automaticamente quando chegou a hora dos votos observando numa espcie de entorpecido fascnio meus dedos gelados desaparecerem nas mos poderosas 
do meu noivo. Seus dedos estavam to frios quanto os meus e ocorreu-me pela primeira vez que, apesar da aparncia exterior calma, ele devia estar to nervoso quanto 
eu.
        At ento eu evitara olhar para ele, mas agora ergui os olhos e deparei-me com ele fitando-me intensamente. Seu rosto estava lvido e cuidadosamente impassvel; 
tinha a mesma expresso de quando eu tratara o ferimento em seu ombro. Tentei sorrir-lhe, mas os cantos da minha boca oscilaram precariamente. A presso dos seus 
dedos nos meus aumentou. Tive a impresso de que um estava sustentando o outro; se um de ns soltasse a mo ou desviasse os olhos, ambos cairiam. Estranhamente, 
a sensao era reconfortante. Onde quer que estivssemos nos metendo, ao menos estvamos juntos nisso.
        - Eu a aceito, Claire, como minha esposa... - Sua voz no tremia, mas sua mo sim. Segurei seus dedos com mais fora. Nossos dedos rgidos apertavam-se como 
tbuas num torno de bancada. -...amar, honrar e proteger... nos bons e nos maus momentos... - As palavras vinham de longe. O sangue esvaa-se da minha cabea. O 
corpete com barbatanas era infernalmente justo e, embora eu sentisse frio, o suor escorria pelo meu corpo por baixo do cetim. Esperava no desmaiar.
        Havia uma pequena janela de vitral bem alta na parede ao lado do santurio, uma representao rstica de So Joo Batista com sua capa de pele de urso. Sombras 
verdes e azuis flutuavam sobre a manga do meu vestido, fazendo-me lembrar do salo da taberna e desejei um drinque fervorosamente.
        Minha vez. Gaguejei um pouco, o que me deixou furiosa. - Eu o recebo, James... - Empertiguei-me. Jamie terminara a sua parte com bastante credibilidade. 
Eu poderia tentar fazer o mesmo. -...para amar e proteger, de hoje em diante... - Minha voz fortaleceu-se.
        - At que a morte nos separe. - As palavras ressoaram na capela silenciosa com um carter surpreendentemente definitivo. Tudo estava imvel, como uma imagem 
congelada. Ento, o sacerdote pediu a aliana.
        Houve uma agitao repentina e, de relance, vi a expresso arrasada no rosto de Murtagh. Mal registrei o fato de que algum se esquecera de providenciar 
um anel, quando Jamie soltou minha mo o tempo suficiente para retirar um anel do prprio dedo.
        Eu ainda usava a aliana de Frank na mo esquerda. Os dedos da mo direita pareciam congelados, descorados e rgidos na mancha de luz azul, quando um largo 
aro de metal passou pelo meu dedo anular. Ficou solto no dedo e teria cado se Jamie no dobrasse meus dedos e envolvesse minha mo fechada outra vez na sua.
        Mais murmrios do padre e Jamie inclinou-se para beijar-me. Era bvio que ele pretendia apenas um breve e formal toque de lbios, mas sua boca era macia 
e quente e eu instintivamente me aproximei e correspondi Percebi vagamente alguns rudos, gritos escoceses de entusiasmo e incentivo da platia, mas na verdade no 
notei nada alm da envolvente e clida solidez dos seus lbios.
        Separamo-nos, ambos um pouco mais serenos, e sorri nervosamente. Vi Dougal tirar a adaga de Jamie da bainha e perguntei-me qual seria a razo. Ainda olhando 
para mim, Jamie estendeu a mo direita, palma para cima. Prendi o ar de repente quando a ponta da adaga fez um corte profundo em seu pulso, deixando uma linha escura 
do sangue que aflorava. No houve tempo de recuar antes que a minha prpria mo fosse agarrada e eu sentisse o corte ardente da lmina. Rapidamente, Dougal pressionou 
meu pulso ao de Jamie e enfaixou-os juntos com uma tira de linho branco.
        Devo ter cambaleado um pouco, porque Jamie segurou-me pelo brao com a mo esquerda livre.
        - Agente firme - disse baixinho. - Falta pouco agora. Repita as palavras depois de mim. - Era um pequeno texto em galico, duas ou trs frases. As palavras 
no significavam nada para mim, mas as repeti obedientemente depois de Jamie, tropeando nas vogais escorregadias. A tira de linho foi desamarrada, os cortes enxugados 
e limpos, e estvamos casados.
        Havia uma sensao geral de alvio e satisfao no caminho de volta pela trilha. Parecia uma alegre festa de casamento qualquer, apesar de pequena, e composta 
inteiramente de homens,  exceo da noiva.
        Estvamos quase ao sop da colina, quando a falta de comida, os remanescentes de uma ressaca e o estresse geral do dia me venceram. Deitei-me nas folhas 
midas, a cabea no colo do meu novo marido. Ele colocou de lado o pano mido com que estivera limpando meu rosto.
        -- Foi to ruim assim? - perguntou rindo para mim, mas seus olhos guardavam uma certa expresso que me sensibilizou, apesar de tudo. Sorri tremulamente em 
resposta.
        - No  voc - afirmei. -  que... acho que no comi nada desde o desjejum de ontem. E receio que tenha bebido muito.
        Sua boca contraiu-se.
        - Ouvi dizer. Bem, isso eu posso remediar. No tenho muito a oferecer a uma esposa, como eu disse, mas prometo que vou mant-la alimentada. - Sorriu e timidamente 
afastou com o dedo indicador um cacho cado em meu rosto.
        Comecei a me sentar e fiz uma careta diante de uma leve queimao no meu pulso. Havia me esquecido dessa ltima parte da cerimnia. O corte se abrira, sem 
dvida em resultado da queda que eu sofrera. Peguei o pano de Jamie e amarrei-o desajeitadamente em volta do pulso.
        - Achei que fora isso que a fez desmaiar - disse, observando. - Eu deveria t-la avisado; no percebi que no estava esperando por isso at ver seu rosto.
        - O que era, exatamente? - perguntei, tentando enfiar as pontas por baixo do pano.
        -  um pouco pago, mas  tradio por aqui fazer um voto de sangue, juntamente com a cerimnia normal. Alguns padres no a aceitam mas acho que esse no 
iria se opor a nada. Parecia to assustado quanto eu me sentia - disse, sorrindo.
        - Um voto de sangue? O que as palavras significavam?
        Jamie segurou minha mo direita e delicadamente prendeu a ponta da atadura improvisada.
        - Dizem o seguinte:
        Voc  sangue do meu sangue e ossos dos meus ossos. Dou-lhe meu corpo, para que ns dois sejamos um s. Dou-lhe meu esprito, at o fim de nossas vidas.
        Encolheu os ombros.
        - Mais ou menos como os votos normais, apenas um pouco mais... ah, primitivos.
        Olhei para meu pulso enfaixado.
        - Sim, acho que se pode dizer isso.
        Olhei ao redor; estvamos sozinhos na trilha, sob um lamo. As folhas arredondadas,. mortas, espalhavam-se pelo cho, brilhando na umidade como moedas enferrujadas. 
Estava muito silencioso, exceto pelo respingo ocasional de gotas d'gua caindo das rvores.
        - Onde esto os outros? Voltaram para a hospedaria? Jamie fez uma careta.
        - No. Eu mandei que se afastassem para poder cuidar de voc, mas estaro esperando por ns logo ali embaixo. - Indicou com um movimento do queixo,  moda 
de um homem do campo. - No vo nos deixar sozinhos at que tudo esteja oficializado.
        -  mesmo? - disse, sem compreender. - Estamos casados, no estamos. Ele pareceu constrangido, desviando o rosto e cuidadosamente afastando folhas mortas 
de seu kilt.
        - Hum, hum. Sim, estamos casados, sem dvida. Mas no est sacramentado, sabe, enquanto no for consumado. - Um rubor lento e intenso subiu de seu jab de 
renda.
        - Hum, hum - repeti. - Vamos procurar alguma coisa para comer.
        
        
        
        15 - REVELAES DO QUARTO NUPCIAL
        
        Na hospedaria, a comida j estava servida, na forma de um modesto banquete de casamento, incluindo vinho, pes frescos e rosbife. Dougal segurou-me pelo 
brao quando me dirigi s escadas para lavar o rosto antes de comer.
        - Quero este casamento consumado, sem que paire nenhuma dvida - Dougal me instruiu com firmeza em meia-voz. - No pode haver dvida de que se trata de uma 
unio legal, sem deixar brechas para uma anulao ou todos ns estaremos arriscando nossos pescoos.
        - Parece-me que voc est fazendo isso de qualquer forma - observei, mal-humorada. - O meu, principalmente.
        Dougal deu uns tapinhas com firmeza no meu traseiro.
        - No se preocupe com isso; faa a sua parte. - Olhou-me de cima a baixo com ar crtico, como se julgasse minha capacidade de desempenhar meu papel adequadamente.
        - Conheci o pai de Jamie. Se o rapaz for parecido com ele, voc no vai ter nenhum problema. Ah, Jamie! - Atravessou a sala apressadamente, para onde Jamie 
acabara de chegar, depois de ter ido guardar os cavalos na estrebaria. Pela expresso no rosto de Jamie, ele tambm estava recebendo suas ordens.
        Como, em nome de Deus, isso veio a acontecer? Perguntei a mim mesma algum tempo depois. H seis semanas, eu estava inocentemente colhendo flores silvestres 
em uma colina da Esccia para levar para casa para o meu marido. Agora, estava trancada em um quarto de uma hospedaria rural. Aguardando um marido completamente 
diferente, que eu mal conhecia, com ordens rgidas de consumar um casamento forado, sob o risco de minha prpria vida e liberdade.
        Sentei-me na cama, tensa e aterrorizada em minhas finas roupas emprestadas. Ouviu-se um leve rudo quando a pesada porta do quarto abriu-se e, em seguida, 
se fechou novamente.
        Jamie recostou-se na porta, observando-me. O ar de constrangimento de ns dois aprofundou-se. Foi Jamie quem finalmente quebrou o silncio.
        -- No precisa ter medo de mim - disse suavemente. - No ia pular em cima de voc. - Ri involuntariamente.
        - Bem, no achei que o faria. - Na verdade, no achei que fosse tocar em mim, a menos que eu o convidasse; o fato  que eu teria que convid-lo a fazer consideravelmente 
mais do que isso, e logo.
        Olhei para ele, em dvida. Acho que seria mais difcil se eu no o achasse atraente; na realidade, acontecia o oposto. Ainda assim, eu no dormira com nenhum 
outro homem alm de Frank em mais de oito anos. No apenas isso, este jovem, como ele mesmo dissera, era completamente inexperiente. Eu nunca deflorara ningum antes. 
Mesmo descartando minhas objees a todo o arranjo, e considerando a questo de um ponto de vista inteiramente prtico, como deveramos comear? Naquele passo, ainda 
estaramos ali de p, olhando um para o outro, daqui a trs ou quatro dias.
        Clareei a garganta e bati na cama a meu lado.
        - Ah, gostaria de se sentar?
        - Sim. - Atravessou o quarto, locomovendo-se como um gato gigante. No entanto, ao invs de sentar-se ao meu lado, puxou um banco e sentou-se diante de mim. 
Um pouco sem jeito, ele estendeu os braos e tomou minhas mos entre as suas. Eram mos grandes, de dedos fortes, e muito quente, as costas das mos ligeiramente 
cobertas de cabelos ruivos. Senti um leve choque ao contato e lembrei-me de uma passagem do Velho Testamento: "Pois a pele de Jac era lisa e macia, enquanto seu 
irmo Esa era um homem cabeludo." As mos de Frank eram longas e esbeltas, quase sem cabelos e com uma aparncia aristocrtica. Sempre adorei observ-las quando 
ele fazia uma palestra.
        - Fale-me de seu marido - Jamie disse, como se lesse a minha mente. Quase dei um puxo nas minhas mos, de susto.
        - O qu?
        - Olhe, teremos trs ou quatro dias juntos aqui. Embora eu no tenha a pretenso de saber tudo que h para saber, vivi boa parte da minha vida em uma fazenda 
e, a menos que as pessoas sejam muito diferentes dos outros animais, no vai levar tanto tempo assim para fazermos o que temos que fazer. Temos um pouco de tempo 
para conversar e deixarmos de ter medo um do outro. - Essa avaliao franca de nossa situao relaxou-me um pouco.
        - Voc est com medo de mim? - No parecia. No entanto, talvez estivesse nervoso. Embora no fosse nenhum rapazinho tmido de dezesseis anos, essa era sua 
primeira vez. Ele olhou-me nos olhos e sorriu.
        - Sim. Mais apavorado do que voc, eu acho. E por isso que estou segurando suas mos; para impedir que as minhas tremam. - Eu no acreditei, mas apertei 
suas mos com fora, agradecida.
        -  uma boa idia.  mais fcil conversar enquanto estamos nos tocando. Mas por que voc me perguntou sobre meu marido? - Perguntava-me, um pouco desesperada, 
se ele queria que eu falasse da minha vida sexual com Frank, para saber o que eu esperava dele.
        - Bem, sei que deve estar pensando nele. Seria difcil no estar, nestas circunstncias. No quero que voc jamais pense que no pode falar dele comigo. 
Embora eu seja seu marido agora, e  estranho dizer isso, no  direito que voc deva esquec-lo ou mesmo tentar esquec-lo. Se voc o amava, ele deve ter sido um 
bom homem.
        - Sim, ele... foi. - Minha voz tremia e Jamie acariciou as costas das minhas mos com seus polegares.
        - Ento, terei que fazer o melhor possvel para honrar seu esprito cuidando de sua mulher. - Ergueu minhas mos e beijou cada uma formalmente.
        Clareei a garganta.
        - Foram palavras muito galantes, Jamie. Ele riu repentinamente.
        - Sim. Pensei nisso enquanto Dougal fazia brindes l embaixo. Respirei fundo.
        - Eu tenho umas perguntas - disse. Abaixou os olhos, disfarando um sorriso.
        - Suponho que sim - concordou. - Acho que tem direito a um pouco de curiosidade, nas circunstncias atuais. O que quer saber? - Ergueu os olhos de repente, 
os brilhantes olhos azuis cheios de malcia  luz da lamparina. - Por que ainda sou virgem?
        - H, eu deveria dizer que isso  mais ou menos problema seu - murmurei. Parecia que estvamos ficando mais ntimos de repente e eu libertei uma das minhas 
mos para pegar meu leno. Ao faz-lo, senti algo duro no bolso do meu vestido.
        - Ah, me esqueci! Ainda estou com seu anel. - Tirei-o do bolso e o devolvi a ele. Era um pesado aro de ouro, com um cabocho de rubi incrustado. Em vez de 
recoloc-lo no dedo, abriu a bolsa na cintura e guardou-o.
        - Foi o anel de casamento do meu pai - explicou. - Eu no o uso sempre, mas hoje eu quis homenage-la arrumando-me o melhor possvel. -Ficou ligeiramente 
ruborizado com essa confisso e fingiu estar s voltas para fechar a bolsa.
        - Voc realmente me prestou uma grande homenagem - eu disse, sorrindo involuntariamente. Acrescentar um anel de rubi ao fulgurante esplendor de seu traje 
era desnecessrio, mas fiquei sensibilizada com a vontade de agradar que havia por trs desse gesto.
        -- Vou comprar um que sirva para voc assim que puder - prometeu.
        -- No tem importncia - eu disse, sentindo-me um pouco culpada, quero dizer, afinal, eu pretendia ir embora assim que pudesse.
        - H, tenho uma pergunta importante - eu disse, retomando o fio da meada. - Se no se importar em me dizer. Por que concordou em se casar comigo?
        - Ah. - Soltou minhas mos e endireitou-se um pouco no banco. Parou por um instante antes de responder, alisando o tecido de l sobre suas coxas. Eu podia 
ver a longa linha do msculo rgida sob a prega de tecido grosso.
        - Bem, para comear, eu perderia a oportunidade de conversar com voc - disse, sorrindo.
        - No, de verdade - insisti. - Por qu? Ficou srio.
        - Antes de eu lhe responder, Claire, h uma nica coisa que vou lhe pedir - disse devagar.
        - O que ?
        - Honestidade.
        Devo ter me contrado, porque ele inclinou-se para a frente ansiosamente, as mos nos joelhos.
        - Sei que h coisas que voc gostaria de no me contar, Claire. Talvez coisas que no possa me contar.
        Voc no sabe o quanto est certo, pensei.
        - Jamais vou pression-la, nunca, ou insistir em saber coisas que so apenas suas - disse, seriamente. Abaixou os olhos para as mos, agora pressionadas 
uma contra a outra, palma com palma.
        - H coisas que no posso contar a voc, ao menos no por enquanto. E no lhe peo nada que no me possa dar. Mas o que eu lhe pediria  que, quando realmente 
me contar alguma coisa, que seja verdadeira. E eu prometerei fazer o mesmo. Ns no temos nada entre ns no momento, a no ser, talvez, respeito. E acho que o respeito 
pode ter espao para segredos, mas no para mentiras. Concorda? - Estendeu as mos, palmas para cima, convidando-me. Eu podia ver a linha escura do voto de sangue 
em seu pulso. Coloquei minhas prprias mos de leve sobre as dele.
        - Sim, concordo. Eu serei franca. - Seus dedos fecharam-se suavemente sobre os meus.
        - E eu lhe darei o mesmo. Agora - respirou fundo -, voc perguntou por que me casei com voc.
        - S estou um pouquinho curiosa.
        Ele sorriu, a boca larga assumindo o humor latente nos olhos.
        - Bem, no posso dizer que a culpo. Tive vrias razes. E na realidade, h uma, talvez duas, que no posso lhe contar ainda, embora o faa com o tempo. A 
razo principal, no entanto,  a mesma pela qual voc se casou comigo, imagino; para mant-la a salvo das mos de Jack Randall.
        Estremeci ligeiramente  lembrana do capito e as mos de Jamie apertaram as minhas.
        - Voc est a salvo - ele disse com firmeza. - Tem meu nome e minha famlia, meu cl e, se necessrio, a proteo do meu corpo tambm. O sujeito no vai 
colocar as mos em voc de novo, enquanto eu viver.
        - Obrigada - eu disse. Olhando para aquele rosto forte, jovem, determinado, com as mas do rosto pronunciadas e o maxilar slido, senti pela primeira vez 
que esse esquema absurdo de Dougal podia na verdade ter sido uma idia razovel.
        A proteo do meu corpo. A frase atingiu-me com um impacto particular, ao olhar para ele - os ombros largos e decididos e a lembrana de sua graciosa ferocidade, 
"se exibindo" com a espada  luz da lua. Ele falava a srio; e embora jovem, sabia o que estava dizendo e carregava as cicatrizes como prova. No era mais velho 
do que muitos dos pilotos e dos homens da infantaria de quem eu cuidara e ele sabia to bem quanto eles o preo do compromisso. No era nenhuma promessa romntica 
que ele me fazia, mas a promessa franca de guardar minha segurana ao custo da sua prpria. Eu s esperava poder lhe dar alguma coisa em troca.
        - Isso  muito gentil de sua parte - eu disse, com absoluta sinceridade. - Mas isso valeria, bem, valeria um casamento?
        - Sim - ele disse, balanando a cabea. Sorriu novamente, um pouco melancolicamente desta vez. - Tenho boas razes para conhecer o sujeito, voc sabe. Eu 
no deixaria um cachorro cair nas mos dele se eu pudesse evitar, quanto mais uma mulher indefesa.
        - Que lisonjeiro - observei com uma careta e ele riu. Levantou-se e aproximou-se da mesa perto da janela. Algum, talvez a proprietria, havia oferecido 
um buqu de flores silvestres, arranjado na gua em um copo de usque. Atrs das flores, uma garrafa de vinho e dois copos.
        Jamie serviu dois copos e voltou, entregando-me um e retomando seu lugar.
        - No to bom quanto a reserva especial de Colum - disse com um sorriso -, mas nada mau, tambm. - Ergueu o copo. - A sra. Fraser - disse suavemente e eu 
senti um baque de pnico outra vez. Sufoquei-o com firmeza e ergui meu prprio copo.
        - A honestidade - eu disse, e ambos bebemos.
        - Bem essa  uma das razes - eu disse, abaixando meu copo. - H outras que possa me contar?
        Ele examinou o copo de vinho.
        - Talvez seja apenas que eu queira ir para a cama com voc. - Ergueu os olhos repentinamente. - Pensou nisso?
        Se pretendia me desconcertar, estava conseguindo, mas decidi no demonstrar.
        - Bem, pensou? - ele perguntou corajosamente.
        - Para ser honesta, sim, pensei. - Os olhos azuis continuavam me olhando com firmeza por cima da borda do copo.
        - No precisava casar-se comigo para isso - retorqui.
        Ele pareceu sinceramente escandalizado.
        - No acha que eu a tomaria sem lhe oferecer casamento!
        - Muitos homens o fariam - eu disse, achando graa de sua inocncia. Gaguejou por um instante, parecendo desconcertado. Em seguida, recuperando a serenidade, 
disse com dignidade formal:
        - Talvez eu seja pretensioso em dizer isso, mas gostaria de pensar que no sou "muitos homens" e que no coloco meu comportamento necessariamente no denominador 
comum mais baixo.
        Um pouco emocionada com suas palavras, assegurei-lhe que at agora eu achava seu comportamento tanto gentil quanto elegante e pedi desculpas por qualquer 
dvida que eu inadvertidamente pudesse ter lanado em suas motivaes.
        Com essa observao precariamente diplomtica, fizemos uma pausa enquanto ele enchia nossos copos outra vez.
        Tomamos o vinho em silncio por alguns instantes, ambos sentindo-nos um pouco tmidos aps a franqueza da ltima conversa. Assim, aparentemente havia alguma 
coisa que eu podia lhe oferecer. Eu no poderia, a bem da verdade, dizer que o pensamento no atravessara minha mente, antes mesmo da absurda situao em que havamos 
nos envolvido. Ele era um jovem muito atraente. E houve aquele momento, logo depois da minha chegada ao castelo, quando ele me segurara no colo e...
        Inclinei meu copo e sorvi o ltimo gole. Bati de leve na cama ao meu lado outra vez.
        - Sente-se aqui comigo - eu disse. - E... - vacilei,  procura de algum tpico neutro de conversa para nos deixar mais  vontade, sem o constrangimento da 
proximidade -, fale-me de sua famlia. Onde voc passou a infncia?
        A cama afundou sob seu peso e eu me segurei para no rolar para cima dele. Ele sentou-se perto o suficiente para a manga de sua camisa roar em meu brao. 
Deixei minha mo descansar, aberta e relaxada, sobre a minha coxa. Ele tomou-a naturalmente ao sentar-se e recostamo-nos contra a parede, sem olharmos para nossas 
mos, mas to conscientes da ligao como se fssemos um s.
        - Bem, por onde devo comear? - Colocou seus ps um tanto avantajados sobre o banco, cruzando-os na altura dos tornozelos. Achando engraado, reconheci o 
homem das Highlands instalando-se bem para uma vagarosa dissecao daquele emaranhado de famlia e relaes de cls, que forma o pano de fundo de quase qualquer 
evento significativo nas Highlands escocesas. Frank e eu passamos uma noite no pub da vila, encantados com uma conversa entre dois velhos esquisites, na qual a 
responsabilidade pela recente destruio de um antigo celeiro vinha de longa data, atravs das complexidades de uma rixa de famlias do local, at onde pude deduzir, 
de 1790. Com a espcie de pequenos choques com que j estava ficando acostumada, percebi que essa briga em particular, cujas origens imaginei que estivessem ocultas 
na nvoa do tempo, ainda no havia comeado. Reprimindo a confuso mental que essa percepo causara, forcei minha ateno ao que Jamie dizia.
        - Meu pai era um Fraser,  claro; um meio-irmo mais novo do atual Senhor de Lovat. Mas minha me era uma MacKenzie. Voc sabe que Dougal e Colum so meus 
tios? - Balancei a cabea. A semelhana fsica era evidente, apesar da diferena de cor de pele e cabelos. As mas do rosto salientes, o nariz reto, cinzelado, 
eram uma herana MacKenzie.
        - Sim, bem, minha me era irm deles e havia mais duas irms, alm dela. Minha tia Janet morreu, como minha me, mas minha tia Jocasta casou-se com um primo 
de Rupert e mora perto da margem do lago Eilean. Tia Janet teve seis filhos, quatro meninos e duas meninas, tia Jocasta teve trs, todas meninas, Dougal tem quatro 
meninas, Colum tem apenas o pequeno Hamish e meus pais tiveram eu e minha irm, que tem o nome de minha tia Janet, mas ns sempre a chamamos de Jenny.
        - Rupert tambm  um MacKenzie? - perguntei, j me esforando para compreender a posio de cada um.
        - Sim. Ele ... - Jamie parou um instante, pensativo. - Ele  primo em primeiro grau de Dougal, Colum e Jocasta, o que o torna meu primo em segundo grau. 
O pai de Rupert e meu av Jacob eram irmos, juntamente com...
        - Espere um minuto. No vamos voltar mais do que o necessrio ou vou ficar mais confusa. Ainda nem chegamos nos Fraser e j perdi a pista de seus primos.
        Ele esfregou o queixo, calculando.
        - Humm. Bem, do lado de Fraser,  um pouco mais complicado, porque meu av Simon casou-se trs vezes, de modo que meu pai teve dois conjuntos de meios-irmos 
e meias-irms. Vamos deixar de lado por enquanto que eu tenho seis tios e trs tias Fraser ainda vivos, e deixaremos de fora todos os primos desse grupo.
        - Sim, certo. - Inclinei-me para a frente e servi mais um copo de vinho para cada um de ns.
        Os territrios dos cls MacKenzie e Fraser, como vim a saber, eram vizinhos por alguma distncia, compartilhando a mesma fronteira, correndo lado a lado 
da costa martima e continuando pela parte inferior do lago Ness. Essa fronteira compartilhada, como as fronteiras tendem a ser, era uma linha indefinida e no mapeada, 
indo e vindo de acordo com o tempo, o costume e as alianas. Juntamente com essa fronteira, no extremo sul das terras do cl Fraser, ficava a pequena propriedade 
Broch Tuarach, de Brian Fraser, pai de Jamie.
        -  um solo bastante rico, h uma boa pesca e um bom trecho de floresta para caa. Deve abranger, talvez, sessenta chcaras e a pequena vila, que se chama 
Broch Mordha. Depois h,  claro, a manso. Essa  moderna - disse com certo orgulho. - E h ainda a antiga sede, que usamos agora para os animais e os gros.
        - Dougal e Colum no ficaram nada satisfeitos de sua irm casar-se com um Fraser e insistiram que ela no fosse uma arrendatria nas terras dos Fraser, mas 
que vivesse em uma propriedade livre. Assim, Lallybroch - como as pessoas que moram l a chamam - foi dada a meu pai, mas havia uma clusula na escritura determinando 
que as terras deveriam passar apenas para os filhos de minha me, Ellen. Se ela morresse sem filhos, as terras voltariam para lorde Lovat aps a morte de meu pai, 
quer meu pai tivesse filhos com outra mulher ou no. Mas ele no se casou outra vez e eu sou filho de minha me. Portanto, Lallybroch  minha, qualquer que seja 
o seu valor.
        - Achei que estivesse me dizendo ontem que no possua nenhuma propriedade. - Tomei um gole do vinho, achando-o bastante bom; parecia estar ficando melhor 
a cada vez que o bebia. Achei que talvez fosse melhor parar logo.
        Jamie sacudiu a cabea de um lado para o outro.
        - Bem, pertence a mim, sem dvida. Mas o problema  que no me adianta muito atualmente, j que no posso ir l. - Fez uma expresso de desculpas. - H a 
pequena questo de que minha cabea est a prmio, voc sabe.
        Depois da fuga de Fort William, fora levado para a casa de Dougal, Beannachd (significa Abenoada, explicou), para se recuperar dos ferimentos e da febre 
que provocavam. De l, fora para a Frana, onde passara dois anos lutando no exrcito francs, perto da fronteira com a Espanha.
        - Voc passou dois anos no exrcito francs e continuou virgem? - eu disse intempestivamente, incrdula. Eu tivera muitos franceses sob os meus cuidados 
e duvidava muito que a atitude dos gauleses em relao a mulheres tivesse mudado muito em duzentos anos.
        Um dos cantos da boca de Jamie se retorceu e ele me olhou de esguelha.
        - Se tivesse visto as prostitutas que prestam seus servios ao exrcito francs, Sassenach, voc se admiraria se eu tivesse coragem de tocar em uma mulher, 
que dir ir para a cama com ela.
        Engasguei, cuspindo vinho e tossindo, at que ele foi obrigado a bater nas minhas costas. Consegui me acalmar, ofegante e com o rosto afogueado, insistindo 
para que ele continuasse com sua histria.
        Retornara  Esccia h um ano e pouco e passou seis meses sozinho ou com um bando de "desgarrados" - homens sem cl -, vivendo com o que podia obter na floresta 
ou roubando gado das terras situadas na fronteira.
        - Ento, algum me atingiu na cabea com um machado ou algo parecido - ele disse, estremecendo. - E tenho que aceitar a palavra de Dougal sobre o que aconteceu 
nos dois meses seguintes, j que eu estava quase inconsciente.
        Dougal estava numa propriedade prxima na ocasio do ataque. Chamado pelos amigos de Jamie, ele conseguira transportar o sobrinho para a Frana.
        - Por que a Frana? - perguntei. - Certamente era correr um risco muito grande lev-lo para to longe.
        - Era um risco maior ainda me deixar onde estava. Havia patrulhas de ingleses por toda a regio. Ns estivemos bem ativos por ali, sabe, eu e meus companheiros. 
Suponho que Dougal no quisesse que me encontrassem, inconsciente, na cabana de algum campons.
        - Ou em sua prpria casa - eu disse, um pouco cinicamente.
        - Imagino que ele teria me levado para l, se no fosse por duas coisas - Jamie retrucou. - Primeiro, ele tinha um visitante ingls na poca. Segundo, achou, 
pelo meu estado, que eu iria morrer de qualquer modo, ento me enviou para o mosteiro.
        O Mosteiro de Ste. Anne de Beaupr, na costa francesa, era o domnio, ao que parece, do antigo Alexander Fraser, agora abade daquele santurio de aprendizagem 
e adorao. Um dos seis tios Fraser de Jamie.
        - Ele e Dougal no se do particularmente bem - Jamie explicou -, mas Dougal podia ver que pouco se poderia fazer por mim aqui, ao passo que se houvesse 
possibilidade de me ajudar, seria l.
        E foi. Ajudado pelos conhecimentos mdicos dos monges e por sua prpria constituio fsica forte, Jamie sobrevivera e aos poucos se recuperara, sob os cuidados 
dos santos irmos de St. Dominic.
        - Quando estava bem outra vez, voltei - explicou. - Dougal e seus homens me encontraram na costa e nos dirigamos s terras dos MacKenzie quando ns, h, 
a encontramos.
        - O capito Randall disse que estavam roubando gado - eu disse. Sorriu, imperturbvel diante da acusao.
        - Bem, Dougal no  homem de deixar passar uma oportunidade de ter algum lucro - observou. - Deparamo-nos com um belo rebanho pastando em um campo, sem ningum 
por perto. Assim... - Encolheu os ombros, com uma aceitao fatalstica das circunstncias inevitveis da vida.
        Pelo visto, eu chegara no fim do confronto entre os homens de Dougal e os drages de Randall. Vendo os ingleses em seu encalo, Dougal enviara metade de 
seus homens para contornarem um bosque, tocando o gado  sua frente, enquanto o resto dos escoceses se escondia entre as rvores novas, prontos para emboscar os 
ingleses, quando passassem.
        - Funcionou muito bem - Jamie disse, com aprovao. - Surgimos diante deles e passamos direto pelo meio deles, gritando. Foram atrs de ns,  claro, e ns 
os lanamos em uma perseguio colina acima, atravs de riachos, por cima de rochas e tudo mais. E durante todo o tempo o resto dos homens de Dougal atravessava 
a fronteira com o gado. Deixamos os ingleses para trs e nos abrigamos na cabana onde a vi pela primeira vez, esperando clarear o dia.
        - Compreendo - eu disse. - Mas por que voc voltou para a Esccia? Imagino que estaria muito mais seguro na Frana.
        Ele abriu a boca para responder, depois reconsiderou, tomando um gole de vinho. Aparentemente, eu estava me aproximando perigosamente da fronteira de sua 
prpria rea secreta.
        - Bem, essa  uma longa histria, Sassenach - respondeu, evitando a questo. - Eu lhe contarei mais tarde, mas por enquanto, que tal falarmos de voc? Quer 
me falar de sua prpria famlia? Se achar que pode,  claro - acrescentou apressadamente.
        Pensei por um instante, mas realmente parecia haver pouco risco em contar-lhe sobre meus pais e tio Lamb. Havia, afinal, uma certa vantagem na escolha e 
profisso de tio Lamb. Um estudioso de antigidades fazia tanto - ou to pouco - sentido no sculo XVIII quanto no sculo XX.
        Assim, contei-lhe, omitindo apenas pequenos detalhes como automveis e avies e,  claro, a guerra. Enquanto falava, ele ouvia atentamente, fazendo perguntas 
de vez em quando, demonstrando consternao com a morte de meus pais e interesse em tio Lamb e suas descobertas.
        - E ento conheci Frank - encerrei. Fiz uma pausa, sem saber ao certo o que mais eu poderia contar sem entrar em territrio perigoso. Para minha sorte, Jamie 
me salvou.
        - E voc preferia no falar dele agora - disse, compreensivo. Balancei a cabea sem pronunciar nenhuma palavra, minha viso turvando-se um pouco. Jamie soltou 
minha mo e, passando o brao  minha volta, puxou minha cabea delicadamente para o seu ombro.
        - Tudo bem - disse, acariciando meus cabelos. - Est cansada, Sassenach, quer que a deixe dormir?
        Por um instante, fiquei tentada a dizer que sim, mas senti que seria uma atitude tanto injusta quanto covarde. Limpei a garganta e sentei-me direito na cama, 
sacudindo a cabea.
        - No - disse, respirando fundo. Ele cheirava levemente a sabonete e vinho. - Estou bem. Diga-me... diga-me, quais eram as suas brincadeiras quando voc 
era criana?
        O quarto era equipado com uma grossa vela de doze horas, anis de cera escura marcando as horas. Conversamos durante trs dos anis, somente soltando as 
mos um do outro para servir vinho ou levantando para fazer uma visita ao tamborete privado atrs de uma cortina no canto. Ao retornar de uma dessas visitas, Jamie 
bocejou e espreguiou-se.
        -  muito tarde - eu disse, levantando-me tambm. - Talvez devssemos ir para a cama.
        - Tudo bem - ele disse, esfregando a nuca. - Para a cama? Ou dormir? - Arqueou uma sobrancelha interrogativamente e o canto de sua boca curvou-se.
        Na verdade, eu estava me sentindo to  vontade com ele que quase havia me esquecido do motivo de estarmos ali. Diante dessas palavras, senti um repentino 
pnico.
        - Bem... - eu disse, com voz fraca.
        - Seja como for, no pretende dormir com essa roupa, no ? - perguntou,  sua maneira prtica de sempre.
        - Bem, no, acho que no. - Na realidade, na corrida dos acontecimentos, eu nem pensara numa roupa de dormir especial - que, de qualquer forma, eu no possua. 
Sempre dormia com minha camisola de baixo ou com nada, dependendo da temperatura.
        Jamie no tinha nada alm das roupas que estava usando; obviamente, iria dormir com sua camisa ou nu, uma situao que provavelmente levaria os acontecimentos 
a uma definio rpida.
        - Bem, ento, venha at aqui e eu a ajudarei com essas rendas e laos. Suas mos, de fato, tremiam um pouco quando comeou a me despir.
        Entretanto, perdeu um pouco da inibio na luta com as dezenas de minsculos colchetes que fechavam o corpete.
        - Ha! - exclamou triunfalmente quando o ltimo se soltou e ns dois rimos.
        - Agora, deixe-me ajud-lo - eu disse, decidindo que no fazia sentido continuar adiando. Ergui os braos e desabotoei sua camisa, deslizando minhas mos 
por dentro e pelos seus ombros. Desci as palmas das mos lentamente pelo seu peito, sentindo os cabelos enrolados e as suaves endentaes nas aurolas dos mamilos. 
Ele ficou parado, imvel, mal respirando, enquanto eu ficava de joelhos para desabotoar o cinto tacheado em volta de seus quadris.
        Se tiver que ser em alguma hora,  melhor que seja agora, pensei, e deliberadamente deslizei as mos pelas suas coxas, rgidas e esbeltas sob o kilt. Embora 
a essa altura eu j soubesse muito bem o que a maioria dos escoceses usava por baixo dos kilts - nada - ainda assim era um choque encontrar apenas Jamie.
        Ele me levantou e inclinou-se para beijar-me. Isso continuou por um longo tempo e suas mos caminharam para baixo, encontrando o fecho da a angua. Ela caiu 
no cho, em um monte revolto de babados engomados, deixando-me apenas com a camisola de baixo.
        - Onde aprendeu a beijar assim? - eu disse, um pouco ofegante. Ele exibiu um largo sorriso e puxou-me para junto dele outra vez.
        - Eu disse que era virgem, no um monge - respondeu, beijando-me outra vez. - Se eu achar que preciso de orientao, pedirei.
        Pressionou-me com firmeza contra seu corpo e pude sentir que ele estava mais do que pronto para continuar com o assunto em pauta. Com alguma surpresa, percebi 
que eu tambm estava pronta. De fato, quer fosse o resultado da hora, tarde da noite, do vinho, de sua atrao ou simplesmente de privao, eu tambm o desejava 
ardentemente.
        Soltei sua camisa  cintura e deslizei minhas mos para cima, pelo seu peito, acariciando seus mamilos com meus polegares. Enrijeceram-se no mesmo instante 
e ele repentinamente me esmagou contra seu peito.
        - Uuuf! - eu disse, esforando-me para respirar. Soltou-me, desculpando-se.
        - No, no se preocupe; beije-me outra vez. - Ele o fez, dessa vez abaixando as alas da minha camisola pelos meus ombros. Recuou ligeiramente, segurando 
meus seios nas mos e acariciando os mamilos como eu fizera com ele. Tentei abrir a fivela que segurava seu kilt; seus dedos guiaram os meus e a fivela soltou-se.
        De repente, ele me ergueu nos braos e sentou-se na cama, segurando-me em seu colo. Falou com a voz rouca.
        - Diga-me se eu estiver sendo muito rude ou diga-me para parar, se quiser. A qualquer momento, at estarmos unidos; no acho que consiga parar depois disso.
        Em resposta, passei meus braos pelo seu pescoo e o puxei para cima de mim. Guiei-o para a fenda escorregadia entre minhas pernas.
        - Deus do Cu - disse James Fraser, que nunca usava o santo nome de Deus em vo.
        - No pare agora - eu disse.
        Deitados lado a lado depois, pareceu-lhe natural aconchegar minha cabea em seu peito. Ns nos encaixvamos bem e a maior parte de nosso constrangimento 
inicial desaparecera, perdido em uma excitao compartilhada e na novidade de explorar um ao outro.
        - Foi como voc esperava que fosse? - perguntei com curiosidade. Ele riu baixinho, provocando uma ressonncia profunda em meu ouvido.
        - Quase. Eu pensei... nada, no tem importncia.
        - No, diga-me. O que achou?
        - No vou lhe dizer. Vai rir de mim.
        - Prometo no rir. Diga-me. - Acariciou meus cabelos, alisando os cachos para trs de minha orelha.
        - Ah, est bem. Eu no havia percebido que era feito cara a cara. Achei que fosse por trs, como... como os cavalos, sabe.
        Foi difcil cumprir minha promessa, mas no ri.
        - Sei que parece tolice - disse defensivamente. -  que... bem, voc sabe como a gente coloca idias na cabea quando se  garoto e depois elas permanecem 
l?
        - Voc nunca viu pessoas fazendo amor? - Fiquei surpresa com esta revelao, tendo visto as cabanas dos camponeses, onde toda a famlia compartilhava um 
nico quarto. Embora a famlia de Jamie no fosse de camponeses, ainda assim deveria ser uma rara criana escocesa que nunca acordou e viu seus pais fazendo amor 
ali perto.
        - Claro que sim, mas geralmente sob as cobertas. Eu no podia ver nada, exceto que o homem ficava por cima. Isso eu sabia.
        - Hummm. Eu reparei.
        - Eu a esmaguei? - perguntou, um pouco ansioso.
        - No muito. Mas, realmente, era isso que voc pensava? - No ri, mas no pude deixar de abrir um amplo sorriso. Ele ficou ligeiramente vermelho em volta 
das orelhas.
        - Sim. Eu vi um homem pegar uma mulher, uma vez, a cu aberto. Mas aquilo... bem, foi um estupro,  o que foi, e ele a pegou por trs. Me deixou impressionado 
e, como eu disse, a idia se fixa.
        Continuava me abraando, usando sua tcnica de amansar cavalos outra vez. Aos poucos, entretanto, mudou para uma explorao mais determinada.
        - Quero lhe perguntar uma coisa - ele disse, correndo a mo pelas minhas costas.
        - O que ?
        - Voc gostou? - perguntou, um pouco timidamente.
        - Sim, gostei - eu disse, com absoluta honestidade.
        - Ah. Achei que sim, embora Murtagh tenha me dito que as mulheres em geral no gostam muito disso, de modo que eu deveria acabar o mais rpido possvel.
        - E o que Murtagh saberia a respeito disso? - perguntei, indignada. -Quanto mais devagar, melhor, no que diz respeito  maioria das mulheres. -- Jamie deu 
outra risadinha.
        - Bem, voc deve saber melhor do que Murtagh. Recebi muitos conselhos sobre o assunto ontem  noite, de Murtagh, Rupert e Ned. Boa Parte me pareceu muito 
improvvel e, assim, resolvi que era melhor usar meu prprio discernimento.
        - At agora no o orientou errado - eu disse, enrolando um dos cabelos do seu peito em torno do meu dedo. - Que outras prolas de sabedoria eles lhe deram? 
- A pele dele era de um dourado ruivo  luz de vela; Para meu divertimento, ele ficou ainda mais vermelho.
        - Eu no poderia repetir a maior parte. Como eu disse, acho que provavelmente estavam errados, de qualquer forma. J vi muitos animais acasalarem-se e a 
maioria parece saber o que fazer sem precisar de nenhum conselho. Suponho que as pessoas possam fazer o mesmo.
        Particularmente, achei engraada a idia de algum obter indicaes de tcnicas sexuais do quintal e da floresta, ao invs de vestirios e revistas especializadas.
        - Que tipos de animais voc viu se acasalando?
        - Ah, todos os tipos. Nossa fazenda ficava ao lado de uma floresta, sabe, e eu passava boa parte do tempo l, caando ou procurando vacas extraviadas e coisas 
assim. Vi cavalos e vacas,  claro, porcos, galinhas, pombos, cachorros, gatos, cervos, esquilos, coelhos, javalis, ah, e uma vez at um casal de cobras.
        - Cobras?
        - Sim. Sabia que as cobras tm dois rgos sexuais? As cobras macho, quero dizer.
        - No, no sabia. Tem certeza?
        - Sim, e ambos bifurcados, assim. - Afastou os segundo e terceiro dedos, ilustrando.
        - Parece muito desconfortvel para a cobra fmea - eu disse, rindo.
        - Bem, ela parecia estar se divertindo - Jamie disse. - At onde eu podia ver; as cobras no tm muita expresso na cara.
        Enterrei a cabea em seu peito, resfolegando com a risada abafada. Seu agradvel cheiro de almscar misturava-se ao aroma pungente do linho.
        - Tire a camisa - eu disse, sentando-me e puxando a bainha de sua roupa.
        - Por qu? - perguntou, mas sentou-se e obedeceu. Ajoelhei-me diante dele, admirando seu corpo nu.
        - Porque eu quero olhar para voc - eu disse. Ele tinha uma bela constituio, de ossos longos e graciosos e msculos lisos que fluam suavemente das curvas 
do peito e dos ombros para as ligeiras concavidades da barriga e das coxas. Ergueu as sobrancelhas.
        - Muito bem, vamos ser justos. Agora, tire as suas. - Estendeu os braos e ajudou-me a sair de minha camisola amassada, puxando-a pelas minhas pernas. Depois 
de tir-la, segurou-me pela cintura, analisando-me com intenso interesse. Quase fiquei constrangida enquanto ele me examinava.
        - Nunca viu uma mulher nua antes? - perguntei.
        - Sim, mas nunca to de perto. - Seu rosto abriu-se num largo sorriso.
        - E no uma que fosse minha. - Acariciou meus quadris com as duas mos.
        - Voc tem bons quadris largos; daria uma boa reprodutora, eu acho.
        - O qu!? - Afastei-me, indignada, mas ele me puxou de volta e deixou-se cair de costas, puxando-me para cima dele. Segurou-me at eu parar de me debater, 
depois me ergueu o suficiente para encontrar seus lbios outra vez.
        - Sei que uma vez  o suficiente para tornar o casamento legal, mas... - Parou, encabulado.
        - Quer fazer de novo?
        - Voc se importaria muito?
        Tambm no ri desta vez, mas senti minhas costelas estalarem sob o peso.
        - disse, com seriedade. - No me importaria.
        - Est com fome? - perguntei em voz baixa, algum tempo depois.
        - Faminto. - Inclinou a cabea para morder de leve meu seio, em seguida ergueu os olhos com um sorriso. - Mas tambm preciso de comida. - Rolou para a beira 
da cama. - H po e carne na cozinha, espero, e provavelmente vinho tambm. Vou trazer alguma coisa para nossa ceia.
        - No, no se levante. Eu vou buscar. - Saltei da cama e me dirigi para a porta, jogando um xale por cima da minha camisola por causa do frio no corredor.
        - Espere, Claire! - Jamie chamou. -  melhor deixar que eu... - Mas eu j abrira a porta.
        Minha apario  porta foi saudada com uma retumbante ovao de uns quinze homens, descansando em volta da lareira no salo principal embaixo, bebendo, comendo 
e jogando dados. Fiquei parada, perplexa, apoiada no parapeito por um instante, quinze rostos maliciosos, tremeluzindo das sombras provocadas pelo fogo na lareira, 
voltados para mim.
        - Ei, dona! - gritou Rupert, um deles. - Ainda est conseguindo andar? Ento Jamie no est fazendo o servio direito?
        Esse gracejo foi acompanhado de estrondosas gargalhadas e diversos comentrios ainda mais grosseiros relativos  percia de Jamie.
        - Se j deixou Jamie exausto, terei prazer em assumir o lugar dele! - ofereceu-se um jovem baixo, de cabelos escuros.
        -- No, no, ele no  bom, dona, fique comigo! - gritou um outro.
        - Ela no vai escolher nenhum de vocs, rapazes! - gritou Murtagh, completamente bbado. - Depois de Jamie, ela vai precisar de algo assim Para satisfaz-la! 
- Brandiu um enorme osso de carneiro acima da cabea, fazendo o salo estremecer com as gargalhadas.
        Girei nos calcanhares e voltei para o quarto, bati a porta e fiquei parada com as minhas costas na porta, olhando espantada para Jamie, deitado nu na cama, 
sacudindo-se de rir.
        - Eu tentei avis-la - ele disse, ofegante. - Devia ver sua cara!
        - Exatamente o que todos aqueles homens esto fazendo l fora?
        Jamie deslizou graciosamente de nosso leito nupcial e comeou a vasculhar de joelhos a pilha de roupas atiradas ao cho.
        - Testemunhas - disse laconicamente. - Dougal no vai correr nenhum risco deste casamento ser anulado. - Levantou-se com seu kilt nas mos, rindo para mim, 
enquanto o enrolava em torno dos quadris. - Acho que a sua reputao est irremediavelmente perdida, Sassenach.
        Comeou a se dirigir para a porta, sem camisa.
        - No v l fora! - eu disse, tomada de pnico. Ele virou-se para me dar um sorriso tranqilizador.
        - No se preocupe, Sassenach. Se eles so testemunhas,  melhor que vejam alguma coisa. Alm disso, no tenho a menor inteno de passar fome pelos prximos 
trs dias por medo de um pouco de caoada.
        Saiu do quarto para um couro de exclamaes obscenas, deixando a porta entreaberta. Eu podia ouvir seu progresso em direo  cozinha, pontuado por gritos 
de congratulaes e perguntas e conselhos irreverentes.
        - Como foi sua primeira vez, Jamie? Voc sangrou? - gritou a voz spera, facilmente identificvel, de Rupert.
        - No, mas voc vai, velho flho-da-me, se no calar a boca - veio a resposta afiada de Jamie em carregado sotaque escocs. Urros de satisfao saudaram 
a pilhria e a zombaria continuou, seguindo Jamie pelo corredor at a cozinha e de volta pelas escadas.
        Abri um pouco mais a porta para deixar Jamie entrar, o rosto vermelho como o fogo e as mos carregadas de comida e bebida. Entrou de lado, seguido por uma 
exploso final de gargalhadas vinda do salo. Abafei-a com uma decidida pancada da porta e da tranca.
        - Trouxe o suficiente para no precisarmos sair por um bom tempo -Jamie disse, colocando pratos sobre a mesa, evitando cuidadosamente me olhar. - Quer um 
pouco?
        Estendi o brao para alm dele e peguei a garrafa de vinho.
        - Agora no. O que eu preciso  de um drinque.
        Havia uma poderosa urgncia nele que me excitava e me levava a corresponder, apesar de sua falta de experincia. No querendo dar aula nem ressaltar minha 
prpria experincia, deixava-o agir como achava melhor, apenas oferecendo uma ou outra sugesto, como colocar seu peso nos cotovelos e no sobre meu peito.
        Embora ainda faminto e desajeitado demais para ternura, ele fazia amor com uma espcie de incansvel alegria que me fazia pensar que a virgindade masculina 
devia ser um bem altamente subestimado. No entanto, ele demonstrava uma preocupao com minha segurana que eu achava ao mesmo tempo atraente e irritante.
        Em certo momento, em nossa terceira vez, curvei-me contra ele e gritei. Ele recuou imediatamente, surpreso e pedindo desculpas.
        - Sinto muito - disse. - No quis machuc-la.
        - No machucou. - Espreguicei-me languidamente, sentindo-me maravilhosamente bem.
        - Tem certeza? - disse, inspecionando-me para verificar se havia algum dano. De repente, ocorreu-me que alguns pontos mais refinados haviam sido deixados 
de fora de sua apressada educao sexual a cargo de Murtagh e Rupert.
        - Isso acontece toda vez? - perguntou, fascinado, depois que o esclareci. Sentia-me como a Mulher de Bath ou uma gueixa japonesa. Nunca me visualizara como 
instrutora nas artes do amor, mas tinha que admitir a mim mesma que o papel tinha seus atrativos.
        - No, no toda vez - eu disse, achando graa. - Somente quando o homem  um bom amante.
        - Ah. - Suas orelhas ficaram levemente rosadas. Fiquei um pouco alarmada ao ver o olhar de franco interesse ser substitudo por outro de crescente determinao.
        - Voc me dir o que fazer da prxima vez? - perguntou.
        - Voc no tem que fazer nada especial - assegurei-lhe. - Apenas v devagar e preste ateno. Por que esperar, ento? Voc ainda est pronto.
        Ele ficou surpreso.
        - Voc no precisa esperar? Eu no posso fazer isso de novo logo depois.
        - Bem, as mulheres so diferentes.
        - Ah, eu notei - murmurou.
        Envolveu meu pulso com o indicador e o polegar.
        -  que... voc  to pequena. Tenho medo de machuc-la.
        - Voc no vai me machucar - eu disse impacientemente. - E se machucasse, eu no me importaria. - Vendo a perplexidade e incompreenso em seu rosto, resolvi 
mostrar-lhe o que eu queria dizer.
        - O que est fazendo? - perguntou, chocado.
        - Exatamente o que est vendo. Fique imvel. - Aps alguns instantes, comecei a usar os dentes, pressionando cada vez com mais fora, at ele prender a respirao 
com um som agudo e sibilante. Parei.
        - Eu o machuquei? - perguntei.
        - Sim. Um pouco. - Sua voz parecia estrangulada. -- Quer que eu pare?
        - No!
        Continuei, sendo deliberadamente rude, at que ele teve uma sbita convulso, com um gemido que parecia que eu havia arrancado seu corao do peito. Ficou 
deitado de costas, tremendo e respirando pesadamente. Murmurou alguma coisa em galico, os olhos fechados.
        - O que disse?
        - Eu disse - respondeu, abrindo os olhos - que eu achei que meu corao fosse explodir.
        Sorri, satisfeita comigo mesma.
        - Ah, Murtagh e companhia no lhe contaram sobre isso tambm no ?
        - Sim, contaram. Foi uma das coisas em que no acreditei.
        Ri.
        - Nesse caso, talvez seja melhor voc me contar o que mais eles lhe disseram. Mas viu o que eu quis dizer sobre no me importar se voc for um pouco rude?
        - Sim. - Inspirou fundo e expirou lentamente. - Se eu fizesse o mesmo com voc, sentiria a mesma coisa?
        - Bem, sabe - eu disse, devagar -, na realidade, no sei. - Eu estava fazendo o possvel para manter meus pensamentos sobre Frank afastados, achando que 
no deveria haver mais do que duas pessoas na cama de um casal, independente de como foram parar ali. Jamie era muito diferente de Frank, tanto no corpo quanto na 
mente, mas na verdade h apenas um nmero limitado de maneiras em que dois corpos podem se unir e ns ainda no havamos estabelecido esse territrio de intimidade 
no qual o ato de amor assume variedades infinitas. Os clamores da carne eram inevitveis, mas havia alguns territrios ainda inexplorados.
        As sobrancelhas de Jamie arquearam-se numa expresso de zombeteira ameaa.
        - Ah, quer dizer que existe algo que voc no sabe? Bem, ns descobriremos, no ? Assim que eu tiver foras para isso. - Fechou os olhos novamente. - Em 
algum momento da semana que vem.
        Acordei pouco antes do amanhecer, tremendo e paralisada de terror. No consegui me lembrar do sonho que me acordou, mas o brusco mergulho na realidade foi 
igualmente assustador. Tinha sido possvel esquecer minha situao por algum tempo na noite anterior, abandonada aos prazeres de uma intimidade recm-encontrada. 
Agora eu estava sozinha, ao lado de um estranho adormecido, a quem minha vida estava inexplicavelmente ligada,  deriva em um lugar repleto de ameaas ocultas.
        Devo ter emitido algum som de angstia, pois houve uma repentina convulso de cobertas quando o estranho em minha cama saltou para o cho com a assustadora 
instantaneidade de um faiso que ala vo sob os seus ps. Pousou, agachado, perto da porta do quarto, quase invisvel na meia-luz que precede o alvorecer.
        Parando para ouvir atentamente junto  porta, ele fez uma rpida inspeo do quarto, planando silenciosamente da porta para a janela e para a cama. O ngulo 
de seu brao dizia-me que segurava uma arma de alguma espcie, embora no a pudesse ver na escurido. Sentando-se ao meu lado, satisfeito de ver que tudo estava 
em segurana, guardou a faca ou o que quer que fosse no seu esconderijo acima da cabeceira.
        - Voc est bem? - sussurrou. Seus dedos roaram meu rosto suado.
        - Sim. Desculpe-me por t-lo acordado. Tive um pesadelo. Que diabos... - comecei a perguntar o que o fizera saltar to bruscamente.
        Sua mo grande e quente deslizou pelo meu brao nu, interrompendo minha pergunta.
        - No  de admirar; voc est congelada. - A mo me empurrou para baixo da pilha de colchas e para o espao -aquecido recentemente desocupado. - Minha culpa 
- murmurou. - Tirei todas as cobertas. Acho que ainda no estou acostumado a compartilhar uma cama. - Envolveu as cobertas confortavelmente ao nosso redor e deitou-se 
de costas ao meu lado. Um momento depois, estendeu a mo para tocar meu rosto de novo.
        - Sou eu? - ele perguntou em voz baixa. - Voc no pode me suportar? Dei uma risadinha engasgada, quase um soluo.
        - No, no  voc. - Estendi a mo no escuro, tateando em busca de sua mo para pression-la de maneira tranqilizadora. Meus dedos encontraram um emaranhado 
de colchas e corpo aquecido, mas finalmente encontrei a mo que procurava. Ficamos deitados, lado a lado, olhando para o teto baixo de vigas grossas.
        - E se eu dissesse que no podia suport-lo? - perguntei de repente. -O que voc poderia fazer? - A cama rangeu quando ele encolheu os ombros.
        - Dizer a Dougal que voc queria uma anulao com base na no-consumao, suponho.
        Desta vez, ri sem me conter.
        - No-consumao! Com todas essas testemunhas?
        O quarto estava comeando a ficar claro o suficiente para ver o sorriso voltado para mim.
        - Ah, bem, com ou sem testemunhas, somente eu e voc podemos dizer com certeza, no ? E eu preferia ficar constrangido do que casado com algum que me odiasse.
        Virei-me para ele.
        -- Eu no odeio voc.
        -- Eu tambm no a odeio. E h muitos casamentos que comearam com menos do que isso.
        Delicadamente, ele virou-me de costas e encaixou-se em minhas costas, de modo que ficssemos aninhados um no outro. Sua mo segurou meu seio, no como um 
convite ou uma exigncia, mas porque parecia ser ali o lugar dela.
        - No tenha medo - sussurrou em meu ouvido. - Agora somos dois.
        Senti-me aquecida, acalmada e segura pela primeira vez em muitos dias. Somente quando comeava a adormecer sob os primeiros raios da luz do dia  que me 
lembrei da faca acima de minha cabea e me perguntei outra vez que ameaa faria um homem dormir armado e alerta no seu quarto de npcias?
        
        
        
16 - UM BELO DIA
        
        A intimidade arduamente conquistada da noite pareceu ter evaporado com o orvalho e havia um considervel constrangimento entre ns pela manh. Aps um desjejum 
praticamente em silncio feito em nosso prprio quarto, subimos a pequena colina atrs da estalagem, trocando gentilezas um pouco formais de vez em quando.
        No topo da colina, sentei-me em um tronco de rvore para descansar, enquanto Jamie sentava-se no cho, as costas apoiadas em um pinheiro novo, a alguns passos 
de distncia. Algum pssaro agitava-se num arbusto atrs de mim, um pintassilgo, creio, ou talvez um tordo. Fiquei ouvindo seus trinados indolentes, observando as 
nuvenzinhas fofas passarem flutuando e considerando a situao.
        O silncio estava se tornando realmente difcil de suportar, quando Jamie disse repentinamente:
        - Espero... - Parou e ruborizou-se. Embora eu sentisse que eu  quem deveria ruborizar-se, fiquei contente de que pelo menos um de ns fosse capaz de faz-lo.
        - O qu? - perguntei, da forma mais encorajadora possvel. Ele sacudiu a cabea, ainda corado.
        - No foi nada.
        - Fale. - Estendi a perna e cutuquei sua coxa com a ponta do p. - Honestidade, lembra-se? - Era injusto, mas eu realmente no podia mais suportar olhares 
nervosos e pigarros na garganta.
        Suas mos entrelaadas apertaram-se em volta dos joelhos e ele balanou-se um pouco, mas fixou o olhar diretamente em mim.
        - Eu ia dizer - falou suavemente - que eu esperava que o homem que teve a honra de se deitar com voc pela primeira vez tenha sido to generoso quanto voc 
foi comigo. - Sorriu, um pouco timidamente. - Mas, pensando melhor, no soava muito bem. O que eu queria dizer... bem,
        Tudo que eu queria dizer era obrigado.
        -- Generosidade no teve nada a ver com isso! - retruquei, olhando Para baixo e limpando energicamente uma mancha inexistente do meu vestido. Uma bota grande 
intrometeu-se no meu reduzido campo de viso e cutucou meu tornozelo.
        - Honestidade, hein? - repetiu e eu ergui os olhos, deparando-me com Par de sobrancelhas arqueadas com ironia, acima de um largo sorriso.
        - Bem - eu disse, na defensiva -, no depois da primeira vez, de qualquer modo. - Ele riu e eu descobri para meu horror que eu mesma no estava imune ao 
rubor, afinal de contas.
        Uma sombra fria caiu sobre meu rosto afogueado e um par de mos fortes e grandes segurou as minhas com fora e colocou-me de p. Jamie tomou meu lugar no 
tronco e bateu no joelho, convidativamente.
        - Sente-se - disse.
        Obedeci relutantemente, mantendo o rosto desviado. Ele ajeitou-me confortavelmente contra seu peito e passou os braos em torno da minha cintura. Senti as 
batidas fortes e regulares de seu corao contra as minhas costas.
        - Bem, vejamos - ele disse. - Se ainda no conseguimos conversar  vontade sem nos tocarmos, vamos nos tocar um pouco. Diga-me quando estiver acostumada 
comigo outra vez. - Inclinou-se para trs para que ficssemos na sombra de um carvalho e me apertou contra ele sem falar, apenas respirando devagar, de modo que 
eu sentia seu peito subir e descer e o seu hlito nos meus cabelos.
        - Tudo bem - eu disse, aps alguns instantes.
        - timo. - Afrouxou os braos e virou-se para olhar diretamente para mim. Assim de perto, eu podia ver os plos ruivos, curtos e eriados, da barba por fazer, 
no rosto e no queixo. Deslizei os dedos por eles; eram como a pelcia de um sof antigo, rgidos e macios ao mesmo tempo.
        - Desculpe-me - ele disse -, no pude me barbear hoje de manh. Dougal me deu uma navalha antes do casamento ontem, mas pegou-a de volta. Com receio que 
eu cortasse a minha garganta depois da noite de npcias, eu acho. - Riu para mim e eu sorri de volta.
        A referncia a Dougal me fez lembrar de nossa conversa na noite anterior.
        - Eu estava pensando... ontem  noite, voc disse que Dougal e seus homens foram ao seu encontro na costa quando voc voltou da Frana. Por que voc voltou 
com ele, ao invs de ir para sua prpria casa ou para as terras dos Fraser? Quero dizer, da maneira como Dougal o tratou... -deixei a frase morrer, hesitante.
        - Ah - ele disse, remexendo as pernas para acomodar meu peso mais uniformemente. Eu quase podia ouvi-lo pensando consigo mesmo. Decidiu-se com bastante rapidez.
        - Bem,  algo que voc deve saber, eu creio. - Franziu a testa consigo mesmo. - Eu lhe contei porque sou um fora-da-lei. Bem, durante tempo depois... depois 
que deixei o forte, no me importava muito... nada. Meu pai morreu nessa poca e minha irm... - Parou outra vez e senti que travava uma luta interna. Girei o corpo 
para olhar para ele. O rosto normalmente alegre estava sombrio por alguma emoo forte.
        - Dougal me contou - disse devagar -, Dougal me contou que... que minha irm ficou grvida. De Randall.
        - Ah, meu Deus.
        Olhou-me de vis, desviando o olhar em seguida. Seus olhos brilhavam como safiras e piscou apressadamente uma ou duas vezes.
        - Eu... eu no consegui foras para voltar - disse, em voz baixa. - V-la outra vez, depois do que acontecera. Alm disso - suspirou, apertando os lbios 
em seguida -, Dougal me disse que ela... que depois que a criana nasceu, ela... bem,  claro, ela no teve escolha; estava sozinha... droga, eu a deixei sozinha! 
Ele disse que ela estava morando com outro soldado ingls, algum da guarnio, no sabia quem.
        Engoliu com dificuldade, depois continuou com mais firmeza.
        - Enviei para ela todo o dinheiro que pude,  claro, mas no pude... bem, no consegui escrever para ela. O que eu poderia dizer? - Encolheu os ombros, desamparadamente.
        - Bem, de qualquer modo, aps algum tempo cansei-me de viver como soldado na Frana. E fiquei sabendo por meio do meu tio Alex que ele ouvira falar de um 
desertor ingls, de nome Horrocks. O sujeito deixara o exrcito e fora trabalhar para Francis MacLean, de Dunweary. Estava bbado um dia e deixou escapar que estava 
servindo na guarnio em Fort William quando eu fugi. E ele tinha visto o homem que atirou no sargento-mor naquele dia.
        - Ento, ele podia provar que no foi voc! - Parecia ser uma boa notcia e eu disse isso a Jamie. Ele balanou a cabea.
        - Bem, sim. Embora a palavra de um desertor provavelmente no teria muito valor. Ainda assim,  um comeo. Ao menos, eu mesmo saberia quem foi. E enquanto 
eu... bem, no vejo como eu possa voltar a Lallybroch; seria bom que eu pudesse andar pela Esccia sem o risco de ser enforcado.
        - Sim, parece uma boa idia - eu disse secamente. - Mas onde entram os MacKenzie nesta histria?
        Seguiu-se uma certa dose de complicada anlise de relaes familiares e alianas de cls, mas quando a fumaa se dispersou, pareceu que Francis MacLean tinha 
alguma conexo com o lado dos MacKenzie e informara Colum a respeito de Horrocks, que ento enviou Dougal para fazer contato com Jamie.
        - Foi assim que aconteceu de ele estar por perto quando fui ferido -Jamie concluiu. Parou, apertando os olhos contra o sol. - Perguntei-me, depois, sabe, 
se talvez ele mesmo no tenha feito isso.
        Golpe-lo com um machado? Seu prprio tio? Por que, pelo amor de Deus, ele haveria de fazer isso!?
        Ele franziu o cenho como se avaliasse quanto deveria me contar, dePois encolheu os ombros.
        - No sei o quanto voc sabe sobre o cl MacKenzie - disse -, embora imagino que no possa ter cavalgado com o velho Ned Gowan durante dias sem ouvir alguma 
coisa. Ele no consegue fugir do assunto por muito tempo.
        Balanou a cabea diante do meu sorriso de confirmao.
        - Bem, voc viu Colum. Qualquer um pode ver que ele no vai viver at uma idade avanada. E o pequeno Hamish tem apenas oito anos; no poder liderar um 
cl ainda por uns dez anos. Ento, o que acontece se Colum morre antes de Hamish estar preparado? - Olhou para mim, aguardando a resposta.
        - Bem, Dougal seria o chefe do cl, eu creio - respondi devagar -, ao menos at que Hamish atinja a idade certa.
        - Sim,  verdade. - Jamie assentiu. - Mas Dougal no tem a capacidade de Colum e h aqueles no cl que no o seguiriam com satisfao, se houvesse uma alternativa.
        - Compreendo - eu disse lentamente -, e voc  essa alternativa. Analisei-o cuidadosamente e tive que admitir que havia uma certa possibilidade ali. Ele 
era neto do velho Jacob; um MacKenzie de sangue, ainda que pelo lado de sua me. Um rapaz forte, atraente, bem-educado, inteligente e com o jeito da famlia para 
lidar com pessoas. Lutara na Frana e provara sua capacidade de liderar homens numa batalha; uma considerao importante. Nem mesmo o prmio por sua cabea poderia 
ser um obstculo intransponvel, se ele fosse o chefe dos MacKenzie.
        Os ingleses j tinham problemas suficientes nas Highlands, com pequenas e constantes rebelies, incurses pelas fronteiras e cls em guerra, para no se 
arriscar a provocar um levante de grandes propores acusando o chefe de um grande cl de assassinato - que para os membros do cl no seria, de forma alguma, considerado 
assassinato.
        Enforcar um membro sem importncia do cl Fraser era uma coisa; invadir o Castelo Leoch e arrastar o senhor do cl MacKenzie para enfrentar a justia inglesa 
era inteiramente diferente.
        - Voc pretende ser o chefe, se Colum morrer? - Afinal, seria uma maneira de sair de suas dificuldades, embora eu suspeitasse que seria um caminho repleto 
de seus prprios e considerveis obstculos.
        Ele sorriu diante da idia.
        - No. Ainda que me sentisse no direito, o que no sinto, isso dividiria o cl, os homens de Dougal contra aqueles que me seguissem. No tenho o gosto do 
poder  custa do sangue de outros homens. Mas Dougal e Colum no poderiam saber disso, no ? Assim, devem ter achado mais fcil me matar do que correr o risco.
        Minha testa estava franzida, tentando compreender todas as implicaes.
        - Mas sem dvida voc poderia dizer a Dougal e Colum que no pretende... ah. - Ergui os olhos para ele com considervel respeito. - Mas voc fez isso. No 
juramento.
        Eu j havia considerado como ele lidara bem com uma situao perigosa ali; agora eu via exatamente o quanto era perigosa. Os homens do cl sem dvida queriam 
que ele fizesse o juramento; assim como Colum no queria. Fazer aquele juramento era declarar-se um membro do cl MacKenzie e, como tal, um candidato em potencial 
a chefe do cl. Ele arriscava-se  violncia ou  morte por se recusar; corria o mesmo risco, mais particularmente, por concordar.
        Vendo o perigo, tomara a prudente deciso de ficar longe da cerimnia. E quando eu, por minha estropiada tentativa de fuga, o levei de volta  beira do abismo, 
ele pisara com firmeza e segurana numa fina corda bamba e atravessara para o outro lado. Je suis prest, de fato.
        Balanou a cabea, vendo os pensamentos cruzarem meu rosto.
        - Sim. Se eu tivesse feito o juramento naquela noite, provavelmente no chegaria a ver a luz do dia.
        Senti-me um pouco abalada com a idia, assim como o conhecimento de que eu, inadvertidamente, o expusera a tal perigo. A faca acima da cama de repente no 
pareceu nada alm do que uma sensata precauo. Imaginei quantas noites ele teria dormido armado em Leoch, esperando a visita da morte.
        - Sempre durmo armado, Sassenach - disse, embora eu no tivesse falado. - Exceto no monastrio, ontem foi a primeira noite em meses que no dormi com minha 
adaga na mo. - Riu, obviamente lembrando-se do que estava em sua mo ao invs da arma.
        - Como diabos voc sabia o que eu estava pensando? - perguntei, ignorando o sorriso. Sacudiu a cabea, bem-humorado.
        - Voc seria uma espi muito ruim, Sassenach. Tudo que voc pensa transparece no seu rosto, claro como o dia. Voc olhou para minha adaga e ficou ruborizada. 
- Analisou-me, de forma avaliadora, a cabeleira brilhante de lado. - Ontem  noite, eu pedi honestidade, mas no era realmente necessrio; voc no sabe mentir.
        - Muito bem, j que aparentemente sou to ruim nisso - observei com certa aspereza -, devo presumir que ao menos voc no ache que sou uma espi?
        No respondeu. Olhava por cima do meu ombro em direo  estalagem, o corpo repentinamente tenso como a corda de um arco. Fiquei assustada por um instante, 
mas logo ouvi os sons que haviam atrado sua ateno. O baque surdo de cascos e o chocalhar estridente dos arreios; um grande grupo de homens a cavalo descia a estrada 
em direo  estalagem.
        Movendo-se cautelosamente, Jamie agachou-se atrs de uma cortina de arbustos, em um ponto de onde avistava a estrada. Prendi minhas saias e arrastei-me atrs 
dele o mais silenciosamente possvel.
        A estrada fazia uma curva fechada depois de um afloramento de rochas e, em seguida, outra curva mais sinuosa em direo ao estreito vale onde ficava a estalagem. 
A brisa matinal trazia em nossa direo os sons do grupo que se aproximava, mas passou-se um ou dois minutos antes que o primeiro cavalo despontasse em nosso campo 
de viso.
        Era um grupo de vinte a trinta homens, a maioria usando calas justas de couro e vestidos com seus tarts, numa variedade de cores e padres de xadrez. Todos, 
sem exceo, muito bem armados. Cada cavalo carregava ao menos um mosquete amarrado  sela e havia uma abundncia de pistolas, adagas e espadas  vista, alm de 
outros armamentos que podiam estar escondidos nos espaosos alforjes dos quatro cavalos de carga. Seis dos homens ainda levavam montarias extras, sem carga e sem 
sela.
        Apesar dos apetrechos de guerra, os homens pareciam relaxados; conversavam e riam em pequenos grupos enquanto cavalgavam, embora aqui e ali uma cabea se 
erguesse, vigilante, examinando os arredores. Contive o impulso de agachar-me quando o olhar de um dos homens passou por cima do local onde estvamos escondidos; 
certamente aquele olhar perscrutador descobriria algum movimento aleatrio ou o reflexo do sol nos cabelos de Jamie.
        Erguendo os olhos, descobri que o mesmo pensamento ocorrera a Jamie; puxara seu xale sobre a cabea e os ombros, de modo que o embotado padro de caa o 
transformasse realmente em parte dos arbustos. Quando o ltimo homem entrou no ptio da estalagem, Jamie tirou o xale da cabea e comeou a voltar para o caminho 
que subia a colina.
        - Sabe quem so? - perguntei, ofegante, enquanto o seguia pelo meio das urzes.
        - Ah, sim. - Jamie subia a trilha ngreme como um cabrito monts, sem perder o flego ou a serenidade. Olhando para trs, notou que eu avanava com dificuldade 
e parou, estendendo a mo para me ajudar.
        -  a patrulha - disse, fazendo um sinal com a cabea em direo  hospedaria. - Estamos seguros, mas acho que devamos ficar um pouco mais longe.
        Eu ouvira falar do famoso Black Watch, um regimento policial no-oficial que mantinha a ordem nas Highlands, e tambm ouvira falar que havia outras patrulhas, 
cada qual vigiando sua prpria regio, coletando a "contribuio" dos clientes para garantir a segurana de gado e propriedades. Clientes atrasados nos pagamentos 
podiam acordar um dia e descobrir que seus animais domsticos haviam desaparecido durante a noite, sem ningum que lhes dissesse para onde - certamente no os homens 
da patrulha. Fui tomada por um pnico repentino e irracional.
        - No esto procurando por voc, esto?
        Surpreso, olhou para trs como se esperasse ver homens galgando a subida da colina em seu encalo, mas no havia ningum. Ele olhou de novo para mim com 
um sorriso de alvio e passou o brao em torno de minha cintura para me ajudar a subir.
        - No, duvido. Dez libras no so suficientes para que um grupo como esse tente me caar. E se soubessem que eu estava na estalagem, no viriam como vieram, 
arrastando os ps at a porta da estalagem em bloco. - Sacudiu a cabea com convico. - No, se estivessem perseguindo algum, enviariam homens para guardar os 
fundos e as janelas antes de entrarem pela porta da frente. Devem ter parado apenas para um descanso.
        Continuamos a subir, para alm do local onde a trilha rstica se acabava em moitas de urzes e tojo. Estvamos entre contrafortes ali e as rochas de granito 
erguiam-se acima da cabea de Jamie, trazendo a desconfortvel lembrana dos meglitos de Craigh na Dun.
        Emergimos no topo de uma pequena elevao e as colinas ondeavam-se na distncia, em um exuberante declive de rochas e verde por todos os lados. A maioria 
dos lugares nas Highlands dava-me uma sensao de estar cercada por rvores, rochas ou montanhas, mas ali estvamos expostos s correntes de ar frio do vento e aos 
raios do sol, que sara como se comemorasse nosso casamento pouco ortodoxo.
        Experimentei uma inebriante sensao de liberdade por estar fora da influncia de Dougal e da companhia claustrofbica de tantos homens. Fiquei tentada a 
dizer a Jamie que fugisse e me levasse com ele, mas o bom senso prevaleceu. Nenhum dos dois tinha dinheiro ou comida alm do pequeno lanche que ele trazia na bolsa 
 cintura. Certamente, seramos perseguidos se no voltssemos  estalagem at o pr-do-sol. E embora Jamie pudesse escalar rochas o dia inteiro sem derramar uma 
gota de suor ou perder o flego, eu no estava to preparada fisicamente. Notando meu rosto vermelho, conduziu-me a uma rocha e sentou-se ao meu lado, fitando com 
ar de satisfao as colinas ao longe, enquanto esperava que eu me recuperasse. Estvamos a salvo ali.
        Pensando na patrulha, coloquei a mo impulsivamente no brao de Jamie.
        - Estou muito contente por voc no valer muito - eu disse. Olhou-me por um instante, esfregando o nariz, que estava comeando a ficar vermelho.
        - Bem, posso encarar isso de diversos modos, Sassenach, mas nas circunstncias atuais, obrigado.
        -- Eu  que tenho que lhe agradecer por se casar comigo. Devo dizer prefiro estar aqui do que em Fort William.
        - Agradeo o elogio, senhora - disse, com uma leve mesura. - Eu tambm. E enquanto estamos ocupados agradecendo um ao outro - acrescentou -, eu tambm devo 
agradecer-lhe por ter se casado comigo.
        - H, bem... - Fiquei ruborizada outra vez.
        - No s por isso, Sassenach - disse, o sorriso ampliando-se. - Embora, sem dvida por isso tambm. Mas acho que tambm salvou a minha vida, ao menos at 
onde diga respeito aos MacKenzie.
        - O que quer dizer?
        - Ser metade MacKenzie  uma coisa - explicou. - Ser metade MacKenzie com uma mulher inglesa  outra bem diferente. No h muita chance de uma Sassenach 
tornar-se senhora de Leoch, independente do que os membros do cl pensem de mim. Foi por isso que Dougal me escolheu para casar com voc.
        Ergueu uma das sobrancelhas, vermelho-dourada  luz do sol matinal.
        - Espero que no teria preferido Rupert.
        - No, no teria - respondi enfaticamente.
        Ele riu e levantou-se, limpando as agulhas de pinheiro de seu kilt.
        - Bem, minha me me disse que eu seria o escolhido de uma bela moa um belo dia. - Estendeu a mo e me ajudou a levantar.
        - Eu disse a ela - continuou - que achava que cabia ao homem escolher.
        - E o que ela disse a isso? - perguntei.
        - Ela revirou os olhos e disse: "Voc vai ver, meu belo galinho, voc vai ver." - Riu. - E foi o que aconteceu.
        Olhou para cima, para onde o sol agora se filtrava pelo meio das agulhas dos pinheiros em fios cor de limo.
        - E  um belo dia, alis. Venha, Sassenach. Vou lev-la para pescar. Subimos ainda mais para o meio das colinas. Desta vez, Jamie virou-se para o norte, 
atravessou um terreno pedregoso e uma greta, at a cabea de uma minscula ravina, verdejante e cercada de paredes de pedra, repleta do gorgolejar da gua do riacho 
que espirrava de uma dzia de cascatas entre as rochas e mergulhava alegremente ao longo de todo o desfiladeiro em uma srie de arroios e lagos abaixo.
        Mergulhamos nossos ps na gua, movendo-nos da sombra para o sol e de volta para a sombra quando ficvamos com muito calor, falando de uma coisa e outra 
sem maior importncia, ambos conscientes do menor movimento um do outro, ambos contentes de esperar que o acaso nos levasse quele momento em que um olhar se demoraria 
um pouco mais e um toque adquirisse um significado maior.
        Acima de um lago salpicado de manchas escuras, Jamie mostrou-me como atrair uma truta. Um pouco agachado para evitar os galhos mais baixos acima de sua cabea, 
avanou ao longo de um ressalto da rocha, os braos estendidos para os lados para se equilibrar. Na metade da salincia de pedra, virou-se cuidadosamente e estendeu 
a mo, instando-me a segui-lo.
        Eu j havia prendido a barra das minhas saias, para caminhar pelo terreno acidentado, e consegui alcan-lo facilmente. Deitamo-nos estendidos na pedra fria, 
cabea com cabea, olhando para a gua embaixo, os galhos de salgueiro roando em nossas costas.
        - Basta - explicou - escolher um bom lugar e esperar. - Mergulhou uma das mos abaixo da superfcie da gua, suavemente, sem agitar a gua, e deixou-a descansar 
no fundo arenoso, logo depois da linha de sombra feita pelo ressalto rochoso. Os longos dedos curvaram-se delicadamente em direo  palma da mo, distorcidos pela 
gua, de modo que pareciam ondear delicadamente de um lado para o outro, como as folhas de uma planta aqutica, embora eu visse pelos msculos imveis de seu antebrao 
que ele no estava de forma alguma movendo a mo. A coluna de seu brao curvava-se bruscamente na superfcie, parecendo to deslocado quanto estivera quando o encontrei 
pela primeira vez, h pouco mais de um ms - meu Deus, apenas um ms?
        Conheceram-se em um ms, casaram-se no outro. Unidos por votos e pelo sangue. E por amizade tambm. Quando chegasse a hora de partir, esperava no feri-lo 
muito. Fiquei satisfeita de no ter que pensar nisso por enquanto; estvamos longe de Craigh na Dun e no havia nenhuma chance no mundo de fugir de Dougal no momento.
        - L est ela. - A voz de Jamie era baixa, pouco mais do que um sussurro; ele havia me dito que as trutas tm ouvidos sensveis.
        Do meu ngulo de viso, a truta no passava de um movimento na areia salpicada de manchas. Ali na sombra da rocha no havia como identificar o brilho de 
escamas. Manchas moviam-se sobre manchas, deslocadas pelo abanar das barbatanas transparentes, invisveis se no fosse por seu movimento. Os peixinhos que haviam 
se juntado para beliscar com curiosidade os cabelos nos pulsos de Jamie fugiram para a parte iluminada do pequeno lago.
        Um dos dedos curvou-se devagar, to devagar que era difcil notar o movimento. Eu sabia que havia se movido apenas pela mudana de posio, em relao aos 
outros dedos. Mais um dos dedos, curvado lentamente- E depois de um longo, longo momento, mais outro.
        Eu mal ousava respirar e meu corao batia contra a rocha fria com um ritmo mais acelerado do que a respirao do peixe. Lentamente, os dedos comearam a 
voltar, um a um, ficando abertos, e a lenta onda hipntica comeou outra vez, um dedo, outro dedo, mais um dedo, apenas uma leve Ondulao, como o movimento da borda 
da barbatana de um peixe.
        Como que atrado pelo aceno em cmara lenta, o nariz da truta pressionava-se para fora, uma arfada delicada da boca e das guelras, ocupadas no ritmo da respirao, 
o interior rseo  mostra, e ocultando-se, alternadamente,  medida que os oprculos pulsavam como um corao.
        A boca, abrindo e fechando, tateava e mordia a gua. A maior parte do corpo j sara de baixo da rocha, pairando sem peso na gua, ainda na sombra. Eu podia 
ver um dos olhos, indo e vindo, num olhar sem expresso e sem direo.
        Mais alguns centmetros trariam as ondulantes capas das guelras diretamente para os traioeiros dedos que acenavam. Percebi que eu estava agarrando a rocha 
com as duas mos, pressionando o rosto com fora contra o granito, como se eu pudesse me tornar ainda mais imperceptvel.
        Houve uma repentina exploso de movimento. Tudo aconteceu to rpido que no pude ver o que realmente havia ocorrido. A gua agitou-se furiosamente e jorrou 
por cima da rocha, a dois centmetros do meu rosto. Ao mesmo tempo, houve um rebulio de tecido xadrez quando Jamie atravessou a rocha, rolando por cima de mim, 
e um forte estalo quando o corpo do peixe voou pelo ar e bateu na margem forrada de folhas.
        Jamie lanou-se do ressalto de pedra nas guas rasas da beira do lago, espadanando gua para todos os lados, a fim de recuperar o prmio antes que o assustado 
peixe conseguisse nadar de volta para o santurio das guas mais fundas. Agarrando a truta pela cauda, bateu-a com percia contra uma rocha, matando-a instantaneamente. 
Em seguida, veio arrastando os ps nas guas rasas para mostr-lo a mim.
        - Um bom tamanho - disse orgulhosamente, estendendo um slido exemplar de uns trinta e cinco centmetros. - timo para o desjejum. -Abriu um largo sorriso 
para mim, molhado at as coxas, os cabelos caindo no rosto, a camisa manchada de gua e folhas mortas. - Eu disse que no ia deixar voc passar fome.
        Envolveu a truta em camadas de folhas de bardana e lama fria. Em seguida, lavou os dedos na gua fria do riacho e, subindo na rocha, entregou-me o pacote 
cuidadosamente enrolado.
        - Pode ser um presente de casamento estranho - disse, balanando a cabea em direo  truta -, mas no sem precedente, como diria Ned Gowan.
        - H precedentes em dar um peixe de presente  nova esposa? - perguntei, achando graa.
        Ele tirou as meias compridas e estendeu-as sobre a rocha, ao sol, para secar. Seus longos dedos dos ps remexeram-se, alegres com o calor.
        -  uma antiga cano de amor, das Ilhas. Quer ouvir?
        - Sim, claro. Ah, em ingls, se possvel - acrescentei.
        - Ah, sim. No tenho voz para msica, mas vou dizer a letra. - E afastando os cabelos dos olhos, recitou:
        Voc, filha do rei de manses feericamente iluminadas
        Na noite de nosso casamento,
        Se eu for um homem vivo em Duntulm,
        Irei ao seu encontro com presentes.
        Voc receber cem texugos, habitantes das margens,
        Cem lontras marrons, nativas dos riachos,
        Cem trutas prateadas, saltando de seus lagos...
        E assim continuava por uma notvel lista da flora e da fauna das Ilhas. Tive tempo, ouvindo-o declamar, de refletir na estranheza de estar sentada em uma 
rocha junto a um lago escocs ouvindo canes de amor galicas, com um grande peixe morto no colo. Mais estranho ainda era o fato de eu estar me divertindo muito.
        Quando terminou, aplaudi, mantendo a truta presa entre meus joelhos.
        - Ah, gostei dessa! Especialmente a parte que diz "Irei ao seu encontro com presentes". Ele parece um amante muito empolgado.
        Com os olhos cerrados contra o sol, Jamie riu.
        - Acho que eu poderia acrescentar um verso por minha conta: "Pularei dentro de lagos por voc."
        Ns dois rimos e depois ficamos em silncio por algum tempo, refestelando-nos ao sol agradavelmente quente do comeo do vero. Havia muita paz ali, sem nenhum 
som alm do mpeto da gua corrente mais abaixo de nosso plcido lago. A respirao de Jamie acalmara-se. Eu tinha plena conscincia do lento movimento de subida 
e descida de seu peito e da lenta pulsao em seu pescoo. Ele possua uma pequena cicatriz triangular bem na base da garganta.
        Eu podia sentir a timidez e o constrangimento comeando a se infiltrar entre ns novamente. Estendi a mo e segurei a dele com fora, na esperana de que 
o toque restabelecesse a intimidade entre ns como fizera antes. Ele passou o brao em volta dos meus ombros, mas isso apenas me fez notar os contornos rgidos de 
seu corpo sob a camisa fina. Afastei-me, sob o pretexto de colher um ramo das flores cor-de-rosa de gernio que cresciam de uma fenda na rocha.
        - Boas para dor de cabea - expliquei, enfiando-as no meu cinto.
        -- Isso a incomoda - ele disse, inclinando a cabea para me olhar intensamente. - No, no quis dizer a dor de cabea. Frank. Voc est pensando nele e isso 
a incomoda quando toco em voc, porque no pode levar ns dois na mente. No ?
        - Voc  muito perceptivo - eu disse, surpresa. Ele sorriu, mas no fez nenhum movimento para me tocar outra vez.
        --- No  muito difcil perceber isso, Sassenach. Eu sabia quando nos casamos que voc o teria freqentemente na lembrana, quisesse ou no.
        No queria, no momento, mas ele tinha razo; era independente da minha vontade.
        - Sou muito parecido com ele? - perguntou repentinamente.
        - No.
        De fato, seria difcil imaginar um contraste maior. Frank era esbelto, gil e moreno, ao passo que Jamie era corpulento, vigoroso e claro como um raio de 
sol avermelhado. Embora ambos tivessem a graa compacta dos atletas, a constituio fsica de Frank era a de um jogador de tnis, o corpo de Jamie era o de um guerreiro, 
moldado - e surrado - pela abraso da absoluta adversidade fsica. Frank ficava um pouco acima dos meus um metro e setenta. De frente para Jamie, meu nariz acomodava-se 
confortavelmente na pequena depresso no meio de seu peito e seu queixo podia descansar facilmente no topo da minha cabea.
        O fsico no era a nica dimenso em que os dois homens diferiam. Havia quase quinze anos de diferena entre eles, para comear, o que provavelmente explicava 
algumas diferenas entre a reserva urbana de Frank e a franqueza sincera de Jamie. Como amante, Frank era elegante, sofisticado, atencioso e hbil. Sem a mesma experincia 
ou pretenso, Jamie simplesmente se entregava a mim por inteiro, sem reservas. E a profundidade da minha resposta a isso me perturbava completamente.
        Jamie observava minha luta, no sem simpatia.
        - Bem, ento, parece que eu tenho duas opes na questo - disse. -Posso deixar que fique cismando sobre o assunto ou...
        Inclinou-se para baixo e docemente uniu seus lbios aos meus. Eu j havia beijado meu quinho de homens, particularmente durante os anos de guerra, quando 
o flerte e o romance imediato eram os companheiros amenos da morte e da incerteza. Jamie, no entanto, era algo diferente. Sua extrema delicadeza no era de forma 
alguma insegura; ao invs disso, era uma promessa de uma fora conhecida e contida sob rdeas; um desafio e uma provocao mais notvel ainda pela ausncia de reivindicao. 
Sou seu, dizia. E se voc me quiser, ento...
        Eu queria - e minha boca abriu-se sob a dele, aceitando calorosamente tanto a promessa quanto o desafio sem me consultar. Aps um longo instante, ele ergueu 
a cabea e sorriu para mim.
        - Ou posso tentar distra-la de seus pensamentos - concluiu. Pressionou minha cabea contra seu ombro, acariciando meus cabelos e alisando os cachos saltitantes 
atrs de minhas orelhas.
        - No sei se isso vai ajudar - disse, serenamente -, mas vou lhe dizer uma coisa:  uma ddiva e um encantamento para mim saber que eu posso dar-lhe prazer, 
que seu corpo pode reagir ao meu. Eu no havia pensado nisso... antes.
        Respirei longamente antes de responder.
        - Sim - eu disse. - Ajuda. Eu acho.
        Ficamos em silncio novamente pelo que me pareceu um longo tempo. Por fim, Jamie afastou-se e olhou para mim, sorrindo.
        - Eu lhe disse que no tenho nem dinheiro nem propriedade, Sassenach?
        Balancei a cabea afirmativamente, imaginando onde ele pretendia chegar.
        - Eu deveria t-la avisado antes que acabaramos dormindo em fardos de feno, sem nada alm de cerveja de urzes e mingau de aveia para comer.
        - No me importo - eu disse.
        Ele indicou com a cabea uma abertura nas rvores, sem tirar os olhos de mim.
        - No tenho um monte de feno aqui comigo, mas h uma boa rea de samambaias novas ali adiante. Se quiser praticar, s para ir sabendo como ...
        Pouco tempo depois, acariciei suas costas, molhadas com o esforo e a seiva de samambaias esmagadas.
        - Se disser "obrigado" mais uma vez, dou-lhe um tapa - eu disse. Ao invs disso, tive um ligeiro ronco em resposta. Uma samambaia pendurada acima de ns 
roava seu rosto e uma formiga curiosa arrastava-se por sua mo, fazendo os longos dedos remexerem-se em seu sono.
        Afastei-a e apoiei-me em um dos cotovelos, observando-o. Suas pestanas eram longas, vistas assim com seus olhos fechados, e espessas. No entanto, de uma 
cor estranha; castanho-avermelhadas e escuras nas pontas, eram muito claras, quase louras nas razes.
        A linha firme de sua boca relaxara-se no sono. Enquanto mantinha uma curva de sorriso no canto, seu lbio inferior agora relaxara em uma curva mais cheia 
que parecia tanto sensual quanto inocente.
        - Droga - exclamei baixinho para mim mesma.
        Vinha lutando contra aquilo. Antes mesmo deste ridculo casamento, eu estava mais do que consciente dessa atrao. J acontecera antes, como sem dvida acontece 
a praticamente qualquer pessoa. Uma repentina sensibilidade  presena, ao aparecimento, de um determinado homem - ou Mulher, suponho. A necessidade de segui-lo 
com os olhos, de provocar Pequenos encontros "casuais", v-lo inadvertidamente enquanto ele prosseguia com seu trabalho, uma sensibilidade refinada aos pequenos 
detalhes de seu corpo; as omoplatas sob o tecido da camisa, os ossos protuberantes de seus pulsos, o lugar macio sob seu maxilar, onde os primeiros plos de sua 
barba comeam a nascer.
        Paixo. Era comum, entre enfermeiras e mdicos, enfermeiras e pacientes, entre qualquer grupo de pessoas lanadas por longos perodos de tempo na companhia 
umas das outras.
        Algumas se entregavam a ela e romances intensos e breves eram freqentes. Se tivessem sorte, o romance se extinguia em poucos meses, sem maiores conseqncias. 
Se no tivessem... bem. Gravidez, divrcio, um ou outro caso de doena venrea. Perigosa, a paixo.
        Eu a senti, diversas vezes, mas tive o bom senso de resistir. E como sempre acontece, aps algum tempo a atrao diminua e o homem perdia sua aura dourada 
e reassumia seu lugar de sempre em minha vida, sem nenhum dano a ele, a mim ou a Frank.
        E agora. Agora eu tinha sido forada a me entregar. E s Deus poderia saber que danos poderiam ser provocados por essa ao. Mas no havia como voltar atrs.
        Ele permanecia deitado,  vontade, esparramado sobre o estmago. O sol se refletia em sua cabeleira ruiva e iluminava os plos curtos e macios que desciam 
por sua espinha dorsal at a penugem vermelho-dourada que polvilhava suas ndegas e coxas e se aprofundava em um matagal de cachos macios, castanho-avermelhados, 
que despontavam ligeiramente entre suas pernas abertas.
        Sentei-me, admirando suas longas pernas, com a linha suave dos msculos que torneavam as coxas do quadril ao joelho e outra que se prolongava do joelho ao 
p longo e elegante. As solas de seus ps eram lisas e rosadas, ligeiramente calejadas por andar descalo.
        Meus dedos doam, querendo percorrer o contorno de sua orelha pequena e bem-feita e o ngulo brusco de seu maxilar. Bem, pensei, a sorte fora lanada e no 
havia mais razo para me reprimir. Nada do que eu fizesse agora poderia piorar a situao, para nenhum de ns dois. Estendi a mo e toquei-o de leve.
        Seu sono era muito leve. Com uma rapidez que me fez saltar, ele virou-se, apoiando-se nos cotovelos, como se fosse ficar de p num salto. Ao me ver, relaxou, 
sorrindo.
        - Madame, a senhora me tem em desvantagem.
        Fez uma mesura bastante elegante para um homem estendido por extenso sobre faias, sem usar nada alm de algumas manchas matizadas de luz solar, e eu ri. 
O sorriso permaneceu em seu rosto, mas mudou quando olhou para mim, nua sobre as samambaias. Sua voz ficou repentinamente rouca.
        - Na verdade, madame, estou  sua merc.
        -  mesmo? - perguntei, baixinho.
        Ele no se moveu, quando estendi minha mo outra vez e a deslizei lentamente pelo seu rosto e pescoo, sobre a curva brilhante do ombro e para baixo. Ele 
no se moveu, mas fechou os olhos.
        - Meu Deus do Cu - disse. Prendeu a respirao com fora.
        - No se preocupe - eu disse. - No  preciso machucar.
        - Obrigado a Deus pelas pequenas graas.
        - Fique quieto.
        Cravou os dedos com fora na terra fofa, mas obedeceu.
        - Por favor - disse, depois de algum tempo. Erguendo o rosto, vi que os olhos dele estavam abertos agora.
        - No - eu disse, divertindo-me. Fechou os olhos novamente.
        - Vai pagar por isso - disse pouco tempo depois. Uma leve camada de suor brilhava na linha reta do seu nariz.
        -  mesmo? - eu disse. - O que vai fazer?
        Os tendes de seus antebraos saltaram quando pressionou as palmas das mos contra o solo e ele falou com esforo, como se tivesse os dentes cerrados.
        - Eu no sei, mas... por Cristo e Santa Ins... eu vou.... p-pensar em a-alguma coisa! Meu Deus! Por favor!
        - Est bem - disse, soltando-o.
        E dei um gritinho quando ele rolou no cho para cima de mim, prendendo-me contra as samambaias.
        - Sua vez - disse, com grande satisfao.
        Retornamos  hospedaria ao anoitecer, parando no topo da colina para nos certificarmos de que os cavalos da patrulha j no estavam mais amarrados no ptio.
        A hospedaria parecia convidativa, a luz brilhando atravs das pequenas janelas e das frestas nas paredes. Os ltimos raios do sol tambm brilhavam atrs 
de ns, fazendo com que tudo na encosta da colina lanasse uma sombra dupla. Uma brisa se elevava com o resfriamento do dia e as folhas agitadas das rvores faziam 
as mltiplas sombras danarem na grama. Eu podia facilmente imaginar que havia fadas na colina, danando com aquelas sombras, passando entre os troncos mais finos 
para se confundirem com as profundezas do bosque.
        - Dougal tambm ainda no voltou - observei, quando descamos a encosta. O grande capo preto que ele sempre montava no estava no pequeno cercado da estalagem. 
Diversos outros animais tambm no estavam ali; o de Ned Gowan, por exemplo.
        - No, ele no deve voltar antes de mais um dia, pelo menos. Talvez, dois. -Jamie ofereceu-me seu brao e descemos a colina devagar, com cuidado por causa 
das muitas pedras que se projetavam do capim curto.
        - Aonde ele foi, afinal? - Na pressa dos acontecimentos recentes, no Pensara em questionar sua ausncia - ou mesmo not-la.
        Jamie me ajudou a transpor a cerca aos fundos da estalagem.
        - Tratar de negcios com os pequenos rendeiros das redondezas. Ele s tem um ou dois dias antes da data de entreg-la no forte. - Apertou meu brao, para 
me tranqilizar. - O capito Randall no vai ficar muito satisfeito quando Dougal lhe disser que ele no poder ficar com voc e, depois disso, Dougal no vai querer 
ficar se demorando nesta regio.
        - Bastante sensato da parte dele - observei. - Muita bondade dele tambm nos deixar aqui para, h... nos conhecermos melhor.
        Jamie exibiu um riso irnico.
        - No foi bondade. Foi uma das condies que estabeleci para me casar com voc. Eu disse que casaria se fosse necessrio, mas que jamais consumaria meu casamento 
embaixo de uma moita, com vinte homens do cl olhando e dando conselhos.
        Parei, olhando-o fixamente. Ento, esse fora o motivo de toda aquela discusso.
        - Uma das condies? - perguntei, devagar. - E quais foram as outras? Estava ficando escuro demais para eu ver suas feies com clareza, mas achei que ele 
ficou constrangido.
        - S mais duas - disse, finalmente.
        - E quais foram?
        - Bem - ele disse, chutando um cascalho para fora do caminho. -Exigi que voc se casasse comigo adequadamente, de kirk, diante de um padre. No apenas no 
papel. Quanto  outra, ele deveria encontrar um traje adequado para voc. - Desviou os olhos, evitando meu olhar, e sua voz era to suave que eu mal podia ouvi-lo.
        - Eu... eu sabia que voc no queria se casar. Queria tornar isso... to agradvel quanto pudesse para voc. Achei que se sentiria um pouco menos... bem, 
queria que voc tivesse um vestido bonito, s isso.
        Abri a boca para dizer alguma coisa, mas ele virou-se em direo  estalagem.
        - Vamos, Sassenach - disse bruscamente. - Estou com fome.
        O preo da comida era a companhia, como ficou evidente desde o instante em que surgimos  porta do salo principal da estalagem. Fomos recebidos com estrondosas 
saudaes e apressadamente conduzidos a uma mesa, onde um farto jantar j estava em andamento.
        Um pouco mais preparada desta vez, no me incomodei com as piadas e comentrios grosseiros  nossa custa. Desta vez, fiquei satisfeita em poder permanecer 
reservada, encolhida no canto e deixando que Jamie lidasse com as brincadeiras indecentes e as especulaes obscenas sobre o que andramos fazendo o dia todo.
        - Dormindo - disse Jamie, em resposta a uma pergunta desse tipo. -No preguei o olho a noite passada. - As sonoras gargalhadas que ressoaram depois disso 
foram ultrapassadas por outras ainda mais estrondosas quando ele acrescentou em tom confidencial. - Ela ronca, sabe.
        Eu dei um puxo em sua orelha e ele me agarrou e me beijou espalhafatosamente, para os aplausos gerais.
        Depois do jantar, houve dana, ao som do violino do proprietrio. Nunca fui uma grande danarina, tendo a tendncia a tropear nos prprios ps nos momentos 
de estresse. No esperava me sair melhor, com aquelas saias longas e volumosas e calados to desajeitados. No entanto, depois de tirar os sapatos, fiquei surpreendida 
de ver que danava sem a menor dificuldade e com grande prazer.
        Com a falta de outras mulheres, a estalajadeira e eu prendemos nossas saias e nos entregamos a danas tpicas escocesas sem parar, at eu ter que recostar-me 
no banco de espaldar alto, o rosto vermelho e ofegante.
        Os homens eram absolutamente infatigveis, girando como pies de xadrez, sozinhos ou uns com os outros. Por fim, recostaram-se contra a parede, observando, 
animando com exclamaes e batendo palmas, enquanto Jamie segurava minhas duas mos e me conduzia por algo rpido e frentico chamado "O galo do norte".
        Terminando propositalmente ao p da escada, giramos num abrao, com seu brao em volta da minha cintura. Paramos e ele fez um pequeno discurso, misto de 
galico e ingls, que foi recebido com mais aplausos, particularmente quando ele enfiou a mo na bolsa  cintura e atirou uma pequena bolsa de couro surrado para 
o proprietrio, instruindo-o para servir usque enquanto o dinheiro desse. Reconheci-a como sua parte das apostas na briga em Tunnaig. Provavelmente, todo o dinheiro 
que tinha no mundo; achei que no poderia ter sido gasto de forma melhor.
        Conseguimos chegar  galeria em cima, seguidos por uma chuva de felicitaes indelicadas, quando uma voz mais alta do que as outras chamou Jamie pelo nome.
        Virando-se, vi o rosto largo de Rupert, mais vermelho do que de costume acima do emaranhado de barba preta, sorrindo para ns.
        - No adianta, Rupert -Jamie gritou. - Ela  minha.
        - Desperdiada com voc, rapaz - Rupert retorquiu, enxugando o rosto na manga da camisa. - Ela vai deix-lo no cho em uma hora. No do conta do recado, 
esses rapazinhos - disse, dirigindo-se a mim. - Se quiser um homem que no perde tempo dormindo, dona, me avise. Enquanto isso... - Atirou alguma coisa para cima.
        Uma sacolinha cheia retiniu no cho aos meus ps. -- Um presente de casamento - disse. - Cortesia dos homens do Regimento Shimi Bogil.
        - Hein? - Jamie inclinou-se para peg-la.
        - Alguns de ns no passamos o dia por a  toa nas margens gramadas dos rios, rapaz - disse, com ar de reprovao, revirando os olhos libidinosamente em 
minha direo. - Esse dinheiro foi ganho com suor.
        - Ah, sim - Jamie disse, rindo. - Dados ou cartas?
        - Ambos. - Um riso maldoso cortou a barba negra. - Ns os depenamos, rapaz. Tiramos o couro deles!
        Jamie abriu a boca, mas Rupert ergueu a mo avantajada e calosa.
        - No, rapaz, no precisa agradecer. S d uma boa por mim, hein? Coloquei os dedos nos lbios e joguei um beijo para ele. Batendo a mo no rosto como se 
tivesse sido atingido por alguma coisa, cambaleou para trs com uma exclamao e girou nos calcanhares em direo ao bar, oscilando como se estivesse bbado, o que 
no estava.
        Depois de toda a brincadeira l embaixo, o quarto pareceu um paraso de paz e sossego. Jamie, ainda rindo consigo mesmo, esparramou-se na cama para recuperar 
o flego.
        Soltei meu corpete, que era desconfortavelmente apertado, e sentei-me para pentear meus cachos desalinhados e embaraados com a dana.
        - Voc tem lindos cabelos - Jamie disse, observando-me.
        - O qu? Estes? - Ergui uma das mos para as minhas mechas que, como sempre, podiam ser educadamente descritas como emaranhadas.
        Ele riu.
        - Bem, gosto do outro tambm - disse, deliberadamente srio - mas, sim, estes mesmos.
        - Mas  to... encaracolado - eu disse, um pouco ruborizada.
        - Sim, claro. - Pareceu surpreso. - Ouvi uma das meninas de Dougal dizer a uma amiga no castelo que ela levaria trs horas com as pinas quentes para fazer 
os cabelos dela ficarem parecidos com os seus. Disse que gostaria de arrancar seus olhos por ter essa aparncia e no precisar mover um dedo para isso. - Sentou-se 
e puxou suavemente um cacho, esticando-o de modo que, reto, chegasse quase ao meu seio. - O cabelo de minha irm Jenny tambm  ondulado, mas no tanto quanto os 
seus.
        - Os cabelos de sua irm so ruivos como os seus? - perguntei, tentando visualizar a aparncia da misteriosa Jenny. Ela parecia estar sempre presente na 
mente de Jamie.
        Sacudiu a cabea, ainda enrolando os cachos entre seus dedos.
        - No. Os cabelos de Jenny so negros. Negros como a noite. Sou ruivo como minha me e Jenny puxou ao meu pai. Brian Dhu, como o chamavam, ou "Black Brian", 
por causa do seu cabelo e da sua barba.
        - Ouvi dizer que o capito Randall  chamado de "Black Jack, arrisquei. Jamie riu sem humor.
        - Ah, sim. Mas isso se refere  cor de sua alma, no de seus cabelos." Seus olhos aguaram-se ao abaixar os olhos para mim.
        - Voc no est preocupada com ele, est, Sassenach? No devia estar. - Suas mos deixaram meus cabelos e seguraram meus ombros possessivamente.
        - Falo srio, voc sabe - disse meigamente. - Eu vou proteg-la. Dele de qualquer outra pessoa. At a ltima gota do meu sangue, mo duinne.
        - Muduinne? - perguntei, um pouco perturbada pela intensidade de suas palavras. No queria ser responsvel por qualquer derramamento de seu sangue, ltima 
ou primeira gota.
        - Significa "minha morena". - Levou uma mecha dos meus cabelos aos lbios e sorriu, com uma expresso nos olhos que fez com que todas as gotas do meu prprio 
sangue comeassem a perseguir umas s outras em minhas veias. - Mo duinne - repetiu docemente. - H muito queria cham-la assim.
        - Uma cor um pouco sem vida, o castanho, sempre achei - eu disse, de maneira prtica, tentando adiar um pouco os acontecimentos. Eu continuava com a sensao 
de estar sendo levada de roldo, com muito mais rapidez do que gostaria.
        Jamie sacudiu a cabea, ainda sorrindo.
        - No, eu no diria isso, Sassenach. Nem um pouco sem vida. -Levantou um punhado dos meus cabelos com as duas mos e espalhou-o. - como a gua em um riacho, 
quando se encrespa sobre as rochas. Escura nos locais ondeados, com toques de prata na superfcie, onde o sol bate.
        Nervosa e um pouco ofegante, afastei-me para pegar o pente que deixara cair no cho. Ao levantar, deparei-me com Jamie, olhando-me fixamente.
        - Eu disse que no lhe perguntaria nada que no quisesse me dizer - falou - e no o farei, mas tiro minhas prprias concluses. Colum achou que voc talvez 
fosse uma espi inglesa, embora no conseguisse imaginar, nesse caso, por que no entende o galico. Dougal acha que  provvel que voc seja uma espi francesa, 
talvez em busca de apoio ao rei Jaime. Mas nesse caso, ele no pode imaginar por que voc estava sozinha.
        - E voc? - perguntei, puxando com fora uma mecha teimosa. - O que acha que eu sou?
        Inclinou a cabea, avaliando, examinando-me com ateno. -- Na aparncia, poderia ser francesa. Voc possui aqueles belos ossos do rosto das mulheres de 
Angevin. No entanto, as mulheres francesas em geral tm uma cor de pele amarelada e sua pele parece opala. - Deslizou o dedo lentamente pela curva da minha clavcula 
e senti minha pele resplandecer sob seu toque.
        O dedo moveu-se para meu rosto, desenhando o contorno da tmpora  face, alisando os cabelos para trs da orelha. Permaneci imvel sob seu escrutnio, tentando 
no me mexer quando sua mo passou para trs do meu pescoo, o polegar acariciando delicadamente o lbulo da minha orelha.
        - Olhos dourados; vi um par de olhos assim uma vez... em um leopar-do. - Sacudiu a cabea. - No, Sassenach. Voc poderia ser francesa, mas no .
        - Como sabe?
        - Conversei muito com voc; e tambm a ouvi falar. Dougal pensa que  francesa porque voc fala francs bem, muito bem.
        - Obrigada - eu disse, sarcasticamente. - E o fato de eu falar francs bem prova que no sou francesa?
        Sorriu e apertou levemente o meu pescoo.
        - Vous parlez trs bien, mas no to bem quanto eu - acrescentou, voltando ao ingls. Soltou-me de repente. - Passei um ano na Frana, quando deixei o castelo, 
e mais dois anos depois, com o exrcito. Conheo um francs de nascena quando ouo um. E o francs no  sua lngua materna. - Sacudiu a cabea devagar.
        - Espanhola? Talvez, mas por qu? A Espanha no tem interesses nas Highlands. Alem? Certamente, no. - Deu de ombros. - Quem quer que seja, os ingleses 
iriam querer descobrir. No podem se dar ao luxo de terem desconhecidos soltos por a, com os cls agitados e o prncipe Carlos esperando para voltar da Frana. 
E seus mtodos de averiguao no so nada agradveis. Tenho motivos para saber.
        - Ento, como sabe que no sou uma espi inglesa? Dougal achou que eu era, voc mesmo disse.
        -  possvel, embora o ingls que voc fala tambm seja mais do que um pouco estranho. Entretanto, se fosse uma espi, por que iria preferir casar-se comigo 
a voltar para seu prprio povo? Essa foi mais uma razo para Dougal fazer voc se casar comigo, para ver se iria fugir ontem  noite, quando chegasse a hora.
        - E eu no fugi. Ento, o que isso prova?
        Ele riu e deitou-se de costas na cama, um brao sobre os olhos para proteg-los da luz do lampio.
        - No fao a mnima idia, Sassenach. No fao a mnima idia. No consigo imaginar nenhuma explicao razovel para voc. Pelo que sei, deve ser algum 
do Povo Pequeno. - Lanou-me um olhar de esguelha por baixo do brao. - No, acho que no. Voc  alta demais.
        - No tem medo que eu possa mat-lo durante o sono uma noite, se no souber quem eu sou?
        No respondeu, mas retirou o brao de cima dos olhos e seu sorriso ampliou-se. Seus olhos devem ser do lado dos Fraser, pensei. No eram fundos como os olhos 
dos MacKenzie, possuam um ngulo estranho, e as altas mas do rosto faziam-me parecer quase puxados.
        Sem dificuldade para erguer a cabea, abriu a frente de sua camisa e afastou o tecido, deixando o peito nu at a cintura. Tirou a adaga da bainha e jogou-a 
para mim. Caiu com um baque surdo aos meus ps.
        Colocou o brao sobre os olhos de novo e esticou a cabea para trs, mostrando o lugar onde a barba escura por fazer parava repentinamente, logo abaixo do 
maxilar.
        - Direto para cima, logo embaixo do esterno - instruiu. - Rpido e limpo, embora seja necessrio um pouco de fora. Cortar a garganta  fcil, mas faz uma 
grande sujeira.
        Inclinei-me para pegar a adaga.
        - Seria bem-feito para voc se eu o fizesse - observei. - Filho-da-me convencido.
        O sorriso visvel por baixo da curva do seu brao ampliou-se ainda mais.
        - Sassenach?
        Parei, a adaga ainda nas mos.
        - O qu?
        - Eu morreria feliz.
        
        
        
17 - ENCONTRO COM UM MENDIGO
        
        Dormimos at bem tarde na manh seguinte e o sol j estava alto quando deixamos a estalagem, desta vez rumando para o sul. A maioria dos cavalos j no estava 
no curral e nenhum dos homens de nosso grupo parecia estar por perto. Perguntei em voz alta onde teriam ido. Jamie riu.
        - No sei ao certo, mas posso imaginar. A patrulha foi naquela direo ontem - apontou para oeste -, portanto diria que Rupert e os demais foram naquela 
direo. - Apontou para leste.
        - Gado - explicou, vendo que eu ainda no compreendia. - Os proprietrios de terras e arrendatrios pagam  patrulha para ficar de olho e recuperar seu gado 
se forem roubados numa dessas incurses na fronteira. Mas se a patrulha est indo para oeste, em direo a Lag Cruime, qualquer rebanho a leste est desamparado, 
ao menos um pouco. Adiante ficam as terras dos Grant e Rupert  um dos melhores ladres de gado que j conheci. Os animais o seguem a qualquer lugar, sem sequer 
um mugido. E como no h mais diverso por aqui, provavelmente ficou impaciente.
        O prprio Jamie parecia um pouco inquieto e andava a passos largos. Havia uma trilha de veado pelo meio das urzes e a caminhada era bastante fcil, de modo 
que eu conseguia acompanh-lo sem dificuldade. Aps algum tempo, samos em uma faixa de charneca, onde podamos caminhar lado a lado.
        - E quanto a Horrocks? - perguntei repentinamente. Ouvindo-o mencionar a cidade de Lag Cruime, lembrei-me do desertor ingls e de suas possveis informaes. 
- Voc deveria encontr-lo em Lag Cruime, no ?
        Assentiu.
        - Sim. Mas no posso ir l agora, tanto com Randall quanto com a patrulha indo naquela direo. Perigoso demais.
        - Algum no poderia ir por voc? Ou no confia em ningum o suficiente para isso?
        Olhou para mim e sorriu.
        - Bem, h voc. J que afinal de contas no me matou ontem  noite - acho que posso confiar em voc. Mas receio que no possa ir a Lag Cruime sozinha. No, 
se necessrio, Murtagh ir por mim. Mas talvez eu consiga uma outra coisa... vamos ver.
        - Confia em Murtagh? - perguntei, curiosa. No nutria sentimentos muito amistosos em relao ao homenzinho desmazelado, j que ele era mais ou menos responsvel 
pelas minhas presentes dificuldades, tendo me seqestrado. No entanto, havia sem dvida algum tipo de amizade entre ele e Jamie.
        - Ah, sim. - Olhou para mim, surpreso. - Murtagh me conhece desde pequeno.  primo de segundo grau do meu pai, eu acho. Seu pai era
        -  um Fraser, voc quer dizer - interrompi apressadamente. - Pensei que ele fosse um dos MacKenzie. Ele estava com Dougal quando encontrei vocs.
        Jamie balanou a cabea.
        - Sim. Quando resolvi voltar da Frana, mandei avis-lo, pedindo-lhe para me encontrar na costa. - Sorriu ironicamente. - Eu no sabia se tinha sido Dougal 
quem mandara me matar antes. E no gostava da idia de me encontrar com vrios MacKenzie sozinho. No queria acabar boiando na praia de Skye, se era isso que tinham 
em mente.
        - Compreendo. Ento, Dougal no  o nico que acredita em testemunhas.
        Concordou.
        - Muito teis, as testemunhas.
        Do outro lado da charneca havia um trecho de rochas retorcidas, escavadas e talhadas pelo avano e recuo de geleiras em outras eras. gua de chuva enchia 
os fossos mais profundos e cardos, tansias e rainhas-dos-prados cresciam em volta desses pequenos lagos entre montanhas, as flores refletindo-se na gua parada.
        Estreis e sem peixes, esses lagos pontilhavam a paisagem e formavam armadilhas para viajantes desavisados, que podiam facilmente tropear em um deles no 
escuro e ser forado a passar uma noite molhada e desconfortvel na charneca. Sentamo-nos ao lado de um desses pequenos lagos para fazer o nosso lanche matinal de 
po e queijo.
        O lago ao menos tinha pssaros; andorinhas mergulhavam na superfcie da gua para beber e tarambolas e maaricos escarafunchavam a terra lamacenta das margens 
com seus bicos longos,  cata de insetos.
        Atirei farelos de po na lama para os pssaros. Um maarico olhou desconfiado para um dos pedacinhos de po, mas enquanto ainda estava tomando uma deciso, 
uma rpida andorinha passou zunindo sob seu bico e fugiu com a guloseima. O maarico agitou as penas e voltou  sua laboriosa escavao.
        Jamie chamou minha ateno para um maarico, gritando e arrastando uma asa aparentemente quebrada perto de ns.
        - Ela tem um ninho perto daqui - eu disse.
        - L. - Ele teve que apont-lo diversas vezes at que eu finalmente o identificasse; uma depresso rasa, completamente exposta, mas com os quatro ovos pintados 
to semelhantes na aparncia  margem salpicada de folhas que, quando pisquei os olhos, perdi o ninho de vista outra vez.
        Pegando uma vara, Jamie cutucou o ninho devagar, deslocando um dos ovos do lugar. A maarico-me, agitada, correu at quase diante dele. Ele sentou-se sobre 
os calcanhares, absolutamente imvel, deixando o pssaro lanar-se de um lado para o outro, berrando. Viu-se o lampejo de um movimento e ele tinha o pssaro nas 
mos, repentinamente silencioso.
        Falou com o pssaro em galico, uma espcie de discurso sereno e sibilante, enquanto acariciava a plumagem macia e furta-cor com um dedo. O pssaro agachou-se 
em sua mo, completamente imvel, at os reflexos paralisados em seus olhos negros e redondos.
        Colocou o pssaro delicadamente no cho, mas o pssaro no se afastou at ele dizer mais algumas palavras e abanar a mo lentamente de um lado para o outro 
atrs dele. Deu um pequeno salto e precipitou-se para o mato. Observou-o partir e, inconscientemente, persignou-se.
        - Por que fez isso? - perguntei, curiosa.
        - O qu? - Ficou momentaneamente surpreso; acho que havia se esquecido de que eu estava ali.
        - Voc se benzeu quando o pssaro voou para longe; me perguntei por qu.
        Encolheu os ombros, ligeiramente envergonhado.
        - Ah, bem.  uma velha histria, s isso. Porque os maaricos gritam do jeito que fazem e correm lamentando-se perto de seus ninhos assim. -Apontou para 
o outro lado do pequeno lago, onde outro maarico fazia exatamente o mesmo. Observou o pssaro por alguns instantes, distrado.
        - Os maaricos tm a alma das mes jovens que morreram de parto -disse. Olhou de soslaio para mim, timidamente. - Diz a lenda que gritam e correm em volta 
do ninho porque no conseguem acreditar que os ovos esto sendo chocados em segurana; esto sempre lamentando pelo filho perdido, ou procurando um filho que ficou 
para trs. - Agachou-se junto ao ninho e cutucou o ovo com a vara, virando aos poucos at que o lado pontudo ficasse voltado para ele, como os outros. Continuou 
agachado, mesmo depois de o ovo ter sido recolocado na posio inicial, balanando a vara entre as coxas, fitando as guas imveis do pequeno lago.
        - Acho que  apenas por hbito - disse. - Fiz isso pela primeira vez quando era pequeno e ouvi a histria pela primeira vez. No acreditava realmente que 
tivessem alma,  claro, mesmo naquela poca, mas, sabe, apenas como um pouco de respeito... - Ergueu os olhos para mim e sorriu de repente. - Hoje fao isso to 
constantemente, que nem notei. H bem poucos maaricos na Esccia. - Levantou-se e atirou fora a vara. -Vamos, venha. H um lugar que quero lhe mostrar, perto do 
topo de uma colina l adiante. - Segurou meu cotovelo para me ajudar a sair do declive e comeamos a subir a encosta.
        Eu ouvira o que ele havia dito ao maarico que soltou. Embora soubesse apenas algumas palavras em galico, j escutara a antiga saudao o bastante para 
estar familiarizada com ela. "V com Deus, Me", ele dissera.
        Uma jovem me, morta no parto. E uma criana deixada para trs. Toquei seu brao e ele olhou para mim.
        - Quantos anos voc tinha? - perguntei. Esboou um sorriso.
        - Oito - respondeu. - Desmamado, ao menos.
        No falou mais, apenas conduziu-me morro acima. Estvamos em contrafortes ondulantes, agora, cobertos de urzes. A frente, a paisagem do campo mudava bruscamente, 
com enormes aglomerados de granito erguendo-se da terra, cercados de moitas de sicmoro e larcio. Atravessamos o topo da colina e deixamos para trs os maaricos 
gritando junto aos pequenos lagos.
        O sol estava ficando quente e depois de uma hora abrindo caminho pela folhagem densa - mesmo com Jamie indo  frente -, eu precisava de um descanso.
        Encontramos um lugar sombreado ao p de uma das formaes rochosas. O local lembrava-me um pouco do local onde eu encontrara Murtagh pela primeira vez - 
e deixara a companhia do capito Randall. Ainda assim, era agradvel ali. Jamie disse-me que estvamos sozinhos, por causa do permanente cantarolar dos pssaros 
em toda a volta. Se algum se aproximasse, a maioria dos pssaros pararia de cantar, embora os gaios e as gralhas se esgoelassem e berrassem alarmados.
        - Sempre se esconda numa floresta, Sassenach - aconselhou-me. - Se voc no se mover muito, os pssaros lhe diro com tempo de sobra se algum est se aproximando.
        Voltando-se para mim, depois de apontar para uma gralha grasnando na rvore acima de nossas cabeas, seus olhos encontraram-se com os meus. E nos sentamos 
como se estivssemos paralisados, ao alcance da mo um do outro, mas sem nos tocar, mal respirando. Aps algum tempo, a gralha cansou-se de ns e foi embora. Foi 
Jamie quem desviou o olhar primeiro, com um estremecimento quase imperceptvel, como se sentisse frio
        Cogumelos de chapus peludos despontavam suas cabeas brancas pelo musgo sob as samambaias. Jamie arrancou um de seu caule e passou o dedo sobre os raios 
do basdio enquanto reunia suas palavras seguintes. Quando falava cuidadosamente, como agora, perdia o leve sotaque escocs que em geral marcava seu discurso.
        - No quero... isto ... no pretendo insinuar... - Ergueu os olhos de repente e sorriu, com um gesto de desamparo. - No quero insult-la falando como se 
achasse que voc tem uma vasta experincia com homens, s isso. Mas seria tolo fingir que voc no saiba mais do que eu sobre essas questes. O que quero perguntar 
... isso  comum? O que acontece entre ns, quando eu toco em voc, quando voc... se deita comigo?  sempre assim entre um homem e uma mulher?
        Apesar de suas dificuldades, eu sabia exatamente o que ele queria dizer. Seu olhar era direto, fitando meus olhos enquanto aguardava uma resposta. Eu quis 
desviar os olhos, mas no pude.
        - Freqentemente, acontece algo parecido - eu disse e tive que parar e limpar a garganta. - Mas, no. No, no ... comum. No fao a menor idia por qu, 
mas no . Isso ... diferente.
        Relaxou um pouco, como se eu tivesse confirmado algo sobre o qual ele se sentia um pouco ansioso.
        - Achei que no. Nunca dormi com outra mulher antes, mas j... bem, j pus a mo em algumas. - Sorriu timidamente e sacudiu a cabea. - No era a mesma coisa. 
Quero dizer, j tive outras mulheres em meus braos antes, beijei-as e... - Agitou uma das mos, descartando o resto da frase. -Era realmente muito agradvel. Fazia 
meu corao bater com fora e minha respirao faltar e tudo o mais. Mas no era nem de longe como  quando a tomo nos braos e a beijo. - Seus olhos, pensei, eram 
da cor de lagos e cus, e to insondveis quanto ambos.
        Estendeu o brao e tocou meu lbio inferior.
        - Comea do mesmo jeito, mas depois, aps uns instantes - disse, falando docemente -,  como se eu tivesse uma chama viva nos braos. -Seu toque tornou-se 
mais firme, delineando meus lbios e acariciando o contorno do meu maxilar. - E eu s desejo me atirar nessa chama e ser consumido.
        Pensei em dizer-lhe que seu prprio toque queimava minha pele e enchia minhas veias de fogo. Mas eu j estava acesa e brilhando como ferro em brasa. Fechei 
os olhos e senti o toque quente mover-se para minha face e para a tmpora, orelha e pescoo, e estremeci quando suas mos desceram para a minha cintura e me puxaram 
para junto dele.
        Jamie parecia ter uma idia precisa de onde estvamos indo. Finalmente, parou ao p de uma enorme rocha, com cerca de seis metros de altura, cheia de salincias 
e fendas pontiagudas. Tansias e madressilvas silvestres cresciam nas fendas e oscilavam precariamente como bandeirolas amarelas contra a pedra. Tomou minha mo 
e balanou a cabea indicando a rocha  nossa frente.
        - V os degraus ali, Sassenach? Acha que consegue? - Havia, de fato, protuberncias fracamente marcadas na pedra, inclinadas contra a face da rocha. Algumas 
eram proeminncias autnticas e outras meramente um apoio para liquens. Eu no sabia dizer se eram naturais ou se tinham recebido alguma ajuda em sua formao, mas 
achei que era possvel subir por elas, ainda que com saias compridas e um corpete apertado.
        Com algumas escorregadelas e sustos, e com Jamie empurrando prestativamente por trs de vez em quando, consegui chegar ao topo da rocha e parei para olhar 
 minha volta. A vista era espetacular. O volume macio e escuro de uma montanha erguia-se a leste, enquanto bem abaixo, ao sul, os contrafortes estendiam-se por 
uma vasta e deserta charneca. O alto da rocha inclinava-se para dentro em todos os lados, formando uma bacia rasa. No centro da bacia, via-se um crculo enegrecido, 
com a fuligem remanescente de madeira queimada. No ramos os primeiros visitantes, portanto.
        - Voc conhecia este lugar?
        Jamie afastou-se um pouco para um dos lados, observando-me, satisfeito com o meu deslumbramento. Encolheu os ombros.
        - Ah, sim. Conheo quase tudo nesta parte das Highlands. Venha aqui, h um local onde pode se sentar e ver a estrada onde ela passa perto da colina. - A 
hospedaria tambm era visvel dali, reduzida, em funo da distncia, de casa de boneca a casinha de blocos de madeira de criana. Havia alguns cavalos amarrados 
a rvores ao lado da estrada, pequenos pontos marrons e pretos dali de cima.
        Nenhuma rvore crescia no topo da rocha e o sol queimava minhas costas. Sentamo-nos lado a lado, as pernas balanando na borda e, como camaradas, compartilhamos 
uma das garrafas de cerveja que Jamie providencialmente retirou do poo do ptio da estalagem quando partimos.
        No havia rvores, mas as plantas menores, as que podiam crescer nas precrias fendas e criar razes num solo escasso, brotavam aqui e ali, erguendo o semblante 
corajosamente para o quente sol de primavera. Havia um pequeno grupo de margaridas abrigando-se sob uma salincia perto de mim e estendi a mo para colher uma.
        Ouviu-se um ligeiro zumbido e a margarida saltou do seu cabo e aterrissou no meu colo. Fiquei olhando estupidamente, a mente incapaz de dar sentido quele 
comportamento bizarro. Jamie, bem mais rpido em suas Percepes, atirara-se deitado na pedra.
        -- Abaixe-se! - exclamou. A mo avantajada agarrou meu cotovelo e me fez deitar estatelada a seu lado. Quando deitei no musgo esponjoso, vi a aste da flecha 
ainda tremendo acima do meu rosto, onde se fincara numa fenda do afloramento de rocha.
        Fiquei paralisada, com medo at de olhar para os lados, e tentei agarrar-me ainda mais ao solo. Jamie estava imvel ao meu lado, to quieto que ele mesmo 
poderia passar por uma pedra. At os pssaros e insetos pareciam ter feito uma pausa em suas cantorias e o ar ficou parado,  espera. De repente, Jamie comeou a 
rir.
        Sentou-se e, agarrando a flecha pela haste, girou-a cuidadosamente, retirando-a da fenda onde se instalara. Vi que estava guarnecida de penas bifurcadas 
da cauda de um pica-pau, amarradas com um fio azul, enrolado em uma faixa de pouco mais de um centmetro de largura abaixo das penas.
        Colocando a flecha de lado, Jamie posicionou as mos em concha em torno da boca e fez uma imitao notavelmente boa do grito de um pica-pau. Abaixou as mos 
e esperou. Em um instante, o chamado foi respondido do arvoredo l embaixo e um largo sorriso espalhou-se em seu rosto.
        - Um amigo seu? - arrisquei. Ele confirmou balanando a cabea, os olhos atentos ao estreito caminho na superfcie da parede da rocha.
        - Hugh Munro, a menos que outra pessoa tenha passado a fazer flechas como as dele.
        Esperamos mais alguns instantes, mas ningum apareceu no caminho.
        - Ah - Jamie exclamou baixinho, virando-se a tempo de deparar-se com uma cabea, erguendo-se lentamente acima da borda da rocha, atrs de ns.
        A cabea abriu um sorriso semelhante ao daquelas lanternas feitas de abbora recortada como um rosto humano, alegre e banguela, radiante de prazer por ter 
nos surpreendido. A prpria cabea era mais ou menos da forma de uma abbora, a impresso reforada pela pele encouraada, morena e avermelhada, que recobria no 
s o rosto, mas o topo redondo e careca de sua cabea tambm. Poucas abboras, entretanto, poderiam se vangloriar de uma barba to luxuriante e de um par de olhos 
azuis e brilhantes como aqueles. Mos robustas, com unhas imundas, plantaram-se sob a barba e agilmente ergueram o resto da lanterna de abbora  plena vista.
        De certa forma, o corpo combinava com a cabea, com uma aparncia ntida de duende de Halloween. Os ombros eram muito largos, mas corcundas e inclinados, 
um bem mais alto do que o outro. Uma das pernas tambm parecia um pouco mais curta do que sua companheira, emprestando ao sujeito uma espcie de trejeito manco e 
saltitante.
        Munro, se este realmente era o amigo de Jamie, estava vestido com o que pareciam ser mltiplas camadas de trapos, as cores desbotadas de tecido tingido com 
frutas silvestres aparecendo entre os rasges de uma vestimenta disforme que um dia devia ter sido um guarda-p feminino.
        No carregava a bolsa de plo que os escoceses levavam  frente da cintura, presa ao cinto, o qual era, de qualquer modo, no mais do que um pedao de corda 
esfiapada, de onde pendiam duas carcaas peludas, a cabea para baixo. Em vez disso, carregava uma gorda bolsa de couro atravessada no peito, de qualidade surpreendentemente 
boa, se considerarmos o resto do traje. Uma coleo de pequenos objetos de metal pendia da tira da bolsa: medalhas religiosas, condecoraes militares, o que pareciam 
ser velhos botes de uniformes, moedas gastas, furadas e costuradas no couro, e trs ou quatro pedacinhos retangulares de metal, cinzas e opacos, com marcas enigmticas 
gravadas na superfcie.
        Jamie levantou-se enquanto a criatura avanava, saltando agilmente entre as protuberncias da rocha. Os dois abraaram-se efusivamente, batendo com fora 
nas costas um do outro,  velha maneira dos homens se cumprimentarem.
        - E ento, como vo as coisas na casa dos Munro? - Jamie perguntou, afastando-se e examinando o velho companheiro.
        Munro abaixou a cabea e fez um estranho som devorador, sorrindo. Em seguida, erguendo as sobrancelhas, balanou a cabea em minha direo e abanou as mos 
curtas num gesto interrogativo estranhamente gracioso.
        - Minha mulher - Jamie disse, ruborizando-se ligeiramente com um misto de timidez e orgulho na nova apresentao. - Casado h apenas dois dias.
        Munro exibiu um sorriso ainda mais largo diante dessa informao e executou uma mesura notavelmente complexa e elegante, envolvendo o toque rpido na cabea, 
no corao e nos lbios e terminando em uma posio quase horizontal no cho aos meus ps. Tendo realizado essa surpreendente manobra, colocou-se de p num salto 
com a graa de um acrobata e bateu nas costas de Jamie outra vez, agora para felicit-lo.
        A seguir, Munro iniciou um extraordinrio bal com as mos, apontando para si mesmo, para a floresta l embaixo, para mim e depois para ele outra vez, com 
tal variedade de gestos e acenos que eu mal conseguia seguir suas mos esvoaantes. Eu j vira conversas de surdos-mudos antes, mas no executada to agilmente e 
com tanta graa.
        - Ento,  assim? -Jamie exclamou. Foi a sua vez de dar tapas de congratulaes no outro homem. No era de admirar que os homens se tornassem insensveis 
 dor superficial, pensei. Vinha deste hbito de espancarem-se incessantemente.
        -- Ele tambm se casou - Jamie explicou, virando-se para mim. - H Seis meses, com uma viva... ah, certo, com uma viva gorda - acrescentou em resposta 
a um gesto enftico de Munro -, com seis filhos, na vila de Dubhlairn.
        - Que bom - disse, educadamente. - Parece que pelo menos eles vo comer bem. - Indiquei os coelhos pendurados em seu cinto. Munro imediatamente soltou um 
dos animais mortos e entregou-o a mim, com tal expresso radiante de boa vontade que me senti obrigada a aceit-lo, sorrindo e esperando secretamente que no abrigasse 
pulgas.
        - Um presente de casamento - Jamie disse. - E muito bem-vindo Munro. Permita-nos retribuir a gentileza. - Com isso, extraiu uma das garrafas de cerveja de 
seu leito no musgo e passou-a a ele.
        As cortesias assim resolvidas, sentamo-nos novamente, compartilhando com camaradagem uma terceira garrafa. Jamie e Munro lanaram-se em uma troca de notcias, 
mexericos e conversas que no pareciam menos desenvoltas pelo fato de que apenas um deles falava.
        Quase no tomei parte na conversa, sendo incapaz de ler os sinais de Munro, embora Jamie fizesse o melhor possvel para me incluir por meio de tradues 
e referncias.
        A certa altura, Jamie indicou os pedaos retangulares de chumbo que adornavam a tira da bolsa de Munro.
        - Agora  oficial, hein? - perguntou. - Ou  somente para quando a caa est escassa?
        Munro balanou a cabea como o palhao de uma caixa de surpresas.
        - O que so? - perguntei, curiosa.
        - Gaberlunzies.
        - Ah, claro - disse. - Desculpe-me por perguntar.
        - Um gaberlunzie  um mendigo andarilho, com licena para pedir esmolas, Sassenach - Jamie explicou. - A licena vale dentro dos limites de uma parquia 
e somente no dia da semana em que  permitido pedir esmolas. Cada parquia tem a sua, para que os pedintes de uma parquia no possam se aproveitar muito da caridade 
da outra.
        - Um sistema com uma certa dose de elasticidade, pelo que estou vendo - eu disse, observando o estoque de quatro selos de chumbo de Munro.
        - Ah, bem, Munro  um caso especial, sabe. Foi capturado pelos turcos no mar. Passou muitos anos remando numa gal e mais alguns como escravo na Arglia. 
Foi onde ele perdeu a lngua.
        - Eles... a cortaram? - Senti uma ligeira tontura.
        Jamie no pareceu perturbar-se com a idia, ele aparentemente ja conhecia Munro h algum tempo.
        - Ah, sim. E tambm quebraram sua perna. As costas tambm, Munro? No - corrigiu-se, diante de uma srie de sinais de Munro. - As costas foi num acidente, 
que aconteceu quando pulava um muro em Alexandria. Mas os ps, isso foi obra dos turcos.
        Eu no queria realmente saber, mas tanto Munro quanto Jamie pareciam estar morrendo de vontade de me contar.
        - Est bem - disse, resignada. - O que aconteceu com os ps dele?
        Com algo que se aproximava do orgulho, Munro tirou os sapatos surrados e as meias, expondo ps largos, achatados, onde a pele era endurecida e spera, com 
reas brancas e brilhantes, alternadas com reas vermelhas como se estivessem em carne viva.
        - leo fervente - Jamie disse. -  como foram os cristos capturados a se converterem  religio muulmana.
        - Parece um meio de persuaso muito eficaz - eu disse. - Ento  por isso que vrias parquias lhe do licena para mendigar? Para compens-lo por suas provaes 
em nome da cristandade?
        - Exatamente. - Jamie estava satisfeito com a minha rpida apreenso da situao. Munro tambm expressou sua admirao com outro profundo salamaleque, seguido 
de uma expressiva, embora indelicada seqncia de movimentos com as mos que eu entendi como sendo elogios  minha aparncia fsica tambm.
        - Obrigado, Munro. Sim, ela vai me dar muito orgulho, eu acho. -Jamie, vendo minhas sobrancelhas arquearem-se, diplomaticamente virou Munro de modo que suas 
costas ficassem viradas para mim e os dedos esvoaantes escondidos. - Agora, conte-me o que tem feito nas vilas.
        Os dois homens aproximaram-se ainda mais, continuando sua conversa canhestra com mais intensidade ainda. Como a parte de Jamie parecia limitar-se principalmente 
a grunhidos e exclamaes de interesse, eu pouco podia colher do contedo da conversa e, assim, passei a me ocupar com um exame das estranhas plantas que brotavam 
na superfcie de nosso poleiro.
        Eu havia colhido um punhado de eufrsias e ditanos quando acabaram de conversar e Munro levantou-se para ir embora. Com uma ltima mesura para mim e um tapa 
nas costas de Jamie, arrastou-se para a borda da rocha e desapareceu to rapidamente quanto um dos coelhos que ele abateu deveria ter desaparecido em sua toca.
        - Que amigos fascinantes voc tem - eu disse.
        - Ah, sim. Um bom sujeito, Hugh. Cacei com ele e outros no ano passado. Ele vive por conta prpria, mas agora que  um mendigo oficial, seu trabalho o mantm 
indo e vindo entre as parquias; ele sabe tudo que se passa entre as fronteiras de Ardagh e Chesthill.
        - Inclusive o paradeiro de Horrocks? - perguntei. Jamie balanou a cabea.
        - Sim. E ele levar uma mensagem para mim, para mudar o local de encontro.
        - O que vai deixar Dougal perplexo - observei. - Se estivesse pensando em encost-lo na parede em relao a Horrocks.
        Balanou a cabea e um sorriso torceu o canto de sua boca.
        - Sim,  verdade.
        Era quase hora do jantar quando chegamos  hospedaria. Desta vez, no entanto, o grande cavalo preto de Dougal e seus cinco companheiros estavam Parados no 
ptio, mascando feno com satisfao.
        O prprio Dougal estava l dentro, limpando a poeira da estrada de sua garganta com cerveja. Cumprimentou-me com um aceno da cabea e virou-se para cumprimentar 
o sobrinho. Em vez de falar, no entanto, ficou ali parado, a cabea de lado, examinando Jamie com sarcasmo.
        - Ah,  isso - disse, finalmente, no tom satisfeito de um homem que solucionou uma difcil charada. - Agora sei do que voc me faz lembrar rapaz. - Virou-se 
para mim.
        - J viu um cervo perto do fim da estao do cio, dona? - disse, em tom confidencial. - Os pobres animais no comem nem dormem por vrias semanas, porque 
no podem perder tempo, entre derrotar os outros cervos e atender s coras. No final da temporada, so s pele e osso. Os olhos esto fundos e a nica parte deles 
que no treme com paralisia  seu...
        O final da frase perdeu-se num coro de gargalhadas enquanto Jamie puxava-me escadas acima. No descemos para o jantar.
        Muito mais tarde, quando estvamos quase adormecendo, senti o brao de Jamie em volta da minha cintura e seu hlito morno no meu pescoo.
        - Isso nunca pra? O desejo de ter voc? - Sua mo acariciou meu seio. - Mesmo quando acabo de sair de voc, eu a desejo tanto que sinto um aperto no peito 
e meus dedos doem querendo toc-la outra vez.
        Segurou meu rosto no escuro, com as duas mos, os polegares acariciando os arcos das minhas sobrancelhas.
        - Quando a seguro com as duas mos e a sinto tremer assim, esperando que eu a possua... Meu Deus, quero lhe dar prazer at voc gritar sob mim e abrir-se 
para mim. E quando tiro de voc meu prprio prazer, sinto como se tivesse lhe dado minha alma junto com meu corpo.
        Rolou para cima de mim e abri minhas pernas, contraindo-me ligeiramente quando ele me penetrou. Ele riu baixinho.
        - Eu tambm estou um pouco dolorido. Quer que eu pare? - Envolvi seus quadris com minhas pernas em resposta e o puxei para mais junto de mim.
        - Voc gostaria de parar? - perguntei.
        - No. No posso.
        Rimos e nos balanamos juntos, devagar, os lbios e os dedos explorando no escuro.
        - Entendo por que a Igreja diz que  um sacramento - Jamie disse sonhadoramente.
        - Isto? - perguntei, espantada. - Por qu?
        - Ou ao menos sagrado - ele disse. - Sinto-me como o prprio quando estou com voc.
        Ri com tanta fora que ele quase saiu de mim. Parou e segurou meus ombros, prendendo-me na cama.
        - O que  to engraado?
        -  difcil imaginar Deus fazendo isso. Jamie retomou seus movimentos.
        - Bem, se Deus fez o homem  Sua imagem, devo supor que Ele tenha um pnis. - Comeou a rir tambm, perdendo o ritmo outra vez. -Embora voc no me lembre 
muito a Virgem Maria, Sassenach.
        Sacolejamo-nos nos braos um do outro, rindo at nos soltarmos e rolarmos cada qual para um lado.
        Recompondo-se, Jamie deu um tapinha no meu quadril.
        - Fique de joelhos, Sassenach.
        - Por qu?
        - Se no vai me deixar ser espiritual a respeito disso, vai ter que aturar meus instintos mais bsicos. Vou ser um animal. - Mordeu meu pescoo. - Quer que 
eu seja um cavalo, um urso ou um cachorro?
        - Um ourio.
        - Um ourio? E como um ourio faz amor? - perguntou. No, pensei. No farei isso. No. Mas fiz.
        - Com muito cuidado - respondi, no contendo um risinho silencioso. Ento agora sabemos h quanto tempo esse a existe, pensei.
        Jamie deixou-se cair numa bola, rolando de rir. Finalmente, rolou para fora da cama e ps-se de p, tateando em busca da caixa de slex sobre a mesa. Ele 
brilhou como mbar vermelho contra a escurido do quarto quando o pavio pegou fogo e a luz aumentou s suas costas.
        Deixou-se cair ao p da cama, rindo para mim, que ainda sacudia a cabea sobre o travesseiro, com espasmos de riso. Passou as costas da mo pelo rosto e 
assumiu uma fingida expresso de seriedade.
        - Est bem, mulher. Estou vendo que chegou a hora em que terei que exercer minha autoridade como marido.
        - Ah,  mesmo?
        - Sim. - Mergulhou para a frente, agarrando minhas coxas e abrindo-as. Soltei um gritinho enquanto me contorcia, tentando me libertar, arrastando-me para 
a cabeceira da cama.
        - No, no faa isso!
        -- Por que no? - Deitou-se ao comprido entre minhas pernas, erguendo os olhos para mim. Continuou segurando minhas pernas com fora, impedindo-me de fech-las.
        -- Diga-me, Sassenach. Por que no quer que eu faa isso? - Esfregou o rosto na parte interna de uma de minhas coxas, a barba espetada raspando a pele fina. 
- Seja honesta. Por que no? - Raspou a barba no outro lado, fazendo-me chutar e retorcer-me desesperadamente para me libertar, mas em vo.
        Afundei o rosto no travesseiro, frio contra meu rosto afogueado.
        - Bem, se quer saber - murmurei -, eu no acho... bem, receio que no... quero dizer, o cheiro... - Minha voz definhou em um silncio embaraoso. Houve um 
movimento repentino entre minhas pernas, quando Jamie ergueu o corpo repentinamente. Passou os braos em torno dos meus quadris, colou o rosto na minha coxa e riu 
at as lgrimas correrem pelas suas faces.
        - Meu Deus, Sassenach - disse, finalmente, resfolegando com a risada - no sabe qual  a primeira coisa que se faz quando se est conhecendo um novo cavalo?
        - No - respondi, completamente perplexa.
        Ergueu um dos braos, exibindo um tufo macio de cabelos cor de canela.
        - Voc esfrega o sovaco no focinho do animal algumas vezes, para lhe dar seu cheiro e faz-lo acostumar-se com voc, para que no fique nervoso com voc. 
- Ergueu-se sobre os cotovelos, espreitando por cima da elevao da barriga e dos seios.
        -  o que voc devia ter feito comigo, Sassenach. Devia ter esfregado minha cara entre suas pernas logo da primeira vez. Assim, eu no ficaria arisco.
        - Arisco!
        Abaixou o rosto e esfregou-o deliberadamente para cima e para baixo, resfolegando e respirando forte, imitando um cavalo. Contorci-me e chutei-o nas costelas, 
com o mesmo efeito de quem chuta uma parede de tijolos. Finalmente, pressionou minhas coxas para baixo outra vez e ergueu os olhos para mim.
        - Agora - disse, num tom que no admitia oposio -, fique deitada quieta.
        Senti-me exposta, invadida, impotente - e como se estivesse prestes a me desintegrar. O hlito de Jamie era ao mesmo tempo quente e frio em minha pele.
        - Por favor - disse, sem saber se estava querendo dizer "por favor, pare" ou "por favor, continue". No importava; ele no pretendia parar.
        A conscincia fragmentou-se em inmeras sensaes distintas: a aspereza da fronha de linho, empelotada de flores bordadas; o odor ranoso do lampio, misturado 
ao cheiro mais fraco de rosbife e cerveja e aos vapores ainda mais fracos do perfume das flores murchando no copo de vidro; a madeira fria da parede contra meu p 
esquerdo, as mos firmes nos meus quadris. As sensaes giravam em redemoinho e aglutinavam-se por trs de minhas plpebras cerradas em um sol brilhante que crescia 
e diminua e que finalmente explodiu com um estalido sem som que me deixou numa escurido quente e pulsante.
        Indistintamente, de muito, muito longe, ouvi Jamie sentar-se.
        - Bem, assim est melhor - disse uma voz, ofegando entre as palavras. -  preciso um pouco de esforo para deix-la submissa, no ? - A cama rangeu com 
uma mudana de peso e senti meus joelhos serem afastados.
        - Espero que no esteja to morta quanto parece, est? - disse a voz, aproximando-se. Arqueei o corpo para cima com um som incompreensvel quando tecidos 
extremamente sensveis foram firmemente apartados em nova investida.
        - Meu Deus - exclamei. Ouvi um risinho junto ao meu ouvido.
        - Eu s disse que me sentia como Deus, Sassenach - ele murmurou. -Nunca disse que eu era Deus.
        Mais tarde, quando o sol nascente comeou a obscurecer a chama do lampio, acordei de um sono inebriante com a voz de Jamie murmurando mais uma vez:
        - Isso pra, Claire? O desejo? Minha cabea recostou em seu ombro.
        - No sei, Jamie. Realmente, no sei.
        18 - ASSALTANTES ATRS DAS ROCHAS
        
        O que o capito Randall disse? - perguntei. Com Dougal de um lado e Jamie do outro, mal havia espao para os trs cavalos seguirem lado a lado pela estrada 
estreita. De vez em quando, um dos meus acompanhantes, ou os dois, tinha que se deixar ficar para trs ou adiantar-se, para no ficar emaranhado no mato que ameaava 
reivindicar de volta o tosco caminho.
        Dougal olhou para mim, depois de novo para a estrada, a fim de guiar seu cavalo em torno de uma enorme pedra. Um riso maldoso espalhou-se lentamente pelas 
suas feies.
        - No ficou muito satisfeito - disse, circunspecto. - Embora eu no tenha certeza se devo lhe contar o que ele realmente disse. H limites at para a sua 
tolerncia a palavres, sra. Fraser.
        Ignorei o uso sarcstico do meu novo ttulo, bem como o insulto subjacente, embora tenha visto Jamie retesar-se na sela.
        - Suponho, h, que ele no pretenda tomar nenhuma medida a respeito? - perguntei. Apesar das garantias de Jamie, eu tinha vises de drages de casacos vermelhos 
saindo tempestuosamente do mato, massacrando os escoceses e arrastando-me para o covil de Randall para interrogatrio. Tinha a inquietante sensao de que as idias 
de interrogatrio de Randall deveriam ser criativas, para dizer o mnimo.
        - Creio que no - Dougal respondeu despreocupadamente. - Tem mais com que se preocupar do que com uma Sassenach perdida, por mais bonita que seja. - Ergueu 
uma das sobrancelhas e fez uma pequena mesura em minha direo, como se o elogio fosse um pedido de desculpas. - Ele tambm tem mais juzo do que irritar Colum seqestrando 
sua sobrinha - disse, de modo mais pragmtico.
        Sobrinha. Senti um ligeiro calafrio percorrer minha espinha, apesar do tempo quente. Sobrinha do chefe dos MacKenzie. Sem mencionar o comandante de guerra 
do cl MacKenzie, cavalgando to despreocupadamente ao meu lado. E pelo outro ramo da famlia, eu provavelmente estava agora ligada a lorde Lovat, chefe do cl Fraser, 
com o abade de uma poderosa abadia francesa e quem saberia com quantos outros Fraser. No, provavelmente John Randall acharia que no valia a pena perseguir-me. 
E esse, afinal, fora o motivo deste ridculo arranjo.
        Olhei de soslaio para Jamie, agora cavalgando  frente. Suas costas eram eretas como um amieiro novo e seus cabelos brilhavam sob o sol como um capacete 
de metal polido.
        Dougal seguiu meu olhar.
        - Poderia ter sido pior, no? - disse, erguendo a sobrancelha com um ar irnico.
        Duas noites depois, estvamos acampados numa faixa de charneca, perto de um daqueles estranhos afloramentos de pedra revelados pelas geleiras. Fora um longo 
dia de viagem, com apenas uma refeio apressada feita sobre a sela, e todos estavam satisfeitos por poderem parar para um jantar adequado. Eu j tentara anteriormente 
ajudar com a preparao das refeies, mas minha ajuda foi mais ou menos educadamente rejeitada por um taciturno membro do cl que aparentemente detinha essa funo.
        Um dos homens matara um veado de manh e uma poro de carne recm-preparada, cozida com nabos, cebolas e o que mais o cozinheiro havia conseguido encontrar, 
comps um delicioso jantar. Alimentados e satisfeitos, todos ns nos espalhamos em volta da fogueira, ouvindo histrias e canes. Para minha surpresa, o pequeno 
Murtagh, que raramente abria a boca para falar, tinha uma bela e limpa voz de tenor. Embora fosse difcil convenc-lo a cantar, os resultados eram recompensadores.
        Aconcheguei-me mais perto de Jamie, tentando encontrar um lugar confortvel para sentar no duro granito. Havamos acampado perto do afloramento de pedra, 
onde uma prateleira larga de granito avermelhado nos fornecia um abrigo natural e a profuso majestosa de rochas atrs de ns formava um bom local para esconder 
os cavalos. Quando perguntei por que no dormamos mais confortavelmente na grama flexvel da charneca, Ned Gowan informou-me que estvamos prximos  fronteira 
sul das terras dos MacKenzie. E, assim, perto dos territrios dos Grant e dos Chisholm.
        - Os batedores de Dougal afirmaram que no h sinal de ningum nas vizinhanas - dissera, de p sobre uma pedra grande para ele mesmo espreitar o horizonte 
em direo ao pr-do-sol -, mas nunca se sabe. Melhor prevenir do que remediar.
        Quando Murtagh deu por encerrada sua apresentao, Rupert comeou a contar histrias. Embora no tivesse a elegncia de Gwyllyn com as Palavras, possua 
um repertrio inesgotvel de histrias, sobre fadas, fantasmas, os tannasg ou maus espritos e outros habitantes das Highlands, como Os Monstros dos lagos. Esses 
seres, pelo que entendi, habitavam quase todas as reservas de gua, sendo especialmente comuns em vaus e travessias, embora muitos vivessem nas profundezas dos lagos.
        - H um lugar no extremo leste do lago Garve... - disse, passando os olhos ao redor do grupo para se certificar de que todos estivessem prestando ateno 
- que nunca congela. L a gua  sempre escura, mesmo quando o resto do lago est duro como uma pedra, porque ali  a chamin do monstro do lago.
        O monstro do lago Garve, como tantos iguais a ele, havia roubado uma jovem que fora ao lago pegar gua, levando-a para viver no fundo do lago e ser sua mulher. 
Deus livre qualquer moa, e mesmo qualquer homem, de encontrar um belo cavalo  beira d'gua e pensar em mont-lo, pois uma vez montado  impossvel desmontar e 
o monstro entrar na gua, se transformar em um peixe e nadar para seu esconderijo com o impotente cavaleiro ainda preso em seu dorso.
        - Ora, um monstro sob as ondas possui apenas dentes de peixe - disse Rupert, meneando a mo como um peixe ondulante - e se alimenta de caramujos, plantas 
aquticas e coisas midas e frias. Seu sangue  frio como a gua e ele no precisa de fogo, mas uma mulher humana  um pouco mais quente do que isso. - Nesse ponto, 
piscou pra mim com uma malcia indecorosa, para deleite dos ouvintes.
        - Assim, a mulher do monstro do lago sentia-se triste, com frio e com fome em sua nova casa sob as ondas, j que no gostava de caramujos e plantas aquticas. 
Assim, sendo o monstro do lago um tipo bondoso, vai at a margem do lago, perto da casa de um homem conhecido como construtor. E quando o homem se aproxima da gua 
e v o belo cavalo dourado com seus freios de prata, brilhando ao sol, no consegue resistir a apoderar-se das rdeas e montar.
        - Como era de se esperar, o monstro do lago carrega-o direto para as profundezas da gua e para sua prpria casa fria, prpria para peixes. Ali, conta ao 
construtor que para se libertar ter que construir uma boa lareira, com chamin, para que a mulher do monstro do lago possa ter um fogo para aquecer as mos e fritar 
seu peixe.
        Recostei a cabea no ombro de Jamie, sentindo-me agradavelmente sonolenta e ansiosa para ir para a cama, ainda que essa fosse apenas um cobertor estendido 
sobre o granito. De repente, senti seu corpo retesar-se. Colocou a mo em meu pescoo, avisando-me para permanecer imvel. Olhei em torno do acampamento e no vi 
nada estranho, mas percebi o ar de tenso passando de homem a homem numa comunicao sem fio.
        Olhando na direo de Rupert, notei um movimento de cabea quase imperceptvel quando seus olhos encontraram-se com os de Dougal, embora continuasse a histria 
sem se perturbar.
        - Assim, o construtor, no tendo outra escolha, fez o que mandaram que fizesse. O monstro do lago cumpriu sua palavra e levou o homem de volta  margem do 
lago perto de sua casa. E a mulher do monstro do lago ficou feliz, aquecida e satisfeita com o peixe que frita para o jantar. E a gua nunca se congela na extremidade 
leste do lago Garve porque o calor da chamin do monstro do lago derrete o gelo.
        Rupert estava sentado numa pedra, o lado direito voltado para mim. Enquanto falava, inclinou-se casualmente como se fosse coar a perna. Sem o menor tropeo 
em seus movimentos, pegou a faca que estava no cho perto de seu p e transferiu-a facilmente para o colo, onde ficou escondida nas dobras do seu kilt.
        Apertei-me mais contra Jamie e puxei sua cabea para baixo como um gesto amoroso.
        - O que foi? - sussurrei em seu ouvido.
        Ele prendeu o lbulo de minha orelha entre os dentes e respondeu tambm num sussurro:
        - Os cavalos esto irrequietos. H algum por perto.
        Um dos homens levantou-se e caminhou para mais perto da rocha para urinar. Ao retornar, sentou-se em outro lugar, ao lado de um dos carroceiros. Outro homem 
se levantou e foi inspecionar a panela de comida, servindo-se de um pedao de carne de veado. Por todo o acampamento, via-se uma sutil movimentao, enquanto Rupert 
continuava falando.
        Observando atentamente, com o brao de Jamie envolvendo-me com fora, finalmente compreendi que os homens estavam se aproximando de onde haviam deixado suas 
armas. Todos eles dormiam com suas adagas, mas em geral deixavam espadas, pistolas e os escudos redondos de couro em pilhas pequenas e bem arrumadas, perto da borda 
do acampamento. As prprias pistolas de Jamie estavam no cho, a poucos passos de distncia.
        Eu podia ver a luz da fogueira danando na lmina decorada em estilo damasceno. Embora as pistolas no fossem mais importantes do que as adagas comuns de 
cabo de chifre, usadas pela maioria dos homens, tanto a espada larga quanto a espada de dois gumes eram algo especial. Ele as mostrara orgulhosamente para mim em 
uma de nossas paradas, girando as lminas reluzentes amorosamente nas mos.
        A espada de dois gumes estava guardada dentro do rolo de seu cobertor; eu podia ver o enorme punho em forma de T, o cabo spero para a batalha, cuidadosamente 
lixado com areia. Eu a levantara e quase a deixara cair. Pesava cerca de sete quilos, Jamie me informara.
        Se a espada de dois gumes era sombria e de aparncia letal, a espada de lmina larga era bela. Dois teros do peso da arma maior, era brilhante e Mortal, 
com arabescos islmicos serpenteando pela lmina de ao azulado at o guarda-mo espiralado do cabo, esmaltado em tons de vermelho e azul. Eu vira Jamie us-la num 
exerccio por diverso, primeiro com a mo direita com um dos soldados e depois com a mo esquerda, com Dougal. Era esplndido v-lo nessas condies, gil e seguro, 
com uma graciosidade ainda mais impressionante se considerarmos seu tamanho. Mas minha boca ficou seca diante da idia de ver essa habilidade usada a srio.
        Inclinou-se para mim, plantando um beijo terno logo abaixo da linha do meu maxilar e aproveitando a oportunidade para virar-me ligeiramente, de modo que 
eu ficasse de frente para um dos amontoados de rochas.
        - Daqui a pouco, eu acho... - murmurou, beijando-me diligentemente. - V a pequena abertura na rocha? - Eu via; um espao com menos de um metro de altura, 
formado por duas lajes grandes tombadas uma ao lado da outra.
        Segurou meu rosto e aproximou o seu, acariciando-me amorosamente.
        - Quando eu disser para ir, entre e fique l. Tem o punhal?
        Ele havia insistido para que eu carregasse a adaga que atirara para mim naquela noite na hospedaria, apesar da minha prpria insistncia de que eu no possua 
a habilidade nem a inclinao para us-la. E quando era preciso insistir, Dougal tinha razo. Jamie era teimoso.
        Conseqentemente, a adaga estava em um dos bolsos fundos do meu vestido. Depois de um dia com a presena desconfortvel de seu peso contra a minha coxa, 
quase me esquecera inteiramente dela. Deslizou a mo de forma brincalhona pela minha perna, certificando-se da presena da adaga.
        A seguir, levantou a cabea, como um felino farejando na brisa. Erguendo os olhos, pude v-lo relancear um olhar para Murtagh e, em seguida, para mim. O 
homenzinho no externou nenhum sinal, mas levantou-se e espreguiou-se com fora. Quando se sentou outra vez, estava vrios passos mais perto de mim.
        Um cavalo relinchou nervosamente atrs de ns. Como se fosse um sinal, lanaram-se gritando por cima da rocha. No ingleses, como eu temera, nem bandidos. 
Habitantes das Highlands, gritando como almas penadas. Do cl dos Grant, suponho. Ou dos Campbell.
        Arrastando-me praticamente de joelhos, parti em direo s pedras. Bati a cabea e ralei os joelhos, mas consegui me esgueirar para dentro da fenda. O corao 
disparado, tateei em busca da adaga em meu bolso, quase me cortando no processo. No sabia o que fazer com o punhal longo e perigoso, mas me senti um pouco melhor 
por t-lo comigo. Havia uma incrustao de pedra-da-lua no cabo e era reconfortante sentir o pequeno volume contra a palma da minha mo; ao menos, sabia que, mesmo 
no escuro, segurava-a corretamente.
        A luta foi to confusa que no comeo eu no fazia nenhuma idia do que estava acontecendo. A pequena clareira estava repleta de corpos gritando, empurrando-se, 
rolando no cho e correndo de um lado para o outro. Felizmente, meu santurio ficava afastado da zona de combate principal, de modo que no corria nenhum perigo 
no momento. Olhando ao meu redor, vi uma figura pequena, agachada, perto do meu esconderijo, pressionado contra as sombras da rocha. Segurei a adaga com mais fora, 
mas percebi quase imediatamente que era Murtagh.
        Ento, essa fora a finalidade do olhar de Jamie. Murtagh fora instrudo a me guardar. No conseguia ver Jamie em lugar algum. A maior parte da luta estava 
ocorrendo nas rochas e nas sombras perto das carroas.
        Claro, esse devia ser o objetivo do ataque; as carroas e os cavalos. Os atacantes eram um bando organizado, bem armado e nutrido, pelo pouco que pude ver 
 luz minguante da fogueira. Se eram os Grant, talvez estivessem procurando despojos ou vingana pelo gado que Rupert e amigos haviam surrupiado alguns dias atrs. 
Confrontado com os resultados do ataque improvisado, Dougal ficara ligeiramente aborrecido - no com o assalto propriamente, mas preocupado apenas com o fato de 
que o gado iria nos atrasar. No entanto, ele conseguira se desvencilhar dele quase imediatamente, em um pequeno mercado numa das vilas.
        Logo ficou evidente que os atacantes no estavam muito preocupados em causar danos ao nosso grupo; apenas em pegar os cavalos e as carroas. Um ou dois conseguiram. 
Agachei-me rapidamente quando um cavalo sem arreios saltou a fogueira e desapareceu na escurido da charneca, um homem gritando estridentemente agarrado  sua crina.
        Mais dois ou trs fugiram a p, carregando sacas dos gros de Colum, perseguidos por alguns MacKenzie furiosos gritando imprecaes em galico. Pelos sons, 
o ataque estava chegando ao fim. Em seguida, um grande grupo de homens surgiu de surpresa na luz da fogueira e a ao intensificou-se outra vez.
        Parecia ser uma luta sria, uma impresso nascida dos lampejos das lminas e do fato de que os participantes grunhiam bastante, mas no berravam. Finalmente, 
consegui entender. Jamie e Dougal estavam no centro do combate, lutando de costas um para o outro. Cada qual brandia sua espada larga na mo esquerda, adaga na direita 
e ambos estavam fazendo bom uso delas, at onde eu podia ver.
        Estavam cercados por quatro homens - ou cinco; perdi a conta nas sombras - armados com espadas curtas, embora um dos homens tivesse uma espada larga pendurada 
na cintura e pelo menos mais dois carregassem Pistolas que no haviam sacado.
        Devia ser Dougal ou Jamie, ou ambos, que queriam. Vivos, de preferncia. Para resgate, suponho. Por isso, o uso deliberado de espadas curtas, que poderiam 
apenas ferir, ao invs da espada larga ou das pistolas mais letais.
        Dougal e Jamie no sofriam de tais escrpulos e dedicavam-se  luta com terrvel e considervel eficincia. De costas um para o outro, formavam um crculo 
completo de ameaa, cada homem cobrindo o lado mais fraco do outro. Quando Dougal levou a mo com a adaga para cima com fora considervel, pensei que "fraco" podia 
no ser o termo exato.
        Toda a confuso de imprecaes, grunhidos e brados avanava en minha direo. Recuei o mximo que pude, mas a fenda no tinha mais do que sessenta centmetros 
de profundidade. Percebi um ligeiro movimento pelo canto do olho. Murtagh decidira tomar parte mais ativa nos acontecimentos.
        Eu mal conseguia afastar meu olhar horrorizado de Jamie, mas vi o homenzinho sacar a pistola, at aqui no disparada, bem devagar. Verificou o mecanismo 
de disparo cuidadosamente, esfregou a arma na manga, firmou-a no antebrao e esperou.
        E esperou. Eu tremia de medo por Jamie, que abandonara as maneiras elegantes e desfechava golpes ferozmente de um lado para o outro, fazendo recuar os dois 
homens que agora o enfrentavam com absoluta fria. Por que diabos ele no atirava?, pensei furiosamente. Ento, compreendi porque no. Tanto Jamie quanto Dougal 
estavam na linha de fogo. Lembrei-me que pistolas de slex s vezes deixavam a desejar em termos de preciso.
        Essa suposio foi confirmada no minuto seguinte, quando uma estocada inesperada de um dos adversrios de Dougal pegou-o no pulso. A lmina rasgou todo o 
comprimento de seu antebrao e ele caiu sobre um dos joelhos. Sentindo seu tio cair, Jamie retraiu sua prpria lmina e deu dois rpidos passos para trs. Isso colocou 
suas costas perto da superfcie de uma rocha, Dougal agachado a seu lado, ao alcance da proteo de sua nica lmina.,Tambm trouxe os atacantes para perto do meu 
esconderijo e da pistola de Murtagh.
        Assim de perto, o estampido da pistola era espantosamente alto. Pegou os atacantes de surpresa, particularmente o que foi atingido. O homem ficou imvel 
por um instante, sacudiu a cabea, atordoado, depois foi se sentando bem devagar, caiu frouxamente para trs e rolou por um ligeiro declive at as brasas quase extintas 
da fogueira.
        Aproveitando-se da surpresa, Jamie derrubou a espada da mo de um dos atacantes. Dougal j estava de p outra vez e Jamie deslocava-se para o lado, dando-lhe 
espao para lutar. Um dos adversrios abandonou o combate e correu pelo morro abaixo para arrastar seu companheiro ferido para fora das cinzas da fogueira. Isso 
ainda deixava trs assaltantes e Dougal estava ferido. Eu podia ver manchas escuras espalhando-se na superfcie da rocha conforme ele brandia a espada.
        Estavam muito perto de mim agora e eu podia ver a expresso do rosto de Jamie, calma e concentrada, absorta na exultao da batalha. De repente, Dougal gritou 
alguma coisa para ele. Jamie tirou os olhos do rosto do adversrio por uma frao de segundo e olhou para baixo. Erguendo os olhos exatamente a tempo de evitar uma 
estocada, desviou-se para o lado e atirou sua espada.
        Seu adversrio olhou bastante surpreso para a espada cravada em sua perna. Tocou a lmina estupidificado, depois a agarrou e puxou. Com a facilidade com 
que saiu, presumi que o ferimento no tivesse sido profundo. O homem ainda parecia ligeiramente atordoado e ergueu o olhar como se perguntasse o propsito de um 
comportamento to inusitado.
        Emitiu um berro, deixou cair a espada e correu, mancando pesadamente. Surpresos com o barulho, os outros dois atacantes olharam para os lados, viraram-se 
e tambm fugiram, perseguidos por Jamie, que se movia como uma avalanche. Ele conseguira tirar a enorme espada de dois gumes do cobertor enrolado e a agitava com 
as duas mos em um arco letal. Apoiando-o, surgiu Murtagh, gritando algo altamente injurioso em galico e brandindo tanto a espada quanto a pistola recarregada.
        As coisas acalmaram-se rapidamente depois disso e uns quinze minutos mais tarde os MacKenzie reuniam-se e avaliavam os danos.
        Foram poucos: dois cavalos foram levados e trs sacas de gros, mas os carroceiros, que dormiam com suas cargas, evitaram maiores depredaes nas carroas, 
enquanto os soldados haviam conseguido repelir os pretensos ladres de cavalo. A maior perda parecia ter sido um dos homens.
        Pensei, assim que deram por falta dele, que deveria ter sido ferido ou morto no confronto, mas uma busca minuciosa na rea no conseguiu encontr-lo.
        - Seqestrado - disse Dougal, contrariado. - Droga, ele vai me custar a renda de um ms em resgate.
        - Poderia ter sido pior, Dougal - Jamie disse, enxugando o rosto na manga da camisa. - Pense no que Colum diria se tivesse sido voc!
        - Se tivessem levado voc, rapaz, eu o deixaria por l e voc poderia trocar seu nome para Grant - Dougal retorquiu, mas o estado de esprito do grupo ficou 
substancialmente aliviado.
        Peguei a caixa de suprimentos mdicos que havia trazido e alinhei os feridos em ordem de gravidade dos ferimentos. Nada realmente grave, constatei com satisfao. 
O ferimento no brao de Dougal era provavelmente o pior.
        Ned Gowan tinha os olhos acesos e efervescia de vitalidade, aparentemente to intoxicado com a adrenalina da luta que mal notava o dente arrancado pelo cabo 
de um punhal mal direcionado. No entanto, tivera a presena de esprito suficiente para guard-lo cuidadosamente embaixo da lngua.
        -- Por via das dvidas, sabe - explicou, cuspindo o dente na palma da mo. A raiz no fora quebrada e a cavidade ainda sangrava um pouco, de modo que corri 
o risco e pressionei o dente com firmeza no lugar. O advogado ficou bastante plido, mas no emitiu nenhum som. Entretanto, deu graas a Deus quando lavou a boca 
com usque para fins de desinfeco e rapidamente o engoliu.
        Eu colocara uma atadura no ferimento de Dougal imediatamente, a fim de estancar o sangue, e constatei satisfeita que o sangramento havia praticamente parado 
quando a desenrolei. Era um corte limpo, mas profundo. Uma camada fina de gordura amarela despontava nas bordas do corte aberto, que penetrara mais de dois centmetros 
no msculo. Nenhum vaso sangneo importante fora cortado, graas a Deus, mas teria que ser costurado.
        Verificou-se que a nica agulha disponvel era um objeto robusto como uma sovela fina, usada pelos carroceiros para remendar arreios. Examinei-o em dvida, 
mas Dougal meramente estendeu o brao e virou o rosto.
        - No me incomodo com sangue de um modo geral - explicou -, mas tenho uma certa objeo a ver o meu prprio sangue. - Permaneceu sentado em uma pedra enquanto 
eu trabalhava, os dentes cerrados com tanta fora a ponto de fazer os msculos de seus maxilares tremerem. A noite estava ficando fria, mas gotculas de suor porejavam 
de sua testa. Em determinado momento, pediu-me educadamente para parar por um instante, afastou-se e pde-se notar que vomitava atrs de uma pedra, em seguida voltou 
e apoiou o brao no joelho outra vez.
        Por sorte, o proprietrio de uma taberna resolvera saldar o aluguel deste trimestre na forma de um pequeno barril de usque, o que foi muito oportuno. Usei-o 
para desinfetar alguns ferimentos abertos e depois deixava meus pacientes se medicarem como achassem melhor. Eu mesma aceitei uma caneca, ao trmino dos meus servios. 
Tomei uma caneca inteira com prazer e deixei-me afundar prazerosamente no cobertor. A lua descia no cu e eu tremia, em parte pela reao e em parte pelo frio. Foi 
uma sensao maravilhosa sentir Jamie deitar-se ao meu lado e me aconchegar com firmeza em seus braos, junto ao seu corpo grande e quente.
        - Acha que voltaro? - perguntei, mas ele sacudiu a cabea.
        - No, foi Malcom Grant e seus dois filhos. Foi o mais velho que eu feri na perna. Devem estar em casa em suas prprias camas a essa altura -retorquiu. Acariciou 
meus cabelos e disse, em voz mais suave: - Voc fez um belo trabalho esta noite, Sassenach. Tive orgulho de voc.
        Rolei sobre meu corpo e passei os braos em volta de seu pescoo.
        - No to orgulhosa quanto eu. Voc foi maravilhoso, Jamie. Nunca vi nada parecido.
        Resfolegou, tentando diminuir seu prprio mrito, mas achei que ficou satisfeito, mesmo assim.
        - Foi apenas um assalto, Sassenach. Fao isso desde os quatorze anos. E s por diverso, sabe;  diferente quando voc est lutando com algum que realmente 
quer mat-lo.
        - Diverso - eu disse, com voz fraca. - Sem dvida.
        Seus braos envolveram-me com mais fora e uma das mos que me acariciavam desceu, comeando a puxar minha saia para cima. Obviamente, a emoo da luta estava 
se transformando em um tipo diferente de excitao.
        - Jamie! Aqui no! - exclamei, tentando esgueirar-me do seu abrao e puxar minha saia para baixo outra vez.
        - Est cansada, Sassenach? - perguntou, preocupado. - No se preocupe, no vai demorar muito. - Agora, trabalhava com as duas mos, puxando o tecido pesado 
na parte da frente.
        - No! - respondi, consciente demais da presena dos vinte homens, deitados a alguns metros de distncia. - No estou cansada,  que... Prendi a respirao 
quando sua mo, tateando s cegas, encontrou seu caminho entre minhas pernas.
        - Meu Deus - ele disse baixinho. - Est escorregadio como limo.
        - Jamie! H vinte homens dormindo bem ao nosso lado! - sussurrei como se gritasse.
        - No vo dormir muito se voc continuar falando. - Rolou o corpo para cima de mim, prendendo-me na pedra. Encaixou o joelho entre minhas coxas e comeou 
a movimentar-se suavemente para frente e para trs. Involuntariamente, minhas pernas comearam a se afrouxar. Vinte e sete anos de bom comportamento de nada serviam 
diante de centenas de milhares de anos de instinto. Embora minha mente pudesse objetar a ser possuda numa rocha nua, ao lado de vrios soldados dormindo, meu corpo 
claramente se considerava esplio de guerra e estava ansioso para completar as formalidades de redeno. Ele me beijou, longa e profundamente, a lngua doce e irrequieta 
em minha boca.
        - Jamie - disse, arfando. Ele afastou seu kilt do caminho e pressionou minha mo em seu corpo.
        - Minha Nossa Senhora - eu disse, impressionada, a despeito de mim mesma. Minha noo de decncia caiu mais um ponto.
        - A luta d um teso enorme, depois. Voc me deseja, no? - disse, afastando-se um pouco para olhar para mim. No adiantava negar, com todas as evidncias 
 mo. Ele estava duro como uma vara de metal contra a minha coxa nua.
        -- H... sim... mas...
        Agarrou-me com firmeza pelos ombros, com as duas mos.
        -- Fique quieta, Sassenach - disse com autoridade. - No vai levar muito tempo.
        No levou. Comecei a atingir o clmax com a primeira investida forte, em espasmos longos, dilacerantes. Enfiei os dedos com fora nas suas costas e permaneci 
assim, mordendo o tecido de sua camisa para abafar qualquer som. Em menos de doze estocadas, senti seus testculos contrarem-se com fora contra seu corpo e o fludo 
quente de sua ejaculao. Deixou-se cair lentamente para o lado e ficou deitado, tremendo.
        O sangue ainda latejava em meus ouvidos, fazendo eco  pulsao decrescente entre minhas pernas. A mo de Jamie repousava em meu seio, lnguida e pesada. 
Virando a cabea, pude ver o vulto indistinto da sentinela, recostado contra uma rocha do outro lado da fogueira. Educadamente, virara as costas para ns. Fiquei 
meio chocada de ver que eu no estava nem sequer constrangida. Perguntei-me, um pouco indistintamente, se estaria pela manh e, depois, no pensei em mais nada.
        De manh, todos se comportaram normalmente, ainda que se movendo com uma certa rigidez, em conseqncia do combate e de uma noite dormindo nas pedras. Todos 
estavam de excelente humor, at aqueles levemente feridos.
        O humor geral melhorou ainda mais quando Dougal anunciou que viajaramos somente at o bosque que podamos ver da borda de nossa plataforma rochosa. L, 
os cavalos poderiam beber gua e pastar e ns mesmos poderamos descansar um pouco. Imaginei se essa mudana nos planos afetaria o encontro de Jamie com Horrocks, 
mas ele no pareceu perturbar-se com a declarao.
        O dia estava nublado, mas sem garoa, e o ar estava quente. To logo o novo acampamento ficou pronto, os cavalos foram tratados e os feridos reexaminados, 
todos ficaram livres para fazer o que quisessem, dormir na grama, caar ou pescar, ou simplesmente esticar as pernas depois de vrios dias na sela.
        Eu estava sentada embaixo de uma rvore conversando com Jamie e Ned Gowan, quando um dos homens aproximou-se e atirou um objeto no colo de Jamie. Era a adaga 
com o cabo de pedra-da-lua.
        -  sua, rapaz? - perguntou. - Encontrei-a nas pedras hoje de manh.
        - Devo t-la deixado cair, na confuso - eu disse. - Tudo bem; no sei mesmo o que fazer com isto. Provavelmente, teria ferido a mim mesma se tivesse tentado 
us-la.
        Ned olhou para Jamie com ar de reprovao por cima de seus pequenos culos.
        - Voc lhe deu um punhal e no a ensinou a us-lo?
        - No houve tempo, nas circunstncias - Jamie defendeu-se. - Mas Ned tem razo, Sassenach. Devia aprender a lidar com armas. Nunca se sabe o que pode acontecer 
na estrada, como voc viu  noite passada.
        Assim, fui conduzida ao centro de uma clareira e as aulas comearam. Vendo o movimento, vrios MacKenzie aproximaram-se para investigar e continuaram ali 
para dar palpites. Em pouco tempo, eu tinha mais de doze instrutores, todos discutindo os principais pontos da tcnica. Aps uma longa e amistosa discusso, chegaram 
 concluso de que Rupert provavelmente era o melhor de todos com uma adaga e ele assumiu a aula.
        Ele procurou um local razoavelmente plano, livre de pedras e pinhas, onde pudesse demonstrar a arte de lutar com adagas.
        - Olhe, dona - disse. Manteve a adaga equilibrada no dedo mdio, quase trs centmetros abaixo do cabo. - O ponto de equilbrio,  onde voc deve mant-la, 
de modo que se encaixe confortavelmente em sua mo. - Experimentei com minha adaga. - Quando a ajustei adequadamente, ele me mostrou a diferena em uma punhalada 
de cima para baixo, com a faca abaixo da mo, e uma estocada de baixo para cima, com a faca acima da mo.
        - Geralmente,  prefervel o golpe de baixo para cima; de cima para baixo  melhor apenas quando voc est vindo de cima, caindo sobre algum com bastante 
fora. - Analisou-me especulativamente.
        - No, voc  uma mulher alta, mas ainda que pudesse atingir o pescoo, no teria fora para perfur-lo, a menos que o alvo esteja sentado.  melhor vir 
de baixo para cima. - Ergueu a camisa, revelando uma barriga volumosa e peluda, j brilhando de suor.
        - Agora, veja - disse, apontando para o centro, logo abaixo do esterno -, este  o ponto onde voc deve mirar, se estiver frente a frente. Mire diretamente 
para cima e para dentro, com todas as foras que conseguir reunir. Ir direto ao corao e mata em um ou dois minutos. O nico problema  evitar o osso do meio do 
peito; ele vai at mais embaixo do que se pensa e se o punhal ficar preso nessa ponta mais macia, quase no vai ferir a vtima, mas voc vai perder a arma e ele 
a pegar. Murtagh! Voc tem as costas magras; venha c e mostraremos  moa como atacar por trs. -Fazendo um Murtagh relutante girar nos calcanhares, deu um puxo 
para cima na camisa encardida para mostrar uma espinha dorsal cheia de ns e costelas proeminentes. Enfiou um dedo rombudo sob a ltima costela da direita, fazendo 
Murtagh dar um guincho de surpresa.
        - Este  o lugar nas costas, de qualquer um dos lados. Veja, com as costelas e tudo o mais,  difcil atingir alguma coisa de importncia vital quando voc 
apunhala nas costas. No entanto, se puder enfiar a faca entre as costelas, isso  diferente, porm  mais difcil do que imagina. Mas aqui, embaixo da ltima costela, 
voc apunhala para cima e atinge o rim. V reto para cima e ele cair morto como uma pedra.
        Rupert, em seguida, me fez tentar apunhalar em diversas posies e posturas. Quando ficou cansado, todos os homens se revezaram para agir como vtimas, obviamente 
achando meus esforos hilariantes. Obedientemente, deitavam-se na grama e viravam-se de costas para que eu pudesse atac-los "de surpresa", pulavam sobre mim pelas 
costas ou fingiam me estrangular para que eu pudesse apunhal-los na barriga.
        Os espectadores me animavam com gritos de encorajamento e Rupert instruiu-me com firmeza a no recuar no ltimo instante.
        - V com toda a fora, dona - disse. - No pode recuar se for para valer. E se algum desses molengas no conseguir sair da frente a tempo, vai ter o que 
merece.
        No comeo, eu estava tmida e extremamente desajeitada, mas Rupert era um bom professor, muito paciente e bom na demonstrao de movimentos, inmeras vezes. 
Revirou os olhos com pretensa libidinagem quando se posicionou atrs de mim e me envolveu pela cintura, mas foi muito srio e eficiente ao segurar meu pulso para 
me mostrar como rasgar um inimigo na altura dos olhos.
        Dougal sentou-se sob uma rvore, cuidando de seu brao ferido e fazendo comentrios sarcsticos durante o treinamento, conforme ele progredia. No entanto, 
foi ele quem sugeriu um boneco como alvo.
        - D-lhe alguma coisa onde ela possa enfiar o punhal - disse, quando comecei a mostrar alguma facilidade nos golpes. -  um choque, a primeira vez.
        -  verdade - Jamie concordou. - Descanse um pouco, Sassenach, enquanto eu arranjo alguma coisa.
        Afastou-se em direo s carroas com dois soldados e pude v-los reunidos, gesticulando e puxando uma ou outra coisa do cho da carroa. Totalmente exausta, 
deixei-me cair sob a rvore, ao lado de Dougal.
        Ele balanou a cabea, um leve sorriso no rosto. Como a maioria dos homens, no se dera ao trabalho de fazer a barba durante a viagem e uma barba cerrada, 
castanho-escura, emoldurava sua boca, acentuando o carnu-do lbio inferior.
        - Como vo as coisas, ento? - perguntou, no se referindo  minha habilidade com armas pequenas.
        - Bastante bem - respondi cautelosamente, tambm no me referindo a adagas. Os olhos de Dougal relancearam em direo a Jamie, ocupado com alguma coisa perto 
das carroas.
        - O casamento parece ter feito bem ao rapaz - observou.
        -  saudvel para ele, nas circunstncias - concordei, um pouco friamente. Seus lbios contorceram-se diante da minha entonao de voz.
        - E para voc tambm, dona. Um bom arranjo para todos, ao que parece.
        - Particularmente para voc e seu irmo. E por falar nele, o que acha que Colum vai dizer quando souber?
        O sorriso ampliou-se.
        - Colum? Ah, bem. Creio que ele vai ter o maior prazer em receber uma sobrinha como voc na famlia.
        O boneco ficou pronto e eu voltei ao treinamento. O boneco era uma grande saca de l, do tamanho do torso de um homem, com um pedao de couro de bfalo curtido 
enrolado  sua volta e amarrado com corda. Serviria para eu praticar os golpes de adaga, primeiro amarrado a uma rvore na altura de um homem, depois atirado para 
cima de mim ou rolado no cho  minha frente.
        O que Jamie no mencionara  que haviam inserido vrias peas planas de madeira entre a saca de l e o couro; para simular ossos, como explicou mais tarde.
        As primeiras punhaladas foram tranqilas, embora tivessem sido necessrias vrias tentativas at conseguir perfurar o couro. Era mais duro do que parecia. 
Assim  a pele da barriga de um homem, informaram-me. Na tentativa seguinte, experimentei um golpe direto de cima para baixo e atingi uma das peas de madeira.
        Por um momento, pensei que meu brao houvesse repentinamente cado no cho. O choque do impacto reverberou por todo o meu ombro e a adaga caiu dos meus dedos 
insensveis. Tudo abaixo do cotovelo ficou dormente, mas um terrvel formigamento avisou-me que no seria por muito tempo.
        -Jesus Cristo - eu disse. Fiquei parada, segurando o cotovelo e ouvindo a risada geral. Finalmente, Jamie segurou-me pelo ombro e massageou meu brao at 
a sensibilidade retornar aos poucos, pressionando o tendo atrs do cotovelo e enfiando o polegar na depresso na base do meu pulso.
        - Tudo bem - eu disse entre dentes, cuidadosamente flexionando minha formigante mo direita. - O que se faz quando se atinge um osso e se perde a faca? H 
algum procedimento padro para isso?
        - Ah, sim - Rupert disse, rindo. - Saque a pistola com a mo esquerda e mate o filho-da-me com um tiro. - Isso provocou novas gargalhadas, que eu ignorei.
        - Tudo bem - eu disse, mais ou menos calma. Estiquei a mo indicando a longa pistola que Jamie usava no quadril esquerdo. - E ento? Vai me mostrar como 
carregar e disparar?
        - No, no vou. - Falou srio e com firmeza. Fiquei um pouco eriada diante da resposta.
        -- Por que no?
        - Porque voc  mulher, Sassenach.
        Senti meu rosto ficar vermelho.
        - Ah, ? - exclamei com ironia. - Acha que as mulheres no so capazes de entender como uma pistola funciona?
        Olhou-me sem se alterar, a boca retorcendo-se um pouco enquanto considerava vrias respostas.
        -- Estou com vontade de deixar voc experimentar - disse finalmente. Seria bem feito para voc.
        Rupert estalou a lngua, aborrecido com ns dois.
        - No seja tolo, Jamie. Quanto a voc, dona - disse, virando-se para mim -, no  que as mulheres sejam estpidas, embora certamente algumas sejam;  que 
elas so pequenas.
        - Hein? - Olhei para ele perplexa por um instante, sem compreender. Jamie soltou a respirao ruidosamente e tirou a pistola da presilha. Vista de perto, 
era enorme; uma arma prateada de quarenta e cinco centmetros da boca  coronha.
        - Olhe - disse, segurando-a diante de mim. - Voc a segura aqui, apoia a arma no brao e mira por aqui. E quando voc puxa o gatilho, ela d um coice como 
uma mula. Sou quase trinta centmetros mais alto do que voc, peso uns quarenta quilos a mais do que voc e sei o que estou fazendo. Ela causa em mim um machucado 
feio quando atiro; deve deix-la estatelada no cho, de costas, se no peg-la no rosto. - Girou a pistola e enfiou-a na presilha outra vez.
        - Eu deixaria voc ver por si mesma - disse, erguendo uma das sobrancelhas -, mas gosto mais de voc com todos os seus dentes. Voc tem um sorriso bonito, 
Sassenach, embora se irrite  toa.
        O episdio serviu de lio e eu aceitei sem discutir a opinio dos homens de que mesmo a menor e mais leve das espadas era pesada demais para uma mulher 
usar com destreza. A pequena sgian dhu, a adaga que se carregava na meia, foi considerada aceitvel e deram-me uma dessas, um objeto de ferro negro, pontiagudo e 
afiado, de aparncia letal, com uns oito centmetros de comprimento e um cabo curto. Pratiquei inmeras vezes retir-la do seu esconderijo enquanto os homens observavam 
criticamente, at poder levantar a saia, agarrar a faca e j ficar na posio certa, tudo em um nico e suave movimento, terminando com a faca abaixo da mo, pronta 
para degolar o adversrio.
        Finalmente, fui aprovada como uma lutadora novata e liberada para o jantar, entre congratulaes generalizadas - com uma nica exceo. Murtagh sacudiu a 
cabea, em dvida.
        - Ainda acho que a nica arma boa para mulheres  veneno.
        - Talvez - retrucou Dougal -, mas tem suas deficincias num combate corpo-a-corpo.
        
        19 - O MONSTRO DO LAGO
        
        Na noite seguinte, acampamos nas margens do lago Ness. Deu-me uma sensao estranha ver o local outra vez; to pouco havia mudado. Ou mudaria, eu deveria 
dizer. Os larcios e amieiros ostentavam um verde mais escuro, porque estvamos em pleno vero, no no fim da primavera. As flores haviam mudado dos suaves tons 
de rosa e branco das violetas e flores-de-maio para os dourados e amarelos mais quentes dos tojos e giestas. O cu estava mais azul, mas a superfcie do lago continuava 
a mesma; um obscuro azul enegrecido que espelhava as margens acima e mantinha as imagens refletidas encurraladas, em cores embotadas sob o espelho esfumaado.
        Viam-se at mesmo alguns barcos a vela mais acima no lago. Embora, quando um deles aproximou-se, tenha constatado que se tratava de uma embarcao de casco 
de couro curtido estendido sobre uma estrutura de vime, no o esbelto barco de madeira com que eu estava acostumada.
        O mesmo cheiro pungente que impregna todos os cursos d'gua estava l; uma mistura penetrante de folhagens de cheiro forte e folhas apodrecidas, gua doce, 
peixes mortos e lama quente. Acima de tudo, havia a mesma sensao estranha pairando no ar. Os homens, assim como os cavalos, pareciam senti-la e a atmosfera do 
acampamento era contida e reservada.
        Tendo encontrado um lugar confortvel para as minhas prprias cobertas de dormir e as de Jamie, caminhei at a beira do lago para lavar o rosto e as mos 
antes do jantar.
        A margem descia num barranco ngreme at quebrar-se num aglomerado de lajes de pedra que formavam uma espcie de cais irregular. Era muito sossegado ali 
na base da margem, fora da vista e dos barulhos do acampamento, e sentei-me sob uma rvore para apreciar um momento de privacidade. Desde o meu apressado casamento 
com Jamie, j no era seguida a todo instante; ao menos isso consegui.
        Arrancava preguiosamente as pencas de sementes aladas de um galho baixo e atirava-as no lago quando notei as ondulaes da gua contra as Pedras se intensificarem, 
como se empurradas por um vento que se aproximava.
        Uma cabea grande e chata emergiu na superfcie a menos de trs metros de distncia. Pude ver a gua escorrendo borbulhante das escamas que recobriam uma 
crista ao longo do pescoo sinuoso. A gua estava agitada desde uma distncia considervel e pude vislumbrar aqui e ali o movimento macio e escuro sob a superfcie 
do lago, embora a cabea em si se mantivesse relativamente imvel.
        Eu mesma fiquei absolutamente imvel. Estranhamente, no tive medo. Senti uma leve afinidade com a criatura de outra poca, mais fora de seu prprio tempo 
do que eu, os olhos inspidos to velhos quanto seus antigos mares e oceanos, olhos que se tornaram turvos nas profundezas sombrias de seu refgio reduzido. Havia 
uma sensao de familiaridade misturada  de irrealismo. A pele luzidia era lisa, azul-escura, com um vvido talho verde brilhando com uma radiao iridescente sob 
a mandbula. E os olhos estranhos, sem pupilas, eram de um mbar profundo e cintilante. Muito, muito bonito.
        E to diferente da rplica menor, cor de lama, de que eu me lembrava, enfeitando o diorama do quinto andar do Museu Britnico. No entanto, o formato era 
inconfundvel. As cores dos seres vivos comeam a desbotar com o ltimo suspiro e a pele macia, elstica, e os msculos flexveis comeam a se deteriorar em questo 
de semanas. Mas os ossos s vezes resistem, ecos fiis da forma, ltimo e dbil testemunho da glria de outrora.
        As narinas reguladas por vlvulas abriram-se repentinamente com um assustador chiado da respirao; um instante de movimento suspenso e a criatura afundou 
outra vez, uma turva agitao de guas como nica testemunha de sua apario.
        Eu havia me levantado quando a criatura surgiu. Inconscientemente, devo ter me aproximado a fim de observ-la melhor, pois me vi de p em uma das lajes de 
pedra que se projetavam acima do espelho d'gua, observando as ondas definhadas transformarem-se novamente na placidez do lago.
        Fiquei ali parada por um instante, fitando a vastido do lago insondvel.
        - Adeus - disse finalmente s guas vazias. Estremeci e virei-me para voltar  margem.
        Um homem estava parado no topo do barranco. A princpio, fiquei assustada, depois o reconheci como um dos carroceiros de nosso grupo. Seu nome era Peter, 
lembrei-me, e o balde em sua mo indicava o motivo de sua presena. Estava prestes a perguntar-lhe se vira o monstro, mas a expresso de seu rosto quando me aproximei 
era uma resposta mais do que suficiente. Seu rosto estava mais branco do que as margaridas a seus ps e pequenas gotas de suor escorriam para dentro de sua barba. 
Via-se o branco de seus olhos ao redor de toda a ris, como os olhos de um cavalo assustado, e suas mos tremiam tanto que o balde batia em sua perna.
        - Tudo bem - eu disse, quando cheguei perto dele. -J foi embora. Em vez de minha afirmao tranqiliz-lo, pareceu motivo de mais alarme. Deixou cair o 
balde, caiu de joelhos diante de mim e fez o sinal-da-cruz.
        - Te-tenha piedade, senhora - balbuciou. Para meu enorme constrangimento, lanou-se no cho e agarrou a barra da minha saia.
        - No seja ridculo - eu disse com certa aspereza. - Levante-se. -Cutuquei-o delicadamente com a ponta do p, mas ele apenas tremeu e continuou preso ao 
cho como um cogumelo achatado. - Levante-se - repeti. - Seu tolo,  apenas um... - parei, tentando pensar. Dizer-lhe seu nome em latim provavelmente de nada iria 
adiantar.
        -  apenas um pequeno monstro - disse finalmente e, agarrando-o pela mo, puxei-o para que se levantasse. Tive que encher o balde, j que ele (no sem razo) 
se recusava a se aproximar da gua. Seguiu-me de volta ao acampamento, mantendo uma distncia cautelosa, e fugiu s pressas imediatamente para cuidar de suas mulas, 
lanando olhares apreensivos por cima do ombro em minha direo enquanto se afastava.
        Como no pareceu disposto a mencionar a criatura para mais ningum, achei que talvez eu tambm devesse ficar calada. Embora Dougal, Jamie e Ned fossem homens 
educados, o resto era em grande parte analfabetos oriundos dos mais longnquos penhascos e ravinas das terras dos MacKenzie. Eram guerreiros destemidos e combatentes 
corajosos, mas tambm eram to supersticiosos quanto quaisquer membros de tribos primitivas da frica ou do Oriente Mdio.
        Assim, tomei minha sopa em silncio e fui dormir, consciente o tempo todo do olhar penetrante do carroceiro Peter.
        
        
        
20 - CLAREIRAS DESERTAS
        
        Dois dias aps o assalto, voltamos novamente para o norte. Aproximvamo-nos do local de encontro com Horrocks e Jamie parecia distrado de vez em quando, 
talvez considerando a importncia que as notcias do desertor ingls poderiam ter.
        Eu no vi Hugh Munro outra vez, mas acordei no escuro da noite anterior e vi que Jamie no estava no cobertor ao meu lado. Tentei ficar acordada, esperando 
que retornasse, mas adormeci quando a lua comeou a descer no horizonte. Pela manh, ele dormia profundamente ao meu lado e sobre o meu cobertor havia um pequeno 
pacote, embrulhado em uma folha de papel fino, com uma pena da cauda de pica-pau enfiada no papel. Abrindo-o cuidadosamente, encontrei um grande pedao de mbar 
bruto. Uma das faces do bloco fora aplainado e polido e, nessa janela, podia-se ver a forma escura e delicada de uma pequena liblula, suspensa num vo eterno.
        Alisei o papel do embrulho. Havia uma mensagem gravada na superfcie branca encardida, escrita numa letra pequena e surpreendentemente elegante.
        - O que diz? - perguntei a Jamie, estreitando os olhos diante das letras e sinais estranhos. - Acho que est em galico.
        Ele ergueu-se em um dos cotovelos, examinando o papel.
        - No  galico - disse. -  latim. Munro j foi professor, antes de os turcos o levarem.  um trecho de Catulo:
        ...da mi basia mille, diende centum, dein mille altera, dein secunda centum...
        Um leve rubor tomou conta dos lbulos de suas orelhas enquanto traduzia:
        
        Permita, ento, que beijos apaixonados permaneam
        Em nossos lbios, comece a contagem
        At mil e cem
        E mais cem e mais mil.
        
        - Bem, isso tem mais classe do que o conhecido biscoito da sorte -observei, achando graa.
        - O qu? - Jamie perguntou, surpreso.
        - Deixa pra l - respondi apressadamente. - Munro encontrou Horrocks para voc?
        - Ah, sim. J est combinado. Vou encontrar-me com ele em uma pequena localidade que conheo nas montanhas, dois ou trs quilmetros acima de Lag Cruime. 
Dentro de quatro dias, se nada der errado nesse meio tempo.
        A aluso  possibilidade de as coisas darem errado deixou-me um pouco nervosa.
        - Acha que  seguro? Quero dizer, voc confia em Horrocks?
        Ele sentou-se, esfregando os olhos e piscando para afastar os resqucios de sono.
        - Um desertor ingls? Deus do Cu, no. Imagino que ele me venderia a Randall num piscar de olhos, exceto que ele prprio no pode se aproximar dos ingleses. 
Eles enforcam desertores. No, no confio nele. Foi por isso que vim com Dougal nesta viagem, ao invs de procurar Horrocks sozinho. Se o sujeito estiver tramando 
alguma coisa, ao menos terei companhia.
        - Ah. - Eu no tinha certeza se a presena de Dougal era assim to tranqilizadora, considerando-se o aparente estado de coisas entre Jamie e seus dois tios 
conspiradores.
        - Bem, se  o que voc pensa - eu disse, em dvida. - Ao menos, no creio que Dougal fosse aproveitar a oportunidade para dar um tiro em voc.
        - Na verdade, ele atirou em mim - Jamie disse alegremente, abotoando a camisa. - Voc deveria saber, foi voc quem tratou o ferimento.
        Deixei cair o pente que estava usando.
        - Dougal! Pensei que tinham sido os ingleses que haviam atirado em voc!
        - Bem, os ingleses realmente atiraram em mim, mas no foram eles que me acertaram - corrigiu. - E no deveria dizer que foi Dougal quem me acertou. Provavelmente 
foi Rupert, ele  o melhor atirador entre os homens de Dougal. No, quando fugamos dos ingleses, percebi que estvamos prximos aos limites das terras dos Fraser 
e pensei em arriscar uma fuga. Assim, esporeei o cavalo e desviei para a esquerda, contornando Dougal e o resto dos homens. Havia um intenso tiroteio, mas a bala 
que me atingiu veio de trs. Dougal, Rupert e Murtagh estavam s minhas costas naquele momento. E os ingleses estavam todos  minha frente. Na realidade, quando 
ca do cavalo, rolei pelo morro abaixo e acabei quase no colo deles. - Inclinou-se sobre o balde de gua que eu trouxera, lavando o rosto com a gua fria. Sacudiu 
a cabea para afastar os cabelos dos olhos, piscou para mim, sorrindo, as gotculas brilhantes agarradas s espessas pestanas e sobrancelhas.
        - Pensando bem, Dougal teve grande dificuldade em me resgatar de volta. Eu estava estirado no cho, quase inerte, e ele estava de p acima de mim, puxando-me 
pelo cinto com uma das mos para que eu me levantasse e segurando a espada com a outra, lutando corpo-a-corpo com um drago que achava que tinha uma certa cura para 
meus males. Dougal matou o sujeito e me colocou em cima do seu cavalo. - Sacudiu a cabea. - Tudo estava meio confuso para mim na ocasio; s conseguia pensar em 
como devia ser difcil para o cavalo, tentando subir uma colina como aquela carregando quase duzentos quilos nas costas.
        Parei, um pouco abalada.
        - Mas... se ele quisesse, Dougal poderia ter matado voc naquele momento.
        Jamie sacudiu a cabea, pegando a navalha que pedira emprestado a Dougal. Puxou o balde um pouco, para que a superfcie formasse um espelho improvisado e, 
fazendo a tortuosa careta que os homens fazem ao se barbearem, comeou a deslizar a lmina pelas faces.
        - No, no na frente dos homens. Alm do mais, Dougal e Colum no queriam necessariamente me ver morto, especialmente no Dougal.
        - Mas... - Minha cabea estava comeando a girar outra vez, como parecia acontecer sempre que me deparava com as complexidades da vida familiar na Esccia.
        As palavras de Jamie ficaram um pouco abafadas, conforme ele esticava o queixo, inclinando a cabea para atingir os plos speros embaixo do maxilar.
        -  por causa de Lallybroch - explicou, deslizando a mo livre pelo rosto para sentir um ou outro plo desgarrado. - Alm de ser um rico pedao de terra, 
a propriedade fica na cabea de um desfiladeiro nas montanhas, a nica passagem boa para as Highlands em quinze quilmetros, em qualquer direo. Se acontecer um 
novo levante, seria um valioso pedao de terra para se ter sob controle. E se eu morresse antes de me casar, provavelmente as terras voltariam para os Fraser.
        Riu, acariciando o pescoo.
        - No, eu sou um grande problema para os irmos MacKenzie. Por um lado, se sou uma ameaa para a liderana do pequeno Hamish, querem me ver bem morto. Por 
outro, se no for, querem a mim e  minha propriedade do lado deles, em caso de guerra, e no com os Fraser.  por isso que esto dispostos a me ajudarem com Horrocks, 
sabe. No posso fazer muita coisa com Lallybroch enquanto for um fora-da-lei, embora as terras ainda sejam minhas.
        Enrolei os cobertores, sacudindo a cabea, atordoada com as circunstncias complexas - e perigosas - pelas quais Jamie parecia se locomover com tanta facilidade. 
E me ocorreu repentinamente que agora no apenas Jamie estava envolvido. Ergui os olhos.
        - Voc disse que se morresse antes de se casar, as terras voltariam para os Fraser - eu disse. - Mas agora voc est casado. Portanto, quem...
        - Isso mesmo - disse, balanando a cabea para mim com um sorriso enviesado. O sol da manh iluminava seus cabelos com chamas de ouro e cobre. - Se eu for 
assassinado agora, Sassenach, Lallybroch  sua.
        Era uma bela manh ensolarada, depois que a neblina se dissipou. Os pssaros agitavam-se nas urzes e a estrada era larga naquele local, para variar, e com 
uma terra fina e macia sob os cascos dos cavalos.
        Jamie cavalgava ao meu lado quando subamos um pequeno monte. Fez um sinal com a cabea indicando  direita.
        - Est vendo aquela ravina l embaixo?
        - Sim. - Era uma pequena rea verde de pinheiros, carvalhos e lamos, a certa distncia da estrada.
        - H uma fonte com uma lagoa l, sob as rvores, e uma relva macia. Um lugar muito agradvel.
        Olhei para ele interrogativamente.
        - Um pouco cedo para almoar, no ?
        - No era exatamente isso que eu tinha em mente. - Jamie, eu descobrira por acaso h alguns dias, nunca dominara a arte de piscar um nico olho. Ao invs 
disso, piscava os dois solenemente, como uma grande coruja vermelha.
        - E o que exatamente voc tinha em mente? - perguntei. Meu olhar desconfiado deparou-se com olhos azuis, infantis e inocentes.
        - Eu estava pensando se voc gostaria... na grama... sob as rvores... junto  gua... com as saias para cima at as orelhas.
        - H... - balbuciei.
        - Direi a Dougal que vamos buscar gua. - Acelerou o cavalo, voltando logo depois com as garrafas de gua dos outros cavalos. Ouvi Rupert gritar alguma coisa 
s nossas costas em galico, enquanto descamos a colina, mas no consegui distinguir as palavras.
        Cheguei  clareira primeiro. Descendo do cavalo, relaxei sobre a relva e fechei os olhos contra a claridade do sol. Jamie freou ao meu lado pouco depois 
e saltou da sela. Deu um tapa no cavalo, as rdeas soltas, mandando-o pastar com o meu, antes de cair de joelhos na relva. Estendi os braos e o puxei para mim.
        Era um dia quente, impregnado do cheiro de grama e perfume de flores. O prprio Jamie cheirava a grama recm-aparada, doce e pungente.
        - Teremos que ser rpidos - eu disse. - Estaro se perguntando por que estamos levando tanto tempo para pegar gua.
        - No vo ficar se perguntando - disse, desatando meus cordes com a facilidade adquirida com a prtica. - Eles sabem.
        - O que quer dizer?
        - No ouviu o que Rupert disse quando partimos?
        - Eu o ouvi, mas no consegui entender o que disse. - Meus conhecimentos de galico estavam melhorando a ponto de poder compreender as palavras mais comuns, 
mas ainda estava longe de entender uma conversa.
        - timo. No era adequado aos seus ouvidos. - Tendo libertado meus seios, enterrou o rosto neles, sugando e mordendo delicadamente, at eu no agentar mais 
e deslizar sob ele para levantar e tirar minhas saias do caminho. Sentindo-me absurdamente inibida depois daquele encontro selvagem e primitivo sobre a rocha, ficara 
acanhada de fazer amor perto do acampamento e os bosques eram densos demais para andarmos por eles com segurana um pouco mais longe do acampamento. Ns dois estvamos 
sentindo a leve e agradvel tenso da abstinncia e agora, longe de olhos e ouvidos curiosos, unimo-nos com um impacto que fez meus lbios e dedos formigarem com 
a precipitao do sangue.
        Estvamos quase terminando quando Jamie ficou repentinamente paralisado. Abrindo os olhos, vi seu rosto escuro contra o sol, com uma expresso absolutamente 
indescritvel. Havia um objeto negro pressionado contra sua cabea. Meus olhos finalmente se ajustaram  claridade e vi que se tratava do cano de um mosquete.
        - Levante-se, filho-da-me desgraado. - O cano da arma moveu-se rispidamente, chocando-se contra a tmpora de Jamie. Bem devagar, ele levantou-se. Uma gota 
de sangue comeou a formar-se no local onde o cano do mosquete arranhara a pele.
        Eram dois soldados ingleses desertores, a julgar pelos restos esfarrapados dos uniformes. Ambos estavam armados com mosquetes e pistolas e pareciam muito 
satisfeitos com o que a sorte colocara em seus caminhos. Jamie ficou de p com os braos erguidos, o cano de um mosquete pressionado contra o peito, o rosto cuidadosamente 
impenetrvel.
        - Devia t-lo deixado terminar, Harry - disse um dos homens. Abriu um largo sorriso, com uma boa exibio de dentes estragados. - Parar assim no meio faz 
mal  sade de um homem.
        Seu comparsa espetou o mosquete no peito de Jamie.
        - A sade dele no  problema meu. E logo tambm no ser mais problema para ele. Estou com vontade de aproveitar um pouco disso - fez um breve aceno da 
cabea em minha direo - e no me importo de vir depois de outro homem, muito menos de um filho-da-puta escocs como este. O sujeito dos dentes estragados riu.
        - Tambm no sou to exigente. Mate-o, ento, e ande logo com isso.
        Harry, um sujeito baixo, atarracado e estrbico, pensou por um instante examinando-me especulativamente. Eu ainda estava sentada no cho, os joelhos puxados 
para junto do corpo e as saias firmemente pressionadas em volta dos tornozelos. Fizera um certo esforo para fechar meu corpete, mas ainda estava muito exposta. 
Finalmente, o homem baixo riu e fez um sinal chamando seu parceiro.
        - No, deixe que ele veja. Venha at aqui, Arnold, e mantenha seu mosquete nele. - Arnold obedeceu, ainda rindo. Harry colocou seu mosquete no cho e soltou 
o cinto com a pistola ao lado dele, preparando-se.
        Pressionando minhas saias para baixo, percebi um objeto duro no bolso direito. A adaga que Jamie me dera. Conseguiria us-la? Sim, decidi, olhando o rosto 
vesgo e cheio de espinhas de Harry, certamente eu conseguiria.
        No entanto, eu teria que esperar at o ltimo segundo possvel e tinha minhas dvidas se Jamie conseguiria se controlar por tanto tempo. Podia ver a nsia 
de matar profundamente marcada em suas feies; logo a considerao das conseqncias no seria mais suficiente para cont-lo.
        No ousava deixar minhas intenes transparecerem muito em meu rosto, mas estreitei os olhos e fitei-o o mais duramente possvel, querendo dizer-lhe para 
no se mexer. Os tendes saltavam em seu pescoo e o rosto estava roxo, tomado pelo sangue que subira, mas percebi um aceno nfimo de sua cabea, indicando que compreendera 
a minha mensagem.
        Lutei enquanto Harry pressionava-me contra o cho e tentei levantar minha saia, mais para colocar a mo no cabo da adaga do que realmente para oferecer resistncia. 
Esbofeteou-me com fora, ordenando-me que ficasse quieta. Minha face ardeu e meus olhos lacrimejaram, mas a adaga agora estava em minha mo, oculta sob as pregas 
da saia.
        Deitei-me de costas, respirando pesadamente. Concentrei-me em meu objetivo, tentando apagar tudo o mais da minha mente. Teria que ser nas costas; o desgraado 
estava perto demais para eu tentar a garganta.
        Os dedos imundos enfiavam-se em minhas coxas, afastando-as. entalmente, pude ver o dedo rombudo de Rupert golpeando na regio as costelas de Murtagh e ouvir 
sua voz: "Aqui, dona, embaixo das ltimas Costelas, perto da espinha dorsal. Golpeie com fora para cima e diretamente no rim, e ele cair como uma pedra."
        Estava quase na hora; sentia o mau hlito quente e repugnante de Harry em meu rosto e ele apalpava minhas pernas nuas, concentrado em seu objetivo.
        - D uma boa olhada, rapazinho, e veja como se faz - disse, ofegante. - Vou deixar sua vagabunda gemendo e pedindo mais.
        Passei meu brao esquerdo em torno do seu pescoo para mant-lo junto a mim; estendendo a mo com a faca no alto, mergulhei-a com todas as foras que pude 
arregimentar. O choque do impacto reverberou pelo meu brao e quase soltei a adaga. Harry ganiu e se contorceu, tentando escapar. Impedida de ver, eu mirara alto 
demais e a faca resvalara em uma costela.
        No podia desistir agora. Felizmente, minhas pernas libertaram-se do emaranhado das saias. Passei-as com toda fora em volta dos quadris suados de Harry, 
prendendo-o durante os preciosos segundos de que eu precisava para outra tentativa. Apunhalei-o outra vez, com uma fora desesperada, e desta vez atingi o lugar 
certo.
        Rupert tinha razo. Harry arqueou-se numa hedionda pardia do ato sexual, depois desabou sem um som como um peso morto e flcido sobre mim, o sangue jorrando 
em esguichos cada vez mais fracos do ferimento em suas costas.
        A ateno de Arnold fora distrada por um instante pelo espetculo no cho e um instante era mais do que suficiente para o enlouquecido escocs que mantinha 
sob sua mira. Quando consegui me recuperar o suficiente para me esgueirar de baixo do defunto, Arnold se unira a seu comparsa na morte, a garganta cortada com preciso 
de orelha a orelha pelo sgian dhu que Jamie carregava na meia.
        Jamie ajoelhou-se a meu lado, puxando-me de baixo do cadver. Ns dois tremamos de nervoso e do choque, e permanecemos agarrados um ao outro sem falar por 
vrios minutos. Ainda sem falar, pegou-me no colo e levou-me para longe dos dois corpos, para uma faixa de terra gramada atrs de uma cortina de almos.
        Colocou-me no solo e sentou-se a meu lado desajeitadamente, desabando como se seus joelhos tivessem cedido repentinamente. Senti uma solido glida, como 
se o vento do inverno soprasse nos meus ossos, e estendi os braos para ele. Ele ergueu a cabea dos joelhos, o rosto desfigurado, e fitou-me como se nunca tivesse 
me visto. Quando coloquei as mos em seus ombros, puxou-me com fora contra seu peito com um som entre um gemido e um soluo.
        Possumo-nos ali mesmo, num silncio selvagem e angustiado, com movimentos ferozes e terminando em poucos instantes, levados por uma compulso que eu no 
compreendia, mas sabia que devia acatar ou nos perderamos um do outro para sempre. No foi um ato de amor, mas de necessidade, como se soubssemos que, se ficssemos 
sozinhos, nenhum de ns dois conseguiria suportar. Nossa nica fora residia na fuso, afogando lembranas de morte e de um quase-estupro na inundao dos sentidos.
        Ficamos agarrados um ao outro na relva, desalinhados, sujos de sangue e tremendo sob o sol. Jamie murmurou alguma coisa, a voz to baixa que apreendi somente 
a palavra "lamento".
        - No foi culpa sua - sussurrei, acariciando seus cabelos. - Est tudo bem, ns dois estamos bem. - Tinha a sensao de estar sonhando, como se nada fosse 
real  minha volta e reconheci vagamente os sintomas de choque retardado.
        - No  por isso - disse. - No  por isso. Na verdade, foi culpa minha... Que tolice vir aqui sem tomar as devidas precaues. E deixar voc ser... Mas 
no era isso a que eu estava me referindo. Queria dizer... que lamento muito por us-la como fiz agora. Possu-la agora, logo depois de.-- como um animal. Desculpe-me, 
Claire... No sei o que... No pude evitar, mas... Meu Deus, voc est to fria, mo duinne, suas mos esto geladas. Vamos, deixe-me esquent-la.
        Choque, tambm, pensei confusamente. Era engraado como o choque fazia algumas pessoas desatarem a falar. Outras apenas tremiam em silncio. Como eu. Pressionei 
sua boca contra meu ombro para acalm-lo.
        - Est tudo bem - continuei repetindo. - Est tudo bem.
        De repente, uma sombra recaiu sobre ns, sobressaltando-nos. Dougal estava parado ao nosso lado, radiante, os braos cruzados. Educadamente desviou o olhar 
enquanto eu atava meus cordes apressadamente, mas olhou para Jamie com o cenho franzido.
        - Agora, oua-me, rapaz, tudo bem que queira se dar ao prazer com sua mulher, mas deixar todos ns esperando por mais de uma hora e estarem to absortos 
um com o outro que voc nem me ouviu chegar... esse tipo de comportamento vai lhe causar problemas um dia desses, rapaz. Algum podia vir por trs de vocs, encostar 
uma pistola em sua cabea antes de voc se dar conta e...
        Parou no meio de sua advertncia para me fitar com incredulidade, enquanto eu rolava pela grama rindo histericamente. Jamie, vermelho como uma beterraba, 
levou Dougal para o outro lado dos lamos, explicando-lhe o que se passara com uma voz baixa e controlada. Continuei a me sacudir incontrolavelmente, rindo baixinho, 
at enfiar um leno na boca para abafar o som. A liberao repentina das emoes, associada s palavras de Dougal, evocara uma imagem do rosto de Jamie, pego em 
flagrante como acontecera, que achei totalmente hilariante em meu estado de atordoamento. Ri e gemi at minhas bochechas doerem. Finalmente, sentei-me, limpando 
os olhos no leno, e me deparei com Jamie e Dougal de p, parados acima de mim, exibindo expresses idnticas de desaprovao. Jamie me suspendeu e foi me conduzindo, 
ainda prendendo riso e resfolegando ocasionalmente, para onde o resto dos homens esperavam com os cavalos.
        Afora uma tendncia persistente de rir histericamente por nada, eu no parecia sofrer de nenhum efeito danoso de nosso encontro com os desertores, embora 
tenha me tornado muito cautelosa em me afastar do acampamento. Dougal assegurou-me que, na realidade, no era to comum encontrar bandidos nas estradas das Highlands, 
simplesmente porque no havia muitos viajantes que valesse a pena roubar. Ainda assim, sobressaltava-me nervosamente com os sons da floresta e voltava apressadamente 
das tarefas rotineiras como buscar lenha e gua, ansiosa para avistar e ouvir os MacKenzie. Tambm encontrei um novo alento no som de seus roncos perto de mim  
noite e perdi qualquer constrangimento que pudesse sentir a respeito dos discretos gemidos que ocorriam sob nossos cobertores.
        Eu ainda sentia medo de ficar sozinha quando, alguns dias mais tarde, chegou o momento do encontro com Horrocks.
        - Ficar aqui? - exclamei sem acreditar. - No! Eu vou com voc.
        - No pode - Jamie repetiu pacientemente, mais uma vez. - A maioria dos homens continuar viagem para Lag Cruime com Ned, para coletar os aluguis, como 
esperado. Dougal e alguns dos outros iro comigo ao encontro, para o caso de alguma traio de Horrocks. Mas voc no pode ser vista abertamente em Lag Cruime; os 
homens de Randall podem estar por perto e ele seria bem capaz de lev-la  fora. E quanto ao encontro com Horrocks, no fao a menor idia do que pode acontecer. 
No, h um pequeno bosque perto da curva da estrada,  fechado, forrado de grama e h gua bem perto. Ficar bem ali, at eu voltar para peg-la.
        - No - repeti teimosamente. - Eu vou com voc. - Um certo sentimento de orgulho no me deixava dizer-lhe que tinha medo de ficar longe dele. Mas estava 
disposta a dizer-lhe que temia por ele.
        - Voc mesmo disse que no sabe o que acontecer no encontro com Horrocks - argumentei. - No quero ficar esperando aqui, imaginando o dia inteiro o que 
ter acontecido a voc. Deixe-me ir com voc - disse, tentando persuadi-lo. - Prometo ficar fora de vista durante o encontro. Mas no quero ficar aqui sozinha, preocupada 
o dia todo.
        Suspirou com impacincia, mas no argumentou mais. Entretanto, quando chegamos ao bosque, inclinou-se e agarrou as rdeas do meu cavalo, forando-me a sair 
da estrada e entrar no mato. Desceu do seu cavalo, atando as duas rdeas a um arbusto. Ignorando minhas veementes objees, desapareceu no meio das rvores. Teimosamente, 
recusei-me a apear. Ele no podia obrigar-me a ficar, pensei.
        Surgiu na estrada finalmente. Os outros tinham ido  frente, mas Jamie, lembrando-se de nossa ltima experincia em clareiras desertas, no quis partir enquanto 
no tivesse esquadrinhado cuidadosamente o local, examinando metodicamente os quatro cantos do bosque e abrindo caminho pelo capim alto com uma vara. Quando voltou, 
desamarrou os cavalos e montou novamente na sela.
        -  seguro - disse. - Cavalgue at o meio do bosque, Claire, e esconda-se e o cavalo tambm. Virei busc-la assim que terminar o que tenho que fazer. No 
sei quanto tempo vai durar, mas no mais tardar at o pr-do-sol.
        - No! Eu vou com voc! - No podia suportar a idia de ficar presa em uma floresta, sem saber o que estava acontecendo. Preferia estar correndo um perigo 
real a ser deixada durante horas de ansiedade, esperando e imaginando. E sozinha.
        Jamie no conseguiu conter mais sua impacincia. Estendeu os braos e agarrou-me pelos ombros.
        - Voc no prometeu me obedecer? - perguntou, sacudindo-me brandamente.
        - Sim, mas... - S porque fui obrigada, ia dizer, mas ele ja tocava meu cavalo em direo ao bosque.
        -  muito perigoso e eu no quero voc l, Claire. Vou ficar ocupado e, se vier a acontecer, no vou poder lutar e proteg-la ao mesmo tempo. - Vendo meu 
olhar rebelde, levou a mo ao alforje e comeou a vasculhar l dentro.
        - O que est procurando?
        - Corda. Se no fizer o que estou dizendo, vou amarr-la a uma rvore at eu voltar.
        - No faria isso!
        - Ah, fao, sim! - Obviamente, falava a srio. Cedi de m vontade e relutantemente tomei as rdeas do meu cavalo. Jamie inclinou-se para me beijar rapidamente 
no rosto, j se virando para partir.
        - Cuide-se, Sassenach. Tem sua adaga? timo. Volto o mais rpido que puder. Ah, mais uma coisa.
        - O que ? - perguntei, amuada.
        - Se voc deixar este bosque antes de eu vir busc-la, vou esfolar seu traseiro com o cinto da minha espada. No iria gostar de percorrer a p todo o caminho 
at Bargrennan. Lembre-se - disse, beliscando delicadamente minha bochecha -, no fao promessas vazias.
        Continuei lentamente em direo ao bosque, olhando para trs para v-lo cavalgando a toda velocidade, inclinado sobre a sela, cavalo e cavaleiro formando 
um nico ser, as pontas de seu xale xadrez esvoaando s suas costas.
        Estava fresco sob as rvores; tanto eu quanto o cavalo demos um suspiro de alvio quando entramos na sombra. Era um daqueles raros dias quentes na Esccia, 
quando o sol flameja de um cu de musselina azul desbotada e a nvoa matinal  dissipada at as oito horas. O trinado de pssaros enchia o bosque; um bando de abelharucos 
ciscava no grupo de carvalhos  esquerda e podia ouvir o que achei ser um tordo a curta distncia.
        Sempre fui uma entusiasta ornitfila amadora. Se ia ficar abandonada ali at que conviesse ao meu autoritrio, dominador, empacado e obstinado marido parar 
de arriscar o seu estpido pescoo, aproveitaria o tempo para ver que pssaros conseguiria avistar.
        Soltei o cavalo para que pastasse na grama exuberante na borda do bosque, sabendo que ele no iria longe. A grama terminava bruscamente a alguns metros das 
rvores, sufocada pelas urzes invasoras.
        Era uma clareira de diversos tipos de conferas e de carvalhos novos, perfeita para observao de pssaros. Caminhei por ela, ainda mentalmente furiosa com 
Jamie, mas aos poucos me sentindo mais calma,  medida que ouvia o pio caracterstico de um papa-moscas e a garrulice spera do tordo.
        A clareira terminava bruscamente no outro extremo,  beira de um pequeno precipcio. Abri caminho entre as rvores novas e o gorjeio dos pssaros foi afogado 
no barulho de gua corrente. Parei  margem de um riacho, um desfiladeiro ngreme e pedregoso, com cascatas lanando-se pelas encostas entalhadas para se espatifarem 
nos lagos marrons e prateados l embaixo. Sentei-me na beirada da margem e deixei os ps dependurados acima da gua, desfrutando o sol em meu rosto.
        Um corvo cruzou o cu acima da minha cabea, seguido de perto por um par de rabos-ruivos. O volumoso corpo preto ziguezagueava pelo ar, tentando evitar os 
minsculos perseguidores. Sorri, observando os furiosos e pequenos pssaros atormentando o corvo de um lado para o outro e me perguntei se os corvos, quando entregues 
aos seus prprios afazeres, realmente voavam em linha reta. Aquele, se mantivesse uma linha reta, voaria diretamente para...
        Parei repentinamente.
        Estivera to concentrada em discutir com Jamie que at aquele minuto no me ocorrera que a situao que eu vinha perseguindo h dois meses finalmente se 
apresentara. Eu estava sozinha. E sabia onde estava.
        Olhando para o outro lado do riacho, meus olhos eram ofuscados pelo sol da manh ardendo entre os freixos vermelhos na margem distante. Portanto, aquele 
era o leste. Meu corao comeou a bater com fora. O leste ficava para aquele lado, Lag Cruime estava diretamente s minhas costas. Lag Cruime ficava a seis quilmetros 
ao norte de Fort William. E Fort WilKam ficava a pouco mais de quatro quilmetros a oeste da colina de Craigh na Dun.
        Assim, pela primeira vez desde meu encontro com Murtagh, eu sabia aproximadamente onde estava - a cerca de dez quilmetros daquela maldita colina e seu desgraado 
crculo de pedras. Dez quilmetros - talvez -de casa. De Frank.
        Comecei a voltar para a clareira, mas mudei de idia. No ousava pegar estrada. To perto de Fort William e dos diversos vilarejos que o circundavam, havia 
um risco grande de me deparar com algum. E no podia levar um cavalo pelo curso perigosamente ngreme do riacho. Na realidade tinha dvidas se o percurso poderia 
ser feito a p; as ribanceiras de pedra eram escarpadas em alguns pontos, mergulhando diretamente nas guas revoltas do riacho, sem nenhuma base segura para pr 
o p, a no ser os topos de algumas rochas espalhadas, projetando-se das corredeiras.
        Mas era de longe o caminho mais direto na direo que eu queria. E eu no ousava fazer um trajeto com muitas voltas; poderia facilmente me perder no mato 
ou ser alcanada por Dougal e Jamie, em seu retorno.
        Meu estmago deu um salto repentino quando pensei em Jamie. Deus, como poderia fazer isso? Deix-lo sem uma palavra de explicao ou desculpas? Desaparecer 
sem deixar vestgios, depois de tudo que fizera por mim?
        Com esse pensamento, finalmente decidi deixar o cavalo. Ao menos, pensaria que no o deixei por vontade prpria; acreditaria que fui assassinada por animais 
selvagens - toquei a adaga no meu bolso - ou talvez seqestrada por bandidos. E no encontrando nenhuma pista do meu paradeiro, finalmente me esqueceria e se casaria 
de novo. Talvez com a linda e jovem Laoghaire, quando voltasse a Leoch.
        Apesar de absurdo, vi que a idia de Jamie compartilhando a cama de Laoghaire me transtornava tanto quanto a idia de deix-lo. Amaldioei-me por tal idiotice, 
mas no conseguia deixar de pensar em seu rosto redondo e meigo, ruborizado de desejo ardente, e as mos grandes de Jamie mergulhando naqueles cabelos platinados...
        Descerrei os dentes e resolutamente limpei as lgrimas do rosto. No tinha nem o tempo nem a energia para reflexes tolas. Tinha que ir, e agora, enquanto 
podia. Talvez fosse a melhor oportunidade que teria. Esperava que Jamie me esquecesse. Eu sabia que jamais o esqueceria. Mas, por enquanto, precisava afast-lo da 
mente ou no conseguiria me concentrar no que pretendia fazer, o que j era bastante complicado.
        Cautelosamente, fui escolhendo meu caminho pela margem escarpada at a beira d'gua. O barulho da correnteza abafava o som dos pssaros no bosque acima. 
A descida era difcil, mas ao menos havia espao para caminhar ali junto  gua. A beirada do rio era lamacenta e semeada de pedras, mas transitvel. Mais para baixo, 
vi que teria que entrar na gua e seguir precariamente de pedra em pedra, equilibrando-me acima da correnteza, at a margem alargar-se o suficiente para eu voltar 
 orla outra vez.
        Prossegui com extrema cautela, estimando quanto tempo eu teria. Jamie dissera apenas que voltariam antes do pr-do-sol. Cinco a seis quilmetros at Lag 
Cruime, mas eu no tinha como saber em que condies estavam as estradas, nem quanto tempo levaria o assunto a tratar com Horrocks. Se ele estivesse l. Mas estaria, 
argumentei comigo mesma Hugh Munro afirmara que estaria e, por mais estranha que fosse aquela figura, Jamie obviamente o considerava uma fonte confivel de informao.
        Meu p escorregou na primeira pedra no rio, mergulhando-me at os joelhos na gua gelada e ensopando as minhas saias. Voltei para a margem prendi as saias 
o mais alto que pude e retirei os sapatos e as meias. Enfiei-os no bolso formado pelas saias presas e pisei na pedra outra vez.
        Percebi que me agarrando com os dedos dos ps, podia pular de uma pedra para a outra sem escorregar. Entretanto, minhas saias emboladas dificultavam ver 
onde deveria pisar em seguida e mais de uma vez escorreguei para dentro da gua. Minhas pernas estavam geladas e, conforme meus ps iam ficando dormentes, tornava-se 
mais difcil me equilibrar.
        Felizmente, a margem alargou-se outra vez e pisei com satisfao na lama pegajosa e morna. Aps curtos perodos de caminhada razoavelmente confortvel, alternados 
com perodos muito mais longos saltitando precariamente de pedra em pedra pela correnteza gelada, descobri para meu alvio que estava ocupada demais para pensar 
muito em Jamie.
        Aps algum tempo, j estabelecera uma rotina. Pisar, firmar-se, parar, olhar em volta, localizar o prximo passo. Pisar, firmar-se, parar e assim por diante. 
Devo ter ficado confiante demais, ou talvez apenas cansada, porque me descuidei e errei o alvo. Meu p escorregou irremediavelmente pela frente da pedra coberta 
de limo. Agitei os braos freneticamente tentando voltar para a pedra onde estava antes, mas j perdera o equilbrio. Com saias, anguas, adaga e tudo, mergulhei 
na gua.
        E continuei mergulhando. Embora o rio tivesse apenas cerca de meio metro de profundidade, havia poos fundos de vez em quando, nos locais onde a gua revolta 
cavara depresses profundas no leito rochoso. A pedra onde eu perdera o equilbrio ficava na borda de um desses poos e, quando atingi a gua, afundei como uma verdadeira 
pedra.
        Fiquei to abalada com o choque da gua gelada entrando pelo meu nariz e pela minha boca que nem gritei. Bolhas prateadas lanavam-se do corpete do meu vestido 
e passavam pelo meu rosto em direo  superfcie. O tecido de algodo encharcou-se quase imediatamente e a sensao de congelamento provocada pela gua paralisou 
minha respirao.
        Comecei quase imediatamente a lutar para chegar  superfcie, mas o peso das minhas roupas puxava-me para baixo. Tentei desamarrar os cordes do meu corpete, 
mas no havia a menor chance de conseguir desat-los antes de me afogar. Proferi silenciosamente diversas observaes depreciativas e mesquinhas sobre costureiras, 
moda feminina e a estupidez de saias longas, enquanto esperneava freneticamente para manter as pernas desembaraadas das dobras dos tecidos.
        A gua era cristalina. Meus dedos tocaram a parede de pedra, deslizando pelas folhas longas, escuras e escorregadias de algas e lentilhas d'gua. Escorregadia 
como limo,  o que Jamie dissera a respeito de minha...
        O pensamento arrancou-me do pnico. De repente, compreendi que no deveria ficar me exaurindo tentando espernear para subir  superfcie. Aquele poo no 
podia ter mais do que dois metros e meio a trs metros de profundidade; o que eu tinha que fazer era relaxar, flutuar at o fundo, firmar os ps e ejetar-me para 
cima. Com sorte, isso me permitiria tirar a cabea da gua e respirar e, ainda que voltasse a afundar, podia continuar a saltar do fundo at conseguir me aproximar 
o suficiente da borda para me agarrar a uma pedra.
        A descida foi agonizantemente lenta. Como j no lutava para subir, minhas saias encapelaram-se  minha volta, flutuando diante do meu rosto. Continuei batendo 
nelas para baixo, precisava manter o rosto livre. Meus pulmes pareciam que iam estourar e havia pontos escuros por trs dos meus olhos quando meus ps tocaram o 
cho liso do poo. Deixei meus joelhos inclinarem-se um pouco, pressionando as saias junto ao corpo, depois dei um impulso para cima com todas as minhas foras.
        Funcionou, ainda que por pouco. Meu rosto irrompeu na superfcie quando atingi o pice do meu salto e tive apenas o tempo suficiente para a mais breve tragada 
de ar antes de a gua fechar-se sobre mim outra vez. Pressionei os braos ao longo do corpo para minimizar a resistncia da gua e descer mais rapidamente. Mais 
uma vez, Beauchamp, pensei. Flexione os joelhos, prepare-se, salte!
        Fui lanada para cima, os braos estendidos acima da cabea. Vira um lampejo de vermelho quando irrompi da gua na ltima vez; devia haver uma sorveira-brava 
projetando-se sobre a gua. Talvez eu conseguisse agarrar um galho.
        Quando meu rosto saiu fora da gua, algo agarrou minha mo estendida. Algo duro, quente e reconfortantemente slido. Uma outra mo.
        Tossindo e cuspindo, tateei cegamente com a mo livre, contente demais com o resgate para lamentar a interrupo de minha tentativa de         fuga. Contente 
ao menos at que, ao afastar os cabelos para trs, ergui os olhos para o rosto de Lancashire, carnudo e ansioso, do cabo Hawkins.
        
        
        
21 - UNE MAUVAIS QUART D'HEURE APS A OUTRA
        
        Delicadamente, removi um filamento de planta aqutica ainda mido da manga da minha blusa e coloquei-o no centro do mata-borro. Depois, vendo o tinteiro 
 mo, peguei a folha e mergulhei-a na tinta, usando o resultado para pintar padres interessantes no espesso papel absorvente do mata-borro. Empolgando-me no esprito 
da ao, finalizei a obra-prima com um palavro, salpiquei-a com areia e sequei-a cuidadosamente antes de pendur-la na bancada de escaninhos.
        Recuei um passo para admirar o efeito, em seguida olhei ao redor  cata de outras distraes que pudessem tirar minha mente da iminente chegada do capito 
Randall.
        Nada mau para o escritrio particular de um capito, pensei, examinando as pinturas na parede, os objetos de prata sobre a escrivaninha e o tapete grosso 
no assoalho. Comecei a andar pelo carpete, a fim de resping-lo melhor. O percurso at Fort William secara minhas roupas externas bastante bem, mas as camadas inferiores 
de anguas ainda gotejavam.
        Abri um pequeno armrio atrs da escrivaninha e descobri a peruca sobressalente do capito, perfeitamente arranjada em um dos suportes de ferro batido do 
par ali existente. Cuidadosamente arrumado diante da peruca, via-se um conjunto de prata composto de espelho e escovas, bem como um pente de casco de tartaruga. 
Levando a peruca em seu suporte para a escrivaninha, delicadamente peneirei em cima dela o contedo de areia restante no recipiente antes de devolv-la ao armrio.
        Estava sentada atrs da escrivaninha, o pente na mo, analisando meu reflexo no espelho, quando o capito entrou. Lanou um olhar para minha aparncia desalinhada, 
o armrio assaltado e o mata-borro desfigurado.
        Sem piscar, puxou uma cadeira e sentou-se  minha frente, acomodando-se descontraidamente com um dos ps calados de botas descansando no joelho oposto. 
Um chicote de montar pendia de uma das mos elegantes e aristocrticas. Observei a ponta tranada, vermelha e preta, conforme ela balanava-se lentamente de um lado 
para o outro acima do tapete.
        - A idia tem seus atrativos - ele disse, observando meus olhos seguindo o balano do chicote. - Mas provavelmente consigo pensar em algo melhor, se tiver 
alguns instantes para me concentrar.
        - Diria que sim - retorqui, tirando uma grossa mecha de cabelos de cima dos meus olhos. - Mas no tem permisso de chicotear mulheres, no ?
        - Somente em determinadas circunstncias - respondeu educadamente. - Que no correspondem  sua situao... ainda. Mas isso  muito pblico, sabe. Achei 
que poderamos nos conhecer melhor em particular primeiro. - Estendeu a mo para o aparador atrs dele e pegou uma garrafa de bebida.
        Tomamos o clarete em silncio, entreolhando-nos por cima de nossos copos de vinho.
        - Havia me esquecido de lhe oferecer minhas felicitaes por seu casamento - disse, repentinamente. - Desculpe minha falta de boas maneiras.
        - No se preocupe - eu disse, gentilmente. - Tenho certeza de que a famlia de meu marido ficar extremamente agradecida por me oferecer sua hospitalidade.
        - Ah, duvido um pouco - disse, com um sorriso cativante. - De qualquer modo, no estava pensando em contar-lhes onde voc est.
        - E o que o faz pensar que no sabem? - perguntei, comeando a me sentir um pouco derrotada, apesar da minha determinao anterior de desacat-lo. Lancei 
um olhar rpido  janela, mas ficava do lado errado do edifcio. O sol no era visvel dali, mas a luz parecia amarela; talvez meio da tarde? Quanto tempo levaria 
at Jamie encontrar meu cavalo abandonado? E quanto tempo depois disso at seguir minha pista at o riacho e perd-la imediatamente? Desaparecer sem deixar traos 
tinha suas desvantagens. Na realidade, a menos que Randall decidisse mandar um recado a Dougal sobre meu paradeiro, no havia nenhuma maneira no mundo de os escoceses 
saberem para onde eu tinha ido.
        - Se soubessem - disse o capito, arqueando uma sobrancelha bem delineada -, provavelmente j estariam aqui. Considerando os tipos de nomes que Dougal MacKenzie 
aplicou a mim por ocasio de nosso ltimo encontro, no creio que me considere um acompanhante adequado para um parente dele. E o cl MacKenzie parece consider-la 
de tal valor que preferem adot-la como um dos seus a v-la cair nas minhas mos. No posso imaginar que permitissem que ficasse aqui definhando numa vil priso.
        Examinou-me com desaprovao, captando cada detalhe dos meus trajes ensopados, cabelos desgrenhados e aparncia geral desalinhada.
        - S no entendo por que a querem tanto - observou. - Ou, se voc  to valiosa para eles, por que diabos a deixariam vagando pelo campo sozinha. Eu pensava 
que at os brbaros tomavam conta de suas mulheres Melhor do que isso. - Um brilho repentino iluminou seus olhos. - Ou ser que voc talvez tenha resolvido separar-se 
deles? - Recostou-se na cadeira, intrigado com essa nova possibilidade.
        -- A noite de npcias foi mais difcil do que voc esperava? - perguntou. -- Devo confessar que fiquei um pouco desconcertado quando soube que voc preferiu 
ir para a cama com um daqueles selvagens cabeludos, seminus, do que ter novas conversas comigo. Isso demonstra um grande senso de dever, madame, e devo parabenizar 
quem quer que a tenha contratado pela capacidade que tem de motiv-la. Mas - inclinou-se ainda mais para trs em sua cadeira, equilibrando o copo de vinho sobre 
o joelho - receio que eu ainda tenha que insistir no nome de seu empregador. Se voc realmente se separou dos MacKenzie, a suposio mais provvel  que seja uma 
agente francesa. Mas de quem?
        Fitou-me intensamente, como uma cobra tentando hipnotizar um pssaro. No entanto, a essa altura, eu j tomara clarete suficiente para recuperar uma parte 
da minha valentia e tambm o encarei sem desviar os olhos.
        - Ah - disse, com exagerada cortesia -, ento estou includa nesta conversa? Achei que estava indo muito bem sozinho. Por favor, continue.
        A linha graciosa de sua boca endureceu-se um pouco e a ruga profunda no canto aprofundou-se mais ainda, mas no disse nada. Colocando os culos de lado, 
levantou-se e, retirando a peruca, dirigiu-se ao armrio, onde a colocou no suporte vazio. Eu o vi fazer uma pequena pausa, ao ver os escuros gros de areia adornando 
a outra peruca, mas sua expresso no mudou de forma perceptvel.
        Sem peruca, seus cabelos eram escuros, fartos, lustrosos e de textura fina. Tambm tinham uma aparncia familiar que me perturbou, embora fossem longos at 
os ombros e amarrados para trs com uma fita de cetim azul. Retirou o lao de fita, pegou o pente na escrivaninha e ajeitou os cabelos amassados pela peruca, depois 
amarrou de novo a fita cuidadosamente. Prestativamente, segurei o espelho para que ele pudesse avaliar o resultado final. Tirou-o de mim com um gesto ostensivo e 
recolocou-o no seu lugar junto s perucas, quase batendo a porta do armrio.
        Eu no sabia se todos esses rodeios tinham o objetivo de me deixar nervosa - e se esse fosse o caso, estava dando certo - ou se ele simplesmente no sabia 
o que fazer em seguida.
        A tenso foi um pouco aliviada pela entrada de um ordenana, trazendo uma bandeja de ch e acompanhamentos. Ainda em silncio, Randall serviu uma xcara 
e estendeu-a a mim. Ficamos mais algum tempo em silncio, tomando o ch.
        - No me diga - falei, finalmente. - Deixe-me adivinhar.  uma nova forma de persuaso que voc inventou, tortura pela bexiga. Voc me serve bastante lquido 
at eu prometer lhe contar qualquer coisa em troca de cinco minutos com um urinol.
        Ele foi pego de surpresa de tal maneira que no pde conter o riso. Isso transformou inteiramente sua expresso e pude compreender sem dificuldade por que 
havia tantos envelopes perfumados com caligrafia feminina no fundo da gaveta esquerda de sua escrivaninha. Tendo deixado a mscara cair, ele no prendeu o riso, 
mas deixou-o fluir. Quando terminou, fitou-me outra vez, com um esboo de sorriso ainda nos lbios.
        - O que quer que voc seja, madame, pelo menos  divertida - observou. Puxou a corda de um sino pendurada junto  porta e quando o ordenana reapareceu, 
instruiu-o a me conduzir s necessrias instalaes.
        - Mas cuidado para no perd-la no caminho, Thompson - acrescentou, abrindo a porta para mim com uma mesura cnica.
        Apoiei-me fracamente contra a porta do lavatrio aonde fui conduzida. Estar longe de sua presena era um alvio, mas por pouco tempo. Eu j tivera ampla 
oportunidade de julgar o verdadeiro carter de Randall, tanto pelas histrias que ouvira quanto por experincia prpria. Mas havia aqueles malditos lampejos de Frank 
que de vez em quando transpareciam pelo exterior cruel e ostentoso. Fora um erro faz-lo rir, pensei.
        Sentei-me, ignorando o mau cheiro enquanto me concentrava no problema imediato. A fuga parecia improvvel. Fora o vigilante Thompson, o escritrio de Randall 
ficava em um prdio localizado perto do centro do complexo. E embora o forte em si mesmo no fosse mais do que uma rea cercada por um muro de pedra, esses muros 
tinham trs metros de altura e os portes duplos eram bem guardados.
        Pensei em fingir que estava passando mal e permanecer no meu refgio, mas descartei a idia - e no s por causa do ambiente desagradvel. A dura verdade 
 que pouco adiantava adiar a ttica, a menos que eu tivesse alguma coisa em mente, o que eu no tinha. Ningum sabia onde eu estava e Randall no pretendia dizer 
a ningum. Eu era dele, enquanto ele estivesse disposto a se divertir comigo. Mais uma vez, arrependi-me de t-lo feito rir. Um sdico com senso de humor era particularmente 
perigoso.
        Buscando freneticamente alguma coisa til que eu pudesse saber a respeito do capito, cheguei a um nome. Entreouvido e descuidadamente gravado, eu esperava 
ter o nome certo. Era uma carta lamentavelmente pequena para jogar, mas a nica que eu possua. Respirei fundo, soltei o ar apressadamente e sa do meu santurio.
        De volta ao escritrio, acrescentei acar ao meu ch e mexi-o cuidadosamente. Em seguida, creme de leite. Tendo arrastado o cerimonial ao mximo, fui forada 
a olhar para Randall. Estava recostado na cadeira, em sua pose favorita, a xcara elegantemente suspensa no ar, para poder me examinar melhor.
        -- E ento? - eu disse. - No precisa se preocupar em estragar meu apetite, porque no tenho nenhum. O que pretende fazer comigo?
        Sorriu e tomou um gole deliberadamente cuidadoso do ch escaldante antes de responder.
        - Nada.
        -  mesmo? - Ergui as sobrancelhas, surpresa. - Sua criatividade falhou?
        - Eu no gostaria de pensar assim - disse, sempre bem-educado. Seus olhos percorreram meu corpo de cima a baixo, de um modo que nada lembrava as boas maneiras.
        - No - disse, o olhar demorando-se na borda do meu corpete, onde o leno que eu ali enfiara deixava as elevaes dos meus seios bem visveis -, por mais 
que eu quisesse lhe dar uma lio muito necessria de boas maneiras, receio que o prazer tenha que ser adiado indefinidamente. Vou mand-la para Edimburgo com a 
prxima remessa do malote. E no gostaria que chegasse l com nenhum dano visvel; meus superiores poderiam me considerar displicente.
        - Edimburgo? - No pude disfarar minha surpresa.
        - Sim. J ouviu falar no Tolbooth, imagino.
        J. Uma das prises mais notrias e repulsivas da poca, era famosa por imundcie, crimes, doenas e escurido. A maioria dos prisioneiros mantidos ali morria 
antes de serem chamados a julgamento. Engoli com fora, forando para baixo a blis amarga que subira  minha garganta, misturada ao gole de ch doce.
        Randall bebericou seu prprio ch, satisfeito consigo mesmo.
        - Dever se sentir bem confortvel l. Afinal, parece gostar de se cercar de sujeira e umidade. - Lanou um olhar reprovador  barra encharcada de minhas 
anguas, caindo abaixo da minha saia. - Vai se sentir em casa, depois do Castelo Leoch.
        Duvidava que a cozinha de Tolbooth fosse to boa quanto a de Colum. E fora as questes gerais de conforto, eu no podia - no podia deixar que me enviasse 
para Edimburgo. Uma vez presa entre os muros de Tolbooth, jamais conseguiria voltar ao crculo de pedras.
        Chegara a hora da minha cartada. Agora ou nunca. Ergui minha prpria xcara.
        - Como quiser - disse calmamente. - O que acha que o duque de Sandringham ter a dizer a respeito?
        Entornou o ch quente no colo de pele de veado e emitiu vrios barulhos muito gratificantes.
        Estalei a lngua em sinal de reprovao.
        Acalmou-se, olhando-me furiosamente. A xcara permanecia virada, seu contedo marrom ensopando o tapete verde-claro, mas ele no fez nenhum movimento em 
direo  corda da campainha. Um pequeno msculo saltava no lado de seu pescoo.
        Eu j encontrara a pilha de lenos engomados na gaveta superior esquerda de sua escrivaninha, juntamente com a caixa de rape esmaltada. Peguei um leno e 
entreguei a ele.
        - Espero que no manche - disse gentilmente.
        - No - ele disse, ignorando o leno. Olhou-me atentamente. - No, no  possvel.
        - Por que no? - perguntei, fingindo valentia, imaginando o que no seria possvel.
        - Teriam me informado. E se voc estivesse trabalhando para Sandringham, por que diabos agiria de maneira to ridcula?
        - Talvez o duque esteja testando sua lealdade - sugeri aleatoriamente, preparando-me para ficar de p num salto se necessrio. Seus punhos estavam cerrados 
ao lado do corpo e o chicote de montar que deixara de lado estava bem ao alcance de sua mo, em cima da escrivaninha.
        Bufou em resposta a tal sugesto.
        - Voc  quem deve estar testando a minha credulidade. Ou minha tolerncia  irritao. Ambas, madame, so extremamente infames. - Seus olhos estreitaram-se 
especulativamente e preparei-me para um salto rpido.
        Lanou-se sobre mim e saltei para o lado. Agarrando o bule de ch, atirei-o em cima dele. Desviou-se e o bule atingiu a porta com grande estardalhao. O 
ordenana, que devia estar de prontido do lado de fora, enfiou a cabea espantada pela porta.
        Respirando ruidosamente, o capito fez sinal impacientemente para que ele entrasse.
        - Segure-a - ordenou bruscamente, atravessando o aposento em direo  escrivaninha. Comecei a respirar profundamente, tanto na esperana de me acalmar como 
na expectativa de no poder faz-lo dentro de pouco tempo.
        Entretanto, ao invs de me espancar, ele simplesmente abriu a gaveta mais baixa da direita, que eu no tivera tempo de investigar, e tirou um longo pedao 
de corda fina.
        - Que tipo de cavalheiro guarda corda nas gavetas da escrivaninha? -perguntei, indignada.
        - Um cavalheiro prevenido, madame - murmurou, amarrando meus pulsos nas costas.
        - V embora - disse impacientemente ao ordenana, sacudindo a cabea em direo  porta. - E no volte, independente do que ouvir.
        Aquilo me pareceu terrivelmente ameaador e meus temores Mostraram-se mais do que justificveis quando ele enfiou a mo na gaveta Mais uma vez.
        Existe algo assustador em uma faca. Homens que so destemidos em combate corpo-a-corpo acovardam-se diante de uma lmina nua. Eu mesma recuei, at que minhas 
mos amarradas colidiram com a parede branca de cal. A temvel ponta reluzente desceu e pressionou um ponto entre meus seios.
        ---- Agora - disse de forma confortvel -, vai me contar tudo que sabe sobre o duque de Sandringham. - A lmina pressionou com um pouco mais de fora, afundando 
no tecido do meu vestido. - Leve quanto tempo quiser, minha querida. No tenho a menor pressa. - Ouviu-se um pequeno pop! quando a ponta perfurou o tecido. Senti 
a lmina, fria como o medo, um ponto minsculo diretamente sobre o meu corao.
        Randall lentamente deslizou a faca em semicrculo sob um dos meus seios. O tecido rstico soltou-se, caiu com um meneio da blusa branca e meu seio saltou 
para fora. Randall parecia estar prendendo a respirao. Exalou lentamente agora, os olhos fixos nos meus.
        Afastei-me um pouco dele, mas quase no havia espao para manobra. Acabei pressionada contra a escrivaninha, as mos atadas segurando a borda. Se ele se 
aproximasse mais, pensei, talvez eu pudesse rolar para trs em cima das mos e chutar a faca de sua mo. Duvidava que pretendesse me matar; certamente no at descobrir 
exatamente o que eu sabia sobre suas relaes com o duque. Por alguma razo, essa concluso trazia relativamente pouco conforto.
        Ele sorriu, com aquela semelhana desalentadora com o sorriso de Frank; aquele sorriso adorvel que eu vira encantar estudantes e amolecer o mais empedernido 
dirigente de universidade. Provavelmente, em outras circunstncias, eu teria achado aquele homem atraente, mas no momento... no.
        Moveu-se com rapidez, enfiando um joelho entre minhas coxas e empurrando meus ombros para trs. No conseguindo manter o equilbrio, ca pesadamente de costas 
sobre a escrivaninha, dando um grito quando aterrissei dolorosamente em cima dos pulsos amarrados. Pressionou o corpo entre minhas pernas, tateando com uma das mos 
para erguer minhas saias enquanto a outra segurava meu seio nu, girando e beliscando. Comecei a espernear freneticamente, mas minhas saias me atrapalhavam. Agarrou 
meu p e correu a mo pela minha perna, empurrando anguas midas, saia e camisola de baixo para fora do caminho, levantando-as acima de minha cintura. Levou a mo 
s calas.
        Semelhanas com Harry, o desertor, pensei furiosamente. O que em nome de Deus estava acontecendo com o exrcito britnico? Gloriosas tradies, pois sim.
        No meio de uma guarnio inglesa, era provvel que gritos no atrassem nenhuma ateno til, mas enchi os pulmes e tentei, mais como um protesto pro forma 
do que qualquer outra coisa. Esperei uma bofetada ou um safano em resposta, para me calar. Ao invs disso, inesperadamente, ele pareceu gostar.
        - Vamos, doura, grite - murmurou, s voltas com a braguilha. - Vou gostar muito mais se voc gritar.
        Olhei-o diretamente nos olhos e retruquei, com clareza e absoluta falta de inabilidade.
        - V se danar!
        Uma mecha de cabelos negros soltou-se e caiu em sua testa num desarranjo devasso. Parecia-se tanto com seu descendente que fui tomada por um terrvel impulso 
de abrir as pernas e responder a ele. Torceu meu seio de tal forma que o impulso desapareceu instantaneamente.
        Eu estava furiosa, nauseada, humilhada e revoltada, mas curiosamente sem muito medo. Senti um movimento pesado, frouxo, contra a minha perna e repentinamente 
compreendi por qu. Ele no iria conseguir a menos que eu gritasse - e provavelmente nem mesmo assim.
        - Ah,  assim, hein? - eu disse e fui recompensada com uma forte bofetada. Cerrei a boca com fora e virei o rosto, para no me sentir tentada a fazer novos 
comentrios imprudentes. Considerei que, com ou sem estupro, eu corria srio perigo com aquele homem de temperamento instvel. Desviando os olhos de Randall, percebi 
um repentino lampejo de movimento na janela.
        - Agradeo-lhe - disse uma voz fria e inalterada -, se tirar as mos de cima de minha mulher. - Randall ficou paralisado com uma das mos ainda em meu seio. 
Jamie estava agachado na moldura da janela, uma pistola de cabo de lato apoiada no antebrao.
        Randall continuou paralisado por um instante, como se no pudesse acreditar no que estava ouvindo. Conforme voltava a cabea lentamente em direo  janela, 
a mo direita, fora da vista de Jamie, deixou meu seio e deslizou sorrateiramente em direo  faca, que colocara sobre a escrivaninha junto  minha cabea.
        - O que foi que voc disse? - perguntou, incrdulo. Quando agarrou a faca, virou-se o suficiente para ver quem tinha falado. Parou novamente por um instante, 
olhando fixamente, e em seguida comeou a rir.
        - Valha-nos Deus,  o jovem gato selvagem escocs! Pensei que tivesse acabado com voc de uma vez por todas! Conseguiu se recuperar, hein? E esta  a sua 
mulher, voc disse? Uma vagabunda bem gostosa, exatamente como sua irm.
        Ainda encoberto pelo corpo parcialmente virado, a mo de Randall que segurava a faca girou; a lmina agora apontava para a minha garganta. Eu podia ver Jamie 
por cima de seu ombro, como um felino pronto para dar um salto da janela. O cano da pistola no vacilou, nem a expresso do seu rosto se alterou. A nica pista para 
as suas emoes era o rubor escuro que subia por sua garganta; o colarinho estava aberto e a pequena cicatriz em seu pescoo flamejava, escarlate.
        Quase descontraidamente, Randall lentamente levantou a faca para que Jamie a visse, a ponta quase tocando a minha garganta. Virou-se um Pouco mais em direo 
a Jamie.
        - Talvez ache melhor jogar a pistola aqui, a menos que esteja cansado da vida de casado. Se preferir ser vivo, naturalmente... - Os olhos fixos uns nos 
outros como o abrao de um amante, nenhum dos dois se moveu por um longo minuto. Finalmente, o corpo de Jamie relaxou a tenso do ataque. Soltou a respirao com 
um longo suspiro de resignao e atirou a arma na sala. Ela bateu no cho com um baque metlico e deslizou pelo assoalho at os ps de Randall.
        Randall curvou-se e pegou a arma em um movimento sinuoso. Assim que a faca saiu do meu pescoo, tentei sentar-me, mas ele colocou a mo no meu peito e me 
empurrou, deixando-me novamente estatelada na escrivaninha. Mantinha-me na posio com uma das mos, usando a outra para mirar a pistola em Jamie. A faca descartada 
estava em algum lugar no cho perto dos meus ps, pensei. Agora, se ao menos eu pudesse peg-la com os dedos dos ps... A adaga no meu bolso estava to fora do meu 
alcance como se estivesse em Marte.
        O sorriso no desaparecera do rosto de Randall desde a apario de Jamie. Agora ele se ampliou, o suficiente para mostrar os dentes caninos pontudos.
        - Bem, assim est melhor. - A mo pesada deixou meu peito para retornar  braguilha de suas calas. - Eu estava ocupado quando voc chegou, meu amigo. Vai 
me desculpar se eu continuar o que estava fazendo antes de cuidar de voc.
        A vermelhido havia se espalhado completamente pelo rosto de Jamie, mas ele continuou imvel, a arma apontada para o seu peito. Enquanto Randall terminava 
suas manobras, Jamie lanou-se contra a boca da pistola. Tentei gritar, para impedi-lo, mas minha boca estava seca de terror. Os ns dos dedos de Randall empalideceram 
quando ele apertou o gatilho.
        O cano da arma de fogo bateu na cmara vazia e o punho de Jamie abateu-se sobre o estmago de Randall. Ouviu-se um estalido quando o outro punho quebrou 
o nariz do oficial e um fino jato de sangue manchou minha saia. Os olhos de Randall reviraram-se e ele caiu no cho como uma pedra.
        Jamie estava atrs de mim, colocando-me de p, cortando a corda em torno dos meus pulsos.
        - Voc abriu caminho at aqui blefando com uma arma descarregada? -grasnei histericamente.
        - Se estivesse carregada, eu teria atirado nele logo que cheguei, no e? -Jamie disse entre dentes.
        O rudo de ps aproximava-se pelo corredor em direo ao escritrio. A corda soltou-se e Jamie arrastou-me com um safano para a janela. Era uma queda de 
dois metros e meio at o cho, mas os passos estavam quase alcanando a porta. Pulamos juntos.
        Aterrissei com um rudo spero de ossos chocalhados e rolei numa confuso de saias e anguas. Jamie levantou-me com um puxo e pressionou-me contra a parede 
do prdio. Passos apressados dobraram a quina do edifcio; seis soldados surgiram no campo de viso, mas no olharam em nossa direo.
        Assim que se afastaram, Jamie segurou minha mo e moveu-se em direo  outra esquina. Andamos rente  parede, parando perto da quina do edifcio. Pude ver 
onde estvamos agora. A seis metros aproximadamente uma escada levava a uma espcie de passadio que corria ao longo da parede interna das muralhas do forte. Ele 
fez um sinal com a cabea indicando a escada; aquele era o nosso objetivo.
        Aproximou a cabea da minha e sussurrou:
        - Quando ouvir uma exploso, corra e suba a escada. Estarei atrs de voc.
        Assenti, balanando a cabea. Meu corao parecia um martelo mecnico; olhando para baixo, vi que um dos meus seios ainda estava exposto. No havia muito 
a fazer a respeito no momento. Segurei as dobras das minhas saias, pronta para correr.
        Ouviu-se um enorme estrondo do outro lado do prdio, como a exploso de um morteiro. Jamie deu-me um empurro e eu disparei, correndo o mais rpido que podia. 
Dei um salto para a escada, agarrei-a e subi aos tropees; senti a madeira sacudir e estremecer quando o peso de Jamie atingiu a escada abaixo de mim.
        Virando-me no topo da escada, tive uma viso completa do forte. Rolos de fumaa negra projetavam-se de um pequeno prdio prximo  muralha dos fundos e de 
todas as partes corriam homens em sua direo.
        Jamie surgiu ao meu lado.
        - Por aqui.
        Correu agachado ao longo do passadio e eu o segui. Paramos junto ao mastro da bandeira, preso na muralha. O estandarte agitava-se com fora acima de ns, 
a adria batendo ritmadamente contra o mastro. Jamie espreitava por cima da muralha,  procura de alguma coisa. Olhei para o acampamento atrs. Os homens aglomeravam-se 
no pequeno prdio, correndo de um lado para o outro e gritando. Mais adiante, vi uma pequena plataforma de madeira, com cerca de um metro e meio de altura e uma 
escada. Um pesado poste de madeira erguia-se no centro, com uma viga atravessada em cruz e algemas de corda penduradas nos braos da cruz.
        De repente, Jamie deu um assobio; olhando por cima da muralha, vi Rupert, montado e conduzindo o cavalo de Jamie. Olhou para cima ao ouvir o assobio e conduziu 
os cavalos at junto  muralha abaixo de ns.
        Jamie cortava a adria do mastro. As pesadas dobras vermelhas e azuis da bandeira sucumbiram e deslizaram para baixo, aterrissando com um baque sibilante 
ao meu lado. Enrolando rapidamente uma das pontas da corda em volta de uma das estacas, Jamie atirou o resto para baixo do lado Externo da muralha.
        - Vamos! - disse. - Segure-se firme com as duas mos, coloque os ps contra a parede! V! - Comecei a descer, escorando os ps na muralha e soltando a corda 
aos poucos; o cordame fino escorregava e queimava minhas mos. Ca perto dos cavalos e apressei-me a montar. Jamie saltou sobre a sela atrs de mim no instante seguinte 
e partimos a galope.
        Reduzimos um pouco a marcha a uns dois ou trs quilmetros do acampamento, quando se tornou claro que havamos nos livrado de nossos perseguidores. Aps 
uma breve conferncia, Dougal decidiu que seria melhor nos dirigirmos para a fronteira das terras dos MacKenzie, como o territrio mais seguro.
        - Podemos chegar a Doonesbury  noite e l provavelmente estaremos em segurana. Amanh espalharo avisos sobre ns, mas j teremos atravessado a fronteira 
antes que a notcia chegue l.
        Estvamos no meio da tarde; partimos em marcha firme, nosso cavalo com carga dupla ficando um pouco para trs. Meu cavalo, eu imaginava, ainda estaria pastando 
alegremente no bosque, esperando ser conduzido para casa por quem tivesse a sorte de encontr-lo.
        - Como me encontrou? - perguntei. Eu estava comeando a tremer em efeito retardado e cruzei os braos ao redor do corpo para acalmar o tremor. Minhas roupas 
haviam se secado completamente a essa altura, mas eu sentia um frio que atingia os ossos.
        - Achei melhor no deixar voc sozinha e enviei um homem de volta para ficar com voc. Ele no a viu partir, mas viu os soldados ingleses atravessarem o 
rio a vau e voc com eles. - A voz de Jamie era fria. No podia culp-lo. Meus dentes comeavam a ranger.
        - S-surpreende-me que no tivesse achado que eu era uma espi inglesa e m-me deixado l.
        - Era o que Dougal queria fazer. Mas o homem que a viu com os soldados disse que voc estava se debatendo. Eu tinha ao menos que ir verificar. - Olhou para 
mim, sem mudar a expresso.
        - Tem sorte, Sassenach, que eu tenha visto o que vi naquela sala. Ao menos, Dougal tem que admitir que voc no est mancomunada com os ingleses.
        - D-dougal, hein? E quanto a voc? O q-que voc acha? - perguntei. Ele no respondeu, apenas bufou rapidamente. No entanto, finalmente teve pena de mim o 
suficiente para arrancar o xale e atir-lo sobre meus ombros, mas no passou o brao ao meu redor nem me tocou alm do estritamente necessrio. Cavalgou num silncio 
amargo, manejando as rdeas com gestos bruscos, muito diferentes de suas maneiras gentis habituais.
        Eu mesma, transtornada e abalada, no estava com disposio para aturar mau humor.
        - Bem, o que foi, ento? Qual  o problema? - perguntei impacientemente. - No fique emburrado, pelo amor de Deus! - Falei mais rispidamente do que pretendia 
e senti que ele se retesou ainda mais. De repente, ele virou a cabea do cavalo para o lado e freou  beira da estrada. Antes que eu soubesse o que estava acontecendo, 
ele desmontara e me fizera descer da sela tambm. Aterrissei desajeitadamente, cambaleando para manter o equilbrio quando meus ps atingiram o solo.
        Dougal e os demais pararam quando nos viram desmontar. Jamie fez um gesto curto e contundente, mandando-os seguir em frente e Dougal abanou a mo, compreendendo.
        - No demore muito - gritou, e retomaram a viagem.
        Jamie esperou at que estivessem fora do alcance de sua voz. Ento, me puxou com um safano para que o encarasse. Estava obviamente furioso,  beira da exploso. 
Senti minha prpria ira crescer; que direito tinha de me tratar assim?
        - Emburrado! - disse. - Emburrado, no ? Estou usando todo o autocontrole que possuo para no sacudi-la at seus dentes rangerem e voc me diz para no 
ficar emburrado!
        - Qual  o seu problema, pelo amor de Deus? - perguntei com raiva. Tentei livrar-me do aperto de suas mos, mas seus dedos afundaram-se nos meus braos como 
as garras de uma armadilha.
        - Qual  o meu problema? Vou lhe dizer qual  o meu problema, j que quer saber! - disse com os dentes cerrados. - Estou cansado de ter que ficar provando 
a toda hora que voc no  uma espi inglesa. Estou cansado de ter que vigiar voc a todo instante, com medo da bobagem que far em seguida. E estou muito cansado 
de ver as pessoas tentarem me fazer ficar olhando enquanto estupram voc! No gostei disso nem um pouco!
        - E acha que eu gostei? - gritei. - Est tentando dizer que a culpa  minha? - Diante disso, ele realmente me sacudiu.
        -  sua culpa! Se tivesse ficado onde mandei que ficasse hoje de manh, isso nunca teria acontecido! Mas no, voc no me ouve, no passo de seu marido, 
por que me escutar? Voc age como bem entende e, quando vejo, est de costas com as saias para cima e um canalha entre suas pernas, a ponto de possu-la diante dos 
meus olhos! - Seu sotaque escocs, geralmente leve, tornava-se mais forte a cada instante, um sinal seguro de que estava furioso, caso eu precisasse de mais indicao.
        Nossos narizes j estavam quase se tocando, enquanto gritvamos um com o outro. Jamie estava vermelho de raiva e eu sentia o meu prprio sangue subir.
        -  sua prpria culpa, por me ignorar e suspeitar de mim o tempo inteiro! Eu lhe contei a verdade sobre quem eu sou! E eu lhe disse que no haveria perigo 
de eu ir com voc, mas voc quis me ouvir? No! Sou apenas uma mulher, por que deveria prestar ateno ao que eu digo? As mulheres s devem fazer o que lhes mandam 
e seguir ordens e ficar sentadas docemente com as mos cruzadas no colo esperando que os homens voltem e lhes digam o que fazer!
        Sacudiu-me outra vez, incapaz de se conter.
        - E se voc tivesse feito isso, no estaramos fugindo agora, com cem soldados ingleses no nosso encalo! Meu Deus, mulher, no sei se devo estrangul-la 
ou jog-la no cho e bater em voc at deix-la sem sentidos, mas por Deus, tenho vontade de fazer alguma coisa com voc!
        Diante disso, fiz um esforo determinado de chut-lo nos testculos. Ele desviou-se e lanou o prprio joelho entre minhas pernas, evitando com eficcia 
quaisquer novas tentativas.
        - Tente isso de novo e eu vou esbofete-la at seus ouvidos zumbirem - rosnou.
        - Voc  um brutamontes e um idiota - disse, arquejante, debatendo-me para escapar de suas mos, agarradas aos meus ombros. - Acha que sa e fui capturada 
pelos ingleses de propsito?
        - Acho mesmo que voc fez isso de propsito, para se vingar de mim pelo que aconteceu na clareira!
        Fiquei boquiaberta.
        - Na clareira? Com os desertores ingleses?
        - Sim! Voc acha que eu deveria ter sido capaz de proteg-la e tem razo. Mas no consegui; voc teve que fazer isso sozinha e agora est tentando me fazer 
pagar por isso deliberadamente colocando a si mesma, minha mulher, nas mos de um homem que tirou meu sangue!
        - Sua mulher! Sua mulher! Voc no se importa comigo! Sou apenas sua propriedade; s  importante para voc porque acha que eu lhe perteno e no pode suportar 
que algum tire alguma coisa que lhe pertence!
        - Voc me pertence mesmo - trovejou, enfiando os dedos nos meus ombros como pregos. - E voc  minha mulher, goste ou no!
        - No gosto! No gosto nem um pouco! Mas isso tambm no importa, no ? Desde que eu esteja presente para esquentar sua cama, no se importa com o que eu 
penso ou como me sinto! Isso  tudo que uma mulher representa para voc, algo onde enfiar seu pau quando tem vontade!
        Com isso, seu rosto ficou branco como cera e comeou a me sacudir seriamente. Minha cabea sacolejou violentamente e meus dentes chocalharam, fazendo-me 
morder a lngua.
        - Solte-me! - gritei. Solte-me, seu - deliberadamente, usei as palavras de Harry, o desertor, tentando feri-lo - filho-da-me no cio! - Ele me soltou e recuou 
um passo, os olhos flamejando.
        - Sua cadela de boca suja! No vai falar assim comigo!
        - Falo do jeito que quiser! No pode mandar em mim!
        - Parece que no! Voc faz o que bem entende, no importa quem voc magoe com isso, no ? Sua egosta, teimo...
        -  o seu maldito orgulho que est ferido! - gritei. - Salvei ns dois daqueles desertores na clareira e voc no pode aceitar isso, no ? Voc s ficou 
l parado! Se eu no tivesse a faca, ns dois estaramos mortos agora!
        At colocar em palavras, eu no tinha idia de que estava com raiva dele por no me proteger dos desertores ingleses. Em circunstncias mais racionais, esse 
pensamento jamais teria atravessado minha mente. No foi culpa dele, eu teria dito. Foi pura sorte que eu tivesse a adaga, eu teria dito. Mas agora eu compreendia 
que, justo ou no, racional ou no, eu realmente sentia de alguma forma que era responsabilidade dele me proteger e que ele falhara. Talvez porque ele to obviamente 
se sentisse assim.
        Ficou parado olhando-me fixamente arquejando de emoo. Quando voltou a falar, tinha a voz baixa e entrecortada de paixo.
        - Viu aquele mastro no ptio do forte? Balancei ligeiramente a cabea.
        - Bem, eu fui amarrado quele poste, amarrado como um animal e chicoteado at meu sangue escorrer! Carregarei as cicatrizes at a morte. Se eu no tivesse 
tido muita sorte esta tarde, isso seria o mnimo que me aconteceria. Provavelmente teriam me chicoteado e depois me enforcado. - Engoliu em seco e continuou.
        - Eu sabia disso e no hesitei nem por um segundo em entrar naquele lugar para ir atrs de voc, mesmo achando que talvez Dougal tivesse razo. Sabe onde 
consegui a arma que usei? - Sacudi a cabea, entorpecida, minha prpria raiva comeando a esmaecer. - Matei um guarda junto  muralha. Ele atirou em mim;  por isso 
que estava descarregada. Ele errou e eu o matei com minha adaga; deixei-a cravada no seu peito quando a ouvi gritar. Eu teria matado uma dzia de homens para resgat-la, 
Claire. - Sua voz falhou.
        - E quando voc gritou, corri para voc, armado apenas com uma pistola vazia e minhas duas mos. - Jamie falava com mais calma agora, mas seus olhos ainda 
faiscavam de dor e raiva. Fiquei em silncio. Perturbada com o horror do meu encontro com Randall eu no dera absolutamente nenhum valor  coragem desesperada que 
ele precisou ter para entrar no forte para me salvar.
        Desviou-se bruscamente, os ombros arriados.
        - Tem razo - ele disse serenamente. - Sim, tem toda razo. - De repente, a raiva desaparecera de sua voz, substituda por um tom que nunca ouvira nele, 
nem mesmo na dor fsica extrema.
        - Meu orgulho est ferido. E meu orgulho  praticamente tudo que me resta. - Apoiou os braos em um pinheiro de casca spera e enterrou a cabea neles, exausto. 
Sua voz era to baixa que eu mal podia ouvi-lo.
        - Voc est me dilacerando, Claire.
        Eu estava sentindo algo bem semelhante. Devagar, aproximei-me por trs dele. Ele no se mexeu, mesmo quando passei os braos pela sua cintura.
        Recostei o rosto em suas costas curvadas. Sua camisa estava molhada, suada com a intensidade de seus sentimentos, e ele tremia.
        - Sinto muito - eu disse, simplesmente. - Por favor, perdoe-me. - Ele virou-se e abraou-me com fora. Senti o tremor de seu corpo ceder aos poucos.
        - Est perdoada, moa - murmurou finalmente nos meus cabelos. Soltando-me, olhou para mim, srio e formal.
        - Eu tambm sinto muito - disse. - Peo-lhe que me perdoe pelo que eu disse; estava ferido e disse mais do que pretendia. Voc tambm me perdoa? - Depois 
de seu ltimo discurso, eu no sentia que houvesse qualquer coisa para eu perdoar, mas balancei a cabea e apertei suas mos.
        - Est perdoado.
        Num silncio mais aliviado, montamos outra vez. A estrada era reta e plana por uma longa extenso neste trecho e ao longe pude ver uma pequena nuvem de poeira 
que devia ser Dougal e seus homens.
        Jamie estava comigo outra vez; segurava-me com um dos braos enquanto cavalgvamos e eu me sentia mais segura. Mas uma leve sensao de constrangimento e 
ofensa ainda perdurava; as coisas ainda no estavam sanadas entre ns. Havamos perdoado um ao outro, mas nossas palavras ainda pairavam na lembrana, no podendo 
ser esquecidas.
        
        
        
22 - ACERTOS DE CONTAS
        
        Chegamos a Doonesbury bem depois do anoitecer. Era uma parada de carruagens de bom tamanho, com uma hospedaria adjacente, felizmente. Dougal fechou os olhos 
de desgosto ao pagar o estalajadeiro; seriam necessrias muitas moedas de pratas extras para garantir seu silncio quanto  nossa presena.
        O dinheiro, entretanto, tambm garantiu uma boa refeio, com bastante cerveja. Apesar da comida, o jantar foi sombrio, quase todo transcorrido em silncio. 
Ali sentada em meus trajes arruinados, recatadamente coberta com a camisa extra de Jamie, eu obviamente cara em desgraa. Exceto por Jamie, os homens comportavam-se 
como se eu fosse completamente invisvel e at mesmo Jamie no fez mais do que empurrar o po e a carne para mim de vez em quando. Foi um alvio finalmente subir 
para o nosso quarto, apesar de pequeno e confinado.
        Afundei na cama com um suspiro, sem me preocupar com o estado das roupas de cama.
        - Estou exausta. Foi um longo dia.
        - Sim,  verdade. - Jamie abriu o colarinho e os punhos e desafivelou o cinto de sua espada, mas no continuou a se despir. Puxou a tira de couro da bainha 
da espada e dobrou-a, flexionando o couro e ponderando.
        - Venha dormir, Jamie. O que est esperando?
        Aproximou-se e ficou de p ao lado da cama, balanando o cinto devagar de um lado para o outro.
        - Bem, moa, receio que ainda tenhamos um assunto para acertar entre ns antes de dormir. - Senti uma repentina pontada de apreenso.
        - O que ?
        No respondeu de imediato. Em vez de sentar-se na cama a meu lado, puxou um banco e sentou-se diante de mim.
        - Voc compreende, Claire, que todos ns quase fomos mortos esta tarde?
        Abaixei os olhos para a colcha, envergonhada.
        - Sim, eu sei. Minha culpa. Sinto muito.
        -- Sim, ento voc compreende. Sabe que se um dos nossos homens tivesse agido assim, colocando todos os demais em perigo, provavelmente teria as orelhas 
cortadas, ou seria chicoteado, ou mesmo simplesmente morto?
        Empalideci.
        - No, no sabia.
        - Bem, sei que ainda no est familiarizada com nossos costumes e isso a desculpa um pouco. Ainda assim eu lhe disse para ficar escondida e, se voc tivesse 
obedecido, nada disso teria acontecido. Agora os ingleses estaro em nosso encalo por toda a parte; agora, vamos ter que ficar escondidos durante o dia e viajar 
durante a noite.
        Fez uma pausa.
        - E quanto ao capito Randall... sim, essa  uma outra histria.
        - Ele estar especialmente  sua procura, quer dizer, agora que sabe que est aqui? - Ele assentiu distraidamente, fitando o fogo na lareira.
        - Sim. Ele... a questo com ele  pessoal, entende?
        - Sinto muito, Jamie - eu disse. Jamie descartou meu pedido de desculpas com um gesto da mo.
        - Ah, se fosse apenas a mim que voc tivesse prejudicado com isso, eu no diria mais nada. Mas j que estamos conversando - lanou-me um olhar penetrante 
-, vou lhe dizer que quase me matou ver aquele animal com as mos em voc. - Desviou o olhar para o fogo, a expresso sombria, como se revivesse os acontecimentos 
da tarde.
        Pensei em contar-lhe sobre as... dificuldades de Randall, mas temia que fosse piorar as coisas. Queria desesperadamente abraar Jamie e suplicar-lhe que 
me perdoasse, mas no ousava toc-lo. Aps um longo momento de silncio, ele suspirou e levantou-se, batendo o cinto de leve na perna.
        - Muito bem - disse. -  melhor acabar logo com isso. Voc causou danos considerveis ao contradizer minhas ordens e vou castig-la por isso, Claire. Lembra-se 
do que lhe disse quando a deixei pela manh? - Eu me lembrava muito bem e rapidamente levantei-me na cama para que minhas costas ficassem contra a parede.
        - O que quer dizer?
        - Sabe muito bem o que quero dizer - respondeu com firmeza. -Ajoelhe-se junto  cama e levante suas saias, moa.
        - No vou fazer isso! - Agarrei com as duas mos o p do dossel da cama e fui me encolhendo mais para o canto.
        Jamie observou-me por um instante com os olhos apertados, decidindo o prximo passo. Ocorreu-me que no havia nada que pudesse impedi-lo de fazer o que quisesse 
comigo; pesava mais uns quarenta quilos do que eu. Mas, por fim, ele resolveu conversar, em vez de agir, e cuidadosamente colocou o cinto de lado, antes de arrastar-se 
pelas cobertas e sentar-se ao meu lado.
        - Veja bem, Claire... - comeou.
        - Eu j pedi desculpas! - explodi. - E sinto muito mesmo. Nunca mais farei isso!
        - Bem, essa  a questo - disse devagar. - Talvez faa. E isso  porque voc no leva as coisas to a srio quanto elas so. Acho que voc vem de um lugar 
onde tudo  mais fcil. De onde voc vem, no  uma questo de vida ou morte desobedecer ordens ou tomar decises por conta prpria. Na pior das hipteses, pode 
causar algum desconforto a algum, ou ser um pouco inconveniente, mas provavelmente no vai matar ningum. - Observei seus dedos alisarem as pregas do kilt de xadrez 
em tons de marrom, enquanto arrumava os pensamentos.
        - A dura verdade  que um ato simples pode ter conseqncias muito srias em lugares e tempos como estes, especialmente para um homem como eu. - Deu uns 
tapinhas no meu ombro, vendo que eu estava  beira das lgrimas.
        - Sei que voc jamais me colocaria em perigo ou a ningum mais de propsito. Mas pode facilmente faz-lo sem inteno, como fez hoje, porque voc no acredita 
em mim quando lhe digo que algumas coisas so perigosas. Est acostumada a pensar por conta prpria e eu sei - olhou-me de vis - que no est acostumada a que um 
homem lhe diga o que fazer. Mas tem que aprender a agir assim, pelo bem de todos ns.
        - Est bem - eu disse devagar. - Eu compreendo. Tem razo,  claro. Tudo bem; seguirei suas ordens, mesmo que no concorde com elas.
        - timo. - Levantou-se e pegou o cinto. - Agora, saia da cama e acabaremos logo com isso.
        Abri a boca, indignada.
        - O qu?! Eu disse que seguiria suas ordens!
        Suspirou, exasperado, em seguida sentou-se novamente no banco. Olhou-me sem piscar.
        - Agora, oua. Voc diz que me compreende e eu acredito. Mas existe uma diferena entre entender com a mente e realmente saber, l no fundo. - Assenti, com 
relutncia.
        - Muito bem. Agora, eu vou ter que puni-la e por duas razes: primeiro, para que voc realmente saiba. - Sorriu, de repente. - Posso dizer-lhe pela minha 
prpria experincia que uma boa surra faz voc ver as coisas sob uma luz mais sria. - Agarrei a coluna de madeira com mais fora.
        - A outra razo - continuou -  por causa dos outros homens. Notou como se comportaram esta noite? Eu notei; o ambiente estava to desagradvel no jantar 
que foi um alvio vir para o quarto.
        -- Existe uma coisa chamada justia, Claire. Voc agiu mal com todos eles e ter que sofrer por isso. - Respirou fundo. - Sou seu marido;  meu dever resolver 
isso e  o que pretendo fazer.
        Eu tinha fortes objees a essa proposio em diversos nveis, qualquer que fosse a justia dessa situao - e eu tinha que admitir que em parte ele tinha 
razo - meu senso de amor-prprio ofendia-se profundamente diante da idia de levar uma surra, por quem quer que fosse e por qualquer que fosse a razo.
        Senti-me profundamente trada pelo fato de que o homem do qual eu dependia como amigo, protetor e amante pretendesse fazer tal coisa comigo. E minha noo 
de autopreservao estava aterrorizada diante da idia de me submeter  compaixo de um homem que manejava uma espada de sete quilos como se fosse um mata-moscas.
        - No vou permitir que bata em mim - disse com firmeza, agarrando-me  coluna do dossel da cama.
        - Ah, no? - Ergueu as sobrancelhas ruivas. - Bem, vou lhe dizer, menina, acho que no tem muita escolha. Voc  minha mulher, quer goste ou no. Se quisesse 
quebrar seu brao, deix-la a po e gua ou tranc-la num quartinho por vrios dias - e no pense que no me sinto tentado -, eu poderia, quanto mais esquentar o 
seu traseiro.
        - Vou gritar!
        -  provvel. Se no antes, certamente durante. Espero que a ouam at a fazenda mais prxima; voc tem bons pulmes. - Riu de forma abominvel e atravessou 
a cama em meu encalo.
        Soltou meus dedos com alguma dificuldade e puxou-me com firmeza, arrastando-me para a beirada da cama. Chutei sua canela, mas no causei nenhum dano, j 
que estava sem sapatos. Grunhindo levemente, conseguiu me colocar com o rosto para baixo na beira da cama, torcendo meu brao para trs para me manter na posio.
        - Eu pretendo cumprir minha palavra, Claire! Agora, se cooperar comigo, consideraremos as contas acertadas com doze pancadas.
        - E se eu no cooperar? - perguntei com a voz trmula. Ele apanhou o cinto e bateu-o contra a perna com um desagradvel som estalado.
        - Ento, terei que colocar um joelho em suas costas e espanc-la at meu brao doer e vou avis-la, voc vai se cansar muito antes de mim.
        Virei-me rapidamente para encar-lo, os punhos cerrados.
        - Seu brbaro! Seu... seu sdico! - disse entre dentes, furiosa. - Est fazendo isso por seu prprio prazer! Nunca o perdoarei por isso! - Jamie parou, girando 
o cinto.
        Retorquiu sem se alterar:
        - No sei o que  um sdico. E se eu a perdo por esta tarde, imagino que v me perdoar tambm, assim que puder sentar-se outra vez.
        - Quanto a meu prazer... - Seu lbio contorceu-se. - Eu disse que teria que castig-la. Eu no disse que no ia gostar. - Fez sinal com o dedo dobrado para 
mim.
        - Venha c.
        Relutei em deixar o santurio do meu quarto na manh seguinte e fiquei fazendo hora, amarrando e desamarrando fitas e escovando os cabelos. No falara com 
Jamie desde a noite anterior, mas ele notou minha hesitao e instou-me a sair com ele para o desjejum.
        - No precisa temer enfrentar os outros, Claire. Eles vo zombar um pouco de voc,  provvel, mas no ser nada demais. Levante o queixo. -Bateu de leve 
sob meu queixo e eu mordi sua mo, com fora, mas no profundamente.
        - Oooh! - Retirou os dedos depressa. - Cuidado, menina, no sabe onde eles andaram. - Deixou-me, dando uma risadinha, e foi comer.
        Devia estar mesmo de bom humor, pensei amargamente. Se era vingana o que ele queria na noite anterior, ele a tivera.
        Fora uma noite extremamente desagradvel. Minha relutante aquiescncia durara precisamente at o primeiro estalo abrasador do couro na pele. A isso seguiu-se 
uma luta curta e violenta, que deixou Jamie com o nariz sangrando, trs belos arranhes em um dos lados do rosto e um pulso com uma mordida profunda. Como era de 
se esperar, isso me deixou esmagada contra as cobertas encardidas, com um joelho nas costas, surrada quase at a morte.
        Jamie, que o diabo carregue sua maldita alma escocesa, provou ter razo. Os homens foram contidos em seus cumprimentos, mas mostraram-se bastante amigveis; 
a hostilidade e o desprezo da noite anterior desapareceram.
        Quando eu me servia de ovos no aparador, Dougal aproximou-se e passou um brao paternal pelos meus ombros. Sua barba espetou minha orelha quando sussurrou 
em tom confidencial:
        - Espero que Jamie no tenha sido muito duro com voc ontem  noite, dona. Parecia que estava sendo assassinada, para dizer o mnimo.
        Meu rosto ficou vermelho e quente e eu me virei para que ele no notasse. Aps os insolentes comentrios de Jamie, decidira manter a boca fechada durante 
toda a provao. Entretanto, no calor do acontecimento, eu teria desafiado a prpria Esfinge a ficar de boca fechada enquanto sentia a ponta do couro brandido por 
Jamie Fraser.
        Dougal virou-se para falar com Jamie, sentado  mesa, comendo po e queijo.
        - Ora, Jamie, no precisava quase matar a moa. Um lembrete delicado teria sido o suficiente. - Deu uma palmada com firmeza no meu traseiro para ilustrar, 
fazendo-me encolher involuntariamente. Olhei-o furiosa.
        - Um traseiro empolado nunca causou danos permanentes a ningum - disse Murtagh, com a boca cheia de po.
        - No,  verdade - disse Ned, rindo. - Venha sentar-se aqui, dona.
        - Prefiro ficar de p, obrigada - respondi com dignidade, fazendo todos desatarem em gargalhadas. Jamie evitou fitar-me nos olhos, cortando diligentemente 
um pedao de queijo.
        Houve mais algumas chacotas bem-humoradas durante o dia e cada um dos homens arranjou uma desculpa para dar uma palmada no meu traseiro em falsa solidariedade. 
No cmputo geral, entretanto, foi suportvel e de m vontade comecei a considerar que Jamie talvez tivesse razo, embora eu ainda quisesse estrangul-lo.
        J que sentar estava fora de questo, ocupei a manh com pequenos afazeres como fazer bainhas e pregar botes, que podiam ser feitos no peitoril da janela, 
com a desculpa de precisar de luz para costurar. Aps o almoo, que comi de p, todos foram para os seus quartos descansar. Dougal decidira que esperaramos at 
ficar completamente escuro antes de partir para Bargrennan, a prxima parada em nossa jornada. Jamie seguiu-me para nosso quarto, mas fechei a porta com firmeza 
na sua cara. Que dormisse no cho outra vez.
        Ele fora bastante diplomtico na noite anterior, colocando o cinto de volta na cintura e deixando o quarto sem falar nada assim que terminou. Voltara uma 
hora mais tarde, depois que apaguei a luz e fui para a cama, mas teve o bom senso de no tentar deitar-se na cama comigo. Aps espreitar no escuro onde eu permanecia 
imvel, suspirou fundo, enrolou-se no seu xale e foi dormir no cho perto da porta.
        Furiosa, transtornada e fisicamente desconfortvel demais para dormir, eu passara a maior parte da noite acordada, remoendo o que Jamie dissera e com vontade 
de me levantar e chut-lo em algum ponto sensvel.
        Se eu fosse objetiva, o que no estava com a menor disposio de ser, eu teria admitido que ele tinha razo quando dizia que eu no levava as coisas com 
a devida seriedade. Mas ele estava errado quando dizia que era porque as coisas eram menos precrias no lugar de onde eu vinha - onde quer que fosse. Na realidade, 
pensei, o mais provvel  que o contrrio  que fosse verdadeiro.
        Esta poca ainda era, de muitas maneiras, irreal para mim; algo sado de uma pea teatral ou de um desfile de fantasias. Comparadas s vises de guerra mecanizada, 
em massa, de onde eu vinha, as pequenas batalhas que eu vira - alguns poucos homens armados de espadas e mosquetes -pareciam-me pitorescas em vez de assustadoras.
        Eu estava tendo problemas de escala. Um homem morto por um mosquete estava to morto quanto outro atingido por um morteiro. A questo  que o morteiro matava 
impessoalmente, destruindo dezenas de homens, enquanto o mosquete era disparado por um nico homem que podia ver os olhos daquele a quem matava. Isso era homicdio, 
parecia-me, e no guerra. Quantos homens eram necessrios para fazer uma guerra? O bastante, talvez, para que no tivessem que ver uns aos outros? E no entanto aquilo 
obviamente era guerra - ou ao menos uma questo sria - para Dougal, Jamie, Rupert e Ned. At mesmo o pequeno Murtagh de cara de fuinha tinha razes para uma violncia 
alm de sua inclinao natural.
        E quanto s razes? Um rei em vez de outro? Um Hanover em vez de um Stuart? Para mim, no passavam de nomes em um diagrama na parede da escola. O que eram, 
comparados a um mal inimaginvel como o Reich de Hitler? Fazia diferena para os que viviam sob aquele reinado, suponho, embora as diferenas pudessem me parecer 
triviais. Ainda assim, quando o direito de uma pessoa viver como deseja foi considerado trivial? Uma luta para escolher o prprio destino valeria menos do que a 
necessidade de pr fim a um grande mal? Revirei-me na cama, irritada, esfregando delicadamente meu traseiro dolorido. Olhei com raiva para Jamie, enrascado como 
uma bola junto  porta. Respirava regularmente, mas de leve; talvez ele tambm no conseguisse dormir. Esperava que no.
        No comeo, ficara inclinada a considerar toda essa notvel desventura como um melodrama; coisas assim simplesmente no aconteciam na vida real. J sofrera 
muitos choques desde que atravessara o crculo de pedra, mas o pior at o momento fora o desta tarde.
        Jack Randall, to parecido e to terrivelmente diferente de Frank. O toque de sua mo em meus seios repentinamente formara um elo entre minha antiga vida 
e esta de agora, reunindo minhas realidades distintas com o estrondo de um trovo. E havia Jamie: seu rosto, paralisado de medo na janela da sala de Randall, tenso 
de raiva na beira da estrada, contorcido de dor diante de meus insultos.
        Jamie. Jamie era real,  verdade, mais real do que qualquer coisa j fora para mim, at mesmo Frank e minha vida em 1945. Jamie, amante terno e prfido patife.
        Talvez esse fosse parte do problema. Jamie preenchia meus sentidos to completamente que o ambiente em que vivia parecia quase irrelevante. Mas eu no podia 
mais me dar ao luxo de ignor-lo. Minha imprudncia quase o matara esta tarde e meu estmago revirou-se  idia de perd-lo. Sentei-me repentinamente, pretendendo 
ir acord-lo e dizer-lhe para vir deitar-se na cama comigo. Mas quando meu peso recaiu por inteiro sobre os resultados de sua obra, depressa mudei de idia e me 
virei com raiva sobre o estmago.
        Uma noite passada assim, dilacerada entre acessos de raiva e filosofia, deixara-me exausta. Dormi a tarde toda e fui cambaleando, os olhos turvos, Para uma 
ceia leve quando Rupert me acordou pouco antes de escurecer.
        Dougal, sem dvida lamentando a despesa, adquiriu um outro cavalo Para mim. Um animal forte, embora deselegante, com um olhar bondoso e uma crina curta e 
espetada; imediatamente batizei-o de Cardo, o emblema herldico da Esccia.
        No havia pensado nos efeitos de uma longa viagem a cavalo depois de uma surra grave. Olhei em dvida para a sela dura do meu cavalo, compreendendo de repente 
o que me aguardava. Uma manta grossa caiu subitamente sobre a sela e o olho preto e brilhante como o de um rato de Murtagh piscou para mim do outro lado, com um 
ar de conspirao. Decidi que eu ao menos sofreria em silncio digno e cerrei furiosamente os maxilares quando me ergui para a sela.
        Parecia haver uma conspirao galante e no declarada entre os homens; revezavam-se parando a intervalos freqentes para se aliviarem, permitindo que eu 
desmontasse por alguns minutos e sorrateiramente massageasse minhas doloridas ndegas. De vez em quando, algum sugeria que parssemos para beber gua, o que tornava 
necessrio que eu parasse tambm, j que Cardo carregava as garrafas de gua.
        Prosseguimos assim sacolejando por algumas horas, mas a dor ficou cada vez pior, fazendo com que eu me remexesse na sela sem parar. Finalmente, resolvi mandar 
para o inferno o sofrimento digno, eu simplesmente tinha que desmontar por algum tempo.
        - oopa! - exclamei para o cavalo e desmontei. Fingi examinar sua pata dianteira esquerda, enquanto os outros cavalos paravam em crculo  nossa volta.
        - Acho que entrou uma pedra no casco dele - menti. - J tirei, mas acho melhor andar com ele um pouco; no quero que fique manco.
        - No, no podemos deixar que isso acontea - disse Dougal. - Est bem, ande um pouco, mas algum tem que ficar com voc.  uma estrada bastante tranqila, 
mas no posso deix-la andando sozinha. - Jamie apeou imediatamente.
        - Caminharei com ela - disse serenamente.
        - timo. No se demorem muito. Temos que chegar em Bargrennan antes do raiar do dia. Vamos para o Javali Vermelho; o proprietrio  amigo. - Com um aceno, 
reuniu os demais e partiram num trote ligeiro, deixando-nos no rastro de poeira.
        Vrias horas de tortura na sela no contriburam para melhorar meu humor. Que caminhe comigo se quiser. No iria falar com ele, aquele sdico brutamontes.
        No parecia particularmente um brutamontes  luz da lua crescente, mas depois de mais ou menos meia hora, comecei a caminhar com bem mais facilidade.
        - Amanh vai se sentir bem melhor - Jamie observou descontrada-mente. - Embora s v poder se sentar facilmente depois de amanh.
        - E o que faz de voc um especialista? - disse, lanando-lhe um olhar chispante. - Surra as pessoas freqentemente?
        - Bem, no - disse, sem se deixar perturbar pela minha atitude. - Foi a primeira vez que fiz isso. Mas tenho considervel experincia na outra ponta.
        - Voc? - perguntei, admirada. A idia de algum pegar um cinto para bater naquela montanha de msculos e tendes era inteiramente impensvel.
        Riu diante da minha expresso.
        - Quando eu era um pouco menor, Sassenach. J tive meu traseiro surrado mais vezes do que poderia contar, entre as idades de oito e treze anos. Foi quando 
fiquei mais alto do que meu pai e ele no pde mais me fazer debruar na cerca.
        - Seu pai batia em voc?
        - Ah, muitas vezes. O professor tambm,  claro, e Dougal ou um dos outros tios de vez em quando, dependendo de onde eu estivesse e do que andara fazendo.
        Comecei a ficar interessada, apesar da minha determinao de ignor-lo.
        - O que voc fazia?
        Riu outra vez, um som baixo mas contagiante no ar tranqilo da noite.
        - Bem, no me lembro de tudo. Diria que, de um modo geral, eu mereci. Ao menos, acho que meu pai nunca me bateu injustamente. - Caminhou sem falar por um 
minuto, pensando.
        - Hum. Vejamos, houve uma vez por apedrejar as galinhas e outra por montar nas vacas e deix-las agitadas demais para produzirem leite e depois por comer 
toda a gelia dos bolos, deixando os bolos para trs. Ah, e por deixar os cavalos sarem da estrebaria, eu no havia trancado o porto. Por atear fogo na palha do 
pombal, o que foi um acidente, no fiz de propsito. E por perder meus livros escolares, isso eu fiz de propsito, e... - Parou, encolhendo os ombros, enquanto eu 
ria mesmo contra minha vontade.
        -- Esse tipo de coisas. Mas geralmente era por abrir a boca quando deveria mant-la fechada.
        Riu diante de uma lembrana.
        - Uma vez minha irm Jenny quebrou um jarro; eu a deixei irritada, caoando dela, ela perdeu o esprito esportivo e atirou o jarro em cima de mim. Quando 
meu pai chegou e quis saber quem fizera aquilo, ela ficou com medo demais para confessar e simplesmente olhou para mim, com os olhos arregalados e assustados. Ela 
tem olhos azuis, como os meus, porm mais bonitos, com pestanas negras ao redor. - Jamie deu de ombros outra vez. -- De qualquer modo, eu disse a meu pai que tinha 
sido eu.
        - Foi muito nobre de sua parte - eu disse, em tom sarcstico. - Sua rirm deve ter ficado agradecida.
        - Ah, sim, teria ficado. S que meu pai estivera o tempo todo do outro lado da porta aberta e vira o que realmente acontecera. Assim, ela levou uma surra 
por perder a calma e quebrar o jarro e eu levei duas surras: uma por caoar dela e outra por mentir.
        - Isso no  justo! - exclamei, indignada.
        - Meu pai nem sempre era amvel, mas geralmente era justo - Jamie disse, imperturbvel. - Disse que a verdade  a verdade e as pessoas deviam assumir responsabilidade 
pelos seus atos, o que est certo. - Lanou-me um olhar de esguelha.
        - Mas disse tambm que fora um ato generoso de minha parte assumir a culpa, portanto, embora tivesse que me punir, eu podia escolher entre ser espancado 
ou ir para a cama sem jantar. - Riu melancolicamente, sacudindo a cabea. - Meu pai me conhecia muito bem. Preferi a surra sem nenhuma dvida.
        - Voc  um apetite ambulante, Jamie - eu disse.
        - Sim - concordou sem rancor. - Sempre fui. Voc tambm, gluto -disse  sua montaria. - Espere um pouco, at pararmos para descansar. -Sacudiu as rdeas, 
puxando o nariz fuador do cavalo dos tentadores tufos de grama  margem da estrada.
        - Sim, meu pai era justo - continuou - e tambm tinha considerao, embora eu certamente no desse o devido valor a isso na poca. Ele no me deixava esperando 
por uma surra. Se eu fazia alguma coisa errada, era punido imediatamente, ou assim que ele descobrisse o que eu fizera. Ele sempre fazia questo que eu soubesse 
por que estava levando uma sova e se eu quisesse dar a minha verso, eu podia.
        Ah, ento  isso que voc est pretendendo, pensei. Seu manipulador, procurando desarmar os nimos. Duvidava que ele pudesse me fazer desistir de minha inteno 
decidida de estrip-lo na primeira oportunidade, mas ele podia tentar.
        - Alguma vez venceu uma discusso? - perguntei.
        - No. Em geral, era um caso sem complicaes, com o acusado condenado por sua prpria boca. Mas s vezes conseguia reduzir um pouco a sentena. - Esfregou 
o nariz.
        - Uma vez eu disse a ele que bater no filho era um mtodo bem pouco civilizado de fazer valer sua vontade. Ele disse que eu tinha tanto bom senso quanto 
o poste a meu lado, se tanto. Disse que respeito pelos mais velhos era um dos pilares do comportamento civilizado e at eu aprender isso, era melhor me acostumar 
a olhar para os dedos dos ps quando um dos meus brbaros mais velhos surrasse o meu traseiro.
        Desta vez, ri com ele. A estrada era tranqila, com aquela espcie de absoluto silncio que ocorre quando estamos a quilmetros de qualquer outra pessoa. 
O tipo de tranqilidade to difcil de encontrar na minha prpria poca superpovoada, quando as mquinas haviam disseminado tanto a influncia do homem, que uma 
nica pessoa podia fazer o barulho de uma multido. Os nicos sons ali eram o farfalhar das plantas, o pio ocasional de um pssaro noturno e as pancadas surdas das 
patas dos cavalos.
        Eu caminhava com um pouco mais de facilidade agora,  medida que meus msculos contrados comearam a relaxar com o exerccio. Meus sentimentos irritadios 
comearam a relaxar, tambm, ouvindo as histrias de Jamie, todas engraadas e autodepreciativas.
        -  claro que eu no gostava de apanhar, mas se tivesse escolha, preferia meu pai ao professor. Na maioria das vezes, na escola, o professor batia nas palmas 
de nossas mos com uma correia com a ponta cortada em tiras, ao invs de bater nas ndegas. Meu pai dizia que se ele batesse na minha mo, eu no poderia fazer nenhum 
trabalho, ao passo que se me batesse no traseiro, ao menos no me sentiria tentado a ficar sentado,  toa.
        - Normalmente, tnhamos um professor diferente a cada ano; no ficavam por muito tempo, em geral viravam fazendeiros ou se mudavam para paragens mais ricas. 
Os professores de escola recebem to pouco, so sempre magros e famintos. Tive um gordo uma vez e nunca acreditei que fosse mesmo professor; parecia um disfarce. 
- Pensei no pequeno e gordo padre Bain e sorri, concordando.
        - Lembro-me especialmente de um, porque ele nos fazia ficar de p diante da turma com a mo estendida e comeava a dar um longo sermo sobre seus erros antes 
de comear e depois entre um golpe e outro. Eu ficava l parado, com a mo estendida, com uma dor lancinante, rezando para que ele parasse a lengalenga e prosseguisse 
logo, antes que eu perdesse a coragem e comeasse a chorar.
        - Imagino que isso  o que ele queria - disse, sentindo certa compaixo, a despeito de mim mesma.
        - Ah, sim - disse com franqueza. - Mas levei algum tempo para perceber isso. E quando percebi, como sempre, no consegui ficar com a boca fechada. - Suspirou.
        - O que aconteceu? - A essa altura, j havia esquecido completamente a minha raiva.
        - Bem, um dia ele me mandou ficar l de p, o que sempre acontecia porque eu no conseguia escrever bem com a mo direita, sempre usava a esquerda. Ele me 
batia trs vezes - levando quase cinco minutos para fazer isso, o filho-da-me - e continuava a me repreender por ser um grosseiro estupido, preguioso e teimoso, 
antes de me bater outra vez. Minha mo ardia insuportavelmente, porque era a segunda vez naquele dia, e eu morria de medo porque sabia que receberia uma terrvel 
surra quando chegasse em casa. Essa era a regra; se apanhasse na escola, recebia outra surra assim que chegava em casa, porque meu pai achava que a educao era 
importante.
        Seja como for, perdi a calma. - A mo esquerda fechou-se involuntariamente em torno das rdeas, como se protegesse a palma sensvel. Parou e olhou para mim.
        - Raramente perco a calma, Sassenach, e em geral me arrependo quando o fao. - E isso, pensei, era o mais prximo de um pedido de desculpas que eu iria conseguir.
        - Arrependeu-se dessa vez?
        - Bem, cerrei os punhos e fitei-o com raiva, - ele era um homem alto, esqueltico, de uns vinte anos, eu acho, embora me parecesse bem mais velho. Ento 
eu disse: "No tenho medo de voc e no vai conseguir me fazer chorar, por mais que me bata!" - Respirou fundo e soltou o ar lentamente. - Acho que foi um erro de 
deciso dizer-lhe isso enquanto ainda segurava a correia.
        - No me diga - comentei. - Ele tentou provar que voc estava errado?
        - Ah, sim, ele tentou. - Jamie balanou a cabea, o rosto escuro contra o cu de nuvens claras. Sua voz soou com uma certa satisfao soturna na palavra 
"tentou".
        - Ento, ele no conseguiu?
        Meneou os cabelos desgrenhados para a frente e para trs.
        - No. Pelo menos no conseguiu me fazer chorar. Mas certamente fez com que eu me arrependesse de no ter ficado com a boca fechada.
        Parou por um instante, virando o rosto para mim. As nuvens haviam se apartado um pouco e o luar tocava os contornos de seu maxilar e de sua face, fazendo-o 
parecer dourado, como um dos arcanjos de Donatello.
        - Quando Dougal estava descrevendo minha personalidade para voc, antes de nos casarmos, por acaso ele mencionou que eu s vezes sou um pouco teimoso? - 
Os olhos puxados brilharam, muito mais como Lcifer do que como Miguel.
        Eu ri.
        - Isso  dizer pouco. Pelo que me lembro, o que ele disse foi que todos os Fraser so teimosos como rochas e que voc  o pior de todos. Na verdade - eu 
disse, um pouco secamente -, eu mesma j havia notado.
        Sorriu, enquanto puxava o cavalo pelas rdeas contornando uma grande poa no meio da estrada e conduzindo o meu pela gamarra atrs dele.
        - Mmmmhum, bem, no diria que Dougal est errado - disse, depois de passado o risco. - Mas se eu sou teimoso, tambm sou honesto. Meu pai tambm era assim 
e de vez em quando nos envolvamos em discusses calorosas, das quais no podamos sair sem o uso da fora, terminando geralmente comigo debruado sobre a cerca.
        De repente, estendeu a mo para agarrar as rdeas do meu cavalo, enquanto o animal recuava e resfolegava.
        - Ei, vamos! Quieto! Stad, mo dhu! - Seu prprio cavalo, menos assustado, somente puxava bruscamente e atirava a cabea para trs, inquieto.
        - O que foi? - No via nada, apesar dos pontos iluminados pelo luar que salpicavam de manchas a estrada e o campo. Havia um bosque de pinheiros adiante e 
os cavalos no pareciam dispostos a se aproximar.
        - No sei. Fique aqui, em silncio. Monte em seu cavalo e segure o meu. Se eu a chamar, solte a gamarra e corra para mim. - A voz de Jamie era baixa e descontrada, 
acalmando a mim e aos cavalos. Com um abafado "Seguir!" para o cavalo e um tapa no pescoo para faz-lo ficar mais perto de mim, desapareceu no meio das urzes, a 
mo na adaga.
        Agucei os olhos e os ouvidos para discernir o que ainda perturbava os cavalos; eles remexiam-se e batiam os cascos, as orelhas e as caudas agitando-se de 
um lado para o outro.
        As nuvens agora haviam se esgarado e se dispersado com o vento da noite, deixando apenas uns poucos rastros na frente de uma brilhante lua crescente. Apesar 
da claridade, eu no conseguia ver nada adiante na estrada ou no bosque ameaador.
        Parecia ser tarde da noite e uma estrada pouco convidativa para assaltantes, j bastante escassos em qualquer lugar das Highlands; havia to poucos viajantes 
que no compensava preparar uma emboscada.
        O bosque era escuro, mas no inerte. Os pinheiros rugiam baixinho para si mesmos, milhes de agulhas roando o vento. rvores muito antigas, os pinheiros, 
e misteriosas nas trevas. Gimnospermas, os pinheiros so rvores conferas, espalhando suas sementes expostas, muito mais antigas e inflexveis do que os carvalhos 
e lamos de folhas macias e galhos frgeis. Um lugar adequado para os fantasmas e espritos malignos de Rupert.
        S voc, disse zangada a mim mesma, conseguiria ficar com medo de um punhado de rvores. Mas onde estaria Jamie?
        A mo que agarrou minha coxa me fez guinchar como um morcego assustado; uma conseqncia natural de tentar gritar com o corao na boca. Com a fria irracional 
dos irracionalmente apavorados, reagi chutando-o no peito.
        - No se aproxime de mim assim sorrateiramente!
        - Silncio - ele disse -, venha comigo. Puxando-me da sela sem a menor cerimnia, colocou-me no cho e apressadamente amarrou os cavalos, que relincharam 
s nossas costas enquanto ele me conduzia para o "mato alto.
        - O que ? - sussurrei, tropeando cegamente em razes e pedras.
        - Silncio. No fale. Olhe para baixo e acompanhe meus ps. Pise onde eu pisar e pare quando eu toc-la.
        Devagar e mais ou menos em silncio, aproximamo-nos no limite do bosque de pinheiros. Estava escuro sob as rvores, apenas migalhas de luz caam na camada 
de agulhas no cho. Nem mesmo Jamie conseguia andar Silenciosamente sobre elas, mas o rudo de agulhas secas perdia-se no dos Verdes acima.
        Havia uma brecha nesta forrao de agulhas, uma enorme massa de granito erguendo-se do cho da floresta. Ali, Jamie colocou-me  sua frente, guiando minhas 
mos e meus ps para escalar o inclinado monte de pedras. No topo, havia espao suficiente para deitarmos de bruos, lado a lado. Jamie aproximou a boca do meu ouvido, 
mal respirando.
        - Nove metros  frente, para a direita. Na clareira. Pode v-los?
        Quando os vi, pude ouvi-los tambm. Lobos, uma pequena matilha, oito ou dez animais, talvez. Nenhum uivo. A presa morta jazia na escurido, um borro negro 
com uma perna para cima, fina e vibrando sob o impacto de dentes dilacerando a carcaa. Ouvia-se apenas um ou outro rosnado ou latido baixo quando um filhote era 
violentamente afastado do pedao de um lobo adulto, os sons alegres de quem se alimenta, mastigando, e o estalido de um osso quebrado.
        Quando meus olhos ficaram mais acostumados  cena salpicada de luar, pude divisar vrias formas peludas estendidas sob as rvores, saciadas e tranqilas. 
Tufos de plos cinzas brilhavam aqui e ali, enquanto os que ainda estavam sobre a carcaa fuavam e escavavam por pedaos mais tenros, negligenciados pelos comensais 
anteriores.
        Uma cabea larga, de olhos amarelos, surgiu de repente numa mancha de luz, as orelhas em p. O lobo fez um barulho urgente, suave, algo entre um lamento 
e um rosnado, e fez-se um silncio repentino sob as rvores abaixo.
        Os olhos de aafro pareciam fixos nos meus. No havia nenhum medo na postura do animal, nem curiosidade, somente um alerta desconfiado. A mo de Jamie nas 
minhas costas alertou-me para no me mexer, embora eu no sentisse nenhuma vontade de correr. Eu poderia ter ficado presa aos olhos da loba - tinha certeza de que 
se tratava de uma fmea, embora no soubesse por qu - durante horas, eu acho, mas ela agitou as orelhas uma vez, como se me descartasse, e inclinou-se novamente 
sobre sua caa.
        Ns os observamos por alguns minutos, pacficos  dispersa luz da lua. Finalmente, Jamie indicou com um toque no meu brao que era hora de partirmos.
        Manteve a mo no meu brao para me apoiar enquanto fazamos nosso caminho de volta pelo meio das rvores at a estrada. Era a primeira vez que eu voluntariamente 
deixava que ele me tocasse desde meu resgate em Fort William. Ainda encantados com a viso dos lobos, no falamos muito, mas comeamos a nos sentir confortveis 
um com o outro novamente.
        Enquanto caminhvamos, considerando as histrias que ele me contara, no pude deixar de admirar o trabalho que fizera. Sem uma palavra de explicao ou desculpa 
direta, transmitira-me a mensagem que queria. Eu lhe dei justia, dizia a mensagem, como fui ensinado. E lhe dei compaixo tambm, at onde pude. Embora no pudesse 
lhe poupar dor e humilhao, lhe ofereo minhas prprias dores e humilhaes para que possa suportar melhor as suas.
        - Voc se importava muito? - perguntei repentinamente. - Quero dizer, de ser espancado. Voc se recobrava rapidamente?
        Apertou minha mo ligeiramente antes de solt-la.
        - Na maioria das vezes eu esquecia tudo to logo terminava. Exceto da ltima vez. Esta levou algum tempo.
        - Por qu?
        - Ah, bem. Para comear, eu tinha dezesseis anos e j era um homem... eu achava. Depois, doeu muito.
        - No precisa me contar se no quiser - eu disse, notando sua hesitao. -  uma histria dolorosa?
        - No to dolorosa quanto o espancamento - disse, rindo. - No, no me importo de contar-lhe. Mas  uma histria longa.
        - Ainda falta muito para chegarmos a Bargrennan.
        -  verdade. Muito bem, ento. Lembra-se que eu lhe disse que passei um ano no Castelo Leoch quando tinha dezesseis anos? Era um acordo entre Colum e meu 
pai, para eu conhecer o cl da minha me. Fui confiado a Dougal por dois anos e depois fui para o castelo por um ano, para aprender boas maneiras, latim e tudo o 
mais.
        - Ah. Eu me perguntava por que voc tinha morado l.
        - Sim, foi por isso. Eu era grande para a minha idade, ou alto pelo menos; j era um bom espadachim naquele tempo e montava melhor do que a maioria.
        - E modesto, tambm.
        - No muito. Convencido como o diabo e at mais rpido com a lngua do que agora.
        - A mente afiada - eu disse, achando graa.
        - Pode ser, Sassenach. Descobri que fazia as pessoas rirem com minhas observaes e as tornei mais freqentes, sem me importar muito com o que estava dizendo, 
ou a quem. s vezes, eu era cruel com os outros rapazes, sem inteno, apenas por no conseguir resistir se atinasse com algo espirituoso para dizer.
        Ergueu os olhos para o cu, para calcular a hora. Estava mais escuro, agora que a lua descera. Reconheci Orion flutuando perto do horizonte e senti-me estranhamente 
reconfortada com a viso familiar.
        -- Ento, um dia eu fui longe demais. Eu estava com dois outros rapazes descendo um corredor, quando vi a sra. FitzGibbons na outra extremidade. Ela carregava 
um cesto grande, quase to grande quanto ela, que ia batendo para a frente e para trs conforme ela andava. Voc sabe como ela  agora; era muito menor na poca. 
- Esfregou o nariz, envergonhado.
        - Bem, fiz uma srie de comentrios deselegantes com relao  sua aparncia. Engraados, mas muito grosseiros. Meus companheiros riram muito. No percebi 
que ela tambm podia me ouvir.
        Lembrei-me da rechonchuda senhora do Castelo Leoch. Embora eu nunca a tivesse visto de mau humor, no parecia ser o tipo de pessoa que pudesse ser insultada 
impunemente.
        - O que ela fez?
        - Nada... na hora. Eu no sabia que ela ouvira, at ela levantar-se no Conselho no dia seguinte e contar a Colum o que acontecera.
        - Ah, meu Deus. - Eu sabia que Colum tinha a sra. Fitz em grande considerao e no achava que ele fosse aceitar facilmente qualquer irreverncia dirigida 
a ela. - O que aconteceu?
        - O mesmo que aconteceu a Laoghaire... ou quase. - Deu uma risadinha.
        - Dei uma de valente e me levantei, dizendo que preferia receber minha surra com os punhos. Estava tentando me manter muito calmo e adulto a respeito de 
tudo aquilo, embora meu corao parecesse um martelo de ferreiro e eu tivesse me sentido um pouco tonto quando olhei as mos de Angus; pareciam de pedra e eram enormes. 
Ouvi algumas risadas das pessoas reunidas no salo. Eu no era to alto na ocasio quanto sou agora e pesava menos da metade. Angus poderia arrancar minha cabea 
com um nico soco.
        - Bem, tanto Colum quanto Dougal franziram a testa para mim, embora eu ache que na verdade ficaram um pouco satisfeitos por eu ter tido a ousadia de pedir. 
Ento, Colum disse no, se eu ia me comportar como criana, tinha que ser punido como tal. Fez um sinal com a cabea e, antes que eu pudesse me mexer, Angus me colocou 
atravessado sobre seus joelhos, levantou a barra do meu kilt e me esfolou com seu cinto, diante de todo o Conselho.
        - Ah, Jamie!
        - Mmmmhum. Deve ter notado que Angus  muito profissional em seu trabalho, no? Ele me deu quinze chicotadas e at hoje eu posso me lembrar exatamente onde 
cada uma bateu. - Estremeceu com a lembrana. - Fiquei com as marcas por uma semana.
        Estendeu o brao e arrancou um mao de agulhas de um pinheiro prximo, espalhando-as como um leque entre o polegar e os dedos. O cheiro de terebintina intensificou-se 
repentinamente.
        - Bem, tambm no permitiram que eu simplesmente sasse discretamente para cuidar dos meus machucados. Quando Angus terminou comigo, Dougal pegou-me pelo 
cangote e me levou para o outro extremo do salo. Ento, fez com que eu percorresse todo o caminho de volta de joelhos no assoalho de pedras. Tive que me ajoelhar 
diante da cadeira de Colum e pedir perdo  sra. Fitz, depois a Colum, depois pedir desculpas a todas as pessoas no salo por minha grosseria e, finalmente, tive 
que agradecer a Angus pelo castigo. Quase me engasguei nessa hora, mas ele foi muito benevolente; estendeu a mo e me fez levantar. Em seguida, me fizeram sentar 
em um banco perto de Colum e fui ordenado a permanecer ali at o final do Conselho.
        Curvou os ombros como se quisesse se proteger.
        - Foi a pior hora que j passei. Meu rosto pegava fogo, assim como meu traseiro, meus joelhos estavam esfolados e eu no podia olhar seno para os meus ps, 
mas o pior  que estava com uma vontade terrvel de urinar. Quase morri; preferia explodir a me molhar todo diante da multido, depois de tudo que j passara, mas 
foi por pouco. Minha camisa ficou molhada de suor.
        Prendi a vontade de rir.
        - No podia dizer a Colum qual era o problema? - perguntei.
        - Ele sabia perfeitamente bem qual era o problema; como todos os demais no salo, pelo jeito que eu me contorcia no banco. As pessoas faziam apostas se eu 
ia agentar ou no. - Encolheu os ombros.
        - Colum teria me deixado ir, se eu tivesse pedido. Mas, bem, eu era teimoso. - Riu um pouco timidamente, os dentes brancos no rosto escuro. - Preferia morrer 
a pedir e quase morri mesmo. Quando finalmente Colum disse que eu podia ir, consegui sair do salo, mas s at a porta mais prxima. Atirei-me atrs da parede e 
esguichei um verdadeiro rio; achei que nunca mais ia parar.
        Ele espalmou as mos num gesto de autodepreciao, deixando cair o mao de agulhas de pinheiro. - Agora voc sabe qual foi a pior coisa que j me aconteceu.
        No pude me conter; ri at ter que me sentar na beira da estrada. Jamie esperou pacientemente por um minuto, em seguida deixou-se cair de joelhos.
        - Por que est rindo? - perguntou. - No foi nada engraado. - Mas ele mesmo estava sorrindo.
        Sacudi a cabea, ainda rindo.
        - No, no foi.  uma histria terrvel.  que... posso v-lo sentado l, Mimoso como uma mula, com os maxilares cerrados e soltando fumaa Pelos ouvidos.
        Jamie bufou, mas riu um pouco tambm.
        - Sim. No  fcil ter dezesseis anos, no ?
        -- Ento voc ajudou aquela garota Laoghaire porque teve pena dela -eu disse, quando consegui me recobrar. - Voc sabia como era. Ficou surpreso.
        - Sim, foi o que eu disse.  muito mais fcil levar um soco na cara aos vinte e trs do que levar uma surra de correia no traseiro, em pblico, aos dezesseis 
anos. O orgulho ferido di mais do que qualquer outra coisa e nessa idade  fcil feri-lo.
        - Eu me perguntava por qu. Nunca vira ningum sorrir na expectativa de ser esmurrado na boca.
        - No poderia faz-lo depois.
        - Humm. - Concordei, balanando a cabea. - Pensei... - disse, depois parei, envergonhada.
        - Pensou o qu? Ah, sobre mim e Laoghaire, quer dizer - falou, adivinhando meu pensamento. - Voc, Alec e todo mundo, inclusive Laoghaire. Teria feito o 
mesmo se ela fosse feia. - Cutucou-me nas costelas. - Embora no espere que acredite nisso.
        - Bem, na verdade eu os vi juntos naquele dia na alcova - me defendi - e algum realmente o ensinou a beijar.
        Jamie remexeu os ps na terra, envergonhado. Abaixou a cabea timidamente.
        - Ora, bem, Sassenach, no sou melhor que a maioria dos homens. s vezes, eu tento, mas nem sempre consigo. Sabe aquela passagem de So Paulo, onde ele diz 
que  melhor casar do que arder? Bem, eu estava ardendo muito.
        Ri outra vez, sentindo-me alegre como se eu mesma fosse uma menina de dezesseis anos.
        - Ento, voc se casou comigo - caoei - para evitar a chance de pecar?
        - Sim.  para isso que serve o casamento. Transforma em sacramento coisas que de outro modo voc teria que confessar.
        Desabei outra vez.
        - Ah, Jamie, eu realmente o amo!
        Agora foi a vez de ele rir. Dobrou-se s gargalhadas, em seguida sentou-se na beira da estrada, chiando de tanto rir. Aos poucos, deixou-se cair de costas 
e ficou deitado na grama, ofegante e quase engasgando.
        - Qual  o seu problema, afinal? - perguntei, fitando-o. Finalmente, ele se sentou, limpando os olhos lacrimejantes. Sacudiu a cabea, arfando.
        - Murtagh tinha razo em relao s mulheres. Sassenach, arrisquei minha vida por voc, cometi roubo, incndio criminoso, assalto e assassinato por sua causa. 
Em troca, voc me xingou, insultou minha masculinidade, chutou-me nos testculos e arranhou meu rosto. Depois, bati em voc at quase mat-la e lhe conto todas as 
coisas mais humilhantes que ja me aconteceram e voc diz que me ama. - Colocou a cabea nos joelhos e riu ainda mais. Finalmente, levantou-se e estendeu-me a mo, 
limpando os olhos com a outra.
        - Voc no  muito sensata, Sassenach, mas gosto de voc assim mesmo. Vamos embora.
        Estava ficando tarde - ou cedo, dependendo do ponto de vista, e era necessrio seguir a cavalo, se quisssemos chegar a Bargrennan ao amanhecer. A essa altura, 
eu j estava bastante recuperada para agentar sentar-me na sela, embora os efeitos ainda fossem sentidos.
        Cavalgamos num silncio amistoso por algum tempo. Entregue a meus prprios pensamentos, considerei pela primeira vez com calma o que aconteceria se e quando 
eu conseguisse encontrar o caminho de volta ao crculo de pedras. Coagida a casar-me com ele e dependente dele por necessidade, inegavelmente eu passara a gostar 
muito de Jamie.
        Mais importantes, talvez, eram seus sentimentos em relao a mim. Ligados inicialmente pelas circunstncias, depois por amizade e finalmente por uma paixo 
fsica profunda e surpreendente, ainda assim ele nunca me fizera nenhuma declarao, mesmo informal, sobre seus sentimentos. At agora.
        Ele arriscou a vida por mim. Isso podia ter sido feito em respeito a seus votos matrimoniais; disse que me protegeria at a ltima gota de seu sangue, e 
eu acreditava.
        Emocionei-me mais com os acontecimentos das ltimas vinte e quatro horas, quando repentinamente me confessara suas emoes e vida pessoal, com todos os seus 
defeitos. Se sentisse por mim o que eu achava que sentia, como se sentiria caso eu desaparecesse de repente? Os remanescentes do desconforto fsico retrocederam 
conforme eu me debatia com esses pensamentos inquietantes.
        Estvamos a uns cinco quilmetros de Bargrennan quando Jamie repentinamente quebrou o silncio.
        - Eu no lhe contei como meu pai morreu - disse, de repente.
        - Dougal disse que ele teve um derrame cerebral, quero dizer, uma apoplexia - disse, surpresa. Imaginei que Jamie, tambm a ss com seus pensamentos, acabara 
pensando em seu pai, em conseqncia de nossa conversa anterior, mas no conseguia imaginar o que o levara a esse assunto em particular.
        - Isso mesmo. Mas isso... ele... - Parou, considerando as palavras, depois encolheu os ombros, abandonando a precauo. Respirou fundo e exalou um suspiro. 
- Voc deve ficar sabendo. Tem a ver... com muitas coisas - A estrada neste trecho era larga o suficiente para cavalgarmos confortavelmente lado a lado, desde que 
ficssemos atentos a pedras salientes; a desculpa que eu dera a Dougal sobre o meu cavalo no fora escolhida por acaso.
        - Foi no forte - Jamie disse, escolhendo cuidadosamente seu caminho num trecho ruim da estrada. - Onde estivemos ontem. Onde Randall e seus homens me tiraram 
de Lallybroch. Onde me aoitaram. Dois dias depois da primeira vez, Randall me chamou a seu escritrio. Dois soldados foram me buscar e me levaram da cela at sua 
sala, a mesma onde eu a encontrei; foi por isso que eu sabia aonde ir.
        - Assim que samos, encontrei meu pai no ptio. Ele descobrira para onde haviam me levado e fora ver se podia me libertar de alguma forma ou ao menos ver 
por si mesmo que eu estava bem.
        Jamie cutucou levemente as costelas do cavalo com o salto da bota e estalou a lngua, impelindo-o a andar mais depressa. Ainda no havia nenhum vestgio 
de luz do dia, mas o aspecto da noite mudara. O alvorecer no estava a mais de uma hora de distncia.
        - Eu no havia percebido at v-lo o quanto eu me sentira solitrio l, ou apavorado. Os soldados no permitiram que ficssemos sozinhos, mas me deixaram 
falar com ele. - Engoliu em seco e continuou.
        - Disse-lhe que sentia muito, sobre Jenny, quero dizer, e sobre toda a confuso. Mas ele me mandou calar e me abraou com fora. Perguntou se eu estava muito 
ferido, ele sabia que eu fora aoitado, e eu disse que ficaria bem. Os soldados disseram que tnhamos que ir e ele, ento, apertou meus braos com fora e disse-me 
para lembrar de rezar. Disse que iria me defender, independente do que acontecesse, e que eu devia manter a cabea erguida e tentar no me preocupar. Beijou meu 
rosto e os soldados levaram-me. Foi a ltima vez que eu o vi.
        Sua voz mantinha-se firme, mas um pouco rouca. Eu mesma sentia um n na garganta e o teria tocado se pudesse, mas a estrada se estreitara numa ravina e fui 
forada a ficar atrs dele por um instante. Quando ficamos lado a lado outra vez, ele havia se recobrado.
        - Assim - disse, respirando fundo -, fui ver o capito Randall. Ele mandou os soldados sarem, para que ficssemos sozinhos, e me ofereceu um banco. Disse 
que meu pai oferecera pagamento de fiana pela minha liberdade, mas que a acusao que pesava sobre mim era grave e eu no podia ser libertado sob fiana sem uma 
permisso por escrito do duque de Argyll, em cuja circunscrio nos encontrvamos. Imaginei que era para l que meu pai estava indo, ento, para falar com Argyll.
        - Enquanto isso, Randall continuou, havia a questo do segundo aoite ao qual eu fora sentenciado. - Parou um minuto, como se no soubesse como continuar.
        - Ele... estava estranho, pensei. Muito cordial, mas com alguma inteno subjacente que eu no compreendia. Continuava a me observar, como se esperasse que 
eu fizesse alguma coisa, embora eu continuasse sentado. imvel.
        - Praticamente se desculpou comigo, dizendo que lamentava muito que nosso relacionamento tivesse sido to difcil at o momento e que desejava que as circunstncias 
tivessem sido diferentes, e assim por diante. - Jamie sacudiu a cabea. - No conseguia imaginar sobre o que ele estava falando; dois dias antes, fizera o possvel 
para me matar de chicotadas. Quando finalmente chegou ao ponto, foi bastante brusco.
        - O que ele queria? - perguntei. Jamie olhou para mim, depois desviou o olhar. A escurido escondia suas feies, mas achei que parecia constrangido.
        - A mim - disse, sem rodeios.
        Dei um salto to violento de surpresa, que o cavalo arremessou a cabea para trs e relinchou, em protesto. Jamie estremeceu outra vez.
        - Foi muito claro a respeito. Se eu... ah, se eu me entregasse a ele, cancelaria o segundo aoite. Se no... ento, eu desejaria nunca ter nascido, disse.
        Senti-me enjoada.
        - Eu j estava desejando algo assim - disse, com uma centelha de humor. - Minha barriga ardia como se eu tivesse engolido vidro modo e, se no estivesse 
sentado, meus joelhos teriam batido um no outro.
        - Mas o que... - Minha voz soou rouca. Limpei a garganta e comecei outra vez. - Mas o que voc fez?
        Suspirou.
        - Bem, no vou mentir para voc, Sassenach. Eu considerei a proposta. Minhas costas ainda estavam to em carne viva das primeiras chicotadas que eu mal conseguia 
agentar uma camisa e sentia-me tonto, toda vez que me levantava. A idia de passar por tudo aquilo outra vez, amarrado e impotente, esperando a prxima chicotada... 
- Estremeceu involuntariamente.
        - Eu no fazia realmente nenhuma idia - disse amargamente -, mas achei que ser molestado seria menos doloroso. Muitos homens morrem sob o aoite s vezes, 
Sassenach, e pela expresso no seu rosto, achei que eu seria um deles, se essa fosse a minha escolha. - Suspirou outra vez.
        - Mas... bem, eu ainda podia sentir o beijo do meu pai no meu rosto e Pensei no que ele dissera e... bem, eu simplesmente no poderia fazer aquilo. No parei 
para pensar o que a minha morte significaria para meu Pai - Soltou o ar num riso canhestro, como se achasse alguma coisa levemente divertida. - E depois, alm disso, 
pensei, o sujeito j havia violentado minha irm. No permitiria que acontecesse comigo tambm.
        No achei graa. Podia ver Jack Randall outra vez, sob uma luz nova repugnante. Jamie esfregou a nuca, depois levou a mo ao aro.
        - Assim, reuni o pouco de coragem que me restava e disse no. Tambm disse isso em alto e bom som, chamando-o de todos os nomes obscenos de que pude me lembrar, 
a plenos pulmes.
        Seu rosto se contorceu num esgar.
        - Tive medo de mudar de idia se pensasse muito; quis ter certeza de no haver possibilidade de reconsiderao. Embora eu suponha - acrescentou pensativamente 
- que no exista maneira diplomtica de recusar uma proposta como essa.
        - No - concordei secamente. - Acho que no ficaria satisfeito, no importa como voc falasse.
        - No ficou mesmo. Esbofeteou-me na boca, para me fazer calar. Ca no cho - ainda estava um pouco fraco - e ele ficou parado ao meu lado simplesmente olhando 
para baixo, fitando-me. Tive o bom senso de no tentar me levantar, de modo que fiquei simplesmente cado ali at ele chamar os guardas para me levarem de volta 
para a cela. - Sacudiu a cabea. -Sua expresso permaneceu imutvel; apenas disse quando eu saa: "Vejo voc na sexta-feira", como se tivssemos um encontro marcado 
para discutir negcios ou algo assim.
        Os soldados no levaram Jamie de volta  cela que ele compartilhava com trs outros prisioneiros. Ao invs disso, foi colocado numa solitria, para aguardar 
a sexta-feira sem nenhuma distrao, a no ser a visita diria do mdico da guarnio, que vinha fazer curativos em suas costas.
        - No era um bom mdico -Jamie disse -, mas era um homem bondoso. No segundo dia que ele veio, juntamente com a gordura de ganso e o carvo, levou-me uma 
pequena Bblia que pertencera a um prisioneiro que morrera. Disse que entendia que eu era papista e, quer eu achasse ou no algum conforto na palavra de Deus, ao 
menos poderia comparar minhas provaes com as de J. - Riu.
        - Por estranho que parea, eu realmente encontrei certo conforto. O Senhor tambm teve que suportar o flagelo; e pude refletir que pelo menos eu no seria 
arrastado e crucificado depois. Por outro lado - disse sensatamente - Nosso Senhor tambm no foi forado a ouvir propostas indecentes de Pncio Pilatos.
        Jamie guardara a pequena Bblia. Vasculhou no seu alforje e estendeu-a a mim para que a examinasse. Era um volume surrado, de capa de couro, de cerca de 
doze centmetros de comprimento, impresso em papel to delicado que as pginas eram transparentes. Na folha de rosto, estava escrito ALEXANDER WlLLIAM RODERICK MACGREGOR, 
1733. A tinta estava desbotada e manchada e a capa entortada, como se o livro tivesse se molhado em mais de uma ocasio.
        Revirei o pequeno livro na mo, curiosa. Apesar de pequeno, deve ter sido difcil para ele conserv-lo, pelas viagens e aventuras dos ltimos quatro anos.
        - Eu nunca o vi lendo-o. - Devolvi-lhe o livro.
        - No, no  por isso que o guardo - disse. Enfiou-o de novo no alforje alisando a borda da capa com o polegar ao faz-lo. Deu uns tapinhas no alforje distraidamente.
        - Tenho uma dvida com Alex MacGregor. Pretendo pag-la um dia.
        - De qualquer modo - continuou, voltando  histria -, a sexta-feira finalmente chegou e eu no sei se fiquei triste ou contente. A espera e o medo eram 
quase to piores do que eu imaginava que a dor seria. Mas, quando chegou a hora... - Fez aquele seu gesto habitual de encolher os ombros, soltando a camisa nas costas. 
- Bem, voc viu as cicatrizes. Sabe como foi.
        - S porque Dougal me contou. Disse-me que estava l. Jamie balanou a cabea, confirmando.
        - Sim, ele estava l. E meu pai tambm, embora eu no soubesse disso na poca. No conseguia pensar em nada alm do meu prprio problema.
        - Ah - eu disse devagar -, e seu pai...
        - Mmm. Foi quando aconteceu. Alguns dos homens l me disseram depois que acharam que eu estava morto, ou quase, e acho que meu pai pensou o mesmo. - Hesitou 
e sua voz estava rouca quando continuou. -Quando ca, segundo Dougal me contou, meu pai emitiu um pequeno som e levou a mo  cabea. Em seguida, caiu como uma pedra. 
E no se levantou mais.
        Os pssaros agitavam-se nas urzes, trinando e chamando das folhas ainda escuras das rvores. A cabea de Jamie estava baixa, o rosto ainda invisvel.
        - Eu no sabia que ele estava morto - disse em voz baixa. - S me contaram um ms depois, quando acharam que eu j estava forte o suficiente para suportar 
a notcia. Assim, eu no o enterrei, como um filho deveria ter feito. E nunca vi seu tmulo, porque tenho medo de voltar para casa.
        - Jamie - eu disse. - Ah, Jamie, querido.
        Aps o que pareceu um longo silncio, eu disse:
        - Mas voc no pode, no deve, se sentir responsvel. Jamie, no havia nada que voc pudesse ter feito; ou feito de modo diferente.
        - No? - disse. - No, talvez no; embora eu pense se isso teria acontecido se eu tivesse feito outra escolha. Mas isso no altera muito o modo como me sinto, 
e eu sinto como se o tivesse matado com minhas prprias mos.
        - Jamie - repeti, e parei, sentindo-me impotente. Ele continuou em Silncio por alguns instantes, depois se empertigou e ergueu os ombros outra vez.
        - Nunca contei isso a ningum - disse subitamente. - Mas achei que agora voc deveria saber, quero dizer, sobre Randall. Tem o direito de saber o que existe 
entre ele e mim.
        O que existe entre ele e mim. A vida de um homem de bem, a honra de uma jovem e um desejo lascivo e imoral que encontrava seu escape no sangue e no medo. 
E pensei, com um aperto no estmago, que agora havia mais um item na balana. Eu. Pela primeira vez, comecei a compreender o que Jamie sentira, agachado na janela 
da sala de Randall, com uma arma descarregada nas mos. E comecei a perdo-lo pelo que me fizera.
        Como se lesse meus pensamentos, disse, sem me olhar.
        - Voc sabe... quero dizer, pode entender, talvez, por que achei necessrio bater em voc?
        Esperei um instante antes de responder. Eu compreendia, sim, mas isso no era tudo.
        - Compreendo - disse. - E no que diz respeito a isso, eu o perdo. O que eu no posso perdoar - disse, a voz erguendo-se levemente a despeito de mim mesma 
-  o fato de voc ter se divertido!
        Ele inclinou-se para a frente na sela, agarrando-se ao aro, e desatou a rir. Alegrou-se com a liberao da tenso antes de finalmente atirar a cabea para 
trs e virar-se para mim. O cu estava bem mais claro agora e eu podia ver seu rosto, marcado pelo cansao, pela tenso e pelo jbilo. Os arranhes em sua face estavam 
negros  luz turva.
        - Me diverti! Sassenach - disse, ofegante -, voc no sabe o quanto eu me diverti. Voc estava to... Meu Deus, voc estava linda. Eu estava com tanta raiva 
e voc lutou to bravamente. Eu odiava machuc-la, mas ao mesmo tempo queria continuar... Meu Deus - disse, interrompendo-se e assoando o nariz. - Sim, eu me diverti.
        - Embora, falando nisso - continuou -, voc tenha que me dar crdito por ter exercitado a moderao do meu mpeto.
        Comecei a ficar com raiva de novo. Podia sentir meu rosto afogueado na brisa fresca do alvorecer.
        - Exercitado a moderao do seu mpeto, hein? Tive a impresso que o que voc estava exercitando era o seu brao esquerdo bom. Voc quase me aleijou, seu 
escocs arrogante, filho-da-me!
        - Se eu quisesse aleij-la, Sassenach, voc saberia - retorquiu secamente. - Estou falando de depois. Eu dormi no cho, se voc se lembra.
        Fitei-o com os olhos apertados, bufando.
        - Ah, ento foi essa a moderao, no ?
        - Bem, no achei direito copular com voc naquele estado, por mais que desejasse. E eu desejava ardentemente - acrescentou, rindo outra vez-- Uma presso 
terrvel nos meus instintos naturais.
        - Copular comigo? - repeti, distrada pela expresso.
        - No poderia chamar isso de "fazer amor" naquelas circunstncias, no ?
        - Seja como for que chame a isso - eu disse sem me alterar -, ainda bem que no tentou ou agora estaria sentindo falta de algumas partes valiosas de sua 
anatomia.
        - Esse pensamento me ocorreu.
        - E se acha que merece elogios por ter to nobremente se contido de no cometer estupro em seguida a uma agresso...- engasguei-me de raiva.
        Cavalgamos uns oitocentos metros em silncio. Ento, ele soltou um suspiro.
        - Vejo que no devia ter comeado esta conversa. O que eu estava tentando fazer era dar um jeito de lhe perguntar se me permitiria compartilhar sua cama 
outra vez, quando chegarmos a Bargrennan. - Parou, envergonhado. -  meio frio no cho.
        Cavalguei por uns bons cinco minutos antes de responder. Quando resolvi o que iria dizer, puxei as rdeas do cavalo, atravessando-o na estrada, para forar 
Jamie a parar tambm. Bargrennan estava  vista, os telhados das casas apenas visveis na aurora.
        Fiz meu cavalo ficar paralelo ao dele, de modo que eu no ficasse a mais de trinta centmetros de Jamie. Fitei-o diretamente nos olhos por um minuto antes 
de responder.
        - Me dar a honra de compartilhar minha cama, Oh senhor e mestre? - perguntei formalmente.
        Obviamente suspeitando de alguma coisa, meditou um instante, depois assentiu, igualmente formal:
        - Sim. Obrigado.
        Erguia as rdeas para partir, quando eu o detive.
        - S uma coisa, senhor - eu disse, ainda formalmente.
        -Sim?
        Tirei a mo num gesto rpido do bolso oculto de minha saia e a luz da alvorada lanou fascas da lmina da adaga pressionada contra o seu peito.
        - Se - eu disse entre dentes cerrados - voc algum dia erguer a mo para mim outra vez, James Fraser, vou arrancar seu corao e frit-lo para o desjejum!
        Fez-se um longo silncio, quebrado apenas pelos movimentos e rangidos dos cavalos e dos arreios. Ento, ele estendeu a mo, a palma para cima.
        - Me d isso. - Quando hesitei, ele disse impacientemente: - No vou us-la em voc. Me d isso!
        Segurou a adaga pela lmina, para cima, de modo que o sol nascente atingisse a pedra-da-lua no cabo e a fizesse brilhar. Segurando a adaga como um crucifixo, 
recitou alguma coisa em galico. Reconheci as palavras da cerimnia de juramento no salo de Colum, mas ele as seguiu com a traduo em ingls para meu proveito:
        - Juro sobre a cruz de meu Senhor Jesus e pelo ferro sagrado que empunho, que lhe dou minha fidelidade e lhe juro lealdade. Se algum dia minha mo for erguida 
contra voc, por raiva ou rebeldia, peo que este metal sagrado possa perfurar meu corao. - Beijou a adaga na juno entre o cabo e a lmina e devolveu-a a mim.
        - No fao ameaas vs, Sassenach - disse, erguendo uma das sobrancelhas. - E tambm no fao promessas fteis. Agora, podemos ir para a cama?
        
        
        
        
23 - RETORNO A LEEOCH
        
        Dougal nos aguardava sob o letreiro do Javali Vermelho, andando impacientemente de um lado para o outro do lado de fora.
        - Conseguiu chegar, hein? - perguntou, observando com aprovao que eu desmontava sem ajuda, apenas cambaleando um pouco. - Rapariga corajosa! Quinze quilmetros 
sem um gemido. V para a sua cama, ento; voc merece. Jamie e eu vamos levar os cavalos para a estrebaria. - Deu um tapinha de leve no meu quadril, despachando-me. 
Fiquei feliz com sua sugesto e peguei no sono antes de minha cabea tocar o travesseiro.
        No me mexi quando Jamie entrou na cama ao meu lado, mas acordei de repente no final da tarde, convencida de que havia algo importante que eu esquecera.
        - Horrocks! - exclamei repentinamente, sentando-me ereta na cama com um salto.
        - Hah? - Jamie, arrancado de um sono profundo, arremessou-se pelo lado da cama, terminando agachado no cho, a mo na adaga que havia deixado em cima das 
suas roupas empilhadas. - O qu? - perguntou, olhando assustado  sua volta. - O que foi?
        Reprimi um risinho ao v-lo, agachado e nu no cho, os cabelos rui-vos arrepiados.
        - Voc est parecendo um porco-espinho enfurecido - eu disse. Lanou-me um olhar maligno e levantou-se, recolocando a adaga no banco onde estavam suas roupas.
        - No podia esperar at eu acordar para me dizer isso? - indagou. - Achou que causaria mais impresso se me acordasse de um sono profundo gritando no meu 
ouvido?
        - No gritei - expliquei. - Eu disse "Horrocks". Lembrei-me de repente que havia me esquecido de lhe perguntar sobre ele. Voc encontrou-se com ele?
        Sentou-se na cama e enfiou a cabea nas mos. Esfregou o rosto vigorosamente, como se quisesse restabelecer a circulao.
        -- Ah, sim - respondeu, com a voz abafada pelos dedos. - Sim, eu o encontrei.
        Pude perceber pelo tom de voz que as informaes do desertor no tinham sido boas.
        - Ele no lhe contou nada, afinal? - perguntei, interessada. Essa sempre fora uma possibilidade, embora Jamie tivesse ido preparado para abrir mo no s 
de seu prprio dinheiro e de algum fornecido por Dougal e Colum, mas at mesmo do anel de seu pai, se necessrio.
        Jamie deitou-se na cama ao meu lado, fitando o teto.
        - No - disse. - No, ele contou, sim. E a um preo razovel. Rolei na cama, ficando apoiada em um cotovelo, a fim de olhar seu rosto.
        - Bem, e ento? - perguntei. - Quem realmente atirou no sargento-mor?
        Ergueu os olhos para mim e sorriu, um pouco amargamente.
        - Randall - respondeu, fechando os olhos.
        - Randall? - repeti, estupefata. - Mas por qu?
        - No sei - ele disse, os olhos ainda fechados. - Posso imaginar, eu acho, mas no importa muito. No h a menor chance de prov-lo.
        Eu tinha que concordar que isso era verdade. Deixei-me cair novamente na cama ao seu lado e fitei as escuras vigas de carvalho do teto baixo.
        - O que pode fazer, ento? - perguntei. - Ir para a Frana? Ou talvez... - uma idia brilhante me ocorreu - para a Amrica? Voc poderia se sair bem no Novo 
Mundo.
        - Atravessar o oceano? - Um estremecimento percorreu seu corpo. -No. No, eu no poderia fazer isso.
        - Bem, ento o qu? - perguntei, virando a cabea para olhar para ele. Abriu um olho o suficiente para me lanar um olhar enviesado.
        - Tinha pensado, para comear, que poderia dormir mais uma hora -disse -, mas tudo indica que no. - Resignado, ergueu-se na cama, recostando-se contra a 
parede. Estava cansada demais para tirar as roupas de cama antes de me deitar e havia uma mancha escura suspeita na colcha perto de seu joelho. Mantive um olhar 
desconfiado sobre ela enquanto ele falava.
        - Voc tem razo - ele concordou -, podamos ir para a Frana. -Levei um susto, tendo momentaneamente me esquecido de que, qualquer que fosse a deciso que 
ele tomasse, eu agora estava includa.
        - Mas no h muita coisa para mim l - ele disse, coando a coxa distraidamente. - Somente servir no exrcito e essa vida no  para voc. Ou para Roma, 
para me unir  corte do rei Jaime. Isso poderia ser conseguido; tenho alguns tios e primos Fraser com um p naquele acampamento, que me ajudariam. No gosto muito 
de poltica e menos ainda de prncipes, mas, sim,  uma possibilidade. No entanto, prefiro tentar limpar meu nome na Esccia primeiro. Se conseguir, posso, na pior 
das hipteses, acabar como um pequeno rendeiro nas terras dos Fraser; na melhor das hipteses, talvez possa voltar a Lallybroch. - Seu rosto se anuviou e percebi 
que estava pensando na irm. - Se dependesse de mim, eu no iria, mas agora no posso mais pensar apenas em mim.
        Olhou para mim e sorriu, a mo acariciando meus cabelos.
        - s vezes, me esqueo de que h voc agora, Sassenach - disse.
        Senti-me extremamente contrafeita. Na verdade, sentia-me uma traidora. Ali estava ele, fazendo planos que afetariam sua vida inteira, levando em considerao 
minha segurana e bem-estar, enquanto eu estivera fazendo todo o possvel para abandon-lo por completo, arrastando-o para uma situao de extremo perigo. No tivera 
nenhuma dessas intenes, mas o fato permanecia. Mesmo agora, estava pensando que devia tentar convenc-lo a no ir para a Frana, j que isso me levaria para mais 
longe do meu prprio objetivo: o crculo de pedras.
        - Mas h alguma maneira de permanecer na Esccia? - perguntei, desviando o olhar. Achei que a mancha escura na colcha havia se movido, mas no tinha certeza. 
Olhei para ela fixamente.
        A mo de Jamie viajara pelos meus cabelos e agora comeava a afagar meu pescoo suavemente.
        - Sim - respondeu pensativamente. - Pode ser.  por isso que Dougal esperou por mim; ele tem novidades.
        -  mesmo? De que tipo? - Virei a cabea para olhar para ele outra vez; o movimento levou minha orelha ao alcance de seus dedos e ele comeou a acarici-la, 
dando-me vontade de arquear o pescoo e ronro-nar como uma gata. Mas reprimi o impulso, para descobrir o que ele pretendia fazer.
        - Um mensageiro de Colum - disse. - No pensava em nos encontrar aqui, mas cruzou com Dougal no caminho por acaso. Dougal deve voltar imediatamente a Leoch 
e deixar que Ned Gowan lide com o resto dos aluguis. Dougal sugeriu que voltssemos com ele.
        - Voltar para Leoch? - No era a Frana, mas no era muito melhor. -Por qu?
        - Esto  espera de uma visita em breve, um nobre ingls que j fez negcios com Colum antes.  um homem poderoso e talvez possa ser persuadido a fazer alguma 
coisa por mim. No fui processado ou condenado por assassinato. Talvez consiga que essa acusao seja retirada ou consiga um perdo para mim. - Deu um sorriso enviesado. 
- Me aborrece ser perdoado por algo que no fiz, mas  melhor do que ser enforcado.
        - Sim,  verdade. - A mancha estava se mexendo. Apertei os olhos, tentando focaliz-la. - Quem  o nobre ingls?
        - O duque de Sandringham.
        Dei um salto, sentando-me ereta na cama, com uma exclamao.
        - O que foi, Sassenach? - Jamie perguntou, alarmado.
        Apontei um dedo trmulo para a mancha negra, que agora subia pela sua perna a um passo lento, mas determinado.
        - O que  isso?! - perguntei.
        Ele olhou para o ponto negro e despreocupadamente o arremessou longe com um piparote.
        - Ah, isso?  apenas um percevejo, Sassenach. Nada para...
        Foi interrompido pela minha abrupta sada.  palavra "percevejo", sa disparada de baixo das cobertas e fiquei de p contra a parede,o mais distante possvel 
do fervilhante ninho de insetos pestilentos que eu agora considerava a nossa cama.
        Jamie olhou-me de modo apreciativo.
        - Porco-espinho enfurecido, hein? - perguntou. Inclinou a cabea, examinando-me de maneira inquisitiva. - Mmm - disse, passando a mo pela cabea para alisar 
seus prprios cabelos. - Ao menos, enfurecido. Voc tambm parece uma coisinha bem penugenta quando acorda. - Rolou na cama em minha direo, estendendo a mo para 
mim.
        - Venha c, meu algodozinho-do-campo. No vamos partir antes do pr-do-sol. E se no vamos dormir...
        Por fim, realmente dormimos um pouco mais, tranqilamentte abraados no assoalho, em cima de uma cama dura, mas sem insetos composta do meu manto de viagem 
e do kilt de Jamie.
        Foi bom termos dormido enquanto podamos. Ansioso para chegar ao Castelo Leoch antes do duque de Sandringham, Dougal manteve um passo apressado e uma programao 
extenuante. Viajando sem as carroas, fazamos um tempo muito melhor, apesar das ms condies das estradas. Entretanto, Dougal nos apressava, parando apenas para 
um mnino de descanso.
        Quando atravessamos novamente os portes do Castelo Leoch, estvamos quase to sujos quanto da primeira vez que chegramos ali e sem dvida igualmente cansados.
        Apeei do meu cavalo no ptio, mas tive que me segurar no estribo para no cair. Jamie segurou-me pelo brao, depois percebendo qie eu no conseguia ficar 
em p, pegou-me no colo. Atravessou a arcada comigo nos braos, deixando os cavalos aos cuidados dos cavalarios e dos cocheiros.
        - Est com fome, Sassenach? - perguntou, parando no corredor. As cozinhas ficavam em uma direo, as escadas para os quartos de dormir na outra. Gemi, esforando-me 
para manter os olhos abertos. Eu estava com fome, mas sabia que ia acabar de cara na sopa se tentasse comer antes de dormir.
        Houve um burburinho em um dos lados e eu sonolentamente abri os olhos para ver a figura macia da sra. FitzGibbons, assomando ao nosso lado, incrdula.
        - O que houve com a pobre criana? - perguntou a Jamie. - Ela sofreu algum acidente?
        - No, apenas ela se casou comigo - ele disse -, embora possa chamar isso de acidente, se quiser. - Afastou-se para o lado, para abrir caminho em meio a 
uma crescente multido de ajudantes das cozinhas, cavalarios, cozinheiros, jardineiros, soldados e diversos outros tipos de habitantes do castelo, todos curiosos, 
atrados para a cena pelas exclamaes em voz alta da sra. Fitz.
        Tomando uma deciso, Jamie forou o caminho para a direita, em direo s escadas, dando explicaes desconexas  avalanche de perguntas que vinham de todos 
os lados. Piscando como uma coruja contra seu peito, eu no conseguia fazer nada mais do que balanar a cabea para todas aquelas pessoas que nos acolhiam com boas-vindas, 
embora a maioria dos rostos parecesse tanto amistosa quanto curiosa.
        Quando dobramos uma esquina do corredor, vi um rosto que me pareceu bem mais amistoso do que o resto. Era a jovem Laoghaire, o rosto brilhando e radiante 
ao ouvir a voz de Jamie. Entretanto, ao ver o que ele carregava, seus olhos se arregalaram e a boca rosada se abriu, pasma.
        Mas no houve tempo para ela fazer perguntas, antes do rebulio e da comoo  nossa volta estancar repentinamente. Jamie parou tambm. Erguendo a cabea, 
vi Colum, cujo rosto espantado estava agora na altura do meu.
        - O que... - ele comeou.
        - Eles se casaram - disse a sra. FitzGibbons, radiante. - Que lindo! Pode lhes dar sua bno, senhor, enquanto eu apronto um quarto. -Virou-se e saiu apressada 
em direo s escadas, deixando uma lacuna substancial na multido, atravs da qual pude ver o rosto agora branco como cera da jovem Laoghaire.
        Colum e Jamie falavam ao mesmo tempo, perguntas e explicaes colidindo no ar. Eu estava comeando a acordar, embora fosse exagero afirmar que tivesse pleno 
domnio das minhas faculdades.
        - Bem - Colum dizia, no de forma totalmente aprovadora -, se voc se casou, est casado. Tenho que falar com Dougal e Ned Gowan. H questes legais que 
precisam ser providenciadas. Voc adquire alguns direitos ao se casar, pelos termos do contrato de dote da sua me.
        Senti Jamie retesar-se um pouco.
        -J que mencionou isso - disse casualmente -, creio que seja verdade. E uma das coisas a que tenho direito  a uma parte dos aluguis trimestrais das terras 
dos MacKenzie. Dougal trouxe o que coletamos at aqui; poderia dizer a ele para separar minha cota quando acertar as contas? Agora, se me der licena, tio, minha 
mulher est cansada. - E erguendo-me numa posio mais firme, virou-se em direo s escadas.
        Cambaleei pelo quarto, ainda com as pernas trpegas, e desabei com grande satisfao na enorme cama de dossel que nossa nova condio de recm-casados aparentemente 
nos dava direito. Era macia, convidativa e -graas  sempre vigilante sra. Fitz - limpa. Imaginei se valeria a pena o esforo de levantar-me e lavar o rosto antes 
de sucumbir  necessidade premente de dormir.
        J havia praticamente decidido que s deveria acordar ao som da Trombeta de Gabriel, quando vi que Jamie, que no s havia lavado o rosto e as mos, como 
penteado os cabelos tambm, dirigia-se para a porta.
        - No vai dormir? - perguntei. Achei que estivesse ao menos to cansado quanto eu, ainda que menos dolorido da sela.
        - Daqui a pouco, Sassenach. Tenho algo a resolver primeiro. - Saiu, deixando-me olhando espantada para a porta de carvalho com uma sensao muito desagradvel 
na boca do estmago. Lembrei-me do olhar de alegre expectativa no rosto de Laoghaire quando surgiu no corredor, ao ouvir a voz de Jamie, e o olhar de espanto e raiva 
que o substituiu quando me viu aninhada em seus braos. Lembrei-me da rigidez momentnea nas juntas dele ao v-la e desejei fervorosamente poder ver a expresso 
do seu rosto naquele momento. Achei que era provvel que ele tivesse sado agora, sem descansar, mas limpo e penteado, para ir ao encontro da jovem e contar-lhe 
sobre seu casamento. Se ao menos tivesse visto o rosto dele na ocasio, agora eu teria uma idia do que ele pretendia dizer-lhe.
        Absorta nos acontecimentos do ltimo ms, eu me esquecera inteiramente da jovem - e do que ela poderia representar para Jamie, ou ele para ela.  verdade, 
eu pensara nela quando a questo de nosso sbito casamento foi levantada e Jamie no dera nenhuma demonstrao de que ela constitusse um impedimento no que lhe 
dizia respeito.
        Mas,  claro, se o pai dela no iria permitir que se casasse com um fora-da-lei - e se Jamie precisava de uma mulher, a fim de receber sua parte dos aluguis 
dos MacKenzie... bem, nesse caso, qualquer mulher serviria e, sem dvida, ele pegaria a que pudesse. Achava que conhecia Jamie o suficiente agora para saber que 
o pragmatismo era uma caracterstica marcante do seu carter - como era de se esperar em um homem que passara os ltimos cinco anos de sua vida fugindo. Ele no 
deixaria suas decises serem abaladas, pensei, por sentimentos ou pela atrao de faces lisas como ptalas de rosa e cabelos como ouro lquido. Mas isso no significava 
que no existisse sentimento ou atrao.
        Houve, afinal, a pequena cena que eu presenciara na alcova, Jamie segurando a garota nos joelhos e beijando-a ardentemente. (J tive outras mulheres em meus 
braos antes, sua voz veio-me  lembrana, e faziam meu corao bater com fora e minha respirao faltar...) Vi que minhas mos estavam cerradas, agarrando e enrugando 
a colcha verde e amarela. Soltei-a e limpei as mos na saia, ao perceber o quanto estavam sujas, imundas com a sujeira de dois dias segurando as rdeas, sem nenhum 
descanso para lav-las.
        Levantei-me e me dirigi  bacia, esquecendo o cansao. Descobri, um pouco para minha surpresa, que detestava a lembrana de Jamie beijando Laoghaire. Lembrava-me 
do que ele dissera a respeito disso tambm, " melhor se casar do que ficar ardendo e eu estava ardendo muito". Eu mesma estava ardendo um pouco agora, o rosto vermelho 
e quente ao me lembrar dos efeitos dos beijos de Jamie nos meus prprios lbios. Ardendo, sem dvida.
        Joguei gua no rosto, respingando tudo  minha volta, para tentar dissipar a sensao. Eu no tinha direitos sobre os sentimentos de Jamie, lembrei a mim 
mesma com firmeza. Eu me casara com ele por necessidade. E ele se casara comigo por suas prprias razes, uma delas o seu desejo francamente declarado de alterar 
sua condio de virgem.
        Aparentemente, uma outra razo era o fato de que ele precisava de uma mulher a fim de receber sua renda e no podia induzir uma jovem do seu meio a se casar 
com ele. Uma razo bem menos lisonjeira do que a primeira, e igualmente arrogante.
        Totalmente acordada, troquei devagar minhas roupas sujas da viagem por uma camisola limpa, providenciada,  claro, assim como a bacia e o jarro d'gua, pelas 
ajudantes da sra. FitzGibbons. Como ela conseguira preparar acomodaes para dois recm-casados no espao de tempo entre a brusca declarao de Jamie a Colum e o 
momento em que subimos as escadas era um dos mistrios que atravessam os sculos. A sra. Fitz, pensei, teria se sado muito bem se fosse encarregada do Waldorf-Astoria 
ou do London Ritz.
        Tais pensamentos deixaram-me repentinamente mais saudosa do meu prprio mundo do que j me sentira em muitos dias. O que estou fazendo aqui?, perguntei a 
mim mesma pela milionsima vez. Aqui, neste lugar estranho, a distncias intransponveis de tudo que me era familiar, da minha casa, do meu marido, dos meus amigos, 
perdida e sozinha entre gente que no passava de selvagens? Comeara a me sentir segura e at mesmo feliz de vez em quando nas ltimas semanas com Jamie. Mas agora 
percebia que a felicidade provavelmente era uma iluso, ainda que a segurana no fosse.
        Tinha certeza de que ele cumpriria o que julgava suas responsabilidades e continuaria a me proteger de qualquer ameaa. Mas aqui, de volta do Rolamento irreal 
dos dias passados entre colinas e estradas de terra, hospedarias imundas e fragrantes montes de feno, ele certamente deveria sentir a frao de seus antigos relacionamentos, 
como eu sentia dos meus. havamos ficado muito prximos um do outro no ms de nosso casamento, mas eu sentira essa proximidade quebrar-se sob as tenses dos ltimos 
dias e achava que agora poderia estilhaar-se completamente, de volta s realidades prticas da vida no Castelo Leoch.
        Recostei a cabea na pedra do batente da janela, fitando o ptio. Alec MacMahon e dois dos seus auxiliares na estrebaria podiam ser vistos no extremo oposto, 
escovando os cavalos que usramos. Os animais, depois de comer e beber adequadamente pela primeira vez em dois dias, irradiavam satisfao enquanto mos cuidadosas 
esfregavam os flancos brilhantes e limpavam a poeira dos jarretes e machinhos com feixes de palha torcida e amarrada. Um cavalario levou meu pequeno e gordo cavalo, 
que o seguiu feliz para o merecido descanso em sua estrebaria.
        E com ele, pensei, foram minhas esperanas de qualquer fuga iminente e retorno ao meu prprio lugar. Ah, Frank. Fechei os olhos, deixando uma lgrima escorrer 
pelo canto do nariz. Mas arregalei os olhos para o ptio em seguida, pisquei e fechei-os com fora, tentando freneticamente lembrar-me das feies de Frank. Apenas 
por um instante, quando fechei os olhos, no vi meu amado marido, mas seu ancestral, Jack Randall, os lbios cheios curvados em um sorriso sarcstico. E afastando-me 
mentalmente dessa imagem, minha mente no mesmo instante evocou um retrato de Jamie, o rosto paralisado pelo medo e pela raiva, como eu o vira na janela do escritrio 
particular de Randall. Por mais que tentasse, no conseguia trazer de volta  lembrana a imagem clara de Frank.
        Senti-me de repente enregelada de pnico e agarrei os cotovelos com as mos. E se eu tivesse conseguido escapar e achado o caminho de volta para o crculo 
de pedras?, pensei. O que aconteceria? Jamie, eu esperava, logo encontraria consolo - com Laoghaire, talvez. Antes, eu me preocupara com sua reao ao descobrir 
que eu fora embora. Mas fora aquele rpido momento de arrependimento na beira do riacho, no me ocorrera at ento considerar como eu me sentiria ao me separar dele.
        Fiquei remexendo na fita que franzia a gola da minha camisola, amarrando-a e desamarrando-a. Se eu pretendia ir embora, como pretendia, no estava fazendo 
nenhum favor a ns dois ao permitir que a ligao entre ns se fortalecesse ainda mais. No deveria permitir que ele se apaixonasse por mim.
        Se ele tivesse essa inteno, pensei, lembrando-me mais uma vez de Laoghaire e da conversa com Colum. Se ele se casara comigo to a sangue-frio como parecia, 
talvez suas emoes fossem mais seguras do que as minhas.
        Entre fadiga, fome, decepo e incerteza, eu conseguira a esta altura reduzir-me a um estado de confuso sofrimento que nem conseguia dormir nem ficar quieta. 
Ao invs disso, fiquei andando pelo quarto sentindo-me infeliz, pegando objetos e colocando-os de volta aleatoriamente.
        A corrente de vento da porta que se abriu arruinou o delicado equilbrio do pente que eu estivera tentando manter em p, anunciando a volta de Jamie. Estava 
ligeiramente ruborizado e estranhamente animado.
        - Ah, est acordada - disse, obviamente surpreso e desconcertado de me encontrar assim.
        - Sim. Esperava que eu estivesse dormindo para poder voltar para ela? Cerrou as sobrancelhas por um instante, depois as ergueu com um ar inquiridor:
        - Ela? Para Laoghaire, voc quer dizer?
        Ouvindo seu nome pronunciado naquela descontrada cadncia das Highlands - "Lheer" - de repente me deixou irracionalmente furiosa.
        - Ah, ento voc esteve mesmo com ela! - esbravejei.
        Jamie olhou-me intrigado e desconfiado, alm de ligeiramente aborrecido.
        - Sim - disse. - Encontrei-a perto da escada quando sa. Voc est bem, Sassenach? Parece um pouco perturbada. - Fitou-me de forma avaliadora. Peguei o espelho 
e descobri que meus cabelos pareciam uma juba desgrenhada em torno da minha cabea e havia olheiras escuras sob meus olhos. Coloquei-o de volta no lugar com um estampido.
        - No, estou perfeitamente bem - disse, fazendo esforo para me controlar. - E a Laoghaire, como vai? - perguntei, fingindo descontrao.
        - Ah, bem bonita - respondeu. Recostou-se na porta, os braos cruzados, olhando-me especulativamente. - Um pouco surpresa de saber que havamos nos casado, 
eu acho.
        - Bonita - repeti, respirando fundo. Ergui os olhos para v-lo rindo para mim.
        - Voc no ficou preocupada por causa da garota, no , Sassenach? - perguntou, astutamente. - Ela no significa nada para voc. Ou para mim - acrescentou.
        - Ah, no? Ela no quis, ou no pde, se casar com voc. Voc precisava de algum, assim ficou comigo quando a oportunidade surgiu. No o culpo por isso, 
mas eu...
        Ele atravessou o quarto em duas largas passadas e tomou minhas mos, interrompendo-me. Colocou um dedo sob meu queixo, forando-me a encar-lo.
        - Claire - disse, sem se alterar -, eu lhe contarei no momento oportuno por que me casei com voc, ou no. Eu lhe pedi honestidade e tenho lhe dado o mesmo. 
E  o que lhe dou agora. A garota no pode me pedir nada alm de cortesia. - Apertou meu queixo de leve. - Mas isso ela pode exigir e eu lhe concederei isso. - Soltou 
meu queixo e deu umas pancadi-nhas de leve nele. - Voc me ouviu, Sassenach?
        - Ah, ouvi, sim! - Soltei-me com um safano, esfregando o queixo com raiva. - E tenho certeza de que ser muito gentil com ela. Mas da Prxima vez, fecha 
as cortinas da alcova. Eu no quero ver.
        As sobrancelhas acobreadas ergueram-se subitamente e seu rosto ficou ligeiramente ruborizado.
        - Est insinuando que eu a tra? - perguntou, incrdulo. - Chegamos de volta ao castelo h menos de uma hora, estou coberto com o suor e a poeira de dois 
dias na sela, to cansado que meus joelhos tremem e, mesmo assim, voc acha que sa daqui diretamente para seduzir uma menina de dezesseis anos? - Sacudiu a cabea, 
estupefato. - No sei se voc est elogiando minha virilidade, Sassenach, ou insultando meus valores morais, mas no gosto de nenhuma das duas hipteses. Murtagh 
me avisou que as mulheres eram insensatas, mas pelo amor de Deus! - Passou a mo grande pelos cabelos, fazendo as mechas curtas ficarem incrivelmente espetadas.
        -  claro que no estou dizendo que acho que voc andou seduzindo-a - eu disse, lutando para injetar um tom calmo na voz. - Tudo que quero dizer... - Ocorreu-me 
que Frank lidara com esse tipo de situao de uma forma muito mais elegante do que eu estava conseguindo e ainda assim eu tambm ficara furiosa na ocasio. Parecia 
no haver nenhuma maneira apropriada de sugerir tal possibilidade a um companheiro.
        - Quero dizer simplesmente que... que sei que voc se casou comigo por suas prprias razes e essas razes no so da minha conta e - acrescentei apressadamente 
- que eu no tenho nenhum direito sobre voc. Voc tem plena liberdade de agir da maneira como achar melhor. Se voc... se sentir alguma outra atrao... quero dizer... 
no vou ficar no seu caminho - terminei desajeitadamente. O sangue fervia no meu rosto e podia sentir minhas orelhas ardendo.
        Erguendo os olhos, vi que as orelhas de Jamie ardiam tambm, visivelmente, assim como todo o resto do pescoo para cima. At seus olhos, vermelhos pela falta 
de dormir, pareciam flamejar um pouco.
        - Nenhum direito sobre mim! - exclamou. - E o que voc acha que um voto de casamento significa? Apenas palavras numa igreja? - Seu punho cerrado desceu sobre 
a cmoda com um murro to forte que sacudiu o jarro de porcelana. - Nenhum direito - murmurou, como se falasse consigo mesmo. - Liberdade para agir como achar melhor. 
E no vai ficar no meu caminho?!
        Agachou-se para tirar as botas, em seguida agarrou-as e atirou-as, uma depois da outra, com toda a fora contra a parede. Encolhi-me quando cada uma delas 
bateu na parede e caiu no cho. Arrancou o xale de xadrez e atirou-o para trs. Depois, veio em minha direo, com os olhos chispando.
        - Ento, voc no tem nenhum direito sobre mim, Sassenach. Me deixa livre para ter prazer onde eu quiser,  assim? Bem,  assim? - perguntou.
        - H, bem, sim - eu disse, dando um passo para trs a despeito de min mesma. - Foi o que quis dizer. - Ele agarrou-me pelos braos e descobri que a combusto 
espalhara-se para as suas mos tambm. Suas palmas calejadas estavam to quentes na minha pele que dei um salto involuntariamente.
        - Bem, se no tem nenhum direito sobre mim, Sassenach, eu tenho um sobre voc! Venha c. - Tomou meu rosto entre as mos e colou a boca na minha. No havia 
nada de gentil ou pouco exigente naquele beijo e eu lutei contra ele, tentando me livrar.
        Ele inclinou-se, pegou-me com um dos braos por baixo dos meus joelhos, ignorando meus esforos para descer. Eu no me dera conta do quanto ele realmente 
era forte.
        - Solte-me! - eu disse. - O que acha que est fazendo?
        - Bem, pensei que isso estivesse bem claro, Sassenach - disse, entre dentes. Abaixou a cabea, seu olhar claro penetrando-me como ferro em brasa. - Mas se 
quiser que eu diga, pretendo lev-la para a cama. Agora. E mant-la ali at aprender exatamente qual o direito que tenho sobre voc. - E beijou-me de novo, com fora, 
cortando meus protestos.
        - Eu no quero dormir com voc! - eu disse, quando finalmente libertou minha boca.
        - No pretendo dormir, Sassenach - retorquiu sem se alterar. - Ainda no. - Alcanou a cama e colocou-me cuidadosamente na colcha decorada com desenhos de 
rosas.
        - Sabe muito bem o que quero dizer! - Rolei na cama, pretendendo escapar pelo outro lado, mas fui interrompida por um aperto firme no meu ombro que me virou 
de frente para ele. - Tambm no quero fazer amor com voc!
        Os olhos azuis lanavam fascas  queima-roupa e minha respirao ficou presa na garganta.
        - No perguntei sua opinio no assunto, Sassenach - respondeu, a voz perigosamente baixa. - Voc  minha mulher, como j lhe disse vrias vezes. Se no queria 
se casar comigo, assim mesmo escolheu se casar. E se no notou na ocasio, sua parte do protocolo inclua a palavra "obedecer". Voc  minha mulher e se eu a quiser, 
mulher, eu a possuirei e dane-se! -Sua voz foi se elevando enquanto falava, at estar quase gritando.
        Ergui-me nos joelhos, os punhos cerrados junto aos lados do corpo e gritei em resposta. A angstia contida da ltima hora atingira o ponto de exploso e 
no me contive, sem maiores consideraes.
        - Eu  que quero que se dane se vou deixar que me tenha, seu porco nojento! Acha que pode me obrigar a ir para a cama com voc? Me usar como uma prostituta 
quando tiver vontade? Bem, no pode, seu filho-da-me desgraado! Foda-se! Faa isso e vai se igualar ao seu capito Randall!
        Fitou-me espantado por um instante, em seguida levantou-se bruscamente.
        - Ento deixe pra l - disse, sacudindo a cabea em direo  porta. -Se  o que pensa de mim, v! No vou impedi-la.
        Hesitei por um instante, observando-o. Seus maxilares estavam cerrados de raiva e ele assomava acima de mim como o Colosso de Rodes. Sua raiva desta vez 
estava sob rdea curta, embora estivesse to furioso quanto estivera  beira da estrada perto de Doonesbury. Mas falava a srio. Se eu quisesse ir embora, no iria 
me impedir.
        Ergui o queixo, meus prprios maxilares to cerrados quanto os dele.
        - No - eu disse. - No. Eu no fujo das situaes. E no tenho medo de voc.
        Seu olhar fixou-se na minha garganta, onde minhas veias pulsavam num ritmo frentico.
        - Sim, estou vendo - ele disse. Fitou-me por um longo instante e seu rosto gradualmente relaxou numa expresso de contrariada aquiescncia. Sentou-se na 
cama, mantendo uma boa distncia entre ns, e eu recostei-me cautelosamente. Inspirou vrias vezes antes de falar, o rosto perdendo um pouco o rubor e voltando ao 
seu bronze avermelhado natural.
        - Eu tambm no fujo, Sassenach - disse, com a voz rouca. - Bem, ento, o que "foda-se" quer dizer?
        Minha surpresa deve ter ficado evidente na expresso do meu rosto, porque disse, irritado:
        - Se vai ficar me xingando, isso  uma coisa. Mas no gosto de ser chamado de coisas a que no posso responder. Sei que  um palavro, pela maneira como 
disse, mas o que significa?
        Pega assim desprevenida, eu ri, um pouco trmula.
        - Significa... o que voc estava prestes a fazer comigo.
        Uma das sobrancelhas levantou-se e, a contragosto, pareceu achar graa.
        - Ah, ter relaes sexuais? Ento eu estava certo;  um palavro sujo. E o que  um sdico? Voc me chamou disso no outro dia.
        Reprimi a vontade de rir.
        - , h,  uma pessoa que... que, h, tem prazer sexual com o sofrimento de outra pessoa. - Meu rosto estava vermelho, mas no pude impedir que os cantos 
de minha boca esboassem um sorriso.
        Jamie resmungou um pouco.
        - Bem, voc no foi muito lisonjeira comigo, mas no posso culp-la por suas observaes. - Respirou fundo e recostou-se na cama, abrindo os punhos cerrados. 
Esticou os dedos, depois colocou as mos espalmadas sobre os joelhos e olhou-me diretamente nos olhos.
        - O que , ento? Por que est fazendo isso? A garota? Eu lhe contei a pura verdade neste caso. Mas no  uma questo de prova.  uma questo de voc acreditar 
em mim ou no. Acredita em mim?
        - Sim, acredito em voc - admiti, a contragosto. - Mas no  isso. Ao menos, isso no  tudo - acrescentei, tentando ser honesta. - ... Acho que  ver que 
voc se casou comigo pelo dinheiro que vai ganhar. -Abaixei os olhos, percorrendo os desenhos da colcha com o dedo. - Sei que no tenho nenhum direito de reclamar, 
eu tambm me casei com voc por razes egostas, mas... - Mordi o lbio e engoli em seco para estabilizar minha voz. - Mas tenho um pouco de orgulho tambm, sabe.
        Lancei-lhe um rpido olhar de esguelha e o vi fitando-me com uma expresso de absoluta surpresa.
        - Dinheiro? - perguntou, estupefato.
        - Sim, dinheiro! - exclamei, exaltando-me outra vez, com raiva por ele fingir no saber do que se tratava. - Quando chegamos, voc no perdeu tempo em dizer 
a Colum que estvamos casados e recolher sua parcela dos aluguis dos MacKenzie!
        Olhou-me fixamente por mais uns instantes, a boca abrindo-se gradualmente como se fosse dizer alguma coisa. Em vez disso, comeou a sacudir a cabea devagar 
para a frente e para trs, e depois comeou a rir. Atirou a cabea para trs e soltou uma gargalhada, depois afundou a cabea entre as mos, ainda rindo histericamente. 
Deixei-me cair nos travesseiros, indignada.
        -- Engraado, hein?
        Ainda sacudindo a cabea e respirando com um chiado de vez em quando, levantou-se e colocou as mos na fivela do cinto. Encolhi-me involuntariamente quando 
fez isso e ele percebeu.
        O rosto ainda afogueado com um misto de raiva e riso, olhou para mim totalmente exasperado.
        - No - disse secamente -, no pretendo bater em voc. Eu lhe dei minha palavra que jamais faria isso de novo, embora no achasse que fosse me arrepender 
to depressa. - Colocou o cinto de lado, procurando alguma coisa dentro da bolsa presa a ele.
        - Minha parte nos aluguis dos MacKenzie no passa de cerca de vinte libras por trimestre, Sassenach - disse, vasculhando entre as miudezas dentro da bolsa 
de pele de texugo. - E em libras escocesas, no inglesas. Cerca de metade do preo de uma vaca.
        - S... s isso? - perguntei, envergonhada. - Mas...
        - S isso - confirmou. - E  tudo que eu conseguirei dos MacKenzie. Deve ter notado que Dougal  um homem econmico e Colum  duas vezes mais po-duro com 
seu dinheiro. Mas, a meu ver, no vale a pena se casar nem mesmo pela soma principesca de vinte libras por trimestre -disse com ironia, fitando-me.
        - Na verdade, eu no teria cobrado isso to bruscamente - acrescentou, mostrando um pequeno embrulho de papel - se no fosse porque eu queria comprar uma 
coisa com ele. Foi isso que eu fui fazer. Encontrar Laoghaire foi um acaso.
        - E o que voc tanto queria comprar? - perguntei, desconfiada. Suspirou e hesitou por um instante, depois jogou o pequeno embrulho no meu colo.
        - Uma aliana de casamento, Sassenach - disse. - Comprei-a de Ewen, o encarregado da manuteno das armas; ele faz objetos assim nas horas livres.
        - Oh - exclamei, a voz quase sumida.
        - Vamos - ele disse, pouco depois. - Abra.  sua.
        Os contornos do pequeno embrulho enevoaram-se nos meus dedos. Pisquei e funguei, mas no fiz nenhum movimento para abri-lo.
        - Sinto muito - eu disse.
        - Bem, deve mesmo sentir, Sassenach - ele disse, mas sua voz no estava mais com raiva. Estendendo o brao, pegou o pacote do meu colo e rasgou o invlucro, 
revelando uma larga aliana de prata, decorada no estilo entrelaado das Highlands, uma pequena flor de cardo jacobita gravada no centro de cada enlace.
        Foi o que consegui ver, depois meus olhos se turvaram outra vez. Vi um leno enfiado em minha mo e fiz o possvel para estancar o fluxo de lgrimas com 
ele.
        - ... lindo - eu disse, limpando a garganta e enxugando os olhos.
        - Vai us-lo, Claire? - Sua voz era suave agora e ao pronunciar meu nome, fato especialmente reservado para ocasies formais ou ternas, quase irrompi em 
lgrimas outra vez.
        - No precisa - ele disse, olhando-me com seriedade, a aliana na palma da mo. - O contrato de casamento entre ns  vlido,  legal. Voc est protegida, 
a salvo de quase tudo, exceto de uma ordem de priso, e at mesmo disso, desde que esteja no Castelo Leoch. Se quiser, podemos viver separados, se  isso que est 
querendo dizer com toda essa bobagem sobre Laoghaire. No precisa ter quase nada a ver comigo, se essa for a sua escolha. - Sentou-se imvel, aguardando, segurando 
o pequeno aro junto ao corao.
        Portanto, ele estava me dando o direito de escolher, o mesmo que eu fizera com ele antes. Imposto a mim pelas circunstncias, no iria mais se impor  fora, 
se eu preferisse rejeit-lo. E havia a alternativa,  claro: aceitar o anel e tudo que ele representava.
        O sol estava se pondo. Os ltimos raios de luz brilhavam atravs do garrafo de vidro azul sobre a mesa, lanando listras de um azul cintilante na parede. 
Senti-me to frgil e to brilhante quanto o vidro, como se fosse estilhaar-me com um leve toque e cair em fragmentos reluzentes pelo cho. Se eu pretendia poupar 
os sentimentos de Jamie e os meus prprios, parecia que j era tarde demais.
        No conseguia falar, mas estendi minha mo direita para ele, os dedos trmulos. O anel deslizou frio e brilhante pelo n do meu dedo e ajustou-se comodamente 
na base - um ajuste perfeito. Jamie segurou minha mo por um instante, olhando-a, depois repentinamente pressionou meus dedos contra os lbios. Levantou a cabea 
e vi seu rosto por um instante, forte e ansioso, antes de puxar-me bruscamente para seu colo.
        Abraou-me com fora, sem falar, e pude sentir os batimentos do corao em sua garganta, martelando como o meu prprio. Suas mos deslizaram para meus ombros 
nus e afastaram um pouco, de modo que eu erguesse os olhos para seu rosto. Suas mos eram grandes e quentes, e eu me senti ligeiramente tonta.
        - Eu a quero, Claire - disse, com a voz embargada. Parou por um instante, como se no soubesse o que dizer em seguida. - Eu a quero tanto que mal consigo 
respirar. Voc... - Ele engoliu em seco, depois limpou a garganta. - Voc me aceita?
        Consegui finalmente encontrar minha voz. Chiou e vacilou, mas funcionou.
        - Sim - respondi. - Eu o aceito.
        - Acho... - Comeou e parou. Soltou a fivela do seu kilt, mas em seguida ergueu os olhos para mim, prendendo as mos nos lados do corpo. Falou com dificuldade, 
controlando algo to poderoso que suas mos tremiam com o esforo. - Eu no vou... No posso... Claire, no vou conseguir ser delicado agora.
        S tive tempo para balanar a cabea uma vez, compreendendo ou permitindo, antes de puxar-me contra si e de seu peso prender-me na cama.
        Ele no parou para se despir mais. Pude sentir o cheiro da poeira da estrada em sua camisa e o gosto do sol e do suor da viagem em sua pele. Segurou-me, 
os braos estendidos, os pulsos presos. Minha mo roou a parede e senti o leve rudo de uma aliana de casamento repicando contra a pedra. Uma aliana em cada mo, 
uma de ouro, uma de prata. E o metal fino repentinamente pesado como os laos do matrimnio, como se as alianas fossem minsculas algemas, prendendo-me de braos 
abertos, para sempre estendida entre dois postes, mantida em correntes como Prometeu na sua rocha solitria, tendo o amor dividido como o abutre que dilacera meu 
corao.
        Abriu minhas pernas com o joelho e penetrou-me com uma nica estocada que me fez arquejar. Ele emitiu um som que era quase um gemido e agarrou-me com mais 
fora ainda.
        - Voc  minha, mo duinne - sussurrou docemente, pressionando-se nas minhas entranhas. - Somente minha, agora e para sempre. Minha, quer queira ou no. - 
Arqueei meu corpo para ele e inspirei fundo com um dbil "ah" quando ele pressionou ainda mais fundo.
        -- Sim, quero us-la, minha Sassenach - murmurou. - Quero ter voc, possu-la, corpo e alma. - Debati-me ligeiramente e ele pressionou meu corpo para baixo, 
golpeando-me, em pancadas inexorveis, firmes, que atingiam meu tero a cada ataque. - Pretendo faz-la me chamar de
        "Senhor", Sassenach. - Sua voz suave era uma ameaa de vingana pelas agonias dos ltimos minutos. - Pretendo faz-la minha.
        Eu tremia e gemia, minha carne contraindo-se em espasmos diante da presena invasora, demolidora. O movimento continuou, indiferente a tudo, por vrios minutos, 
golpeando-me repetidamente com um impacto entre prazer e dor. Senti-me dissolver, como se eu existisse apenas  beira do ataque, sendo forada ao limite de uma rendio 
total.
        - No! - exclamei, arquejante. - Pare, por favor, est me machucando! - Gotas de suor escorriam pelo seu rosto e pingavam no travesseiro e nos meus seios. 
Nossa carne colidia-se agora com o estalo de um golpe que rapidamente atravessava os limites para a dor. Minhas coxas machucavam-se com a repetio do impacto e 
meus pulsos pareciam estar prestes a quebrar, mas ele se manteve inexorvel.
        - Sim, pea clemncia, Sassenach. Mas no vai ter, ainda no. - Sua respirao era rpida e quente, mas no mostrava nenhum sinal de cansao. Meu corpo inteiro 
sacudia-se em espasmos, as pernas erguendo-se para envolv-lo, tentando conter a sensao.
        Eu podia sentir o tranco de cada estocada no fundo da minha barriga e encolhia-me, mesmo quando meus quadris se erguiam traioeiramente para receb-lo com 
prazer. Ele sentia minha reao e redobrava o ataque, pressionando meus ombros para imobilizar-me sob seu corpo.
        No havia comeo nem fim em minha reao, apenas um tremor convulsivo e contnuo que se elevava ao auge a cada golpe. A persistncia dos golpes era uma pergunta, 
repetida inmeras vezes em minha carne, exigindo minha resposta. Ele empurrou minhas pernas para baixo outra vez e levou-me alm da dor, para a sensao pura, alm 
dos limites da rendio.
        - Sim! - gritei. - Ah, meu Deus, Jamie, sim! - Agarrou meus cabelos e forou minha cabea para trs para olh-lo nos olhos, vibrando com o furioso triunfo.
        - Sim, Sassenach - murmurou, respondendo aos meus movimentos e no s minhas palavras. - Vou cavalg-la! - Suas mos desceram para os meus seios, apertando-os 
e acariciando-os, depois deslizaram para os meus quadris. Todo o seu peso descansava sobre mim agora, quando me agarrou e me levantou para maior penetrao. Eu gritei 
e ele tampou minha boca com a sua, no um beijo, mas outro ataque, forando minha boca a se abrir, machucando meus lbios e raspando meu rosto com a barba espetada. 
Arremessava-se com mais fora e mais rpido, como se quisesse forar minha alma como forava meu corpo. No corpo ou na alma, em algum lugar ele acendeu uma centelha 
e uma fria de paixo e necessidade brotou em resposta das cinzas da rendio. Comecei a arquear meu corpo a cada golpe, ao encontro do seu. Mordi seu lbio e senti 
o gosto de sangue.
        Senti seus dentes no meu pescoo e enfiei as unhas nas suas costas. Arranhei-o da nuca s ndegas, fazendo-o erguer-se e gritar por sua vez.
        Atacamo-nos ferozmente numa nsia desesperada, mordendo e arranhando, tentando arrancar sangue, um tentando puxar o outro para dentro de si, dilacerando 
a carne um do outro no desejo calcinante de ser um s. Meu grito misturou-se ao dele e nos perdemos finalmente um no outro naquele ltimo instante de dissoluo 
e concluso.
        S voltei a mim mesma muito devagar, parcialmente deitada no peito de Jamie, os corpos suados ainda unidos, coxa com coxa. Ele respirava pesadamente, os 
olhos fechados. Podia ouvir seu corao sob meu ouvido, batendo com a lentido sobrenatural e o ritmo vigoroso que se seguem ao clmax.
        Ele sentiu que eu despertava e me puxou para mais perto, como se quisesse preservar por mais um instante a unio que havamos alcanado naqueles ltimos 
segundos de nossa perigosa juno. Enrosquei-me junto a ele, passando os braos ao seu redor.
        Ele abriu os olhos e suspirou, a boca curvando-se num ligeiro sorriso quando seu olhar encontrou-se com o meu. Ergui as sobrancelhas numa pergunta silenciosa.
        - Ah, sim, Sassenach - respondeu, um pouco melancolicamente. - Eu sou seu senhor... e voc  minha senhora. Parece que no posso possuir sua alma sem perder 
a minha. - Virou-me de lado e curvou o corpo em torno do meu. O quarto esfriava com a brisa da tarde que entrava pela janela e ele puxou a colcha sobre ns. Voc 
 muito esperto, rapaz, pensei sonolen-tamente comigo mesma. Frank nunca descobriu como conseguir isso. Adormeci com seus braos trancados com fora ao meu redor 
e sua respirao quente na minha orelha.
        Estava manca e dolorida em todos os msculos quando acordei na manh seguinte. Arrastei os ps at o banheiro particular, depois at a bacia de rosto. Minhas 
vsceras pareciam manteiga batida. Sentia como se tivesse sido surrada com um objeto rombudo, refleti, depois pensei que isso estava bem perto da verdade. O objeto 
rombudo em questo estava visvel quando voltei para a cama, agora parecendo relativamente inofensivo. Seu proprietrio acordou quando me sentei ao seu lado e me 
examinou com algo muito parecido a orgulho masculino.
        -- Parece que foi uma cavalgada e tanto, Sassenach - disse, tocando de leve uma mancha roxa na parte interna da minha coxa. - Um pouco dolorida da sela, 
hein?
        Estreitei os olhos e passei o dedo por uma profunda marca de dentes em seu ombro.
        - Voc tambm parece um pouco esfarrapado, meu caro.
        - Ah, bem - ele disse com pesado sotaque escocs -, se voc se deita com uma vbora, espera ser mordido. - Estendeu a mo e agarrou-me pela nuca, puxando-me 
para ele. - Venha pra c, vbora. Me morda mais.
        - Ah, no, no ouse - eu disse, recuando. - Eu no poderia, estou muito doda.
        James Fraser no era homem de aceitar um no como resposta.
        - Serei muito delicado - disse, tentando me persuadir e arrastando-me inexoravelmente para baixo da colcha. E ele foi gentil, como somente os homens grandes 
sabem ser, embalando-me como um ovo de codorna, cortejando-me com uma pacincia humilde que reconheci como reparao - e uma delicada insistncia que eu sabia ser 
uma continuao da lio to brutalmente iniciada na noite anterior. Gentil ele seria, repelido no.
        Sacudiu-se em meus braos quando ele mesmo terminou, estremecendo com o esforo para no se mover, para no me machucar com seus movimentos, deixando que 
o momento o dilacerasse.
        Depois, ainda unidos, percorreu as marcas esmaecidas que seus dedos haviam deixado nos meus ombros junto  estrada h dois dias.
        - Desculpe-me por isso, mo duinne - disse, beijando delicadamente cada uma delas. - Eu estava num raro momento de raiva quando fiz essas marcas, mas isso 
no  desculpa.  uma vergonha machucar uma mulher, furioso ou no. No acontecer de novo.
        Ri um pouco ironicamente.
        - Est pedindo desculpas por essas a? E quanto ao resto? Sou uma massa de manchas roxas e de machucados, da cabea aos ps!
        - O qu? - Afastou-se para me olhar judiciosamente. - Bem, por essas eu me desculpei - disse, tocando meus ombros - essas - dando um tapinha no meu traseiro 
- voc mereceu e eu no vou dizer que sinto muito por elas, porque no sinto.
        - E quanto a estas - disse, tocando minhas coxas -, no vou pedir desculpas por elas, tampouco. Voc j revidou o bastante. -Esfregou o ombro, com uma careta. 
- Voc me tirou sangue em pelo menos dois lugares, Sassenach, e minhas costas esto ardendo como o inferno.
        - Bem, deite-se com uma vbora... - eu disse, rindo. - No vai conseguir um pedido de desculpas por isso. - Ele riu e me puxou para cima dele.
        - Eu no disse que queria um pedido de desculpas, disse? Se me lembro bem, o que eu disse foi "Me morda de novo".
        


PARTE IV
UM LEVE SOPRO DE ENXOFRE



24 - SOB O SIGNO DO MAU AGOURO
        
        A comoo causada por nossa repentina chegada e anncio de nosso casamento foi eclipsada quase imediatamente por um acontecimento de maior importncia.
        Estvamos jantando no grande salo no dia seguinte, aceitando os brindes e votos de felicidades oferecidos em nossa homenagem.
        - Buidheachas, mo caraid. - Jamie fez uma elegante mesura ao ltimo a nos brindar e sentou-se em meio aos aplausos cada vez mais espordicos. O banco de 
madeira sacudiu-se sob seu peso e ele fechou os olhos por um instante.
        - Um pouco demais para voc? - sussurrei. Ele suportara o peso dos brindes, acompanhando cada copo esvaziado em nossa homenagem, enquanto eu at agora escapara 
com no mais do que alguns goles simblicos, acompanhados por radiantes sorrisos aos incompreensveis brindes em galico.
        Ele abriu os olhos e olhou para mim, sorrindo.
        - Est dizendo que estou bbado? No, eu poderia beber a noite toda.
        - Praticamente  o que fez - eu disse, olhando para a fileira de garrafas de vinho vazias e jarros de cermica de cerveja dispostos na mesa  nossa frente. 
- Est ficando um pouco tarde. - As velas na mesa de Colum queimavam quase junto aos castiais e a cera derretida brilhava como ouro, a luz marcando os irmos MacKenzie 
com estranhas manchas de sombra e pele brilhando conforme conversavam em voz baixa, inclinados um para o outro. Podiam se juntar  companhia das cabeas de gnomos 
esculpidas que guarneciam a enorme lareira e me perguntei quantas daquelas figuras caricaturadas haviam na verdade sido copiadas das feies arrogantes dos antigos 
senhores MacKenzie - talvez por um escultor com senso de humor... ou com uma forte ligao familiar.
        Jamie espreguiou-se em seu assento, rindo com um certo desconforto.
        - Por outro lado - disse -, minha bexiga vai explodir em mais um ou dois minutos. Volto j. - Colocou as mos sobre o banco e pulou agelmente por cima, desaparecendo 
pela arcada mais baixa.
        Virei minhas atenes para o outro lado, onde Geillis Duncan estava sentada, discretamente bebendo cerveja de uma caneca de prata. Seu marido, Arthur, estava 
sentado na mesa seguinte com Colum, como era apropriado ao procurador fiscal do distrito, mas Geilie insistira em sentar-se ao meu lado, dizendo que no tinha a 
menor vontade de se cansar com conversas masculinas durante todo o jantar.
        Os olhos encovados de Arthur estavam semicerrados, fundos e com bolsas escuras por causa do vinho e do cansao. Apoiava-se pesadamente nos braos, o rosto 
frouxo, ignorando a conversa dos MacKenzie a seu lado. Embora a luz ressaltasse as feies angulosas do chefe do cl e de seu irmo, ela fazia Arthur Duncan parecer 
gordo e doente.
        - Seu marido no parece muito bem - observei. - Seu problema de estmago piorou? - Os sintomas eram um pouco intrigantes; nem exatamente como lcera, pensei, 
nem como cncer - no com toda aquela carne ainda nos ossos. Talvez se tratasse apenas de uma gastrite crnica, como Geilie insistia em dizer.
        Ela lanou um rpido olhar a seu marido antes de se voltar de novo para mim com um muxoxo.
        - Ah, ele est bem - disse. - Pelo menos, no est pior. Mas e quanto ao seu marido?
        - H, o que tem ele? - retruquei cautelosamente.
        Cutucou-me com intimidade nas costelas com um cotovelo um pouco pontudo demais e percebi que tambm havia um bom nmero de garrafas do seu lado da mesa.
        - Bem, o que acha?  to bonito sem roupa quanto  com ela?
        - Hum... - comecei, buscando uma resposta, enquanto ela esticava o pescoo em direo  entrada.
        - E voc alegando que no gostava dele! Espertinha. Metade das garotas do castelo gostaria de arrancar seus cabelos pela raiz. Eu teria cuidado com o que 
como, se eu fosse voc.
        - Com o que eu como? - Olhei desconcertada para o prato de madeira diante de mim, vazio a no ser por uns traos de gordura e uma cebola cozida desprezada.
        - Veneno - sibilou dramaticamente no meu ouvido, deixando escapar um bafo considervel de vapores de conhaque.
        - Bobagem - eu disse, um pouco friamente, afastando-me dela. -Ningum iria querer me envenenar simplesmente porque eu... bem, porque... - Hesitei um pouco 
e ocorreu-me que eu devia ter tomado alguns goles a mais do que imaginara.
        - Ora, francamente, Geilie. Este casamento... eu no o planejei, sabe. Eu no o queria! - Nenhuma mentira nessas palavras. - Foi apenas uma... espcie de... 
arranjo necessrio - eu disse, esperando que a luz das velas escondesse meu rubor.
        - Ah! - ela exclamou cinicamente. - Conheo uma mulher satisfeita na cama. - Olhou em direo  arcada por onde Jamie desaparecera. - E tambm duvido que 
essas mordidas no pescoo do jovem sejam de mosquito.
        - Ergueu uma sobrancelha prateada para mim. - Se foi um acordo de negcios, diria que valeu o seu dinheiro.
        Inclinou-se para junto de mim outra vez e cochichou.
        -  verdade? A respeito dos polegares?
        - Polegares? Geilie, em nome de Deus, do que voc est falando?
        Abaixou os olhos pelo nariz pequeno e reto em direo a mim, franzindo a testa em concentrao. Os belos olhos cinzas estavam ligeiramente fora de foco e 
eu esperava que ela no casse para a frente.
        - Certamente voc sabe do que estou falando, no? Todo mundo sabe! Os polegares de um homem revelam o tamanho do seu pau. Dedos dos ps grandes tambm,  
claro - acrescentou judiciosamente -, mas esses geralmente so mais difceis de julgar, com os sapatos e tudo o mais. Seu filhote de raposa - disse, indicando com 
a cabea a entrada em arco, onde Jamie acabara de surgir - poderia segurar uma abbora de bom tamanho naquelas mos. Ou um traseiro de bom tamanho, hein? - acrescentou, 
cutu-cando-me outra vez.
        - Geillis Duncan, poderia... por favor... calar...-se! - sibilei, o rosto queimando. - Algum pode ouvi-la!
        - Ah, ningum que... - comeou a dizer, mas parou, com o olhar fixo. Jamie passara direto pela nossa mesa, como se no nos tivesse visto. Seu rosto estava 
plido e seus lbios cerrados com firmeza, como se resolvidos a cumprir uma misso desagradvel.
        - O que ele tem? - Geilie perguntou. - Parece o Arthur depois de comer nabo cru.
        - No sei. - Empurrei o banco para trs, hesitando. Ele dirigia-se  mesa de Colum. Deveria segui-lo? Obviamente, alguma coisa acontecera.
        Geilie, olhando para trs, para o fundo do salo, de repente puxou a manga do meu vestido, apontando na direo de onde Jamie viera.
        Um homem estava parado logo na entrada em arco, hesitante como eu. Suas roupas estavam sujas de lama e poeira; algum viajante. Um mensageiro. E qualquer 
que fosse a mensagem, a passara a Jamie, que neste momento estava inclinado para sussurr-la no ouvido de Colum.
        No, no de Colum. De Dougal. A cabea ruiva inclinou-se entre as duas cabeas negras, as feies belas e largas dos trs rostos assumindo uma semelhana 
sobrenatural  luz das velas agonizantes. E enquanto eu observava, compreendi que a semelhana devia-se no tanto  herana fsica que compartilhavam, mas  expresso 
de choque e pesar que agora tinham em comum.
        A mo de Geilie cravara-se na carne do meu brao.
        - Ms notcias - disse, desnecessariamente.
        - Vinte e quatro anos - eu disse em voz baixa. - Parece um longo tempo para estar casado.
        - Sim,  verdade - Jamie concordou. Um vento morno agitou os galhos da rvore acima de ns, levantando os cabelos dos meus ombros para fazerem ccegas no 
meu rosto. - Mais tempo do que tive de vida.
        Olhei para ele, debruado na cerca do curral, uma figura esbelta e graciosa, de ossos fortes. Eu costumava esquecer o quanto ele realmente era jovem; parecia 
to capaz e seguro de si.
        - Ainda assim - disse, atirando uma palha na lama remexida do cercado -, duvido que Dougal tenha passado mais de trs anos desses vinte e quatro com ela. 
Ele geralmente ficava aqui no castelo, ou por a, pelas terras, cuidando dos negcios de Colum.
        A mulher de Dougal, Maura, morrera em Beannachd, a propriedade deles. Uma febre repentina. O prprio Dougal partira ao amanhecer, na companhia de Ned Gowan 
e do mensageiro que viera dar a notcia na noite anterior, para cuidar do funeral e dispor dos bens de sua mulher.
        - No era um casamento muito ntimo, hein? - perguntei com curiosidade.
        Jamie deu de ombros.
        - To ntimo quanto a maioria, imagino. Ela se ocupava dos filhos e da casa; duvido que sentisse muita falta dele, embora parecesse contente de v-lo quando 
ele voltava para casa.
        - Voc morou com eles por algum tempo, no foi? - Fiquei quieta, pensando. Perguntava-me se essa seria a idia que Jamie fazia de casamento; vidas separadas, 
unidas com pouca freqncia para gerar filhos. No entanto, pelo pouco que ele dissera, o prprio casamento de seus pais fora ntimo e amoroso.
        Com aquele jeito estranho de ler meus pensamentos, ele disse:
        - Era difcil com meus prprios pais, sabe. O casamento de Dougal foi arranjado, como o de Colum, e mais uma questo de terras e negcios do que do desejo 
de um pelo outro. Mas os meus pais... bem, eles se casaram por amor, contra a vontade das duas famlias, e assim ns fomos... no execrados, exatamente; porm, mais 
isolados em Lallybroch. Meus pais no iam visitar parentes ou fazer negcios fora com freqncia e, assim, acho que se voltaram mais um para o outro do que maridos 
e mulheres costumam fazer.
        Colocou a mo na parte baixa das minhas costas e me puxou para ele. Inclinou a cabea e roou os lbios pela minha orelha.
        - Conosco, foi um arranjo - disse meigamente. - Ainda assim, espero... talvez um dia... - Parou, constrangido, com um sorriso enviesado e um gesto de abandono.
        Sem querer encoraj-lo nesta direo, devolvi o sorriso da forma mais neutra possvel e virei-me na direo do curral. Podia senti-lo ali ao meu lado, sem 
realmente me tocar, as mos grandes agarradas  barra mais alta da cerca. Eu mesma agarrei a barra, para no segurar a mo dele. Queria mais do que tudo me virar 
para ele, oferecer-lhe consolo, assegurar-lhe com o corpo e com palavras que o que havia entre ns era mais do que um acordo comercial.
        O que existe entre ns, ele dissera. Quando me deito com voc, quando voc me toca. No, no era absolutamente comum. No era uma simples paixo tampouco, 
como eu pensara a princpio.
        O fato  que eu estava ligada, por votos, por lealdade e pela lei, a outro homem. E tambm por amor.
        Eu no podia, no podia dizer a Jamie o que sentia por ele. Fazer isso e depois ir embora, como devo fazer, seria o pice da crueldade. Tambm no podia 
mentir para ele.
        - Claire. - Ele se voltara para mim, olhava-me diretamente; podia senti-lo. No falei, mas ergui meu rosto para ele enquanto ele se inclinava para me beijar. 
Tambm no podia mentir-lhe dessa forma; e no o fiz. Afinal, pensei vagamente, eu lhe prometera honestidade.
        Fomos interrompidos por um alto "Ah!" atrs da cerca do curral. Jamie, surpreso, girou na direo do som, instintivamente atirando-me para trs dele. Ento, 
parou e riu, vendo o Velho Alec MacMahon ali parado em suas calas de xadrez, justas e imundas, olhando para ns sarcastica-mente com seu nico olho, azul e brilhante.
        O Velho Alec segurava um ameaador par de tesouras de tosquiar, que ergueu numa saudao irnica.
        - Ia usar isso aqui em Mahomet - observou. - Talvez tenha melhor aplicao aqui, hein? - Bateu as lminas convidativamente. - Faria voc manter a cabea 
no trabalho e longe do seu pau, rapaz.
        - Nem brinque com isso, amigo - disse Jamie, rindo. - Estava sentindo minha falta, hein?
        Alec meneou uma das sobrancelhas como uma lagarta peluda.
        - No, o que o faz pensar assim? Achei que eu ia gostar de tentar castrar um puro-sangue de dois anos de idade sozinho, s pelo prazer. - Resfolegou com 
um chiado com seu prprio chiste, depois brandiu a tesoura em direo ao castelo.
        - Fora daqui, dona. Pode ficar com ele na hora do jantar, ou o que restar dele at l.
        Aparentemente no confiando na natureza dessa ltima observao, Jamie estendeu o longo brao e agilmente agarrou a tesoura.
        - Vou me sentir mais seguro se eu ficar com isso - disse, erguendo uma sobrancelha para o Velho Alec. - V, Sassenach. Quando eu terminar de fazer todo o 
trabalho de Alec para ele, irei ao seu encontro.
        Inclinou-se para beijar meu rosto e sussurrou no meu ouvido: -- A estrebaria. Quando o sol estiver a pino.
        A estrebaria do Castelo Leoch era mais bem construda do que muitas das cabanas que eu vira em nossa viagem com Dougal. Com piso e paredes de pedra, as nicas 
aberturas eram as janelas estreitas em uma das extremidades, a porta na outra e as fendas tambm estreitas sob o espesso telhado de colmo, projetadas para abrigar 
as corujas que no deixavam os ratos se proliferarem na palha. Deixavam passar bastante ar e luz suficiente para que a estrebaria ficasse agradavelmente na penumbra, 
e no sombria.
        No palheiro logo abaixo do teto, a luz era ainda melhor, lanando listras amarelas no feno empilhado e iluminando as partculas esvoaantes de poeira como 
chuva de ouro em p. O ar penetrava pelas fissuras em rajadas mornas, denso com o cheiro de madeira cortada, cravinas e alho das hortas e jardins l fora, alm do 
agradvel cheiro dos cavalos que subia do cho.
        Jamie mexeu-se sob a minha mo e sentou-se, o movimento trazendo sua cabea das sombras para o fulgor da luz solar como o acender de uma vela.
        - O que foi? - perguntei sonolentamente, virando a cabea na direo em que ele estava olhando.
        - O pequeno Hamish - disse em voz baixa, espreitando por cima da beirada do palheiro para a estrebaria abaixo. - Quer seu pnei, eu acho.
        Rolei desajeitadamente sobre a barriga, arrastando as dobras da minha camisola por cima de mim por recato; um pensamento tolo, j que ningum l embaixo 
poderia ver mais do que o topo da minha cabea.
        Hamish, o filho de Colum, caminhava devagar pelo corredor central da estrebaria, entre as baias. Parecia hesitar diante de algumas baias, embora ignorasse 
as cabeas castanha e ruiva que o espreitavam. Ele obviamente procurava alguma coisa e no era seu pnei gordo e marrom, placidamente mastigando palha na baia perto 
da porta da estrebaria.
        - Deus do Cu, ele vai pegar Donas! -Jamie pegou seu kilt e enrolou-o apressadamente em volta do corpo, antes de dar uma guinada por cima da borda do palheiro. 
Sem se incomodar com a escada, pendurou-se nas mos e saltou para o cho. Aterrissou facilmente nas pedras semicobertas de palha, mas com um baque suficientemente 
alto para fazer Hamish girar nos calcanhares com uma exclamao de surpresa.
        O pequeno rosto sardento relaxou um pouco ao perceber quem era, mas os olhos azuis continuaram desconfiados.
        - Precisa de ajuda, primo? - Jamie perguntou cordialmente. Aproximou-se das baias e recostou-se em uma das pilastras, conseguindo interpor-se entre Hamish 
e a baia para onde o garoto se dirigia.
        Hamish hesitou, mas depois se empertigou, o pequeno queixo empinado.
        - Vou montar Donas - disse, num tom que tentava ser resoluto, mas que no conseguia de todo.
        Donas - cujo nome significava "demnio", o que de forma alguma pretendia ser um elogio - ficava sozinho num cubculo no outro extremo da cavalaria, por 
segurana separado dos cavalos mais prximos por uma baia vazia. Um garanho cor de canela, enorme e de mau gnio, no se deixava cavalgar por ningum e somente 
o Velho Alec e Jamie ousavam se aproximar dele. Ouviu-se um relincho irritado das sombras de sua baia e uma imensa cabea acobreada surgiu repentinamente, grandes 
dentes amarelos rangendo quando ele fazia uma tentativa v de morder o ombro nu to tentadoramente exibido.
        Jamie permaneceu imvel, sabendo que o garanho no poderia alcan-lo. Hamish deu um salto para trs com um berro, claramente aterrorizado com o aparecimento 
sbito daquela cabea monstruosa e brilhante, com seus olhos revirados e injetados e as narinas abertas.
        - Acho que no - Jamie observou calmamente. Estendeu a mo e segurou o primo pelo ombro, afastando-o do cavalo, que comeou a escoicear sua baia em protesto. 
Hamish estremecia juntamente com as tbuas enquanto os cascos letais golpeavam a madeira.
        Jamie fez o menino virar-se de frente para ele e ficou olhando-o, as mos nos quadris.
        - Bem, vamos ver - disse com firmeza. - O que foi? O que voc quer com Donas?
        O maxilar de Hamish estava cerrado teimosamente, mas o rosto de Jamie era tanto encorajador quanto decidido. Deu um pequeno soco de leve no ombro do garoto, 
obtendo um esboo de sorriso em resposta.
        - Vamos, duine - Jamie disse suavemente. - Voc sabe que no vou contar a ningum. Fez alguma bobagem?
        Um ligeiro rubor aflorou  pele clara do garoto.
        - No. Bem, talvez um pouco.
        Depois de um pouco mais de encorajamento, a histria veio  tona, relutante no comeo, depois num fluxo desordenado de confisso.
        Ele sara em seu pnei, cavalgando com alguns dos outros meninos no dia anterior. Vrios garotos mais velhos comearam a competir, para ver quem conseguia 
fazer seu cavalo pular um obstculo mais alto. Admirando-os com inveja, o bom senso de Hamish finalmente foi vencido Pela bravata e ele tentara forar seu pequeno 
e gordo pnei por cima de Um muro de pedra. No possuindo nem a habilidade nem o interesse, o Pnei empacara diante do obstculo atirando o pequeno Hamish por cima 
de sua cabea, por cima do muro e desonrosamente em cima de uma moita de uirtiga do outro lado. Atormentado tanto pela urtiga quanto pelas vaias dos colegas, Hamish 
estava decidido a sair hoje "num cavalo adequado", como ele disse.
        - No iriam rir se eu aparecesse no Donas - disse, visualizando a cena com implacvel satisfao.
        - No, no iriam rir - Jamie concordou. - Estariam ocupados demais juntando os pedaos.
        Examinou seu primo, sacudindo a cabea devagar.
        - Vou lhe dizer uma coisa, rapaz.  preciso coragem e bom senso para fazer um bom cavaleiro. Voc tem a coragem, mas ainda falta um pouco de bom senso. - 
Passou um brao consolador em torno dos ombros de Hamish, conduzindo-o para o fundo da estrebaria.
        - Venha, rapaz. Ajude-me a juntar o feno e voc ir conhecer Cobhar. Tem razo, voc deve ter um cavalo melhor se estiver pronto, mas no  necessrio se 
matar para provar isso.
        Olhando para cima ao passar pelo palheiro, ergueu as sobrancelhas e encolheu os ombros, desamparado. Sorri e acenei para ele, sinalizando para que fosse 
em frente, que estava tudo bem. Fiquei observando-os, enquanto Jamie pegava uma ma do cesto de frutas cadas das rvores que ficava junto  porta. Pegando um forcado 
do canto, levou Hamish de volta a uma das baias centrais.
        - Aqui, primo - disse, parando. Assobiou brandamente entre os dentes e um cavalo baio de testa larga colocou a cabea para fora, resfolegan-do pelas narinas. 
Os olhos escuros eram grandes e meigos e as orelhas inclinavam-se ligeiramente para a frente, dando ao cavalo uma expresso de amistosa vivacidade.
        - Vamos, Cobhar, ciamar a tha thw -Jamie deu umas pancadinhas leves, mas firmes, no pescoo lustroso do cavalo e coou as orelhas empinadas.
        - Venha at aqui - disse, fazendo sinal para que seu primo se aproximasse. - Isso, perto de mim. Bastante perto para que ele possa sentir seu cheiro. Os 
cavalos gostam de sentir nosso cheiro.
        - Eu sei. - A voz aguda de Hamish era desdenhosa. Ele mal alcanava o focinho do cavalo, mas estendeu a mo e afagou-o. Ficou firme quando a enorme cabea 
do cavalo abaixou-se e ele fungou com interesse em torno de sua orelha, soprando seus cabelos de leve.
        - Me d uma ma - disse a Jamie, que o atendeu. A boca macia e aveludada pegou a fruta delicadamente da mo de Hamish e atirou-a para trs entre os enormes 
molares, onde desapareceu com um rudo suculento. Jamie observava com aprovao.
        - Sim. Vocs vo se dar bem. V em frente, faa amizade com ele, enquanto eu termino de alimentar os outros, depois pode lev-lo para montar.
        - Sozinho? - Hamish perguntou ansiosamente. Cobhar, cujo nome significava "Espuma", era bem-humorado, mas ainda assim um fogoso cavalo castrado de um metro 
e meio de comprimento e muito diferente de seu pnei marrom.
        - Duas voltas em torno do cercado e comigo olhando-o e, se no cair ou puxar sua boca de repente, pode lev-lo sozinho. Mas nada de faz-lo saltar enquanto 
eu no disser. - As longas costas curvaram-se, brilhando na penumbra quente da cavalaria, quando Jamie pegou um feixe de feno com o forcado da pilha que havia em 
um canto e a levou para uma das baias.
        Empertigou-se e sorriu para seu primo.
        - Me d uma daquelas, sim? - Encostou o forcado contra uma das baias e mordeu a fruta oferecida. Os dois ficaram comendo em camaradagem, recostados lado 
a lado na parede da estrebaria. Ao terminar, Jamie deu o miolo da ma a um alazo quejfjnha esfregando o focinho nele e pegou o forcado outra vez. Hamish seguiu-o 
pelo corredor, mastigando devagar.
        - Disseram que meu pai era um bom cavaleiro - Hamish comeou a falar, aps um instante de silncio. - Antes... antes de no poder mais montar.
        Jamie lanou um olhar rpido a seu primo, mas terminou de arremessar feno na baia do alazo antes de falar. Quando o fez, respondeu  idia, mais do que 
s palavras.
        - Eu nunca o vi montar, mas vou lhe dizer, garoto, espero nunca precisar ter tanta coragem quanto Colum tem.
        Vi o olhar de Hamish pousar com curiosidade nas costas marcadas de Jamie, mas ele no disse nada. Depois de uma segunda ma, seus pensamentos pareciam ter 
mudado para outro tpico.
        - Rupert disse que voc teve que se casar - observou, com a boca cheia de ma.
        - Eu quis me casar - Jamie disse com firmeza, recolocando o forcado junto  parede.
        - Ah. Bem... timo - Hamish disse hesitante, como se tivesse ficado desconcertado com essa notcia desconhecida. - S estava pensando... voc se importa?
        - Se importa com o qu? - Vendo que aquela conversa podia levar algum tempo, Jamie sentou-se num fardo de feno.
        Os ps de Hamish no conseguiam alcanar o cho ou ele os teria arrastado. Ao invs disso, batia os calcanhares de leve contra o feno firmemente comprimido.
        - Voc se importa de ser casado? - perguntou, fitando seu primo. - Ir Para a cama toda noite com uma mulher, quero dizer.
        - No -Jamie respondeu. - No, na verdade,  muito bom. Hamish parecia duvidar.
        - No acho que gostaria muito. Mas de qualquer modo todas as garotas que conheo so magricelas como varas de bambu e cheiram a gua de cevada. A dona Claire, 
sua esposa, quero dizer... - acrescentou apressadamente, como se quisesse evitar confuso - ela , h, parece que seria melhor para se deitar. Mais macia, quero 
dizer. Jamie assentiu.
        - Sim, isso  verdade. Tem um cheiro bom, tambm - acrescentou. Mesmo na luz turva, pude ver um pequeno msculo torcendo-se perto do canto de sua boca e 
soube que ele no ousava olhar na direo do palheiro.
        Fez-se um longo silncio.
        - Como voc sabe? - Hamish perguntou.
        - Sabe o qu?
        - Quem  a mulher certa para se casar - o rapaz disse com impacincia.
        - Ah. -Jamie arrastou-se para trs e recostou-se na parede de pedra, as mos atrs da cabea. - Perguntei isso ao meu prprio pai uma vez. Ele disse que 
a gente simplesmente sabe. E se no souber,  porque ela no  a garota certa.
        - Mmmmhum. - No pareceu uma explicao satisfatria, a julgar pela expresso no pequeno rosto sardento. Hamish recostou-se, imitando conscientemente a postura 
de Jamie. Seus ps calados com meias estendiam-se para fora do fardo de feno. Embora pequeno, sua estrutura robusta prometia um dia igualar-se  do seu primo. Os 
ombros largos e retos e a inclinao do crnio gracioso e macio eram quase idnticos.
        - Onde esto seus sapatos? - Jamie perguntou em tom acusador. -Voc no os deixou no pasto outra vez, no ? Sua me vai lhe dar um tapa no ouvido se voc 
os perdeu.
        Hamish encolheu os ombros no dando importncia  ameaa. Sem dvida, havia algo mais importante em sua mente.
        - John - comeou, enrugando as sobrancelhas claras, absorto em pensamentos. -John disse...
        - John o cavalario, John o cozinheiro ou John Cameron? -Jamie perguntou.
        - O cavalario. - Hamish sacudiu a mo, afastando essa distrao. - Ele disse, h, que para casar...
        - Mmm? -Jamie fez um rudo encorajador, mantendo o rosto discretamente desviado para o outro lado. Revirando os olhos para cima, seul olhar encontrou-se 
com o meu, enquanto eu espreitava por cima do palheiro. Abri um amplo sorriso para ele, fazendo com que mordesse o lbio para no rir em resposta.
        Hamish inspirou fundo e soltou o ar de repente, lanando as palavras como uma exploso de chumbos de caa.
        - Ele-disse-que-temos-que-servir-uma-mulher-como-um-garanho-faz-com-uma-gua-e-eu-no-acreditei-mas--verdade?
        Mordi o dedo com fora para no rir alto. No estando to bem localizado, Jamie enfiou os dedos nos msculos da perna, ficando com o rosto to vermelho quanto 
Hamish. Pareciam dois tomates, sentados lado a lado num fardo de feno para serem julgados num concurso de frutas e legumes do condado.
        - H, sim... bem, de certa forma... - disse, com a voz estrangulada. Em seguida, recuperou o autocontrole.
        - Sim - disse com firmeza. -  verdade.
        Hamish lanou um olhar horrorizado para a baia mais prxima, onde o cavalo baio descansava, com mais ou menos uns trinta centmetros de seu aparelho reprodutor 
projetando-se de sua bainha. Olhou em seguida, incrdulo, para seu prprio colo e tive que enfiar um bolo do tecido da minha roupa na boca at onde foi possvel.
        - H uma diferena, sabe - Jamie continuou. A vermelhido comeava a esmaecer em seu rosto, embora ainda houvesse um tremor sinistro em torno de seus lbios. 
- Para comear,  mais... delicado.
        - Ento, voc no as morde no pescoo? - Hamish tinha a expresso sria e concentrada de algum que tomava srias anotaes. - Para fazer com que fiquem 
quietas?
        - H... no. Nem sempre, de qualquer forma. - Exercitando sua nada desprezvel fora de vontade, Jamie resolveu enfrentar corajosamente suas responsabilidades 
de esclarecimento.
        - H uma outra diferena tambm - disse, tendo o cuidado de no levantar os olhos. - Voc pode fazer isso frente a frente, ao invs de por trs. Como a mulher 
preferir.
        - A mulher? - Hamish pareceu em dvida a respeito dessa nova informao. - Acho que eu iria preferir por trs. No acho que iria querer algum olhando para 
mim enquanto eu estivesse fazendo algo assim. E difcil... - perguntou -  difcil no dar risada?
        Ainda estava pensando em Jamie e Hamish quando fui para a cama naquela noite. Puxei as colchas grossas, sorrindo para mim mesma. Senti uma corrente de ar 
frio vindo da janela e aguardava com ansiedade o momento de entrar embaixo das cobertas pesadas e aninhar-me no calor de Jamie. Imune ao frio, parecia carregar uma 
pequena fornalha dentro de si prprio e sua pele era sempre clida; s vezes, quase quente, como se ele queimasse com mais intensidade em resposta ao meu prprio 
toque frio.
        Eu ainda era uma estranha e uma forasteira, porm no mais uma hspede no castelo. Enquanto as mulheres casadas pareciam mais amistosas, agora que eu era 
uma delas, as moas mais jovens pareciam se ressentir do fato de eu ter retirado de circulao um jovem solteiro e disponvel. Na Verdade, observando o nmero de 
olhares glaciais e cochichos disfarados, Perguntava-me quantas das solteiras do castelo haviam achado o caminho de uma alcova isolada com Jamie MacTavish durante 
seu curto perodo de residncia.
        No mais MacTavish,  claro. A maioria dos habitantes do castelo sempre soube quem ele era e, quer eu fosse uma espi inglesa ou no, eu agora tambm conhecia 
a necessidade do nome falso. Assim, ele se tornou Fraser publicamente e eu tambm. Era como a sra. Fraser que eu era recebida no aposento acima das cozinhas onde 
as mulheres casadas costuravam e embalavam seus bebs, trocando experincias e conhecimento, bem como avaliando acintosamente a minha prpria cintura.
        Por causa das minhas dificuldades anteriores em conceber, no considerara a possibilidade de gravidez quando concordei em me casar com Jamie e aguardei com 
certa apreenso at minha menstruao ocorrer na poca. Meus sentimentos desta vez foram de total alvio, sem nada da tristeza que geralmente a acompanhava. Minha 
vida j estava mais do que complicada no momento, sem o acrscimo de um beb. Pensei que Jamie talvez tivesse sentido uma pontinha de pesar, embora tambm ele tenha 
se declarado aliviado. A paternidade era um luxo que um homem em sua posio no podia desfrutar.
        A porta se abriu e ele entrou, ainda esfregando a cabea com uma toalha de linho, a gua pingando de seus cabelos molhados e formando manchas escuras em 
sua camisa.
        - Por onde andou? - perguntei, atnita. Por mais luxuoso que o Leoch pudesse ser em comparao com as residncias da vila e do campo, no possua instalaes 
para banho alm de uma tina de cobre que Colum usava para mergulhar as pernas doloridas e outra um pouco maior usada pelas mulheres que achavam que o trabalho de 
ench-las valia pela privacidade que se obtinha. Qualquer outra limpeza pessoal era feita por partes, usando uma bacia e um jarro d'gua, ou fora, no lago ou numa 
cmara pequena, de cho de pedra, que ficava perto do jardim, onde as jovens costumavam ficar nuas, deixando que suas amigas jogassem baldes de gua sobre elas.
        - No lago - respondeu, pendurando a toalha molhada cuidadosamente no parapeito da janela. - Algum - disse com raiva - deixou a porta da baia aberta, assim 
como a porta da estrebaria tambm e Cobhar foi nadar no fim do dia.
        - Ah, ento foi por isso que voc no apareceu para o jantar. Mas cavalos no gostam de nadar, gostam? - perguntei.
        Ele sacudiu a cabea, passando os dedos pelos cabelos para sec-los.
        - No, no gostam. Mas so como as pessoas, cada um  diferente do outro. E Cobhar gosta dos brotos das plantas aquticas. Ele estava l comendo na beira 
do lago quando um bando de ces da vila apareceu e correu atrs dele, fazendo com que entrasse no lago. Tive que afugent-los e depois entrar no lago para tir-lo 
de l. Espere at eu colocar as mos em Hamish - disse, ameaadoramente. - Vou ensin-lo a no deixar portes abertos.
        - Vai contar a Colum? - perguntei, sentindo uma repentina compaixo pelo acusado.
        Jamie sacudiu a cabea, remexendo na bolsa em sua cintura. Retirou um pozinho e um pedao de queijo, aparentemente roubado da cozinha no caminho para o 
quarto.
        - No - disse. - Colum  muito severo com o garoto. Se soubesse que ele foi to descuidado, no o deixaria montar por um ms. No que pudesse mesmo, depois 
da surra que ia levar. Meu Deus, estou faminto. -Deu uma mordida feroz no po, espalhando farelos.
        - No venha para a cama com isso - eu disse, eu mesma deslizando para baixo das cobertas. - O que pensa fazer com Hamish, ento?
        Engoliu o restante do po e sorriu para mim.
        - No se preocupe. Vou arrast-lo at o lago pouco antes do jantar amanh e atir-lo l dentro. Quando ele conseguir chegar  margem e se secar, o jantar 
j ter acabado. - Terminou o queijo em trs mordidas e lambeu os dedos sem nenhuma cerimnia. - Ele que v para a cama molhado e com fome para ver como  - concluiu 
sombriamente.
        Espreitou esperanosamente na gaveta da escrivaninha onde eu s vezes guardava mas ou outros pequenos pedaos de alimentos. Mas no havia nada ali esta 
noite e ele fechou a gaveta com um suspiro.
        - Acho que consigo sobreviver at o desjejum amanh cedo - disse filosoficamente. Tirou as roupas rapidamente e enfiou-se sob as cobertas, ao meu lado, tremendo. 
Embora as extremidades estivessem frias com seu mergulho no lago gelado, seu corpo ainda estava agradavelmente quente.
        - Hum,  bom ficar aconchegado com voc - murmurou, aninhando-se junto a mim. - Est com um cheiro diferente. Andou mexendo nas plantas hoje?
        - No - eu disse, surpresa. - Achei que fosse voc... quero dizer, o cheiro. - Era um aroma pungente, de ervas, no era desagradvel, mas no era familiar.
        - Eu estou cheirando a peixe - ele observou, cheirando as costas da mo. - E a cavalo molhado. No - aproximou-se ainda mais, cheirando. - No, tambm no 
 voc. Mas  aqui perto.
        Saiu da cama e puxou as colchas, procurando. Ns o encontramos sob meu travesseiro.
        - Que diabos...? - Peguei-o e imediatamente soltei-o. - Ai! Tem espinhos!
        Era um pequeno mao de plantas, arrancadas grosseiramente pelas razes e amarradas com um pedao de fita negra. As plantas estavam murchas, mas um cheiro 
penetrante ainda era exalado pelas folhas cadas. Havia uma flor no buqu, uma prmula esmagada, cujo talo espinhoso havia picado meu dedo.
        Suguei o sangue do dedo ferido, virando o mao com mais cuidado com a outra mo. Jamie permaneceu imvel, fitando-o por um instante. De repente, pegou-o 
e, dirigindo-se  janela aberta, atirou-o na noite. Ao voltar para a cama, limpou vigorosamente a terra que se soltara das razes das plantas, arrastando-a para 
a palma da mo, e atirou-a tambm pela janela, como fizera com o mao de plantas. Fechou a janela com uma pancada forte e voltou, limpando as mos.
        -J se foi - disse, desnecessariamente. Entrou de novo sob as cobertas. - Volte para a cama, Sassenach.
        - O que era aquilo? - perguntei, deitando-me ao seu lado.
        - Uma brincadeira, eu acho - disse. - De mau gosto, mas apenas uma brincadeira. - Ergueu-se em um dos cotovelos e apagou a vela. - Venha c, mo duinne - 
disse. - Estou com frio.
        Apesar do desconcertante mau agouro, dormi bem, segura na proteo dupla da porta trancada e dos braos de Jamie. Quase ao amanhecer, sonhei com campinas 
cobertas de capim e cheias de borboletas. Amarelas, marrons, brancas e cor de laranja, giravam ao meu redor como folhas do outono, pousando na minha cabea e nos 
ombros, deslizando pelo meu corpo como chuva, as patinhas minsculas fazendo ccegas na minha pele e as asas aveludadas batendo como ecos fracos do meu prprio corao.
        Flutuei suavemente para a superfcie da realidade e descobri que as patas das borboletas no meu estmago eram as mechas flamejantes da cabeleira emaranhada, 
macia e ruiva de Jamie, e que a borboleta presa entre minhas coxas era sua lngua.
        - Hum - murmurei, algum tempo depois. - Bem, para mim est tudo bem, mas e quanto a voc?
        - Em menos de um minuto se voc continuar desse jeito - disse, afastando minha mo com um sorriso. - Mas  melhor eu deixar para mais tarde. Sou um homem 
lento e cauteloso por natureza, sabe. Posso pedir o favor de sua companhia esta noite, senhora?
        - Pode - respondi. Coloquei os braos atrs da cabea e fitei-o com um olhar semicerrado e desafiador. - Se estiver querendo me dizer que est to decrpito 
que j no consegue mais de uma vez por dia.
        Olhou-me com os olhos estreitados de onde estava na borda da cama. S vi um lampejo branco quando ele se lanou e me vi pressionada com fora no colcho 
de penas.
        - Sim, bem - ele disse nos cachos do meu cabelo -, no vai dizer que no a avisei.
        Dois minutos e meio depois, ele gemeu e abriu os olhos. Esfregou o rosto e a cabea vigorosamente com ambas as mos, fazendo as mechas mais curtas ficarem 
espetadas como um porco-espinho. Em seguida, uma imprecao galica abafada, deslizou relutantemente para fora dos cobertores e comeou a se vestir, tremendo no 
ar frio da manh.
        - Ser que voc no podia - perguntei esperanosamente - dizer ao Alec que est doente e voltar para a cama?
        Ele riu e inclinou-se para beijar-me antes de tatear embaixo da cama, em busca de suas meias.
        - Poder eu posso, Sassenach, mas duvido que qualquer coisa menos do que varola, a peste ou um grave ferimento serviria como desculpa. Se eu no estivesse 
sangrando, Alec estaria aqui num instante, arrastando-me do meu leito de morte para ajud-lo com os parasitas.
        Olhei para suas pernas longas e elegantes enquanto ele puxava a meia para cima cuidadosamente e dobrava  beirada.
        - Grave ferimento, hein? Eu poderia arranjar alguma coisa nesse sentido - eu disse, ameaadoramente.
        Gemeu ao agachar-se para pegar a outra meia.
        - Bem, cuidado onde voc lana suas flechas mgicas, Sassenach. - Tentou dar uma piscadela maliciosa, mas acabou apenas estreitando os olhos para mim. - 
Se mirar muito para cima no vou servir nem para voc.
        Arqueei uma das sobrancelhas e enfiei-me de novo sob as cobertas.
        - No se preocupe. Nada acima do joelho, prometo.
        Deu uns tapinhas numa das salincias mais volumosas das cobertas e partiu para a estrebaria, cantando um pouco alto demais uma ria de "L em cima, entre 
as urzes". O refro flutuou de volta pelo vo da escada.
        Sentado com uma garota, segurano-a em meus joelhos- Quando uma abelha me picou, bem acima do joeeeelho-L em cima, entre as urzes, na cabeceira do Bendikee!
        Ele tinha razo, pensei: ele realmente no tinha ouvido para msica.
        Relaxei temporariamente num estado de saciada sonolncia, mas levantei logo depois para ir fazer o desjejum. A maioria dos habitantes do castelo j havia 
feito sua refeio matinal e partido para o trabalho; os que ainda estavam no salo saudaram-me com bastante cordialidade. No houve nenhum olhar de esguelha, nenhuma 
expresso de hostilidade velada, de algum imaginando como sua maldosa brincadeira havia funcionado. Mesmo assim, observei os rostos.
        A manh foi passada sozinha nos jardins e nos campos com minha cesta e minha pazinha. Meu estoque de algumas das ervas mais populares estava quase no fim. 
Em geral, o pessoal da vila recorria a Geillis Duncan quando precisava de ajuda, mas ultimamente vrios pacientes da vila tinham aparecido no meu consultrio e o 
trfego de panacias andava intenso, talvez a doena de seu marido estivesse mantendo-a ocupada demais para cuidar de seus clientes regulares.
        Passei o final da tarde no meu consultrio. Havia poucos pacientes; apenas um caso persistente de eczema, um polegar deslocado e um rapaz da cozinha que 
derramara uma panela de sopa quente em uma das pernas. Depois de aplicar uma pomada anestsica e lrio-azul, e de recolocar e en-faixar o polegar, dediquei-me  
tarefa de moer algumas razes duras como pedra em um pequeno almofariz do falecido Beaton.
        Era um trabalho tedioso, mas adequado quela espcie de tarde preguiosa. O tempo estava bom e pude ver sombras azuis estendendo-se por baixo dos olmos a 
oeste quando subi na minha mesa para olhar para fora.
        Do lado de dentro, os frascos de vidro brilhavam em fileiras bem ordenadas, pilhas bem arrumadas de bandagens e compressas nos armrios ao lado. O armrio 
do boticrio fora completamente limpo e desinfetado e agora guardava estoques de folhas secas, razes e cogumelos, cuidadosamente acondicionados em sacos de gaze 
de algodo. Respirei fundo os cheiros penetrantes e condimentados do meu santurio e expirei com um suspiro de satisfao.
        Em seguida, parei de moer as ervas e coloquei o pilo de lado. Eu estava satisfeita, percebi com um choque. Apesar da mirade de incertezas da minha vida 
ali, apesar do aborrecimento do mau agouro, apesar da dor funda e constante da saudade de Frank, eu na realidade no estava infeliz. Muito pelo contrrio.
        Senti-me imediatamente envergonhada e desleal. Como eu podia estar feliz, quando Frank devia estar enlouquecido de preocupao? Presumindo que o tempo de 
fato continuava sem mim - e no via por que no o faria - eu devia estar desaparecida h mais de quatro meses. Eu o imaginava vasculhando a zona rural escocesa, 
chamando a polcia, aguardando algum sinal, alguma palavra minha. A essa altura, ele j devia ter praticamente perdido as esperanas e, em vez disso, devia estar 
aguardando a notcia de que meu corpo fora encontrado.
        Coloquei o almofariz sobre a mesa e fiquei andando para cima e para baixo na minha sala estreita, esfregando as mos no avental em um espasmo de culpa, tristeza 
e arrependimento. Eu devia ter fugido h mais tempo. Devia ter tentado regressar com mais afinco. Mas eu tentei, lembrei a mim mesma. Tentara diversas vezes. E veja 
o que aconteceu.
        Sim, veja. Estava casada com um fora-da-lei escocs, ns dois caados por um sdico capito dos drages e vivendo com um monte de brbaros, que matariam 
Jamie com a mesma rapidez com que olham para ele, se o considerassem uma ameaa  preciosa sucesso do seu cl. E o pior de tudo era o fato de que eu estava feliz.
        Sentei-me, fitando desamparadamente a fileira de frascos e jarros. Eu estava vivendo um dia aps o outro desde nosso retorno a Leoch, deliberadamente eliminando 
as lembranas de minha vida anterior. No fundo, sabia que logo teria que tomar algum tipo de deciso, mas eu a estava adiando, protelando a necessidade de um dia 
para o outro, de uma hora para a outra, enterrando minhas incertezas nos prazeres da companhia de Jamie - e nos seus braos.
        Ouviu-se uma sbita pancada e um palavro no corredor e levantei-me apressadamente, dirigindo-me  porta, a tempo de ver o prprio Jamie entrar aos tropees, 
apoiado pela figura curvada do Velho Alec MacMahon de um lado e dos esforos bem-intencionados, porm magros e espigados, de um dos cavalarios do outro. Deixou-se 
cair no meu banco e estendeu o p esquerdo com uma careta desagradvel. A careta parecia ser mais de aborrecimento do que de dor, de modo que me abaixei para examinar 
o apndice dolorido com relativa preocupao.
        - Um leve estiramento - eu disse, aps uma inspeo rpida. - O que voc fez?
        - Ca - Jamie respondeu laconicamente.
        - Da cerca? - perguntei, provocando-o. Ele ficou vermelho.
        - No. De Donas.
        - Voc estava montando aquele animal? - perguntei incrdula. - Nesse caso, tem sorte de se sair dessa com um tornozelo distendido. - Fui buscar uma atadura 
e comecei a envolver a junta.
        - Bem, no foi to mal assim - disse o Velho Alec sensatamente. - Na verdade, rapaz, voc estava se saindo muito bem com ele por algum tempo.
        - Eu sei que estava - retorquiu Jamie, rangendo os dentes quando eu apertava a bandagem. - Uma abelha picou-o.
        As sobrancelhas cabeludas ergueram-se.
        - Ah, foi isso? O animal agia como se tivesse sido atingido pelo dardo de um elfo - confidenciou-me Alec. - Deu um salto com as quatro patas no ar e desceu, 
depois ficou completamente louco, saltando por todo o cercado como uma abelha numa garrafa. O rapaz continuou agarrado -disse, balanando a cabea em direo a Jamie, 
que inventou uma nova expresso desagradvel em resposta -, at que o enorme demnio amarelo saltou por cima da cerca.
        - Por cima da cerca? Onde ele est agora? - perguntei, levantando-me e limpando as mos.
        -- A caminho do inferno, espero -Jamie disse, colocando o p no cho e experimentando cuidadosamente colocar seu peso sobre ele. - E  bom que fique por 
l. - Contraindo-se, sentou-se novamente.
        - Duvido que o diabo faa uso de um garanho ainda selvagem - Alec observou -, sendo ele prprio capaz de se transformar num cavalo quando necessrio.
        - Talvez Donas seja o prprio demnio - sugeri, divertindo-me.
        - Eu no duvidaria - disse Jamie, ainda sentindo dor, mas comeando a recuperar seu habitual bom humor. - O diabo geralmente  um garanho negro, no ?
        - Ah, sim - disse Alec. - Um grande garanho negro, que viaja rpido como o pensamento entre um homem e uma mulher.
        Riu alegremente para Jamie e levantou-se para ir embora.
        - E por falar nisso - disse, piscando o olho para mim -, no espero voc na estrebaria amanh. Fique na cama, rapaz, e, h... descanse.
        - Por que ser - perguntei, olhando o velho e rabugento chefe da estrebaria - que todo mundo acha que no temos mais nada na cabea alm de irmos para a 
cama?
        Jamie experimentou colocar o peso do corpo sobre o p outra vez, apoiando-se na bancada.
        - Para comear, estamos casados h menos de um ms - observou. -Alm disso - ergueu os olhos e riu, sacudindo a cabea -, j lhe disse antes, Sassenach. 
Tudo que voc pensa fica estampado no seu rosto.
        - Caramba! - esbravejei.
        A exceo de uma passada rpida no consultrio para ver se havia alguma emergncia, a manh seguinte passei atendendo s necessidades um pouco exigentes 
do meu paciente solitrio.
        - Voc devia estar descansando - eu disse em tom reprovador.
        - E estou. Bem, meu tornozelo est descansando, ao menos. Est vendo?
        Uma tbia longa, sem meia, projetou-se no ar e um p esbelto, ossudo, sacudiu-se de um lado para o outro. Parou bruscamente no meio do movimento, com um 
"ai" abafado do seu proprietrio. Abaixou-o e delicadamente massageou o tornozelo ainda inchado.
        - Isso vai ensin-lo - eu disse, girando minhas prprias pernas para fora dos cobertores. - Agora venha comigo. J est criando mofo na cama h bastante 
tempo. Precisa de ar fresco.
        Ele sentou-se, os cabelos caindo no rosto.
        - Pensei que tivesse dito que eu precisava descansar.
        - Pode descansar no ar fresco. Levante-se. Vou arrumar a cama. Entre queixumes sobre minha insensibilidade e falta de considerao por um homem gravemente 
machucado, ele se vestiu e ficou sentado o tempo suficiente para eu amarrar o tornozelo enfraquecido antes de sua exuberncia natural dominar outra vez.
        - Est chovendo - disse, olhando rapidamente pelo postigo da janela, onde o leve chuvisco preparava-se para dar lugar a um grande aguaceiro. - Vamos para 
o telhado.
        - Para o telhado? Ah, sem dvida. No poderia pensar numa recomendao melhor para um tornozelo estirado do que subir seis lances de escada.
        - Cinco. Alm do mais, tenho uma bengala. - Apresentou a bengala em questo, uma clava antiga de pilriteiro, tirando-a de trs da porta com um floreio triunfante.
        - Onde conseguiu isso? - perguntei, examinando-a. De perto, era ainda mais desgastada, uma vara de madeira de lei, de cerca de um metro, machucada em diversos 
lugares e endurecida pelo tempo como um diamante.
        - Alec a emprestou para mim. Ele a usa nas mulas; bate entre os olhos do animal com ela para faz-lo prestar ateno.
        - Parece bem eficaz - eu disse, olhando a madeira gasta. - Talvez eu a experimente algum dia. Em voc.
        Emergimos finalmente em um pequeno local coberto, logo abaixo do ressalto do telhado de ardsia. Um parapeito baixo protegia a borda daquele pequeno mirante.
        - Ah,  lindo! - Apesar do temporal, a vista do telhado era magnfica; Podamos ver a curva larga e prateada do lago e os penhascos elevados mais alm, arremessando-se 
no slido cu cinzento como punhos negros e recortados.
        Jamie apoiou-se no parapeito, tirando o peso de seu p machucado.
        - , sim. Eu costumava vir aqui s vezes, na primeira temporada que passei aqui no castelo.
        Apontou para o outro lado do lago, todo perfurado sob os pingos fortes da chuva.
        - V aquela fenda l, entre aqueles dois penhascos?
        - Nas montanhas? Sim.
        - Aquele  o caminho para Lallybroch. Quando ficava com saudade da minha casa, s vezes vinha at aqui e ficava olhando para l. Imaginava-me voando como 
um corvo atravs daquele desfiladeiro, vendo as montanhas e os campos, descendo do outro lado da serra, a manso no fim do vale.
        Toquei seu brao com ternura. -- Voc quer voltar, Jamie? Virou a cabea e sorriu para mim.
        - Bem, estive pensando nisso. No sei exatamente se quero voltar, mas
        acho que devemos. No sei o que encontraremos l, Sassenach. Mas... sim.
        Estou casado agora. Voc  a dona de Broch Tuarach. Fora-da-lei ou no,
        Eu preciso voltar, ainda que apenas pelo tempo suficiente para ajeitar as coisas.
        Senti uma emoo intensa, composta de alvio e apreenso,  idia de deixar Leoch e suas variadas intrigas. 
        - Quando partiremos?
        Ele franziu a testa, tamborilando os dedos no parapeito. A pedra estava escura e escorregadia com a chuva.
        - Bem, acho que temos que esperar a chegada do duque.  possvel que ele cuide de meu caso como um modo de fazer um favor a Colum. Se ele no conseguir me 
inocentar, talvez consiga um perdo. Ento, haveria bem menos perigo de voltar a Lallybroch.
        - Bem, sim, mas... - Olhou-me incisivamente quando hesitei.
        - O que foi, Sassenach? -- Respirei fundo.
        - Jamie... se eu lhe contar uma coisa, voc promete no me perguntar como eu sei?
        Segurou-me pelos dois braos, olhando-me no rosto. A chuva umedecia seus cabelos e fazia pequenas gotas deslizarem pelos lados de seu rosto. Sorriu para 
mim.
        - Eu lhe disse que no pediria nada que voc no quisesse me contar. Sim, prometo.
        - Vamos nos sentar. Voc no devia ficar de p por tanto tempo. Voltamos para junto da parede onde o ressalto das ardsias do telhado protegia uma pequena 
rea seca do calamento e nos instalamos confortavelmente, as costas apoiadas na parede.
        - Tudo bem, Sassenach. O que ? -Jamie perguntou.
        - O duque de Sandringham - eu disse. Mordi o lbio. - Jamie, no confie nele. Eu no sei tudo sobre ele, mas sei... que existe alguma coisa a respeito dele. 
Alguma coisa errada.
        - Voc sabe disso? - Pareceu surpreso. Foi a minha vez de olh-lo com espanto.
        - Est dizendo que voc j sabe sobre ele? Voc o conhece? - Fiquei aliviada. Talvez as ligaes misteriosas entre Sandringham e a causa jacobita fossem 
bem mais conhecidas do que Frank e o vigrio imaginavam.
        - Ah, sim. Ele esteve aqui, visitando, quando eu tinha dezesseis anos. Quando eu... fui embora.
        - Por que voc foi embora? - Estava curiosa, lembrando-me subitamente do que Geillis Duncan dissera quando a encontrei pela primeira vez no bosque. O estranho 
boato de que Jamie era o verdadeiro pai do filho de Colum, Hamish. Eu sabia que ele no era, no poderia ser - mas provavelmente eu era a nica pessoa no castelo 
que realmente sabia. Uma suspeita desse tipo poderia facilmente ter levado Dougal a atentar contra a vida de Jamie - se de fato isso ocorrera no ataque em Carryarick.
        - No foi por causa de... Letitia, foi? - perguntei com certa hesitao-
        - Letitia? - Seu espanto atemorizado era evidente e algo dentro de mim que eu no sabia que estava apertado de repente relaxou. Eu realmente no acreditava 
que houvesse alguma verdade na suposio de Geilie, mas ainda assim...
        - O que, em nome de Deus, faz voc mencionar Letitia? - Jamie perguntou com curiosidade. - Eu vivi no castelo por um ano e falei com ela uma nica vez pelo 
que me lembro, quando me chamou ao seu quarto e me repreendeu por organizar um jogo de shinty no meio do seu jardim de rosas.
        Contei-lhe o que Geilie dissera e ele riu, o hlito condensando-se no ar frio e chuvoso.
        - Meu Deus - exclamou -, como se eu tivesse a coragem!
        - Voc no acha que Colum possa ter suspeitado de algo assim, acha? - perguntei.
        Ele sacudiu a cabea com determinao.
        - No, no acho, Sassenach. Se ele tivesse a menor suspeita de algo assim, eu no teria sobrevivido at os dezessete anos, quanto mais atingir a idade madura 
de vinte e trs.
        Isso mais ou menos confirmava minha prpria impresso de Colum, mas fiquei aliviada mesmo assim. A expresso de Jamie tornara-se pensativa, os olhos azuis 
subitamente remotos.
        - No entanto, pensando bem, no sei se Colum realmente sabe por que deixei o castelo to repentinamente naquela ocasio. E se Geillis Duncan anda por a 
espalhando tais boatos... Essa mulher  uma encrenqueira, Sassenach; uma mexeriqueira e uma megera, se no for a bruxa que as pessoas dizem que . Nesse caso,  
melhor eu fazer com que ele descubra.
        Ergueu os olhos para o lenol de gua que se despejava das calhas.
        - Talvez seja melhor descermos, Sassenach. Est ficando mido demais aqui fora.
        Descemos por um caminho diferente, atravessando o telhado para uma escada externa que levava s hortas, onde eu quis arrancar um pouco de borragem, se o 
aguaceiro permitisse. Abrigamo-nos junto  parede do castelo onde o peitoril avanado de uma das janelas desviava a chuva.
        - O que voc faz com borragem, Sassenach? -Jamie perguntou, olhando com interesse para as videiras e plantas esparsas, arriadas pela chuva.
        - Quando est verde, nada. Primeiro  preciso sec-la e depois...
        Fui interrompida por uma terrvel algazarra de gritos e latidos, vinda de fora do muro da horta. Corri pelo aguaceiro em direo ao muro, Seguida mais lentamente 
por Jamie, mancando.
        O padre Bain, o sacerdote da vila, vinha correndo pelo caminho, as poas d'gua explodindo sob seus ps, perseguido por um bando de cachorros uivando e latindo. 
Atrapalhado por sua batina volumosa, o padre tropeou e caiu, espalhando gua e lama para todo lado. Num instante, os cachorros estavam em cima dele, rosnando e 
mordendo.
        Uma mancha axadrezada saltou por cima do muro ao meu lado e Jamie estava no meio deles, desfechando golpes com sua bengala e gritando em galico, acrescentando 
sua voz  algazarra geral. Se os gritos e imprecaes surtiam pouco efeito, a bengala era mais eficaz. Ouviram-se ganidos agudos conforme a clava golpeava a carne 
peluda e aos poucos o bando recuou, finalmente virando-se e debandando em direo  vila.
        Jamie afastou os cabelos de cima dos olhos, arquejando.
        - Maus como lobos - disse. - Eu j havia avisado Colum sobre este bando;  o mesmo que perseguiu Cobhar at o lago h dois dias.  melhor mandar abat-los 
a tiros antes que matem algum. - Olhou para mim enquanto eu me ajoelhava junto ao padre cado no cho, examinando-o. A chuva escorria das pontas dos meus cabelos 
e eu podia sentir meu xale ensopando-se.
        - Ainda no conseguiram - eu disse. - Fora algumas marcas de dentes, ele est bem.
        A batina do padre Bain estava rasgada em um dos lados, deixando  mostra uma coxa branca e lisa com um corte feio e vrios pontos de perfurao que comeavam 
a sangrar. O padre, lvido com o choque, tentava ficar de p; ele, era bvio, no estava gravemente ferido.
        - Venha at o consultrio comigo, padre, e eu limparei esses cortes - ofereci, reprimindo um sorriso diante do espetculo que o padre gordo e baixo apresentava, 
a batina esvoaando e revelando as meias com desenhos de losangos.
        Nos melhores momentos, o rosto do padre Bain parecia-se a um punho cerrado. Essa semelhana ficou ainda mais pronunciada no momento pelas marcas vermelhas 
que riscavam sua papada e enfatizavam as rugas verticais entre as bochechas e a boca. Fitou-me como se eu lhe tivesse sugerido que cometesse alguma indecncia pblica.
        Aparentemente eu o fizera, porque suas palavras seguintes foram:
        - O qu? Um servo de Deus expor suas partes pessoais s mos de uma mulher? Bem, vou lhe dizer, madame, no sei que espcies de imoralidades so praticadas 
nos crculos a que est acostumada, mas lhe digo que isso no ser tolerado aqui, enquanto eu for responsvel pelas almas desta parquia! - Com isso, virou-se e 
saiu batendo os ps, mancando fortemente e tentando, sem sucesso, segurar a parte rasgada de sua batina.
        - Como quiser - gritei s suas costas. - Se no me deixar limpar esses cortes, eles vo inflamar! - O padre no respondeu, mas curvou os ombros rechonchudos 
e escalou a escada da horta, um degrau de cada vez, como um pingim saltitando num bloco de gelo flutuante.
        - Esse homem no gosta muito de mulheres, no ? - observei Jamie.
        - Considerando-se sua ocupao, imagino que no - respondeu. -Vamos comer.
        Aps o almoo, mandei meu paciente de volta para a cama para descansar - sozinho, desta vez, apesar de seus protestos - e desci para o consultrio. O aguaceiro 
parecia ter diminudo o movimento; as pessoas preferiam permanecer a salvo nos seus aposentos, em vez de andarem por a com seus arados ou carem de telhados.
        Passei o tempo agradavelmente, atualizando os registros no livro de Davie Beaton. No entanto, assim que terminei, um visitante obscureceu minha porta.
        Ele literalmente obscureceu-a, seu corpo volumoso preenchendo-a de um lado a outro. Estreitando os olhos na semi-escurido, divisei o vulto de Alec MacMahon, 
envolvido em um conjunto extraordinrio de casacos, xales e um ou outro pedao de manta de cavalos.
        Aproximou-se com uma lentido que me fez lembrar da primeira visita de Colum ao consultrio comigo e me deu uma pista de seu problema.
        - Reumatismo, no ? - perguntei com compaixo, enquanto ele se deixava cair rigidamente na minha nica cadeira com um gemido abafado.
        - Sim. A umidade afeta meus ossos - disse. - O que se vai fazer? -Colocou as mos enormes e nodosas sobre a mesa, deixando os dedos relaxarem. As mos se 
abriram lentamente, como uma flor-da-noite, revelando as palmas calejadas. Peguei uma das mos retorcidas e virei-a suavemente para a frente e para trs, estendendo 
os dedos e massageando a palma spera. O velho rosto marcado de rugas acima da mo contorceu-se um pouco com o movimento, mas depois relaxou quando as primeiras 
pontadas de dor passaram.
        - Como madeira - eu disse. - Uma boa dose de usque e uma massagem profunda  o melhor que posso recomendar. Ch de tansia tambm ajuda um pouco.
        Ele riu, o xale deslizando de seus ombros.
        - Usque, hein? Eu tinha minhas dvidas, dona, mas estou vendo que tem jeito de uma boa mdica.
        Do fundo do meu armrio de remdios, retirei a garrafa marrom annima que guardava meu suprimento de usque da destilaria de Leoch. Coloquei-a na mesa diante 
dele, com um copo de chifre.
        - Beba - eu disse -, depois tire as roupas at onde achar decente e deite-se na mesa. Vou atiar o fogo para que fique bem quente aqui.
        O olho azul inspecionou a garrafa com satisfao e a mo deformada dirigiu-se lentamente ao gargalo.
        -  melhor tomar um gole tambm, dona - avisou. - Vai ser um grande trabalho.
        Gemeu, com um misto de dor e satisfao, enquanto eu lanava todo o peso do meu corpo sobre seu ombro esquerdo para solt-lo, depois o erguia por baixo e 
girava a regio para trs.
        - Minha mulher costumava massagear minhas costas para mim -comentou - por causa do lumbago. Mas isso  ainda melhor. Tem um par de mos muito forte, dona. 
Daria uma boa cavalaria.
        - Presumo que isso seja um elogio - eu disse secamente, despejando mais da mistura de leo e sebo na palma da minha mo e espalhando-a sobre as costas largas 
e brancas. Havia uma linha de demarcao bem definida entre a pele queimada, castigada pelo tempo, de seus braos, onde as mangas arregaadas de sua camisa paravam, 
e a pele branca como leite de seus ombros e costas.
        - Bem, voc foi um belo rapaz em sua poca - observei. - A pele de suas costas  to branca quanto a minha.
        Uma risada profunda sacudiu a carne sob minhas mos.
        - Agora nem d para imaginar, no ? Sim, Ellen MacKenzie uma vez me viu sem minha camisa, ajudando um potro a nascer, e disse-me que parecia que o bom Deus 
havia colocado a cabea errada no meu corpo. Devia ter um saco de pudim de leite nos ombros, ao invs de um rosto do altar.
        Imaginei que estivesse se referindo  cortina do crucifixo na capela, que retratava diversos demnios extremamente feios, ocupados em torturar os pecadores.
        - Parece que Ellen MacKenzie era um tanto livre em suas opinies -observei. Estava mais do que ligeiramente curiosa a respeito da me de Jamie. De pequenos 
comentrios que ele fazia de vez em quando, eu formara uma idia de seu pai Brian, mas ele nunca mencionara sua me e eu no sabia nada a seu respeito, alm de que 
morrera jovem, de parto.
        - Ah, ela era desbocada e tinha uma cabea voluntariosa tambm. -Desamarrando as ligas de suas calas curtas, presas abaixo dos joelhos, enrolei-as para 
cima e comecei a trabalhar os msculos das panturrilhas. -Mas tinha tanta doura que ningum se importava muito, alm de seus irmos. E ela no era de dar muita 
ateno a Dougal ou Colum.
        - Hum. Foi o que ouvi dizer. Fugiu com o namorado, no foi? -- Enfiei os polegares nos tendes atrs do joelho e ele emitiu um som que teria sido um grunhido 
em qualquer pessoa menos digna.
        - Ah, sim. Ellen era a mais velha dos seis filhos MacKenzie, um ou dois anos mais velha do que Colum e a menina dos olhos do velho Jacob. Foi por isso que 
demorou tanto tempo para se casar; no quis saber de John Cameron ou Malcolm Grant ou nenhum dos outros com quem poderia ter se casado e seu pai no queria for-la 
a agir contra sua vontade.
        Mas quando o velho Jacob morreu, Colum tinha menos pacincia com as fraquezas de sua irm. Lutando desesperadamente para consolidar seu abalado domnio do 
cl, buscou uma aliana com Munro ao norte ou Grant ao sul. Ambos os cls tinham chefes jovens, que se transformariam em teis cunhados. A jovem Jocasta, de apenas 
quinze anos, obedientemente aceitou o pedido de John Cameron e foi para o norte. Ellen,  beira de se tornar uma solteirona aos vinte e dois, mostrou-se bem menos 
dcil.
        - Imagino que o pedido de Malcolm Grant tenha sido firmemente rejeitado, a julgar por seu comportamento h duas semanas - observei.
        O Velho Alec riu, a risada transformando-se num gemido de prazer quando pressionei com mais fora.
        - Sim. Nunca soube exatamente o que ela disse para ele, mas acho que feriu fundo. Foi durante o Grande Encontro, que eles se conheceram. Foram l para fora, 
para o jardim de rosas,  noite, e todos esperavam para ver se ela o aceitaria ou no. Ficou escuro e continuavam esperando. Mais escuro ainda, todos os lampies 
acesos, a msica foi iniciada e, ainda assim, nenhum sinal de Ellen ou de Malcolm Grant.
        - Nossa Senhora. Deve ter sido uma conversa e tanto. - Despejei mais uma poro do linimento entre suas omoplatas e ele gemeu com a sensao quente e prazerosa.
        - Assim parecia. Mas o tempo continuou a passar e eles no voltavam. Colum comeou a temer que Grant tivesse fugido com ela; levado  fora, sabe. E assim 
parecia, porque encontraram o jardim vazio. E quando ele me mandou chamar na estrebaria, eu lhe disse que os homens de Grant tinham ido buscar os cavalos e o grupo 
todo havia partido sem uma palavra de despedida.
        Furioso, Dougal, ento com dezoito anos, montou em seu cavalo imediatamente e partiu no encalo de Malcolm Grant, sem esperar por companhia nem por uma conversa 
com Colum.
        - Quando Colum soube que Dougal havia partido no encalo de Grant, enviou a mim e outros homens atrs dele, j que Colum conhecia bem o temperamento de Dougal 
e no queria que seu novo cunhado fosse assassinado na estrada antes da proclama de casamento. Ele imaginou que Malcolm Grant, no tendo conseguido convencer Ellen 
a aceitar casar-se com ele, devia t-la seqestrado para for-la a se casar.
        Alec fez uma pausa, pensativamente.
        - Tudo que Dougal podia ver era o insulto,  claro. Mas no acho que estivesse to aborrecido com o fato, para dizer a verdade, com ou Sem insulto. Teria 
resolvido seu problema - e Grant provavelmente iria ter que se casar com Ellen sem seu dote e ainda pagar uma compensao a Colum.
        Alec respirou ruidosamente, com um ar cnico.
        -- Colum no  homem de deixar passar uma oportunidade. Ele  rpido e cruel, assim  Colum. - O solitrio olho de um azul glacial girou para trs para me 
olhar por cima de um ombro curvado. - Seria bom no se esquecer disso, dona.
        - No pretendo me esquecer - assegurei-lhe, com certa amargura. Lembrava-me da histria de Jamie sobre o castigo que Colum ordenara e imaginei quanto disso 
fora por vingana contra a rebeldia de sua me.
        No entanto, Colum no teve chance de aproveitar-se da oportunidade de casar sua irm com o chefe do cl Grant. Quase ao raiar do dia, Dougal encontrou Malcolm 
Grant acampado junto  estrada principal com seus seguidores, dormindo sob um arbusto de tojo, enrolado em seu xale.
        E quando Alec e os outros chegaram furiosos algum tempo depois, ficaram paralisados onde estavam pela viso de Dougal MacKenzie e Malcolm Grant, ambos despidos 
at a cintura e lanhados com as marcas de luta, cambaleando e oscilando de um lado para o outro na estrada, ainda trocando alguns golpes aleatrios sempre que ficavam 
ao alcance um do outro. Os seguidores de Grant estavam empoleirados ao longo da estrada como uma fileira de corujas, as cabeas virando-se de um lado para o outro, 
enquanto a briga prxima do fim serpenteava para cima e para baixo na aurora chuvosa.
        - Ambos bufavam como cavalos e o vapor subia de seus corpos no ar frio. O nariz de Grant estava inchado, o dobro do tamanho, e Dougal mal conseguia ver com 
qualquer um dos olhos, ambos com o sangue pingando e secando em seu peito.
        Com o aparecimento dos homens de Colum, os homens de Grant puseram-se de p, as mos na espada, e o encontro provavelmente teria resultado em um grave derramamento 
de sangue se um dos rapazes MacKenzie, de olho mais vivo, no tivesse observado o fato importante de que Ellen MacKenzie no estava entre os Grant.
        - Bem, depois de despejarem gua em Malcolm Grant para faz-lo recuperar os sentidos, ele conseguiu contar-lhes o que Dougal no tinha parado para ouvir 
- que Ellen passara apenas um quarto de hora com ele no roseiral. Recusou-se a contar o que se passara entre os dois, mas o que quer que tenha sido, ele ficara to 
ofendido que quis ir embora imediatamente, sem aparecer de novo no salo de Colum. E ele a deixara l e no a vira mais, nem nunca mais queria ouvir o nome Ellen 
MacKenzie pronunciado em sua presena outra vez. Com isso, montou em seu cavalo -ainda um pouco vacilante - e foi embora. Desde ento, nunca mais se tornou amigo 
de ningum do cl MacKenzie.
        Ouvi, fascinada.
        - E onde estava Ellen todo esse tempo?
        O Velho Alec riu, como o som de uma porta de estrebaria rangendo nas dobradias.
        - Do outro lado da montanha, bem longe. Mas eles no descobriram isso de imediato. Demos meia-volta e partimos para casa outra vez, encontrar Ellen ainda 
desaparecida e Colum de p, lvido, no ptio, apoiando-se em Angus Mhor.
        - Seguiu-se uma confuso ainda maior, porque com todos aqueles hspedes, os quartos do castelo estavam lotados, assim como todos os stos e cubculos, cozinhas 
e quartinhos. Parecia impossvel saber quem, de todas as pessoas no castelo, estaria desaparecido, mas Colum chamou todos os empregados e percorreu tenazmente a 
lista de todos os convidados, perguntando quem fora visto na noite anterior, e onde, e quando. Finalmente, descobriu uma criada da cozinha que se lembrou de ter 
visto um homem em uma passagem dos fundos, pouco antes de o jantar ser servido.
        Ela s o notara porque era muito bonito; alto e forte, disse, com cabelos negros e lisos como uma silkie, e olhos de gato. Ela observou-o descer a passagem, 
admirando-o, e o viu encontrar-se com algum na porta externa - uma mulher vestida de preto da cabea aos ps e abrigada num manto com capuz.
        - O que  uma silkie? - perguntei, surpresa.
        Os olhos de Alec estreitaram-se para mim, enrugando-se nos cantos.
        - So as focas. Durante muito tempo depois, mesmo aps saberem a verdade, as pessoas na vila contavam a histria de que Ellen MacKenzie havia sido levada 
para o mar, para viver entre as focas. Sabia que as silkies tiram sua pele quando vm para terra firme e caminham como seres humanos? E se voc encontrar a pele 
de uma silkie e a esconder, ele, ou ela - acrescentou com justia -, no poder entrar no mar outra vez, mas ter que permanecer com voc em terra firme. Diz-se 
que  bom arranjar uma esposa-foca dessa forma, pois so timas cozinheiras e mes muito dedicadas.
        - Ainda assim - disse criteriosamente -, Colum no estava inclinado a acreditar que sua irm fugira com uma foca e deixou isso bem claro. Convocou os hspedes, 
um por um, e perguntou a cada um deles quem conhecia um homem com aquela descrio. Finalmente, chegaram  concluso de que seu nome era Brian, mas ningum conhecia 
seu cl ou sobrenome; ele participara dos jogos, mas l s o chamavam de Brian Dhu.
        - A questo ficou suspensa por algum tempo, porque os homens no sabiam em que direo comear a procurar. Ainda assim, at o melhor dos caadores tem que 
parar em uma cabana de vez em quando, pedir um punhado de sal ou uma caneca de leite. E finalmente a notcia do paradeiro do casal chegou a Leoch, pois Ellen MacKenzie 
no era uma jovem de aparncia comum.
        - Cabelos cor de fogo - disse Alec sonhadoramente, desfrutando o calor do leo em suas costas. - E olhos como os de Colum: cinzas e debruados de pestanas 
negras. Muito bonitos, mas do tipo que o atravessam como um raio. Uma mulher alta; mais alta ainda do que voc. E para dizer a verdade, os olhos doam s de v-la.
        - Mais tarde, ouvi dizer que eles se conheceram durante o Grande Encontro, entreolharam-se e decidiram na mesma hora que no poderia haver mais ningum para 
nenhum dos dois. Assim, fizeram os planos e fugiram, debaixo dos narizes de Colum MacKenzie e de trezentos hspedes.
        Riu repentinamente, lembrando-se.
        - Dougal encontrou-os finalmente, vivendo na cabana de um campons no limite das terras dos Fraser. Haviam decidido que a nica maneira de conseguirem o 
que queriam seria esconderem-se at Ellen ficar grvida e barriguda o suficiente para no haver dvida de quem era o pai. Ento Colum teria que dar sua bno ao 
casamento, gostasse ou no. E ele no gostou.
        Alec riu.
        - Enquanto estava na estrada, voc por acaso viu uma cicatriz que Dougal tem atravessando seu peito?
        Eu vira; uma fina linha branca que cortava seu corao e ia do ombro s costelas.
        - Foi Brian quem fez aquilo? - perguntei.
        - No, Ellen - respondeu, rindo diante da expresso do meu rosto. -Para impedi-lo de cortar a garganta de Brian, o que ele estava prestes a fazer. Eu no 
mencionaria isso a Dougal, se fosse voc.
        - No, acho que no o faria.
        Felizmente, o plano funcionou e Ellen j estava com cinco meses de gravidez quando Dougal os encontrou.
        - Houve uma grande confuso em torno do assunto e um monte de cartas muito desagradveis entre Leoch e Beauly, mas no fim tudo se arranjou e Ellen e Brian 
foram morar em Lallybroch uma semana antes de a criana nascer. Casaram-se na frente da casa - acrescentou, como uma reflexo posterior - para que ele pudesse atravessar 
a soleira com ela nos braos pela primeira vez como marido e mulher. Ele disse depois que quase ficou rendido quando a pegou no colo.
        - Voc fala como se os conhecesse bem - eu disse. Terminando meu tratamento, limpei o leo escorregadio de minhas mos com uma toalha.
        - Ah, um pouco - Alec disse, sonolento com o calor do corpo. A plpebra caa sobre seu nico olho e as rugas em seu rosto envelhecido haviam relaxado, perdendo 
a expresso de leve desconforto que normalmente o fazia parecer to irritado.
        - Eu conhecia bem Ellen,  claro. Brian eu conheci anos mais tarde" quando trouxe o rapaz para passar uma temporada aqui. Ns nos demos bem. Ele era bom 
com cavalos. - Sua voz definhou e a plpebra se fechou-
        Coloquei um cobertor sobre o corpo prostrado do velho tratador de cavalos e sa na ponta dos ps, deixando-o sonhando junto  lareira.
        Deixando Alec adormecido, subi para nosso quarto, apenas para encontrar Jamie nas mesmas condies. H um nmero limitado de atividades adequadas para diverso 
dentro de casa, em um dia escuro e chuvoso e presumindo-se que eu no queria nem acordar Jamie nem me unir a ele no mundo dos sonhos, sobravam apenas a leitura ou 
o bordado. Considerando-se as minhas mais do que medocres habilidades nesta ltima, resolvi pegar um livro emprestado da biblioteca de Colum.
        De acordo com os peculiares princpios arquitetnicos que governaram a construo de Leoch - baseados nus abominvel fixao geral por linhas retas -, a 
escada que levava  sute de Colum possua duas mudanas de direo em ngulo reto, cada qual assinalada por um pequeno patamar. Em geral, um criado permanecia postado 
no segundo patamar, pronto para ir realizar uma pequena misso ou prestar assistncia ao chefe do cl, mas no estava em seu posto hoje. Eu podia ouvir o rumor de 
vozes vindas de cima; talvez o criado estivesse com Colum. Parei do lado de fora da porta, sem saber se deveria interromper.
        - Sempre soube que voc era um tolo, Dougal, mas no pensei que fosse to idiota. - Acostumado  companhia de professores desde a juventude e privado de 
aventurar-se pelo mundo l fora como seu irmo fazia entre guerreiros e pessoas comuns, a voz de Colum geralmente no apresentava aquele escocs carregado que marcava 
a fala de Dougal. O sotaque culto havia falhado um pouco agora e as duas vozes eram quase indistinguveis, ambas roucas de raiva. - Eu esperaria esse comportamento 
de sua parte se tivesse vinte e poucos anos, mas pelo amor de Deus, homem, voc est com quarenta e cinco!
        - Bem, no  uma questo sobre a qual voc tenha muito a dizer, no ? - a voz de Dougal tinha um desagradvel tom de escrnio.
        - No. - A resposta de Colum foi cortante. - E embora eu raramente tenha encontrado motivos para agradecer a Deus, talvez ele tenha feito mais por mim do 
que eu imaginava. Sempre ouvi falar que o crebro de um homem pra de funcionar quando seu pau est em p e agora acho que acredito nisso. - Houve um sonoro barulho 
de pernas de cadeira arrastadas Para trs no assoalho de pedras. - Se os irmos MacKenzie s tm um pau e um crebro para os dois, ento fico feliz com a minha parte 
da barganha!
        Conclu que um terceiro participante nessa conversa em particular certamente no seria bem-vindo e afastei-me silenciosamente da porta, preparando-me para 
descer as escadas.
        O rudo de saias farfalhando no primeiro patamar me fez parar onde estava. No queria que me descobrissem ouvindo por trs da porta dos aposentos do chefe 
do cl e virei-me novamente em direo  porta. O patamar era largo e uma tapearia cobria uma das paredes quase do teto ao cho. Meus ps ficariam  mostra, mas 
no havia nada que eu pudesse fazer Escondendo-me como um rato atrs do tapete de parede, ouvi os passos que vinham de baixo diminurem ao se aproximarem da porta. 
Parara na ponta mais distante do patamar, quando o visitante que eu no podia ver percebeu, como eu havia percebido, a natureza particular da conversa entre os irmos.
        - No - Colum dizia, agora mais calmo. - No, claro que no. A mulher  uma bruxa ou algo parecido.
        - Sim, mas...- A resposta de Dougal foi interrompida pelo tom impaciente do irmo.
        -J disse que vou cuidar disso, Dougal. No se preocupe, irmozinho; providenciarei para que ela seja tratada convenientemente. - Um tom de ressentido afeto 
insinuara-se na voz de Colum.
        - Vou lhe dizer uma coisa, Dougal. Escrevi ao duque, j que ele talvez pretenda caar nas terras acima de Erlick, ele gosta de matar veados por l. Pretendo 
enviar Jamie com ele; talvez como ele ainda tem uma queda pelo rapaz....
        Dougal interrompeu com alguma coisa em galico, evidentemente uma observao grosseira, porque Colum riu e disse:
        - No, acho que Jamie j  suficientemente grande para cuidar de si mesmo. Mas se o duque tiver a inteno de interceder por ele junto a Sua Majestade Real, 
 a melhor chance de o rapaz obter um perdo. Se quiser, direi a Sua Excelncia que voc tambm ir. Pode ajudar Jamie como quiser e estar fora do caminho enquanto 
eu acerto as coisas por aqui.
        Ouviu-se uma pancada abafada na ponta mais distante do patamar e arrisquei uma olhadela. Era a jovem Laoghaire, plida como a parede branca atrs dela. Segurava 
uma bandeja com uma jarra de vinho; uma caneca de metal cara da bandeja no cho acarpetado, produzindo o som que eu ouvira.
        - O que foi isso? - a voz de Colum, repentinamente aguda, ecoou de dentro do aposento. Laoghaire deixou a bandeja na mesa junto  porta, quase derrubando 
a jarra de vinho em sua pressa e, virando-se, fugiu precipitadamente.
        Podia ouvir os passos de Dougal aproximando-se da porta e compreendi que jamais conseguiria descer as escadas sem ser descoberta. Mal tive tempo de esgueirar-me 
do meu esconderijo e pegar a caneca que cara, antes de a porta abrir-se.
        - Ah,  voc. - Dougal pareceu ligeiramente surpreso. -  o que a sra. Fitz mandou para a garganta irritada de Colum?
        - Sim - respondi com desembarao. - Ela disse que estima sua rpida melhora.
        - Obrigado. - Movendo-se mais devagar, Colum surgiu na porta aberta. Sorriu para mim. - Agradea a sra. Fitz por mim. E obrigado a voc tambm, minha querida, 
por traz-lo. Quer se sentar por um instante enquanto eu o bebo?
        A conversa que ouvira por acaso na verdade me fizera esquecer meu propsito original, mas agora me lembrava da minha inteno de pedir um livro emprestado. 
Dougal pediu licena e eu segui Colum lentamente para a biblioteca, onde ele me ofereceu todas as suas prateleiras.
        Colum ainda estava avermelhado, a discusso com o irmo continuava fresca em sua mente, mas respondeu minhas perguntas sobre os livros com uma boa aproximao 
de seu equilbrio habitual. Somente o brilho em seus olhos e uma certa tenso na postura traam seus pensamentos.
        Encontrei um ou dois livros sobre ervas que pareciam interessantes e separei-os enquanto folheava um romance.
        Colum atravessou o aposento at a gaiola de pssaros, sem dvida pretendendo acalmar-se por meio de seu costume de observar as belas criaturinhas absortas 
em si mesmas saltando de um galho ao outro, cada qual um mundo em si mesmo.
        O barulho de gritos l fora atraiu minha ateno. Desse local elevado, os campos de trs do castelo eram visveis por toda a extenso at o lago. Um pequeno 
grupo de cavaleiros dobrava a curva na ponta do lago, gritando de entusiasmo, enquanto a chuva os aoitava.
        Ao se aproximarem, pude ver que no eram homens afinal de contas, mas garotos, a maioria adolescentes, mas com um garoto menor aqui e ali montado num pnei, 
esforando-se para acompanhar os mais velhos. Imaginei se Hamish estaria com eles e logo descobri o revelador ponto de cabelos reluzentes, brilhando loucamente no 
dorso de Cobhar no meio do grupo.
        O bando vinha a toda velocidade na direo do castelo, visando um dos inmeros muros baixos de pedra que separavam um campo do outro. Um, dois, trs, quatro, 
os garotos mais velhos em suas montarias saltaram o muro com a descuidada facilidade nascida da experincia.
        Sem dvida foi minha imaginao que fez o cavalo baio parecer demorar-se um instante, pois Cobhar seguia os outros cavalos com aparente entusiasmo. Partiu 
em direo ao muro, preparou-se e saltou.
        Pareceu faz-lo exatamente como os outros haviam feito, mas alguma coisa aconteceu. Talvez uma hesitao do seu cavaleiro, um puxo muito forte nas rdeas 
ou uma sela no muito firme. Porque os cascos dianteiros bateram no muro por uma diferena de alguns centmetros e cavalo, cavaleiro e tudo deram uma cambalhota 
por cima do obstculo na mais espetacular parbola da fatalidade que eu j vi.
        - Ah!
        Atrado por minha exclamao, Colum virou a cabea para a janela a tempo de ver Cobhar cair pesadamente de lado, a pequena figura de Hamish presa embaixo 
dele. Apesar de sua dificuldade, Colum moveu-se depressa. Estava a meu lado, debruado  janela, antes de o cavalo sequer comear a lutar para ficar em p.
        O vento e a chuva fustigavam pela janela, ensopando o veludo do casaco de Colum. Espreitando ansiosamente por cima de seu ombro, vi um grupo de garotos empurrando 
e afastando uns aos outros, na nsia de ajudar. Pareceu que um longo tempo havia transcorrido at o grupo apartar-se e eu ver a pequena e robusta figura cambalear 
para fora do ajuntamento, segurando o estmago. Sacudiu a cabea para as inmeras ofertas de auxlio e saiu meio tonto, mas pisando com determinao at o muro, 
onde se debruou e vomitou profusamente. Em seguida, deslizou pela parede e ficou sentado na grama molhada, as pernas abertas, o rosto virado para a chuva. Quando 
o vi esticar a lngua para fora para pegar as gotas de chuva, coloquei a mo no ombro de Colum.
        - Ele est bem - eu disse. - S ficou sem ar por uns instantes. Colum cerrou os olhos e expirou ruidosamente, o corpo subitamente frouxo com a liberao 
da tenso. Olhei-o com simpatia.
        - Importa-se com ele como se fosse seu prprio filho, no ? - perguntei.
        Os olhos cinza flamejaram repentinamente, penetrando os meus com a mais extraordinria expresso de sobressalto. Por um instante, no se ouviu outro som 
no aposento que no o tique-taque do relgio de vidro na prateleira. Ento, uma gota d'gua rolou pelo nariz de Colum, parando na ponta, reluzente. Estendi a mo 
involuntariamente para enxug-la com meu leno e a tenso em seu rosto dissipou-se.
        - Sim - respondeu simplesmente.
        Por fim, contei a Jamie apenas sobre o plano de Colum de envi-lo para caar com o duque. Agora eu estava convencida de que seus sentimentos por Laoghaire 
eram apenas de uma amizade cavalheiresca, mas eu no sabia o que ele poderia fazer se soubesse que seu tio havia seduzido a garota e a engravidado. Aparentemente, 
Colum no pretendia solicitar os servios de Geilie Duncan na emergncia; imaginei se a jovem seria obrigada a se casar com Dougal ou se Colum encontraria um outro 
marido para ela antes que a gravidez comeasse a aparecer. De qualquer forma, Jamie e Dougal iam ficar confinados numa hospedaria de caa durante um longo tempo, 
achei que seria melhor que a sombra de Laoghaire no fizesse parte do grupo.
        - Hum - ele disse pensativamente. - Vale a pena tentar. Fica-se amigo quando se caa junto com algum o dia todo e volta-se  noite para tomar um usque 
junto  lareira. - Ele acabou de amarrar meu vestido nas costas e inclinou-se para me beijar de leve no ombro.
        - Vou lamentar ter que deix-la, Sassenach, mas pode ser o melhor a fazer.
        - No se preocupe comigo - eu disse. Eu no havia percebido antes que sua partida necessariamente me deixaria sozinha no castelo e a idia deixou-me mais 
do que ligeiramente nervosa. Ainda assim, estava decidida a me arranjar, se isso era o melhor para ele.
        - Est pronto para o jantar? - perguntei. Sua mo demorou-se na minha cintura e eu me virei para ele.
        - Hum - ele disse um instante depois,. -- No me importaria de ficar com fome.
        - Bem, eu me importaria - retruquei. - O senhor vai ter que esperar.
        Olhei ao longo da mesa de jantar e pelo salo. Agora eu j conhecia a maioria dos rostos, alguns intimamente. E que bando diversificado eles formavam, refleti. 
Frank teria ficado fascinado - tantos tipos faciais diferentes.
        Pensar em Frank era como tocar em um dente dolorido; minha tendncia era afastar o pensamento. Mas chegaria a hora em que no poderia mais adiar e forcei 
minha mente outra vez, desenhando-o cuidadosamente, delineando os arcos longos e bem arqueados de suas sobrancelhas com meus pensamentos como um dia eu os delineara 
com meus dedos. No me importa que meus dedos formigassem repentinamente com a lembrana de sobrancelhas mais speras e grossas e do azul profundo dos olhos sob 
elas.
        Apressadamente, me virei na direo do rosto mais prximo, como um antdoto para pensamentos to perturbadores. Por acaso, era o de Murtagh. Bem, ao menos 
ele no se parecia com nenhum dos dois homens que assombravam meus pensamentos.
        Baixo, franzino, mas vigoroso como um macaco, com braos longos que reforavam a aparncia simiesca, tinha sobrancelhas baixas e maxilar estreito que, por 
alguma razo, me faziam pensar em habitantes das cavernas e desenhos do Homem Primitivo, exibidos em alguns dos artigos de Frank. Mas no um Neanderthal. Um picto. 
Era isso. Havia algo de muito estvel a respeito do pequeno escocs que me lembrava as pedras desenhadas, castigadas pelo tempo, antigas mesmo agora, que mantinham 
sua guarda implacvel nas encruzilhadas e nos cemitrios.
        Distrada com a idia, examinei os outros comensais com um olho clnico para identificar tipos tnicos. Aquele homem perto da lareira, por exemplo, John 
Cameron, era seu nome, era um normando se eu j tivesse Visto um - no que tivesse - com mas do rosto altas e a testa alta e estreita, lbio superior longo e a 
pele escura de um gauls.
        Um ou outro saxo louro aqui e ali... ah, Laoghaire, o exemplar perfeito. Pele clara, olhos azuis e s um pouquinho rechonchuda... reprimi a observao maldosa. 
Ela evitava cuidadosamente olhar para mim ou para Jamie, conversando animadamente com as amigas em uma das mesas mais para o final do salo.
        Olhei na direo oposta, para a mesa seguinte, onde Dougal MacKenzie estava sentado, desta vez separado de Colum. Um maldito viking,  o que ele era. Com 
sua altura imponente e aquelas mas do rosto planas e largas, eu podia facilmente imagin-lo no comando de um navio de drages, os olhos encovados brilhando de 
cobia e ganncia, enquanto espreitava atravs da neblina para uma vila litornea numa encosta rochosa.
        A mo grande, o pulso coberto de uma penugem cor de cobre, passou por mim para pegar um pozinho de aveia da bandeja. Outro nrdico, Jamie. Ele me fazia 
lembrar das lendas da sra. Baird sobre a raa de gigantes que um dia vagou pela Esccia e fincou seus ossos longos nas terras do norte.
        A conversa girava em torno de temas gerais, como sempre, pequenos grupos cochichando entre uma mordida e outra. Meus ouvidos, porm, captaram um nome familiar, 
pronunciado numa mesa prxima. Sandringham. Pensei que a voz fosse de Murtagh e me virei para ver. Ele estava sentado ao lado de Ned Gowan, mastigando laboriosamente.
        - Sandringham? Ah, o velho Willie, o terror dos traseiros - disse Ned, pensativamente.
        - O qu?! - exclamou um dos soldados mais jovens, engasgando com sua cerveja.
        - Nosso reverenciado duque gosta de rapazes, ou assim ouvi dizer -explicou Ned.
        - Mmm - concordou Rupert, a boca cheia. Engolindo, acrescentou: -Tinha uma queda pelo jovem Jamie, da ltima vez que visitou estas paragens, se me lembro 
bem. Quando foi, Dougal? Trinta e oito? Trinta e nove?
        - Trinta e sete - Dougal respondeu da mesa seguinte. Estreitou os olhos para seu sobrinho. - Voc era um rapaz muito bonito aos dezesseis anos, Jamie.
        Jamie balanou a cabea, mastigando.
        - Sim. E rpido, tambm.
        Quando as risadas acalmaram-se, Dougal comeou a provocar Jamie.
        - No sabia que voc era um favorito, Jamie. Diz-se por a que o duque andou trocando um traseiro dolorido por terras e cargos.
        - Deve ter percebido que no tenho nem um nem outro - Jamie respondeu com um sorriso, seguido de novas gargalhadas.
        - O qu? Nem chegou perto? - disse Rupert, mastigando ruidosamente.
        - Bem mais perto do que eu gostaria, verdade seja dita.
        - Ah, mas at onde teria gostado que ele chegasse, hein, rapaz? - A voz estrondosa veio de um ponto mais distante da mesa, de um homem alto, de barba castanha, 
que eu no reconheci, e foi saudado com mais gargalhadas e comentrios obscenos. Jamie sorriu tranqilamente e pegou outro po, sem se deixar perturbar com os gracejos.
        - Foi por isso que deixou o castelo to de repente e voltou para o seu pai? - Rupert perguntou.
        - Foi.
        - Ora, devia me ter dito que estava tendo problemas nessa rea, Jamie - Dougal disse, fingindo-se preocupado. Jamie produziu um rudo escocs baixo, no fundo 
da garganta.
        - E se eu tivesse lhe falado sobre isso, seu velho patife, voc teria colocado um pouco de sumo de papoula na minha cerveja uma noite e me deixado na cama 
de Sua Excelncia como um pequeno presente.
        A mesa veio abaixo de risadas e Jamie esquivou-se quando Dougal atirou uma cebola nele.
        Rupert estreitou os olhos para Jamie.
        - Parece-me, rapaz, que eu o vi, pouco antes de partir, entrando nos aposentos do duque no comeo da noite. Tem certeza de que no est escondendo alguma 
coisa da gente? - Jamie pegou outra cebola e atirou nele. No o atingiu e ela saiu rolando pelo cho.
        - No -Jamie disse, rindo -, ainda sou virgem, ao menos dessa forma. Mas se precisa saber tudo sobre isso para poder dormir, Rupert, eu lhe conto, com prazer.
        Entre gritos de "Conta! Conta!", ele deliberadamente encheu uma caneca de cerveja e recostou-se no banco, na pose clssica do contador de histrias. Pude 
ver Colum na mesa principal, a cabea inclinada para a frente para ouvir, to atento quanto os cavalarios e os soldados em nossa mesa.
        - Bem - comeou -,  bem verdade o que Ned diz. Sua Excelncia tinha uma queda por mim, embora eu fosse um garoto inocente aos dezesseis... - Nesse ponto 
foi interrompido por uma srie de comentrios debochados e elevou a voz para continuar. - Sendo, como eu disse, inocente quanto a esses assuntos, no fazia a menor 
idia do que ele pretendia, embora me parecesse um pouco estranho o modo como Sua Excelncia estava sempre me dando tapinhas como num cachorrinho e estivesse to 
interessado no que eu pudesse ter na minha bolsa na cintura. ("Ou abaixo dela!", gritou uma voz bbada.)
        - Achei mais estranho ainda quando ele me encontrou me lavando no rio e quis esfregar minhas costas para mim. Quando terminou minhas costas e continuou com 
o resto, comecei a ficar um pouco nervoso e quando colocou a mo embaixo do meu kilt, comecei a compreender o que ele queria. Eu podia ser inocente, mas no era 
idiota, sabe.
        - Sa dessa situao em particular mergulhando na gua, com kilt e tudo, e nadando para o outro lado. Sua Excelncia no tinha a inteno de arriscar suas 
roupas caras na lama e na gua. De qualquer modo, depois disso eu tomava muito cuidado para no ficar sozinho com ele. Ele me pegou uma ou duas vezes no jardim ou 
no ptio, mas tive chance de escapar sem maiores danos do que ele beijando minha orelha. O outro nico momento difcil foi quando ele se deparou comigo sozinho na 
estrebaria.
        - Na minha estrebaria? - O Velho Alec pareceu horrorizado. Levantou-se parcialmente e gritou para a mesa principal do outro lado do salo. - Colum, faa 
com que esse homem fique longe da minha estrebaria! No vou querer que assuste meus cavalos, duque ou no! Nem que incomode os rapazes! - acrescentou, numa bvia 
reflexo posterior.
        Jamie continuou com sua histria, sem se deixar perturbar pela interrupo. As duas filhas adolescentes de Dougal ouviam extasiadas, a boca ligeiramente 
aberta.
        - Eu estava numa baia, sabe, e ali no havia muito espao de manobra. Eu estava debruado sobre (mais observaes obscenas)... sobre a manjedoura, como dizia, 
retirando as cascas do fundo, quando ouvi um barulho atrs de mim e, antes que pudesse me endireitar, meu kilt foi jogado para cima, na minha cintura, e algo duro 
pressionava o meu traseiro.
        Abanou a mo para acalmar o tumulto antes de continuar.
        - Bem, no gostei da idia de ser importunado em uma baia, mas tambm no via sada quela altura. J estava trincando os dentes e desejando que no doesse 
muito, quando o cavalo - aquele cavalo preto, grande, Ned, que voc comprou em Brocklebury - sabe, aquele que Colum vendeu a Breadalbin - bem o cavalo no gostou 
do barulho que Sua Excelncia estava fazendo. A maioria dos cavalos gosta que voc converse com eles, e aquele tambm, mas ele tinha uma averso peculiar a vozes 
muito agudas. Eu no podia lev-lo ao ptio quando havia crianas pequenas por perto, porque ele ficava nervoso com seus berros e comeava a escarvar o cho e dar 
pinotes.
        - Sua Excelncia, como devem se recordar, tem uma voz bastante aguda e estava ainda mais aguda do que o normal nessa ocasio, j que ele estava um pouco 
excitado. Bem, como ia dizendo, o cavalo no gostou - nem eu, devo dizer - e comeou a bater os cascos e resfolegar, girou o corpo e imprensou Sua Excelncia contra 
a parede da baia. Assim que o duque me soltou, pulei dentro da manjedoura e passei para o outro lado do cavalo, deixando Sua Excelncia para se livrar do cavalo 
como pudesse.
        Jamie parou para tomar flego e um gole de cerveja. A essa altura, detinha a ateno de todos no salo, os rostos voltados para ele, brilhando  luz dos 
tocheiros. Aqui e ali, podia-se perceber um cenho franzido diante dessas revelaes a respeito de um poderoso nobre da Coroa Inglesa, mas a reao geral era de um 
prazer irrestrito com o escndalo. Compreendi que o duque no era um personagem muito popular no Castelo Leoch.
        - Tendo conseguido chegar to perto, por assim dizer, Sua Excelncia colocou na cabea que iria me possuir de qualquer jeito. Assim, no dia seguinte, ele 
diz ao MacKenzie que seu criado pessoal adoeceu e pede-lhe que me empreste a ele para ajud-lo a se banhar e vestir. - Colum cobriu o rosto fingindo-se horrorizado, 
para regozijo geral. Jamie balanou a cabea para Rupert.
        - Foi por isso que voc me viu entrando no quarto de Sua Excelncia  noite. Foram ordens, pode-se dizer.
        - Podia ter-me dito, Jamie. Eu no o obrigaria a ir - Colum disse, com um olhar de reprovao.
        Jamie encolheu os ombros e riu.
        - Fui impedido pela minha timidez natural, tio. Alm disso, eu sabia que voc estava tentando negociar com o sujeito; achei que poderia atrapalhar as negociaes 
se fosse forado a dizer a Sua Excelncia que mantivesse as mos longe do traseiro de seu sobrinho.
        - Muito atencioso de sua parte, Jamie - Colum disse, secamente. - Ento, voc se sacrificou pelos meus interesses, no foi?
        Jamie ergueu a caneca de cerveja em um pretenso brinde.
        - Seus interesses esto sempre em primeiro lugar em minha mente, tio - disse e achei que, apesar do tom zombeteiro, havia uma distinta verdade subjacente 
no que ele dizia, que Colum, assim como eu, tambm percebeu.
        Esvaziou a caneca e colocou-a na mesa.
        - Mas, no - disse, limpando a boca. - Neste caso, eu no achei que o dever de famlia exigisse tanto assim de mim. Fui aos aposentos do duque, porque voc 
mandou que eu fosse, mas foi apenas isso.
        - E voc saiu de l outra vez com o eu intacto? - Rupert parecia ctico. Jamie riu.
        - Sim, sa. Veja, assim que recebi a ordem, procurei a sra. Fitz e disse-lhe que eu precisava desesperadamente de uma dose de xarope de figos. Quando ela 
o deu para mim, vi onde ela guardou a garrafa e voltei silenciosamente um pouco mais tarde e tomei a garrafa toda.
        O salo explodiu em gargalhadas, inclusive a sra. Fitz, que ficou to ruborizada que pensei que fosse ter um ataque. Levantou-se cerimoniosamente de seu 
lugar, deu a volta  mesa com sua ginga e desfechou um peteleco bem-humorado na orelha de Jamie.
        - Ah, ento foi isso que aconteceu com o meu remdio, seu desgraado! - Com as mos nos quadris, sacudiu a cabea, fazendo os brincos verdes adejarem como 
liblulas. - O melhor que eu j fiz!
        - Ah, foi muito eficaz - ele assegurou-lhe, rindo da avantajada senhora
        - Ah, imagino que sim! Quando penso o que aquela quantidade de remdio deve ter feito s suas entranhas, rapaz, espero que tenha valido a pena para voc. 
Deve ter ficado imprestvel dias seguidos.
        Ele sacudiu a cabea, ainda rindo.
        -  verdade, mas tambm fiquei imprestvel para o que Sua Excelncia tinha em mente. Ele no pareceu se importar nem um pouco quando pedi licena para ir 
embora. Mas eu sabia que no poderia fazer isso duas vezes assim to logo as dores de barriga melhoraram, peguei um cavalo da estrebaria e fui embora. Levei muito 
tempo para chegar em casa, j que tinha que parar a cada dez minutos, mas cheguei na hora do jantar no dia seguinte.
        Dougal fez sinal para que trouxessem mais uma jarra de cerveja, que ele passou de mo em mo pela mesa para Jamie.
        - Sim, seu pai mandou dizer que achava que talvez voc j tivesse aprendido o suficiente da vida no castelo por enquanto - disse, sorrindo melancolicamente. 
- Achei que havia um tom em sua carta que eu no compreendi bem na poca.
        - Bem, espero que tenha preparado um novo lote de xarope de figo, sra. Fitz - Rupert interrompeu, cutucando-a com familiaridade nas costelas. - Sua Excelncia 
deve chegar aqui em um ou dois dias. Ou est contando com sua mulher para proteg-lo desta vez, Jamie? - Lanou-me um olhar malicioso. - Pelo que ouvi dizer, voc 
vai ter que proteger ela. Disseram que o criado do duque no compartilha as preferncias de Sua Excelncia, embora seja muito ativo.
        Jamie empurrou o banco para trs e levantou-se da mesa, dando-me a mo para me ajudar. Passou o brao pelos meus ombros e sorriu de volta para Rupert.
        - Bem, ento suponho que ns dois vamos ter que enfrent-los juntos, costa a costa.
        Os olhos de Rupert arregalaram-se de assombro.
        - Costa a costa?! - exclamou. - Sabia que havamos esquecido de lhe dizer alguma coisa antes de seu casamento, rapaz! No  de admirar que ainda no a tenha 
engravidado!
        A mo de Jamie segurou meu ombro com fora, virando-me em direo  arcada, e escapamos do salo, sob uma chuva de risadas e conselhos obscenos.
        No corredor escuro do lado de fora do salo, Jamie apoiou-se nas pedras da parede e dobrou-se de rir. Sem conseguir ficar em p, deixei-o cair no cho aos 
seus ps, incapaz de conter o riso.
        - Voc no contou a ele, contou? -Jamie disse, arquejante, por fim.
        Sacudi a cabea.
        - No, claro que no. - Ainda respirando com dificuldade, tateei em busca de sua mo e ele me ajudou a ficar de p. Deixei-me cair sobre seu peito.
        - Deixe-me ver se entendi agora. - Segurou meu rosto com as duas mos e pressionou a testa contra a minha, o rosto to perto que seus olhos transformaram-se 
numa grande rbita azul e seu hlito soprava quente no meu queixo.
        - Frente a frente.  assim? - A efervescncia de riso estava arrefecendo em meu sangue, substituda por outra coisa igualmente potente. Toquei seus lbios 
com minha lngua, enquanto minhas mos ocupavam-se mais embaixo.
        - Os rostos no so as partes essenciais. Mas voc est aprendendo.
        No dia seguinte, eu estava no consultrio, ouvindo pacientemente uma senhora idosa da vila, parente do cozinheiro de sopas, que detalhava um tanto loquazmente 
a crise de garganta inflamada de sua nora, que teoricamente tinha alguma coisa a ver com sua atual queixa de angina, embora no momento eu no conseguisse ver a ligao. 
Uma sombra atravessou a porta, interrompendo a lista de sintomas da velha senhora.
        Ergui os olhos, surpresa, e vi Jamie entrar apressado, seguido do Velho Alec, os dois parecendo preocupados e ansiosos. Jamie removeu sem nenhuma cerimnia 
o depressor de lngua improvisado que eu estava segurando e me colocou de p, segurando minhas mos entre as suas.
        - O que... comecei a dizer, mas fui interrompida por Alec, espreitando por cima do ombro de Jamie para as minhas mos, que ele lhe mostrava.
        - Sim, as mos servem, mas e os braos, homem? Ela tem braos para isso?
        - Olhe. -Jamie agarrou uma das minhas mos e estendeu meu brao para a frente, medindo-o contra um dos seus prprios braos.
        - Bem - Alec disse, examinando-o em dvida -, pode ser. Sim, acho que servem.
        - Poderiam me dizer o que acham que esto fazendo? - perguntei, mas antes de poder terminar, j estava sendo arrastada pelas escadas entre os dois homens, 
deixando minha paciente idosa de boca aberta atrs de ns, perplexa.
        Alguns instantes depois, eu olhava com desconfiana a parte traseira grande, marrom e brilhante de uma gua, a uns quinze centmetros do meu rosto. O problema 
fora esclarecido no caminho para a estrebaria, com Jamie explicando e o Velho Alec fazendo coro com observaes, imprecaes e interjeies.
        Losgann, em geral, uma boa parideira, e um valioso animal da estrebaria de Colum, estava com dificuldades. Isso eu mesma podia constatar; a gua estava deitada 
de lado e periodicamente os flancos brilhantes elevavam-se e o corpo enorme parecia estremecer. De quatro atrs do cavalo eu podia ver os lbios da vagina abrirem-se 
ligeiramente a cada contrao porm nada mais acontecia; nenhum sinal de um minsculo casco ou de um delicado focinho mido aparecia na abertura. O potro, um temporo 
estava evidentemente de lado ou completamente virado. Alec achava que estava de lado, Jamie achava que estava virado e eles pararam para argumentar sobre isso por 
um instante, at que eu impacientemente coloquei ordem na reunio perguntando o que esperavam que eu fizesse, qualquer que fosse o caso.
        Jamie olhou-me como se eu fosse um pouco tola.
        - Virar a cria,  claro - disse pacientemente. - Girar as patas da frente para ela poder sair.
        - Ah, s isso? - Olhei para a gua. Losgann, cujo belo nome na verdade significava "R", tinha a ossatura delicada para um cavalo, mas ainda assim extremamente 
grande.
        - H, quer dizer, enfiar a mo l dentro? - Olhei minha mo disfaradamente. Provavelmente daria - a abertura era bastante grande -, mas e depois?
        As mos de ambos os homens eram grandes demais para a tarefa. E Roderick, o cavalario que geralmente era pressionado a cuidar de situaes delicadas como 
esta, estava,  claro, imobilizado com uma tala e uma tipia que eu lhe arranjara, no brao direito - quebrara o brao h dois dias. Willie, o outro rapaz da estrebaria, 
entretanto, fora buscar Roderick, para dar conselhos e apoio moral. Nesse ponto, ele chegou, vestido apenas com um par de calas esfarrapadas, o peito magro brilhando 
com sua alvura na penumbra da estrebaria.
        - Vai ser difcil - disse, em dvida, avisado da situao e da sugesto de que eu o substitusse. -  complicado. H um jeito especial, mas  preciso um 
pouco de fora tambm.
        - No se preocupe -Jamie disse com confiana. - Claire  muito mais forte do que voc, seu imprestvel. Basta lhe dizer o que procurar no tato e o que fazer, 
e ela vai vir-lo rapidamente.
        Apreciei o voto de confiana, mas no tinha de modo algum tanto sangue-frio. Dizendo a mim mesma com firmeza que aquilo no era pior do que dar assistncia 
a uma cirurgia abdominal, recolhi-me a uma baia para trocar meu vestido por calas e um guarda-p rstico de aniagem. Lavei a mo e o brao at a altura do ombro 
com sabo de sebo.
        - Bem, ao ataque - murmurei baixinho e deslizei minha mo para dentro.
        Havia bem pouco espao de manobra e, no comeo, no sabia dizer o que eu estava tateando. Fechei os olhos para me concentrar melhor e ir buscando cautelosamente. 
Havia reas lisas e lugares pontudos. As partes lisas seriam o corpo e as pontudas as patas ou a cabea. Eram as patas que eu queria - as patas dianteiras, para 
ser especfica. Gradualmente, aCostumei-me  sensao do tato e  necessidade de ficar imvel quando vinha uma contrao; os msculos surpreendentemente fortes do 
tero contraam-se sobre minha mo e brao como uma braadeira, esmagando meus prprios ossos muito dolorosamente at a contrao comear a abrandar e eu poder retomar 
minha busca.
        Finalmente, meus dedos, tateando desajeitadamente, encontraram algo que eu sabia o que era.
        - Coloquei a mo no focinho dele! -gritei, triunfante. - Encontrei a cabea! *
        - timo, menina, timo! No solte! - Alec agachou-se ansiosamente ao meu lado, dando uns tapinhas reconfortantes na gua quando uma nova contrao comeou. 
Cerrei os dentes e apoiei a cabea contra o traseiro brilhante enquanto meu pulso era esmigalhado pela fora da contrao. No entanto, ela cessou e eu no larguei 
o focinho do potro. Levando a mo cautelosamente para cima, encontrei a curva da rbita ocular e a testa, em seguida a pequena elevao da orelha dobrada. Esperando 
atravessar mais uma contrao, segui a curva do pescoo para baixo, at a omoplata.
        - Est com a cabea virada sobre o ombro - relatei. - Pelo menos, a cabea est voltada na direo certa.
        - timo. - Jamie, junto  cabea da gua, deslizava a mo pelo pescoo castanho suado para acalm-la. -  provvel que as patas estejam dobradas embaixo 
do peito. Veja se consegue colocar a mo em um dos joelhos.
        Assim, continuei, tateando, apalpando, com o brao enterrado at o ombro na escurido morna do animal, sentindo a terrvel fora das contraes do parto 
e seu ansiado arrefecimento, lutando cegamente para alcanar meu objetivo. Senti-me como se eu mesma estivesse dando  luz e certamente era uma tarefa rdua.
        Finalmente, minha mo segurou um casco; podia sentir a superfcie arredondada e a borda aguada da curva ainda no utilizada. Seguindo as mstrues ansiosas, 
em geral contraditrias, de meus guias da melhor forma possvel, eu alternadamente puxava e empurrava, aos poucos girando o pesado volume da cria, trazendo uma pata 
para a frente, empurrando outra para trs, suando e gemendo com a gua.
        E ento, de repente, tudo funcionou. Uma contrao amainou e subitamente tudo deslizou sem percalos para o lugar certo. Esperei, sem me mover, pela prxima 
contrao. Ela veio e um pequeno focinho mido surgiu repentinamente, empurrando minha mo para fora com ele. As Minsculas narinas alargaram-se brevemente, como 
se estivessem interessadas nessa nova sensao, depois desapareceram novamente.
        - A prxima vai resolver! - Alec estava quase danando de contentamento, seu corpo deformado pela artrite saltando de um lado para o outro no feno. - Vamos, 
Losgann. Vamos, minha rzinha!
        Como se atendendo ao pedido, a gua emitiu um relinchar convulsivo Suas ancas flexionaram-se pronunciadamente e o potro deslizou suavemente para o feno limpo, 
numa enxurrada de patas ossudas e orelhas enormes.
        Sentei-me no feno, rindo tolamente. Eu estava coberta de secrees e sangue, exausta e dolorida, e cheirando fortemente aos aspectos menos agradveis de 
um cavalo. Eu estava eufrica.
        Fiquei sentada observando enquanto Willy e Roderick, com apenas uma das mos, cuidavam do recm-chegado, limpando-o com punhados de feno. E comemorei com 
o resto quando Losgann virou-se e lambeu-o, cutucando-o gentilmente e empurrando-o com o focinho para que ele ficasse de p em suas patas enormes e trpegas.
        - Um belo trabalho, dona! Belssimo! - Alec exultava, sacudindo minha mo gosmenta em congratulaes. Percebendo repentinamente que eu estava oscilando no 
lugar onde estava empoleirada e num estado deplorvel, voltou-se e gritou para um dos rapazes que trouxesse gua. Em seguida, deu a volta para trs de mim e colocou 
as mos velhas e calejadas nos meus ombros. Com uma surpreendente destreza e um toque suave, pressionou e massageou, desfazendo a tenso nos msculos dos meus ombros 
e relaxando os ns no meu pescoo.
        - Pronto, dona - disse, finalmente. - Trabalho duro, hein? - Sorriu para mim, depois olhou radiante, com verdadeira adorao, para o potro.
        - Belo rapaz - sussurrou. - Ento, quem  o meu lindo rapazinho? Jamie ajudou-me a me lavar e trocar de roupa. Meus dedos estavam enrijecidos demais para 
conseguir fechar os botes do corpete e eu sabia que meu brao inteiro estaria coberto de manchas roxas pela manh, mas sentia uma grande paz e satisfao.
        A chuva parecia durar para sempre, de modo que, quando finalmente um dia amanheceu ensolarado e luminoso, estreitei os olhos na luz do dia como uma toupeira 
recm-sada de sua toca.
        - Sua pele  to fina que posso ver o sangue movendo-se sob ela " Jamie disse, traando o caminho de um raio de sol pela minha barriga nua-- Posso seguir 
as veias de sua mo ao corao. - Deslizou o dedo suavemente do meu pulso para a curva do cotovelo, pelo lado interno da parte superior do meu brao e pela inclinao 
abaixo da minha clavcula.
        - Esta  a veia subclavicular - observei, olhando para baixo do meu nariz para o caminho que seu dedo percorria.
        - Ah, ? Ah, sim, porque est abaixo da clavcula. Conte-me mais. -O dedo deslizou mais para baixo. - Gosto de saber os nomes originados do latim; nunca 
pensei que seria to agradvel fazer amor com uma mdica.
        - Isso - eu disse, com preciso -  uma aurola, e voc sabe, porque eu lhe disse na semana passada.
        -  verdade - murmurou. - E olhe s, h uma outra. - A cabea brilhante afundou para deixar que sua lngua substitusse o dedo, depois viajou mais para baixo.
        - Umbilicus - eu disse com a respirao entrecortada.
        - Hum - murmurou, os lbios abafados abrindo-se num sorriso contra minha pele transparente. - E ento, o que  isso?
        - Diga-me voc - respondi, agarrando sua cabea com fora. Mas ele no conseguiu responder.
        Mais tarde, fiquei passando o tempo preguiosamente na minha cadeira no consultrio, deleitando-me sonhadoramente com as lembranas de acordar em uma cama 
de raios de sol, os lenis desalinhados em ofuscantes bancos de areia branca, como as dunas de uma praia. Uma das minhas mos descansava em meu seio e eu brinquei 
indolentemente com o mami-lo, apreciando a sensao de avolumar-se sob a palma da minha mo, sob o algodo fino do meu corpete.
        - Divertindo-se?
        A voz sarcstica vinda da porta me fez levantar to rapidamente que bati com a cabea em uma prateleira.
        - Oh - exclamei, um pouco irritada. - Geilie. Quem mais? O que est fazendo aqui?
        Ela deslizou para dentro do consultrio, movendo-se como se andasse sobre rodas. Eu sabia que ela possua ps; eu os vira. O que eu no conseguia imaginar 
 onde ela os colocava quando andava.
        - Vim trazer um pouco de aafro da Espanha para a sra. Fitz; ela estava precisando para a chegada do duque.
        - Mais especiarias? - perguntei, comeando a recuperar meu bom humor. - Se o sujeito comer metade do que ela est preparando para ele, vo ter que lev-lo 
rolando para casa.
        -- Podiam fazer isso agora mesmo. Ouvi dizer que ele  rolio como uma bola. - Descartando o assunto do duque e seu fsico, perguntou-me se eu gostaria de 
juntar-me a ela numa expedio pelos contrafortes mais Prximos.
        -- Estou precisando de um pouco de musgo - explicou. Sacudiu graciosamente as mos longas e desprovidas de ossos. - D uma excelente loo para as mos, 
fervido em leite com um pouco de l de carneiro.
        Lancei um olhar  abertura da minha janela, onde as partculas de poeira pareciam enlouquecidas na luz dourada. Um leve cheiro de fruta madura e de feno 
recm-cortado flutuava na brisa.
        - Por que no?
        Esperando enquanto eu reunia meus cestos e garrafas, Geilie caminhou pelo meu consultrio, mexendo nas peas e largando-as a esmo. Parou junto a uma mesinha 
e pegou o objeto que estava ali, franzindo a testa.
        - O que  isto?
        Parei o que estava fazendo e aproximei-me dela. Ela segurava um pequeno feixe de plantas secas, presas com trs fios enrolados; preto, branco e vermelho.
        -Jamie disse que  mau agouro.
        - Ele tem razo. Onde voc achou isso?
        Contei-lhe que o pequeno mao de plantas estava sob o meu travesseiro.
        - Fui procur-lo e o encontrei embaixo da minha janela no dia seguinte, onde Jamie o atirara. Eu pretendia lev-lo at sua casa e perguntar-lhe se sabia 
alguma coisa a respeito, mas me esqueci.
        Ela ficou tamborilando um dedo pensativamente contra os dentes da frente, sacudindo a cabea.
        - No, no posso dizer que saiba. Mas pode haver um modo de descobrir quem o deixou para voc.
        -  mesmo?
        - Sim. Venha  minha casa amanh de manh e eu lhe direi. Recusando-se a falar mais sobre o assunto, girou num floreio de manto verde, deixando-me para segui-la 
se quisesse.
        Levou-me at bem alto nos contrafortes, galopando quando havia estrada para isso, caminhando quando no havia. Depois de uma hora de viagem da vila, ela 
parou perto de um riacho, coberto pelos galhos pendentes de salgueiros-chores.
        Ladeamos o riacho e seguimos a esmo pelos contrafortes, colhendo as plantas tardias de vero que ainda sobreviviam, frutas silvestres, em amadurecimento, 
do comeo do outono, e os grossos e amarelos cogumelos que brotavam dos troncos das rvores nas pequenas e sombreadas ravinas.
        A figura de Geilie desapareceu nas samambaias acima de mim, quando parei para raspar um pouco de casca de lamo no meu cesto. Os glbulos de seiva seca na 
casca papircea pareciam gotas congeladas de sangue, o vermelho-escuro resplandecente da luz do sol preso em seu interior.
        Um barulho despertou-me do meu devaneio e olhei para cima da colina, na direo de onde parecia ter vindo.
        Ouvi o mesmo som outra vez; um choro agudo, como um miado. Parecia vir de cima, de uma fenda na rocha, perto do cume do monte. Larguei o cesto no cho e 
comecei a correr para cima.
        - Geilie! - gritei. - Venha at aqui! Algum abandonou um beb!
        O barulho de algum abrindo caminho apressadamente pelo mato e murmurando imprecaes precedeu-a morro acima, conforme ela se debatia em meio aos arbustos 
emaranhados na encosta. Seu rosto claro estava afogueado e contrariado e tinha galhos e folhas pelos cabelos.
        - O que em nome de Deus... - comeou a dizer e, em seguida, veio correndo. - Pelo sangue de Cristo! Coloque-o no cho! - Apressadamente tirou o beb dos 
meus braos, colocou-o no lugar onde eu o encontrara, numa pequena depresso na rocha. O buraco raso e liso, na forma de uma bacia, tinha menos de um metro de largura. 
Em um dos lados do buraco havia uma tigela rasa de madeira, cheia at a metade com leite fresco e, aos ps do beb, via-se um pequeno buqu de flores silvestres, 
amarrado com um pedao de cordo vermelho.
        - Mas ele est doente! - protestei, inclinando-me para a criana outra vez. - Quem iria deixar uma criana doente aqui em cima sozinha?
        A criana estava claramente muito doente; o rostinho contrado estava esverdeado, com profundas olheiras sob os olhos, e os pequenos punhos sacudiam-se fracamente 
sob o cobertor. A criana deixara-se cair frouxamente quando a peguei nos braos; admirava-me que tivesse tido foras para choramingar.
        - Os pais dela - Geilie disse laconicamente, segurando-me pelo brao para me impedir de pegar a criana novamente. - Deixe-a. Vamos sair daqui.
        - Os pais dela? - exclamei, indignada. - Mas...
        -  uma troca - disse com impacincia. - Deixe-a e venha. Agora! Arrastando-me com ela, fugiu de volta pelo mato. Protestando, segui-a ladeira abaixo at 
chegarmos, afogueadas e arquejantes, no sop da colina, onde a obriguei a parar.
        - O que  isso? - indaguei. - No podemos simplesmente abandonar uma criana doente assim a cu aberto. E o que quer dizer com uma troca?
        - Uma troca - disse, irritada. - Certamente voc deve saber o que  uma troca. Quando as fadas roubam uma criana humana, deixam uma das suas no lugar. Voc 
sabe que  uma criana trocada porque ela chora e se queixa o tempo todo e no cresce nem se desenvolve.
        - Claro que sei o que  - eu disse. - Mas voc no acredita nessa bobagem, no ?
        Lanou-me um olhar rpido e estranho, cheio de cautelosa suspeita. Em seguida, as linhas de seu rosto relaxaram-se para sua expresso normal e divertido 
cinismo.
        - No, no acredito - admitiu. - Mas as pessoas daqui acreditam. -Olhou nervosamente para o alto da encosta, mas no se ouviu mais nenhum barulho do buraco 
na pedra. - A famlia deve estar por perto. Vamos embora.
        Relutantemente, deixei que me puxasse em direo  vila.
        - Por que a colocaram l em cima? - perguntei, sentada em uma pedra para retirar minhas meias antes de atravessar um pequeno crrego. - Ser que esperam 
que o Povo Pequeno venha cur-la? - Ainda estava preocupada com a criana; parecia terrivelmente doente. No sabia o que havia de errado com ela, mas talvez fosse 
possvel ajudar.
        Talvez eu pudesse deixar Geilie na vila, depois voltar para pegar a criana. Mas teria que ser logo; olhei para o cu a leste, onde nuvens cinzas e carregadas 
escureciam rapidamente o dia com um tom prpura. Uma claridade rsea ainda podia ser vista a oeste, mas no devia restar mais do que meia hora de luz.
        Geilie passou a ala de corda tranada de seu cesto pelo pescoo, arregaou as saias e entrou no crrego, estremecendo com a gua fria.
        - No - disse. - Ou melhor, sim. Essa  uma das colinas de fadas e  perigoso dormir ali. Se voc deixar uma troca de um dia para o outro num lugar assim, 
o Povo vir resgat-la e deixar a criana humana que roubaram no seu lugar.
        - Mas no o faro, porque no  uma troca - eu disse, prendendo a respirao ao toque da gua de neve derretida. -  apenas uma criana doente. Pode muito 
bem no sobreviver a uma noite a cu aberto!
        - No sobreviver - ela disse secamente. - Estar morta pela manh. E peo a Deus que ningum nos tenha visto perto dela.
        Parei bruscamente no meio do ato de calar os sapatos.
        - Morta! Geilie, vou voltar para busc-la. No posso deixar a criana l. - Virei-me e comecei a atravessar o crrego outra vez.
        Ela me pegou por trs e me fez espatifar de cara na gua rasa. Debatendo-me e arquejando, consegui ficar de joelhos, espadanando gua em todas as direes. 
Geilie estava parada no meio do crrego com gua at a barriga da perna, as saias ensopadas, fitando-me com raiva.
        - Sua maldita inglesa idiota! - gritou. - No h nada que possa fazer! Est me ouvindo? Nada! Aquela criana j est praticamente morta! No vou ficar parada 
aqui e deixar que voc arrisque sua prpria vida e a minha por alguma idia maluca da sua cabea! - Bufando e resmungando, abaixou-se, pegou-me por baixo dos braos 
com as duas mos, fazendo-me ficar de p.
        - Claire - disse ansiosamente, sacudindo-me pelos braos. - Oua-me. Se voc se aproximar daquela criana e ela morrer, e ela vai morrer, acredite-me, eu 
j as vi assim, a famlia a culpar por isso. No v o perigo que isso representa? No sabe o que dizem a seu respeito na vila?
        Fiquei parada, tremendo, na brisa fria do pr-do-sol, dividida entre seu bvio pnico pela minha segurana e a idia de uma criana desamparada, morrendo 
aos poucos sozinha no escuro, com flores silvestres aos seus ps.
        - No - respondi, sacudindo o cabelo molhado do rosto. - Geilie, no, no posso. Terei cuidado, prometo, mas tenho que ir. - Livrei-me de suas mos e virei-me 
na direo da margem oposta, tropeando e chafurdando nas sombras incertas do leito do rio.
        Ouviu-se um grito abafado de exasperao atrs de mim, seguido de uma frentica agitao de guas na direo oposta. Bem, ao menos ela no me atrapalharia 
mais.
        Escurecia rapidamente e abri caminho pelo mato emaranhado o mais rpido que pude. No tinha certeza se conseguiria encontrar o monte certo se ficasse escuro 
antes de eu alcan-lo; havia vrios por perto, quase todos da mesma altura. E com fadas ou sem fadas, a idia de ficar vagando por ali sozinha no escuro no me 
agradava nem um pouco. A questo de como eu faria o caminho de volta ao castelo com um beb doente era algo que eu resolveria quando chegasse o momento.
        Encontrei o monte, finalmente, ao avistar o grupo de larios jovens que eu lembrava de ter visto no sop. J estava quase completamente escuro agora, uma 
noite sem luar, e eu tropeava e caa com freqncia. Os larios permaneciam juntos, conversando baixinho na brisa noturna, com estalidos e cliques e suspiros sussurrados.
        O maldito lugar  assombrado, pensei, ouvindo a conversa das folhas acima da minha cabea enquanto serpenteava no meu caminho pelo meio dos troncos esguios. 
No me surpreenderia se encontrasse um fantasma atrs da rvore seguinte.
        Mas fiquei surpresa. Na verdade, fiquei apavorada quando o vulto sombrio saiu de trs da rvore e me agarrou. Deixei escapar um grito agudo e comecei a golpe-lo.
        - Meu Deus - exclamei. - O que est fazendo aqui? - Encolhi-me por um instante contra o peito de Jamie, aliviada de v-lo, apesar do susto que ele me dera.
        Segurou-me pelo brao e virou-se para me levar para fora da floresta.
        - Vim busc-la - ele disse, a voz baixa. - Vim ao seu encontro porque j estava anoitecendo; encontrei Geillis Duncan perto do crrego de St. John e ela 
me disse onde voc estava.
        - Mas o beb... - comecei, virando-me para o monte.
        - A criana est morta - disse secamente, puxando-me de volta. - Eu fui l primeiro, para ver.
        Segui-o, ento, sem objeo, perturbada com a morte da criana, mas aliviada pelo fato de que no teria, afinal, que enfrentar a subida at o pico das fadas 
ou o longo trajeto de volta sozinha. Oprimida pela escurido e pelas rvores sussurrantes, no falei nada at atravessarmos o crrego outra vez. Ainda molhada da 
imerso prvia, no me dei ao trabalho de remover as meias, mas sa chafurdando para o outro lado de qualquer maneira. Jamie, ainda seco, continuou assim, saltando 
da margem para uma pedra no meio do crrego que se destacava acima da corrente, depois deu um pulo para o meu lado como um atleta de salto a distncia.
        - Voc faz idia de como  perigoso andar por a sozinha  noite, Sassenach? - indagou. No parecia com raiva, apenas curioso.
        - No... quero dizer, sim. Desculpe-me se o deixei preocupado. Mas eu no podia deixar uma criana l, eu simplesmente no podia.
        - Sim, eu sei. - Abraou-me rapidamente. - Voc tem um bom corao, Sassenach. Mas voc no faz a menor idia daquilo com que est lidando aqui.
        - Fadas, hein? - Eu estava cansada e perturbada com o incidente, mas disfarava com petulncia. - No tenho medo de supersties. - Um pensamento me ocorreu. 
- Voc acredita em fadas, bebs trocados e tudo isso?
        Ele hesitou por um instante antes de responder.
        - No. No, no acredito em tais coisas, embora duvido que fosse passar a noite em uma colina de fadas, ainda assim. Mas eu sou um homem educado, Sassenach. 
Tive um professor particular alemo na casa de Dougal, muito bom, que me ensinou latim e grego e tudo o mais. Mais tarde, quando fui para a Frana aos dezoito anos, 
bem, estudei histria e filosofia e vi que o mundo era muito mais do que charnecas e ravinas e monstros no lago. Mas essa gente... - Esticou um dos braos, abrangendo 
a escurido atrs de ns.
        - Nunca estiveram a mais de um dia de distncia de onde nasceram, exceto por alguma coisa importante como um encontro do cl e isso talvez duas vezes na 
vida. Vivem entre os vales estreitos e os lagos e no sabem mais nada do mundo alm do que o padre Bain lhes diz domingo na igreja. Isso e as histrias antigas.
        Afastou um galho de amieiro e eu agachei-me para passar por baixo. Estvamos na trilha de veados que eu e Geilie seguramos horas antes. Senti-me encorajada 
pela nova evidncia de que ele sabia orientar-se, mesmo no escuro. Longe do monte das fadas, falou com a voz natural, apenas parando ocasionalmente para afastar 
algum mato do caminho.
        - Essas histrias no passam de diverso nas mos de Gwyllyn, quando ele se senta no salo bebendo vinho do Reno. - Seguiu  minha frente pelo caminho em 
descida e sua voz flutuava de volta para mim, suave e enftica no ar frio da noite.
        - No entanto, aqui e mesmo na vila,  diferente. As pessoas vivem de acordo com essas histrias. Acredito que haja uma certa verdade por trs de algumas 
delas.
        Pensei nos olhos cor de mbar do monstro do lago e imaginei que outras seriam verdadeiras.
        - E outras... bem... - Sua voz amainou-se e tive que me esforar para ouvi-lo. - Para os pais daquela criana, talvez os console um pouco acreditar que foi 
a criana trocada que morreu e pensar em seu prprio filho, saudvel e contente, vivendo para sempre com as fadas.
        Chegamos aos cavalos e em meia hora as luzes do Castelo Leoch brilhavam na escurido nos dando as boas-vindas. Nunca pensei que consideraria aquela construo 
inspita um posto avanado da civilizao, mas neste momento as luzes pareciam as de um farol de iluminao espiritual. Somente quando nos aproximamos  que percebi 
que a impresso de luz devia-se  fileira de lanternas acesas ao longo do parapeito da ponte.
        - Alguma coisa aconteceu - eu disse, virando-me para Jamie. E vendo-o pela primeira vez na luz, percebi que no estava usando sua habitual camisa surrada 
e kilt encardido. Sua camisa de linho imaculadamente branca brilhava  luz das lanternas e seu melhor - seu nico - casaco de velu-do estava dobrado sobre a sela.
        - Sim - disse, balanando a cabea. - Foi por isso que fui peg-la. O duque finalmente chegou.
        O duque foi uma surpresa para mim. No sei exatamente o que eu esperava, mas no era o entusiasta de caa de rosto vermelho, cordial, expansivo, de olhos 
azuis claros que estavam sempre um pouco apertados, como se olhasse para o sol seguindo o vo de um faiso.
        Imaginei por um instante se toda aquela encenao anterior com relao ao duque no seria um pouco exagerada. No entanto, olhando em torno do salo, notei 
que todos os rapazes com menos de dezoito anos exibiam um ar ligeiramente preocupado, mantendo os olhos fixos no duque enquanto ele falava e ria animadamente com 
Colum e Dougal. Portanto, no era apenas encenao; eles estavam avisados.
        Quando fui apresentada ao duque, tive alguma dificuldade em manter uma expresso imparcial. Ele era um homem grandalho, rijo e em boa forma, do tipo que 
se costuma ver alardeando suas opinies em pubs, derrotando os opositores com a fora do estardalhao e da repetio. Eu fora avisada,  claro, pela histria de 
Jamie, mas a impresso fsica era to esmagadora que quando o duque curvou-se sobre a minha mo e disse "Que encantador encontrar uma compatriota nesse lugar remoto, 
madame", numa voz de rato cansado, tive que morder a parte de dentro de minha bochecha para no cometer uma gafe em pblico.
        Cansado da viagem, o duque e sua comitiva foram cedo para a cama. Na noite seguinte, no entanto, houve msica e conversas depois do jantar e Jamie e eu nos 
unimos a Colum, Dougal e o duque. Sandringham ficou cada vez mais loquaz sob os efeitos do vinho de Colum e falava sem parar, discorrendo igualmente sobre os horrores 
de viajar nas Highlands e as belezas do campo. Ouvamos educadamente e eu tentei no deixar que meus olhos encontrassem os de Jamie enquanto o duque discorria com 
sua voz aguda sobre a histria de suas dificuldades.
        - Um eixo de roda quebrou perto de Stirling e ficamos retidos durante trs dias, debaixo de um aguaceiro, veja bem, at meu lacaio encontrar um ferreiro 
para vir consertar o maldito eixo. E menos de doze horas depois, camos no maior buraco j visto e a droga do eixo quebrou de novo! Depois, um cavalo perdeu a ferradura 
e tivemos que descarregar a carruagem e caminhar ao lado dela, na lama, conduzindo o cavalo manco. E ento... - Conforme a histria continuava, de desgraa em desgraa, 
senti uma crescente necessidade de rir e tentei sufoc-la com mais vinho, provavelmente um erro de julgamento.
        - Mas a caa, MacKenzie, que caa! - o duque exclamou a certa altura, revirando os olhos em xtase. - Eu mal podia acreditar. No  de admirar que voc oferea 
tal mesa. - Bateu delicadamente na barriga grande e slida. -Juro que daria meus dentes caninos para pegar um veado como o que vimos h dois dias; um esplndido 
animal, simplesmente esplndido. Saltou dos arbustos bem na frente da carruagem, minha querida - confidenciou-me. - Assustou os cavalos, de modo que por pouco no 
samos da estrada outra vez
        Colum ergueu o belo recipiente de vinho em forma de sino, arquean-do interrogativamente uma das sobrancelhas. Quando serviu os copos que se apresentaram, 
disse:
        - Bem, talvez possamos arranjar uma caa para Sua Excelncia. O meu sobrinho  um timo caador. - Olhou significativamente por baixo das sobrancelhas para 
Jamie; houve um aceno de cabea quase imperceptvel em resposta.
        Colum recostou-se em sua cadeira, recolocando o recipiente na mesa, e disse descontraidamente:
        - Sim, vamos providenciar isso. Talvez no comeo da semana que vem.  muito cedo para faiso, mas a caa ao veado estar tima. - Voltou-se para Dougal, 
recostado em uma poltrona acolchoada, um pouco afastado para um dos lados. - Meu irmo poder acompanh-los; caso pretenda seguir para o norte, ele pode lhe mostrar 
as terras que discutamos anteriormente.
        - Fantstico, fantstico! - O duque estava encantado. Deu um tapinha na perna de Jamie; vi os msculos enrijecerem-se, mas Jamie no se mexeu. Sorriu tranqilamente 
e o duque deixou sua mo demorar-se apenas um instante a mais. Ento, Sua Excelncia percebeu que eu o estava olhando e sorriu jovialmente para mim, a expresso 
do rosto dizendo: "Vale a pena tentar, no ?" A despeito de mim mesma, correspondi ao sorriso. Para minha grande surpresa, gostei muito do sujeito.
        Com a agitao da chegada do duque, eu me esquecera da oferta de Geilie de me ajudar a descobrir quem me enviara o mau agouro. E depois da cena desagradvel 
com a criana trocada no monte das fadas, no estava certa se gostaria de tentar qualquer coisa que ela me sugerisse.
        Ainda assim a curiosidade ultrapassou a desconfiana e quando Colum pediu a Jamie para acompanhar os Duncan ao castelo para o banquete do duque dois dias 
mais tarde, eu o acompanhei.
        Foi assim que Jamie e eu nos encontrvamos na sala dos Duncan naquela quinta-feira, recebidos pelo fiscal com uma espcie de amizade constrangida, enquanto 
a mulher terminava de se aprontar no andar de cima. Bastante recuperado dos efeitos de sua ltima crise gstrica, Arthur ainda assim no parecia muito saudvel. 
Como a maioria dos gordos que perde muito peso de repente, a gordura desaparecera do seu rosto, mas no de sua barriga. Sua pana ainda intumescia a seda verde em 
sua cintura, enquanto a pele do rosto caa flacidamente em grandes rugas.
        - Talvez eu possa subir e ajudar Geilie com seu cabelo ou algo assim -sugeri. - Trouxe-lhe uma fita nova. - Antecipando a possvel necessidade de uma desculpa 
para conversar com Geilie sozinha, trouxera um pequeno embrulho comigo. Apresentando-o como uma desculpa, atravessei a porta e subi as escadas antes que Arthur pudesse 
protestar.
        Ela estava  minha espera.
        - Entre - disse -, vamos at meu aposento particular para isto. Temos que nos apressar, mas no levar muito tempo.
        Segui Geilie pela escada estreita, em caracol. Os degraus tinham alturas irregulares; alguns eram to altos que eu tinha que levantar minhas saias para no 
tropear. Conclu que os carpinteiros do sculo XVII ou usavam mtodos defeituosos de mensurao ou tinham muito senso de humor.
        O santurio particular de Geilie ficava no topo da casa, num dos stos remotos acima das dependncias dos criados. Era protegido por uma porta com tranca, 
aberta por uma chave realmente gigantesca, que Geilie retirou do bolso do seu avental; devia ter pelo menos quinze centmetros de comprimento, a argola decorada 
com arabescos em forma de flores e trepadeiras. A chave devia pesar cerca de meio quilo; segurada pela haste, daria uma boa arma. Tanto a fechadura quanto as dobradias 
estavam bem azeitadas e a porta pesada abriu-se para dentro silenciosamente.
        O sto era pequeno, confinado pelas guas-furtadas providas de empenas que acompanhavam a frente da casa. Todo espao de parede era coberto de prateleiras, 
abrigando jarros, garrafas, frascos, botijas e equeres. Inmeros maos de ervas secando, amarrados cuidadosamente com fios de cores diversas, perfeitamente pendurados 
em fileiras dos cairos do telhado, roando meus cabelos com uma poeira aromtica confor-me passvamos por baixo.
        No entanto, no se parecia nem um pouco ao herbanrio claro e ordenado do andar inferior. Era apinhado, quase atravancado, e escuro, apesar das guas-furtadas.
        Uma das prateleiras exibia livros, a maioria antigo e desfazendo-se, sem identificao nas lombadas. Passei o dedo curiosamente pela fileira dos livros encadernados 
em couro. A maior parte era de couro de boi, mas havia dois ou trs de um material diferente; algo macio, mas desagradavel-mente gorduroso ao toque. E um que parecia 
encadernado com capa de pele de peixe. Retirei um dos livros e folheei-o cautelosamente. Era manuscrito, em uma mistura de francs arcaico e latim ainda mais obsoleto, 
mas pude decifrar o ttulo. L'Grimoire d'le Comte St. Germain.
        Fechei o livro e recoloquei-o na prateleira, sentindo um pequeno choque. A grimoire. Um livro de magia. Podia sentir o olhar de Geilie fixo em minhas costas 
e virei-me, deparando-me com um misto de malcia e cautelosa especulao. O que eu faria, agora que sabia?
        - Ento, no se trata apenas de boatos, hein? - eu disse, sorrindo. -Voc realmente  uma bruxa. - Imaginava at onde iria tudo aquilo e se ela mesma acreditava, 
ou se no passava da aparncia exterior de uma sofisticada simulao que ela usava para aliviar o tdio do casamento com Arthur. Tambm imaginava que tipo de magia 
ela praticava - ou achava que praticava.
        - Ah, branca - disse, sorrindo. - Definitivamente, magia branca. Pensei com pesar que Jamie devia estar certo sobre meu rosto - todo mundo parecia ser capaz 
de dizer o que eu estava pensando.
        - Bem, isso  bom - eu disse. - Eu mesma no tenho vocao para danar em volta de fogueiras  meia-noite e cavalgar em vassouras, quanto mais beijar o traseiro 
do diabo.
        Geilie atirou a cabea para trs e soltou uma gargalhada, encantada.
        - Voc no beija o de ningum, isso eu posso ver - ela disse. - Nem eu. Embora se eu tivesse um doce e fogoso diabo como o seu na minha cama, no diga que 
no o fizesse com o tempo.
        - Isso me faz lembrar... - comecei, mas ela j se voltara e iniciara seus preparativos, murmurando consigo mesma.
        Verificando primeiro se a porta estava bem trancada atrs de ns, Geilie atravessou o aposento at a gua-furtada e comeou a remexer em um ba sob o banco 
da janela. Retirou uma panela grande e rasa e uma comprida vela branca enfiada em um castial de cermica. Uma nova busca me revelou uma colcha usada, que ela estendeu 
no assoalho como proteo contra farpas e poeira.
        - O que exatamente est planejando fazer, Geilie? - perguntei, examinando os preparativos com desconfiana. De imediato, no via nenhuma inteno sinistra 
em uma panela, uma vela e uma colcha, mas eu era uma bruxa novata, para dizer o mnimo.
        - Uma invocao - respondeu, puxando a colcha pelas pontas, de modo que os lados ficassem alinhados com as tbuas do assoalho.
        - Para invocar quem? - perguntei. Ou o qu.
        Ela levantou-se e ajeitou os cabelos para trs. Finos e lisos, soltavam-se de seus prendedores. Murmurando, arrancou os grampos dos cabelos e deixou-os cair 
numa cortina lisa e brilhante, quase dourada.
        - Ah, fantasmas, espritos, vises. Qualquer coisa de que possa precisar - disse. - Comea da mesma forma em qualquer caso, mas as ervas e as palavras so 
diferentes para cada um. O que queremos agora  uma viso. Para ver quem lhe deseja mal. Ento, voc poder virar o mau agouro de volta para essa pessoa.
        - H, bem... - Na verdade, eu no tinha nenhum desejo de vingana, mas estava curiosa, tanto para ver como era a invocao quanto para saber quem deixara 
o mau agouro para mim.
        Colocando a panela no meio da colcha, despejou gua de uma garrafa dentro do recipiente, explicando-me:
        - Pode usar qualquer vasilha grande o suficiente para dar um bom reflexo, embora o livro de magia diga para usar uma bacia de prata. At mesmo um lago ou 
uma poa d'gua l fora podem servir para alguns tipos de invocao, embora deva ser um local isolado.  preciso paz e silncio para fazer isso.
        Ela passou rapidamente de uma janela a outra, fechando as pesadas cortinas negras at praticamente toda luz do aposento se extinguir. Eu mal conseguia divisar 
a figura esbelta de Geilie movendo-se rapidamente pela penumbra, at ela acender a vela. A chama bruxuleante iluminou seu rosto enquanto ela a levava de volta para 
a colcha, lanando sombras angulosas sob o nariz empinado e o maxilar cinzelado.
        Colocou a vela junto  panela de gua, no lado oposto a mim. Encheu a panela cuidadosamente, to cheia que a gua abaulava-se ligeiramente acima da borda, 
s no transbordando pela ao da tenso superficial. Inclinando-me sobre ela, pude ver que a superfcie da gua fornecia um excelente reflexo, muito melhor do que 
qualquer outro obtido em qualquer dos espelhos do castelo. Como se lesse minha mente outra vez, Geilie explicou que alm de servir para invocar espritos, a panela 
refletora era um excelente acessrio para pentear o cabelo.
        - No esbarre nela ou voc vai ficar ensopada - avisara, franzindo a testa em concentrao enquanto acendia a vela. Algo a respeito do tom prtico da observao, 
to prosaico em meio queles preparativos sobrenaturais, me fez lembrar de algum. Erguendo os olhos para a figura plida e esbelta, elegantemente inclinada sobre 
a panela, no conseguia adivinhar quem ela me fazia lembrar. Mas,  claro. Embora ningum pudesse ser mais diferente da figura antiquada diante do bule de ch no 
gabinete do reverendo Wakefield, o tom de voz era exatamente o da sra. Graham.
        Talvez compartilhassem uma atitude, um pragmatismo que considerava o oculto como uma simples coleo de fenmenos, como as condies do tempo. Algo a ser 
abordado com cauteloso respeito,  claro - do mesmo modo como se deve ter cuidado ao usar uma faca de cozinha -, mas certamente nada a evitar ou temer.
        Ou talvez fosse o cheiro de loo de alfazema. As roupas soltas e esvoa-antes de Geilie sempre cheiravam s essncias que ela destilava: cravo-da-ndia, 
camomila, louro, nardo, hortel, manjerona. Hoje, entretanto, era alfazema que emanava das dobras de suas vestes brancas. O mesmo cheiro que permeava o algodo azul 
prtico da sra. Graham e flutuava das rugas de seu peito ossudo.
        Se o peito de Geilie tambm era escorado por baixo por tais suportes sseos, no havia nenhum vestgio visvel, apesar do decote baixo da vestimenta de Geilie. 
Era a primeira vez que eu via Geilie Duncan en dshabille; normalmente, ela usava as roupas severas e volumosas, abotoadas at o pescoo, que eram adequadas  mulher 
de um fiscal. A generosa opulncia agora revelada era uma surpresa, uma abundncia cremosa quase do mesmo tom da roupa que usava e me deu uma idia do motivo pelo 
qual um homem como Arthur Duncan se casaria com uma jovem sem nenhum tosto, de uma famlia sem nenhuma distino. Meus olhos dirigiram-se involuntariamente para 
a fileira de frascos cuidadosamente rotulados ao longo da parede,  procura de nitrato de potssio.
        Geilie selecionou trs frascos da prateleira, despejando uma pequena poro de cada um na tigela de um minsculo fogareiro de metal. Acendeu a camada de 
carvo que havia embaixo com a chama da vela e assoprou a chama fraca para anim-la. Uma fumaa aromtica comeou a se desprender conforme as brasas se intensificaram.
        O ar no sto estava to parado que a fumaa acinzentada ergueu-se diretamente para cima sem se difundir, formando uma coluna que reproduzia o formato da 
vela branca e alta. Geilie sentou-se entre as colunas como uma sacerdotisa em seu templo, as pernas graciosamente dobradas sob o corpo.
        - Bem, acho que isso vai servir. - Limpando energicamente farelos de alecrim dos dedos, Geilie examinou a cena com satisfao. As cortinas negras, com seus 
smbolos msticos-, impediam a entrada de qualquer raio de sol intruso, deixando a vela como nica fonte de iluminao direta. A chama refletia-se difusamente pela 
panela de gua parada, que parecia brilhar como se ela, tambm, fosse uma fonte de luz, ao invs de um reflexo.
        - E agora? - perguntei.
        Os grandes olhos cinzas brilharam como a gua, iluminados de expectativa. Meneou as mos pela superfcie da gua, depois as entrelaou entre as pernas.
        - Fique sentada em silncio por um instante - disse. - Oua os batimentos do seu corao. Pode ouvi-lo? Respire com naturalidade, devagar e profundamente. 
- Apesar da vivacidade de sua expresso, sua voz era calma e lenta, em distinto contraste com sua conversa normalmente animada.
        Segui obedientemente as instrues, sentindo minha pulsao diminuir conforme a respirao firmava-se num ritmo regular. Reconheci o cheiro de alecrim na 
fumaa, mas no tinha certeza sobre as outras duas ervas: dedaleira, talvez, ou cincoem-rama? Havia pensado que as flores roxas eram de dulamara, mas isso no era 
possvel. O que quer que fossem, a lentido da minha respirao no poderia ser atribuda somente ao poder de sugesto de Geilie. Sentia como se um peso exercesse 
uma presso no meu esterno, reduzindo a intensidade da minha respirao independente da minha vontade.
        A prpria Geilie permanecia sentada perfeitamente imvel, obser-vando-me sem piscar. Balanou a cabea uma vez e eu olhei para baixo obedientemente, para 
a superfcie parada da gua.
        Ela comeou a conversar, de uma forma regular, coloquial, que me fez lembrar novamente da sra. Graham falando para o sol no crculo de pedras.
        As palavras no eram conhecidas, mas, ainda assim, tampouco nuas, eram desconhecidas. Era uma lngua estranha, mas que eu achava que deveria conhecer, como 
se as palavras fossem pronunciadas logo abaixo do meu nvel de audio.
        Comecei a sentir minhas mos entorpecidas e quis mov-las de sua posio, entrelaadas no meu colo, mas recusavam-se a obedecer. Sua voz montona continuou, 
suave e persuasiva. Agora eu sabia que compreendia o que estava sendo dito, mas ainda no conseguia trazer as palavras  superfcie da minha mente.
        Compreendi vagamente que ou eu estava sendo hipnotizada ou estaria sob a influncia de alguma droga e minha mente agarrou-se com fora  borda do pensamento 
consciente, resistindo  atrao da fumaa aromtica. Podia ver meu reflexo na gua, as pupilas reduzidas a duas pontas de alfinete, os olhos arregalados como duas 
corujas cegas pelo sol. A palavra pio atravessou meus pensamentos que gradualmente se desfaziam.
        - Quem  voc? - No sabia qual de ns duas fizera a pergunta, mas senti minha prpria garganta mover-se quando respondi:
        - Claire.
        - Quem a enviou aqui?
        - Eu vim.
        - Por que voc veio?
        - No posso dizer.
        - Por que no pode dizer?
        - Porque ningum acreditar em mim.
        A voz em minha cabea tornou-se ainda mais branda, amvel, insinuante.
        - Vou acreditar em voc. Acredite em mim. Quem  voc?
        - Claire.
        Uma voz alta e repentina quebrou o feitio. Geilie sobressaltou-se e seu joelho esbarrou na bacia, desfazendo a superfcie espelhada.
        - Geillis? Querida? - Uma voz falou do outro lado da porta, hesitante, mas autoritria. - Temos que ir, querida. Os cavalos esto prontos e voc ainda no 
se vestiu.
        Murmurando baixinho algo grosseiro, Geilie se levantou e abriu a janela de par em par, de modo que o ar fresco soprasse em meu rosto, fazendo-me piscar e 
desanuviando um pouco a minha mente.
        Ficou parada, olhando-me especulativamente, depois se inclinou para me ajudar a ficar de p.
        - Vamos - disse. - Sentiu-se um pouco estranha, no? s vezes, as pessoas reagem assim.  melhor deitar-se um pouco em minha cama enquanto eu me visto.
        Deitei-me sobre sua colcha no quarto embaixo, os olhos fechados, ouvindo o leve farfalhar que Geilie fazia em seu quarto de vestir particular, perguntando-me 
o que teria sido tudo aquilo. Nada a ver com o mau agouro ou quem o enviara, obviamente. Apenas com a minha identidade. Com as faculdades mentais retornando gradualmente 
 sua vivacidade, ocorreu-me se Geilie no seria talvez uma espi de Colum. Na posio que ocupava, ela sabia dos negcios e dos segredos de toda a regio. E quem 
mais, alm de Colum, estaria to interessado em minhas origens?
        O que teria acontecido, imaginei, se Arthur no tivesse interrompido a invocao? Eu teria ouvido, em algum lugar na fumaa perfumada, a injuno padro 
do hipnotizador "Quando voc acordar, no se lembrar de nada?" Mas eu me lembrava e isso me fazia pensar.
        Na ocasio, entretanto, no houve a menor chance de perguntar a Geilie. A porta do quarto foi aberta de par em par e Arthur Duncan entrou. Atravessando o 
quarto em direo  porta do quarto de vestir de Geilie, ele bateu uma vez, apressadamente, e entrou.
        Ouviu-se um pequeno grito de surpresa l de dentro e em seguida um silncio sepulcral.
        Arthur Duncan reapareceu  porta, os olhos arregalados e desfocados, o rosto to lvido que eu achei que talvez ele estivesse sofrendo algum tipo de ataque. 
Pus-me de p num salto e corri em sua direo, enquanto ele se apoiava no batente da porta.
        Entretanto, antes que eu pudesse alcan-lo, afastou-se bruscamente da porta e saiu do quarto, cambaleando ligeiramente, passando por mim como se no me 
visse.
        Eu mesma bati na porta de Geilie.
        - Geilie! Voc est bem?
        Houve um momento de silncio, depois uma voz perfeitamente serena disse:
        - Sim, claro. J vou sair.
        Quando por fim descemos as escadas, encontramos Arthur, aparentemente bastante recuperado, saboreando um conhaque com Jamie. Parecia um pouco distrado, 
como se estivesse com o pensamento distante, mas saudou sua mulher com um ligeiro cumprimento quando ela apareceu, antes de mandar o criado ir buscar os cavalos.
        O banquete estava comeando quando chegamos e o fiscal e sua mulher foram conduzidos aos seus lugares de honra na mesa principal. Jamie e eu, de condio 
um pouco inferior, ocupamos nossos lugares em uma mesa com Rupert e Ned Gowan.
        A sra. Fitz conseguira se superar e irradiava satisfao com os elogios que se acumulavam sobre a comida, a bebida e os demais preparativos.
        O jantar estava, de fato, delicioso. Eu nunca provara faiso assado e recheado com castanhas ao mel e j me servia da terceira fatia quando Ned Gowan, observando-me 
e achando certa graa no meu apetite, perguntou se eu j havia experimentado o leito.
        Minha resposta foi interrompida por uma agitao na outra ponta do salo. Colum erguera-se de sua mesa e caminhava em minha direo, acompanhado do Velho 
Alec MacMahon.
        - Vejo que no h limites para os seus talentos, sra. Fraser - Colum observou, fazendo uma ligeira mesura. Um largo sorriso marcava as interessantes feies.
        - De cuidar de ferimentos e curar doentes a ajudar potros a nascerem. Logo estaremos recorrendo  senhora para fazer levantar os mortos, eu suponho. - Houve 
uma risada furtiva geral, embora eu tenha notado um ou dois homens olhando nervosamente na direo do padre Bain, presente nesta noite, que metodicamente se empanturrava 
de carneiro assado num canto do salo.
        - De qualquer modo - continuou Colum, enfiando a mo no bolso do casaco -, permita-me oferecer-lhe uma pequena recompensa como sinal de gratido. - Entregou-me 
uma pequena caixa de madeira, com o braso dos MacKenzie talhado na tampa. Eu no sabia o quanto um cavalo Losgann era valioso e mentalmente agradeci a quaisquer 
espiritos benignos que houvessem presidido tais acontecimentos por nada ter dado errado.
        - No h de qu - eu disse, tentando retribuir a gentileza. - No fiz nada de extraordinrio. S tive sorte de ter mos pequenas.
        - Ainda assim. Se preferir, considere-o um pequeno presente de casamento, mas gostaria que aceitasse.
        Com um aceno de Jamie, aceitei relutantemente a caixa e a abri. Continha um belo rosrio de azeviche, cada conta intricadamente esculpida e o crucifixo incrustado 
de prata.
        -  lindo - disse, sinceramente. E era, embora eu no tivesse a menor noo do que deveria ser feito com ele. Embora nominalmente catlica, fora criada por 
tio Lamb, o mais completo agnstico, e fazia apenas uma vaga idia do significado de um rosrio. Mesmo assim, agradeci a Colum efusivamente e entreguei-o a Jamie 
para guard-lo para mim na bolsa do seu kilt.
        Fiz uma reverncia para Colum, feliz de ver que eu estava dominando a arte de fazer mesuras sem cair de cara no cho. Ele abriu a boca para pedir licena 
educadamente, mas foi interrompido pelo barulho de algo se quebrando atrs de mim. Virando-me, no consegui ver nada alm de costas e cabeas, conforme as pessoas 
saltavam de seus bancos para se aglomerar em torno do que quer que tenha causado o tumulto. Colum deu a volta  mesa com alguma.dificuldade, afastando a multido 
com um aceno impaciente da mo. A medida que as pessoas recuavam respeitosamente abrindo caminho para sua passagem, pude ver a figura redonda de Arthur Duncan no 
cho, as pernas e os braos debatendo-se convulsivamente, afastando as mos prestimosas dos que queriam ajudar. Sua mulher abriu caminho pela multido sussurrante, 
deixou-se cair no cho ao lado dele e fez uma tentativa v de embalar a cabea dele em seu colo. O doente fincou os calcanhares no cho e arqueou as costas, produzindo 
barulhos estrangulados, como se estivesse asfixiado.
        Erguendo a cabea, os olhos cinzas de Geilie vasculharam ansiosamente a multido como se procurasse algum. Presumindo que ela estivesse procurando por mim, 
fiz o caminho que oferecia a menor resistncia, esquivando-me e engatinhando por baixo da mesa.
        Conseguindo chegar ao lado de Geilie, agarrei o rosto de seu marido entre as minhas mos e tentei abrir seus maxilares. Pensei, pelos sons que produzia, 
que talvez tivesse se engasgado com um pedao de carne, que ainda podia estar alojado na traquia.
        No entanto, seus maxilares estavam cerrados e rgidos, os lbios azulados e salpicados de uma saliva espumante que no condizia com sufocao. Mas ele certamente 
estava sufocando; o peito gordo subia em vo, lutando por ar.
        - Depressa, virem-no de lado - eu disse. Vrias mos se estenderam imediatamente para ajudar e o corpo pesado foi habilmente virado, as costas largas de 
sarja preta voltadas para mim. Enfiei a base da minha mo entre as omoplatas, batendo nele repetidamente com pancadas surdas, regulares. As costas volumosas estremeceram 
ligeiramente com os golpes, mas no houve nenhum movimento espasmdico em resposta como o de uma obstruo repentinamente liberada.
        Agarrei um ombro carnudo e coloquei-o de costas outra vez. Geilie inclinou-se bem perto do rosto com o olhar fixo, chamando o nome dele, massageando a garganta 
mosqueada. Os olhos agora estavam revirados para trs e os calcanhares comearam a bater com menos fora. As mos, cerradas de agonia, repentinamente se arremessaram 
para os lados, atingindo no rosto um espectador ansiosamente agachado.
        Os rudos engrolados cessaram subitamente e o corpo robusto ficou flcido de repente, inerte como um saco de cevada nas lajotas de pedra. Busquei sua pulsao 
freneticamente em um dos pulsos frouxos, notando pelo canto do olho que Geilie fazia o mesmo, erguendo o queixo redondo e bem barbeado e pressionando as pontas dos 
dedos com fora na carne sob o ngulo do maxilar,  cata da cartida.
        Ambas as buscas foram inteis. O corao de Arthur Duncan, j sobrecarregado pela necessidade de bombear sangue atravs daquele arcabouo macio por tantos 
anos, desistira de lutar.
        Experimentei todas as tcnicas de ressuscitamento que conhecia, embora sabendo que seriam inteis: flexo dos braos, massagem no peito, at mesmo respirao 
boca-a-boca, por mais desagradvel que fosse, mas sem o resultado esperado. Arthur Duncan estava definitivamente morto.
        Endireitei-me exausta e recuei, quando o padre Bain, com um olhar rancoroso para mim, caiu de joelhos ao lado do fiscal e comeou a ministrar-lhe apressadamente 
a extrema-uno. Minhas costas e braos doam e meu rosto estava estranhamente entorpecido. A algazarra ao meu redor pareceu peculiarmente distante, como se uma 
cortina me separasse do salo apinhado de gente. Fechei os olhos e esfreguei as mos pelos meus lbios formigantes, tentando apagar o gosto de morte.
        Apesar da morte do fiscal, e das subseqentes formalidades de exquias e sepultamento, a caa ao veado do duque foi adiada por apenas uma semana.
        A constatao da iminente partida de Jamie me causava uma profunda depresso; de repente, compreendi o quanto eu ansiava para v-lo  mesa do jantar depois 
de um dia de trabalho, como meu corao saltava quando eu o via inesperadamente em momentos ociosos durante o dia e do quanto eu dependia de sua companhia e de sua 
presena slida e reconfortante em meio s complexidades da vida no castelo. E, para ser bastante honesta, como eu gostava do calor e da maciez de seu corpo em minha 
cama  noite e de acordar com seus beijos desgrenhados e sorridentes todas as manhs. A perspectiva de sua ausncia era melanclica.
        Ele abraou-me com fora, minha cabea aninhada sob seu queixo.
        - Vou sentir sua falta, Jamie - eu disse, ternamente.
        Ele me abraou com mais fora e deu uma risadinha pesarosa.
        - Eu tambm, Sassenach. Eu no esperava por isso, para dizer a verdade, mas me di muito deix-la. - Acariciou minhas costas docemente, os dedos traando 
as elevaes das vrtebras.
        -Jamie... tome cuidado.
        Pude sentir o ronco profundo do riso abafado em seu peito ao responder.
        - Com o duque ou com o cavalo? - Ele estava, para minha grande apreenso, pretendendo montar Donas para a caada ao veado. Eu tinha vises do imenso alazo 
mergulhando em um penhasco por pura teimosia ou esmagando Jamie sob aqueles cascos letais.
        - Com ambos - respondi secamente. - Se o cavalo o jogar no cho e voc quebrar uma perna, ficar  merc do duque.
        -  verdade. Mas Dougal estar l. Ri com sarcasmo.
        - Ele quebrar a outra perna.
        Ele riu e inclinou-se para beijar-me.
        - Terei cuidado, mo duinne. Me far a mesma promessa?
        - Sim - eu disse, com sinceridade. - Est se referindo a quem deixou o mau agouro?
        Seu semblante ficou repentinamente srio.
        - Talvez. No creio que voc esteja correndo algum perigo ou eu no a deixaria. Mas, ainda assim... ah, e fique longe de Geillis Duncan.
        - O qu? Por qu? - Recuei um pouco para olh-lo. Era uma noite escura e seu rosto estava invisvel, mas seu tom de voz era srio.
        - A mulher  considerada uma bruxa e as histrias que contam sobre ela... bem, pioraram muito depois que o marido morreu. No quero voc perto dela, Sassenach.
        - Voc acha sinceramente que ela seja uma bruxa? - perguntei. Suas mos fortes seguraram meu traseiro e me puxaram para mais junto dele. Passei os braos 
em volta do seu pescoo, desfrutando a sensao de seu peito liso e slido.
        - No - respondeu finalmente. - Mas no  o que eu acho que pode se transformar num perigo para voc. Me promete?
        - Prometo. - Na realidade, no relutei muito em prometer; desde os incidentes do beb trocado e da invocao, no senti vontade de visitar Geilie. Coloquei 
a boca no mamilo de Jamie, tocando-o de leve com a lngua. Emitiu um som rouco na garganta e puxou-me para mais perto.
        - Abra as pernas - sussurrou. - Pretendo me assegurar de que vai se lembrar de mim quando eu tiver partido.
        Algum tempo depois, acordei com frio. Tateando sonolentamente em busca da colcha, no consegui ach-la. De repente, ela recaiu sobre mim por conta prpria. 
Surpresa, ergui-me em um dos cotovelos para olhar.
        - Desculpe-me -Jamie disse. - No pretendia acord-la.
        - O que est fazendo? Por que est acordado? - Estreitei os olhos por cima do ombro para v-lo. Ainda estava escuro, mas meus olhos estavam to acostumados 
que eu podia ver a expresso ligeiramente tmida de seu rosto. Ele estava completamente acordado, sentado em um banco junto  cama, seu xale jogado em volta do corpo 
para se aquecer.
        -  que... bem, sonhei que voc tinha se perdido e eu no conseguia encontr-la. Isso me acordou e... eu quis ficar olhando para voc, s isso. para grav-la 
na mente, para me lembrar quando estiver longe. Eu virei a colcha; desculpe ter feito voc sentir frio.
        - No tem importncia. - A noite estava fria e muito silenciosa, como se fssemos as nicas duas almas no mundo. - Venha para a cama. Deve estar com frio 
tambm.
        Deslizou para o meu lado e aconchegou-se contra as minhas costas. Suas mos acariciaram-me do pescoo ao ombro, da cintura ao quadril, percorrendo as linhas 
das minhas costas, as curvas do meu corpo.
        - Mo duinne - disse, meigamente. - Mas agora eu deveria dizer mo air-geadach. Minha prateada. Seus cabelos tm um brilho prateado e sua pele  como veludo 
branco. Calman geal. Pomba branca.
        Apertei meus quadris contra seu corpo, convidando-o, e encaixei-me contra ele com um suspiro quando seu membro firme preencheu-me. Segurou-me contra seu 
peito e movimentou-se comigo, devagar, profundamente. Arquejei um pouco e ele afrouxou o abrao.
        - Desculpe-me - murmurou. - No quis machuc-la. Mas eu realmente preciso estar dentro de voc, ficar dentro de voc, bem fundo. Quero deixar minha semente 
no fundo do seu corpo. Quero ficar abraado a voc assim e ficar com voc at o amanhecer, deix-la dormindo e partir, com as suas formas ainda quentes em minhas 
mos.
        Pressionei o corpo para trs, contra o dele.
        - Voc no vai me machucar.
        Aps a partida de Jamie, fiquei vagando, desanimada e triste, pelo castelo. Atendia pacientes no consultrio, ocupava-me a maior parte do tempo possvel 
nas hortas e jardins e tentava me distrair folheando os livros da biblioteca de Colum, mas ainda assim o tempo parecia no passar.
        J estava sozinha h quase duas semanas quando me deparei com a Jovem Laoghaire no corredor do lado de fora das cozinhas. Eu a observava dissimuladamente 
de vez em quando, desde o dia em que a vira no patamar da escada do lado de fora dos aposentos de Colum. Ela parecia bastante vivaz, mas havia um ar de tenso facilmente 
discernvel  sua volta. Parecia alheia e melanclica - e no era de se admirar, pobre garota, pensei com compaixo.
        Hoje, entretanto, ela parecia um pouco animada.
        - Sra. Fraser! - ela chamou. - Tenho um recado para a senhora. - a viva Duncan, segundo ela, mandara dizer que estava doente e pedia que eu fosse v-la 
e cuidar dela.
        Hesitei, lembrando-me das recomendaes de Jamie, mas as foras conjuntas da compaixo e do tdio foram suficientes para me colocar na estrada para a vila 
em menos de uma hora, minha caixa de remdios amarrada atrs de mim, na sela do cavalo.
        Quando cheguei, a casa dos Duncan tinha um ar de abandono e negligncia, uma sensao de desordem que se estendia pela prpria casa. Ningum atendeu  batida 
na porta e quando a empurrei e entrei, vi que o vestbulo e a sala estavam cheios de livros e copos sujos espalhados, tapetes desalinhados e uma grossa camada de 
poeira nos mveis. Minhas chamadas no fizeram nenhuma criada aparecer e a cozinha estava to vazia e desordenada quanto o resto da casa.
        Cada vez mais ansiosa, subi ao andar superior. O quarto de dormir em frente tambm estava vazio, mas ouvi um leve barulho arrastado vindo do depsito em 
frente ao patamar.
        Empurrando a porta, vi Geilie, confortavelmente sentada numa cadeira, os ps apoiados no balco. Ela andara bebendo; havia um copo e uma garrafa sobre o 
balco e o aposento cheirava a conhaque.
        Ficou espantada ao me ver, mas ps-se de p com dificuldade, sorrindo. Seus olhos estavam ligeiramente fora de foco, pensei, mas ela sem dvida parecia estar 
bem.
        - O que houve? - perguntei. - No est doente? Arregalou os olhos para mim, surpresa.
        - Doente? Eu? No. Os empregados foram todos embora e no h comida na casa, mas h bastante conhaque. Quer um gole? - Voltou-se para a garrafa. Agarrei-a 
pela manga.
        - Voc no mandou me chamar?
        - No. - Olhou-me fixamente, os olhos arregalados.
        - Ento por que...- Minha pergunta foi interrompida por um barulho l fora. Um barulho abafado, distante, retumbante. Eu j o ouvira antes, deste mesmo aposento, 
e as palmas da minha mo ficaram suadas na ocasio ao pensar em confrontar a turba que o produzia.
        Limpei as mos na saia do meu vestido. O barulho retumbante aproximou-se e no houve nem tempo nem necessidade de perguntas.
        
        
        
25 - NO PERMITIRS QUE UMA BRUXA VIVA
        
        Os ombros vestidos de cinza afastaram-se de mim na escurido. Meu cotovelo bateu na madeira com uma pancada de deixar os ossos dor-mentes quando fui violentamente 
empurrada para uma espcie de soleira e ca de cabea em um lugar escuro e ftdo, vivo e se remexendo com formas invisveis. Dei um grito agudo e me debati, tentando 
me livrar do emaranhado de incontveis patinhas, minsculas e alvoroadas, e do ataque de algo maior, que guinchou e me atingiu com uma forte pancada na coxa.
        Consegui me afastar rolando, mas apenas por uns sessenta centmetros, antes de atingir uma parede de barro que lanou uma cascata de poeira sobre minha cabea. 
Encolhi-me o mximo que pude junto a ela, tentando sufocar minha prpria respirao arquejante para poder ouvir o que quer que estivesse preso comigo naquele buraco 
ptrido. O que quer que fosse, era grande e respirava ruidosamente. Um porco, talvez?
        - Quem est a? - soou uma voz da escurido lgubre, parecendo assustada, mas desafiadoramente alta. - Claire,  voc?
        - Geilie! - Tateando e mal conseguindo respirar, aproximei-me dela, encontrando suas mos que tambm me buscavam. Abraamo-nos com fora, balanando-nos 
ligeiramente para frente e para trs na escurido.
        - Tem mais alguma coisa aqui alm de ns? - perguntei, olhando  minha volta cautelosamente. Mesmo com meus olhos agora acostumados a escurido, havia bem 
pouco a ser visto. Havia alguns fracos feixes de luz provenientes de algum lugar acima, mas as tenebrosas sombras chegavam  altura dos ombros ali embaixo; eu mal 
podia divisar o semblante de Geilie, na altura do meu e a apenas alguns centmetros de distncia.
        Ela riu, um pouco trmula.
        - Vrios ratos, eu acho, e outros animais daninhos. E um cheiro capaz de derrubar uma doninha.
        - Senti o cheiro. Onde estamos, em nome de Deus? -- No buraco dos ladres. Para trs!
        Houve um rangido acima de nossas cabeas e um sbito raio de luz. Corri de encontro  parede, bem a tempo de evitar uma chuva de lama e lixo, lanados por 
uma pequena abertura no teto de nossa priso. Um outro barulho frouxo seguiu-se ao dilvio. Geilie inclinou-se e pegou a* coisa do cho. A abertura no teto permaneceu 
e pude ver que o que ela segurava era um pequeno po, velho e lambuzado de toda sorte de sujeira. Limpou-o cuidadosamente com uma dobra da saia.
        - Jantar - disse. - Est com fome?
        O buraco no teto continuou aberto, e vazio, a no ser por uma ou outra imundcie atirada por um transeunte. A chuva fina comeou, seguida de um vento penetrante. 
Estava frio, mido e completamente deprimente. Prprio, suponho, para os malfeitores que se destinavam a abrigar. Ladres, vagabundos, blasfemos, adlteros... e 
possveis bruxas.
        Geilie e eu aconchegamo-nos junto a uma parede para nos aquecer, sem falar muito. Havia pouco a dizer e menos ainda que pudssemos fazer por ns mesmas, 
alm de controlar nosso esprito com pacincia.
        O buraco acima de ns ficava cada vez mais escuro  medida que a noite caa, at diluir-se no breu que nos cercava.
        - Por quanto tempo voc acha que pretendem nos manter aqui? Geilie remexeu-se, esticando as pernas para que a luz da manh que atravessava a pequena abertura 
incidisse sobre o linho listrado de sua saia. Originalmente rosa-claro e branco, tinha agora uma aparncia imprpria para vestir.
        - No muito tempo - disse. - Eles vo esperar pelos investigadores eclesisticos. Arthur recebeu cartas no ms passado, preparando a vinda deles. Era na 
segunda semana de outubro. Devem chegar a qualquer momento.
        Esfregou as mos para aquec-las, depois as colocou sobre os joelhos, no pequeno quadrado de luz.
        - Fale-me sobre os investigadores - eu disse. - O que acontecer, exatamente?
        - No sei dizer com preciso. Nunca vi o julgamento de uma bruxa, embora j tenha ouvido falar,  claro. - Parou por um instante, considerando. - No estaro 
esperando um julgamento de bruxa, j que vm para resolver umas disputas de terras. Ento, ao menos no tero um espetador de bruxas.
        - Um o qu?
        - As bruxas no podem sentir dor - Geilie explicou. - Nem sangram quando so espetadas. - O espetador de bruxa, equipado com uma grande variedade de alfinetes, 
bisturis e outros implementos pontiagudos, era encarregado de testar essa condio. Recordava-me de algo parecido de um dos livros de Frank, mas acreditava ser uma 
prtica comum no sculo XVII, no neste. Por outro lado, pensei amargamente, Cranesmuir no era exatamente o bero da civilizao.
        - Neste caso,  uma pena que no tenham um - eu disse, embora me encolhendo um pouco diante da idia de ser espetada repetidamente. - Poderamos passar nesse 
teste sem nenhuma dificuldade. Ou ao menos eu poderia - acrescentei causticamente. - Imagino que obteriam gua gelada, nenhum sangue, se experimentassem em voc.
        - No teria tanta certeza - disse, pensativamente, ignorando o insulto. - J ouvi falar de espetadores de bruxas com alfinetes especiais, feitos para desarmarem 
quando pressionados contra a pele, de modo a parecer que no conseguem penetrar.
        - Mas por qu? Por que tentar provar  fora que algum  uma bruxa?
        O sol inclinava-se agora, mas a luz da tarde era suficiente para difundir-se pela nossa ratoeira com uma claridade turva. O belo rosto oval de Geilie demonstrava 
apenas pena pela minha ingenuidade.
        - Voc ainda no compreende, no ? - disse. - Eles pretendem nos matar. E no importa muito qual seja a acusao ou o que as evidncias provam. Vamos para 
a fogueira, de qualquer modo.
        Na noite anterior, eu ficara em estado de choque com o ataque da multido e com as terrveis condies de nosso ambiente para fazer mais do que me encolher 
contra Geilie e esperar o raiar do dia. Com a luz, no entanto, o que restava do meu esprito comeava a acordar.
        - Por qu, Geilie? - perguntei, sentindo-me um pouco asfixiada. -Voc sabe? - A atmosfera no local estava densa com o mau cheiro de podrido, umidade e dejetos. 
Parecia que as impenetrveis paredes de barro estavam prestes a ceder e se fechar sobre mim, como os lados de uma sepultura mal escavada.
        Eu senti, mais do que vi, que ela encolhia os ombros; o feixe de luz que vinha de cima deslocara-se com o sol e agora atingia a parede de nossa priso, deixando-nos 
na fria escurido abaixo.
        - Se serve de consolo para voc - disse secamente -, eu duvido que pretendessem prender voc.  uma questo entre mim e Colum, voc teve a m sorte de estar 
comigo quando o pessoal da vila veio me pegar. Se voc estivesse com Colum, estaria completamente a salvo, Sassenach ou no.
        O termo Sassenach, dito em seu tom normalmente depreciativo, deixou-me de repente com uma saudade desesperadora do homem que me chamava assim afetuosamente. 
Passei os braos em volta do meu corpo, abraando-me para conter o pnico solitrio que ameaava apoderar-se de mim.
        - Por que veio  minha casa? - Geilie perguntou com curiosidade.
        - Pensei que tivesse mandado me chamar. Uma das garotas do castelo me deu um recado... seu.
        - Ah - disse, pensativamente. - Laoghaire, no?
        Sentei-me e apoiei as costas contra a parede de terra, apesar do nojo da Superfcie ftida e enlameada. Percebendo meu movimento, Geilie moveu-se para mais 
perto. Amigas ou inimigas, ramos a nica fonte de calor uma da outra naquele buraco; aconchegvamo-nos por fora das circunstncias.
        - Como sabe que foi Laoghaire? - perguntei, tremendo.
        - Foi ela quem deixou o mau agouro em sua cama - Geilie respondeu. - Eu lhe disse desde o comeo que havia aquelas que no gostaram de voc ter-lhes tirado 
o rapaz ruivo. Suponho que ela pensou que se voc sasse do caminho, ela teria uma chance com ele outra vez.
        Fiquei muda de espanto diante disso e foi preciso algum tempo para recuperar a voz.
        - Mas ela no poderia!
        A risada de Geilie soou rouca de frio e sede, mas ainda tinha aquela ironia cortante.
        - Qualquer um que visse o modo como ele olha para voc saberia disso. Mas no creio que ela conhea o suficiente do mundo para saber tais coisas. Deixe-a 
dormir com um homem uma ou duas vezes e ela saber, mas no agora.
        - No foi isso que quis dizer! - exclamei. - No  Jamie que ela quer. A garota est esperando um filho de Dougal MacKenzie.
        - O qu?! - Ela ficou genuinamente chocada por um instante e seus dedos cravaram-se na carne do meu brao. - Por que tirou essa concluso?
        Contei-lhe ter visto Laoghaire na escada para os aposentos de Colum e as concluses a que eu chegara. Geilie soltou o ar ruidosamente.
        - Pah! Ela ouviu Colum e Dougal falando de mim; foi isso que a fez fugir com medo. Ela achou que Colum ficaria sabendo que ela viera me procurar para o mau 
agouro. Ele a teria mandado chicotear at sangrar; ele no permite nenhum envolvimento com bruxaria.
        - Voc deu o mau agouro para ela? - perguntei, perplexa. Geilie afastou-se bruscamente diante dessa acusao.
        - No, eu no o dei para ela. Eu o vendi para ela.
        Fitei-a, tentando olh-la nos olhos atravs da escurido cada vez mais impenetrvel.
        - H uma diferena?
        - Claro que sim. - Falava com impacincia. - Foi um negcio, apenas isso. E eu no revelo os segredos dos meus clientes. Alm disso, ela no disse a quem 
se destinava. E voc deve se lembrar que eu tentei avis-la-
        - Obrigada - disse com algum sarcasmo. - Mas... - Meu crebro fervilhava, tentando rearrumar as idias  luz dessa nova informao. - Mas se ela colocou 
o mau agouro na minha cama, era Jamie quem ela queria. Isso explicaria o fato de ela ter me mandado  sua casa. Mas e quanto a Dougal-
        Geilie hesitou por um instante, depois pareceu chegar a uma concluso.
        - A garota est to grvida de Dougal MacKenzie quanto voc.
        - Como pode ter tanta certeza?
        Tateou no escuro  procura da minha mo. Encontrando-a, puxou-a e colocou-a com a palma aberta sobre o ventre volumoso por baixo do vestido.
        - Porque eu estou - disse simplesmente.
        - Ento, no era Laoghaire - eu disse. - Voc.
        - Eu. - Falou de maneira muito simples, sem nenhum sinal de sua costumeira afetao. - Como foi que Colum disse mesmo: "Providenciarei para que ela seja 
tratada convenientemente"? Bem, suponho que esta seja sua idia de uma soluo adequada para o problema.
        Fiquei um longo tempo em silncio, remoendo meus pensamentos.
        - Geilie - disse finalmente -, esse problema de estmago do seu marido...
        Ela suspirou.
        - Arsnico branco - disse. - Achei que acabaria com ele antes de a criana comear a aparecer muito, mas ele resistiu mais tempo do que eu julgava possvel.
        Lembrei-me do olhar horrorizado de Arthur Duncan quando saiu abruptamente do quarto de vestir de sua mulher no seu ltimo dia de vida.
        - Compreendo - eu disse. - Ele no sabia que voc estava grvida at v-la semidespida, no dia do banquete do duque. E quando ele descobriu... Suponho que 
ele tivesse boas razes para saber que no era dele.
        Ouviu-se uma risada fraca do outro canto.
        - O nitrato de potssio custava caro, mas valia cada peido. Estremeci levemente, encolhida junto  parede.
        - Mas foi por isso que voc teve que correr o risco de mat-lo em pblico, no banquete. Ele a teria denunciado como adltera... e envene-nadora. Voc acha 
que ele sabia sobre o arsnico?
        - Ah, Arthur sabia - ela disse. - Certamente, no admitiria, nem para si mesmo. Mas ele sabia. Sentvamo-nos um em frente ao outro  mesa de jantar e eu 
lhe perguntava: "Quer mais um pouco de sopa, querido?" ou um gole de cerveja, meu bem? Ele ficava me olhando com aqueles olhos parecendo ovos cozidos, e dizia que 
no, estava sem apetite no momento. Empurrava o prato e mais tarde eu o ouvia na cozinha, s escondidas, devorando sua comida de p junto ao armrio, achando-se 
seguro, porque ele no comia nenhuma comida que viesse das minhas mos. Sua voz era leve e descontrada, como se contasse algum mexerico interessante. Estremeci 
novamente, afastando-me daquela que compartilhava a escurido comigo.
        - Ele no desconfiou que era no tnico que tomava. Ele no tomava nenhum remdio feito por mim; encomendava um tnico vendido em Londres. Custava carssimo. 
- Sua voz demonstrava ressentimento com a extravagncia. - O remdio j tinha arsnico em sua composio, para comear; ele no notava nenhuma diferena no sabor 
quando eu acrescentava mais um pouco.
        Sempre ouvira dizer que a vaidade era o ponto fraco dos assassinos; parecia ser verdade, porque ela continuou, ignorando nossa situao no orgulho de recontar 
seus feitos.
        - Era um pouco arriscado, mat-lo diante de todo mundo assim, mas eu tinha que pensar depressa em alguma coisa.
        Tambm no foi arsnico, para matar daquele jeito. Lembrei-me dos lbios endurecidos e azuis do fiscal e a dormncia dos meus prprios lbios onde o tocaram. 
Um veneno rpido e mortal.
        E eu pensando que Dougal havia confessado um caso amoroso com Laoghaire. Mas nesse caso, embora Colum pudesse desaprovar, no teria havido nada que impedisse 
Dougal de se casar com a garota. Ele era vivo, livre.
        Mas um envolvimento adltero, com a mulher do fiscal? Era um problema diferente para todos os envolvidos. Eu me lembrava que as punies para o adultrio 
eram severas. Colum no poderia colocar panos quentes em um caso dessa magnitude, mas no conseguia v-lo condenando o irmo ao aoite pblico ou ao exlio. E Geilie 
poderia muito bem considerar o assassinato como uma alternativa razovel a ser queimada no rosto com ferro em brasa e trancafiada por muitos anos em uma priso, 
socando cnhamo doze horas por dia.
        Assim, ela tomara suas precaues e Colum tomara as dele. E ali estava eu, pega no meio.
        - Mas, e a criana? - perguntei. - Certamente... Ouviu-se uma risadinha assustadora na escurido.
        - Acidentes acontecem, minha amiga. Nas melhores famlias. E uma vez acontecido... - Eu senti que ela encolhia os ombros. - Eu pretendia me livrar dela, 
mas depois achei que podia ser uma maneira de faz-lo casar comigo, depois que Arthur morresse.
        Uma terrvel suspeita acometeu-me.
        - Mas a mulher de Dougal ainda estava viva. Geillis, voc...?
        Seu vestido farfalhou quando sacudiu a cabea e percebi um leve reflexo dos seus cabelos.
        - Eu pretendia - disse. - Mas Deus me poupou o trabalho. Achei at que isso fosse um sinal, sabe. E tudo poderia ter dado certo, se no fosse por Colum MacKenzie.
        Abracei-me, agarrando os cotovelos para me proteger do frio. Eu continuava falando apenas para me distrair.
        - Era Dougal que voc queria ou apenas sua posio e dinheiro?
        - Ah, eu tinha bastante dinheiro - ela disse, com um tom de satisfao. - Eu sabia onde Arthur guardava a chave para todos os seus documentos e anotaes. 
E ele tinha uma bela caligrafia, devo reconhecer. Era bastante simples falsificar sua assinatura. Eu conseguira desviar perto de dez mil libras nos ltimos dois 
anos.
        - Mas para qu? - perguntei, completamente perplexa.
        - Pela Esccia.
        - O qu? - Por um instante, pensei ter ouvido errado. Ento, conclu que uma de ns podia estar ligeiramente desequilibrada. E pelas evidncias disponveis, 
no era eu.
        - O que quer dizer com Esccia? -- perguntei cautelosamente, afastando-me um pouco. No sabia ao certo o quanto ela estava desequilibrada; talvez a gravidez 
a tivesse enlouquecido.
        - No precisa ter medo; no estou maluca. - O cnico tom de deboche em sua voz me fez ruborizar. Agradeci por estar escuro.
        - Ah, no? - eu disse, provocada. - Segundo voc mesma, voc cometeu fraude, roubo e assassinato. Seria uma caridade consider-la louca, porque se no for...
        - Nem louca nem depravada - ela disse, com deciso. - Sou uma patriota.
        Fez-se a luz. Deixei escapar um suspiro que estivera prendendo, na expectativa de um ataque de loucura.
        - Uma jacobita - eu disse. - Santo Deus, voc  uma maldita jacobita! E era. O que explicava muita coisa. Por que Dougal, geralmente o espelho das opinies 
do irmo, envolvera-se na iniciativa de levantar fundos para a Casa dos Stuart. E por que Geillis Duncan, to bem dotada para levar qualquer homem que quisesse ao 
altar, havia escolhido dois espcimes to diferentes como Arthur Duncan e Dougal MacKenzie. Um pelo dinheiro e posio, o outro por seu poder de influncia na opinio 
pblica.
        - Colum teria sido melhor - continuou. - Uma pena. Seu infortnio  o meu tambm. Era a ele que eu deveria ter me unido. O nico homem que conheci que estaria 
 minha altura. Juntos, poderamos... bem, no adianta mais. O nico homem que eu queria e o nico que eu no podia conseguir com as armas de que dispunha.
        - Ento, voc ficou com Dougal em vez disso.
        - Ah, sim - ela disse, imersa em seus prprios pensamentos. - Um homem forte e com certo poder. Uma boa propriedade. Os ouvidos do povo. Mas, na verdade, 
ele no passa das pernas... e do pau - riu debilmente - de Colum MacKenzie.  Colum quem tem fora. Quase tanto quanto eu.
        Seu tom presunoso aborrecia-me.
        - Colum, pelo que sei, tem algumas coisas que voc no tem. Tal como sentimento de compaixo.
        - Ah, sim. "Entranhas de compaixo e caridade", hein? - disse com ironia. - Grande proveito isso vai lhe dar. A morte est pousada em seus ombros; basta 
olhar para ele. O sujeito no passa de uns dois anos depois do Hogmanay, no muito mais do que isso.
        - E quanto mais tempo voc vai viver? - perguntei.
        A ironia retrocedeu, mas a voz de ao permaneceu firme.
        - Um pouco menos do que isso, eu acho. Nada de grande importncia. Consegui fazer muito no tempo que tive; dez mil libras desviadas para a Frana e a regio 
que apoia o prncipe Carlos. Quando houver a Revoluo, saberei que dei minha contribuio. Se eu viver at l.
        Ela parou quase embaixo do buraco no teto. Meus olhos estavam suficientemente acostumados  escurido para v-la como uma forma plida nas trevas, um fantasma 
prematuro e inacabado. Voltou-se subitamente para mim.
        - O que quer que acontea com os investigadores, no tenho nenhum arrependimento, Claire.
        - Lamento apenas ter s uma vida para dar pelo meu pas? - perguntei ironicamente.
        - Muito bem colocado - observou.
        - E no  exatamente isso?
        Ficamos em silncio enquanto a escurido se tornava ainda mais densa. O vo negro do buraco no teto parecia uma fora tangvel, pressionando meu peito, fria 
e pesada. Obstruindo meus pulmes com o cheiro da morte. Finalmente, encolhi-me o mximo que pude numa bola, apoiei a cabea nos joelhos e desisti de lutar, resvalando 
em uma sonolncia nervosa,  beira do frio e do pnico.
        - Ento, voc ama o sujeito? - Geilie perguntou repentinamente. Ergui a cabea dos joelhos, espantada. No fazia a menor idia das horas; uma estrela fraca 
brilhava acima de nossas cabeas, mas no lanava nenhuma luz no buraco.
        - Quem, Jamie?
        - Quem mais? - perguntou secamente. -  o nome dele que voc chama quando est dormindo.
        - No sabia que eu fazia isso.
        - Ento, voc o ama? - O frio encorajava uma espcie de torpor mortal, mas a voz instigante de Geilie arrastou-me um pouco mais para fora do meu entorpecimento.
        Abracei os joelhos, balanando-me ligeiramente para frente e para trs. A luz do buraco no teto esmaecera para a leve penumbra do comeo da noite. Os investigadores 
chegariam no dia seguinte ou depois. Estava ficando um pouco tarde demais para subterfgios, para mim mesma ou qualquer outra pessoa. Embora eu ainda tivesse dificuldade 
em admitir que pudesse estar correndo um srio risco de vida, estava comeando a compreender o instinto que fazia com que os prisioneiros condenados  morte buscassem 
a confisso e a absolvio na vspera do cumprimento da pena de morte.
        - Amar de verdade, quero dizer - Geilie insistia. - No apenas querer ir para a cama com ele; sei que deseja isso e ele tambm. Todos querem. Mas voc o 
ama?
        Eu o amaria? Alm dos anseios da carne? Nossa cela possua a anonimidade escura do confessionrio e uma alma  beira da morte no tinha tempo para mentiras.
        - Sim - respondi e deitei a cabea nos joelhos outra vez.
        Fiquei em silncio por algum tempo e pairei mais uma vez  beira do sono, quando a ouvi falar outra vez, como se falasse consigo mesma.
        - Ento  possvel - ela disse pensativamente.
        Os investigadores chegaram um dia depois. Da umidade do buraco dos ladres, podamos ouvir a agitao de sua chegada; os gritos dos habitantes da vila e 
o tropel dos cavalos nas pedras da rua principal. O alvoroo enfraqueceu  medida que a procisso desceu a rua em direo  praa distante.
        - Chegaram - Geilie disse, ouvindo a turbulncia acima. Apertamos as mos, num reflexo, os antagonismos submersos no medo.
        - Bem - eu disse, fingindo-me corajosa -, imagino que ser queimada seja melhor do que morrer congelada.
        No caso, continuamos a congelar. Somente  tarde do dia seguinte  que a porta de nossa priso girou bruscamente para trs e fomos arrancadas do buraco para 
sermos levadas a julgamento.
        Para poder acomodar a multido de espectadores, a sesso foi realizada na praa, diante da casa dos Duncan. Vi Geilie erguer os olhos rapidamente para as 
janelas com vidros em losango de sua sala de estar, em seguida desviar o olhar, sem expresso.
        Havia dois investigadores eclesisticos, sentados em bancos com almofadas atrs de uma mesa erguida na praa. Um dos juizes era extraordinariamente alto 
e magro, o outro, baixo e robusto. Faziam-me lembrar irre-sistivelmente de uma revista em quadrinhos americana que eu vira uma vez; sem saber seus nomes, batizei 
o alto de Mutt e o outro de Jeff.
        A maioria dos aldees estava l. Olhando ao redor, pude ver muitos dos meus antigos pacientes. Mas os habitantes do castelo estavam notoriamente ausentes.
        Foi John MacRae, o policial, carcereiro e carrasco da vila de Cranesir, quem leu a indiciao, ou acusao, contra as pessoas de Geillis Duncan e Claire 
Fraser, ambas acusadas perante o tribunal da Igreja de crime de bruxaria.
        - Diante das evidncias comprova-se que a acusada realmente causou a morte de Arthur Duncan, por meio de bruxaria - MacRae leu, em voz firme e regular. - 
Tambm ocasionou a morte pr-natal do filho de Janet Robinson, fez afundar o barco de Thomas MacKenzie, lanou sobre a vila de Cranesmuir uma dizimadora doena dos 
intestinos...
        Assim continuou por algum tempo. Colum fora minucioso em seus preparativos.
        Aps a leitura da indiciao, as testemunhas foram chamadas. A maioria era de aldees que eu no conhecia; nenhum dos meus pacientes estava entre elas, um 
fato pelo qual senti-me grata.
        Enquanto o testemunho de muitos dos acusadores foi simplesmente absurdo e alguns evidentemente haviam sido pagos por seus servios, outros tinham um evidente 
toque de verdade em suas palavras. Janet Robinson, por exemplo, que foi arrastada para a frente do tribunal por seu pai, plida e trmula, com uma mancha roxa na 
face, para confessar que havia concebido um filho de um homem casado e procurou os servios de Geillis Duncan para se livrar da criana.
        - Ela me deu um preparado para beber e umas palavras mgicas para dizer trs vezes, quando a lua surgisse - a jovem balbuciou, olhando temerosamente de Geillis 
para seu pai, sem saber quem constitua uma ameaa maior. - Ela disse que isso faria minha menstruao voltar.
        - E voltou? - Jeff perguntou com interesse.
        - No no comeo, Excelncia - a jovem respondeu, sacudindo a cabea nervosamente. - Mas tomei a bebida outra vez, na lua minguante, e ento voltou.
        - Voltou?! A menina quase se esvaiu em sangue at a morte! - Uma mulher idosa, obviamente a me da jovem, interrompeu. - Foi somente porque ela achou que 
ia morrer que me contou toda a verdade. - Mais do que desejosa de acrescentar detalhes sangrentos, a sra. Robinson foi silenciada com alguma dificuldade, a fim de 
dar lugar s testemunhas seguintes.
        Parecia no haver ningum para dizer alguma coisa contra mim, fora a vaga acusao de que desde que eu estava presente na morte de Arthur Duncan, e colocara 
as mos nele antes de morrer, obviamente devo ter tido alguma coisa a ver com seu assassinato. Comecei a achar que Geilie tinha razo; no fora eu o alvo de Colum. 
Assim sendo, talvez eu conseguisse escapar. Ou ao menos assim pensei at a mulher da colina aparecer.
        Quando se apresentou, uma mulher magra, curvada, com um xale amarelo, compreendi que estvamos em srios apuros. Ela no era uma moradora da vila; jamais 
a vira antes. Tinha os ps descalos, encardidos da poeira da estrada por onde viera para chegar ali.
        - Tem uma acusao a fazer contra uma dessas mulheres? - perguntou o juiz magro e alto.
        A mulher estava com medo; no levantava os olhos para olhar para os juizes. Entretanto, balanou a cabea levemente e a multido fez silncio para ouvi-la.
        Sua voz era baixa e Mutt teve que lhe pedir para repetir.
        Ela e o marido tinham um filho doente, que nasceu saudvel, mas que ficou fraco e comeou a definhar. Concluindo finalmente que a criana era uma troca das 
fadas, colocaram-na na colina das fadas Croich Gorm. Mantendo a vigilncia para recuperarem seu prprio filho quando as fadas o devolvessem, viram as duas acusadas 
irem at a colina, pegarem a criana e declamarem estranhos feitios sobre ela.
        A mulher torcia as mos magras, por baixo de seu avental.
        - Ns ficamos de viglia at a noite, senhores. E logo depois que escureceu, surgiu um grande demnio, um enorme vulto negro que saiu das sombras sem nenhum 
rudo, e se inclinou sobre o local onde havamos colocado o beb.
        Um murmrio de assombro percorreu a multido e senti os cabelos da minha nuca se arrepiarem ligeiramente, mesmo sabendo, como sabia, que o "grande demnio" 
era Jamie, que fora ver se a criana ainda estava viva. Preparei-me, sabendo o que vinha em seguida.
        - E quando o sol nasceu, eu e meu marido fomos ver. E encontramos o beb trocado, morto na colina, e nenhum sinal de nosso prprio bebezinho. - Com isso, 
ela irrompeu em prantos e atirou o avental sobre o rosto para esconder o choro.
        Como se a me da criana encantada fosse uma espcie de sinal, a multido apartou-se e a figura de Peter, o carroceiro, adiantou-se. Gemi por dentro quando 
o vi. Eu sentira as emoes da multido voltarem-se contra mim quando a mulher falou; tudo que eu precisava agora era que esse homem contasse ao tribunal sobre o 
monstro do lago.
        Desfrutando seu momento de glria, o carroceiro subiu no tablado e apontou dramaticamente para mim.
        -  verdade que podem cham-la de bruxa, meus senhores! Com meus prprios olhos eu vi esta mulher chamar um monstro das guas do Lago do Mal, para cumprir 
suas ordens! Uma criatura enorme e terrvel, senhores, da altura de um pinheiro, com um pescoo igual ao de uma grande cobra azul e olhos do tamanho de mas, com 
um olhar capaz de roubar a alma de um homem.
        Os juizes pareceram impressionados com seu testemunho e cochicharam entre si durante vrios minutos, enquanto Peter fitava-me desafiador, com um olhar que 
dizia: "Agora voc vai ver!"
        Finalmente, o juiz gordo afastou-se da reunio e, com um gesto imperioso, chamou John MacRae, que se posicionara em um dos lados, atento a qualquer problema.
        - Carcereiro! - disse. Virou-se e apontou para o carroceiro.
        - Leve esse homem daqui e prenda-o no pelourinho por bebedeira em pblico. Este  um tribunal srio; no vamos desperdiar o tempo dos inquisidores com acusaes 
frvolas de um beberro que v monstros depois de tomar usque demais!
        Peter, o carroceiro, ficou to perplexo que nem sequer resistiu quando o carcereiro caminhou a passos largos em sua direo e tomou-o pelo brao. De boca 
aberta, virou a cabea para trs, lanando-me um olhar furioso, enquanto era levado dali. No resisti e ergui meus dedos para dar-lhe um adeusinho.
        No entanto, aps essa ligeira quebra de tenso nos procedimentos legais, a situao deteriorou-se rapidamente. Houve uma procisso de jovens e mulheres para 
jurar que haviam comprado sortilgios e amuletos de Geillis Duncan, para fins como provocar doenas, livrar-se de uma gravidez indesejada ou lanar feitios de amor 
em algum homem. Todas, sem exceo, juraram que os encantamentos haviam funcionado - um recorde invejvel para um clnico geral, pensei com cinismo. Embora ningum 
me atribusse resultados assim, houve vrias que afirmaram - com razo - terem me visto muitas vezes no herbanrio da sra. Duncan, preparando remdios e triturando 
ervas.
        Ainda assim, talvez isso no fosse fatal; havia um nmero igual de pessoas para alegar que eu as havia curado, usando nada alm de remdios comuns, sem nenhuma 
meno a feitios, encantamentos ou truques mgicos. Considerando-se a fora da opinio pblica, essas pessoas precisaram de uma certa dose de coragem para se apresentarem 
e testemunharem a meu favor, e fiquei-lhes agradecida.
        Meus ps doam de estar em p por tanto tempo; enquanto os juizes ficavam sentados com relativo conforto, no havia bancos para os prisioneiros. No entanto, 
quando a prxima testemunha apareceu, esqueci completamente dos meus ps.
        Com um instinto para o drama que se equiparava ao de Colum, padre Bain abriu de par em par a porta da igreja e surgiu na praa, mancando pesadamente com 
uma muleta de carvalho. Avanou lentamente at o centro da praa, inclinou a cabea para os juizes, depois se virou e inspecionou a multido, at que seu olhar fixo 
reduzisse o barulho a um murmrio baixo e nervoso. Quando falou, sua voz fustigou como uma chicotada.
        - Quem est em julgamento so vocs, povo de Cranesmuir! "Com ele veio a peste e carves em brasa vieram com seus ps." Sim, vocs se deixaram seduzir e 
se afastar dos caminhos da retido! Vocs semearam o vento e a tempestade est entre vocs agora!
        Olhei-o espantada, um pouco desconcertada por aquele insuspeito dom da retrica. Ou talvez ele fosse capaz de tais vos de oratria somente sob o estmulo 
de uma crise. A voz ostentosa continuou estrondando.
        - A peste se abater sobre vocs e morrero por seus pecados, a menos que sejam purificados! Aceitaram a meretriz da Babilnia em seu meio. - Essa era eu, 
imaginei, pelo olhar irado que me lanou. - Vocs venderam a alma ao inimigo, acolheram a vbora inglesa no seu seio e agora a vingana de Nosso Senhor Todo-poderoso 
cair sobre vocs. "Livrem-se da mulher estrangeira, mesmo aquela que cumula com palavras. Porque sua casa se inclina para a morte e seus caminhos para os mortos!" 
Arrependa-se, povo de Cranesmuir, antes que seja tarde demais! Digo-lhes que caiam de joelhos e implorem perdo! Expulsem a meretriz inglesa e renunciem  sua barganha 
com a filha de Satans! - Arrancou o rosrio do cinto e brandiu o grande crucifixo de madeira na minha direo.
        Por mais interessante que fosse tudo aquilo, pude notar que Mutt estava ficando um pouco inquieto. Inveja profissional, talvez.
        - H, reverendo - disse o juiz, com uma ligeira mesura para o padre Bain -, o senhor tem provas a apresentar  acusao contra essas mulheres?
        - Tenho, sim. - Passada a primeira exploso de oratria, o pequeno padre agora estava calmo. Apontou um dedo ameaador em minha direo e tive que me controlar 
para no dar um passo para trs.
        - Em uma tera-feira  tarde, h duas semanas, encontrei esta mulher nos jardins do Castelo Leoch. Usando poderes sobrenaturais, ela lanou um bando de ces 
de caa sobre mim, de tal forma que ca e fiquei sob grave risco de vida. Seriamente ferido na perna, levantei-me para sair de sua presena. A mulher tentou me seduzir 
com sua pecaminosidade, queria que eu a acompanhasse a um lugar privado e, quando resisti s suas manobras, lanou uma maldio sobre mim.
        - Que grande besteira! - exclamei, indignada. -  o exagero mais ridculo que j ouvi!
        Os olhos do padre Bain, escuros e cintilando como se estivessem febris, desprenderam-se dos inquisidores e fixaram-se em mim.
        - Voc nega, mulher, que me disse estas palavras? "Venha comigo agora, padre, ou seu ferimento putrefar"?
        - Bem, reduza um pouco a veemncia, mas algo parecido, talvez -admiti.
        Com o maxilar cerrado em triunfo, o padre abriu bruscamente para o lado a saia de sua batina. Uma atadura manchada com sangue seco e mida de pus amarelo 
envolvia sua coxa. A carne plida da perna inchava-se acima e abaixo da atadura, com horrveis verges vermelhos subindo do ferimento oculto.
        - Meu Deus, homem! - exclamei, chocada com a viso do estado do ferimento. - Est com o sangue envenenado. Tem que cuidar disso, e imediatamente, ou vai 
morrer!
        Ouviu-se um profundo murmrio de choque da multido. At Mutt ejeff pareciam estupefatos.
        O padre Bain sacudiu a cabea lentamente.
        - Ouviram? - perguntou. - A ousadia dessa mulher no conhece nenhum limite. Ela me amaldioa com a morte, um homem de Deus, diante do tribunal da prpria 
Igreja!
        O burburinho agitado da multido tornou-se mais alto. O padre Bain falou outra vez, erguendo um pouco a voz, para ser ouvido acima do barulho.
        - Deixo-os, senhores, com seu prprio julgamento e a injuno do Senhor: "No permitirs que uma bruxa viva."
        A prova dramtica do padre Bain ps fim aos testemunhos. Provavelmente, ningum estava preparado para superar aquele desempenho. Os juizes determinaram um 
pequeno recesso e um lanche lhes foi trazido da hospedaria. Nenhuma dessas convenincias foi oferecida s acusadas.
        Tentei puxar minhas amarras. O couro das tiras rangeu um pouco, mas no cederam nem um centmetro. Este, pensei cinicamente para aplacar o pnico,  o momento 
exato em que o arrojado heri deveria surgir cavalgando em meio  multido, aoitando a populao que se encolhia de medo e arrebatando a herona quase desmaiada 
para a sua sela.
        Mas o meu belo e destemido heri estava em algum lugar l longe na floresta, tomando muita cerveja com um velho efeminado de sangue nobre e massacrando veados 
inocentes. Era pouco provvel, pensei, rangendo os dentes, que Jamie voltasse a tempo sequer de juntar minhas cinzas para uma cerimnia fnebre, antes de eu ser 
espalhada pelos quatro ventos.
        Preocupada com meu medo crescente, no comeo no ouvi o barulho dos cascos. Somente quando os fracos murmrios e o girar de cabeas na multido atraram 
minha ateno foi que notei os golpes ritmados, ressoando nas pedras da rua principal.
        Os murmrios de surpresa intensificaram-se e as beiradas da multido comearam a se afastar para admitir o cavaleiro, ainda fora do alcance da minha viso. 
Apesar do meu desespero anterior, comecei a sentir uma dbil centelha de esperana irracional. E se Jamie tivesse voltado mais cedo? Talvez os avanos do duque tenham 
sido muito insistentes ou os veados muito escassos e esparsos. O que quer que fosse, fiquei na ponta dos ps para ver o rosto do cavaleiro que se aproximava.
        As fileiras de pessoas afastaram-se relutantemente quando o cavalo, um baio vigoroso, enfiou o longo focinho entre os ombros de dois espectadores.
        Diante dos olhos atnitos de todos - inclusive meus - a figura empertigada de Ned Gowan desmontou lepidamente.
        JefF inspecionou o sujeito esbelto e bem-arrumado  sua frente com certo espanto.
        - E o senhor, quem ? - Sem dvida, seu tom de relutante cortesia era conseqncia das fivelas de prata dos sapatos e do casaco de veludo do visitante: ser 
empregado do senhor do cl MacKenzie tinha suas compensaes.
        - Meu nome  Edward Gowan, Excelncia - disse com clareza. -Advogado.
        Mutt arqueou os ombros e encolheu-se um pouco; o banco que lhe fora dado no tinha encosto e suas cosras estavam sem dvida ressentindo-se do esforo. Fitei-o 
duramente, desejando-lhe uma hrnia de disco. Se estava prestes a ser queimada por mau-olhado, pensei, que servisse para alguma coisa.
        - Advogado? - rosnou. - E o que o traz aqui?
        A peruca cinza de Ned Gowan inclinou-se na mais perfeita reverncia formal.
        - Vim oferecer meus humildes servios em defesa da sra. Fraser, Excelncias - disse. - Uma dama muito respeitosa, que eu conheo pessoalmente como sendo 
to bondosa e benfica na administrao das artes da cura como detentora de grande conhecimento em suas aplicaes.
        Muito bem, pensei com aprovao. Desta vez, uma apario inesperada a nosso favor. Olhando para o outro lado da praa, pude ver a boca de Geilie torcer-se 
para cima em um meio-sorriso ao mesmo tempo desdenhoso e admirador. Embora Ned Gowan no fosse a escolha de Prncipe Encantado de todo mundo, eu no estava inclinada 
a ser exigente num momento como esse. Qualquer defensor seria bem-vindo.
        Com uma reverncia para os juizes e outra, no menos formal, para mim, o sr. Gowan empertigou-se ainda mais em sua postura normalmente ereta, prendeu os 
dois polegares na cintura de suas calas e preparou-se com todo o romantismo de seu corao envelhecido e galante para travar uma batalha, lutando com a arma preferida 
da lei - o tdio atroz.
        Tedioso sem dvida ele foi. Com a preciso mortal de uma trituradora automtica, arrumou cada acusao do inqurito na lousa do seu escrutnio e picotou-a 
impiedosamente com a lmina do estatuto e o cutelo do precedente.
        Foi uma performance notvel. Ele falou. E ele falou. E ele falou mais, parecendo parar respeitosamente de vez em quando para seguir as instrues dos juizes, 
mas na realidade apenas recuperando o flego para novo massacre de verbosidade.
        Com a minha vida por um fio e meu futuro inteiramente na dependncia da eloqncia daquele homenzinho franzino, eu devia ter me prendido atentamente a cada 
uma de suas palavras. No entanto, ao invs disso, vi-me bocejando de maneira espantosa, incapaz de cobrir minha boca aberta e alternando os meus ps doloridos para 
apoiar-me, desejando fervorosamente que me queimassem logo e terminassem aquela tortura.
        A multido parecia sentir-se da mesma forma e, depois que a alta comoo da manh reduziu-se ao tdio, a voz fina e pausada do sr. Gowan continuou indefinidamente. 
As pessoas comearam a se dispersar, lembrando-se repentinamente de animais que precisavam ser ordenhados e assoalhos que precisavam ser varridos, certos de que 
nada de interesse poderia surgir enquanto aquela voz fatal continuasse em seu tom montono.
        Quando Ned Gowan finalmente terminou sua defesa inicial, a noite j cara; e o juiz atarracado que eu apelidara de Jeff anunciou que o tribunal voltaria 
a se reunir pela manh.
        Aps uma curta e sussurrada conferncia entre Ned Gowan, Jeff e John MacRae o carrasco, fui conduzida  hospedaria entre dois cidados mus-culosos. Lanando 
um olhar por cima do ombro, vi Geilie sendo levada na direo oposta, as costas eretas, recusando-se a ser empurrada ou, na verdade, a atentar para o ambiente  
sua volta.
        No quarto escuro nos fundos da hospedaria, minhas amarras foram finalmente retiradas e uma vela foi trazida. Em seguida, Ned Gowan chegou, com uma garrafa 
de cerveja e um prato de carne e po.
        - S disponho de alguns minutos com voc, minha querida, assim mesmo conseguidos a muito custo, portanto oua-me com ateno. - O homenzinho inclinou-se 
para mais perto, numa atitude conspiratria  luz bruxuleante da vela. Seus olhos brilhavam e, fora um ligeiro desarranjo em sua peruca, no dava nenhum sinal de 
esforo ou fadiga.
        - Sr. Gowan, estou to feliz de v-lo - eu disse, sinceramente.
        - Sim, sim, minha querida, mas no h tempo para isso agora. - Deu uns tapinhas na minha mo, de uma maneira afetuosa, mas perfunctria.
        - Consegui fazer com que considerem seu caso separado da sra. Duncan e isso pode ser de grande ajuda. Parece que no havia nenhuma inteno original de prend-la, 
mas que voc foi levada por causa de sua associao com a sra. Duncan.
        - Ainda assim - continuou apressadamente -, voc corre perigo e eu no vou esconder isso de voc. O clima das opinies na vila no  nada favorvel a voc 
no momento. O que deu em voc - perguntou, com num tom acalorado que no lhe era tpico - para tocar naquela criana?
        Abri a boca para responder, mas ele fez um aceno descartando a pergunta com impacincia.
        - Ah, bem, isso no interessa agora. O que temos que fazer  jogar com o fato de voc ser inglesa, e da sua ignorncia, sabe, no sua esquisitice, e prolongar 
a questo at onde pudermos. O tempo est a nosso favor, porque a maioria desses julgamentos ocorre em um clima de histeria, quando a veracidade das provas pode 
ser negligenciada para satisfazer a sede de sangue.
        Sede de sangue. A expresso simbolizava perfeitamente o sentimento da emoo que eu vira emanar dos rostos do populacho. Aqui e ali, vi alguns traos de 
dvida ou solidariedade, mas somente uma alma extraordinria se levantaria contra uma multido, e Cranesmuir estava carente de pessoas dessa envergadura. Ou no, 
corrigi a mim mesma. Houve um -este ressequido e franzino advogado de Edimburgo, embora fosse to feio.
        - Quanto mais nos alongarmos - continuou o sr. Gowan de modo pragmtico -, menos inclinados ficaro a tomar uma deciso apressada. Assim - disse, as mos 
nos joelhos -, sua parte amanh ser apenas de manter-se em silncio. Eu falarei em sua defesa e Deus queira que surta algum efeito.
        - Parece um bom plano - eu disse, com um cansado esboo de sorriso. Olhei para a porta que dava para a frente da hospedaria, onde vozes se erguiam. Captando 
o meu olhar, o sr. Gowan balanou a cabea.
        - Sim, vou ter que deix-la agora. Consegui que voc passe a noite aqui. - Olhou  sua volta, em dvida. Um pequeno barraco anexo  hospedaria e usado para 
guardar quinquilharias e suprimentos extras. Era frio e escuro, mas infinitamente melhor do que o buraco dos ladres.
        A porta do barraco abriu-se, desenhando em silhueta a figura da proprietria da hospedaria, espreitando na escurido, por trs da chama plida e bruxuleante 
de uma vela. O sr. Gowan levantou-se para sair, mas segurei-o pela manga. Havia algo que eu precisava saber.
        - Sr. Gowan... foi Colum quem o mandou aqui para me ajudar? - Ele hesitou em sua resposta, mas dentro dos limites de sua profisso, era um homem de honestidade 
impecvel.
        - No - respondeu sem rodeios. Um olhar quase de constrangimento passou por suas feies ressequidas e ele acrescentou: - Eu vim... por conta prpria. - 
Colocou o chapu na cabea e virou-se para a porta, desejando-me um breve "boa-noite" antes de desaparecer na luz e na agitao da hospedaria.
        Houve pouca preparao para me acomodar, mas uma pequena jarra de vinho e um po - limpo desta vez - foram colocados sobre um dos barris. Havia ainda um 
velho cobertor dobrado no cho ao seu lado.
        Enrolei-me no cobertor e sentei-me em um dos barris menores para jantar, meditando enquanto mastigava a refeio frugal.
        Ento, Colum no enviara o advogado. Ele saberia, ao menos, que o sr. Gowan pretendia vir? O mais provvel  que Colum tenha proibido qualquer um de ir  
vila, por medo de serem pegos na caa s bruxas. As ondas de medo e histeria que varriam a vila eram palpveis; podia senti-las batendo contra as paredes do meu 
precrio abrigo.
        Uma exploso barulhenta da taverna ao lado distraiu meus pensamentos. Talvez fosse apenas a viglia na noite que antecede a execuo do condenado, como um 
velrio. Mas  beira da destruio, at mesmo uma hora a mais era motivo de agradecimento. Enrolei-me no cobertor, puxei-o sobre minha cabea para abafar o barulho 
da hospedaria e tentei com todas as foras no sentir nada alm de gratido.
        Aps uma noite extremamente inquieta, fui acordada logo aps o alvorecer e levada de volta  praa, embora os juizes s tenham chegado uma hora mais tarde.
        Arrumados, gordos e saciados com o desjejum, debruaram-se imediatamente sobre os trabalhos. Jeff virou-se para John MacRae, que voltara ao seu posto atrs 
das acusadas.
        - Sentimo-nos incapazes de determinar a culpa com base unicamente nas evidncias apresentadas. - Houve uma exploso de indignao da multido novamente reunida, 
que fizera seu prprio julgamento. No entanto, o tumulto foi apaziguado por Mutt, que voltou um par de olhos penetrantes como brocas sobre os jovens trabalhadores 
na primeira fila, calando-os como cachorros que recebem um banho de gua fria. Restaurada a ordem, voltou seu rosto anguloso novamente para o carrasco.
        - Conduza as prisioneiras para a beira do lago, por favor. - Ouviu-se um murmrio de satisfao e expectativa que levantou minhas piores suspeitas. John 
MacRae tomou-me por um brao e Geilie pelo outro, para nos conduzir, mas teve muita ajuda. Mos cruis rasgavam meu vestido, beliscavam e empurravam conforme eu 
era levada aos trambolhes. Algum idiota tinha um tambor e fazia alarde com uma esfarrapada marcha militar. A multido cantava, destoada e sem ritmo, procurando 
seguir o toque do tambor. No conseguia distinguir o que diziam entre os gritos e berros aleatrios. Acho que eu no queria saber o que estavam dizendo.
        A procisso prosseguiu pela campina at a beira do lago, onde um pequeno cais de madeira projetava-se pela gua. Fomos empurradas para a ponta do desembarcadouro, 
onde os dois juizes haviam tomado posio, cada um de um lado do cais. Jeff voltou-se para a multido que aguardava na margem do lago.
        - Tragam as cordas! - Houve um murmrio geral e um olhar de expectativa entre eles, at algum correr apressadamente com um pedao de corda fina. MacRae 
pegou-a e aproximou-se de mim com certa hesitao. Mas lanou um olhar rpido aos inquisidores, o que reforou sua determinao.
        - Por favor, tenha a gentileza de tirar seus sapatos, madame - ordenou.
        - O que diabo... para qu? - perguntei, cruzando os braos.
        Ele piscou, obviamente despreparado para qualquer resistncia, mas um dos juizes antecipou sua resposta.
        -  o procedimento regular em julgamentos pela gua. A suspeita de bruxaria deve ter o polegar direito amarrado com uma corda de cnhamo ao dedo grande do 
p esquerdo. Da mesma forma, o polegar esquerdo deve ser amarrado ao dedo grande do p direito. Depois... - Lanou um olhar eloqente s guas do lago. Dois pescadores 
estavam parados, descalos, na lama da beira do lago, as calas enroladas at acima dos joelhos e amarradas com corda. Rindo de maneira insinuante para mim, um deles 
pegou uma pequena pedra e atirou-a na superfcie metlica. Ela resvalou uma vez e afundou. -
        - Ao entrar na gua - o juiz baixo acrescentou -, uma bruxa culpada flutuar, quando a pureza da gua rejeitar sua pessoa maculada. Uma mulher inocente afundar.
        - Ento, posso escolher ser condenada como uma bruxa ou ser inocentada, mas afogada, no ? - retorqui. - No, obrigada! - Abracei meus cotovelos com mais 
fora ainda, tentando acalmar o tremor que parecia ter se tornado parte integrante da minha carne.
        O juiz baixo estufou-se como um sapo ameaado.
        - No fale diante desta corte sem permisso, mulher! Ousa recusar um exame legal?
        - Se eu me recuso a ser afogada? Pode ter certeza que sim! - Tarde demais, vi Geilie sacudindo a cabea freneticamente, de modo que seus cabelos louros balanavam-se 
em torno de seu rosto.
        O juiz voltou-se para MacRae.
        - Dispa-a e aplique-lhe uma surra - disse laconicamente.
        Atravs de uma nvoa de descrena, ouvi uma inalao coletiva, provavelmente de choque e horror - na verdade, de prazer antecipado. E compreendi o que o 
dio realmente significava. No o deles, mas o meu.
        No se deram ao trabalho de me levar de volta  praa da vila. No que me dizia respeito agora, eu tinha pouco a perder e no facilitei o trabalho deles.
        Mos brutais empurraram-me em frente, dando puxes na minha blusa e no corpete.
        - Soltem-me, malditos ignorantes! - gritei e dei um chute em um dos homens que me empurravam bem no lugar em que surtiria mais efeito. Ele dobrou-se com 
um gemido, mas sua figura encolhida sumiu rapidamente numa erupo efervescente de gritos, cusparadas, olhares fulminantes. Outras mos agarravam meus braos e me 
faziam avanar aos tropees, levantando-me por cima de corpos cados na confuso, fazendo meu corpo passar por brechas impossveis de atravessar.
        Algum me golpeou no estmago e eu perdi a respirao. Meu corpete estava literalmente em frangalhos a essa altura, de modo que foi sem grande dificuldade 
que o remanescente foi arrancado. Nunca sofri de extremo recato, mas ficar de p semi-nua diante da zombaria daquela turba rancorosa, com a marca de mos suadas 
em meus seios nus, encheu-me de um dio e humilhao que eu nem conseguia imaginar.
        John MacRae amarrou minhas mos  frente, passando uma corda tranada pelos meus pulsos, deixando um pedao de mais de um metro. Teve a bondade de parecer 
envergonhado ao faz-lo, mas recusava-se a erguer seus olhos para os meus e era claro que eu no podia esperar nem ajuda nem complacncia de sua parte; ele estava 
to  merc da multido quanto eu.
        Geilie estava l, sem dvida recebendo o mesmo tratamento; vi de relance seus cabelos platinados, voando em uma brisa repentina. Meus braos foram esticados 
bem acima de minha cabea quando a corda foi atirada por cima do galho de um enorme carvalho e firmemente esticada. Rangi os dentes e apeguei-me  minha fria. Era 
a nica coisa que eu possua para combater o medo. Havia um ar de tensa expectativa, pontuada pelos murmrios e gritos excitados da multido de espectadores.
        - Vamos, John! - gritou um deles. - Ande logo com isso!
        John MacRae, sensvel s responsabilidades teatrais de sua profisso, parou, o chicote mantido  altura da cintura, e inspecionou a multido. Deu um passo 
 frente e delicadamente ajeitou minha posio, de modo que eu ficasse de frente para o tronco da rvore, quase tocando a casca spera. Em seguida, recuou dois passos, 
ergueu o aoite e deixou-o cair.
        O choque da pancada foi pior do que a dor. Na realidade, foi somente aps vrios golpes que percebi que o carrasco estava fazendo o que podia para me poupar 
o mximo possvel. Ainda assim, um ou dois golpes foram suficientemente fortes para rasgar a pele; senti a ardncia aguda no rastro do impacto.
        Eu mantinha os olhos fechados com fora, a face pressionada contra o tronco, tentando com todas as foras me distanciar da situao. Mas, de repente, ouvi 
algo que me trouxe imediatamente de volta para o aqui e agora.
        - Claire!
        Houve um pequeno afrouxamento da corda que prendia meus pulsos; o suficiente para me permitir dar uma investida que me fez dar uma meia-volta, deixando-me 
de frente para a multido. Minha repentina escapada desconcertou o carrasco, que vergastou seu chicote no ar vazio, perdeu o equilbrio e tropeou para a frente, 
batendo a cabea contra a rvore. Isso teve um timo efeito sobre a multido, que urrou insultos e comeou a zombar dele.
        Meus cabelos cobriam meus olhos, grudavam-se no meu rosto com o suor, lgrimas e a sujeira do confinamento na priso. Sacudi a cabea para solt-los e consegui 
ao menos um olhar de esguelha que confirmou o que os meus ouvidos haviam escutado.
        Jamie abria caminho pela multido que bloqueava sua passagem, o rosto irado, aproveitando-se sem piedade do seu tamanho e de seus msculos.
        Senti-me exatamente como o general MacAuliffe em Bastogne, ao ver o III Exrcito de Patton despontar no horizonte. Apesar do terrvel perigo para Geilie, 
para mim e agora para o prprio Jamie, nunca fiquei to feliz de ver algum.
        "O marido da bruxa!", "O maldito Fraser! O defensor da Coroa!" e eptetos similares comearam a ser ouvidos entre os insultos mais gerais destinados a mim 
e a Geilie. "Peguem ele tambm!", "Queimem todos eles!" A histeria da multido, temporariamente dispersada pelo acidente do carrasco, elevava-se mais uma vez a um 
grau de febre coletiva.
        Impedido de avanar pelas figuras grudadas umas s outras dos assistentes do carrasco, que tentavam det-lo, Jamie ficara encurralado. Com um homem pendurado 
em cada brao, esforava-se para levar a mo ao cinto. Achando que ele tentava pegar uma faca, um dos homens deu-lhe um forte soco na barriga.
        Jamie dobrou-se ligeiramente, em seguida ergueu-se, batendo um cotovelo com toda a fora no nariz do homem que o atacara. Com um dos braos temporariamente 
livre, ignorou as frenticas e desajeitadas tentativas de agarr-lo do homem que estava do outro lado. Enfiou a mo na bolsa na cintura, ergueu o brao e atirou. 
Seu grito atingiu-me quando o objeto saiu de sua mo.
        - Claire! Fique parada!
        Eu no tinha muito para onde ir, pensei desnorteada. Uma mancha escura veio direto na direo do meu rosto e comecei a encolher-me para trs, mas parei a 
tempo. A mancha chocou-se com estardalhao contra meu rosto e as contas negras caram sobre meus ombros quando o rosrio de azeviche, lanado como uma boleadeira, 
acomodou-se perfeitamente em volta do meu pescoo. Ou talvez no to perfeitamente; o fio de contas prendeu-se na minha orelha direita. Sacudi a cabea, os olhos 
lacrimejando com a dor aguda causada pelo impacto do rosrio no meu rosto, e a argola acomodou-se no lugar, o crucifixo balanando vistosamente entre meus seios 
nus.
        Os rostos na primeira fila olhavam-no fixamente, numa espcie de bestificao horrorizada. Seu repentino silncio afetou os que estavam mais Para trs e 
o rudo estrondoso da fervilhante turbulncia arrefeceu. A voz de Jamie, normalmente baixa e suave, mesmo quando estava com raiva, retiniu no silncio. No havia 
nada de suave naquela voz agora.
        - Cortem suas amarras!
        Os que o perseguiam bateram em retirada e as ondas de populacho abriam-se diante dele  medida que avanava ameaadoramente. O carrasco via-o se aproximar, 
paralisado e de boca aberta.
        - Eu disse para tir-la da! Agora! - O carrasco, libertado do seu transe pela viso apocalptica da morte ruiva abatendo-se sobre ele, remexeu-se e tateou 
apressadamente em busca de sua adaga. A corda, cortada com dificuldade, finalmente cedeu com um estalido trmulo e meus braos caram pesadamente, doendo com a tenso 
liberada. Cambaleei e teria cado, se a mo forte e familiar de Jamie no tivesse agarrado meu cotovelo e me erguido. Apoiei meu rosto no peito de Jamie e nada mais 
importava para mim.
        Devo ter perdido a conscincia por alguns instantes, ou devo ter me sentido to dominada pelo alvio que assim me pareceu. O brao de Jamie segurava-me com 
fora pela cintura, mantendo-me em p, e seu xale fora jogado sobre os meus ombros, protegendo-me finalmente dos olhos dos aldees. Havia um tumulto de vozes por 
toda parte, mas j no era a nsia de sangue, ensandecida e jubilosa, da multido.
        A voz de Mutt - ou seria a de Jeff- despontou na confuso.
        - Quem  voc? Como ousa interferir nas investigaes do tribunal?
        Pude sentir, mais do que ver, a multido acotovelando-se para a frente. Jamie era grande, e estava armado, mas era apenas um homem. Encolhi-me contra seu 
peito sob as dobras do xale. Seu brao direito apertou-me com mais fora, mas a mo esquerda aproximou-se do porta-espada em seu quadril. A lmina azul-prateada 
sibilou ameaadoramente quando saiu parcialmente de sua bainha e os que estavam  frente da multido pararam de repente.
        Os juizes eram mais difceis de intimidar. Espreitando do meu esconderijo, podia ver Jeff fitando Jamie furiosamente. Mutt parecia mais confuso do que contrariado 
com a repentina intruso.
        - Ousa puxar uma arma contra a justia de Deus? - admoestou o juiz pequeno e troncudo.
        Jamie retirou a espada por inteiro, com um lampejo de ao, em seguida atirou-a de ponta no cho, deixando o punho da espada tremendo com a fora do golpe.
        - Tiro a arma em defesa desta mulher e da verdade - disse. - Se algum aqui for contra essas duas, respondero a mim e depois a Deus, nessa ordem.
        O juiz piscou uma ou duas vezes, como se fosse incapaz de acreditar naquele comportamento, depois retomou o ataque.
        - Voc no tem lugar nos trabalhos deste tribunal, senhor! Exijo que entregue a prisioneira imediatamente. O seu prprio comportamento ser tratado em breve!
        Jamie examinou friamente os juizes. Podia sentir seu corao batendo com toda fora sob meu rosto conforme me agarrava a ele, mas suas mos estavam firmes 
como rochas, uma descansando no cabo da espada e a outra na adaga em seu cinto.
        - Quanto a isso, senhor, fiz um juramento diante do altar de Deus de proteger esta mulher. Se o senhor est me dizendo que considera sua prpria autoridade 
maior do que a de Deus Todo-poderoso, ento devo informar-lhe que no compartilho dessa opinio.
        O silncio que se seguiu foi quebrado por risinhos contidos e nervosos, ecoando aqui e ali. Embora as simpatias do povo no tivessem mudado para o nosso 
lado, ainda assim a atmosfera que nos levava  desgraa fora quebrada.
        Jamie me virou com a mo no meu ombro. Eu no podia suportar encarar a multido, mas sabia que precisava. Mantive o queixo o mais alto possvel e meus olhos 
focalizaram-se alm daqueles rostos, em um pequeno barco no centro do lago. Fixei meus olhos nele at lacrimejarem.
        Jamie virou o xale, segurando-o ao meu redor, mas deixando-o cair o suficiente para mostrar meu pescoo e meus ombros. Tocou o rosrio negro e deixou-o balanando 
levemente de um lado para o outro.
        - O azeviche queima a pele das bruxas, no ? - perguntou aos juizes. - Mais ainda, eu imaginaria, o crucifixo de Nosso Senhor. Mas, olhem. -Enfiou um dedo 
sob as contas e levantou o crucifixo. Minha pele por baixo era absolutamente branca, sem nenhuma marca, a no ser pelas manchas de sujeira do cativeiro. Ouviu-se 
uma arfada e um murmrio da multido.
        Uma coragem brutal, uma presena de esprito glacial e aquele instinto para o espetculo. Colum MacKenzie tinha razo em ficar apreensivo com as ambies 
de Jamie. E considerando seu medo de que eu pudesse revelar a paternidade de Hamish, ou o que ele achava que eu sabia a respeito, o que fizera comigo tambm era 
compreensvel. Compreensvel, no perdovel.
        O humor da multido ia de um lado ao outro, indeciso. A sede de sangue que os impulsionara antes se dissipava, mas ainda podia levantar-se como uma onda 
e nos esmagar. Mutt e Jeff entreolharam-se, sem saber o que fazer; desconcertados com os ltimos desdobramentos, os juizes haviam perdido controle da situao momentaneamente.
        Geillis Duncan deu um passo  frente na clareira que se formara. No sei se havia esperana para ela naquele ponto ou no. De qualquer modo, ela atirou os 
cabelos louros desafiadoramente para trs de um dos ombros e jogou fora sua vida.
        - Esta mulher no  nenhuma bruxa - disse simplesmente. - Mas eu sou.
        O espetculo encenado por Jamie, por melhor que tivesse sido, no se comparava a este. A comoo resultante abafou completamente as vozes dos juizes, que 
questionavam e exclamavam.
        No havia nenhuma pista quanto ao que ela pensava ou sentia, como nunca houve antes; sua fronte branca e alta estava lmpida, os grandes olhos verdes brilhavam 
parecendo se divertir. Permaneceu ereta em seus trajes rasgados e imundos, fitando seus acusadores. Quando o tumulto amainou um pouco, ela comeou a falar, sem se 
dignar a elevar a voz, mas obrigando-os a silenciarem para ouvi-la.
        - Eu, Geillis Duncan, confesso que sou uma bruxa e amante de Satans. - A declarao causou um novo clamor e ela esperou com absoluta pacincia que se calassem.
        - Em obedincia ao meu Mestre, confesso que matei meu marido, Arthur Duncan, por meio de bruxaria. - Com isso, olhou para o lado, encontrando meus olhos, 
e um leve sorriso tocou seus lbios. Seus olhos se detiveram sobre a mulher de xale amarelo, mas no se enterneceram. - Por maldade, coloquei um feitio na criana 
trocada, para que morresse, e que a criana humana que ela substitua permanecesse com as fadas. - Virou-se e fez um gesto em minha direo.
        - Aproveitei-me da ignorncia de Claire Fraser, usando-a para meus propsitos. Mas ela no tomou parte nem teve conhecimento dos meus atos, nem ela serve 
ao meu Mestre.
        A multido sussurrava outra vez, as pessoas acotovelando-se para ver melhor, empurrando-se para se aproximar. Ela estendeu os dois braos para eles, as palmas 
das mos voltadas para fora.
        - Para trs! - A voz lmpida estalou como um chicote, com o mesmo efeito. Inclinou a cabea para os cus e ficou imvel, como se ouvisse.
        - Ouam! - disse. - Ouam o vento de sua chegada! Cuidado, povo de Cranesmuir! Porque meu Mestre vem nas asas do vento! - Abaixou a cabea e gritou, um som 
agudo e assustador de triunfo. Os grandes olhos verdes estavam fixos e arregalados, como se estivesse em transe.
        O vento estava aumentando. Pude ver as nuvens de tempestade atravessando o outro extremo do lago. As pessoas comearam a olhar  volta com nervosismo. Algumas 
se afastaram da multido.
        Geilie comeou a girar, rodopiando sem parar, os cabelos agitando-se ao vento, a mo graciosamente acima da cabea como uma danarina. Eu a observava numa 
incredulidade perplexa.
        Enquanto girava, os cabelos ocultaram seu rosto. Na ltima volta, entretanto, sacudiu a cabea para jogar a cabeleira loura para o lado e vi seu rosto com 
absoluta clareza, olhando para mim. A mscara de transe havia desaparecido momentaneamente e sua boca formou uma nica palavra. Depois girou novamente e ficou de 
frente para a multido recomeando sua aterradora gritaria.
        A palavra fra "Fujam!"
        Parou de rodopiar repentinamente e com um olhar de xtase alucinado, agarrou os remanescentes de seu corpete com as duas mos e rasgou-o na frente. Rasgou-o 
o suficiente para mostrar  multido o segredo que eu descobrira, aconchegada a ela na imundcie do buraco dos ladres. O segredo que Arthur Duncan descobrira pouco 
antes de sua morte. O segredo pelo qual ele havia morrido. Os farrapos de sua camisola de baixo afastaram-se, revelando o volume de sua gravidez de seis meses.
        Continuei imvel como uma pedra, olhando-a sem desviar os olhos. Jamie no teve a mesma hesitao. Agarrando-me com uma das mos e com a espada na outra, 
atirou-se na multido, derrubando as pessoas em sua passagem com cotovelos, joelhos e o cabo da espada, abrindo caminho em direo  beira do lago. Soltou um assovio 
agudo pelo meio dos dentes.
        Atentos ao espetculo sob o carvalho, poucas pessoas perceberam inicialmente o que estava acontecendo. Em seguida, quando alguns indivduos comearam a gritar 
e a tentar nos agarrar, ouviu-se o barulho de cascos a galope na terra batida acima da margem.
        Donas continuava a no gostar muito de gente e estava mais do que disposto a demonstr-lo. Mordeu a primeira mo que tentou segurar suas rdeas e um homem 
caiu para trs, gritando e sangrando. O cavalo empinava-se, relinchando e agitando as patas no ar, e os poucos ousados que ainda tentavam segur-lo logo perderam 
o interesse.
        Jamie jogou-me em cima da sela como uma saca de cereais e ele prprio montou com um nico movimento gil. Varrendo o caminho com violentos golpes de espada, 
conduziu Donas pela confusa massa formada pela multido. Conforme as pessoas caam sob o massacre de dentes, cascos e lmina, ganhamos velocidade, deixando o lago, 
a vila e Leoch para trs. Sem conseguir respirar com o impacto, esforava-me para falar, para gritar para Jamie.
        Porque eu no havia ficado paralisada com a revelao da gravidez de Geilie. Foi outra coisa que eu vi que me enregelou at a medula dos ossos. Enquanto 
Geilie girava, os braos estendidos para cima, vi o que ela vira quando minhas prprias roupas foram arrancadas. Uma marca em um dos braos igual  que eu carregava. 
Ali, naquela poca, a marca da feitiaria, a marca de um mago. A cicatriz pequena e feia de uma vacina contra varola.
        A chuva aoitava a gua, acalmando meu rosto inchado e os arranhes da corda nos meus pulsos. Enfiei as mos em concha no crrego e bebi a gua devagar, 
sentindo o lquido frio gotejar pela minha garganta com um sentimento de gratido.
        Jamie desapareceu por alguns minutos. Voltou com um punhado de folhas verde-escuras, achatadas nas pontas, mastigando alguma coisa. Cuspiu um bolo de folhas 
verdes maceradas na palma da mo, enfiou outro punhado de folhas na boca e virou-me de costas para ele. Esfregou as folhas mastigadas delicadamente em minhas costas 
e as aguilhoadas diminuram consideravelmente.
        - O que  isso? - perguntei, fazendo um esforo para me controlar. Ainda estava trmula e chorosa, mas as lgrimas involuntrias comeavam a recuar.
        - Agrio - respondeu, a voz ligeiramente abafada pelas folhas na boca. Cuspiu-as e aplicou-as nas minhas costas. - Voc no  a nica que sabe um pouco de 
cura com ervas, Sassenach - ele disse, com mais clareza.
        - Que... que gosto tem? - perguntei, engolindo os soluos.
        - Bem ruim - respondeu laconicamente. Terminou sua aplicao e colocou o xale suavemente de volta nos meus ombros.
        - No vai... - comeou, depois hesitou. - Quero dizer, os cortes no so profundos. Eu... eu acho que voc no ficar... marcada. - Falava com a voz rouca, 
mas o toque de suas mos era muito suave, reduzindo-me s lgrimas outra vez.
        - Desculpe-me - balbuciei, enxugando o nariz numa ponta do xale. -Eu... eu no sei o que h de errado comigo. No sei por que no consigo parar de chorar.
        Ele encolheu os ombros.
        - Suponho que ningum tentou feri-la de propsito antes, Sassenach -ele disse. - Provavelmente  o choque disto, tanto quanto a dor. - Parou, pegando uma 
ponta do xale.
        - Aconteceu o mesmo comigo, moa - disse com franqueza. -Vomitava e gritava enquanto limpavam os cortes. Depois, comecei a tremer. - Limpou meu rosto cuidadosamente 
com o xale, depois colocou a mo sob meu queixo e ergueu meu rosto para o dele.
        - E quando parei de tremer, Sassenach - disse serenamente -, agradeci a Deus pela dor, porque significava que eu estava vivo. - Soltou-me, balanando a cabea 
para mim. - Quando chegar a esse ponto, menina, diga-me; porque eu tenho uma ou duas coisas a lhe dizer.
        Levantou-se e desceu para a beira do crrego, para lavar o leno manchado de sangue na gua fria.
        - O que o trouxe de volta? - perguntei, quando ele retornou. Conseguira parar de chorar, mas ainda tremia e encolhi-me ainda mais nas dobras do xale.
        - Alec MacMahon - ele disse, sorrindo. - Eu disse a ele para ficar de olho em voc enquanto eu estivesse fora. Quando o pessoal da vila prendeu voc e a 
sra. Duncan, ele cavalgou a noite inteira e todo o dia seguinte para me encontrar. E ento eu cavalguei como o prprio diabo de volta. Meu Deus, este  um timo 
cavalo. - Olhou com aprovao para Donas em cima do barranco, amarrado a uma rvore na beira elevada da margem, seu plo molhado brilhando como cobre.
        - Tenho que lev-lo para outro lugar - disse, pensativamente. -Duvido que algum venha atrs de ns, mas no estamos muito longe de Cranesmuir. J consegue 
andar?
        Segui-o pelo barranco ngreme com alguma dificuldade, pequenos cascalhos rolando sob meus ps e samambaias e arbustos espinhosos agarrando-se s minhas saias. 
Perto do topo da encosta havia um bosque de amieiros novos, crescidos to juntos que os galhos mais baixos entrelaavam-se, formando um teto verde acima das samambaias 
no solo. Jamie afastou os galhos para cima o suficiente para que eu pudesse me arrastar para dentro do pequeno espao, depois rearranjou cuidadosamente as samambaias 
quebradas na entrada. Deu um passo para trs e examinou o esconderijo com ar crtico, balanando a cabea com satisfao.
        - Sim, assim est bem. Ningum a encontrar a. - Virou-se para ir, depois voltou. - Tente dormir, se puder, e no se preocupe se eu no voltar logo. Vou 
caar um pouco na volta; no temos nenhuma comida e no quero atrair ateno parando em uma fazenda. Puxe o xale por cima da cabea e certifique-se de que ele cubra 
sua camisola; o branco chama ateno a uma grande distncia.
        Comida parecia irrelevante; sentia como se nunca mais fosse querer comer outra vez. Dormir era diferente. Minhas costas e braos ainda doam, as esfoladuras 
da corda nos meus pulsos estavam em carne viva e sentia-me dolorida e machucada por todo o corpo; mas esgotada de medo, dor e simples exausto, adormeci quase imediatamente, 
o cheiro penetrante das samambaias erguendo-se ao meu redor como incenso.
        Acordei com alguma coisa agarrando meu p. Assustada, sentei-me num salto, batendo com a cabea nos galhos flexveis acima. Folhas e pequenos galhos derramaram-se 
sobre mim e agitei os braos freneticamente, tentando desembaraar meus cabelos dos galhinhos pontudos. Arranhada, descabelada e irritada, arrastei-me para fora 
do meu santurio para deparar-me com Jamie, agachado ali perto, divertindo-se com o meu surgimento. Estava quase anoitecendo, o sol j descera abaixo da faixa do 
crrego, deixando o pedregoso desfiladeiro s escuras. O cheiro de carne na brasa erguia-se de uma pequena fogueira ardendo entre as pedras perto do crrego, onde 
dois coelhos eram assados em um espeto improvisado, feito de varas verdes afiadas.
        Jamie estendeu a mo para me ajudar a descer o barranco. Arrogantemente, declinei a oferta e deslizei sozinha para baixo, tropeando apenas uma vez nas pontas 
esvoaantes do xale. Minha nusea anterior desaparecera e devorei a carne avidamente.
        - Vamos subir mais para dentro da floresta depois do jantar, Sassenach -- Jamie disse, arrancando uma perna da carcaa do coelho. - No quero dormir perto 
do crrego; no posso ouvir ningum se aproximando acima do barulho da gua.
        No houve muita conversa enquanto comamos. O horror da manh e a idia do que havamos deixado para trs nos oprimiam. E para mim havia um profundo sentimento 
de luto. Eu havia perdido no s a chance de descobrir o porqu da minha presena ali, mas uma amiga tambm. Minha nica amiga. Eu sempre tivera dvidas sobre as 
intenes de Geilie, mas no tinha a menor dvida de que ela salvara a minha vida hoje de manh. Sabendo que estava fadada  condenao, fizera o melhor possvel 
para me dar uma oportunidade de fugir. O fogo, quase invisvel  luz do dia, ficava mais brilhante agora, conforme a escurido tomava conta do crrego. Fitei as 
chamas, vendo a pele tostada e os ossos marrons dos coelhos em seus espetos. Uma gota de sangue de um osso quebrado caiu nas chamas, chiando e desaparecendo. De 
repente, a carne parou na minha garganta. Coloquei-a apressadamente junto ao fogo e me virei, com nsias de vmito.
        Ainda sem falar muito, afastamo-nos do riacho e encontramos um lugar confortvel  margem de uma clareira na floresta. Colinas erguiam-se em montes ondulantes 
 nossa volta, mas Jamie escolhera um lugar elevado, com uma boa viso da estrada que vinha da vila. A penumbra realou momentaneamente todas as cores do campo, 
iluminando a terra com jias; uma brilhante esmeralda no vale, uma ametista adoravelmente matizada entre as moitas de urzes e rubis escarlates nos frutos vermelhos 
das sorveiras que coroavam as colinas. Frutos da sorveira, um remdio especfico contra feitiaria. Ao longe, os contornos do Castelo Leoch ainda eram visveis ao 
sop de Ben Aden. Desfizeram-se rapidamente enquanto a luz se extinguia.
        Jamie fez uma fogueira em um local protegido e sentou-se ao lado. A chuva reduzira-se a uma garoa fina que deixava uma neblina no ar e decorava minhas pestanas 
com arco-ris quando olhava para as chamas.
        Ficou sentado fitando o fogo por um longo tempo. Finalmente, ergueu os olhos para mim, as mos unidas em volta dos joelhos.
        - Eu disse antes que no lhe perguntaria nada que no quisesse me contar. E no lhe perguntaria agora, mas tenho que saber, para a sua segurana, assim como 
para a minha. - Parou, hesitante.
        - Claire, se nunca foi honesta comigo, seja agora, porque tenho que saber a verdade. Claire, voc  uma bruxa?
        Fiquei boquiaberta.
        - Uma bruxa? Voc... voc no pode realmente estar fazendo esta pergunta. - Achei que devia estar brincando. No estava.
        Segurou-me pelos ombros e agarrou-me com fora, olhando dentro dos meus olhos como se quisesse me obrigar a responder.
        - Eu tenho que perguntar, Claire! E voc precisa me dizer!
        - E se eu fosse? - perguntei entre os lbios secos. - Se achasse que eu fosse uma bruxa, ainda assim teria lutado por mim?
        - Teria ido para a fogueira com voc! - disse, com violncia. - E at para o inferno, se necessrio. Mas que Jesus Cristo tenha piedade da minha alma e da 
sua, diga-me a verdade!
        A tenso de tudo aquilo me atingiu. Livrei-me de suas mos e corri pela clareira. No muito longe, somente at o limite das rvores; no podia expor-me em 
local aberto. Agarrei-me a uma rvore; envolvi-a com meus braos e finquei as unhas com fora em seu tronco, pressionei o rosto contra ela e desatei numa tagarelice 
fina e histrica.
        O rosto de Jamie, plido e chocado, surgiu do outro lado da rvore. Com a vaga percepo de que o que eu estava fazendo devia soar como uma risada assustadora, 
fiz um incrvel esforo e parei. Arquejando, fitei-o por um instante.
        - Sim - eu disse, recuando, ainda arfando com acessos de riso incontido. - Sim, sou uma bruxa! Para voc, devo ser. Nunca tive varola, mas posso caminhar 
por um salo cheio de moribundos e no pegar a doena. Posso cuidar dos doentes e respirar o mesmo ar que eles e tocar em seus corpos e, ainda assim, a doena no 
pode me atingir. Tambm no pego clera, ou ttano ou uma inflamao mrbida da garganta. E voc deve achar que  um encantamento, porque nunca ouviu falar de vacinas 
e no existe nenhuma outra forma de voc explicar isso.
        - O que eu sei... - Parei de recuar e permaneci imvel, respirando pesadamente, tentando me controlar. - Sei a respeito de John Randall porque me falaram 
dele. Sei quando ele nasceu e quando vai morrer, sei sobre o que ele fez e o que far, sei a respeito de Sandringham porque... porque Frank me contou. Ele sabia 
a respeito de Randall porque ele... ele... ah, meu Deus! - Senti-me como se fosse desmaiar e cerrei os olhos para que as estrelas acima de minha cabea parassem 
de girar.
        - E Colum... ele acha que sou uma bruxa porque eu sei que Hamish no  seu filho. Eu sei... que ele no pode gerar filhos. Mas ele achou que eu sabia quem 
 o pai de Hamish... Achei que talvez fosse voc, mas depois soube que no podia ser e... - Eu falava cada vez mais rpido, tentando controlar a vertigem com o som 
da minha prpria voz.
        - Tudo que j lhe disse a meu respeito  verdade - disse, balanando a cabea loucamente como se quisesse me acalmar. - Tudo. Eu no tenho famlia, no tenho 
ningum, no tenho nenhuma histria, porque eu ainda no aconteci.
        - Sabe quando eu nasci? - perguntei, erguendo os olhos. Sabia que meus cabelos estavam desgrenhados e meus olhos estatelados, mas no me importava. - No 
dia 20 de outubro, do ano da Graa de 1918. Voc me ouviu? - perguntei, porque ele piscava para mim, paralisado, como se no prestasse ateno a nenhuma palavra 
do que eu dizia. - Eu disse mil novecentos e dezoito! Quase daqui a duzentos anos! Est me ouvindo? Eu gritava agora e ele balanou a cabea devagar.
        - Estou ouvindo - respondeu brandamente.
        - Sim, voc est ouvindo! - gritei, enfurecida. - E acha que estou completamente louca. No ? Admita!  o que est pensando. Voc tem que pensar assim, 
no existe nenhuma outra maneira de poder explicar quem sou para si mesmo. Voc no pode acreditar em mim, no pode ousar acreditar em mim. Ah, Jamie... - Senti 
meu rosto se desmoronar. Todo esse tempo tentando esconder a verdade, compreendendo que jamais poderia contar a ningum, e agora eu percebia que podia ter contado 
a Jamie, meu amado marido, o homem em quem eu confiava acima de todas as pessoas, e ele tambm no iria - no poderia acreditar em mim.
        - Foram as pedras, na colina das fadas. No crculo de pedras. As pedras de Merlin. Foi por l que passei. - Eu arquejava, entre soluos, cada vez mais incoerente. 
- Houve um tempo em que..., mas na verdade so duzentos anos. So sempre duzentos anos nas histrias... Mas nas histrias, as pessoas sempre voltam. Eu no pude 
voltar. - Virei-me, cambaleando, procurando onde me apoiar. Deixei-me cair sobre uma pedra, os ombros arqueados, e enterrei a cabea nas mos. Houve um longo silncio 
na floresta. Continuou o suficiente para que as pequenas aves noturnas recobrassem a coragem e comeassem seus rudos outra vez, chamando umas s outras com um piado 
agudo e frgil, conforme caavam os ltimos insetos do vero.
        Ergui os olhos finalmente, pensando que talvez ele simplesmente se levantara e fora embora, acabrunhado com minhas revelaes. Mas ele continuava l, ainda 
sentado, as mos abraando os joelhos, a cabea baixa como se meditasse.
        Os cabelos em seus braos brilhavam, rgidos como fios de cobre  luz do fogo e compreendi que estavam arrepiados, como os plos de um cachorro. Ele estava 
com medo de mim.
        - Jamie - eu disse, sentindo meu corao sucumbir com uma solido absoluta. - Ah, Jamie.
        Sentei-me e encolhi-me numa bola, tentando envolver o ncleo da minha dor. Nada mais importava e solucei incontrolavelmente.
        Suas mos em meus ombros me levantaram, o suficiente para eu ver seu rosto. Atravs da nvoa de lgrimas, vi o olhar que ele ostentava em combate, de luta 
que ultrapassara o ponto de tenso e se tornara uma tranqila certeza.
        - Eu acredito em voc - disse com firmeza. - No entendo nada, ainda no, mas acredito em voc. Claire, eu acredito em voc! Oua-me.
        Existe a verdade entre ns, voc e eu, e o que quer que voc me diga, eu acreditarei. - Deu-me uma leve sacudidela.
        - No importa o que seja. Voc me contou.  o suficiente por enquanto. Fique calma, mo duinne. Deite-se e descanse. Voc me contar o resto depois. E eu 
vou acreditar em voc.
        Eu ainda soluava, incapaz de entender o que ele me dizia. Debati-me, tentando me desvencilhar, mas ele me ergueu e abraou-me com fora contra seu peito, 
pressionando minha cabea nas dobras de seu xale e repetindo incessantemente:
        - Eu acredito em voc.
        Finalmente, por pura exausto, acalmei-me o suficiente para erguer os olhos e dizer:
        - Mas voc no pode acreditar em mim.
        Sorriu para mim. Sua boca estremeceu ligeiramente, mas ele sorriu.
        - No me diga o que eu posso ou no posso fazer, Sassenach. - Parou por um instante. - Quantos anos voc tem? - perguntou, curioso. - Nunca pensei em perguntar.
        A pergunta parecia to absurda que precisei de um instante para pensar.
        - Tenho vinte e sete... ou talvez vinte e oito - acrescentei. Isso o abalou por um instante. Aos vinte e oito, as mulheres na poca dele geralmente estavam 
s portas da meia-idade.
        - Ah - exclamou. Respirou fundo. - Pensei que fosse mais ou menos da minha idade... ou mesmo mais nova.
        Ele no se moveu por um segundo. Entretanto, em seguida, olhou para mim e esboou um sorriso. - Feliz aniversrio, Sassenach - disse.
        Aquilo me pegou inteiramente de surpresa e apenas fitei-o apalermada por um instante.
        - O qu? - consegui finalmente dizer.
        - Eu disse "Feliz Aniversrio". Hoje  dia 20 de outubro.
        -  mesmo? - exclamei estupidamente. - Perdi a conta. - Tremia novamente, do frio, do choque e da fora do meu discurso. Ele puxou-me novamente contra si 
e me abraou, passando as mos grandes pelos meus cabelos, aconchegando minha cabea contra seu peito. Comecei a chorar outra vez, mas agora de alvio. No meu estado 
de perturbao, parecia lgico que se ele sabia a minha idade verdadeira e ainda me queria, tudo iria ficar bem.
        Jamie pegou-me no colo e segurando-me cuidadosamente nos braos, carregou-me at a beira do fogo, onde colocara a sela do cavalo. Sentou-se, recostando-se 
contra a sela, e ficou segurando-me, de leve e bem junto ao seu corpo.
        Muito tempo depois, falou.
        - Muito bem. Agora, me conte.
        Contei-lhe toda a histria. Contei-lhe tudo, parando de vez em quando, mas de forma coerente. Sentia-me dormente de exausto, mas contente, como um coelho 
que conseguiu fugir de uma raposa e encontra abrigo temporrio debaixo de um tronco. No  um santurio, mas ao menos  uma trgua. E contei-lhe a respeito de Frank.
        - Frank - ele disse brandamente. - Ento, ele no est morto, afinal.
        - Ele ainda no nasceu. - Senti uma nova onda de histeria quebrar-se contra minhas costelas, mas consegui manter o controle. - Nem eu.
        Ele me acariciou e alisou, at eu voltar  calma, murmurando docemente pequenas palavras em galico.
        - Quando a resgatei das garras de Randall em Fort William - disse de repente - voc estava tentando voltar. Voltar ao crculo de pedras. E... Frank. Foi 
por isso que abandonou o bosque.
        - Sim.
        - E eu a surrei por isso. - Sua voz era baixa de arrependimento.
        - Voc no tinha como saber. Eu no podia lhe contar. - Estava comeando a me sentir muito sonolenta.
        - No, imagino que no. - Ajeitou o xale mais junto de mim, prendendo as pontas delicadamente em volta dos meus ombros. - Durma agora, mo duinne. Ningum 
vai lhe causar mal, eu estou aqui.
        Aconcheguei-me na curva clida de seu ombro, deixando que minha mente exausta deslizasse pelas camadas do esquecimento. Forcei-me  superfcie o tempo suficiente 
para perguntar:
        - Voc realmente acredita em mim, Jamie? Ele suspirou e sorriu melancolicamente.
        - Sim, acredito em voc, Sassenach. Mas teria sido muito mais fcil se voc fosse apenas uma bruxa.
        Dormi como um morto, acordando algum tempo depois do alvorecer com uma terrvel dor de cabea, com todos os msculos rgidos. Jamie tinha alguns punhados 
de aveia em um saquinho dentro da bolsa em sua cintura e me forou a comer um mingau de aveia com gua. Ficou preso em minha garganta, mas forcei-me a engolir.
        Ele foi lento e delicado comigo, mas falou muito pouco. Depois do desjejum, rapidamente reuniu os apetrechos do pequeno acampamento e colocou a sela em Donas.
        Entorpecida com o choque dos ltimos acontecimentos, nem perguntei aonde estvamos indo. Montada atrs dele, estava satisfeita em encostar meu rosto em suas 
costas largas, sentindo o movimento do cavalo embalar-me a um estado de transe desmemoriado.
        Descemos as escarpas prximas ao lago Madoch, avanando pela glida nvoa matinal at a borda da superfcie cinza e imvel. Patos selvagens comearam a se 
erguer dos juncos em bandos irregulares que voavam ao redor dos pntanos, grasnindo e chamando para acordar os dorminhocos embaixo. Em contraste, um bem disciplinado 
bando de gansos voando numa formao em cunha passou acima de ns, com gritos de desolao e tristeza.
        A nvoa cinza dispersou-se por volta de meio-dia no segundo dia e um sol fraco iluminou as campinas repletas de tojos amarelos e giestas. Alguns quilmetros 
depois do lago, samos numa estrada estreita e viramos para noroeste. O caminho nos levou para o alto outra vez, a colinas baixas e suaves que gradualmente deram 
lugar a rochedos e picos de granito. Encontramos poucos viajantes na estrada e prudentemente entrvamos no mato toda vez que ouvamos barulho de cascos de cavalos 
 frente.
        A vegetao transformou-se em floresta de pinheiros. Respirei fundo, apreciando o ar lmpido e resinoso, embora esfriasse ao anoitecer. Paramos para passar 
a noite em uma pequena clareira a certa distncia do caminho. Ajuntamos um amontoado de agulhas de pinheiro, como um ninho, cobrimos com cobertores e nos aconchegamos 
para nos aquecer, cobertos pelo xale de Jamie e um cobertor.
        Acordou-me durante a noite e fez amor comigo, devagar e ternamente, sem falar. Vi as estrelas cintilando atravs da trama de galhos negros acima de nossas 
cabeas e adormeci novamente com o peso reconfortante de seu corpo ainda quente sobre o meu.
        Pela manh, Jamie parecia mais alegre, ou ao menos mais tranqilo, como se uma deciso difcil tivesse sido alcanada. Prometeu-me ch quente para o jantar, 
que era um pequeno conforto no ar gelado. Sonolentamente, segui-o de volta  trilha, limpando agulhas dos pinheiros e pequenas aranhas das minhas saias. O caminho 
estreito diminuiu durante a manh, dando numa trilha indistinta entre speras touceiras de festuca, ziguezagueando em torno de rochas mais proeminentes.
        Eu prestava pouca ateno s cercanias, pois sonhadoramente aproveitava o calor crescente do sol, mas de repente meus olhos depararam-se com uma formao 
rochosa familiar e acordei do meu torpor. Sabia onde estvamos. E por qu.
        - Jamie!
        Virou-se com a minha exclamao.
        - No sabia? - perguntou com curiosidade.
        - Que estvamos vindo para c? No, claro que no. - Senti-me levemente nauseada. A colina de Craig na Dun estava a pouco mais de um quilmetro de distncia; 
podia ver sua forma corcunda atravs dos ltimos fragmentos da neblina da manh.
        Engoli em seco. Tentava h seis meses chegar a este lugar. Agora que finalmente estava ali, queria estar em qualquer outro lugar. As pedras eretas no topo 
da colina eram invisveis de baixo, mas parecia emanar um terror sutil que me alcanava.
        Bem abaixo do cume, o solo ficou acidentado demais para Donas. Desmontamos e o amarramos a um pinheiro pequeno, continuando a p.
        Eu arfava e suava quando alcanamos a salincia do rochedo; Jamie no demonstrava nenhum sinal de cansao, a no ser um ligeiro rubor junto  gola de sua 
camisa. Estava silencioso ali acima dos pinheiros, mas com um vento regular zumbindo fracamente nas fendas da rocha. Andorinhas passaram zunindo, erguendo-se bruscamente 
nas correntes de ar  cata de insetos, mergulhando como bombardeiros, as asas delgadas estendidas.
        Jamie segurou minha mo para me puxar para o ltimo degrau da salincia larga e plana de granito na base da rocha. No a soltou, mas puxou-me para junto 
dele, olhando-me cuidadosamente, como se quisesse memorizar minhas feies.
        - Por que...? - comecei a dizer, tentando recuperar o flego.
        -  o seu lugar - disse duramente. - No ?
        - Sim. - Eu olhava hipnotizada para o crculo de pedras. - Parece exatamente igual.
        Jamie seguiu-me ao centro do crculo. Segurando-me pelo brao, caminhou com firmeza at a pedra dividida em duas.
        -  esta aqui? - perguntou.
        - Sim. - Tentei afastar-me. - Cuidado! No se aproxime! - Olhou de mim para a pedra, obviamente ctico. Talvez tivesse razo. De repente, senti-me em dvida 
da veracidade de minha prpria histria.
        - Eu... eu no sei nada sobre ela. Talvez a... o que quer que fosse... tenha se fechado atrs de mim. Talvez s funcione em determinadas pocas do ano. Estava 
prximo do Beltane quando a atravessei.
        Jamie olhou para o sol por cima do ombro, um disco plano pendurado no meio do cu por trs de uma fina cortina de nuvens.
        - J  quase Samhain, o incio do inverno - ele disse. - Ali Hallows. Parece adequado, no? - Estremeceu involuntariamente, apesar da piada. -Quando voc... 
atravessou. O que fez?
        Tentei me lembrar. Sentia-me congelada e prendi as mos debaixo dos braos.
        - Andei em volta do crculo, olhando tudo. Mas aleatoriamente, no havia nenhuma forma especial. Ento, cheguei perto da pedra fendida e ouvi um zumbido, 
como o de abelhas.
        Ainda era como abelhas. Recuei como se fosse o chocalho de uma cobra.
        - Ainda est aqui! - Recuei em pnico, atirando os braos em volta de Jamie, mas ele me segurou firmemente longe dele, o rosto lvido, e virou-me outra vez 
em direo  pedra.
        - E depois? - O vento uivante penetrava em meus ouvidos, mas sua voz era ainda mais contundente.
        - Coloquei a mo sobre a rocha.
        - Faa isto, ento. - Empurrou-me para mais perto e quando eu no reagi, ele segurou meu pulso e plantou minha mo com firmeza contra a superfcie listrada.
        Fez-se o caos e ele apoderou-se de mim.
        Finalmente, o sol parou de girar atrs dos meus olhos e os gritos agudos desapareceram dos meus ouvidos. Havia um outro barulho persistente, Jamie chamando 
meu nome.
        Sentia-me fraca demais para me erguer ou abrir os olhos, mas sacudi a mo fracamente, para que ele soubesse que eu ainda estava viva.
        - Estou bem - disse.
        - Est mesmo? Ah, meu Deus, Claire! - Apertou-me contra o peito, abraando-me com fora. - Meu Deus, Claire. Pensei que estivesse morta. Voc... voc comeou 
a... ir embora, de certa forma. Tinha a expresso mais terrvel no rosto, como se estivesse apavorada. Eu... eu a puxei de volta da pedra. Eu a impedi. No devia 
ter feito isso. Sinto muito, Sassenach.
        Meus olhos estavam suficientemente abertos agora para ver seu rosto acima do meu, aturdido e assustado.
        - Est tudo bem. - Ainda tinha dificuldade para falar e sentia-me pesada e desorientada, mas voltava gradativamente ao normal. Tentei sorrir, mas meus lbios 
apenas se contorceram.
        - Ao menos... sabemos... que ainda funciona.
        - Ah, meu Deus. Sim, funciona. - Lanou um olhar fulminante, de dio e temor,  pedra.
        Deixou-me pelo tempo de ir molhar um leno em uma poa de gua da chuva em uma depresso nas rochas. Umedeceu meu rosto, ainda murmurando palavras de conforto 
e desculpas. Por fim, senti-me bem o suficiente para me sentar.
        - Voc no acreditava em mim, no  mesmo? - Apesar de sentir-me tonta e vacilante, sentia-me de certa forma vingada. - Mas  verdade.
        - Sim,  verdade. - Sentou-se ao meu lado, fitando a pedra por vrios minutos. Esfreguei o leno molhado no rosto, ainda fraca e zonza. De repente, ps-se 
de p num salto, caminhou at a rocha e espalmou a mo sobre ela.
        Nada aconteceu e, aps um minuto, seus ombros baixaram e ele voltou para mim.
        - Talvez s funcione com mulheres - eu disse, confusa. - As lendas sempre falam de mulheres. Ou talvez seja apenas eu.
        - Bem, no funciona comigo - disse. - Mas  melhor me certificar.
        - Jamie! Cuidado! - gritei, em vo. Ele marchou para a pedra, colocou a mo espalmada sobre ela outra vez, atirou-se contra ela, passou pela fenda e voltou 
por ela outra vez, mas a pedra continuou sendo apenas um monlito macio. Quanto a mim, estremeci diante da idia de sequer me aproximar daquela porta para a loucura 
novamente.
        Mesmo assim. Mesmo assim, quando comecei a passar para o reino do caos desta vez, eu estava pensando em Frank. E eu o senti, tinha certeza. Em algum lugar 
no vcuo havia um pontinho de luz e ele estava l. Eu soube. Tambm soube que havia um outro ponto de luz, que ainda estava sentado ao meu lado, fitando a pedra, 
o rosto brilhando de suor, apesar do frio do dia.
        Finalmente, ele voltou-se para mim e segurou minhas duas mos. Levou-as aos lbios e beijou cada uma formalmente.
        - Minha mulher - disse docemente. - Minha... Claire. No adianta esperar. Tenho que deix-la agora.
        Meus lbios estavam rgidos demais para que eu pudesse falar, mas a expresso do meu rosto devia ser facilmente legvel como sempre.
        - Claire - disse, ansiosamente -,  a sua prpria poca do outro lado da... desta coisa. Voc tem um lar, um lugar l. Tudo com que est acostumada. E... 
Frank.
        - Sim - eu disse. - Frank est l.
        Jamie segurou-me pelos ombros, colocando-me de p e sacudindo-me delicadamente numa splica.
        - No h nada para voc deste lado, menina! Nada, a no ser violncia e perigo. V! - Empurrou-me levemente, virando-me na direo do crculo de pedras. 
Virei-me para ele novamente, segurando suas mos.
        - No h realmente nada para mim aqui, Jamie? - Fitei-o nos olhos, no permitindo que se desviasse de mim.
        Ele livrou-se delicadamente de minhas mos sem responder e ficou parado, de repente uma figura de outra poca, vista em alto-relevo sobre um fundo de colinas 
nebulosas, a vida em seu rosto apenas um truque da rocha sombreada, como que aplainada sob camadas de tinta, a reminiscncia de um pintor de lugares e paixes esquecidas 
que viraram p.
        Olhei dentro de seus olhos, cheios de dor e anseio, e ele se tornou de carne e osso outra vez, real e imediato, amante, marido, homem.
        A angstia que eu sentia devia estar refletida em meu rosto, porque ele hesitou, depois se virou para leste e apontou para baixo do declive.
        - Est vendo atrs do pequeno grupo de carvalhos l embaixo? ou menos a meio caminho.
        Vi o grupo de rvores e vi o que ele estava apontando, a cabana de lavrador, parcialmente em runas, abandonada na colina assombrada.
        - Vou descer para aquela casa e ficar l at o anoitecer. Para ter certeza... para ter certeza de que voc est segura. - Olhou para mim, mas no fez nenhum 
gesto para me tocar. Cerrou os olhos, como se no suportasse mais olhar para mim.
        - Adeus - disse, virando-se e partindo.
        Fiquei observando-o, paralisada, e ento me lembrei. Havia algo que eu precisava dizer-lhe. Chamei-o.
        - Jamie!
        Ele parou e ficou imvel por um instante, lutando para controlar seu rosto. Estava lvido e extenuado e seus lbios estavam exangues quando se voltou de 
novo para mim.
        -Sim?
        - H uma coisa... quero dizer, tenho que lhe dizer uma coisa antes... antes de partir.
        Ele fechou os olhos por um instante e acho que oscilou, mas deve ter sido apenas o vento agitando seu kilt.
        - No  preciso - ele disse. - No. V, menina. No devia se demorar. V. - Fez meno de virar-se, mas segurei-o pela manga da camisa.
        - Jamie, oua-me! Voc precisa me ouvir! - Ele sacudiu a cabea, desarvorado, erguendo uma das mos como se quisesse me afastar.
        - Claire... no. No posso. - O vento fazia seus olhos lacrimejarem.
        -  a Conspirao Jacobita - eu disse, ansiosamente, sacudindo seu brao. -Jamie, oua. O prncipe Carlos, seu exrcito. Colum est certo! Est me ouvindo, 
Jamie! Colum est certo, no Dougal.
        - Hein? O que quer dizer? - Eu tinha sua ateno agora. Passou a manga da camisa pelo rosto e os olhos que se detiveram em mim estavam desanuviados e atentos. 
O vento uivava em meus ouvidos.
        - Prncipe Carlos. Haver uma rebelio, Dougal tem razo sobre isso, mas no ser vitoriosa. O exrcito de Carlos Eduardo vai se sair bem por algum tempo, 
mas tudo terminar num grande massacre. Em Culloden,  l que vai terminar. Os... os cls... - Mentalmente, via as lpides dos cls, as pedras cinzas que ficariam 
espalhadas pelo campo, cada uma ostentando apenas o nome do cl dos homens massacrados que jaziam sob ela. Respirei fundo e agarrei sua mo para me equilibrar. Estava 
fria como a de um cadver. Estremeci e fechei os olhos para me concentrar no que estava dizendo.
        - Os homens das Highlands, todos os cls aliados de Carlos, sero destrudos. Centenas e centenas morrero em Culloden; os que sobrarem sero perseguidos 
e assassinados. Os cls sero massacrados... e no se levantaro mais. No em sua poca, nem na minha.
        Abri os olhos e me deparei com ele fitando-me, sem expresso. -Jamie, fique fora disso! - supliquei-lhe. - Mantenha sua famlia fora disso se puder, mas 
pelo amor de Deus... Jamie, se voc... - Parei de repente.
        Eu ia dizer "Jamie, se voc me ama". Mas no pude. Eu ia perd-lo para sempre e se pude no falar de amor com ele antes, no podia faz-lo agora.
        - No v para a Frana - eu disse, em voz baixa. - V para Amrica, para a Espanha, para a Itlia. Mas pelo amor daqueles que o amam, Jamie, no ponha os 
ps em Culloden.
        Ele continuava me fitando. Perguntava-me se estaria me ouvindo.
        - Jamie? Voc me ouviu? Voc compreende?
        Aps um instante, ele balanou a cabea, anestesiado.
        - Sim - disse, serenamente, a voz to baixa que mal pude ouvi-lo sob o gemido do vento. - Sim, ouvi. - Soltou a minha mo.
        - V com Deus... mo duinne.
        Saiu da salincia do rochedo e continuou sua descida pelo declive ngreme, firmando os ps em tufos de capim, segurando em galhos para manter o equilbrio, 
sem olhar para trs. Fiquei observando-o at ele desaparecer no bosque de carvalhos, caminhando lentamente, como um homem ferido que sabe que tem que continuar andando, 
mas sente que sua vida se esvai lentamente entre os dedos que aperta contra o ferimento.
        Meus joelhos tremiam. Devagar, abaixei-me e sentei com as pernas cruzadas, observando as andorinhas. Abaixo, eu podia apenas ver o telhado da cabana que 
agora abrigava meu passado. s minhas costas assomava a pedra fendida. E meu futuro.
        Fiquei sentada sem me mover durante toda a tarde. Tentei arrancar  fora todas as emoes da minha mente e usar a razo. Jamie certamente tinha a lgica 
a seu favor quando argumentava que eu devia voltar; lar, segurana, Frank; at mesmo os pequenos confortos da vida de que eu tanto sentia falta de vez em quando, 
como banhos quentes e gua encanada, para no falar de consideraes maiores como tratamento mdico adequado e condies de viagem adequadas.
        Ainda assim, enquanto eu sem dvida admitia as inconvenincias e bvios perigos daquele lugar, tambm tinha que admitir que apreciava muitos dos seus aspectos. 
Se viajar era incmodo, no havia enormes extenses de concreto cobrindo os campos, nem qualquer barulho, nem carros com seus escapamentos fedorentos - invenes 
com seus prprios perigos, lembrei a mim mesma. A vida era muito mais simples e as pessoas tambm. No menos inteligentes, porm muito mais francas - com algumas 
autnticas excees, como Colum ban Campbell MacKenzie, pensei implacavelmente.
        Por causa do trabalho do tio Lamb, eu vivera em muitos lugares diferentes, alguns at mesmo mais inspitos e com menos convenincias do que este. Eu me adaptava 
com bastante facilidade a condies adversas e no sentia realmente falta da "civilizao" quando longe dela, embora me adaptasse com a mesma facilidade  presena 
de mquinas e do maior conforto que proporcionavam, como aquecedores de gua e aparelhos eletrodomsticos. Estremeci no vento frio, abraando-me com fora enquanto 
fitava a rocha.
        A racionalidade no parecia estar ajudando muito. Voltei-me para a emoo e comecei, encolhendo-me diante da tarefa, a reconstruir os detalhes das minhas 
vidas de casada - primeiro com Frank, depois com Jamie. O nico resultado disso foi deixar-me arrasada e chorando, as lgrimas formando trilhas congeladas em meu 
rosto.
        Bem, se nem a razo nem a emoo, que tal o dever? Eu fizera votos matrimoniais a Frank e o fiz de todo o corao. Fizera o mesmo a Jamie, e o tra logo 
que pude. E qual deles eu irei trair agora? Continuei sentada, enquanto o sol descia cada vez mais no horizonte e as andorinhas desapareciam para os seus ninhos.
        Quando a estrela vespertina comeou a brilhar entre os galhos dos pinheiros negros, conclu que nesta situao a razo tinha pouca utilidade. Iria ter que 
confiar em alguma outra coisa; exatamente o qu, eu no sabia. Voltei-me para a pedra fendida e dei um passo em sua direo, depois outro, depois outro. Parando, 
virei-me e tentei na direo oposta. Um passo, depois outro, depois outro e, antes que sequer soubesse o que havia decidido, j estava na metade da encosta, lutando 
desvairadamente com o mato, escorregando e caindo nas reas de cascalho.
        Quando cheguei  cabana, ofegante de medo de que ele j pudesse ter ido embora, tranqilizei-me ao ver Donas amarrado ali perto, pastando. O cavalo ergueu 
a cabea e olhou-me de forma pouco amistosa. Caminhando silenciosamente, empurrei a porta.
        Ele estava no aposento da frente, dormindo em um estreito banco de carvalho. Dormia de costas, como sempre fazia, as mos cruzadas sobre o estmago, a boca 
ligeiramente aberta. Os ltimos raios de luz do dia que entravam pela janela s minhas costas recortavam seu rosto como uma mscara de metal; os caminhos prateados 
das lgrimas secas cintilavam na pele dourada e o acobreado da barba espetada brilhava foscamente.
        Fiquei parada, observando-o por um instante, transbordante de uma ternura indescritvel. Movendo-me o mais silenciosamente possvel, deitei-me ao lado dele 
no banco estreito e aconcheguei-me ao seu corpo. Virou-se para mim no seu sono como sempre fazia, aninhando-me contra o seu peito e recostando o rosto nos meus cabelos. 
Semi-consciente, alisou meus cabelos para afast-los do seu nariz; senti o violento solavanco quando ele acordou e percebeu que eu estava ali e, ento, perdemos 
o equilbrio e camos no cho, Jamie sobre mim.
        Eu no tinha a menor dvida de que ele era de carne e osso. Empurrei o joelho de cima de mim, grunhindo.
        - Saia! No consigo respirar!
        Ao invs disso, ele agravou minha falta de ar beijando-me apaixonadamente. Ignorei a falta de oxignio temporariamente, a fim de me concentrar em coisas 
mais importantes.
        Abraamo-nos durante muito tempo sem falar. Finalmente, ele murmurou, a boca abafada em meus cabelos:
        - Por qu?
        Beijei seu rosto, mido e salgado. Podia sentir seu corao batendo contra as minhas costelas e no desejava mais nada alm de ficar ali para sempre, sem 
me mover, sem fazer amor, apenas respirando o mesmo ar.
        - Tive que faz-lo - respondi. Ri, um pouco trmula. - No sabe como estive por um fio. Os banhos quentes quase venceram. - Ento, chorei, estremecendo, 
porque a escolha era to recente e porque minha alegria pelo homem que tinha nos braos misturava-se a um dor dilacerante pelo homem que eu jamais veria novamente.
        Jamie abraou-me com fora, pressionando-me com seu peso, como se quisesse me proteger, para impedir que eu fosse levada pela atrao esmagadora do crculo 
de pedras. Por fim, minhas lgrimas cessaram e fiquei deitada, exausta, a cabea apoiada em seu peito reconfortante. J escurecera completamente, mas ele continuava 
a me abraar, murmurando baixinho, como se eu fosse uma criana com medo do escuro. Presos um ao outro, no nos afastamos nem mesmo para acender um fogo ou uma vela.
        Finalmente, Jamie levantou-se e, pegando-me no colo, carregou-me para o banco, onde se sentou, aconchegando-me em seu colo. A porta da cabana continuava 
aberta e podamos ver as estrelas comeando a cintilar sobre o vale l fora.
        - Sabe - eu disse, sonolentamente - que so precisos milhares e milhares de anos para a luz daquelas estrelas nos alcanar? Na verdade, algumas estrelas 
que vemos podem j estar mortas, mas ns no sabemos, porque ainda vemos a luz.
        -  mesmo? - disse, acariciando minhas costas. - No sabia.
        Devo ter adormecido, a cabea em seus ombros, mas acordei por um instante, quando ele me colocou delicadamente no cho, numa cama improvisada com os cobertores 
que carregava na sela. Deitou-se ao meu lado e puxou-me para junto de seu corpo outra vez.
        - Descanse, Sassenach - sussurrou. - Amanh vou lev-la para casa.
        Acordamos pouco antes do amanhecer e estvamos no caminho de descida quando o sol se levantou, ansiosos para deixar Craig na Dun.
        - Para onde vamos, Jamie? - perguntei, alegrando-me com a perspectiva de um futuro que o inclua, ainda que deixasse para trs a ltima chance de retornar 
para o homem que havia - que iria? - me amar um dia.
        Jamie freou o cavalo, parando para olhar por cima do ombro por um instante. O crculo ameaador de pedras verticais era invisvel daquele ponto, mas a encosta 
rochosa parecia erguer-se intransponvel s nossas costas, coberta de pedregulhos e moitas de tojo. De onde estvamos, a cabana em runas parecia mais uma rocha 
proeminente, como uma articulao ssea projetando-se do punho cerrado de granito da colina.
        - Quisera ter lutado por voc - ele disse repentinamente, olhando para mim novamente. Seus olhos azuis estavam escuros e ansiosos.
        Sorri para ele, emocionada.
        - No era sua luta, era minha. Mas voc venceu, de qualquer modo. -Estendi a mo e ele apertou-a.
        - Sim, mas no foi isso que eu quis dizer. Se eu tivesse lutado com ele homem a homem por voc e vencido, voc no precisaria sentir nenhum arrependimento. 
- Hesitou. - Se um dia...
        - No h mais nenhum "se" - eu disse com firmeza. - Pensei em cada um deles ontem e ainda assim estou aqui.
        - Graas a Deus - ele disse, sorrindo. - E que Deus a proteja. - Em seguida, acrescentou: - Embora eu jamais v entender por qu.
        Passei os braos em torno de sua cintura e abracei-o, conforme o cavalo resvalava pela ltima encosta ngreme.
        - Porque - eu disse - eu certamente no consigo viver sem voc, Jamie Fraser, e isso  tudo. Agora, para onde est me levando?
        Jamie virou-se na sela, para olhar a subida da colina.
        - Rezei durante todo o caminho ladeira acima ontem - ele disse baixinho. - No para que voc ficasse, no achava isso certo. Rezei para ser forte o suficiente 
para deix-la ir embora. - Sacudiu a cabea, ainda fitando a colina, uma expresso sonhadora nos olhos.
        - Eu disse: "Senhor, se nunca tive coragem em minha vida antes, que eu a tenha agora. Permita que eu seja corajoso o suficiente para no cair de joelhos 
e implorar-lhe que fique." - Afastou os olhos da cabana e sorriu brevemente para mim.
        - A coisa mais difcil que eu j fiz, Sassenach. - Virou-se na sela e direcionou o cavalo para o leste. Era uma rara manh luminosa e o sol matutino fazia 
tudo reluzir, desenhando uma fina linha de fogo ao longo das rdeas, da curva do pescoo do cavalo e nas faces e nos ombros largos de Jamie.
        Ele respirou fundo e balanou a cabea em direo  charneca, indicando uma passagem estreita e distante, entre dois penhascos.
        - Agora, acho que posso fazer a segunda coisa mais difcil. - Esporeou o cavalo delicadamente, estalando a lngua. - Estamos indo para casa, Sassenach. Para 
Lallybroch.
        


PARTE V
LAUYBROCH



26 - A VOLTA DO SENHOR DAS TERRAS
        
        No comeo, estvamos to felizes s de estarmos juntos e longe de Leoch que no falvamos muito. Para atravessar a superfcie plana da charneca, Donas podia 
carregar ns dois sem grande esforo e cavalguei com os braos em torno da cintura de Jamie, regozijando-me na sensao dos msculos aquecidos pelo sol remexendo-se 
sob minha face. Quaisquer que fossem os problemas que pudssemos enfrentar - e eu sabia que havia muitos - estvamos juntos. Para sempre. E isso era o suficiente.
        Quando o primeiro impacto de felicidade amadureceu no esplendor do companheirismo, comeamos a conversar outra vez. No comeo, sobre a regio que estvamos 
atravessando. Depois, cautelosamente, sobre mim e do lugar de onde eu viera. Ele ficava fascinado com as minhas descries da vida moderna, embora eu pudesse ver 
que a maioria das minhas histrias parecia contos de fadas para ele. Adorava especialmente as descries de automveis, tanques e avies e me fez descrev-los inmeras 
vezes, o mais detalhadamente possvel. Por um acordo tcito, evitvamos qualquer meno a Frank.
        Conforme a distncia percorrida aumentava, nossa conversa voltou-se mais para o tempo presente: Colum, o castelo, depois a caa ao veado e o duque.
        - Ele parece um bom sujeito - Jamie observou. Quando o caminho tornou-se mais difcil, ele desmontou e passou a caminhar ao lado, o que facilitava a conversa.
        - Tambm achei - disse. - Mas...
        - Ah, sim, no se pode confiar muito no que um homem parece ser atualmente - concordou. - Ainda assim, nos demos bem, ele e eu. Sentvamos juntos e passvamos 
a noite conversando em volta do fogo na cabana de caa. Alis, ele  bem mais inteligente do que parece; ele sabe a impresso que aquela voz dele causa e acho que 
a usa para se fazer passar um pouco por tolo, enquanto o tempo todo sua astcia est l, trabalhando por trs do olhar.
        - Mmm.  disso que eu tenho medo. Voc... contou a ele? Encolheu os ombros.
        - Um pouco. Ele sabia meu nome,  claro, daquela outra vez, no castelo.
        Ri ao me lembrar do relato que ele fizera daquela poca.
        - Vocs, h, ficaram recordando os velhos tempos?
        Ele riu, as pontas dos cabelos flutuando pelo rosto na brisa de outono.
        - Ah, s um pouco. Perguntou-me uma vez se eu ainda tinha problemas intestinais. Mantive o ar srio e respondi que normalmente no, mas que talvez estivesse 
comeando a sentir um pouco de dor de barriga agora. Ele riu e disse que esperava que isso no incomodasse minha bela esposa.
        Ri tambm. No momento, o que o duque fizesse ou deixasse de fazer no parecia de decisiva importncia. Ainda assim, um dia ele poderia ser til.
        - Contei-lhe tambm que eu era procurado, mas no culpado da acusao, embora houvesse pouca probabilidade de prov-lo. Ele pareceu compreensivo, mas tive 
o cuidado de no lhe contar as circunstncias, quanto mais o fato de que h um prmio por minha cabea. Eu ainda no chegara a uma concluso se podia confiar nele 
quando... bem, quando o Velho Alec irrompeu no acampamento como se o prprio diabo estivesse em seu encalo e Murtagh e eu partimos no mesmo dia.
        Isso me fez lembrar.
        - E onde est Murtagh? - perguntei. - Ele voltou com voc para Leoch? - Esperava que o pequeno membro do cl no tivesse se metido em confuso nem com Colum 
nem com os habitantes de Cranesmuir.
        - Ele comeou a voltar comigo, mas o animal que cavalgava no era preo para Donas. Sim, voc  um valoroso rapazinho, Donas, mo buidheag. - Deu um tapinha 
no reluzente pescoo do alazo e Donas relinchou e sacudiu a crina. Jamie ergueu os olhos para mim e sorriu.
        - No se preocupe com Murtagh. Eis um passarinho alegre que sabe cuidar de si mesmo.
        - Alegre? Murtagh? - Alegre quer dizer contente, bem-humorado, o que parecia incoerente em se tratando de Murtagh. - Acho que nunca o vi sorrir. E voc?
        - Ah, sim. Pelo menos duas vezes.
        - H quanto tempo o conhece?
        - Vinte e trs anos. Ele  meu padrinho.
        - Ah, bem, isso explica muita coisa. No achei que ele fosse se preocupar por minha causa.
        Jamie deu um tapinha na minha perna.
        - Claro que se preocuparia. Ele gosta de voc.
        - Vou acreditar na sua palavra.
        Tendo voltado a tocar nos ltimos acontecimentos, respirei fundo e perguntei algo que desejava ardentemente saber.
        - Jamie?
        - Sim?
        - Geillis Duncan. Eles vo... vo realmente queim-la?
        Ergueu os olhos para mim, franzindo ligeiramente a testa, e balanou a cabea, confirmando.
        - Creio que sim. Mas s depois que a criana tiver nascido.  isso o que a est perturbando?
        - Uma das coisas. Jamie, olhe para isto. - Tentei levantar a volumosa manga, no consegui, e contentei-me em puxar a gola da minha blusa do meu ombro para 
mostrar minha cicatriz de vacinao.
        - Deus do cu - ele disse devagar, depois que lhe expliquei. Olhou-me incisivamente. - Ento  por isso... ento, ela  de sua poca?
        Encolhi os ombros, desarvorada.
        - No sei. Tudo que posso dizer  que ela provavelmente nasceu depois de 1920; foi quando a vacinao em massa foi iniciada. - Olhei por cima do ombro, mas 
nuvens baixas escondiam os penhascos que agora nos separavam de Leoch. - Acho que nunca mais saberei... agora.
        Jamie tomou as rdeas de Donas e conduziu-o para o lado, para um pequeno bosque de pinheiros, s margens de um riacho. Agarrou-me pela cintura, levantou-me 
e me colocou no cho.
        - No lamente por ela - disse com firmeza, abraando-me. -  uma mulher m, uma assassina, se no uma bruxa. Ela realmente matou o marido, no?
        - Sim - respondi com um estremecimento, lembrando-me dos olhos vidrados de Arthur Duncan.
        - Mas ainda no compreendo por que ela tinha que mat-lo - ele disse, sacudindo a cabea, estarrecido. - Ele tinha dinheiro, uma boa posio. E duvido que 
a maltratasse.
        Olhei-o com exasperada surpresa.
        - E essa  a sua definio de um bom marido?
        - Bem... sim - ele disse, franzindo a testa. - O que mais ela podia querer?
        - O que mais - Fiquei to desconcertada que apenas olhei para ele por um instante, depois me deixei cair na grama e comecei a rir.
        - O que  engraado? Acho que foi um assassinato. - No entanto, ele sorriu e passou o brao ao meu redor.
        - Eu s estava pensando - disse, ainda rindo - se a sua definio de um bom marido  algum com dinheiro e boa posio que no bate na mulher... o que isso 
faz de voc?
        - Ah - exclamou. Riu. - Bem, Sassenach, eu nunca disse que era um bom marido. Nem voc. "Sdico", acho que foi assim que me xingou e algumas outras coisas 
que eu no repetiria para bem da decncia. Mas no um bom marido.
        - timo. Ento, no me sentirei obrigada a envenen-lo com cianeto.
        - Cianeto? - Olhou-me com curiosidade. - O que  isso?
        - O que matou Arthur Duncan.  um veneno rpido e muito poderoso. Bastante comum na minha poca, mas no aqui. - Umedeci os lbios pensativamente.
        - Eu senti o gosto de cianeto nos lbios dele e apenas isso foi o suficiente para fazer todo o meu rosto ficar dormente. Age quase instantaneamente, como 
voc viu. Eu devia ter adivinhado naquela ocasio... a respeito de Geilie, quero dizer. Imagino que ela o tenha obtido a partir de caroos de pssego ou de cereja 
triturados, embora deva ter dado um trabalho incrvel.
        - Ela lhe contou por que fez isso?
        Suspirei e esfreguei os ps. Meus sapatos haviam se perdido na confuso junto ao lago e eu estava sempre pegando farpas e carrapichos, no tendo os ps endurecidos 
como os de Jamie.
        - Isso e muito mais. Se h alguma coisa de comer no seu alforje, por que no vai buscar e lhe contarei tudo sobre isso.
        Entramos no vale de Broch Tuarach no dia seguinte. Quando samos dos contrafortes, avistei um cavaleiro solitrio, a uma certa distncia, vindo mais ou menos 
em nossa direo. Era a primeira pessoa que eu via desde que deixramos Cranesmuir.
        O homem que se aproximava era vigoroso e de aparncia abastada, com um leno de pescoo muito branco aparecendo na gola de um resistente casaco de sarja 
cinza, as longas pontas deixando  mostra apenas uns cinco centmetros de suas calas amarradas abaixo dos joelhos.
        Estvamos viajando h quase uma semana, dormindo ao relento, lavando-nos nas guas frias e limpas dos crregos e vivendo bem de coelhos e peixes que Jamie 
conseguia pegar e de plantas e frutas comestveis que eu conseguia encontrar. Com nossos esforos conjuntos, nossa dieta era melhor do que a do castelo, mais fresca 
e certamente mais variada, ainda que um pouco imprevisvel.
        No entanto, se a nutrio estava mais do que a contento na vida ao ar livre, a aparncia era diferente e eu fiz uma rpida avaliao de nosso estado quando 
o cavalheiro montado hesitou, franzindo o cenho, depois mudou de direo e veio trotando lentamente em nossa direo para investigar.
        Jamie, que insistira em caminhar a maior parte da viagem para poupar o cavalo, tinha realmente uma aparncia nada respeitvel, as meias manchadas at os 
joelhos de poeira vermelha, a camisa sobressalente rasgada pelos arbustos e a barba de uma semana eriando-se furiosamente das faces e dos maxilares.
        Seus cabelos haviam crescido bastante nos ltimos meses para alcanar os ombros. Em geral, presos num rabicho ou amarrados na nuca com uma fita, agora estavam 
soltos, espessos e desgrenhados, com pequenos pedaos de folhas e galhos presos nas desalinhadas mechas cor de cobre. Com o rosto queimado de sol num tom de bronze 
avermelhado, as botas rachadas, espada e adaga enfiadas no cinto, ele realmente parecia um brbaro das Highlands.
        Eu no estava muito melhor. Suficientemente coberta nas dobras da camisa de Jamie e nos remanescentes do meu vestido, descala, enrolada no seu xale de xadrez, 
parecia uma maltrapilha. Encorajada pela nvoa mida e no sofrendo nenhuma restrio em forma de pente ou escova, meus cabelos rebelaram-se em toda a minha cabea. 
Tambm haviam crescido durante minha estada no castelo e flutuam em nuvens e cachos pelos meus ombros, entrando nos meus olhos sempre que o vento vinha de trs, 
como agora.
        Afastando dos olhos os cachos revoltos, observei a aproximao cautelosa do cavalheiro de cinza. Jamie, vendo-o, parou nosso prprio cavalo e esperou que 
ele se aproximasse o suficiente para poderem conversar.
        -  Jock Graham - disse-me -, l de Murch Nardagh.
        O homem freou a alguns metros de distncia e ficou nos examinando cuidadosamente. Seus olhos, com grandes bolsas de gordura, estreitaram-se e pousaram com 
desconfiana em Jamie. Em seguida, arregalaram-se repentinamente.
        - Lallybroch? - perguntou, incrdulo.
        Jamie balanou a cabea, amavelmente. Com um ar completamente ilgico de orgulho de proprietrio, colocou a mo em minha coxa e disse:
        - E minha senhora Lallybroch.
        A boca de Jock Graham abriu-se alguns centmetros, depois se recomps rapidamente em uma expresso de agitado respeito.
        - Ah... minha... senhora - disse, tirando o chapu com atraso e fazendo uma mesura em minha direo. - Vocs esto indo para casa, ento? -perguntou, tentando 
manter o olhar fascinado longe de minha perna, nua at os joelhos por causa de um rasgo na minha roupa, e manchada com o suco das bagas do sabugueiro.
        - Sim. - Jamie olhou por cima do ombro dele, em direo  fenda no monte que ele me dissera ser a entrada para Broch Tuarach.
        - Esteve l recentemente, Jock?
        Graham afastou os olhos de mim e olhou para Jamie.
        - Hein? Ah, sim. Sim, estive l. Todos esto bem. Ficaro contentes de v-lo, imagino. Boa viagem, ento, Fraser. - E com uma cutucada apressada nas costelas 
do cavalo, virou-se e comeou a subir o vale.
        Ficamos observando-o partir. De repente, a uns cem metros de distncia, ele parou. Virando-se na sela, ergueu-se nos estribos, colocou as mos em volta da 
boca e gritou. O som, trazido pelo vento, chegou a ns fraco, mas distinto.
        - Bem-vindo ao lar!
        E desapareceu atrs de uma elevao.
        Broch Tuarach significa "torre voltada para o norte". Da encosta da montanha acima de ns, a torre que dava seu nome  pequena propriedade no passava de 
mais um aglomerado de rochas, bem semelhante queles que ficavam nos sops dos montes que havamos atravessado.
        Descemos por uma fenda rochosa e estreita entre dois penhascos, guiando o cavalo entre as pedras. Depois, o trajeto ficou mais fcil, a terra ondeando mais 
suavemente atravs dos campos e de cabanas esparsas, at finalmente chegarmos a uma estrada pequena e sinuosa que levava  casa.
        Era maior do que eu esperava; uma bela manso de trs andares de pedra branca rebocada com cal, as janelas delineadas com a pedra cinza ao natural, um teto 
alto de ardsia, com mltiplas chamins, e diversos prdios menores pintados de branco amontoados ao redor, como pintinhos em volta de uma galinha. A velha torre 
de pedra, situada numa pequena elevao na parte posterior da casa, erguia-se a quase vinte metros de altura, com um telhado em cone, como o chapu de uma bruxa, 
rodeado com trs fileiras de minsculas seteiras.
        Quando nos aproximvamos, ouviu-se uma repentina e terrvel algazarra vinda das construes anexas e Donas assustou-se e empinou. No sendo uma exmia amazona, 
fui imediatamente lanada ao cho, aterrissando de forma humilhante na estrada de terra. Com uma rpida apreciao da importncia relativa dos fatos, Jamie saltou 
e agarrou o cabresto do cavalo, deixando-me entregue  prpria sorte.
        Os cachorros j estavam quase em cima de mim, rosnando e latindo, quando consegui me levantar. Aos meus olhos apavorados, parecia haver uma dzia deles, 
todos com os dentes arreganhados e perigosos. Ouvi um grito de Jamie.
        - Bran! Luke! Sheasl
        Os cachorros patinaram at parar completamente, a alguns passos de mim, confusos. Correram de um lado para o outro, resmungando com hesitao, at ele falar 
outra vez.
        - Sheas, mo maise! De p, seus malvados! - Eles obedeceram e a cauda do cachorro maior comeou a balanar gradualmente, uma vez, depois duas vezes, em dvida.
        - Claire. Segure o cavalo. Ele no deixar que eles se aproximem e sou eu quem eles querem. Ande devagar, no vo atac-la. - Falava descontraidamente, para 
no alarmar ainda mais o cavalo e os cachorros. Eu mo tinha tanto sangue-frio, mas fui aproximando-me dele cuidadosamente. Donas sacudiu a cabea e revirou os olhos 
quando segurei a brida, mas eu no estava disposta a aturar exploses de mau humor - dei um puxo firme nas rdeas e agarrei o cabresto.
        Os grossos lbios aveludados retorceram-se mostrando os dentes, mas eu dei outro puxo ainda mais forte. Coloquei o rosto bem perto do grande olho dourado 
e penetrante e devolvi o olhar furioso.
        - No ouse! - adverti. - Ou vai acabar virando carne de cachorro e eu no vou levantar um dedo para salv-lo!
        Enquanto isso, Jamie caminhava devagar em direo aos ces, um dos braos estendidos para eles com o punho cerrado. O que parecera um bando resumia-se a 
quatro cachorros; um pequeno terrier amarronzado, dois pastores peludos e malhados e um enorme monstro preto e cor de canela que poderia se passar pelo animal enorme 
e feroz de O co dos Barskersvilles sem levantar nenhuma suspeita.
        Essa ameaadora criatura esticou um pescoo mais grosso que minha cintura e cheirou delicadamente os ns dos dedos que lhe eram oferecidos. Uma cauda semelhante 
a um cabo de navio comeou a bater de um lado para o outro com crescente fervor. Em seguida, atirou para trs sua enorme cabea, ganindo de alegria, e pulou em cima 
de seu dono, derrubando-o estatelado no cho.
        - "E assim Ulisses retorna da Guerra de Tria e  reconhecido pelo seu co fiel" - recitei para Donas, que relinchou levemente, dando sua opinio sobre Homero 
ou sobre a indigna manifestao de emoo que acontecia na estrada.
        Jamie, rindo, agitava o plo e puxava as orelhas dos cachorros, que tentavam lamber seu rosto, todos ao mesmo tempo. Finalmente, conseguiu afast-los o suficiente 
para se levantar, mantendo-se de p com dificuldade diante de suas empolgadas demonstraes.
        - Bem, ao menos algum est contente em me ver - disse, rindo, enquanto afagava a cabea do animal. - Este  Luke - disse, apontando para o terrier. - E 
estes so Elphin e Mars. So irmos e excelentes ces pastores. E este - colocou a mo carinhosamente na enorme cabea negra, que babou de satisfao -  Bran.
        - Vou confiar em voc - eu disse, cautelosamente estendendo o n de um dedo para ser cheirado. - O que ele ?
        - Um staghound, um co veadeiro. - Coou as orelhas empinadas, declamando:
        
        Assim Fingal escolheu seus ces de caa:
        Olhos como ameixas silvestres, orelhas como folhas,
        Peito de cavalo, pernas como foicinhas
        E a junta da cauda distante da cabea.
        
        - Se essas so qualidades, ento voc tem razo - eu disse, inspecionando Bran. - Se a junta da cauda fosse mais distante de sua cabea, voc poderia mont-lo.
        - Eu costumava fazer isso quando era criana. No com Bran, mas com seu av, Nairn.
        Deu um ltimo tapinha carinhoso em Bran e empertigou-se, olhando na direo da casa. Pegou a brida do irrequieto Donas e conduziu-o pela descida.
        - "E assim Ulisses retorna para casa, disfarado de indigente,..." - ele citou em grego, tendo ouvido minha observao anterior. - E agora -disse, arrumando 
o colarinho com certa amargura - acho que  hora de ir lidar com Penlope e seus pretendentes.
        Quando chegamos s portas duplas, os cachorros arfando em nossos calcanhares, Jamie hesitou.
        - Deveramos bater? - perguntei, um pouco nervosa. Olhou para mim, estupefato.
        -  a minha casa - disse, abrindo a porta.
        Conduziu-me pela casa, ignorando os poucos criados surpresos pelos quais passamos, atravessando o vestbulo e uma pequena sala de armas, at uma sala de 
estar. A sala ostentava uma enorme lareira com um consolo bem polido, objetos de prata e vidro brilhavam aqui e ali, refletindo o sol do fim de tarde. Por um instante, 
achei que a sala estivesse vazia. Ento, vi um ligeiro movimento em um canto, prximo  lareira.
        Ela era menor do que eu esperava. Com um irmo como Jamie, eu a imaginara ao menos do meu tamanho, ou at mais alta, mas a mulher junto ao fogo tinha pouco 
mais de um metro e meio. Estava de costas para ns, pegando alguma coisa na prateleira de um armrio de louas e as pontas da faixa na cintura de seu vestido quase 
tocavam o cho.
        Jamie parou quando a viu.
        - Jenny - disse.
        A mulher virou-se e vi de relance sobrancelhas negras como tinta de escrever e grandes olhos azuis em um rosto branco, antes de se lanar sobre seu irmo.
        -Jamie!
        Apesar de pequena, deslocou seu irmo com o impacto de seu abrao. Como um reflexo, seus braos envolveram os ombros dela e ficaram abraados por um instante, 
o rosto de Jenny apertado com fora contra a frente da camisa dele, a mo de Jamie segurando sua nuca com ternura. No rosto de Jamie havia uma expresso mista de 
incerteza e ansiosa alegria, to forte que me senti quase uma intrusa.
        Em seguida, ela pressionou-se com mais fora contra ele, murmurando alguma coisa em galico, e a expresso do rosto dele dissolveu-se em absoluto choque. 
Segurou-a pelos braos e afastou-a, fitando-a.
        Os rostos eram muito semelhantes; os mesmos olhos azul-escuros estranhamente rasgados e as largas mas do rosto. O mesmo nariz fino, cinzelado, apenas um 
pouquinho longo demais. Mas ela era morena, enquanto Jamie era claro, com cascatas de cabelos negros e anelados, amarrados para trs com uma fita verde.
        Era linda, com feies bem delineadas e pele de alabastro. Tambm estava obviamente em adiantado estado de gravidez.
        Jamie ficara com os lbios lvidos.
        - Jenny - murmurou, sacudindo a cabea. - Ah, Jenny. Mo cridh. Nesse momento, sua ateno foi atrada pela apario de uma criana no vo da porta e ela 
afastou-se de seu irmo sem notar seu transtorno. Pegou o menino pela mo e conduziu-o para dentro da sala, murmurando palavras de encorajamento. Ele deixou-se ficar 
um pouco para trs, o polegar na boca para maior tranqilidade, olhando para cima, para os estranhos, de trs das saias de sua me.
        Porque obviamente ela era sua me. Ele possua a sua cabeleira negra, espessa e encaracolada, e os mesmos ombros retos, embora o rosto no fosse o seu.
        - Este  o pequeno Jamie - ela disse, olhando com orgulho para o menino. - E este  o seu tio Jamie, mo cridh, de quem voc recebeu seu nome.
        - Meu nome? Voc o batizou com o meu nome? - Jamie parecia um lutador que acabava de levar um soco no estmago. Recuou, afastando-se da me e do filho, at 
tropear em uma cadeira e cair sentado nela como se suas pernas tivessem perdido a fora. Enterrou o rosto nas mos.
        Sua irm, a essa altura, percebeu que havia alguma coisa errada. Tocou-o cautelosamente no ombro.
        -Jamie? O que foi, meu querido? Est doente?
        Ele ergueu os olhos para ela e pude ver que seus olhos estavam rasos de lgrimas.
        - Tinha que fazer isso, Jenny? No acha que j sofri o bastante pelo que aconteceu... pelo que eu deixei acontecer... para dar o meu nome ao filho bastardo 
de Randall, para ser uma acusao contra mim enquanto eu viver?
        O rosto de Jenny, normalmente plido, perdeu todos os vestgios de cor.
        - Filho bastardo de Randall? - repetiu, atnita. - Quer dizer, John Randall? O capito ingls?
        - Sim, o capito Randall. De quem mais eu estaria falando, pelo amor de Deus? Voc se lembra dele, eu suponho? - Jamie recuperava o suficiente de sua habitual 
reao sarcstica.
        Jenny analisou seu irmo atentamente, uma das sobrancelhas erguidas, desconfiada.
        - Ficou maluco, homem? - perguntou. - Ou andou bebendo muito pelo caminho?
        - Nunca deveria ter voltado - ele murmurou. Levantou-se, cambaleando ligeiramente, e tentou passar sem toc-la. Entretanto, ela permaneceu onde estava e 
segurou-o pelo brao.
        - Corrija-me, irmo, se eu estiver errada - Jenny disse devagar -, mas tenho a forte impresso de que est dizendo que eu banquei a vagabunda com o capito 
Randall e o que estou perguntando  que minhocas voc tem na cabea para dizer uma coisa dessas?
        - Minhocas, hein? - Jamie voltou-se para ela, a boca retorcida de amargura. - Quisera que assim fosse; preferia estar morto e no tmulo a ver minha irm 
levada a essa situao. - Agarrou-a pelos ombros e sacudiu-a levemente, gritando: - Por que, Jenny, por qu? V-la arruinar-se por minha causa foi vergonha suficiente 
para me matar. Mas isto... - Deixou os braos carem, com um gesto de desespero que abrangia o ventre volumoso, projetando-se acusadoramente sob o vestido largo 
e fino.
        Virou-se bruscamente em direo  porta e uma mulher idosa, que ouvia ansiosamente com a criana agarrada s suas saias, recuou, amedrontada.
        - No deveria ter vindo. Vou embora.
        - No faa isso, Jamie Fraser - sua irm disse, de forma contundente. - No antes de me ouvir. Ento, sente-se e eu lhe contarei sobre o capito Randall, 
j que quer saber.
        - Eu no quero saber! No quero ouvir! - Quando ela avanou em sua direo, ele virou-se bruscamente para a janela que dava para o ptio. Ela o seguiu:
        - Jamie... - disse, mas ele a repeliu com um gesto violento.
        - No! No fale comigo! J disse que no vou agentar ouvir!
        - Ah,  mesmo? - Observou seu irmo, parado  janela, com as pernas afastadas, as mos no peitoril e as costas teimosamente voltadas para ela. Ela mordeu 
o lbio e uma expresso calculada surgiu em seu rosto. Rpida como um raio, ela inclinou-se e enfiou a mo embaixo do seu kilt como o bote de uma cobra.
        Jamie soltou um rugido de pura indignao e empertigou-se de choque. Tentou virar-se, depois parou, imvel, quando ela aparentemente redobrou o aperto.
        - Os homens so sensveis - disse para mim, com um sorriso malicioso - e os animais podem ser subjugados e obrigados a obedecer. Com outros no se pode fazer 
nada, a no ser que os segure pelo saco. Agora, pode me ouvir de maneira civilizada - disse a seu irmo - ou vou ter que torcer um pouco? Hein?
        Ele permaneceu imvel, o rosto vermelho, respirando ruidosamente atravs dos dentes cerrados.
        - Vou ouvir - disse - e depois vou torcer seu pescoo, Janet! Solte-me! To logo ela obedeceu, ele girou nos calcanhares.
        - O que pensa que est fazendo? - perguntou, furioso. - Tentando me envergonhar na frente da minha prpria mulher? - Jenny no se deixou intimidar com a 
sua fria. Ficou balanando-se nos calcanhares, olhando para o irmo e para mim com ironia.
        - Bem, se ela  sua mulher, imagino que esteja mais familiarizada com suas bolas do que eu. No as vejo desde que ficou com idade suficiente para tomar banho 
sozinho. Cresceram um pouco, no?
        O rosto de Jamie passava por vrias transformaes alarmantes, conforme os ditames do comportamento civilizado lutavam com o impulso primitivo de um irmo 
mais novo de dar um cascudo na irm. Por fim, a civilizao venceu e ele disse entre dentes, com a pouca dignidade que conseguiu reunir:
        - Deixe minhas bolas fora disso. Ento, j que no vai sossegar enquanto no me fizer ouvir, conte-me a respeito de Randall. Conte-me por que desobedeceu 
s minhas ordens e escolheu desonrar-se e  sua famlia.
        Jenny colocou as mos nas cadeiras e empertigou-se, pronta para o combate. Menos pronta a perder a calma; ainda assim era geniosa, no restava a menor dvida.
        - Ah, desobedecer a suas ordens, hein?  isso que o est incomodando, Jamie, ? Sabe muito bem que se seguirmos suas ordens vamos nos arruinar, sem dvida. 
- Movia-se impacientemente de um lado para o outro, furiosa. - E se eu tivesse feito o que voc mandou, naquele dia, voc teria sido morto no ptio de entrada, papai 
teria sido enforcado ou estaria na priso por assassinar Randall e as terras teriam sido confiscadas pela Coroa. Para no dizer nada de mim, sem lar e sem famlia, 
precisando mendigar nas vielas para viver.
        Jamie j no estava plido, mas vermelho de raiva.
        - Sim, ento voc preferiu se vender ao invs de mendigar! Eu preferia ter morrido no meu prprio sangue e visto papai e as terras no inferno comigo e voc 
sabe muito bem disso!
        - Sim, eu sei! Voc  um tolo, Jamie, e sempre foi! - sua irm rebateu, exasperada.
        - Veja s quem est falando! No contente em arruinar seu bom nome e o meu prprio, voc tem que continuar com o escndalo e expor sua desonra para toda 
a vizinhana!
        - Voc no vai falar assim comigo, James Fraser, irmo ou no! O que quer dizer com minha "desonra"? Seu grande idiota, voc...
        - O que eu quero dizer? Quando voc anda por a inflada at aqui como um sapo maluco. - Imitou sua barriga com um gesto desdenhoso da mo.
        Ela recuou um passo, levou a mo para trs e esbofeteou-o com toda a fora que conseguiu reunir. O impacto lanou a cabea de Jamie para trs e deixou a 
marca branca de seus dedos impressa no rosto dele. Ele levou a mo lentamente at o rosto, olhando fixamente para sua irm. Os olhos de Jenny cintilavam perigosamente 
e seu peito arfava. As palavras jorraram numa torrente entre os dentes cerrados.
        - Sapo, no ? Maldito covarde, no tem mais coragem do que me deixar aqui, pensando que est morto ou preso, sem nenhuma notcia dia aps dia e, de repente, 
chega calmamente num belo dia, e ainda com uma mulher, senta-se na minha sala de visitas chamando-me de sapo e de meretriz e...
        - No a chamei de meretriz, mas devia ter chamado! Como pde... Apesar das diferenas de altura, irmo e irm estavam quase cara a cara, sibilando um para 
o outro num esforo para impedir que as vozes alteradas ressoassem pela velha manso. O esforo foi em vo, a julgar pelos olhares que percebi de vrios rostos interessados 
espreitando discretamente da cozinha, do vestbulo e da janela. O senhor de Broch Tuarach estava tendo uma interessante recepo de boas-vindas, sem dvida.
        Achei melhor deixar que acertassem as contas sem a minha presena e, assim, caminhei silenciosamente at o vestbulo, com um desajeitado aceno de cabea 
para a mulher idosa, e continuei at o ptio. Havia um caramancho com um banco, onde me sentei, olhando ao redor com interesse.
        Ao lado, havia um pequeno jardim cercado, florido com as ltimas rosas do vero. Depois dele, estava o que Jamie chamava de pombal, ou assim presumi, pelos 
inmeros pombos que entravam e saam das aberturas no topo da construo.
        Eu sabia que havia um celeiro e um barraco para a silagem; deviam ficar do outro lado da casa, com o depsito de provises, o galinheiro, a horta e a capela 
abandonada da fazenda. O que ainda deixava sem explicao uma pequena construo de pedra deste lado. O vento leve do outono vinha daquela direo; inspirei fundo 
e fui recompensada com o rico aroma de lpulo e levedo de cerveja. Era a cervejaria, onde a bebida da propriedade era produzida.
        A estrada que seguia depois do porto levava para cima e alm de um pequeno monte. Enquanto olhava, um pequeno grupo de homens surgiu no topo, em silhueta 
contra a luz do pr-do-sol. Pareceram vacilar por um instante, como se estivessem se despedindo uns dos outros. Provavelmente era isso, porque apenas um deles desceu 
a colina em direo  casa, os outros partindo pelos campos em direo a um aglomerado de cabanas distantes.
        Quando o homem solitrio descia a colina, pude notar que ele mancava bastante. Quando atravessou o porto, a razo ficou evidente. Ele no tinha a perna 
direita abaixo do joelho e usava uma estaca de madeira no lugar.
        Apesar da dificuldade, ele deslocava-se com jovialidade. Na verdade, quando se aproximou do caramancho, pude ver que devia ter apenas vinte e poucos anos. 
Era alto, quase to alto quanto Jamie, porm de ombros muito mais estreitos; na verdade, era magro, quase pele e osso.
        Parou na entrada para o caramancho, apoiando-se na trelia e olhou para dentro, para mim, com interesse. Cabelos fartos, castanhos e lisos, caam sobre 
a fronte alta. Os olhos castanhos e profundos tinham um ar de paciente bom humor.
        As vozes de Jamie e de sua irm haviam se elevado enquanto eu esperava do lado de fora. As janelas estavam abertas para o ar quente e os querelantes eram 
perfeitamente audveis do caramancho, embora nem todas as palavras fossem inteligveis.
        - Interferindo, megera desgraada! - ouviu-se a voz de Jamie, alta no ar suave do fim do dia.
        - No tem a decncia de... - a resposta de sua irm perdeu-se numa brisa repentina.
        O recm-chegado balanou a cabea na direo da casa.
        - Ah, ento Jamie chegou.
        Confirmei com um aceno da cabea, sem saber ao certo se deveria me apresentar. No teve importncia, porque o jovem sorriu e inclinou a cabea para mim.
        - Sou Ian Murray, o marido de Jenny. E imagino que voc seja... ah...
        - A Sassenach com quem Jamie se casou - conclu por ele. - Meu nome  Claire. Ento j sabia? - perguntei e ele riu. Minha mente girava. Marido de Jenny?
        - Ah, sim. Soubemos por Joe Orr, que soube atravs de um funileiro de Ardraigh. J no se pode guardar mais nenhum segredo nas Highlands. Deve saber disso, 
embora esteja casada h apenas um ms. H semanas que Jenny se pergunta como voc seria.
        - Vagabunda! - Jamie berrou de dentro da casa. O marido de Jenny no moveu um fio de cabelo, mas continuou a me examinar com uma curiosidade amistosa.
        -  uma bela moa - disse, olhando-me de cima a baixo sem reservas. - Gosta de Jamie?
        - Bem... sim. Sim, gosto - respondi, um pouco desconcertada. Estava comeando a me acostumar  franqueza que caracterizava a maioria dos habitantes das Highlands, 
mas s vezes ainda era pega de surpresa.
        Franziu os lbios e balanou a cabea, dando-se por satisfeito. Em seguida, sentou-se a meu lado no banco.
        -  melhor deix-los a ss mais uns minutos - disse, com um aceno em direo  casa, onde a gritaria agora prosseguia em galico. Ele parecia totalmente 
desinteressado na causa da discusso. - Os Fraser no do ouvidos a ningum quando esto com raiva. Quando acabam de gritar um com o outro, s vezes conseguimos 
faz-los ver a razo, mas no antes.
        - Sim, percebi - eu disse laconicamente e ele riu.
        - Ento, est casada h bastante tempo para ter notado, hein? Soubemos como Dougal fez Jamie casar-se com voc - disse, ignorando a contenda e concentrando 
sua ateno em mim. - Mas Jenny disse que era preciso mais do que Dougal MacKenzie para Jamie fazer algo que no quisesse. Agora que a conheo, naturalmente vejo 
por que ele se casou. -Ergueu as sobrancelhas,  espera de maiores explicaes, mas educadamente sem for-las.
        - Imagino que ele tinha seus motivos - eu disse, minha ateno dividida entre meu companheiro e a casa, onde as vozes altercadas continuavam.
        - No quero... Quero dizer, espero... - Ian interpretou corretamente minhas hesitaes e meus olhares em direo s janelas da sala de estar.
        - Ah, imagino que voc tenha algo a ver com isso. Mas ela discutiria com ele quer voc estivesse aqui ou no. Ela ama Jamie ardentemente, sabe, e preocupou-se 
muito enquanto ele estava desaparecido, especialmente tendo seu pai partido to repentinamente. Sabe disso? - Os olhos castanhos eram perspicazes e observadores, 
como se medisse o grau de confiana existente entre Jamie e mim.
        - Sim, Jamie me contou.
        - Ah. - Balanou a cabea em direo  casa. - E depois,  claro, ela est grvida.
        - Sim, percebi isso tambm.
        - Difcil no notar, no ? - Ian disse com um largo sorriso e ns dois rimos. - Isso deixa seus nervos  flor da pele. No que eu a culpe por isso. Mas 
seria preciso um homem mais corajoso do que eu para discutir com uma mulher no nono ms de gravidez. - Recostou-se, esticando a perna de pau  sua frente.
        - Eu a perdi em Daumier com Fergus nic Leodhas - explicou. -Metralha de canho. Di um pouco ao final do dia. - Esfregou a perna logo acima da bainha de 
couro que prendia a estaca de pau ao toco de perna.
        -J experimentou esfregar Blsamo de Gilead? - perguntei. - Pimenta d'gua ou arruda cozida tambm podem ajudar.
        - No experimentei a pimenta d'gua - disse, interessado. - Vou perguntar a Jenny se ela sabe preparar.
        - Ah, terei prazer em prepar-la para voc - eu disse, achando-o simptico. Olhei na direo da casa outra vez. - Se ficarmos aqui o tempo suficiente - acrescentei, 
em dvida. Conversamos sobre assuntos sem importncia durante algum tempo, ambos com um ouvido atento ao confronto que continuava do outro lado da janela, at que 
Ian deslocou-se para a frente, posicionando sua perna artificial cuidadosamente antes de se levantar.
        - Acho que devemos entrar agora. Se um deles parar o tempo suficiente para ouvir o outro, vo ferir os sentimentos um do outro.
        - Espero que esse seja o nico ferimento. Ian deu um risinho.
        - Ah, acho que Jamie no bateria nela. Est acostumado a se controlar diante de provocao. Quanto a Jenny, ela pode esbofete-lo, mas  s isso.
        - Ela j fez isso.
        - Bem, as armas esto trancadas. Todas as facas esto na cozinha, exceto a que Jamie est usando. E no acho que ele v deix-la se aproximar o suficiente 
para tirar a adaga dele. No, eles esto seguros. - Parou  porta. -Agora, quanto a voc e eu... - Piscou solenemente. - Isso  outra questo.
        Dentro da casa, as criadas sobressaltaram-se e bateram em retirada nervosamente com a aproximao de Ian. A governanta, no entanto, ainda pairava junto  
porta da sala, fascinada, absorvendo a cena que se desenrolava l dentro, o homnimo de Jamie aconchegado em seu peito farto. Sua concentrao era tal que quando 
Ian falou com ela, deu um salto como se ele tivesse lhe espetado um alfinete e colocou a mo sobre o corao descompassado.
        Ian cumprimentou-a educadamente com um aceno de cabea, pegou o menino nos braos e entramos na sala de estar, ele  frente. Paramos logo depois da soleira 
para inspecionar a cena. Irmo e irm haviam feito uma pausa para recuperar o flego, ambos ainda arrepiados e fitando-se com raiva como dois gatos furiosos.
        O pequeno Jamie, vendo a me, debateu-se e esperneou para descer dos braos de Ian e, uma vez no cho, partiu na direo de Jenny como um pombo-correio.
        - Mame! - gritou. - Colo! Jamie, colo!
        Virando-se, ela pegou o menino e segurou-o como uma arma contra o ombro.
        - Quer dizer ao seu tio quantos anos voc tem, querido? - perguntou-lhe, reduzindo a voz a um arrulho, sob o qual um tom metlico ainda estava bem evidente. 
O menino percebeu-o; virou-se e enterrou o rosto no pescoo da me. Ela afagou suas costas mecanicamente, ainda fitando seu irmo.
        -J que ele no quer lhe dizer, eu o farei. Ele tem dois anos, completados em agosto. E se voc  suficientemente inteligente para fazer as contas, o que 
me permito duvidar, ver que ele foi concebido seis meses depois da ltima vez que vi Randall, o que foi em nosso prprio ptio, tirando sangue do meu irmo com 
um sabre.
        - Ento  assim, hein? - Jamie olhou com raiva para sua irm. - Ouvi uma histria um pouco diferente. Todo mundo sabe que voc levou o sujeito para a sua 
cama; no s daquela vez, mas como seu amante. Essa criana  dele. - Balanou a cabea desdenhosamente na direo de seu xar, que se voltara para espreitar, por 
baixo do queixo de sua me, aquele estranho grande e barulhento. - Acredito em voc quando diz que o novo bastardo que est carregando no  dele; Randall esteve 
na Frana at maro. Ento, voc no s  uma prostituta, mas ainda por cima pouco exigente. Quem  o pai deste ltimo descendente do diabo que voc tem a?
        O jovem alto e magro ao meu lado tossiu educadamente, quebrando a tenso no aposento.
        - Sou eu - disse, pacificamente. - Esse tambm. - Avanando rigidamente em sua perna de pau, pegou o menino dos braos de sua me enfurecida e colocou-o 
na dobra do seu brao. - Parece-se um pouco comigo, dizem.
        De fato, vistos lado a lado, os rostos do homem e do menino eram praticamente idnticos, sem contar as bochechas rechonchudas de um e o nariz adunco do outro. 
A mesma testa alta e lbios finos. As mesmas sobrancelhas espessas arqueadas sobre os mesmos olhos fundos, castanhos e translcidos. Jamie, olhando-os, parecia ter 
sido atingido nas costas por um saco de areia. Fechou a boca e engoliu em seco, obviamente sem saber o que fazer em seguida.
        - Ian - disse, fracamente. - Esto casados, ento?
        - Ah, sim - seu cunhado disse alegremente. - No podia ser de outra forma, no ?
        - Compreendo - Jamie murmurou. Limpou a garganta e sacudiu a cabea para seu recm-descoberto cunhado. - , h,  muita bondade sua, Ian. Aceit-la, quero 
dizer. Muita gentileza.
        Sentindo que ele devia estar precisando de apoio moral a essa altura, passei para o seu lado e toquei em seu brao. Os olhos de sua irm demoraram-se sobre 
mim especulativamente, mas no disse nada. Jamie olhou ao redor e pareceu surpreso de me ver ali, como se tivesse se esquecido da minha existncia. E no era de 
admirar se tivesse, pensei. Mas ele pareceu aliviado com a interrupo, ao menos, e estendeu o brao para me empurrar um pouco  frente.
        - Minha mulher - disse, um pouco bruscamente. Balanou a cabea em direo a Jenny e Ian. - Minha irm e seu, h... - sua voz definhou, enquanto Ian e eu 
trocvamos sorrisos amveis.
        Jenny no se deixou distrair com sutilezas sociais.
        - O que quer dizer com " gentileza dele me aceitar"? - perguntou, ignorando as apresentaes. - Como se eu no soubesse! - Ian olhou interrogativamente 
para ela, que sacudiu a mo num gesto de menosprezo em direo a Jamie. - Ele quer dizer que foi bondade sua casar-se comigo em minha condio, com a honra maculada! 
- Resfolegou com tal fora que faria jus a uma pessoa com o dobro do seu tamanho. - S fala bobagem!
        - Honra maculada? - Ian parecia perplexo e Jamie de repente inclinou-se para a frente e agarrou sua irm pelo brao, apertando-o com fora.
        - Voc no contou a ele a respeito de Randall? - Parecia realmente chocado. - Jenny, como pde fazer isso?
        Somente a mo de Ian no outro Brao de Jenny impediu-a de voar na garganta do irmo. Ian puxou-a com firmeza para trs dele e, virando-se, colocou o pequeno 
Jamie nos seus braos, de modo a for-la a segurar a criana para que ela no casse. Em seguida, Ian passou o brao pelos ombros de Jamie e diplomaticamente conduziu-o 
a uma distncia segura.
        - Isso no  assunto para a sala de visitas - disse, a voz baixa e reprovadora -, mas talvez esteja interessado em saber que sua irm era virgem na noite 
de npcias. Afinal, estou em posio de afirmar isso.
        A raiva de Jenny agora estava mais ou menos dividida igualmente entre irmo e marido.
        - Como ousa dizer tais coisas em minha presena, Ian Murray? - disparou. - Ou mesmo na minha ausncia! Minha noite de npcias no  da conta de ningum mas 
apenas minha e sua, certamente no  da conta dele. S falta voc lhe mostrar os lenis de nosso leito matrimonial!
        - Bem, se eu o fizesse agora, ia calar a boca de seu irmo, no? - Ian disse apaziguadoramente. - Vamos, mi ahu, no devia se aborrecer,  ruim para o beb. 
E a gritaria tambm perturba o pequeno Jamie. - Estendeu os braos para seu filho, que choramingava, ainda sem saber ao certo se a situao requeria lgrimas. Ian 
sacudiu a cabea para mim e revirou os olhos na direo de Jamie.
        Captando a deixa, agarrei Jamie pelo brao e arrastei-o para uma poltrona em um canto neutro. Ian, igualmente, instalou Jenny num sof para duas pessoas, 
um brao firme em torno de seus ombros para mant-la segura no lugar.
        - Pronto, chega. - Apesar de seus modos despretensiosos, Ian Murray possua uma autoridade inegvel. Eu mantive a mo no ombro de Jamie e pude sentir a tenso 
comear a se esvair.
        Achei que o aposento parecia-se um pouco a um ringue de boxe, com os contendores retorcendo-se, inquietos, nos cantos,  espera do sinal de ataque e sob 
a mo calma do treinador.
        Ian balanou a cabea em direo a seu cunhado, sorrindo.
        - Jamie.  um prazer v-lo, rapaz. Estamos felizes por voc estar em casa e com sua mulher. No , mi hu. - perguntou a Jenny, seus dedos apertando-se perceptivelmente 
em seu ombro.
        Ela no era pessoa de se deixar forar a nada. Seus lbios comprimiram-se em uma linha fina, como se formassem um lacre, depois se abriram relutantemente 
para deixar uma nica palavra escapar.
        - Depende - disse, fechando-os com fora outra vez.
        Jamie esfregou a mo no rosto, depois ergueu a cabea, pronto para um novo round.
        - Eu vi voc entrar na casa com Randall - disse teimosamente. - E pelo que ele me disse depois... Como ele pode saber que voc tem uma verruga no seio?
        Ela resfolegou violentamente.
        - Lembra-se de tudo que aconteceu naquele dia ou o capito o fez esquecer com seu sabre?
        - Claro que me lembro! No  provvel que eu esquea!
        - Ento, talvez se lembre que eu dei um bom golpe em sua virilha com meu joelho em determinado momento dos acontecimentos?
        Jamie arqueou os ombros, desconfiado.
        - Sim, me lembro.
        Jenny sorriu com um ar de superioridade.
        - Bem, ento, se a sua mulher aqui... podia ao menos me dizer o nome dela, Jamie, juro que voc no tem mesmo boas maneiras. De qualquer modo, se ela lhe 
desse tratamento similar, e voc sem dvida merece, devo acrescentar, acha que seria capaz de desempenhar seus deveres de marido alguns minutos depois?
        Jamie, que comeara a abrir a boca para falar, fechou-a repentinamente. Fitou sua irm por um longo instante, em seguida um canto de sua boca contorceu-se 
um pouco.
        - Depende - disse. A boca torceu-se outra vez. Ele estivera sentado curvado para a frente em sua poltrona, mas agora recostou-se, olhando-a com a expresso 
um tanto ctica de um irmo mais novo ouvindo os contos de fadas de uma irm, achando-se adulto demais para ficar impressionado, mas ainda assim acreditando um pouco, 
a despeito de si mesmo.
        -  mesmo? - disse. Jenny voltou-se para Ian.
        - V buscar os lenis, Ian - ordenou. Jamie ergueu as duas mos, rendendo-se.
        - No. No, acredito em voc.  que, o modo como ele agiu depois- Jenny recostou-se, relaxando na curva do brao de Ian, o filho aconchegado em seu colo 
o mximo que sua barriga permitia, feliz com a vitria.
        - Bem, depois de tudo que ele disse l fora, no poderia admitir ser incapaz perante seus prprios homens, no  mesmo? Tinha que fazer parecer que fizera 
o que prometera, no? E - admitiu - devo dizer que o sujeito foi muito desagradvel em toda a situao; ele realmente me bateu e rasgou meu vestido. Na verdade, 
ele quase me deixou sem sentidos tentando e quando voltei a mim e consegui me cobrir decentemente, o ingls j havia partido, levando voc com eles.
        Jamie soltou um longo suspiro e fechou os olhos por um instante. Suas mos grandes descansavam nos joelhos e eu cobri uma delas com um delicado aperto. Ele 
tomou minha mo e abriu os olhos, esboando um leve sorriso de agradecimento para mim antes"de voltar-se para a irm.
        - Est bem - disse. - Mas eu quero saber, Jenny; voc sabia quando entrou com ele que ele no poderia fazer-lhe mal?
        Ela ficou em silncio por um instante, mas seu olhar continuou firme no rosto do irmo. Finalmente, sacudiu a cabea, um ligeiro sorriso nos lbios.
        Estendeu a mo para impedir os protestos de Jamie e as sobrancelhas como as asas da gaivota ergueram-se em um gracioso arco interrogativo.
        - E se pode dar sua vida em troca da minha honra, diga-me por que no posso dar minha honra em troca de sua vida? - As sobrancelhas uniram-se num ar de censura, 
como as que adornavam o rosto de seu irmo. - Ou est me dizendo que talvez eu no o ame tanto quanto voc me ama? Porque se estiver, Jamie Fraser, digo-lhe agora 
mesmo, no  verdade!
        Abrindo a boca para retrucar antes de Jenny terminar, Jamie de repente ficou desconcertado diante desta concluso. Fechou a boca bruscamente, enquanto sua 
irm tentava aumentar sua vantagem.
        - Porque eu realmente o amo, apesar de voc ser um cabea-dura, um desmiolado, um turro idiota. E no vou deixar voc cair morto na estrada aos meus ps 
s porque  teimoso demais para manter a boca fechada uma vez na vida!
        Os olhos azuis digladiavam-se, lanando chispas em todas as direes. Engolindo os insultos com dificuldade, Jamie buscava uma resposta racional. Parecia 
estar chegando a alguma concluso. Finalmente, empertigou os ombros, resignado.
        - Est bem, ento, desculpe-me - disse. - Eu estava errado e peo-lhe perdo.
        Ele e a irm fitaram-se por um longo instante, mas qualquer perdo que estivesse esperando dela no estava a caminho. Ela examinou-o cuidadosamente, mordendo 
o lbio, mas no disse nada. Finalmente, ele ficou impaciente.
        -J disse que sinto muito! O que mais quer de mim? - perguntou. -Quer que eu fique de joelhos? Farei isso se for preciso, mas diga-me!
        Ela sacudiu a cabea devagar, o lbio ainda preso nos dentes.
        - No - disse, finalmente. - No vou pedir que fique de joelhos em sua prpria casa. No entanto, fique de p.
        Jamie levantou-se. Ela colocou a criana sentada no sof e atravessou a sala, parando diante dele.
        - Tire a camisa - ordenou.
        -No!
        Ela puxou as pontas da camisa de dentro do kilt e estendeu as mos para os botes. Sem conseguir impor uma resistncia enrgica, ele claramente iria obedecer 
ou submeter-se a ser despido. Com o mximo de dignidade possvel, afastou-se dela e, com os lbios cerrados, removeu a pea de roupa em questo.
        Ela deu a volta para trs dele e examinou suas costas, o rosto exibindo a mesma expresso cuidadosamente indecifrvel que eu vira Jamie adotar quando escondia 
alguma emoo forte. Ela balanou a cabea, como se confirmasse algo h muito suspeitado.
        - Bem, se voc foi um tolo, Jamie, parece que pagou caro por isso. -Pousou a mo delicadamente em suas costas, cobrindo as piores cicatrizes.
        - Pela aparncia, deve ter dodo.
        - Doeu.
        - Voc chorou?
        Os punhos cerraram-se involuntariamente ao lado do corpo.
        - Sim!
        Jenny deu a volta outra vez para ficar diante dele, o queixo erguido, os olhos rasgados abertos e brilhantes.
        - Eu tambm - ela disse, brandamente. - Todos os dias desde que o levaram.
        As faces largas mais uma vez espelhavam uma  outra, mas a expresso que ostentavam era tal que eu me levantei e sa silenciosamente pela porta da cozinha 
para deix-los sozinhos. Quando a porta fechava-se atrs de mim, vi Jamie segurar as mos de sua irm e dizer alguma coisa em galico, com a voz rouca. Ela aconchegou-se 
em seu abrao e a cabea brilhante e desgrenhada abaixou-se para os cabelos castanhos.
        
        27 - A DERRADEIRA RAZO
        
        Comemos como lobos famintos ao jantar, retiramo-nos para um quarto amplo e arejado e dormimos como uma pedra. O sol j estaria alto quando acordamos no dia 
seguinte, se o cu no estivesse encoberto de nuvens. Sabia que j era tarde pela movimentao na casa, conforme as pessoas iam e vinham em seus afazeres, e pelos 
aromas tentadores que vinham pelas escadas.
        Aps o desjejum, os homens prepararam-se para sair, visitando arrendatrios, inspecionando cercas, consertando carroas e de um modo geral divertindo-se. 
Quando pararam no vestbulo para vestir seus casacos, Ian viu o cesto grande de Jenny sob a mesa diante de um grande espelho.
        - Quer que eu traga algumas mas do pomar, Jenny? Pouparia voc de uma caminhada to grande.
        - Boa idia - Jamie disse, lanando um olhar avaliador para a enorme barriga de sua irm. - No vamos querer que o deixe cair no meio da estrada.
        - Eu vou deixar voc cair neste mesmo lugar onde est, Jamie Fraser - ela retorquiu calmamente, segurando o casaco para Ian vestir. - Seja til ao menos 
uma vez e leve este diabinho com voc. A sra. Crook est na lavanderia; pode deix-lo l. - Arrastou os ps, deslocando o pequeno Jamie, que se agarrava s suas 
saias, entoando "colo, colo" indefinidamente.
        Seu tio obedientemente segurou o diabinho pela cintura e levou-o pela porta afora, de cabea para baixo e dando gritinhos de satisfao.
        - Ah - Jenny suspirou, feliz, inclinando-se para inspecionar sua aparncia no espelho de moldura dourada. Molhou o dedo na lngua e passou nas sobrancelhas, 
depois terminou de fechar os botes na gola de sua blusa. - Que bom terminar de se vestir sem algum se agarrando s suas saias ou enrolado em seus joelhos. s vezes, 
mal consigo ir ao banheiro sozinha ou pronunciar uma nica frase sem ser interrompida.
        Seu rosto estava ligeiramente afogueado e seus cabelos escuros brilhavam contra a seda azul de seu vestido. Ian sorriu para ela, os meigos olhos castanhos 
brilhando diante da figura florescente que ela exibia.
        - Bem, talvez tenha tempo de conversar com Claire - ele sugeriu. Arqueou uma sobrancelha em minha direo. - Imagino que ela seja suficientemente educada 
para ouvir, mas, pelo amor de Deus, no declame um de seus poemas para ela ou ela vai pegar a primeira carruagem para Londres antes de Jamie e eu estarmos de volta.
        Jenny estalou os dedos embaixo do nariz dele, sem se perturbar com a chacota.
        - No estou nem um pouco preocupada. No h nenhuma carruagem para l antes de abril e imagino que j ter se acostumado conosco a essa altura. V andando, 
Jamie est esperando por voc.
        Enquanto os homens cuidavam de seus afazeres, eu e Jenny passamos o dia numa sala de estar, ela costurando, eu enrolando fios de linha soltos e separando 
fios de seda pelas cores.
        Aparentemente amistosas, rodevamos uma  outra cautelosamente na conversa, entreolhando-nos pelo canto dos olhos. A irm de Jamie, a mulher de Jamie. Jamie 
era o ponto central, tcito, em torno do qual nossos pensamentos giravam.
        A infncia compartilhada os unia para sempre, como as tramas de um tecido, mas as malhas do tecido estavam frouxas, pela ausncia e pela suspeita, depois 
pelo casamento. O fio de Ian estivera presente em sua trama desde o comeo, o meu era novo. Como as tenses iriam agir nesta nova urdidura, um fio contra o outro?
        Nossa conversa versava sobre assuntos banais, porm com as palavras no pronunciadas claramente audveis por baixo.
        - Voc administra esta casa sozinha desde que sua me morreu?
        - Ah, sim. Desde que eu tinha dez anos.
        Eu o alimentava e lhe dava amor desde que ele era um menino. O que voc vai fazer com o homem que ajudei a criar?
        -Jamie disse que voc tem excelentes conhecimentos mdicos.
        - Cuidei do ombro dele quando nos conhecemos. Sim, sou capaz e gentil. Cuidarei dele.
        - Soube que se casaram s pressas.
        Casou-se com meu irmo por suas terras e dinheiro?
        - Sim, foi tudo muito rpido. Eu nem sabia o verdadeiro sobrenome de Jamie at a hora da cerimnia.
        No sabia que ele era o senhor desta propriedade; s posso ter casado com ele por ele mesmo.
        E assim a conversa prosseguiu durante toda a manh, um almoo leve e at a tarde, sobre assuntos gerais, trocando pequenas informaes, opinies, piadas 
ligeiras e hesitantes, avaliando-nos mutuamente. Uma mulher que mantm uma manso desde os dez anos, que administra uma propriedade desde a morte do pai e do desaparecimento 
do irmo, no era uma pessoa para ser avaliada de modo leviano e superficial. Eu me perguntava o que ela estaria pensando de mim, mas ela parecia to capaz quanto 
seu irmo de ocultar seus pensamentos quando assim decidia.
        Quando o relgio sobre o consolo da lareira comeou a bater as cinco horas, Jenny bocejou e espreguiou-se. A roupa que ela estava consertando deslizou pela 
elevao redonda de seu ventre e caiu no cho.
        Ela comeou a dobrar-se desajeitadamente para peg-la, mas abaixei-me sobre os joelhos ao seu lado.
        - Deixe que eu apanho.
        - Obrigada... Claire. - A primeira vez que usava meu nome foi acompanhada de um sorriso tmido e eu o devolvi.
        Antes que pudssemos voltar  nossa conversa, fomos interrompidas pela chegada da sra. Crook, a governanta, que enfiou o longo nariz na sala e perguntou, 
preocupada, se havamos visto o pequeno Jamie.
        Jenny colocou sua costura de lado com um suspiro.
        - Fugiu de novo, no foi? No se preocupe, Lizzie, deve ter ido com o pai ou com o tio. Vamos ver, Claire. Eu gostaria de respirar um pouco de ar fresco 
antes do jantar.
        Ela levantou-se com dificuldade e pressionou as mos na parte baixa das costas. Gemeu e deu um sorriso enviesado.
        - Mais ou menos trs semanas. Mal posso esperar.
        Caminhamos devagar pelo terreno, Jenny mostrando a cervejaria e a capela, explicando a histria da propriedade e quando as diferentes partes haviam sido 
construdas.
        Quando nos aproximamos de um dos cantos do pombal, ouvimos vozes no caramancho.
        - L est ele, o patife! - Jenny exclamou. - Espere at eu colocar as mos nele!
        - Espere um minuto. - Coloquei a mo em seu brao, reconhecendo a voz mais grave que sublinhava a do garoto.
        - No se preocupe, rapaz - disse a voz de Jamie. - Voc vai aprender.  um pouco difcil, no , quando seu pau no vai alm do seu umbigo?
        Estiquei a cabea pela quina do pombal e o vi sentado em um bloco de cortar lenha, engajado em uma conversa com seu xar, que lutava bravamente com as pregas 
da sua roupa.
        - O que est fazendo com a criana? - perguntei cautelosamente.
        - Estou ensinando ao pequeno Jamie a arte de no mijar nos prprios ps - explicou. - Parece o mnimo que seu tio poderia fazer por ele.
        Ergui uma das sobrancelhas.
        - Falar  fcil. Parece que o mnimo que seu tio poderia fazer  mostrar-lhe.
        Ele riu.
        - Bem, j tivemos algumas demonstraes prticas. Mas tivemos um pequeno acidente da ltima vez. - Trocou um olhar acusatrio com o sobrinho. - No olhe 
para mim - disse para o garoto. - Foi tudo culpa sua. Eu disse a voc para ficar parado.
        - Ah - Jenny pigarreou, secamente, com um olhar para o irmo e outro igual para o filho. O pequeno Jamie respondeu puxando a parte da frente de sua roupa 
larga acima da cabea, mas o Jamie maior, sem se deixar envergonhar, riu alegremente e levantou-se, batendo a poeira de suas calas. Colocou a mo na cabea do sobrinho, 
coberta com a prpria roupa, e virou o menino na direo da casa.
        - Para tudo h uma hora certa - citou - e uma hora certa para todo propsito sob o cu. Primeiro o trabalho, pequeno Jamie, depois o banho. E depois, graas 
a Deus, ser hora do jantar.
        Uma vez resolvidas as tarefas mais urgentes, Jamie aproveitou a tarde seguinte para me mostrar a casa. Construda em 1702, era realmente moderna para a sua 
poca, com inovaes como foges de porcelana para aquecimento e um grande forno de tijolos construdo na parede da cozinha, de modo que o po j no era assado 
nas cinzas da lareira. As paredes do corredor, da escadaria e da sala de estar eram cobertas de quadros. Aqui e ali, via-se uma paisagem pastoral ou o estudo de 
um animal, mas a maioria era da famlia e suas ligaes.
        Parei diante de um quadro de Jenny quando menina. Estava sentada no muro do jardim, uma trepadeira de folhas vermelhas por trs. Alinhada diante dela em 
cima do muro, via-se uma fileira de pssaros; andorinhas, um tordo, uma cotovia e at mesmo um faiso, todos se acotovelando e empurrando para achar uma posio 
ao lado de sua dona, que ria. Era bem diferente dos retratos formalmente posados, em que um ancestral ou outro olhavam fixamente de sua moldura como se o colarinho 
os sufocasse.
        - Minha me pintou este aqui - Jamie disse, notando meu interesse. -Ela pintou vrios dos que podem ser vistos no vo da escada, mas h apenas dois pintados 
por ela aqui. Ela mesma preferia este. - O dedo grande e rombudo tocou a superfcie da tela delicadamente, percorrendo a linha da trepadeira de folhas vermelhas. 
- Estes eram os pssaros adestrados de Jenny. Sempre que um pssaro era encontrado mancando ou com a asa quebrada, quem o encontrasse trazia para ela e em poucos 
dias ela o teria curado e ele estaria comendo na sua mo. Este sempre me fez lembrar Lan. - O dedo tamborilou em cima de um faiso, as asas abertas para manter o 
equilbrio, fitando sua dona com olhos escuros e amorosos.
        - Voc  terrvel, Jamie - eu disse, rindo. - H um de voc?
        - Ah, sim. - Conduziu-me para o outro lado da sala, perto da janela-Dois meninos ruivos, vestidos com seus tarts, fitavam-nos solenemente de sua moldura, 
sentados com um enorme co veadeiro. Deviam ser Nairn, o av de Bran, Jamie e seu irmo mais velho, Willie, que morrera de varola aos onze anos. Jamie no devia 
ter mais de dois anos quando aquele quadro fora pintado, pensei; estava de p entre os joelhos de seu irmo mais velho, com uma das mos sobre a cabea do co de 
caa.
        Jamie me falara de Willie durante nossa viagem de Leoch, em uma noite junto  fogueira no fundo de uma ravina solitria. Lembrei-me da pequena cobra, esculpida 
em cerejeira, que ele tirara da bolsa em sua cintura para me mostrar. "Willie a deu para mim quando fiz cinco anos", dissera, o dedo acariciando suavemente as linhas 
sinuosas. Era uma cobrinha engraada, o corpo artisticamente retorcido e a cabea virada para trs para espreitar por cima do que teria sido seu ombro, se cobras 
tivessem ombros.
        Jamie entregou-me o pequeno objeto de madeira e eu o revirei nas mos, com curiosidade.
        - O que est gravado na parte de baixo? S-a-w-n-y. Sawny?
        - Sou eu - Jamie disse, abaixando a cabea como se estivesse ligeiramente envergonhado. -  um apelido, uma brincadeira com meu segundo nome, Alexander. 
 como Willie costumava me chamar.
        Os rostos no quadro eram muito semelhantes; todas as crianas Fraser tinham aquele olhar franco que o desafiava a consider-los menos do que a avaliao 
que faziam de si mesmos. No entanto, neste retrato, as faces de Jamie eram rechonchudas e seu nariz ainda era pequeno como o de um beb, enquanto os ossos fortes 
de seu irmo comeavam a demonstrar a promessa do homem que poderia vir a ser, uma promessa jamais cumprida.
        - Voc gostava muito dele? - perguntei suavemente, colocando a mo em seu brao. Ele balanou a cabea, desviando o olhar para as chamas na lareira.
        - Ah, sim - disse com um fraco sorriso. - Ele era cinco anos mais velho do que eu e para mim era Deus, ou ao menos Cristo. Costumava segui-lo por toda parte; 
ao menos, a todo lugar onde ele deixava eu ir.
        Virou-se e dirigiu-se s prateleiras de livros. Desejando lhe dar um momento consigo mesmo, permaneci onde estava, olhando pela janela.
        Deste lado da casa, podia ver vagamente atravs da chuva o contorno de uma colina rochosa, com uma vegetao no cume,  distncia. Fazia-me lembrar do monte 
das fadas onde eu atravessara uma rocha e emergira de uma toca de coelho. Apenas seis meses. Mas parecia h muito tempo.
        Jamie viera ficar ao meu lado  janela. Fitando distraidamente a chuva forte, disse:
        - Houve uma outra razo. A principal.
        - Razo? - perguntei, tolamente.
        - Para eu ter me casado com voc.
        - E qual foi? - No sei o que eu esperava que ele dissesse, talvez alguma nova revelao sobre os assuntos emaranhados de sua famlia. A seu modo, o que 
ele disse foi um choque.
        - Porque eu a queria. - Virou-se da janela para encarar-me. - Mais do que eu jamais desejara algum na vida - acrescentou em voz baixa.
        Continuei fitando-o, abismada. O que quer que eu esperasse, no era isso. Vendo minha expresso boquiaberta, continuou despreocupadamente:
        - Quando perguntei ao meu pai como se sabia quem era a mulher certa, ele disse que quando chegasse a hora, eu no teria nenhuma dvida. E no tive. Quando 
acordei no escuro debaixo daquele carvalho na estrada para Leoch, com voc sentada no meu peito, xingando-me por estar esvaindo-me em sangue, disse a mim mesmo: 
Jamie Fraser, por menos que saiba a respeito dela e por mais que pese tanto quanto um bom cavalo, esta  a mulher."
        Parti em sua direo e ele recuou, falando rapidamente:
        - Disse a mim mesmo: "Ela o consertou duas vezes em poucas horas, rapaz; a vida entre os MacKenzie sendo o que , parece uma boa medida se casar com uma 
mulher que sabe curar um ferimento e arrumar ossos quebrados." Ento, disse a mim mesmo: "Jamie, meu rapaz, se o toque da mo dela  to suave em sua clavcula, 
imagine como deve ser mais embaixo..."
        Desviou-se de mim contornando uma cadeira.
        - Claro, achei que podia ser o efeito de ter passado quatro meses em um mosteiro, sem o benefcio de companhia feminina, mas depois daquela viagem no escuro 
juntos - parou para suspirar teatralmente, esquivando-se da minha tentativa de agarr-lo pela manga da camisa -, com aquele traseiro grande e adorvel encaixado 
entre minhas coxas - agachou-se evitando um golpe na orelha esquerda e tirou o corpo fora, colocando uma mesinha entre ns - e aquela cabea dura como uma pedra 
batendo no meu peito - um pequeno ornamento de metal balanou-se e caiu no cho com estardalhao -, disse a mim mesmo...
        Ele ria tanto a essa altura que tinha que parar para respirar entre uma frase e outra.
        - Jamie... eu disse... embora seja uma maldita Sassenach... com a lngua de uma vbora... com uma bunda daquelas... que importa se ela tem uma cara de c-c-carneiro?
        Eu o fiz tropear e aterrissei sobre seu estmago com os dois joelhos quando ele se estatelou no cho com um barulho que sacudiu a casa.
        - Est querendo me dizer que se casou comigo por amor? - perguntei. Ele ergueu as sobrancelhas, lutando para conseguir respirar.
        - E no foi... exatamente isso... que acabei de dizer? Agarrando-me pelos ombros com um dos braos, enfiou a outra por baixo da minha saia e comeou a me 
infligir uma srie de belisces implacveis naquela parte da minha anatomia que ele acabara de louvar.
        Voltando para pegar sua cesta de bordados, Jenny entrou nesse momento e ficou olhando seu irmo, achando a situao engraada.
        - E o que voc est fazendo, Jamie, meu rapaz? - perguntou, uma das sobrancelhas erguidas.
        - Estou fazendo amor com minha mulher - respondeu, arfando, sem conseguir respirar entre o riso e a luta.
        - Bem, podia achar um lugar mais adequado para isso - ela disse, erguendo a outra sobrancelha. - Este assoalho vai deixar farpas no seu traseiro.
        Se Lallybroch era um lugar tranqilo, tambm era atarefado. Todos pareciam voltar imediatamente  vida com os primeiros raios do sol e, ento, a fazenda 
inteira girava e zumbia como um complexo mecanismo de relgio at depois do pr-do-sol. Ento, um a um, os dentes e rodas da engrenagem que faziam a propriedade 
funcionar comeavam a se dispersar na escurido, em busca de jantar e sumir, apenas para reaparecerem como mgica, cada qual em seu lugar, pela manh.
        To essencial cada homem, mulher e criana pareciam ser para o funcionamento do lugar que eu no podia imaginar como se sustentara nos ltimos anos, sem 
seu mestre. Agora, no s as mos de Jamie, como as minhas tambm eram foradas ao trabalho em tempo integral. Pela primeira vez, compreendi as severas restries 
escocesas contra a indolncia que antes - ou depois, dependendo do ponto de vista - me pareceram apenas uma esquisitice. A ociosidade teria parecido no s um sinal 
de degradao moral, mas uma afronta  ordem natural das coisas.
        Havia momentos,  claro. Aquelas pequenas brechas no tempo, logo desaparecidas, em que tudo parece ficar imvel e a existncia equilibra-se em um ponto perfeito, 
como o momento de passagem entre escurido e luz, quando ambas e nenhuma nos envolve.
        Desfrutava de tal momento na tarde do segundo ou terceiro dia desde a nossa chegada  fazenda. Sentada na cerca atrs da casa, podia ver campos marrom-dourados 
at a beira do penhasco depois da torre, com a malha de rvores no extremo oposto do desfiladeiro, turvando-se at ficar negra diante do brilho perolado do cu. 
Objetos prximos e distantes pareciam estar  mesma distncia, uma vez que suas longas sombras confundiam-se com a penumbra.
        O ar estava frio com o prenncio de uma geada e pensei que devia entrar logo, embora relutasse em deixar a plcida beleza do lugar. No percebi Jamie aproximar-se, 
at ele colocar as dobras pesadas de um manto sobre meus ombros. No percebera o quanto estava frio at sentir o calor contrastante da l grossa.
        Os braos de Jamie envolveram-me junto com o manto e aninhei-me nele, estremecendo ligeiramente.
        - Pude v-la tremendo l da casa - disse, segurando minhas mos. - Pode pegar um resfriado, se no tomar cuidado.
        - E quanto a voc? - Virei-me para olh-lo. Apesar do frio crescente, ele parecia completamente  vontade em nada alm de sua camisa e kilt, sem nada mais 
do que um nariz levemente vermelho para mostrar que no se tratava de uma das mais amenas noites de primavera.
        - Ah, bem, j estou acostumado. Os escoceses no tm o sangue fino como vocs sulistas puritanos.
        Levantou meu queixo e beijou meu nariz, sorrindo. Segurei-o pelas orelhas e ajeitei seu alvo um pouco mais abaixo.
        Durou o suficiente para nossas temperaturas terem se igualado quando ele me soltou e o sangue quente zumbia em meus ouvidos quando me inclinei para trs, 
equilibrando-me no parapeito da cerca. A brisa soprava por trs de mim, lanando alguns fios de cabelo no meu rosto. Ele os ajeitou para trs dos meus ombros, espalhando 
os cachos desordenados com os dedos para que a luz do sol poente atravessasse as mechas.
        - Parece que voc tem uma aurola, com a luz assim por trs de voc - disse, ternamente. - Um anjo coroado de ouro.
        - E de voc - retruquei baixinho, delineando o contorno de seu maxilar onde a luz cor de mbar cintilava nos plos de sua barba. - Por que no me disse antes?
        Ele sabia o que eu queria dizer. Uma sobrancelha elevou-se e ele sorriu, metade do rosto iluminado pelo sol dourado, a outra imersa na sombra.
        - Bem, eu sabia que voc no queria se casar comigo. No quis colocar um peso em voc ou fazer papel de tolo dizendo-lhe na ocasio, quando era evidente 
que voc iria mentir apenas para honrar os votos que preferia no ter feito. - Riu, os dentes brancos na penumbra, antecipando meu protesto. - A primeira vez, pelo 
menos. Tenho meu orgulho, mulher.
        Estendi os braos e o puxei para mim, de modo que ele ficou entre minhas pernas enquanto eu estava sentada na cerca. Sentindo sua pele ligeiramente fria, 
envolvi seus quadris com as minhas pernas e o cobri com as abas do meu manto. Sob o abrigo do tecido de l, seus braos abraaram-me com fora, pressionando meu 
rosto contra a cambraia de sua camisa.
        - Meu amor - ele sussurrou. - Ah, meu amor. Eu a quero tanto.
        - No  a mesma coisa, no? - eu disse. - Amar e desejar, quero dizer. Ele riu, um pouco rouco.
        - Quase a mesma coisa, Sassenach, para mim, pelo menos. - Eu podia sentir a firmeza de seu desejo, rgido e premente. Deu um passo para trs repentinamente 
e, inclinando-se, levantou-me da cerca.
        - Onde estamos indo? - Afastvamo-nos da casa, em direo ao aglomerado de palhoas  sombra do bosque de olmos.
        - Encontrar um monte de feno.
        


28 - BEIJOS E CEROULAS
        
        Gradualmente, encontrei meu prprio lugar na engrenagem da propriedade. Como Jenny j no conseguia fazer as longas caminhadas at as cabanas dos colonos, 
eu mesma comecei a visit-los, s vezes acompanhada por um cavalario, s vezes por Jamie ou Ian. Levava alimentos e remdios, tratava os doentes da melhor forma 
que me era possvel e fazia sugestes para a melhoria da sade e da higiene, que eram recebidas com graus variados de boa vontade.
        Na prpria Lallybroch, eu bisbilhotava pela casa e adjacncias, tornando-me til onde fosse possvel, em geral nas hortas e jardins. Alm do pequeno e adorvel 
jardim ornamental, a manso possua um pequeno jardim de ervas medicinais e uma enorme horta, que fornecia nabos, repolhos e abboras.
        Jamie estava em toda parte; no gabinete com os livros de contabilidade, nos campos com os arrendatrios, na estrebaria com Ian, compensando o tempo perdido. 
Havia mais do que dever ou interesse nisso tambm, eu achava. Logo teramos que partir; ele queria deixar tudo funcionando de tal forma que continuaria a funcionar 
enquanto ele estivesse fora, at que ele - at que ns - pudssemos voltar definitivamente.
        Eu sabia que teramos que partir, mas cercada pela casa e pelos arredores tranqilos de Lallybroch e da companhia alegre de Jenny, Ian e do pequeno Jamie, 
sentia como se tivesse finalmente chegado em casa.
        Aps o desjejum em uma manh, Jamie ergueu-se da mesa, anunciando que pensava em ir at o vale, para ver um cavalo que Martin Mack queria vender.
        Jenny virou-se do aparador, a testa franzida.
        - Acha seguro, Jamie? Tem havido patrulhas inglesas em toda a regio nos ltimos meses.
        Ele encolheu os ombros, pegando o casaco da cadeira onde o deixara.
        - Terei cuidado.
        - Ah, Jamie - Ian disse, entrando com uma braada de lenha para a lareira. - Queria lhe perguntar: voc pode ir at o moinho hoje de manh? Jock esteve l 
ontem e disse que alguma coisa estava errada com a roda. Eu dei uma olhada rpida, mas ns dois juntos no conseguimos mov-la. Acho que h alguma sujeira presa 
nas engrenagens do lado de fora, mas fica bem dentro da gua.
        Bateu levemente com a perna de pau no cho, sorrindo para mim.
        - Ainda posso andar, graas a Deus, e tambm montar, mas no consigo nadar. Fico me debatendo e girando em crculos como um inseto.
        Jamie colocou o casaco sobre a cadeira de novo com um sorriso diante da descrio de seu cunhado.
        - No  to ruim assim, Ian, se isso impede que voc tenha que passar a manh em um aude quase congelado. Sim, eu vou. - Voltou-se para mim
        - Quer ir comigo, Sassenach? Est uma linda manh e voc pode trazer sua cestinha. - Lanou um olhar irnico  enorme cesta de vime que eu usava para colher 
plantas. - Vou trocar minha camisa. J volto. - Dirigiu-se s escadas e subiu as escadas atleticamente, trs degraus de cada vez.
        Ian e eu trocamos um sorriso. Se havia algum pesar por tais faanhas estarem agora fora do seu alcance, ele o ocultava sob o prazer de ver a exuberncia 
de Jamie.
        -  bom t-lo de volta - ele disse.
        - Quem dera pudssemos ficar - eu disse, pesarosa. Os meigos olhos castanhos alarmaram-se.
        - No esto pensando em ir embora j, no ? Sacudi a cabea.
        - No, no imediatamente. Mas teremos que partir bem antes de a neve chegar. - Jamie decidira que nosso melhor roteiro seria ir para Beauly, lugar de origem 
do cl Fraser. Talvez seu av, lorde Lovat, pudesse ajud-los; se no, ele poderia pelo menos arranjar nossa entrada na Frana.
        Lan balanou a cabea, mais tranqilo.
        - Ah, sim. Mas ainda tm algumas semanas.
        Era um belo e luminoso dia de outono, o ar pungente como a cidra e um cu to azul que seria possvel afogar-se nele. Caminhvamos devagar, para que eu pudesse 
ficar atenta a alguns ps de madressilvas silvestres e cardos temporos, conversando descontraidamente.
        - Semana que vem teremos o Dia do Trimestre - Jamie observou. -Seu vestido novo vai ficar pronto at l?
        - Acho que sim. Por qu,  uma ocasio especial?
        Ele sorriu para mim, segurando a cesta enquanto eu me inclinava para colher um talo de tansia.
        - Ah, de certa forma, sim. Nada como os grandiosos eventos de Colum, sem dvida, mas todos os arrendatrios de Lallybroch viro pagar seus aluguis... e 
prestar suas homenagens  nova senhora de Lallybroch.
        - Imagino que ficaro surpresos por voc ter se casado com uma inglesa.
        - Acredito que alguns pais ficaro desapontados com isso; namorei uma garota ou duas pelas redondezas antes de ser preso e levado para Fort.
        - Lamenta no ter se casado com uma garota do local? - perguntei, afetadamente.
        - Se acha que vou responder "sim" com voc a parada, segurando uma faca de poda - observou -, tem uma opinio menos lisonjeira sobre o meu bom senso do 
que eu imaginava.
        Larguei a faca de poda, com a qual comeara a escavar, estendi meus braos e fiquei esperando. Quando ele finalmente me soltou, inclinei-me para pegar a 
faca outra vez e disse, provocando-o.
        - Sempre me perguntei por que voc permaneceu virgem por tanto tempo. Todas as garotas de Lallybroch so feias, ento?
        - No - ele disse, estreitando os olhos para o sol da manh. - Foi principalmente culpa do meu pai. Ns caminhvamos pelos campos no final da tarde, s vezes, 
ele e eu, e conversvamos sobre muitas coisas. E quando cheguei  idade de que isso fosse uma possibilidade, ele me disse que um homem tem que ser responsvel por 
qualquer semente que plantar, porque  seu dever cuidar e proteger uma mulher. E se eu no estivesse preparado para fazer isso, no tinha o direito de sobrecarregar 
uma mulher com as conseqncias dos meus prprios atos.
        Olhou para trs, para a casa. E em direo ao pequeno cemitrio da famlia perto da torre, onde seus pais estavam enterrados.
        - Ele disse que a melhor coisa na vida de um homem  se deitar com a mulher que ama - disse, em voz baixa. Sorriu para mim, os olhos to azuis quanto o cu 
acima de ns. - Ele estava certo.
        Toquei seu rosto delicadamente, traando a larga elevao da face para o maxilar.
        - No entanto, um pouco difcil para voc, se ele esperava que levasse tanto tempo para se casar - eu disse.
        Jamie riu, o kilt batendo em seus joelhos com a brisa enrgica do outono.
        - Bem, a Igreja nos ensina que a masturbao  um pecado, mas meu pai disse que achava que se fosse preciso escolher entre masturbar-se ou abusar de uma 
mulher, um homem honrado deveria escolher fazer o sacrifcio.
        Quando parei de rir, sacudi a cabea e disse:
        - No. No, no vou perguntar. Mas voc realmente se manteve virgem.
        - Estritamente pela graa de Deus e de meu pai, Sassenach. Eu no pensava em mais nada a no ser garotas quando fiz quatorze anos. Mas foi nessa poca que 
fui enviado para morar com Dougal, em Beannachd.
        - No havia garotas l? - perguntei. - Pensei que Dougal tivesse filhas.
        - Sim, tem. Quatro. As duas mais novas no so muito atraentes, mas a mais velha era muito bonita. Molly era um ou dois anos mais velha do que eu. E no 
muito interessada nas minhas atenes, eu acho. Eu costumava ficar olhando fixamente para ela  mesa do jantar e ela me olhava com desdm e perguntava se eu estava 
com catarro. Porque se estivesse, deveria ir para a cama, e se no, ela ficaria muito grata se eu fechasse a boca, porque no queria ficar olhando para as minhas 
amdalas enquanto comia.
        - Estou comeando a ver como voc continuou virgem - eu disse, erguendo minhas saias para atravessar um mata-burro. - Mas no  possvel que todas fossem 
iguais a ela.
        - No - ele disse pensativamente, segurando minha mo para me ajudar a atravessar o mata-burro. - No eram. A irm mais nova de Molly, Tabitha, era mais 
amistosa. - Sorriu, recordando-se.
        - Tibby foi a primeira garota que beijei. Ou talvez devesse dizer a primeira garota que me beijou. Eu estava carregando dois baldes de leite para ela, do 
curral para a leiteria, maquinando o tempo todo como eu iria peg-la atrs da porta, onde no havia espao para fuga, e beij-la. Mas minhas mos estavam ocupadas 
e ela teve que abrir a porta para eu atravessar. Portanto, eu  que acabei atrs da porta e foi Tib que se aproximou de mim, me pegou pelas orelhas e me beijou. 
O leite tambm derramou -acrescentou.
        - Parece ter sido uma primeira experincia memorvel - eu disse, rindo.
        - Duvido que tivesse sido a primeira dela - disse, rindo. - Ela sabia muito mais do assunto do que eu. Mas no chegamos a praticar muito; um ou dois dias 
depois, a me dela nos pegou na despensa. Ela no fez mais do que me lanar um olhar penetrante e dizer a Tibby para ir pr a mesa do jantar, mas deve ter contado 
a Dougal.
        Se Dougal MacKenzie fora rpido em se sentir insultado pela honra da irm, eu podia imaginar o que deveria ter feito em defesa da honra de sua filha.
        - Tremo s de pensar - eu disse, rindo.
        - Eu tambm - Jamie disse, estremecendo. Lanou-me um olhar de esguelha, encabulado.
        - Voc sabe que os rapazes pela manh, s vezes acordam com... bem, com... - Ficou ruborizado.
        - Sim, eu sei - eu disse. - Tambm os homens mais velhos de vinte e trs. Acha que no notei? Voc j me fez observar isso vrias vezes.
        - Mmmmhum. Bem, na manh seguinte, depois que a me de Tibby nos pegou, acordei assim. Eu estivera sonhando com ela, com a Tib, quero dizer, no com a me 
dela, e no fiquei surpreso de sentir a mo no meu pau. O que me surpreendeu  que a mo no era minha.
        - Certamente no era de Tibby?
        - Bem, no, no era. Era do pai dela.
        - Dougal?! O qu?
        - Bem, arregalei os olhos e ele sorriu para mim, muito satisfeito. Ento, sentou-se na cama e tivemos uma boa conversa, tio e sobrinho, pai adotivo e filho 
adotivo. Disse o quanto estava satisfeito com a minha estada l, ele prprio no tendo um filho, e tudo o mais. E como toda a sua famlia gostava muito de mim e 
tal. E como ele detestaria pensar que se pudesse tirar vantagem de sentimentos to belos e inocentes quanto suas filhas deveriam ter por mim, mas como,  claro, 
ele estava to contente por poder confiar em mim como confiaria em seu prprio filho.
        - E durante o tempo todo em que ele falava e eu estava l deitado, ele mantinha uma das mos na adaga e a outra pousada nas minhas jovens bolas. Ento, eu 
dizia "Sim, tio" e "No, tio" e, quando ele saiu, enrolei-me na colcha e sonhei com porcos castrados. E no beijei uma garota de novo at os dezesseis anos, quando 
fui para Leoch.
        Olhou para mim, sorrindo. Seus cabelos estavam amarrados na nuca com uma tira de couro, mas as mechas mais curtas estavam espetadas para cima no alto da 
cabea como de costume, com reflexos vermelhos e dourados no ar lmpido e frio. Sua pele bronzeada adquirira um tom dourado durante nossa viagem de Leoch e Craigh 
na Dun, e ele parecia uma folha de outono, voando alegremente ao vento.
        - E quanto a voc, minha linda Sassenach? - perguntou, rindo. - Os rapazes ficavam arfando nos seus calcanhares ou voc era tmida e recatada?
        - Um pouco menos do que voc - eu disse, com ar srio. - Eu tinha oito anos.
        - Por Jezebel! Quem foi o felizardo?
        - O filho do intrprete. Foi no Egito. Ele tinha nove anos.
        - Ah, bem, ento voc no teve culpa. Desencaminhada por um homem mais velho. E um maldito pago, ainda por cima.
        O moinho surgiu l embaixo, belo como num quadro, com uma trepadeira vermelho-escura subindo, resplandecente, na lateral da parede de argamassa amarela, 
com persianas abertas para a luz do dia, bem arrumadas, apesar da pintura verde desbotada. A gua jorrava alegremente pela barragem sob a roda-d'gua parada no aude 
do moinho. Havia at patos no aude, marrecos e patos selvagens fazendo uma pausa para descanso em sua rota para o sul.
        - Olhe - eu disse, parando no topo da colina, colocando a mo no brao de Jamie para faz-lo parar. - No  lindo?
        - Seria bem mais bonito se a roda-d'gua estivesse funcionando -disse, de modo prtico. Depois, olhou para mim e sorriu.
        - Sim, Sassenach.  um lindo lugar. Eu costumava nadar aqui quando era garoto. H um lago depois da curva do riacho.
        Um pouco mais abaixo na colina, o lago tornou-se visvel em meio aos salgueiros. Os garotos tambm. Havia quatro, brincando, espalhando gua e gritando, 
todos nus em plo.
        - Brrr - disse, vendo-os. O tempo estava bom para o outono, mas havia uma friagem no ar e fiquei satisfeita por ter trazido um xale. - Fico gelada, s de 
v-los.
        - Ah, ? - Jamie disse. - Bem, deixe-me esquent-la.
        Com um olhar para os garotos no riacho, ele recuou para a sombra de uma enorme castanheira. Passou as mos pela minha cintura e puxou-me para junto dele 
na meia-luz.
        - Voc no foi a primeira garota que beijei - disse docemente. - Mas juro que ser a ltima. - E inclinou a cabea para o meu rosto voltado para cima.
        Depois que o moleiro saiu de sua toca e apresentaes rpidas foram feitas, retirei-me para a margem do aude, enquanto Jamie passava vrios minutos ouvindo 
uma explicao do problema. Quando o moleiro voltou para a moenda, para tentar girar a grande moenda de pedra pelo lado de dentro, Jamie parou por um instante, fitando 
as guas fundas e cheias de ervas daninhas da barragem. Finalmente, com uma contrao dos ombros em resignao, comeou a tirar as roupas.
        - No tem jeito - observou. - Ian tem razo; h alguma coisa presa na roda embaixo da represa. Vou ter que descer e... - Interrompido pela minha exclamao 
de surpresa, virou-se para onde eu estava sentada na margem com minha cesta.
        - E o que h de errado com voc? - perguntou. - Nunca viu um homem de ceroulas antes?
        - No... no iguais... a estas. - consegui dizer entre acessos de riso. Precavendo-se contra a necessidade de mergulhar nas guas frias, vestira por baixo 
do kilt uma espcie de calo incrivelmente antiquado, originalmente de flanela vermelha, agora manchado com uma surpreendente variedade de cores e matizes. Obviamente, 
aquele par de ceroulas pertencera a algum com muitos centmetros a mais na cintura do que Jamie. Pendiam precariamente de seus quadris, formando bolsas sobre sua 
barriga plana.
        - Do seu av? - arrisquei, fazendo um esforo extremamente mal-sucedido de reprimir o riso. - Ou de sua av?
        - Do meu pai - disse, friamente, olhando-me com desdm. - No espera que eu nade pelado como um ovo diante de minha mulher e dos meus inquilinos, no ?
        Com considervel dignidade, ele recolheu o excesso de pano com uma das- mos e foi entrando no aude. Caminhando na gua apenas com a cabea para fora, ele 
tomou posio e, em seguida, com uma respirao funda, aprumou-se e submergiu, a ltima viso que tive dele usando os fundilhos inflados das ceroulas de flanela 
vermelha. O moleiro, debruado  janela da casa do moinho, gritava palavras de encorajamento e instrues, sempre que a cabea molhada e lustrosa irrompia na superfcie 
para respirar.
        As margens do reservatrio eram cobertas de plantas aquticas e eu fiquei remexendo com minha vara de escavar,  cata de razes de malva e das folhas finas 
da filipndula. J tinha a cesta cheia pela metade quando ouvi um pigarro educado s minhas costas
        Era uma senhora muito idosa, ou aomenos assim parecia. Apoiava-se numa vara de pilriteiro, enrolada em roupas que devia usar h vinte anos, atualmente volumosas 
demais para a figura encarquilhada e encolhida que a habitava agora.
        - Bom dia - ela disse, balanando a cabea sem parar. Usava uma espcie de touca branca e engomada que escondia a maior parte de seus cabelos, mas alguns 
fios grisalhos projetavam-se para fora, ao lado das faces encarquilhadas como mas secas.
        - Bom dia - respondi, procurando me empertigar, mas ela avanou alguns passos e deixou-se cair ao meu lado com uma graciosidade surpreendente. Esperava que 
ela conseguisse se levantar de novo.
        - Eu sou... - comecei, porm mal ameaara abrir a boca quando ela me interrompeu.
        - Deve ser a nova senhora,  claro. Sou a sra. MacNab, Vov MacNab, como me chamam, sendo todas as minhas noras sras. MacNab tambm. -Estendeu a mo escarnada 
e puxou minha cesta para perto dela, espreitando o seu contedo.
        - Raiz de malva... ah, essa  boa para tosse. Mas no vai querer usar esta, dona. - Cutucou um pequeno bulbo marrom. - Parece raiz de lrio, mas no .
        - O que ? - perguntei.
        - Ofioglosso. Coma um desses, dona, e estar rolando pelo cho, se contorcendo de dor. - Tirou o tubrculo da cesta e atirou-o no reservatrio, fazendo a 
gua respingar com o impacto. Colocou a cesta no colo e examinou habilmente as demais plantas, enquanto eu observava com um misto de diverso e irritao. Finalmente, 
satisfeita, devolveu-a.
        - Bem, voc no  nada boba para uma Sassenach - observou. - Pelo menos, sabe diferenciar betnica de fedegoso. - Lanou um olhar para o aude, onde a cabea 
de Jamie apareceu por um instante, lisa e lustrosa como uma foca, antes de desaparecer outra vez sob a casa do moinho. - Vejo que o senhor de Lallybroch no se casou 
com voc apenas pelo seu rosto.
        - Obrigada - disse, preferindo interpretar a frase como um elogio. Os olhos da velha senhora, penetrantes como agulhas, estavam presos ao meu ventre.
        - Ainda no est grvida? - perguntou. - Folhas de framboesa. Macere um punhado com frutos da roseira brava e beba na lua crescente, antes de ficar cheia. 
Depois, quando ela comear a minguar, tome um pouco de uva-espim para purificar seu tero.
        - Ah - exclamei -, bem...
        - Eu tinha um pequeno favor a pedir ao senhor - continuou a velha senhora. - Mas como vejo que ele est um pouco ocupado no momento, vou falar com voc sobre 
isso.
        - Est bem - concordei frouxamente, no vendo como poderia impedi-la, de qualquer forma.
        -  o meu neto - ela disse, olhando-me fixamente com pequenos olhos cinzas do tamanho e brilho de bolas de gude. - Meu neto Rabbie; ao todo, tenho dezesseis 
netos e trs deles de nome Robert, mas um  Bob, o outro  Rob e o pequeno  Rabbie.
        - Parabns - eu disse educadamente.
        - Queria que o senhor empregasse o rapaz como cavalario - continuou.
        - Bem, no sei se...
        -  o pai dele, sabe - ela disse, inclinando-se para a frente em tom confidencial. - No que eu no ache que um pouco de firmeza seja errado; poupe a vara 
e estragar a criana, tenho dito muitas vezes e o bom Deus sabe muito bem que os garotos foram feitos para apanhar ou no os teria criado com tanta parte do diabo. 
Mas quando se trata de empurrar uma criana na lareira e ela ficar com uma mancha roxa no rosto do tamanho da minha mo, e por nada alm de pegar mais um bolinho 
no prato, ento...
        - O pai de Rabbie bate nele, quer dizer? - interrompi.
        A velha senhora balanou a cabea, satisfeita com minha inteligncia gil.
        - Isso mesmo. E no  isso que eu estava dizendo? - Ergueu uma das mos. - Bem, normalmente,  claro que eu no interferiria. Um homem faz com seu filho 
o que achar melhor, mas... bem, Rabbie de certa forma  meu neto favorito. E no  culpa do garoto se seu pai  um beberro, por mais vergonhoso que seja sua prpria 
me ter que dizer isso.
        Apontou um dedo admonitrio como uma vara.
        - No que o pai de Ronald no tomasse uns goles a mais uma vez ou outra. Mas nunca encostou a mo em mim ou nas crianas, ao menos no depois da primeira 
vez - acrescentou, pensativamente. Piscou os olhos subitamente para mim, as pequenas bochechas lisas e rosadas como mas no vero, de modo que pude imaginar a jovem 
atraente e cheia de vivacidade que ela deve ter sido.
        - Ele me bateu uma vez - ela confidenciou - e eu peguei o ferro da lareira e acertei a cabea dele. - Balanou-se para a frente e para trs, rindo. - Achei 
que o tinha matado e fiquei chorando e segurando a cabea dele no colo, pensando o que eu iria fazer, uma viva com dois filhos para alimentar? Mas ele se recuperou 
- ela disse, candidamente - e nunca mais encostou a mo em mim ou nas crianas outra vez. Eu pari treze, sabe -disse com orgulho. - E criei dez.
        - Parabns - eu disse, sinceramente.
        - Folhas de framboesa - disse, colocando a mo em meu joelho como se me contasse um segredo. - Oua o que eu digo, dona, folhas de framboesa daro um jeito. 
E se no, venha me ver e eu lhe prepararei uma bebida grossa feita de margaridas-amarelas e sementes de abbora, com um ovo cru batido. Vo levar a semente do seu 
homem diretamente para seu tero, sabe, e estar redonda como uma abbora quando a Pscoa chegar.
        Tossi, ficando um pouco ruborizada.
        - Mmmmhum. E quer que Jamie, h, o senhor, quero dizer, contrate seu neto como cavalario para afast-lo do pai?
        - Sim, isso mesmo. Rabbie  muito trabalhador e o senhor no...
        O rosto enrugado da velha senhora ficou paralisado no meio de sua animada conversa. Virei-me para olhar por cima do ombro e tambm fiquei paralisada. Soldados 
ingleses. Drages, seis deles, a cavalo, descendo cuidadosamente a colina em direo ao moinho.
        Com admirvel presena de esprito, a sra. MacNab levantou-se e sentou-se outra vez em cima das roupas de Jamie, suas saias rodadas ocultando tudo.
        Ouviu-se barulho de gua e uma respirao explosiva no aude atrs de mim, quando Jamie veio  superfcie outra vez. Tive medo de gritar ou me mover, atraindo 
a ateno dos drages para o lago, mas o repentino silncio atrs de mim disse-me que ele os avistara. O silncio foi quebrado por uma nica palavra que ressoou 
pela gua, baixinho, mas intensa em sua sinceridade:
        - Merde - ele disse.
        A velha senhora e eu ficamos sentadas, imveis, o rosto impenetrvel, observando os soldados descerem a colina. No derradeiro instante, quando fizeram a 
ltima volta no caminho do moinho, ela virou-se rapidamente para mim e colocou um dedo sobre os lbios ressequidos. Eu no devia falar para que no soubessem que 
era inglesa. No tive tempo sequer de balanar a cabea, em sinal de que havia compreendido, quando os cascos enlameados pararam a alguns passos de distncia.
        - Bom dia, senhoras - disse o lder. Era um cabo, mas no, fiquei feliz em constatar, o cabo Hawkins. Um olhar rpido mostrou-me que nenhum daqueles homens 
estava entre os que eu vira em Fort William e relaxei um pouco a mo que segurava a ala da cesta.
        - Vimos o moinho l de cima - disse o lder - e pensei em talvez comprar uma saca de farinha? - Dividiu uma mesura entre ns duas, sem saber a quem se dirigir.
        A sra. MacNab foi fria, mas educada.
        - Bom dia - disse, inclinando a cabea. - Mas se veio  procura de farinha, receio que ficar desapontado. A roda do moinho no est funcionando no momento. 
Talvez da prxima vez que passe por aqui.
        - Ah,  mesmo? O que h de errado? - O cabo, um homem jovem e baixo, com uma compleio jovial, pareceu interessado. Caminhou at a beira do lago para olhar 
atentamente para a roda-d'gua. O moleiro, aparecendo na moenda para relatar os ltimos progressos com a moenda, viu-o e rapidamente recuou e desapareceu de vista.
        O cabo chamou um de seus homens. Subindo o barranco, ele gesticulou para o outro soldado, que obedientemente agachou-se para que o cabo pudesse subir em 
suas costas. Esticando-se, conseguiu agarrar-se  beira do telhado com as duas mos e com um impulso subiu no teto de sap. De p, ele mal conseguia tocar a borda 
da enorme roda. Esticou-se e balanou-a com as duas mos. Inclinando-se para baixo, gritou para o moleiro, atravs da janela, para tentar girar a moenda  mo.
        Obriguei-me a manter os olhos afastados do fundo do aude. Eu no estava suficientemente familiarizada com o funcionamento de rodas-d'gua para ter certeza, 
mas temia que se a roda cedesse repentinamente, qualquer coisa prxima s engrenagens submersas poderia ser esmagada. Aparentemente, esse no era um temor infundado, 
porque a sra. MacNab falou rispidamente para um dos soldados que estava perto de ns.
        - Voc devia mandar seu chefe descer, rapaz. No vai adiantar nada para ele nem para o moinho. No deviam se meter com o que no entendem.
        - Ah, no precisa se preocupar, senhora - disse o soldado descontraidamente. - O pai do cabo Silver possui um moinho de trigo em Hamp-shire. O que o cabo 
no entende de rodas-d'gua caberia no meu sapato.
        A sra. MacNab e eu trocamos olhares de espanto. O cabo, depois de mais algumas idas e vindas ao telhado e tentativas exploratrias remexendo e cutucando, 
desceu para onde estvamos sentadas. Suava copiosamente e limpou o rosto vermelho com um leno grande e sujo antes de se dirigir a ns.
        - No posso mov-la de cima e esse moleiro idiota parece no falar nem uma palavra de ingls. - Olhou para a vara firme da sra. MacNab e suas pernas tortas, 
depois para mim. - Talvez a jovem pudesse vir e falar com ele para mim?
        A sra. MacNab estendeu a mo num gesto protetor, agarrando-me pela manga.
        - Vai ter que desculpar minha nora, senhor. Ela ficou meio perturbada da cabea desde que seu ltimo beb nasceu morto. No diz uma palavra h mais de um 
ano, a pobre menina. E no posso deix-la sozinha um s instante, com medo de que ela se atire na gua em sua tristeza.
        Fiz o melhor possvel para parecer abobalhada, o que no foi nenhum esforo no meu estado de esprito atual. O cabo pareceu desconcertado.
        - Ah - exclamou. - Bem... - Andou de um lado para o outro pela borda do aude, ainda franzindo a testa e olhando para a gua. Olhava exatamente como Jamie 
o fizera h uma hora e aparentemente pela mesma razo.
        - No adianta, Collins - disse ao velho soldado. - Vou ter que mergulhar e ver o que est prendendo a roda. - Tirou o casaco vermelho dos drages da cavalaria 
e comeou a desabotoar os punhos da camisa. Troquei um olhar horrorizado com a sra. MacNab. Embora pudesse haver ar suficiente embaixo da casa do moinho para sobreviver, 
certamente no havia espao para se esconder adequadamente.
        Estava considerando, sem muito otimismo, as chances de dar incio a um convincente ataque epiltico, quando a enorme roda rangeu repentinamente acima de 
nossa cabea. Com o som de uma rvore sendo abatida, o grande arco fez uma sbita meia-volta, parou por um instante, depois comeou a girar regularmente, as ps 
vertendo alegremente brilhantes riozinhos dentro do aude.
        O cabo parou no meio do ato de se despir, olhando admirado para o arco da roda.
        - Veja s, Collins! O que ser que estava preso na roda?
        Como em resposta, algo apareceu no topo da roda. Ficou pendurado em uma das ps, as dobras vermelhas e encharcadas escorrendo gua. A p bateu na corrente 
de gua e submergiu com estardalhao no aude, o objeto se desprendeu e as antigas ceroulas do pai de Jamie flutuaram majestosamente pelas guas do aude do moinho.
        O soldado mais velho pescou-as com uma vareta, entregando-as cuidadosamente ao seu comandante, que as pegou da vara como um homem obrigado a pegar um peixe 
morto.
        - Hum - resmungou, erguendo a pea do vesturio com ar crtico. -De onde ser que saiu? Deve ter ficado preso no eixo.  engraado como algo assim pudesse 
causar tanto problema, no , Collins?
        - Sim, senhor. - O soldado obviamente no considerava as engrenagens internas da roda de um moinho escocs algo de grande interesse, mas respondeu educadamente.
        Depois de revirar o pano uma ou duas vezes, o cabo deu de ombros e usou-o para limpar as mos.
        - Um bom pedao de flanela - disse, torcendo o pano encharcado. -Vai servir para polir tachas, ao menos. Uma espcie de souvenir, no , Collins? - Em seguida, 
com uma mesura corts para ns duas, voltou-se para seu cavalo.
        Mal os drages haviam desaparecido de vista por cima da colina quando um barulho de gua espadanada vindo do lago do moinho anunciou a subida das profundezas 
do duende das guas.
        Ele estava completamente sem sangue, azulado, parecendo mrmore de Carrara, e seus dentes batiam de tal forma que eu mal consegui entender suas primeiras 
palavras, que, de qualquer forma, eram em galico.
        A sra. MacNab no teve dificuldade em entend-las e seu velho maxilar caiu. Entretanto, fechou-o imediatamente e fez uma grande reverncia ao senhor sado 
das guas. Vendo-a, ele parou seu avano em direo  margem, a gua ainda batendo recatadamente  altura de sua cintura. Respirou fundo, cerrando os dentes para 
impedir que chocalhassem, e tirou uma fita de lentilha-d'gua do ombro.
        - Sra. MacNab - disse, cumprimentando sua velha locatria com um movimento da cabea.
        - Senhor - ela disse, inclinando-se outra vez. - Um belo dia, no ?
        - Um p-pouco revigorante - disse, lanando-me um olhar. Encolhi os ombros, desarvorada.
        - Estamos felizes por v-lo de volta  sua casa, senhor, e esperamos, os meninos e eu mesma, que logo volte definitivamente.
        - Eu tambm, sra. MacNab - Jamie disse educadamente. Fez um sinal com a cabea para mim, olhando-me de modo incisivo. Sorri brandamente.
        A senhora, ignorando esse jogo paralelo, dobrou as mos nodosas no colo e tentou empertigar-se com dignidade.
        - Tenho um pequeno favor a pedir a Vossa Senhoria - comeou - a respeito...
        - Vov MacNab - Jamie interrompeu, avanando mais um passo ameaador na gua -, o que quer que seja, eu farei. Desde que me devolva minha camisa antes que 
minhas partes caiam congeladas de frio.
        


29 - MAIS HONESTIDADE
        
         noite, depois de terminada a ceia, geralmente nos sentvamos na sala de estar com Jenny e Ian, conversando amigavelmente sobre assuntos diversos ou ouvindo 
as histrias de Jenny.
        Esta noite, entretanto, foi minha vez. Eu deixei Jenny e Ian arrebatados ao contar-lhes sobre a sra. MacNab e os soldados ingleses.
        - "Deus sabe muito bem que os garotos foram feitos para apanhar ou no os teria criado com tanta parte do diabo." - Minha imitao da Vov MacNab fez todos 
desatarem em gargalhadas.
        Jenny limpou as lgrimas de tanto rir.
        - Meu Deus,  bem verdade. E ela sabe melhor do que ningum. Quantos garotos ela teve, Ian, oito?
        Ian balanou a cabea.
        - Sim, no mnimo. No consigo nem me lembrar do nome de todos eles; parecia sempre haver um ou dois MacNab por perto para irmos caar, pescar ou nadar, quando 
Jamie e eu ramos crianas.
        - Vocs cresceram juntos? - perguntei. Jamie e Ian trocaram longos olhares cmplices.
        - Ah, sim, ns nos conhecemos - Jamie disse, rindo. - O pai de Ian era o administrador de Lallybroch, como Ian  agora. Em diversas ocasies durante a minha 
imprudente juventude, eu me vi lado a lado com o sr. Murray a, explicando para um ou outro de nossos respectivos pais como as aparncias podem ser enganadoras ou, 
quando isso fracassava, como as circunstncias alteram um caso.
        - E quando isso no funcionava - Ian disse -, eu me vi em um nmero igual de ocasies debruado sobre a cerca juntamente com o sr. Fraser aqui, ouvindo-o 
esgoelar-se enquanto eu esperava a minha vez.
        - Nunca! - retrucou Jamie, indignado. - Eu nunca gritei.
        - Chame aquilo do que quiser, Jamie - seu amigo respondeu -, mas voc fazia um bocado de barulho.
        - Vocs dois podiam ser ouvidos a quilmetros de distncia - Jenny interps. - E no somente os gritos. Podia-se ouvir Jamie argumentando o tempo todo, at 
chegar  cerca.
        - Sim, voc devia ter sido advogado, Jamie. Mas no sei por que eu sempre deixava que voc argumentasse - disse Ian, sacudindo a cabea. - Voc sempre acabava 
nos metendo em mais confuso do que j estvamos.
        Jamie comeou a rir de novo.
        - Est falando da torre?
        - Estou. - Ian voltou-se para mim, fazendo um sinal para oeste, onde a antiga torre de pedra erguia-se da colina atrs da casa.
        - Essa foi uma das melhores argumentaes de Jamie - continuou, revirando os olhos. - Ele disse a Brian que no era civilizado usar a fora fsica para fazer 
um ponto de vista prevalecer. O castigo fsico era brbaro, ele disse, e antiquado ainda por cima. Surrar algum s porque havia cometido um ato com cujas ramificaes, 
foi assim mesmo, com cujas ramificaes voc no concorda, no era em absoluto uma forma construtiva de punio....
        A essa altura, todos havamos desatado a rir.
        - E Brian ouviu tudo isso? - perguntei.
        - Ah, sim. - Ian balanou a cabea. - Eu s fiquei l, em p ao lado de Jamie, balanando a cabea toda vez que ele parava para respirar. Quando finalmente 
as palavras de Jamie se esgotaram, seu pai tossiu um pouco e disse: "Compreendo." Em seguida, virou-se e ficou olhando pela janela por alguns instantes, agitando 
a correia de couro e balanando a cabea, como se estivesse pensando. Ns ficamos ali de p, lado a lado, como Jamie disse, suando. Finalmente, Brian virou-se e 
nos disse para segui-lo at a estrebaria.
        - Deu uma vassoura, uma escova e um balde a cada um e apontou em direo  torre - Jamie disse, continuando a histria. - Disse que eu o havia convencido 
do meu ponto de vista e que, portanto, ele havia se decidido por uma forma de castigo mais "construtivo".
        Os olhos de Ian reviraram-se lentamente para cima, como se seguisse as pedras speras da torre de baixo para cima.
        - Aquela torre tem vinte metros de altura - disse-me - e dez metros de dimetro, com trs andares. - Soltou um suspiro. - Ns varremos tudo, de cima para 
baixo, e esfregamos tudo. Levamos cinco dias e at hoje, toda vez que tusso, posso sentir o gosto de palha de aveia estragada.
        - E voc tentou me matar no terceiro dia -Jamie disse - por ter metido a gente naquilo. - Tocou a cabea com cuidado. - Fiquei com um corte enorme acima 
da orelha, onde voc me atingiu com a vassoura.
        - Ah, bem - Ian disse despreocupadamente -, isso foi depois de voc ter quebrado meu nariz pela segunda vez, de modo que ficamos quites.
        - Voc pode confiar num Murray para manter um registro - Jamie disse, sacudindo a cabea.
        - Vejamos - eu disse, contando nos dedos. - Segundo voc, os Fraser so teimosos, os Campbell so sorrateiros, os MacKenzie so charmosos, porm dissimulados, 
e os Graham so burros. Qual a principal caracterstica dos Murray?
        - Voc pode contar com eles numa briga - Jamie e Ian responderam juntos e depois riram.
        -  verdade - disse Jamie, recobrando-se. - Voc s torce para que eles estejam do seu lado. - E os dois homens prorromperam em acessos de riso outra vez.
        Jenny sacudiu a cabea para o irmo e o marido com ar de desaprovao.
        - E ns ainda nem tomamos nenhum vinho - disse. Deixou sua costura de lado e levantou-se com esforo. - Venha comigo, Claire; vamos ver se a sra. Crook fez 
biscoitos para acompanhar o porto.
        Voltando pelo corredor quinze minutos depois com bandejas de comes-e-bebes, ouvi Ian dizer:
        - Ento voc no se importa, Jamie?
        - Me importo com qu?
        - Que tenhamos nos casado sem o seu consentimento, eu e Jenny, quero dizer.
        Jenny, andando  minha frente, parou de repente junto  porta que dava na sala de estar.
        Ouviu-se um leve resfolegar do sof de dois lugares onde Jamie se espalhara, os ps em cima de uma almofada daquelas usadas para se ajoelhar em igreja.
        - Como eu no lhe disse onde estava e voc no tinha nenhuma idia de quando eu voltaria, se  que voltaria, no posso culp-lo por no esperar.
        Eu podia ver Ian de perfil, inclinado sobre o cesto de lenha. Seu rosto longo e amvel tinha um ar ligeiramente preocupado.
        -Bem, no achava direito, especialmente sendo eu aleijado... Ouviu-se um resfolegar mais alto.
        - Jenny no poderia ter um marido melhor, mesmo que voc tivesse perdido as duas pernas e os braos tambm - Jamie disse bruscamente. A pele clara de Ian 
ruborizou-se levemente, constrangido. Jamie tossiu e tirou as pernas da almofada, inclinando-se para pegar uns gravetos que haviam cado do cesto.
        - Como voc veio a se casar, ento, considerando-se seus escrpulos? ---- perguntou, um dos cantos da boca curvando-se para cima.
        - Tenha piedade, homem - Ian protestou. - Acha que eu tive alguma escolha na questo? Contra uma Fraser? - Sacudiu a cabea, rindo para seu amigo.
        -- Ela veio at mim no campo uma vez, quando eu tentava consertar uma carroa que perdera a roda. Arrastei-me de baixo da carroa, todo coberto de sujeira, 
e a vi parada ali, parecendo um arbusto coberto de borboletas. Olhou-me de cima a baixo e disse... - Parou e coou a cabea. -Bem, no sei exatamente o que ela disse, 
mas acabou com ela me beijando, sem se preocupar com o fato de eu estar imundo, e dizendo: "Muito bem, ento, nos casaremos no Dia de So Martinho." - Abriu as mos 
num gesto cmico de resignao. - Eu ainda estava explicando por que no podamos fazer tal coisa, quando me vi diante do padre, dizendo: "Eu a aceito, Janet..." 
e fazendo um monte de juramentos inverossmeis. Jamie balanou-se para a frente e para trs, rindo.
        - Sim, sei como  - ele disse. - Faz com que voc sinta um frio na barriga, no ?
        Ian sorriu, todo o acanhamento esquecido.
        - Isso e tudo o mais. Eu ainda sinto essa sensao, sabe, quando vejo Jenny de repente, parada contra o sol na colina, ou segurando o pequeno Jamie, sem 
olhar para mim. Eu a vejo e penso: "Meu Deus, no  possvel que ela seja minha, no pode ser verdade." - Sacudiu a cabea, os cabelos castanhos cados na testa. 
- E ento, ela se vira e sorri para mim... - Ergueu os olhos para seu cunhado, um amplo sorriso no rosto.
        - Bem, voc sabe do que estou falando. Posso ver que  a mesma coisa com voc e sua Claire. Ela ... muito especial, no?
        Jamie balanou a cabea, concordando. O sorriso no deixou seu rosto, mas alterou-se de certo modo.
        - Sim - disse suavemente. - Sim, .
        Enquanto comamos e bebamos, Jamie e Ian continuaram com as reminiscncias de sua infncia compartilhada e de seus pais. O pai de Ian, William, morrera 
logo depois da primavera, deixando Ian para administrar a propriedade sozinho.
        - Lembra do dia em que seu pai veio nos pegar na fonte e nos fez acompanh-lo at o ferreiro para que vssemos como se conserta a trava da carroa?
        - Sim e ele no conseguia entender por que a gente continuava se remexendo e contorcendo...
        - E ficava perguntando se precisvamos ir ao banheiro...
        Os dois homens riam tanto que no conseguiam terminar de contar a histria, ento olhei para Jenny.
        - Sapos - ela disse, sucintamente. - Cada um deles tinha cinco ou seis sapos dentro da camisa.
        - Ah, meu Deus - Ian exclamou. - Quando um deles subiu pelo seu pescoo e pulou fora de sua camisa para dentro da fornalha, achei que eu ia morrer.
        - No posso imaginar por que meu pai no torceu meu pescoo em diversas ocasies - Jamie disse, sacudindo a cabea. -  um milagre eu ter sobrevivido.
        Ian olhou com um olhar pensativo para seu prprio filho, perto da lareira, laboriosamente empenhado em empilhar blocos de madeira. - No fao a menor idia 
de como vou lidar com isso, quando chegar a hora de eu ter que surrar meu prprio filho. Quero dizer... ele , bem, to pequeno. - Fez um gesto desalentado na direo 
da pequena e robusta figura, absorta em sua tarefa.
        Jamie examinou seu homnimo comicamente.
        - Sim, com o tempo ele ser to traquinas quanto eu e voc fomos. Afinal, at eu devo ter parecido pequeno e inocente um dia.
        - Parecia, sim - disse Jenny inesperadamente, vindo colocar uma caneca de cidra na mo de seu marido. Deu uns tapinhas na cabea de seu irmo.
        - Voc era adorvel quando era um beb, Jamie. Lembro-me de ficar olhando-o no seu bero. No devia ter mais do que dois anos, dormindo com o dedo na boca 
e ns concordvamos que jamais tnhamos visto um garoto to bonito. Voc tinha bochechas rechonchudas e lindos cachos ruivos.
        O belo garoto adquiriu um interessante tom rosado e tomou sua cidra de um gole s, evitando os olhares.
        - Mas no durou muito - Jenny disse, os dentes brancos reluzindo num sorriso malicioso para seu irmo. - Que idade voc tinha quando levou sua primeira surra, 
Jamie? Sete?
        - No, oito - Jamie disse, empurrando mais um toco de lenha na pilha fumegante de brasas. - Meu Deus, como doeu. Doze golpes no traseiro e ele no afrouxou 
nem um pouco, do comeo ao fim. Ele nunca afrouxava. - Sentou-se sobre os calcanhares, esfregando o nariz com os ns dos dedos. Suas faces estavam afogueadas e seus 
olhos brilhavam com o esforo.
        - Quando terminou, papai saiu um pouco e sentou-se numa pedra enquanto eu me recobrava. Ento, quando parei de berrar e passei a choramingar baixinho, ele 
me chamou. Pensando nisso agora, lembro-me exatamente de suas palavras. Talvez possa us-las com o pequeno Jamie, Ian, quando chegar a hora. - Jamie cerrou os olhos, 
relembrando.
        - Ele me colocou entre seus joelhos, me fez olhar para ele e disse: Essa  a primeira vez, Jamie. Terei de fazer isso de novo, talvez cem vezes, at voc 
se tornar um homem. Riu um pouco e continuou: "Meu pai fez isso comigo pelo menos tantas vezes e voc  to teimoso e cabea-dura quanto eu era."
        - Ele disse: "s vezes, vou ousar dizer que tive prazer em bater em voc, dependendo do que fez para merecer. Na maioria das vezes, no vou gostar. Mas eu 
o farei mesmo assim. Ento, lembre-se, rapaz. Se sua cabea inventar travessuras, seu traseiro vai pagar por isso." Em seguida, me deu um abrao e disse: "Voc  
um menino corajoso, Jamie. V para casa agora e deixe sua me confort-lo." Abri a boca para dizer alguma coisa e ele disse, com a mesma rapidez: "No, sei que voc 
no precisa, mas ela precisa. Vamos, v at ela." Ento, voltei para casa e mame me deu po com gelia por causa disso.
        Jenny desatou a rir de repente.
        - Eu s me lembro - ela disse - que papai costumava contar essa histria a seu respeito, Jamie, sobre a surra que lhe deu e o que voc disse para ele. Disse 
que, depois que o mandou de volta para casa, voc andou at a metade do caminho, depois parou de repente e ficou esperando por ele.
        - Quando ele foi ao seu encontro, voc ergueu os olhos para ele e disse: "Eu s queria perguntar, papai. Voc gostou desta vez?" E quando ele respondeu que 
no, voc balanou a cabea e disse: "timo. Porque eu tambm no gostei muito."
        Todos rimos juntos, depois Jenny ergueu os olhos para seu irmo, sacudindo a cabea:
        - Ele adorava contar essa histria. Papai sempre disse que voc ia acabar matando-o, Jamie.
        A alegria desapareceu do rosto de Jamie e ele abaixou os olhos para as grandes mos pousadas sobre os joelhos.
        - Sim - disse em voz baixa. - E acabei mesmo, no?
        Jenny e Ian trocaram olhares de espanto e eu abaixei os olhos para o meu prprio colo, sem saber o que dizer. Fez-se um silncio total por um instante, a 
no ser pelos estalidos do fogo. Ento, Jenny, com um rpido olhar para Ian, colocou seu copo de lado e tocou o joelho de seu irmo.
        - Jamie - ela disse. - No foi culpa sua.
        Ele ergueu o rosto para ela e sorriu, um pouco desoladamente.
        - No? De quem foi, ento? Ela respirou fundo e respondeu:
        - Minha.
        - O qu? - Fitou-a, atnito, sem conseguir compreender.
        Ela ficara um pouco mais plida do que o normal, mas permaneceu controlada.
        - Eu disse que a culpa foi minha, tanto quanto de qualquer outra pessoa. Pelo... pelo que aconteceu a voc, Jamie. E ao papai.
        Ele cobriu a mo de Jenny com a sua e afagou-a delicadamente.
        - No fale bobagem, menina - disse. - Voc fez o que fez para tentar me salvar; voc tem razo, se no tivesse ido com Randall, ele teria me matado aqui 
mesmo.
        Ela examinou o rosto de seu irmo, as sobrancelhas franzidas numa ruga de preocupao.
        - No, no me arrependo de ter levado Randall para dentro de casa, nem mesmo se ele... bem, no. Mas no foi isso. - Respirou fundo outra vez, procurando 
ser forte.
        - Quando eu o levei para dentro, trouxe-o para o meu quarto. E... eu no sabia bem o que esperar, eu nunca... estivera com um homem. Mas ele parecia muito 
nervoso, todo afogueado e como se ele prprio no estivesse muito seguro, o que me pareceu estranho. Ele me empurrou para a cama e depois ficou l em p, esfregando-se. 
No comeo, pensei que eu o havia realmente machucado com meu joelho, embora na verdade no o tenha atingido com tanta fora assim. - A cor subia ao seu rosto e ela 
lanou um olhar de esguelha a Ian antes de voltar a olhar apressadamente para o colo.
        - Agora eu sei que ele estava tentando... ficar excitado. Eu no queria deix-lo pensar que eu estava com medo, de modo que me sentei ereta na cama e olhei 
para ele fixamente. Isso pareceu enfurec-lo e ordenou-me que virasse de costas. Mas eu me recusei e continuei a olh-lo.
        Seu rosto estava da cor de uma das rosas na soleira da porta.
        - Ele... desabotoou a cala e eu... bem, eu ri dele.
        - Voc fez o qu? - Jamie exclamou, incrdulo.
        - Eu ri. Quero dizer... - Seus olhos encontraram os do irmo com certo desacato. - Sabia bastante bem como um homem . J o vira nu vrias vezes e Willy 
e Ian tambm. Mas ele... - Um sorrisinho apareceu em seus lbios, apesar de seus evidentes esforos para reprimi-lo. - Ele parecia to engraado, com o rosto vermelho 
e esfregando-se to freneticamente e ainda assim s...
        Ouviu-se um som estrangulado partindo de Ian e ela mordeu o lbio, mas continuou corajosamente.
        - Ele no gostou quando eu ri, e eu pude notar, de modo que ri ainda mais. Foi quando ele se atirou em cima de mim e rasgou meu vestido. Dei-lhe uma bofetada 
e ele me deu um soco no queixo, suficientemente forte para me fazer ver estrelas. Em seguida, gemeu um pouco, como se isso lhe desse prazer, e comeou a subir na 
cama ao meu lado. Estava quase desmaiada, mas ri outra vez. Com dificuldade, fiquei em p e eu... eu o ridicularizei e insultei. Disse que sabia que ele no era 
homem de verdade e no conseguia lidar com uma mulher. Eu...
        Inclinou a cabea ainda mais para a frente, de modo que os cachos escuros ocultassem suas faces ardentes. Falava em voz muito baixa, quase um sussurro.
        - Eu... abri os pedaos da minha roupa e eu... escarneci dele com meus seios. Disse-lhe que sabia que ele tinha medo de mim, porque no podia tocar em uma 
mulher, mas apenas divertir-se com animais e rapazinhos...
        - Jenny - Jamie disse, sacudindo a cabea, abismado. Ela ergueu a cabea para olhar para ele.
        - Bem, foi o que fiz - ela disse. - Foi tudo em que consegui pensar e pude ver que ele ficou fora de si, mas tambm era claro que ele... no podia. Olhei 
direto para suas calas e ri de novo. Ento, ele me agarrou pela garganta, me estrangulando, e eu bati com a cabea na coluna do dossel da cama e... e quando acordei, 
ele havia ido embora, e voc com ele.
        Seus lindos olhos azuis estavam rasos d'gua quando segurou as mos de Jamie.
        - Jamie, voc pode me perdoar? Sei que se eu no o tivesse enfurecido daquele jeito ele no o teria tratado como tratou, e depois papai...
        - Ah, Jenny, querida, mo cridh, no. - Ele estava de joelhos ao seu lado, puxando sua cabea contra o ombro. Ian, do outro lado, parecia ter sido transformado 
numa esttua de pedra.
        Jamie balanava-a suavemente enquanto ela soluava.
        - No chore, pombinha. Voc agiu certo, Jenny. No foi culpa sua e talvez nem minha tampouco. - Afagou suas costas.
        - Oua, mo cridh. Ele veio aqui para nos fazer mal, seguindo ordens. E no teria feito a menor diferena quem ele tivesse encontrado aqui ou o que voc ou 
eu pudssemos ter feito. Ele pretendia causar problemas, sublevar o campo contra os ingleses, para seus prprios fins e do homem que o contratou.
        Jenny parou de chorar e empertigou-se.
        - Sublevar o povo contra os ingleses? Por qu? Jamie fez um gesto, impaciente com a mo.
        - Para descobrir quem apoiaria o prncipe Carlos, se houvesse uma nova rebelio. Mas eu ainda no sei de que lado o patro de Randall est, se ele quer saber 
quem so os seguidores do prncipe para poder vigi-los, e talvez confiscar suas propriedades, ou se ele - o patro de Randall - pretende seguir o prncipe e quer 
que as Highlands se revoltem e estejam preparadas para a guerra quando chegar a hora. Eu no sei e agora no importa mais. - Tocou carinhosamente os cabelos de sua 
irm, tirando-os da testa e alisando-os para trs.
        - Tudo que importa  que voc no foi ferida e eu estou em casa. Logo estarei de volta definitivamente, mo cridh. Eu prometo.
        Ela levou a mo dele aos lbios e beijou-a, o rosto afogueado. Tateou no bolso em busca de um leno e assoou o nariz. Em seguida, olhou para Ian, ainda petrificado 
ao seu lado, uma expresso magoada e enraivecida no olhar.
        Ela tocou-o suavemente no ombro.
        - Voc acha que eu deveria ter lhe contado. Ele no se mexeu, mas continuou olhando-a.
        - Sim - disse, a voz baixa. - Acho.
        Ela colocou o leno no colo e tomou as mos de Lan nas suas.
        - Ian, querido, no lhe contei porque no queria perder voc tambm. Meu irmo fora embora e meu pai tambm. No queria perder o sangue do meu prprio corao 
tambm. Porque voc  mais precioso para mim at mesmo do que lar e famlia, meu amor. - Lanou um sorriso de vis para Jamie. - E isso no  pouco.
        Olhou Ian nos olhos, suplicando, e eu pude ver amor e orgulho ferido lutando em seu rosto. Jamie levantou-se e tocou meu ombro. Samos do aposento silenciosamente, 
deixando-os juntos diante do fogo quase apagado.
        Era uma noite clara e o luar inundava o quarto, infiltrando-se pelos altos postigos das janelas. Eu no conseguia dormir e achei que talvez fosse a luz que 
tambm mantinha Jamie acordado; ele ficou deitado, imvel e muito quieto, mas eu sabia pela sua respirao que ele no estava dormindo. Virou-se de costas e eu o 
ouvi dar uma risadinha contida e abafada.
        - O que est achando engraado? - perguntei, serenamente. Virou a cabea para mim.
        - Ah, acordei-a, Sassenach? Desculpe. S estava me lembrando de umas coisas.
        - Eu no estava dormindo. - Aproximei-me dele com um movimento rpido. A cama obviamente fora feita para a poca em que toda a famlia dormia junta em um 
mesmo colcho; o gigantesco colcho de penas deve ter consumido toda a produo de centenas de gansos e deixar-se flutuar sem rumo era como cruzar os Alpes sem uma 
bssola. - Do que estava se lembrando? - perguntei, depois que cheguei ao seu lado a salvo.
        - Ah, de meu pai, de um modo geral. Das coisas que ele dizia. Dobrou os braos embaixo da cabea, fitando pensativamente as vigas grossas que cruzavam o 
teto baixo.
        -  estranho - disse -, quando ele estava vivo, eu no prestava muita ateno nele. Mas depois que ele morreu, o que ele me disse passou a ter muito mais 
influncia. - Deu outra risadinha. - Eu estava pensando na ltima vez em que ele me deu uma surra.
        - Foi engraado, ? - observei. - Algum j lhe disse que voc tem um senso de humor muito estranho, Jamie? - Tateei em meio s cobertas  procura de sua 
mo, em seguida desisti e afastei-as. Ele comeou a acariciar minhas costas e eu me aninhei junto a ele, emitindo pequenos sons de prazer.
        - O seu tio no batia em voc quando voc fazia por merecer? - perguntou com curiosidade. Reprimi uma risada diante do pensamento.
        - Meu Deus, no! Teria ficado horrorizado com a idia. Tio Lamb no acreditava em bater em crianas. Ele achava que era preciso conversar com elas e faz-las 
entender, como adultos. - Jamie emitiu um rudo escocs na garganta, indicando desdm pela ridcula idia.
        - Isso explica suas falhas de carter, sem dvida - ele disse, dando uns tapinhas no meu traseiro. - Disciplina insuficiente na juventude.
        - Que falhas de carter? - quis saber. O luar estava bastante claro para que eu pudesse ver seu sorriso.
        - Quer que eu liste todas?
        - No. - Enfiei o cotovelo em suas costelas. - Conte-me sobre seu pai. Que idade voc tinha? - perguntei.
        - Ah, treze, quatorze, talvez. Magro e alto, com espinhas. No me lembro por que estava apanhando; nessa poca,  mais provvel que tenha sido algo que eu 
disse do que algo que tenha feito. Tudo que me lembro  que ns dois estvamos furiosos. Essa foi uma das vezes em que ele teve prazer em me bater. - Puxou-me para 
ele e aninhou-me em seu ombro, o brao ao meu redor. Afaguei sua barriga bem delineada, brincando com seu umbigo.
        - Pare com isso, faz ccegas. Quer ouvir ou no?
        - Ah, quero ouvir. O que faremos se um dia tivermos filhos: argumentar com eles ou dar-lhes uma surra? - Meu corao acelerou um pouco diante da idia, embora 
no houvesse nenhum indcio de que isso pudesse ser mais do que uma pergunta de retrica. Sua mo prendeu a minha, mantendo-a quieta sobre sua barriga.
        -  simples. Voc argumenta com eles e, quando acabar, eu os levo para fora e lhes dou uma surra.
        - Pensei que voc gostasse de crianas.
        - Eu gosto. Meu pai gostava de mim, quando eu no estava agindo como um idiota. E ele me amava tambm, o bastante para me desancar quando eu estava sendo 
idiota.
        Virei-me de bruos.
        - Est bem, ento. Conte-me.
        Jamie sentou-se e ajeitou os travesseiros mais confortavelmente, antes de recostar-se, os braos atrs da nuca outra vez.
        - Bem, ele me mandou para a cerca, como de costume. Ele sempre me fazia ir  frente, para que eu pudesse sentir a mistura adequada de terror e remorso, enquanto 
esperava por ele, segundo me disse. Mas ele estava to furioso, que veio logo atrs de mim. Eu estava debruado na cerca, sendo surrado, cerrando os dentes e resolvido 
a no emitir nenhum som. No ia lhe dar o prazer de saber o quanto estava doendo. Meus dedos estavam cravados na madeira, o suficiente para arrancar-lhe lascas, 
e eu podia sentir meu rosto ficando vermelho por estar prendendo a respirao. - Inspirou fundo, como se quisesse compensar aquela falta de ar, e expirou lentamente.
        - Em geral, eu podia saber quando estava para terminar, mas desta vez ele no parou. Tudo que eu podia fazer era manter a boca fechada; eu rosnava a cada 
golpe e podia sentir as lgrimas aflorando, por mais que eu piscasse, mas me mantive firme, como se fosse uma questo de vida ou morte. - Jamie estava despido at 
a cintura, quase brilhando  luz da lua, coberto de uma penugem prateada, como uma geada. Podia ver sua pulsao cardaca logo abaixo do esterno, batimentos firmes 
e regulares embaixo da minha mo.
        - No sei por quanto tempo isso continuou. Provavelmente, no muito tempo, mas me parecia uma eternidade. Finalmente, ele parou por um instante e gritou 
para mim. Estava possesso de raiva e eu mesmo estava to furioso que a princpio mal consegui entender o que ele dissera. Mas depois, entendi.
        - Ele berrou: "Droga, Jamie! No consegue gritar? Voc j  crescido e eu pretendia nunca mais bater em voc outra vez, mas quero ouvir um bom grito de voc, 
rapaz, antes de parar de uma vez por todas, para que eu pense que finalmente consegui causar alguma impresso em voc!" - Jamie riu, perturbando o batimento ritmado 
de sua pulsao cardaca.
        - Fiquei to transtornado com aquilo, que me empertiguei, girei nos calcanhares e gritei-lhe: "Bem, por que no disse isso antes, seu velho idiota? AAAAIIIII"
        - Quando dei por mim, estava no cho, com os ouvidos zumbindo e uma dor no maxilar, onde ele me dera um soco. Ele estava acima de mim, ofegante, e com a 
barba e os cabelos todos arrepiados. Estendeu o brao, agarrou minha mo e me levantou.
        - Em seguida, deu uns tapinhas no meu queixo e disse, ainda respirando com esforo: "Isso foi por ter chamado seu pai de idiota. Pode ser verdade, mas  
falta de respeito. Vamos, vamos tomar banho para jantar." E ele nunca mais me bateu. Ainda gritava comigo, mas eu gritava de volta e era de homem para homem, depois 
disso.
        Riu, relaxado, e eu sorri no calor de seu ombro.
        - Gostaria de ter conhecido seu pai - eu disse. - Ou talvez tenha sido melhor assim - eu disse, ocorrendo-me um pensamento. - Ele poderia no ter gostado 
de voc se casar com uma inglesa.
        Jamie abraou-me com mais fora e puxou as cobertas sobre meus ombros nus.
        - Ele iria achar que eu finalmente adquiri algum juzo. - Afagou meus cabelos. - Ele teria respeitado minha escolha, quem quer que fosse, mas voc - virou-se 
e beijou minha testa meigamente -, ele teria gostado muito de voc, minha Sassenach. - E eu entendi o grande elogio que aquelas palavras significavam.
        


30 - CONVERSAS JUNTO  LAREIRA
        
        Qualquer desavena que as revelaes de Jenny pudessem ter causado entre ela e Ian, pareciam estar superadas. Na noite seguinte, sentamo-nos por pouco tempo 
na sala de estar depois do jantar, Ian e Jamie conversando sobre os negcios da fazenda em um canto, acompanhados de uma jarra de vinho do fruto do sabugueiro, enquanto 
Jenny finalmente relaxava, com seus tornozelos inchados apoiados em uma almofada. Eu tentava anotar algumas das receitas que ela havia me lanado por cima do ombro 
enquanto corramos de um lado para o outro em nossas tarefas dirias, consultando-a pelos detalhes conforme escrevia.
        PARA TRATAR FURNCULOS, anotei no cabealho de uma folha.
        Trs pregos, de molho por uma semana em cerveja azeda. Acrescentar um punhado de aparas de madeira de cedro, deixar descansar. Quando as aparas tiverem afundado, 
a mistura estar pronta. Aplicar trs vezes ao dia, comeando no primeiro dia de lua minguante.
        VELAS DE CERA DE ABELHA, em outra folha.
        Retire o mel do favo. Remova as abelhas mortas o mximo possvel. Derreta o favo numa pequena quantidade de gua em um caldeiro grande. Com uma escumadeira, 
remova abelhas, asas e outras impurezas da superfcie da gua. Escorra e substitua a gua. Mexa sem parar por meia hora, depois deixe descansar. Escorra a gua, 
use-a para adoar. Purifique com gua mais duas vezes.
        Minha mo estava ficando cansada e ainda nem chegara  fabricao de moldes de velas, enrolamento de pavios e secagem das velas.
        - Jenny - chamei -, quanto tempo leva para fazer velas, contando-se todas as etapas?
        Ela colocou no colo a camisa de pago que estava costurando, refletindo.
        - Meio dia para reunir os favos, dois para drenar o mel do favo - um, se estiver quente -, um dia para purificar a cera, a no ser que a quantidade seja 
muito grande ou esteja muito suja - nesse caso, dois. Meio dia para fazer os pavios, um ou dois para fazer os moldes, meio dia para derreter a cera, encher os moldes 
e pendur-los para secar. Ao todo, uma semana, mais ou menos.
        A luz turva do lampio e a pena de escrever borrando toda a tinta foram demais para eu suportar depois de um dia de trabalho. Sentei-me ao lado de Jenny 
e admirei a pequena vestimenta que ela bordava com pontos quase invisveis.
        Seu ventre redondo de repente elevou-se, quando o habitante mudou de posio. Observei, fascinada. Nunca estivera to prxima de uma mulher grvida por um 
perodo de tempo prolongado e no havia percebido a intensa atividade que acontecia internamente.
        - Gostaria de sentir o nenm? - Jenny ofereceu, ao me ver olhando fixamente para sua barriga.
        - Bem... - Ela pegou minha mo e colocou-a com firmeza sobre a elevao.
        - Bem aqui. Espere um instante; logo ele vai chutar de novo. Eles no gostam quando ficamos recostadas assim, sabe. Isso os deixa agitados e eles comeam 
a se contorcer.
        Logo um empurro surpreendentemente vigoroso levantou minha mo vrios centmetros.
        - Minha Nossa Senhora! Como ele  forte! - exclamei.
        - Sim. - Jenny deu uns tapinhas no estmago com uma ponta de orgulho. - Vai ser lindo, como seu pai e seu irmo. - Sorriu na direo de Ian, cuja ateno 
por um instante desviou-se dos registros da criao de cavalos para sua mulher e seu futuro filho.
        - Ou at mesmo como o imprestvel cabea-vermelha do seu tio - acrescentou, erguendo ligeiramente a voz e cutucando-me.
        - Hein? - Jamie ergueu os olhos, distraindo-se da contabilidade. -Esto falando de mim?
        - Ser que foi o "cabea-vermelha" ou o "imprestvel" que chamou a ateno dele? -Jenny me disse,  meia-voz, com outra cutucada.
        Para Jamie, disse docemente:
        - No  nada, mo cridh. S estvamos especulando sobre a possibilidade de que o nenm tivesse a infelicidade de se parecer com o tio.
        O tio em questo riu e atravessou a sala, sentando-se na almofada. Jenny amavelmente afastou os ps e em seguida recolocou-os no colo de Jamie.
        - Esfregue-os para mim, Jamie - suplicou. - Voc faz isso melhor do que Ian.
        Ele obedeceu e Jenny recostou-se, fechando os olhos de felicidade. Largou a minscula veste sobre o ventre volumoso, que continuava a elevar-se, como em 
protesto. Jamie parecia fascinado pelos movimentos, exatamente como eu.
        - No  desconfortvel? - perguntou. - Ter algum dando cambalhotas em sua barriga?
        Jenny abriu os olhos e riu, enquanto uma grande protuberncia movia-se pelo seu ventre.
        - Humm. s vezes, acho que meu fgado est preto e azulado de tanto chute. Mas, de um modo geral,  uma boa sensao.  como... - Hesitou depois riu para 
o irmo. -  difcil descrever para um homem, j que no tm as partes adequadas. No acho que possa lhe descrever a sensao de carregar uma criana, do mesmo modo 
como voc no poderia me dizer como  ser chutado no saco.
        - Ah, isso eu posso lhe dizer. - Instantaneamente, ele dobrou-se, encolhendo-se e revirando os olhos para trs com um terrvel gemido gutural.
        - No  assim, Ian? - perguntou, virando a cabea na direo do banco onde Ian estava sentado, rindo, a perna de pau estendida.
        Sua irm colocou um p delicado em seu peito e obrigou-o a endireitar-se.
        - Est bem, palhao. Sendo assim, ainda bem que no tenho bolas. Jamie endireitou-se e afastou os cabelos dos olhos.
        - No, falando srio - ele disse, interessado -,  s uma questo de as partes no serem iguais? Voc pode descrever a sensao para Claire? Afinal, ela 
 mulher, embora ainda no tenha tido filhos.
        Jenny olhou para a regio da minha cintura de forma avaliadora e senti aquela pontada outra vez.
        - Humm, talvez. - Falou devagar, refletindo. - Voc tem a sensao de que sua pele  muito fina em todo o corpo. Sente tudo que toca em voc, at o roar 
de suas roupas, e no apenas na barriga, mas nas pernas, nas cadeiras e nos seios. - Suas mos dirigiram-se para eles, inconscientemente, percorrendo o tecido delicado 
de linho sobre os dois montes inchados. - Voc os sente pesados e cheios... e muito sensveis nos mamilos. - Os dedos pequenos e arredondados circundaram lentamente 
os seios e percebi os mamilos enrijecerem-se sob o tecido.
        - E,  claro, voc fica enorme e desengonada -Jenny sorriu melancolicamente, esfregando o lugar no quadril onde batera na quina da mesa antes. - Ocupa mais 
espao do que est acostumada.
        - Aqui, entretanto - suas mos ergueram-se protetoramente para a parte de cima do estmago -,  onde voc  mais sensvel,  claro. -Acariciou o volume arredondado 
como se fosse a pele do beb, ao invs de sua prpria pele. Os olhos de Ian seguiram suas mos conforme se moviam de cima para baixo na protuberante elevao, incessantemente, 
alisando o tecido sem parar.
        - No comeo, parece-se um pouco a gases intestinais - disse, rindo-Enfiou o dedo do p na cintura do irmo. - Bem aqui, como pequenas bolhas ondulando pela 
barriga. Mais tarde, porm, voc sente a criana se mover, parece um peixe que corre na barriga e logo desaparece. Como um rpido puxo, mas to rpido que voc 
no tem nem certeza se realmente sentiu alguma coisa. - Como se protestasse contra essa descrio, seu companheiro oculto remexeu-se de um lado para o outro, impelindo 
seu ventre para cima de um lado e, depois, do outro.
        - Imagino que a esta altura voc tenha certeza - Jamie observou, seguindo o movimento, fascinado.
        - Ah, sim. - Colocou a mo sobre uma das protuberncias, como se quisesse acalm-la. - Eles dormem vrias horas seguidas. s vezes, voc tem medo de que 
estejam mortos, quando se passa muito tempo sem nenhum movimento. Ento, voc tenta acord-los - sua mo empurrou com fora o lado da barriga e foi imediatamente 
recompensada com um forte impulso na direo oposta - e fica feliz quando chutam outra vez. Mas no  s o beb. Voc se sente toda inchada, quando chega no final. 
No  doloroso...  que parece que voc vai explodir.  como se voc precisasse ser tocada, bem de leve, em todo o corpo. - Jenny j no olhava para mim. Seus olhos 
fitavam os do marido e compreendi que ela j no tinha conscincia da presena de Jamie ou da minha. Havia um ar de intimidade entre ela e Ian, como se essa fosse 
uma histria contada inmeras vezes, mas da qual nunca se cansavam.
        Sua voz transformara-se quase num sussurro e suas mos ergueram-se novamente aos seios, pesados e intumescidos sob o corpete leve.
        - E mais ou menos no ltimo ms, o leite comea a aparecer. Voc se sente encher, um pouco de cada vez, a cada vez que a criana se mexe. E ento, de repente, 
tudo vem para cima com fora. - Agarrou o ventre outra vez. - No h dor nessa hora, apenas uma sensao de falta de ar e depois seus seios pinicam como se fossem 
explodir se no forem sugados. - Fechou os olhos e inclinou-se para trs, afagando a enorme barriga, incessantemente, com um ritmo que mais parecia a invocao de 
um feitio. Veio-me  mente, ao observ-la, que se algo como uma bruxa realmente existisse, ento Janet Fraser seria uma delas.
        O ar enfumaado em toda a sala estava tomado por uma espcie de transe; a sensao que est na origem da luxria, o terrvel e ardente desejo de se unir 
e criar. Eu poderia contar cada plo no corpo de Jamie sem olhar para ele e cada um estava eriado.
        Jenny abriu os olhos, escuros nas sombras, e sorriu para o marido, uma curva lenta e plena de infinitas promessas.
        - E no final da gravidez, quando a criana se mexe muito, s vezes temos a sensao de que seu homem est dentro de voc, quando penetra fundo em voc e 
se derrama dentro do seu ventre. Ento, quando aquela pulsao comea l no fundo do seu corpo juntamente com ele,  assim, mas muito mais intenso; ondula pelas 
paredes do seu tero e a preenche por completo. Ento, a criana fica quieta e  como se fosse ele que voc abrigasse dentro de voc, ao invs do seu filho.
        De repente, ela virou-se para mim e o encanto foi quebrado.
        - s vezes,  isso que eles querem, sabe - disse serenamente, sorrindo para mim. - Eles querem voltar.
        Algum tempo depois, Jenny levantou-se, flutuando em direo  porta com um olhar para trs que fez com que Ian a seguisse como o ferro  atrado pelo plo 
magntico. Ela parou junto  porta para esperar por ele, voltando-se para seu irmo, que estava sentado, quieto, junto  lareira.
        - Voc apaga o fogo depois, Jamie? - Espreguiou-se, arqueando as costas, e a curva de sua espinha imitou a curva estranhamente sinuosa de sua barriga. Ian 
percorreu toda a extenso de suas costas com os ns dos dedos, parando e pressionando-os com fora na base da espinha, fazendo-a gemer. E, ento, retiraram-se.
        Espreguicei-me tambm, os braos para cima, sentindo os msculos cansados estenderem-se. As mos de Jamie percorreram as laterais do meu corpo, parando nos 
meus quadris. Inclinei-me para ele, puxando suas mos para a frente, imaginando-as segurando a curva suave de uma criana no ventre.
        Quando voltei minha cabea para beij-lo, notei a pequena figura enrolada no canto do longo banco de madeira.
        - Olhe. Esqueceram-se do pequeno Jamie. - O menino geralmente dormia em uma cama sobre rodinhas que ficava no quarto de seus pais. Esta noite, adormecera 
junto  lareira enquanto conversvamos tomando vinho, mas ningum se lembrara de carreg-lo para sua cama. Meu prprio Jamie virou-se para olhar para ele, afastando 
meus cabelos do seu nariz.
        - Jenny nunca se esquece de nada - disse. - Imagino que ela e Ian prefiram no ter companhia no momento. - Suas mos dirigiram-se para o lao nas costas 
que prendia minha saia. - Ele pode ficar onde est por enquanto.
        - Mas e se ele acordar?
        As mos errantes subiram por baixo do corpete frouxo. Jamie arqueou uma das sobrancelhas  figura deitada de seu pequeno sobrinho.
        - Tudo bem. Ele vai ter que aprender qual  o seu lugar em algum momento, no? No quer que ele seja to ignorante quanto seu tio era. -Atirou vrias almofadas 
no cho diante do fogo e deitou-se, arrastando-me com ele.
        A luz do fogo brilhava nas cicatrizes prateadas de suas costas, como se ele realmente fosse o homem de ferro que um dia eu o acusara de ser, o mago de metal 
deixando-se entrever pelos rasgos na pele frgil. Percorri cada uma das marcas com os dedos e ele estremeceu sob o meu toque.
        - Voc acha que Jenny tem razo? - perguntei-lhe mais tarde. - Os homens realmente querem voltar para o tero?  por isso que fazem amor com a gente? - Uma 
risada agitou meus cabelos junto  minha orelha.
        - Bem, geralmente no  o que me vem  mente quando levo voc para a cama, Sassenach. Longe disso. Mas, por outro lado... - suas mos seguraram meus seios 
suavemente e seus lbios fecharam-se em um mamilo - tambm no diria que ela est completamente errada. s vezes... sim, s vezes, seria bom estar l dentro outra 
vez, seguro e... uma s pessoa. Sabendo que no  possvel, imagino.Talvez essa seja a razo de querermos gerar outro ser. Se ns mesmos no podemos voltar, o melhor 
que podemos fazer  dar esse dom precioso aos nossos filhos, ao menos por algum tempo... - Estremeceu repentinamente, como um cachorro sacudindo a gua dos plos.
        - No d ouvidos ao que estou dizendo, Sassenach - murmurou. - Eu fico muito sentimental quando tomo vinho de sabugueiro.
        


31 - DIA DE PAGAMENTO
        
        Houve uma ligeira batida na porta e Jenny entrou, carregando um traje azul dobrado sobre um dos braos e um chapu na outra mo. Olhou seu irmo com ar crtico, 
em seguida balanou a cabea.
        - Sim, a camisa est boa. E alarguei seu melhor casaco. Voc cresceu um pouco nos ombros desde que o vi pela ltima vez. - Inclinou a cabea para o lado, 
avaliando. - Fez um belo trabalho com eles... at o pescoo, pelo menos. Sente-se ali e eu cuidarei dos seus cabelos. - Apontou para o banco junto  janela.
        - Meus cabelos? O que h de errado com meus cabelos? - Jamie perguntou, erguendo a mo para verificar. Tendo crescido at a altura dos ombros, ele amarrara-os 
para trs, como de costume, com uma fita de couro para mant-los longe do rosto.
        Sem perder tempo com conversa, sua irm empurrou-o, obrigando-o a sentar no banco. Desatou a tira de couro e comeou a escov-los vigorosamente com as escovas 
de casco de tartaruga.
        - O que h de errado com seus cabelos? - ela perguntou retoricamente. - Bem, vejamos. Para comear, h carrapichos neles. - Arrancou um pequeno objeto marrom 
delicadamente de sua cabea e deixou-o cair em cima da penteadeira. - E pedacinhos de folhas de carvalho. Onde  que voc esteve ontem? Fuando embaixo das rvores 
como um porco? E mais ns do que uma meada de fios de l lavados.
        - Aaai!
        - Fique quieto, roy. - Com a testa franzida de concentrao, ela pegou um pente e desfez os ns, deixando uma cabeleira lisa e brilhante, em tons dourados, 
acobreados, cor de mel e castanhos, todos cintilando  luz do sol da manh que entrava pela janela. Jenny espalhou-os nas mos, sacudindo a cabea.
        - No consigo imaginar por que o bom Deus iria querer desperdiar um cabelo assim num homem - observou. - Em alguns lugares, parece o plo de um cervo.
        -  maravilhoso, no? - concordei. - Olhe, onde o sol o descorou por cima, formaram-se estas lindas listras douradas. - O objeto de nossa admirao olhou 
radiante para ns.
        - Se vocs duas no pararem com isso, vou raspar a cabea. - Estendeu a mo ameaadoramente em direo  penteadeira, onde estava sua navalha.
        Sua irm, gil apesar do enorme volume da gravidez, bateu no pulso dele com a escova. Ele gritou, depois gritou outra vez quando ela puxou seus cabelos para 
trs.
        - Fique quieto - ela ordenou. Comeou a separar seus cabelos em trs mechas grossas. - Vou fazer um penteado apropriado - declarou satisfeita. - No vou 
deixar que receba seus colonos parecendo um selvagem.
        Jamie murmurou algum protesto baixinho, mas submeteu-se aos cuidados de sua irm. Habilmente prendendo um ou outro fio solto pelo meio, tranou os cabelos 
num rabicho espesso e formal, enfiando as pontas para baixo e amarrando-as firmemente com um fio. Em seguida, enfiou a mo no bolso, retirou uma fita de seda azul 
e triunfalmente deu um lao.
        - Pronto! - exclamou. - Bonito, no? Virou-se para mim para confirmar e eu tive que admitir. Os cabelos firmemente presos destacavam o formato de sua cabea 
e as linhas ousadas de seu rosto. Limpo e bem-arrumado, numa camisa de linho branca como neve e calas cinzas, era uma bela figura.
        - Especialmente a fita - eu disse, contendo a vontade de rir. - Da mesma cor dos olhos dele.
        Jamie olhou furioso para sua irm.
        - No - disse sucintamente. - Nada de fitas. No estamos na Frana, muito menos na corte do rei Jorge! No me interessa se  da cor do manto da Virgem Maria! 
Nada de fitas, Janet!
        - Ah, est bem, ento, implicante. Pronto. - Tirou o lao e deu um passo para trs.
        - Sim, est bem - disse, com satisfao. Em seguida, voltou os olhos azuis penetrantes para mim.
        - Hum - disse, tamborilando o p pensativamente.
        Como eu chegara mais ou menos vestida com trapos, foi necessrio mandar fazer dois vestidos para mim o mais rpido possvel; um de tecido rstico para uso 
dirio e um de seda para ocasies importantes como esta. Boa na costura de ferimentos e no de roupas, eu ajudara no corte e nos ajustes, mas fui obrigada a deixar 
os adornos e as costuras para Jenny e a sra. Crook.
        Fizeram um belo trabalho e a seda amarela da cor da prmula ajustou-se no meu corpo como uma luva, com pregas profundas caindo para trs por cima dos ombros 
e transformando-se num farto e pomposo drapeado da saia rodada. Curvando-se relutantemente  minha recusa absoluta em usar espartilhos, haviam astuciosamente reforado 
a parte de cima do corpete com barbatanas impiedosamente arrancadas de um velho espartilho.
        Os olhos de Jenny percorreram-me dos ps  cabea, onde se demoraram. Com um suspiro, apanhou as escovas.
        - Voc, tambm - disse.
        Sentei-me, o rosto vermelho, evitando os olhos de Jamie, enquanto ela cuidadosamente retirava galhinhos e pedacinhos de folhas de carvalho dos meus cachos, 
depositando-os na penteadeira ao lado dos removidos do cabelo de seu irmo. Finalmente, meus cabelos foram penteados e presos para cima. Ela enfiou a mo no bolso 
e retirou um pequeno gorro de renda.
        - Pronto - disse, prendendo-o com firmeza por cima do monte de cachos. - Touca de renda e tudo. Est com um ar muito respeitvel, Claire.
        Presumi que fosse um elogio e murmurei alguma coisa em resposta.
        - Mas voc possui alguma jia? - Jenny perguntou. Sacudi a cabea.
        - No, receio que no. Tudo que eu possua eram as prolas que Jamie me deu em nosso casamento e essas... - Nas circunstncias de nossa partida de Leoch, 
prolas eram a ltima coisa em que pensaria.
        -Ah! -Jamie exclamou, lembrando-se repentinamente. Enfiou a mo na bolsa do seu kilt que estava sobre a penteadeira e triunfalmente puxou o colar de prolas.
        - Onde conseguiu isso? - perguntei, espantada.
        - Murtagh o trouxe hoje de manh - respondeu. - Ele voltou a Leoch durante o julgamento e trouxe tudo que pde carregar, achando que iramos precisar, se 
consegussemos fugir. Procurou por ns na estrada para c, mas ns havamos ido para a... a colina primeiro.
        - Ele ainda est aqui? - perguntei.
        Jamie colocou-se atrs de mim para prender o colar.
        - Ah, est. Est l embaixo comendo tudo que h na cozinha e infer-nizando a sra. Crook.
        Fora suas canes, eu s ouvira o homenzinho magro e musculoso pronunciar menos de trs dzias de palavras durante todo o perodo em que nos conhecemos e 
a idia de estar "infernizando" algum era incompatvel com ele. Ele devia se sentir perfeitamente em casa em Lallybroch, pensei.
        - Quem  Murtagh? - perguntei. - Quero dizer,  parente seu? Jamie e Jenny pareceram surpresos.
        - Ah, sim -Jenny explicou. Virou-se para seu irmo. - Ele ... o que, Jamie? Tio do primo em segundo grau do papai?
        - Sobrinho - ele corrigiu. - No se lembra? O velho Leo tinha dois rapazes e depois...
        Coloquei as mos sobre os ouvidos acintosamente. Isso pareceu fazer Jenny lembrar-se de alguma coisa, porque bateu as palmas das mos.
        - Brincos! - exclamou. - Acho que tenho uns de prolas que iro combinar muito bem com o colar! Vou busc-los. - Desapareceu com a sua rapidez de sempre.
        - Por que sua irm o chama de Roy? - perguntei, curiosa, enquanto ele amarrava seu leno de pescoo diante do espelho. A expresso de seu rosto era a de 
um homem travando uma batalha mortal com um inimigo, a mesma que todos os homens fazem quando esto dando o n na gravata, mas ele descerrou os lbios para sorrir 
para mim.
        - Ah, isso. No  o nome ingls Roy.  um apelido carinhoso em galico; a cor dos meus cabelos. A palavra  "ruadh", que significa "vermelho". - Ele teve 
que soletrar a palavra e repeti-la vrias vezes at eu poder perceber a diferena.
        - Soa do mesmo jeito para mim, roy - eu disse, sacudindo a cabea. Jamie pegou a bolsa e comeou a guardar os objetos que haviam sado quando ele puxou o 
colar de prolas. Encontrando um pedao emaranhado de linha de pescar, ele esvaziou o contedo da bolsa em cima da cama, formando uma pilha. Comeou a separar os 
itens, enrolando laboriosamente os pedaos de linhas e barbantes, encontrando anzis soltos e enfiando-os firmemente outra vez no pedao de cortia onde ficavam 
normalmente. Aproximei-me da cama e inspecionei a coleo.
        - Nunca vi tanta quinquilharia em minha vida - comentei. - Voc  um ladro inveterado, Jamie.
        - No so quinquilharias - ele disse, chateado. - Todas essas coisas tm utilidade para mim.
        - Bem, as linhas de pesca e os anzis, sim. E o barbante para armadilhas. At mesmo, admitindo-se com esforo, a bucha e as balas de pistola, realmente voc 
s vezes carrega uma pistola. E a cobrinha que Willie lhe deu, isso eu compreendo. Mas, e as pedras? E a concha de um caracol? E um pedao de vidro? E... - Inclinei-me 
para examinar de perto uma massa peluda e escura de alguma coisa.
        - O que ... no , ? Jamie, por que, em nome de Deus, voc carrega o p seco de uma toupeira na bolsa?
        - Contra reumatismo,  claro. - Arrancou o objeto de baixo do meu nariz e enfiou-o de volta na bolsa de pele de texugo.
        - Ah, claro - concordei, examinando-o com interesse. Seu rosto estava ligeiramente ruborizado de vergonha. - Deve funcionar; voc no tem nenhuma junta rangendo. 
- Peguei uma pequena Bblia das bugigangas restantes e folheei-a, enquanto ele enfiava de novo na bolsa todo o restante do seu valioso material.
        - Alexander William Roderick MacGregor. - Li em voz alta o nome na folha de rosto. - Voc disse que tinha uma dvida para com ele, Jamie. que quis dizer 
com isso?
        - Ah, isso. - Sentou-se ao meu lado na cama, pegou o pequeno livro da minha mo e delicadamente folheou as pginas.
        - Eu lhe contei que ela pertencia a um prisioneiro que morreu em Fort William, no?
        - Sim.
        - Eu mesmo no o conheci; ele morreu um ms antes da minha chegada. Mas o mdico que a deu para mim falou-me dele, enquanto fazia curativo nas minhas costas. 
Acho que ele precisava falar com algum sobre isso e no podia falar com ningum da guarnio. - Fechou o livro mantendo-o sobre o joelho, e olhou pela janela o 
alegre dia ensolarado de outubro.
        Alex MacGregor, um rapaz de aproximadamente dezoito anos, fora preso pelo crime comum de roubo de gado. Um rapaz bom e sossegado, parecia provvel que cumpriria 
sua pena e seria solto sem incidentes. Entretanto, uma semana antes de ser solto foi encontrado enforcado na estrebaria.
        - No havia dvida de que ele cometera suicdio, segundo o mdico. - Jamie acariciou a capa de couro do pequeno livro, passando o largo polegar sobre a encadernao. 
- E ele no disse exatamente o que ele prprio achava que teria acontecido. Mas disse que o capito Randall tivera uma conversa em particular com o rapaz uma semana 
antes.
        Engoli em seco, sentindo um frio repentino, apesar do dia ensolarado.
        - E voc acha...
        - No. - Sua voz era suave e firme. - Eu no acho. Eu sei, e o mdico tambm. E imagino que o sargento-mor tambm tinha certeza e foi por isso que ele morreu. 
- Espalmou as mos abertas sobre os joelhos, olhando para as longas juntas de seus dedos. Grandes, fortes e competentes; as mos de um fazendeiro, mos de um guerreiro. 
Ele pegou a pequena Bblia e guardou-a na bolsa.
        - Vou lhe dizer uma coisa, mo duinne. Um dia Jack Randall vai morrer pelas minhas mos. E quando estiver morto, enviarei este livro de volta  me de Alex 
MacGregor, com o recado de que seu filho foi vingado.
        O ar de tenso foi quebrado pela volta repentina de Jenny, agora resplandecente em seda azul e com sua prpria touca de renda, segurando uma caixa grande, 
vermelha, de pele de cabra, bastante desgastada.
        -Jamie, os Curran j chegaram, e Willie Murray e os Jeffrie.  melhor descer e fazer outro desjejum com eles. J coloquei na mesa arenque salgado e po fresco 
e a sra. Crook est fazendo bolos de gelia.
        - Ah, sim. Claire, desa quando estiver pronta. - Levantando-se apressadamente, parou o tempo suficiente para me puxar e me dar um beijo rpido, mas firme, 
desaparecendo em seguida. O som de seus passos ecoou ruidosamente pelo primeiro lance de escadas, arrefeceu um pouco no segundo, at adotar um ritmo mais adequado 
 entrada de um proprietrio de terras, quando se aproximou do andar trreo.
        Jenny sorriu na direo em que ele desaparecera, depois voltou sua ateno para mim. Colocando a caixa sobre a cama, lanou a tampa para trs, revelando 
uma desordenada coleo de jias e bijuterias. Fiquei surpresa ao ver isto; no parecia prprio da organizada e metdica Jenny Murray, cuja mo de ferro mantinha 
a engrenagem domstica funcionando sem problemas do amanhecer ao fim do dia.
        Ela remexeu a brilhante e desordenada coleo com um dedo, depois, como se lesse meu pensamento, ergueu os olhos e sorriu.
        - Estou sempre pensando que tenho que organizar tudo isso um dia. Mas quando eu era pequena, minha me deixava eu remexer em sua caixa s vezes, e era como 
achar um tesouro encantado... eu nunca sabia o que ia pegar em seguida. Acho que se estivesse arrumada, o encanto desapareceria, de certo modo. Idiota, no?
        - No - eu disse, sorrindo tambm. - No, no .
        Remexemos lentamente pela caixa, segurando os vrios objetos de estimao de quatro geraes de mulheres.
        - Esse aqui pertenceu  minha av Fraser -Jenny disse, erguendo um broche de prata. Era no formato de uma lua crescente, trabalhado em relevo, um nico e 
pequeno diamante brilhando acima da ponta, como uma estrela.
        - E este... - Retirou um delicado anel de ouro, com um rubi cercado de brilhantes. - Este  meu anel de casamento. Ian gastou meio ano de salrio com ele, 
embora eu lhe tenha dito que era tolice fazer isso. - O terno olhar em seu rosto sugeria que Ian no fora nada tolo. Ela lustrou a pedra no peito do vestido e admirou-a 
mais uma vez antes de recoloc-la na caixa.
        - Estou ansiosa para o beb nascer - disse, dando uns tapinhas no alto de sua barriga com uma careta. - Meus dedos ficam to inchados de manh que mal consigo 
atar minhas fitas, quanto mais usar anis.
        Percebi um estranho brilho no-metlico no fundo da caixa e apontei.
        - O que  aquilo?
        - Ah, esses - ela disse, enfiando a mo na caixa outra vez. - Nunca os usei; no ficam bem em mim. Mas voc poderia us-los, voc  alta e tem um porte majestoso, 
como minha me. Eram dela, sabe.
        Era um par de braceletes. Cada qual feito de um dente de javali, polido at adquirir um brilho fosco de marfim. As pontas eram recobertas pelas duas partes 
de um fecho de prata, cada qual ornamentado com desenhos floreados.
        - Nossa, como so lindos! Nunca vi nada to... to maravilhosamente brbaro.
        Jenny achou graa.
        - Sim, so mesmo. Algum os deu  mame como presente de casamento, mas ela nunca disse quem foi. Meu pai costumava caoar dela de Vez em quando a respeito 
do seu admirador secreto, mas recusava-se a lhe contar tambm quem ele era. Apenas sorria como um gato que tomou leite no jantar. Tome, experimente-os.
        Senti o marfim frio e pesado no meu brao. No resisti  vontade de afagar a superfcie amarelada, granulada com o tempo.
        - Sim, ficam bem em voc - Jenny declarou. - E combinam com este vestido amarelo tambm. Tome os brincos. Coloque-os e vamos descer.
        Murtagh estava sentado  mesa da cozinha, habilmente comendo presunto da ponta de sua adaga. Passando por trs dele com uma travessa, a sra. Crook, com grande 
destreza, inclinou-se e fez trs pezinhos quentes deslizarem para seu prato, mal interrompendo seus passos.
        Jenny movimentava-se de um lado para o outro, preparando e supervisionando. Parando em suas andanas, espreitou por cima do ombro de Murtagh o seu prato 
que rapidamente se esvaziava.
        - No faa cerimnia, Murtagh - observou. - Afinal, h outro porco assando.
        - Est bancando a avarenta com um parente, ? - perguntou, sem parar de mastigar.
        - Eu? - Jenny colocou as mos nos quadris. - Pelo amor de Deus, no! Afinal, voc s se serviu quatro vezes at agora. Sra. Crook - virou-se para chamar 
a governanta que saa -, quando terminar com os pes, prepare uma tigela de mingau para este homem faminto preencher as brechas que restarem. No vamos querer v-lo 
desmaiar na soleira da porta, sabe.
        Quando Murtagh me viu parada na porta da cozinha, engasgou-se na mesma hora com um pedao de presunto.
        - Mmmmhum - disse, como forma de cumprimento, depois que Jenny bateu nas suas costas prestativamente.
        - Prazer em rev-lo tambm - retorqui, sentando-me  sua frente. -Alis, obrigada.
        - Mmhm? - a pergunta foi abafada por metade de um pozinho, untado com mel.
        - Por pegar minhas coisas no castelo.
        - Mmhm. - Descartou qualquer agradecimento com um abano da mo que terminou na mantegueira.
        - Tambm lhe trouxe algumas plantas e coisas desse tipo - disse, sacudindo a cabea em direo  janela. - No ptio, nos meus alforjes.
        - Voc trouxe minha caixa de remdios? Que maravilha! - Fiquei encantada. Algumas das ervas medicinais eram raras e no deram pouco trabalho para encontrar 
e preparar adequadamente.
        - Mas como conseguiu? - perguntei. Depois que me recobrei do horror do julgamento de bruxaria, sempre me perguntava como os ocupantes do castelo haviam recebido 
a notcia da minha repentina priso e fuga. -Espero que no tenha tido dificuldade.
        - Ah, no. - Deu mais uma boa mordida no po, mas esperou at que passasse calmamente pela garganta antes de responder.
        - A sra. Fitz as havia guardado, isto , j tinha colocado tudo numa caixa. Eu a procurei primeiro, sabe, porque eu no sabia que recepo me esperava.
        - Muito sensato. Imagino que a sra. Fitz no iria gritar ao v-lo - concordei. Os pes fumegavam no ar frio, exalando um aroma celestial. Estendi a mo para 
pegar um, os pesados braceletes de dentes de javali chocalhando no meu pulso. Vi os olhos de Murtagh sobre eles e ajeitei-os de modo que ele pudesse ver as pontas 
de prata lavrada.
        - No so lindos? - eu disse. - Jenny disse que pertenciam  me dela. Os olhos de Murtagh abaixaram-se para a tigela de mingau que a sra. Crook atirara 
sem nenhuma cerimnia embaixo do seu nariz.
        - Ficam bem em voc - murmurou. Em seguida, voltando repentinamente ao assunto anterior, disse: - No, ela no pediria ajuda contra mim. Eu me dava muito 
bem com Glenna FitzGibbons, h algum tempo.
        - Ah, ela foi um antigo amor seu, no? - caoei, divertindo-me com a idia inslita de Murtagh enrascado num abrao amoroso com a enorme sra. Fitz.
        Murtagh olhou-me friamente por cima de seu mingau.
        - Isso ela no foi e agradeo-lhe se falar educadamente dessa senhora. O marido dela era irmo de minha me. E ela ficou com muita pena de voc,  bom que 
saiba.
        Abaixei os olhos, envergonhada, e estendi o brao para pegar o mel, a fim de disfarar meu constrangimento. O recipiente de pedra fora colocado numa tigela 
de gua quente para liquefazer o mel e estava confortavelmente morno ao toque.
        - Desculpe-me - eu disse, pingando o lquido doce e dourado no po, com todo o cuidado para no derramar. - Eu me perguntei o que ela teria sentido quando... 
quando eu...
        - No comeo, no notaram sua ausncia - o homenzinho disse de modo prosaico, ignorando minhas desculpas. - Quando no apareceu para o jantar, pensaram que 
talvez tivesse se demorado nos campos e fora para a cama sem comer; sua porta estava fechada. No dia seguinte, quando havia um grande alvoroo em torno da priso 
da sra. Duncan, ningum pensou em procurar por voc. No havia nenhuma meno a voc quando as notcias chegaram, apenas sobre ela, e naquela confuso ningum pensou 
em procurar por voc.
        Balancei a cabea pensativamente. Ningum teria sentido a minha falta, a no ser aqueles que buscavam tratamento; eu passava a maior parte do meu tempo na 
biblioteca de Colum quando Jamie estava fora.
        - E Colum? - perguntei. Estava mais do que ligeiramente curiosa; ele haveria realmente planejado aquilo tudo, como Geilie pensava? Murtagh encolheu os ombros. 
Varreu a mesa com os olhos em busca de mais provises, aparentemente no encontrou nada do seu agrado, e recostou-se, cruzando as mos sobre o diafragma magro.
        - Quando ele recebeu as notcias da vila, mandou fechar os portes imediatamente e proibiu todos no castelo de descer  vila, para que no fossem envolvidos 
no distrbio. - Inclinou-se mais para trs ainda, olhando-me especulativamente.
        - A sra. Fitz tentou encontr-la no segundo dia. Disse que perguntou a todas as criadas se a tinham visto. Ningum a vira, mas uma das garotas disse que 
achava que voc talvez tivesse ido  vila, talvez tivesse se abrigado em alguma casa l. - Uma das garotas, pensei cinicamente. A que sabia muito bem onde eu estava.
        Ele arrotou baixinho, sem se preocupar em reprimir o barulho.
        - Ouvi dizer que a sra. Fitz virou o castelo de cabea para baixo e fez Colum enviar um homem  vila, depois que teve certeza que voc no estava no castelo. 
E quando souberam o que havia acontecido... - Um leve ar de divertimento iluminou o rosto escuro.
        - Ela no me contou tudo, mas sei que ela tornou a vida de Colum ainda mais miservel do que j , infernizando-o para que mandasse gente para solt-la com 
a fora das armas. Mas de nada adiantou, ele argumentou que as coisas j tinham ido longe demais, muito alm do ponto em que ele poderia fazer alguma coisa e que 
agora estava nas mos dos investigadores e isso e aquilo. Deve ter sido uma cena e tanto - disse, pensativamente -, duas pessoas to determinadas, uma contra a outra.
        Por fim, ao que parecia, nenhum dos dois havia cedido ou vencido. Ned Gowan, com seu dom de advogado para estabelecer acordos, encontrara uma soluo que 
satisfazia aos dois oferecendo-se para ir pessoalmente ao julgamento, no como representante do chefe dos MacKenzie, mas como um advogado independente.
        - Ela achou que eu pudesse ser uma bruxa? - perguntei, curiosa. Murtagh fez um muxoxo.
        - Ainda estou para ver a velha senhora acreditar em bruxas, nem quando era jovem. So os homens que acham que devem haver maus agouros e magia nas mulheres, 
quando esse  apenas o jeito natural das criaturas.
        - Comeo a entender por que voc nunca se casou - eu disse.
        -  mesmo? - Empurrou sua cadeira para trs bruscamente e levantou-se, jogando o xale por cima dos ombros.
        - Vou partir. Meus cumprimentos ao chefe - disse a Jenny, que reapareceu do vestbulo, onde estivera recebendo os arrendatrios. - Ele deve estar muito ocupado.
        Jenny entregou-lhe uma grande sacola de pano, fechada na boca com um n e obviamente contendo provises suficientes para uma semana.
        - Comida para a viagem de volta - ela disse com um sorriso. - Pode durar ao menos at voc perder a casa de vista.
        Ele enfiou o n da sacola confortavelmente no cinto e balanou a cabea rapidamente, voltando-se para a porta.
        - Sim - disse - e, se no, voc ver os abutres reunidos logo depois da montanha, para devorar minha carne.
        - No iam ganhar grande coisa - ela retrucou cinicamente, examinando sua constituio mirrada. -J vi mais carne numa vassoura.
        O rosto circunspecto de Murtag continuou imutvel, mas um leve brilho surgiu em seus olhos.
        - Ah,  mesmo? - disse. - Bem, vou lhe dizer, menina... - As vozes retiraram-se pelo corredor, misturando-se em insultos e implicncias amistosas, finalmente 
desaparecendo nos ltimos ecos do vestbulo.
        Fiquei sentada  mesa por um longo instante, afagando vagarosamente o marfim dos braceletes de Ellen MacKenzie. Com a distante batida da porta, estremeci 
e levantei-me para assumir meu lugar como a Senhora de Laybroch.
        Normalmente um lugar atarefado, no Dia do Trimestre a manso simplesmente fervilhava de atividade. Os arrendatrios iam e vinham o dia todo. Alguns ficavam 
apenas o tempo suficiente para pagar suas contas; outros permaneciam o dia todo, andando pela propriedade, visitando amigos, comendo e bebendo na sala de visitas. 
Jenny, resplandecente em seda azul, e a sra. Crook, em linho branco engomado, iam e vinham entre a cozinha e a sala de visitas, supervisionando as duas criadas, 
que se equilibravam de um lado para o outro sob enormes travessas de bolos de aveia, bolos de frutas, biscoitos e outros doces.
        Jamie, depois de me apresentar cerimoniosamente aos arrendatrios presentes na sala de jantar e na sala de visitas, retirou-se para seu gabinete com Ian, 
para receber os arrendatrios um a um, conversar com eles sobre as necessidades para o plantio na primavera, deliberar sobre a venda de l e de gros, registrar 
as atividades da propriedade e tomar todas as providncias necessrias para o prximo trimestre do ano.
        Fiquei andando ociosamente pela casa, conversando com as visitas, ajudando com as bebidas e comidas quando necessrio, s vezes apenas me esgueirando para 
o segundo plano para observar as idas e vindas.
        Lembrando-me da promessa de Jamie  velha senhora junto ao aude, esperei com certa curiosidade pela chegada de Ronald MacNab.
        Ele chegou logo depois do meio-dia, cavalgando uma mula alta, desconjuntada, com um garoto agarrado ao cinto logo atrs dele. Eu os observava secretamente 
da porta da sala de visitas, imaginando at que ponto a avaliao que sua me fez dele era correta.
        Conclu que, embora "beberro" pudesse ser considerado um pouco de exagero, as percepes da Vov MacNab eram precisas. Os cabelos de Ronald MacNab eram 
longos e engordurados, desleixadamente amarrados para trs com um pedao de corda, e o colarinho e os punhos de sua camisa eram encardidos de sujeira. Embora certamente 
um ou dois anos mais novo do que Jamie, parecia pelo menos quinze anos mais velho, os ossos do rosto submersos em inchao, os pequenos olhos cinzas embaciados e 
injetados.
        Quanto  criana, tambm estava suja e maltrapilha. Pior ainda, no que me dizia respeito, vinha atrs do pai procurando se esconder, os olhos presos ao cho, 
encolhendo-se quando Ronald virava-se e falava rispidamente com ele. Jamie, que viera  porta do gabinete, tambm os avistou, e eu o vi trocar um olhar significativo 
com Jenny, que entrava trazendo uma nova jarra de bebida em atendimento a um pedido dele.
        Ela fez um sinal quase imperceptvel com a cabea e entregou-lhe a jarra. Em seguida, tomando a criana firmemente pela mo, conduziu-a em direo  cozinha, 
dizendo:
        - Venha comigo, rapazinho. Acho que temos uns biscoitos para voc. Ou que tal um pedao de bolo de frutas?
        Jamie cumprimentou Ronald MacNab com um aceno formal da cabea, dando lugar para que ele entrasse no gabinete. Estendendo o brao para fechar a porta, os 
olhos de Jamie depararam-se com os meus e ele fez um sinal de cabea em direo  cozinha. Respondi tambm com um movimento da cabea e segui Jenny e o jovem Rabbie.
        Encontrei-os envolvidos em uma agradvel conversa com a sra. Crook, que retirava ponche de um grande caldeiro com uma concha igualmente grande e o colocava 
em um recipiente de cristal. Entornou um pouco em uma caneca de madeira e ofereceu-a ao menino, que continuou retrado, olhando desconfiado, antes de finalmente 
aceitar. Jenny continuou conversando descontraidamente com o garoto enquanto enchia travessas, recebendo pouco mais de grunhidos em resposta. Ainda assim, a pequena 
criatura semi-selvagem parecia estar relaxando um pouco.
        - Sua camisa est um pouco suja, rapaz - observou, inclinando-se para a frente para virar o colarinho. - Tire-a e eu vou lav-la antes de voc voltar para 
casa. - "Suja" era um crasso eufemismo, mas o garoto recuou defensivamente. Mas eu estava atrs dele e, a um gesto de Jenny, agarrei-o pelos braos antes que ele 
pudesse escapar.
        Ele esperneou e uivou, mas Jenny e a sra. Crook tambm o seguraram e, as trs juntas, conseguimos retirar a camisa imunda.
        - Ah. -Jenny inspirou com fora. Ela segurava a cabea do garoto com firmeza embaixo do brao e as costas imundas ficaram totalmente expostas.
        Marcas de contuses e cicatrizes pontuavam a carne dos dois lados da espinha dorsal, algumas recm-curadas, outras to antigas que vinham a ser apenas sobras 
desbotadas cobrindo parcialmente as costelas proeminentes. Jenny segurou o menino com fora pela nuca, falando-lhe docemente enquanto soltava sua cabea. Fez um 
movimento com a cabea indicando o corredor, olhando para mim.
        -  melhor contar a ele.
        Bati na porta do gabinete, segurando uma travessa de bolos de aveia untados com mel como desculpa. Ao chamado abafado de Jamie, abri a porta e entrei.
        Meu rosto, enquanto servia Macnab deve ter sido suficiente, pois eu no tive que pedir para falar em particular com Jamie. Ele fitou-me pensa-tivamente por 
um instante, depois se voltou novamente para seu colono.
        - Muito bem, Ronnie, a parte de gros est acertada. Mas h uma outra coisa sobre a qual eu queria lhe falar. Voc tem um garoto chamado Rabbie, eu soube, 
e eu estou precisando de um garoto dessa idade para ajudar na estrebaria. Voc deixaria ele vir? - Os longos dedos de Jamie brincavam com uma pena de ganso sobre 
a escrivaninha. Ian, sentado a uma mesa menor ao lado, apoiou o queixo nos punhos cerrados, fitando MacNab com grande interesse.
        MacNab eriou-se, beligerante. Achei que ele tinha o ressentimento e a irritao de um homem que no estava bbado, mas gostaria de estar.
        - No, eu preciso do garoto - disse educadamente.
        - Hum. -Jamie recostou-se em sua cadeira, as mos cruzadas em cima da barriga. - Eu pagaria pelos servios dele,  claro.
        O homem resmungou e remexeu-se na cadeira.
        - Minha me andou falando com voc, no foi? Eu disse no e repito que no. O garoto  meu filho e eu fao com o ele o que achar que devo fazer. E eu acho 
melhor mant-lo em casa.
        Jamie olhou pensativamente para MacNab, mas voltou sua ateno para os livros de contabilidade sem maiores argumentos.
        Mais tarde, no final do dia, quando os arrendatrios reuniam-se nos lugares mais quentes como a despensa e a sala de visitas, para fazer um lanche antes 
de partir, vi Jamie da janela, caminhando descontraidamente em direo ao chiqueiro, o brao no ombro do imundo MacNab como um gesto de companheirismo. A dupla desapareceu 
atrs do chiqueiro, provavelmente para inspecionar alguma coisa de interesse agrcola e reapareceu depois de um ou dois minutos, caminhando em direo  casa.
        O brao de Jamie ainda estava sobre o ombro do sujeito mais baixo, mas agora parecia estar segurando-o. O rosto de MacNab era de um cinza doentio, molhado 
de suor, e ele caminhava muito lentamente, parecendo incapaz de andar empertigado.
        - Bem, ento est combinado - Jamie observou alegremente quando se aproximaram dos outros. - Acho que sua mulher vai gostar do dinheiro extra, no, Ronald? 
Ah, aqui est sua mula. Um bom animal, hein? - A mula perebenta que havia trazido os MacNab  fazenda aproximou-se desengonadamente, saindo do ptio onde andara 
aproveitando a hospitalidade da casa. Um punhado de feno ainda se projetava dos cantos de sua boca, sacudindo-se irregularmente enquanto o animal mastigava.
        Jamie apoiou o p de MacNab para ajud-lo a montar; uma ajuda muito necessria, ao que parecia. MacNab no falou nada nem acenou em resposta aos bem-humorados 
"V com Deus" e "Tenha uma boa viagem" de Jamie, mas apenas fez um aceno com a cabea, um pouco desnorteado, enquanto partia em marcha lenta, aparentemente preocupado 
com algum problema secreto que absorvia sua ateno.
        Jamie continuou apoiado na cerca, trocando amabilidades conforme outros arrendatrios preparavam-se para voltar para casa, at que a figura maltrapilha de 
MacNab desaparecesse de vista por cima do topo da colina. Empertigou-se, olhando a estrada, depois se virou e assoviou. Uma pequena figura numa camisa rasgada, mas 
limpa, e num kilt manchado saiu de baixo da carroa de feno.
        - Muito bem, ento, jovem Rabbie - disse Jamie alegremente. -Parece que afinal de contas seu pai deu permisso para voc se tornar um ajudante da cavalaria. 
Tenho certeza de que voc vai trabalhar com afinco e ser um orgulho para ele, hein? - Os olhos redondos e injetados ergueram-se em silncio no rosto sujo e o rapaz 
no respondeu nada, at que Jamie estendeu o brao e, segurando-o suavemente pelos ombros, virou-o na direo do cocho dos cavalos.
        - Vai ter jantar para voc na cozinha, rapaz. V se lavar primeiro; a sra. Crook  muito exigente. Oh, e Rabbie - inclinou-se para sussurrar-lhe -, limpe 
as orelhas ou ela far isso por voc. Ela esfregou as minhas hoje de manh. - Ele colocou as mos atrs das orelhas e sacudiu-as solenemente para o garoto, que abriu 
um sorriso tmido e saiu correndo em direo ao cocho.
        - Que bom que voc conseguiu - eu disse, dando o brao a Jamie para entrarmos para o jantar. - Com o pequeno Rabbie MacNab, quero dizer. Mas como fez isso?
        Ele encolheu os ombros.
        - Levei o Ronald at a cervejaria e lhe dei um ou dois socos embaixo das costelas. Perguntei-lhe se queria perder o filho ou o fgado. - Olhou para mim, 
franzindo a testa.
        - No est certo, mas no consegui pensar em nada melhor. E no queria que o garoto voltasse com ele. Tambm no foi s porque havia prometido  sua av. 
Jenny contou-me sobre as costas do garoto. 
        Hesitou. - Vou lhe contar, Sassenach. Meu pai me batia sempre que achava necessrio e com muito mais freqncia do que eu achava que merecia, mas eu no 
me acovardava quando falava com ele. E no acho que o pequeno Rabbie vai deitar-se na cama com sua mulher um dia e rir disso. Arqueou os ombros, com aquele estranho 
estremecimento, algo que h meses eu no o via fazer.
        - Ele tem razo; o garoto  filho dele, pode fazer o que quiser. E eu no sou Deus; apenas o proprietrio das terras e isso  bem pouco. Ainda assim... - 
Olhou-me com um sorriso enviesado.
        - A linha entre justia e brutalidade  muito fina, Sassenach. S espero estar do lado certo da questo.
        Passei os braos pela sua cintura e o abracei.
        - Voc agiu certo, Jamie.
        - Voc acha?
        - Acho.
        Continuamos caminhando de volta para casa, abraados. Os prdios brancos da fazenda brilhavam com uma cor mbar ao pr-do-sol. Mas ao invs de entrarmos 
em casa, Jamie conduziu-me pela ligeira elevao que havia atrs da manso. Ali, sentados no apoio superior da cerca de um campo, podamos ver toda a fazenda diante 
de ns.
        Encostei a cabea no ombro de Jamie e suspirei. Ele apertou-me levemente em resposta.
        - Foi isso que voc nasceu para fazer, no , Jamie?
        - Talvez, Sassenach. - Examinou toda a extenso da fazenda, os campos e construes, as plantaes e as estradas, depois abaixou os olhos, um sorriso repentinamente 
tomando conta de seus lbios.
        - E voc, Sassenach? Para que foi que voc nasceu? Para ser a senhora de uma manso ou para dormir nos campos como uma cigana? Para ser uma curandeira, a 
mulher de um professor universitrio ou uma fora-da-lei?
        - Eu nasci para voc - respondi simplesmente, estendendo os braos para ele.
        - Sabe - observou, finalmente afastando-se -, voc nunca disse isso.
        - Nem voc.
        - Eu disse. No dia seguinte ao que chegamos aqui. Eu disse que a queria mais do que a qualquer outra coisa.
        - E eu disse que amar e desejar no eram necessariamente a mesma coisa - reagi.
        Ele riu.
        - Talvez tenha razo, Sassenach. - Afastou ternamente os cabelos do meu rosto e beijou minha fronte. - Eu a desejei desde o primeiro instante em que a vi, 
mas eu a amei quando voc chorou nos meus braos e deixou-me confort-la, naquela primeira vez que chegamos ao Castelo Leoch.
        O sol se escondeu atrs da fileira de pinheiros negros e as primeiras estrelas surgiram. Era meado de novembro e o ar da noite estava frio, embora os dias 
ainda fossem lmpidos. De p do outro lado da cerca, Jamie inclinou a cabea, encostando a testa na minha.
        - Voc primeiro.
        - No, voc.
        - Por qu?
        - Tenho medo.
        - De qu, minha Sassenach?. - A escurido avanava pelos campos, cobrindo a terra e erguendo-se ao encontro da noite. A claridade da luz crescente acentuava 
as elevaes das sobrancelhas e do nariz, iluminando partes de seu rosto.
        - Tenho medo de que, se eu comear, no pare mais.
        Ele olhou para o horizonte, onde a lua em forma de foice resplandecia, baixa no horizonte, subindo lentamente.
        -  quase inverno e as noites so longas, mo duinne. - Inclinou-se por cima da cerca, abrindo os braos, e eu entrei neles, sentindo o calor do seu corpo 
e as batidas de seu corao.
        - Eu o amo.
        
        
32 - TRABALHO RDUO
        
        Alguns dias depois, quase ao final da tarde, eu estava na colina atrs da casa, cavando e extraindo os bulbos de um pequeno canteiro de cordalo que eu descobrira. 
Ouvindo o barulho de passos aproximando-se pela grama, virei-me esperando ver Jenny ou a sra. Crook, para me chamar para o jantar. Ao invs disso, era Jamie, os 
cabelos espetados com a umidade das ablues anteriores ao jantar, ainda de camisa amarrada entre as pernas para trabalhar nos campos. Veio por trs de mim e abraou-me, 
colocando o queixo no meu ombro. Juntos, ficamos vendo o sol ocultar-se atrs dos pinheiros, numa aura gloriosa de ouro e prpura. A paisagem esmaeceu silenciosamente 
 nossa volta, mas continuamos onde estvamos, abraados e felizes. Finalmente, quando comeou a escurecer, pude ouvir Jenny chamando da casa l embaixo.
        -  melhor entrarmos - eu disse, movendo-me relutantemente.
        - Mmm. - Jamie no se mexeu, apenas me apertou com mais fora, os olhos ainda perdidos nas sombras cada vez mais densas, como se tentasse gravar cada pedra 
e lmina de capim na memria.
        Virei-me para ele e passei os braos pelo seu pescoo.
        - O que foi? - perguntei serenamente. - Vamos ter que partir em breve? - Meu corao desfaleceu  perspectiva de ter que deixar Lally-broch, mas eu sabia 
que era perigoso para ns permanecer muito mais tempo; a qualquer momento poderia ocorrer outra visita dos soldados ingleses, com resultados muito mais sinistros.
        - Sim. Amanh, ou depois de amanh, no mximo. H ingleses em Knockchoilum; fica a trinta e seis quilmetros daqui, mas  uma viagem de apenas dois dias 
com tempo bom. - Comecei a deslizar da cerca, mas Jamie passou um dos braos por baixo dos meus joelhos e ergueu-me no colo, apertando-me contra o peito.
        Eu ainda podia sentir o calor do sol em sua pele e sentir o cheiro clido e empoeirado de suor e aveia. Ele andara ajudando com o final da colheita e o aroma 
lembrava-me de um jantar na semana anterior, quando vi que Jenny, sempre amvel e educada, havia finalmente me aceitado sem restries como um membro da famlia.
        A colheita era um trabalho rduo e Ian e Jamie geralmente j estavam cambaleando de sono ao final do jantar. Em uma ocasio, eu deixara a para ir buscar 
um pudim de sobremesa e ao retornar encontrei os dois profundamente adormecidos e Jenny rindo consigo mesma entre os remanescentes do jantar. Ian estava desmoronado 
em sua cadeira, o queixo no peito, respirando ruidosamente. Jamie deitara o rosto sobre os braos cruzados, esparramado para a frente, sobre a mesa, roncando tranqilamente 
entre o prato e o moedor de pimenta.
        Jenny pegou o pudim de minha mo e serviu para ns duas, sacudindo a cabea diante dos homens adormecidos.
        - Bocejavam tanto que imaginei o que aconteceria se eu parasse de falar. Assim, calei-me e, como previa, dois minutos depois estavam apagados, os dois. - 
Afastou ternamente os cabelos de Lan da testa.
        -  por isso que nascem to poucas crianas em julho por aqui - disse, erguendo uma sobrancelha maliciosamente para mim. - Os homens no conseguem ficar 
acordados o tempo suficiente para fazer um filho. - Era bem verdade e eu ri. Jamie remexeu-se e roncou ao meu lado. Coloquei a mo na sua nuca para acalm-lo. Seus 
lbios curvaram-se uma vez num sorriso suave, por reflexo, depois se relaxaram no sono profundo outra vez.
        Jenny, observando-o, disse:
        - Que engraado. Nunca mais o vi fazer isso desde que era pequeno.
        - Fazer o qu?
        Ela balanou a cabea.
        - Sorrir durante o sono. Ele costumava fazer isso se a gente se aproximasse e o acariciasse em seu bero, e at mais tarde em sua cama de rodinhas. s vezes, 
mame e eu nos revezvamos para acariciar sua cabea e ver se conseguamos faz-lo sorrir; ele sempre sorria.
        -  estranho, no ? - eu disse, descendo a mo suavemente pelo seu pescoo e costas. Como previsto, fui recompensada imediatamente por um sorriso singularmente 
doce que se demorou por um instante antes das linhas do seu rosto relaxarem-se outra vez na expresso mais ou menos severa que ele apresentava quando dormia.
        - Por que ser que ele faz isso? - perguntei, observando-o fascinada. Jenny encolheu os ombros e riu para mim.
        - Imagino que signifique que est feliz.
        Na verdade, no partimos no dia seguinte. No meio da noite, fui acordada por uma conversa baixa no quarto. Ao me virar no colcho, vi Ian inclinado sobre 
a cama, segurando uma vela.
        - O beb est a caminho - Jamie disse, vendo-me acordada. Sentou-se, bocejando. - Um pouco antes da hora, Ian?
        - Nunca se sabe. O pequeno Jamie se atrasou. Melhor adiantar do que atrasar, eu acho. - O sorriso de Ian era rpido e nervoso.
        - Sassenach, voc sabe fazer parto? Ou  melhor eu ir buscar a parteira? - Jamie virou-se para mim, perguntando. No hesitei em minha resposta.
        Sacudi a cabea.
        - V buscar a parteira.
        Eu vira apenas trs partos durante meu curso de enfermagem; todos conduzidos em uma sala de operaes esterilizada, a paciente envolta em lenis e anestesiada, 
nada visvel, a no ser o perneo grotescamente inchado e a cabea repentinamente emergente.
        Tendo visto Jamie partir em busca da parteira, a sra. Martins, segui Ian pelas escadas.
        Jenny estava sentada numa poltrona junto  janela, confortavelmente recostada. Colocara uma camisola velha, tirara tudo de cima da cama, abrira uma colcha 
antiga sobre o colcho de penas e agora estava apenas sentada. Esperando.
        Ian andava nervosamente de um lado para o outro  sua volta. Jenny sorriu tambm, mas com uma expresso distante, voltada para dentro, como se ouvisse algo 
longe que somente ela podia ouvir. Ian, completamente vestido, remexia em tudo pelo quarto, pegando objetos e colocando-os de volta no lugar, at que Jenny finalmente 
mandou que ele sasse.
        - V l embaixo e acorde a sra. Crook, Ian - ela disse, sorrindo para suavizar o fato de estar mandando-o embora. - Diga-lhe para aprontar tudo para a sra. 
Martins. Ela sabe o que tem que fazer. - Nesse instante, inspirou pronunciadamente e colocou as duas mos no abdmen distendido. Olhei espantada, ao ver sua barriga 
subir, repentinamente endurecida e redonda. Ela mordeu o lbio e respirou fortemente por um instante, relaxando em seguida. A barriga recuperara o formato normal, 
como uma lgrima ligeiramente pendente, redonda nas duas extremidades.
        Ian colocou a mo hesitantemente em seu ombro e ela a cobriu com a sua prpria, erguendo o rosto e sorrindo para ele.
        - Depois, diga-lhe para lhe dar o que comer, homem. Voc e Jamie vo precisar de alguma coisa para comer. Dizem que o segundo vem mais rpido do que o primeiro; 
talvez quando tiverem acabado de fazer o desjejum, eu mesma j esteja pronta para comer alguma coisa.
        Ele apertou seu ombro com fora e beijou-a, murmurando algo em seu ouvido antes de virar-se para sair. Parou, hesitante, na soleira da porta, olhando para 
trs, mas ela descartou-o firmemente com um aceno da mo.
        Pareceu que um longo tempo havia transcorrido at Jamie chegar com a parteira e eu ficava cada vez mais nervosa conforme as contraes tornavam-se mais fortes. 
Dizia-se que o segundo beb vinha mais rpido do que o primeiro, via de regra. E se este resolvesse chegar antes da sra. Martins?
        No comeo, Jenny entabulou uma conversa amena, parando apenas para inclinar-se um pouco para a frente, segurando a barriga,  medida que as contraes se 
intensificavam. Mas logo perdeu a vontade de conversar e recostou-se, descansando em silncio entre as dores cada vez mais intensas. Finalmente, depois de uma que 
quase a dobrou ao meio em sua poltrona, ela levantou-se, cambaleando.
        - Ajude-me a andar um pouco, Claire - disse. Sem saber ao certo qual seria o procedimento correto, fiz o que ela pedia, segurando-a firmemente por baixo 
do brao para ajud-la a manter-se em p. Demos vrias voltas, lentamente, pelo quarto, parando quando uma contrao a acometia, continuando quando amainava. Pouco 
antes da chegada da parteira, Jenny dirigiu-se para a cama e deitou-se.
        A sra. Martins era uma figura tranqilizadora; alta e magra, tinha ombros largos e braos fortes, bem como o tipo de expresso amvel e prtica que inspirava 
confiana. Duas rugas verticais entre os olhos cinza-metlicos, sempre visveis, aprofundavam-se quando estava concentrada.
        As rugas mantiveram-se superficiais enquanto fazia os exames preliminares. Portanto, at ali, tudo estava normal. A sra. Crook chegara com uma pilha de lenis 
limpos e passados e a sra. Martins pegou um deles, ainda dobrado, e ajeitou-o sob Jenny. Fiquei espantada de ver a mancha escura de sangue entre suas coxas, quando 
se ergueu ligeiramente.
        Vendo minha expresso, a sra. Martins balanou a cabea de forma tranqilizadora.
        - Sim. Amostra de sangue,  como dizem. Est tudo bem. Somente quando o sangue est vermelho-vivo e em grande quantidade de uma s vez  que temos que nos 
preocupar. No h nada de errado.
        Todos sentamo-nos para esperar. A sra. Martins falava em voz serena e baixa, confortando Jenny, esfregando a parte baixa de suas costas, pressionando com 
fora durante as contraes. Conforme as dores tornaram-se mais freqentes, Jenny comeou a cerrar os lbios e resfolegar ruidosamente pelo nariz. Geralmente, ouvia-se 
um gemido fraco, rouco, quando a dor vinha com toda a fora.
        Os cabelos de Jenny estavam encharcados de suor a essa altura e o rosto vermelho com o esforo. Observando-a, compreendi perfeitamente porque  chamado de 
"trabalho" de parto. Dar  luz era uma tarefa extremamente rdua.
        Nas duas horas seguintes, houve pouco progresso, exceto que as dores estavam obviamente mais fortes. A princpio capaz de responder a perguntas, Jenny parou 
de reagir, prostrada e arquejante ao final de cada contrao, o rosto variando de vermelho a branco em questo de segundos.
        Ela cerrou os lbios durante a contrao seguinte, fazendo sinal que eu me aproximasse quando amainou.
        - Se a criana viver... - disse, lutando para respirar - e for menina... o nome dela  Margaret. Diga a Ian... para lhe dar o nome de Margaret Ellen.
        - Sim, claro - disse, procurando acalm-la. - Mas voc mesma vai dizer isso a ele. No vai demorar muito mais agora.
        Ela apenas sacudiu a cabea numa negativa determinada e cerrou os dentes quando veio a nova contrao. A sra. Martins segurou-me pelo brao, afastando-me 
de Jenny.
        - No se preocupe, dona - disse sem rodeios. - Nessa hora, elas sempre acham que vo morrer.
        - Ah - exclamei, um pouco aliviada.
        - Veja bem - ela disse, numa voz mais baixa -, s vezes morrem mesmo.
        At mesmo a sra. Martins parecia um pouco preocupada conforme as dores continuavam, sem nenhum progresso considervel. Jenny estava cada vez mais exausta; 
quando cada acesso de dor amainava, seu corpo ficava frouxo e ela at parecia cochilar um pouco, como se buscasse refgio em pequenos intervalos de sono. Ento, 
quando o implacvel acesso de dor apoderava-se dela outra vez, acordava debatendo-se e gemendo com o esforo, contorcendo-se para o lado para se curvar de forma 
protetora sobre a protuberncia rgida da criana em seu ventre.
        - A criana poderia estar... virada? - perguntei, em voz baixa, tmida em sugerir tal coisa a uma parteira experiente. Mas a sra. Martins no pareceu nem 
um pouco ofendida com a observao; as linhas entre suas sobrancelhas simplesmente se aprofundaram enquanto olhava para a mulher extenuada.
        Quando a prxima contrao amainou, a sra. Martins jogou o lenol e a camisola para trs e comeou a trabalhar rpido, pressionando aqui e ali a enorme elevao 
com dedos hbeis e experientes. Foram necessrias vrias tentativas, uma vez que a sondagem parecia provocar mais dores e o exame era impossvel durante as contraes 
implacveis e debilitantes.
        Finalmente, afastou-se, pensando, tamborilando um dos ps distraidamente enquanto observava Jenny se contorcendo com mais dois acessos de dores que pareceram 
distender sua espinha dorsal. Quando se debateu com espasmos violentos sobre os lenis, um deles rasgou-se repentinamente com um rudo rascante.
        Como se tivesse sido um sinal, a sra. Martins caminhou decididamente para junto de Jenny, acenando para que eu a seguisse.
        - Mantenha-a deitada, dona - a sra. Martins instruiu-me, sem se deixar perturbar com os gritos de Jenny. Suponho que j tivesse ouvido muitos gritos semelhantes.
        No relaxamento seguinte, a sra. Martins comeou a agir. Agarrando a criana durante a momentnea flacidez das paredes do tero, tentou vir-la.
        Jenny berrou e deu um puxo nos meus braos quando uma nova contrao comeou.
        A sra. Martins fez nova tentativa. E outra. E outra. Sem poder deixar de empurrar e fazer fora, Jenny estava exaurindo-se muito alm do ponto de exausto, 
seu corpo debatendo-se muito alm dos limites da fora comum, conforme se esforava para empurrar a criana para o mundo exterior.
        Ento, funcionou. Houve uma repentina movimentao de fluidos e o volume amorfo da criana virou-se sob as mos da sra. Martins. Imediatamente, o formato 
da barriga de Jenny se alterou e houve uma sensao urgente de que era necessrio pr mos  obra.
        - Agora, empurre. - Ela o fez e a sra. Martins ficou de joelhos ao lado da cama. Aparentemente, viu algum sinal de progresso, porque se levantou e apoderou-se 
depressa de uma pequena garrafa que colocara sobre a mesa ao chegar. Despejou uma pequena quantidade do que parecia leo nas pontas dos dedos e comeou a esfreg-lo 
suavemente entre as pernas de Jenny.
        Jenny emitiu um som gutural e assustador de protesto ao ser tocada quando a prxima contrao veio e a sra. Martins retirou as mos. Jenny relaxou novamente, 
prostrada e inerte, e a parteira retomou sua suave massagem, sussurrando para sua paciente, dizendo-lhe que tudo estava bem, para descansar e agora... empurrar!
        Durante a contrao seguinte, a sra. Martins colocou a mo em cima da barriga de Jenny e empurrou com toda fora. Jenny deu um grito agudo, mas a parteira 
continuou a empurrar at a contrao abrandar.
        - Empurre comigo na prxima - disse a parteira. - Est quase chegando.
        Coloquei as mos em cima das mos da sra. Martins sobre a barriga de Jenny e, ao seu sinal, as trs empurraram. Jenny deu um gemido como um rosnado, profundo 
e vitorioso, e uma bolha viscosa surgiu de repente entre suas coxas. Ela apoiou melhor as pernas sobre o colcho, empurrou mais uma vez e Margaret Ellen Murray lanou-se 
no mundo como um porquinho ensebado.
        Pouco tempo depois, sentei-me direito, aps ter limpado o rosto sorridente de Jenny com um pano mido, e olhei pela janela. J era quase hora de o sol se 
pr.
        - Eu estou bem - Jenny disse. - Perfeitamente bem. - O amplo sorriso de prazer com que ela recebera a chegada de sua filha transformara-se em um pequeno 
sorriso permanente de profunda alegria. Estendeu a mo trmula e tocou a manga do meu vestido.
        - V contar a Lan - pediu. - Ele deve estar preocupado.
        Aos meus olhos cnicos, no parecia. A cena no gabinete, onde Ian e Jamie haviam se refugiado, parecia-se muito a uma festa prematura de comemorao. Uma 
jarra de vinho vazia estava no aparador, acompanhada de vrias garrafas, e um forte cheiro de bebida alcolica pairava no aposento como uma nuvem.
        O orgulhoso pai parecia ter desmaiado, a cabea descansando sobre a mesa do senhor da propriedade. O prprio senhor ainda estava consciente, mas com os olhos 
embaados, recostado contra o painel de revestimento da parede, os olhos piscando como uma coruja.
        Indignada, caminhei com passos pesados at a escrivaninha e agarrei Ian pelo ombro, sacudindo-o asperamente e ignorando Jamie, que se ps de p com esforo, 
dizendo:
        - Sassenach, espere...
        Ian no estava totalmente inconsciente. Sua cabea ergueu-se relutantemente e ele olhou-me com uma expresso imvel, circunspecto, os olhos vazios, fundos 
e suplicantes. Percebi de repente que ele achava que eu tinha vindo lhe contar que Jenny estava morta.
        Relaxei a mo em seu ombro e, ao invs disso, dei-lhe uns tapinhas delicados nas costas.
        - Ela est bem - eu disse, em voz baixa. - Voc tem uma filha.
        Ele abaixou a cabea sobre os braos outra vez e eu o deixei, os ombros magros sacudindo-se enquanto Jamie batia de leve em suas costas.
        Com os sobreviventes agora refeitos e limpos, as famlias Murray e Fraser reuniram-se no quarto de Jenny para um jantar de comemorao. A pequena Margaret, 
arrumada para inspeo e envolta em um pequeno cobertor, foi entregue a seu pai, que recebeu seu novo rebento com uma expresso de abenoada reverncia.
        - Ol, Maggie - murmurou, tocando o pequeno boto do seu nariz com a ponta do dedo.
        Sua filha recm-nascida, sem se deixar impressionar com a apresentao, fechou os olhos em concentrao, enrijeceu o corpo e urinou na camisa do pai.
        Durante a breve exploso de risadas e reparao provocada por essa falta de bons modos, o pequeno Jamie conseguiu escapar das mos da sra. Crook e atirou-se 
na cama de Jenny. Ela gemeu baixinho com o desconforto, mas estendeu a mo e puxou-o para si, fazendo sinal  sra. Crook para que o deixasse.
        - Minha mame! - ele declarou, empurrando-se ao lado de Jenny.
        - Ora, e quem mais seria? - ela perguntou, de modo lgico. - Aqui, rapaz. - Abraou-o e beijou o topo de sua cabea. Ele relaxou, tranqilizado, e aconchegou-se 
contra ela. Jenny puxou sua cabea ternamente, acariciando seus cabelos.
        - Deite sua cabea aqui, rapazinho, e durma. - disse. - J passou da hora de ir para a cama. Durma. - Reconfortado pela sua presena, ele colocou o dedo 
na boca e adormeceu.
        Quando chegou sua vez de segurar o beb, Jamie mostrou-se notavelmente competente, segurando a cabecinha penugenta na palma de uma das mos como uma bola 
de tnis. Pareceu relutar em devolver a criana para Jenny, que a aninhou junto aos seios, sussurrando-lhe palavras de carinho.
        Finalmente, dirigimo-nos para nosso prprio quarto, que parecia silencioso e vazio, em contraste com o caloroso cenrio familiar que havamos acabado de 
deixar, Ian de joelhos junto  cama de sua mulher, a mo pousada sobre o pequeno Jamie, enquanto Jenny amamentava o beb. Tomei conscincia pela primeira vez do 
quanto estava cansada; foram quase vinte e quatro horas desde que Ian nos acordara.
        Jamie fechou a porta silenciosamente atrs de si. Sem falar, aproximou-se por trs de mim e comeou a desamarrar o meu vestido. Suas mos me envolveram e 
recostei-me com gratido contra seu peito. Em seguida, inclinou-se para beijar-me e eu me virei, passando os braos em torno de seu pescoo. Eu no s me sentia 
muito cansada, mas muito sensvel e bastante triste.
        - Talvez seja melhor assim -Jamie disse devagar, como se falasse consigo mesmo.
        - O qu?
        - Que voc seja estril. - Ele no podia ver meu rosto, enterrado em seu peito, mas deve ter sentido meu corpo enrijecer-se.
        - Sim, sei disso h muito tempo. Geillis Duncan me disse, logo depois que nos casamos. - Acariciou minhas costas com ternura. - No comeo, me ressenti um 
pouco, mas depois comecei a achar que era melhor assim; vivendo como temos que viver, seria muito difcil se voc ficasse grvida. E agora - estremeceu levemente 
-, agora acho que fico contente com isso; no iria querer v-la sofrer dessa maneira.
        - Eu no me importaria - eu disse, aps um longo instante, pensando na cabecinha coberta de penugem e nos dedinhos delicados.
        - Eu me importaria. - Beijou o topo da minha cabea. - Eu vi o rosto de Ian; era como se sua prpria carne estivesse sendo dilacerada, cada vez que Jenny 
gritava. - Meus braos o envolviam, acariciando as cicatrizes enrijecidas de suas costas. - Eu mesmo posso suportar a dor - disse suavemente -, mas no agentaria 
v-la sofrer. Est acima das minhas foras.
        
        
33 - A PATRULHA
        
        Jenny recuperou-se rapidamente do nascimento de Margareth, insistindo em descer as escadas at o trreo no dia seguinte ao parto. Diante da insistncia conjunta 
de Ian e Jamie, ela relutantemente absteve-se de fazer qualquer trabalho, apenas supervisionando do sof na sala de visitas onde ficou reclinada, a pequena Margaret 
dormindo no bero ao seu lado.
        Entretanto, insatisfeita de ficar sentada ociosamente, em um ou dois dias aventurou-se at a cozinha e depois at a horta atrs da casa. Sentada no muro, 
o beb bem enrolado em cobertas e carregado numa faixa amarrada ao corpo, fazia-me companhia, enquanto eu simultaneamente arrancava trepadeiras mortas e vigiava 
um enorme caldeiro em que as roupas da casa haviam sido fervidas. A sra. Crook e as criadas j haviam retirado as roupas limpas para serem estendidas para secar; 
agora, eu esperava que a gua esfriasse o suficiente para ser descartada.
        O pequeno Jamie me "ajudava", arrancando plantas de modo desenfreado e lanando gravetos em todas as direes. Gritei-lhe para ter cuidado quando se aproximou 
demais do caldeiro, depois corri para ele quando ignorou o aviso. Felizmente, a gua esfriara rapidamente; estava apenas morna. Avisando-o para ficar afastado com 
sua me, segurei o caldeiro e virei-o da base de ferro em que se apoiava e que o impedia de cair.
        Dei um salto para trs para afastar-me da gua suja que caa em cascatas pela borda da vasilha, lanando vapores no ar frio. O pequeno Jamie, agachando-se 
ao meu lado sobre os calcanhares, bateu as mos alegremente na lama morna e pingos pretos voaram por toda a minha saia.
        Sua me deslizou do muro, levantou-o pela gola da camisa e deu-lhe uma palmada no traseiro.
        - Voc no tem juzo, filho! Olhe s para voc! Agora sua camisa vai ter que ser lavada outra vez! E veja o que fez com a saia de sua tia, seu moleque!
        - No tem importncia - protestei, vendo o lbio inferior do pequeno vilo tremer.
        - Mas para mim tem - Jenny disse, lanando um olhar penetrante ao seu rebento. - Pea desculpas a sua tia, rapaz, depois entre e pea  sra. Crook para lav-lo. 
- Apressou-o com um tapinha no traseiro, delicado desta vez, e empurrou-o na direo da casa.
        Voltvamos nossa ateno para as roupas fervidas, quando o barulho de cascos de cavalo chegou at ns, vindo da estrada.
        - Deve ser Jamie de volta, espero - eu disse, ouvindo. - Mas est voltando cedo.
        Jenny sacudiu a cabea, espreitando intensamente a estrada
        - No  o cavalo dele.
        O cavalo, quando apareceu no topo de uma colina, no era conhecido, a julgar por sua testa franzida. O homem em cima dele, entretanto no era nenhum estranho. 
Ela empertigou-se ao meu lado, depois comeou a correr em direo ao porto, envolvendo o beb com os dois braos para mant-lo firme.
        -  Ian! - gritou para mim.
        Ele estava esfarrapado, sujo e machucado no rosto, quando deslizou de cima do cavalo. Um machucado na testa estava inchado, com um corte feio que atravessava 
a sobrancelha. Jenny segurou-o por baixo do brao quando ele atingiu o cho e foi somente ento que vi que sua perna de pau havia desaparecido.
        - Jamie - murmurou, ofegante. - Encontramo-nos com a patrulha perto do moinho. A nossa espera. Sabiam que estvamos indo para l.
        Meu estmago contorceu-se.
        - Ele est vivo?
        Ian balanou a cabea, confirmando, tentando respirar.
        - Sim. Tambm no est ferido. Levaram-no para oeste, em direo a Killin.
        Os dedos de Jenny exploravam seu rosto.
        - Est muito ferido, homem? Ele sacudiu a cabea.
        - No. Levaram meu cavalo e minha perna; no precisavam me matar para me impedir de segui-los.
        Jenny olhou para o horizonte, onde o sol estava logo acima da linha das rvores. Talvez quatro horas da tarde, estimei. Ian seguiu seu olhar e antecipou-se 
 sua pergunta.
        - Ns os encontramos por volta de meio-dia. Levei mais de duas horas para chegar a um lugar que tivesse um cavalo.
        Ela ficou parada, imvel, por um instante, calculando, depois se virou para mim, com ar decidido.
        - Claire. Ajude Ian a ir para a casa, por favor, e se ele precisar de cuidados, faa-o o mais rpido possvel. Vou deixar o beb com a sra. Crook e pegar 
os cavalos.
        Afastou-se antes que qualquer um de ns pudesse protestar.
        - Ela pretende... mas no pode! - exclamei. - No pode estar pensando em deixar o beb!
        Lan apoiava-se pesadamente em meu ombro enquanto percorramos lentamente o caminho em direo  casa. Ele sacudiu a cabea. No. Mas tambm no acho que 
ela pretenda deixar os ingleses enforcarem seu irmo.
        Escurecia, quando chegamos ao local onde Jamie e Ian haviam sido emboscados. Jenny desceu do cavalo e andou de um lado para o outro em meio aos arbustos, 
farejando como um pequeno terrier, afastando galhos do caminho e murmurando baixinho o que pareciam ser os piores palavres do seu irmo.
        - Para leste - disse, saindo finalmente do meio das rvores, arranhada e suja. Bateu as folhas mortas presas s suas saias e pegou as rdeas de seu cavalo 
das minhas mos entorpecidas. - No podemos segui-los no escuro, mas pelo menos sei para que lado ir quando amanhecer.
        Improvisamos um acampamento simples, amarrando os cavalos e fazendo uma pequena fogueira. Admirei a eficincia com que Jenny fizera tudo aquilo e ela sorriu.
        - Eu costumava fazer Jamie e Ian me ensinarem o que sabiam, quando eram pequenos. Como fazer fogo, subir em rvores, at como tirar a pele de animais. E 
como seguir um rastro. - Olhou novamente na direo tomada pela patrulha.
        - No se preocupe, Claire. - Sorriu para mim e sentou-se junto  fogueira. - Vinte cavalos no podem andar muito depressa pelo mato, mas dois podem. A patrulha 
vai pegar a estrada em direo a Eskadale, ao que parece. Podemos cortar caminho pelas montanhas e encontr-los perto de Midmains.
        Seus dedos geis puxavam o corpete de seu vestido. Olhei espantada quando ela desfez o franzido e arriou a parte de cima de sua blusa de baixo, expondo os 
seios. Estavam grandes e pareciam intumescidos, inchados de leite. Em minha ignorncia, no havia pensado no que a me que amamentava fazia quando privada do aleitamento.
        - No posso deixar o beb por muito tempo - disse, respondendo aos meus Pensamentos, rindo enquanto segurava um dos seios por baixo. - Eu explodiria.
        - Em reao ao toque, o leite comeou a pingar do mamilo engurgitado, fino e azulado. Retirando um leno grande do bolso, Jenny colocou-o sob o peito. Havia 
uma pequena caneca no cho a seu lado, que ela tirara do alforje. Pressionando a borda da caneca logo abaixo do mamilo, massageou suavemente o seio entre dois dedos, 
espremendo-o delicadamente em direo ao mamilo. O leite escoou mais depressa em resposta e, em seguida, de repente, a aurola em torno do mamilo contraiu-se e o 
leite espirrou em um jato fino de fora surpreendente.
        - No sabia que era assim! - exclamei subitamente, olhando fascinada.
        Jenny deslocou a caneca para pegar o jato e balanou a cabea.
        - Ah, sim. A fora com que o beb suga desencadeia o fluxo, mas depois que o leite comea a sair, tudo que a criana tem que fazer  engolir. Ah, agora me 
sinto melhor. - Fechou os olhos por um instante, aliviada.
        Esvaziou a caneca no cho, observando:
        - Uma pena desperdi-lo, mas no h o que fazer com isso, no  mesmo? - Mudando de mo, colocou a caneca na posio outra vez e repetiu o processo no outro 
seio.
        -  uma chateao - disse, erguendo os olhos e vendo que eu ainda a observava. - Tudo que tem a ver com crianas  uma chateao, praticamente. Mesmo assim, 
voc jamais escolheria no t-los.
        - No - respondi em voz baixa. - Ningum escolheria isso. Olhou-me por cima da fogueira, o rosto bondoso e preocupado.
        - Ainda no chegou sua hora - ela disse. - Mas ter seus prprios filhos um dia.
        Ri um pouco trmula.
        - Primeiro,  melhor encontrarmos o pai.
        Ela esvaziou a segunda caneca e comeou a arrumar o vestido.
        - Ah, ns o encontraremos. Amanh.  preciso, porque no posso ficar longe de Maggie por muito tempo.
        - E quando o tivermos encontrado? - perguntei. - O que acontece? Ela encolheu os ombros e pegou os rolos de cobertores.
        - Isso vai depender de Jamie. E do quanto eles o machucaram.
        Jenny tinha razo; ns realmente encontramos a patrulha no dia seguinte. Deixamos nosso acampamento antes do raiar do dia, parando apenas o suficiente para 
que ela extrasse mais leite. Ela parecia encontrar trilhas onde no havia nenhuma e eu a segui sem fazer perguntas at uma regio de floresta densa. Era impossvel 
viajar rpido em meio  vegetao rasteira e arbustos, mas assegurou-me de que estvamos fazendo um percurso muito mais direto do que o caminho que a patrulha era 
obrigada a fazer, presos como estavam  estrada por causa do tamanho do grupo.
        Ns os alcanamos por volta do meio-dia. Ouvi o tilintar de arreios e as vozes descontradas que ouvira em outra ocasio. Estendi a mo fazendo sinal para 
que Jenny, que me seguia naquele momento, parasse.
        - H um vau que d para cruzar o crrego l embaixo - sussurrou-me. - Parece que pararam l para os cavalos beberem gua. - Deslizando de cima do cavalo, 
segurou as rdeas dos dois animais e amarrou-os. Em seguida, fazendo sinal para que a seguisse, escorregou para dentro do mato rasteiro como uma cobra.
        Da posio favorvel para onde ela nos levara, em uma pequena salincia rochosa acima do crrego, podamos ver praticamente todos os homens da patrulha, 
a maioria desmontada e conversando despreocupadamente em grupos, alguns sentados no cho, comendo, outros conduzindo os cavalos em grupos de dois e trs at a gua. 
O que no conseguamos ver era Jamie.
        - Acha que o mataram? - perguntei em pnico. Contei os homens duas vezes, para ter certeza de que no deixara de contar ningum. Havia vinte homens e vinte 
e seis cavalos; todos bem  vista, at onde eu podia ver. Mas nenhuma pista de um prisioneiro e nenhum reflexo revelador de cabelos ruivos.
        - Duvido - Jenny respondeu. - Mas s h um meio de descobrir. -Comeou a se esgueirar para trs.
        - Como?
        - Perguntando.
        A estrada estreitava-se depois do vau, tornando-se pouco mais do que uma trilha empoeirada atravs de densos grupos de pinheiros e amieiros de cada lado. 
A trilha no era larga o suficiente para a patrulha avanar em duplas, lado a lado; cada homem teria que cruz-la em fila indiana.
        Quando o ltimo homem da fila aproximou-se de uma curva no caminho, Jenny Murray entrou de repente na estrada, na frente dele. Seu cavalo assustou-se e o 
homem lutou para control-lo, praguejando. Quando abriu a boca para perguntar, indignado, o que ela pretendia com aquele comportamento, eu sa dos arbustos atrs 
dele e atingi-o com fora atrs da orelha com um galho cado.
        Tomado completamente de surpresa, ele perdeu o equilbrio quando o cavalo assustou-se outra vez e caiu na estrada. Ele no desmaiou; o golpe apenas o derrubara. 
Jenny remediou essa deficincia com a ajuda de uma pedra de bom tamanho.
        Agarrou as rdeas do cavalo e gesticulou freneticamente para mim.
        - Depressa! - sussurrou. - Tire-o da estrada antes que dem por falta dele!
        Foi assim que, ao recobrar os sentidos, Robert MacDonald do Regimento Glen Elrive viu-se firmemente amarrado a uma rvore, olhando para o cano de uma pistola 
apontada para ele pela irm furiosa de seu antigo prisioneiro.
        - O que fizeram com Jamie Fraser? - ela perguntou. MacDonald sacudiu a cabea, atordoado, obviamente achando que ela era fruto de sua imaginao. Uma tentativa 
de se mover ps fim s suas dvidas e depois da devida enxurrada de palavres e ameaas, finalmente se apaziguou com a idia de que o nico modo de se livrar era 
nos contando o que queramos saber.
        - Ele est morto - MacDonald disse a contragosto. No entanto, quando o dedo de Jenny comeou a apertar o gatilho ameaadoramente, acrescentou, repentinamente 
tomado de pnico: - No fui eu! Foi culpa dele mesmo!
        Jamie, segundo ele, estava montado em dupla, os braos amarrados com uma tira de couro, atrs de um soldado da patrulha, cavalgando entre dois outros homens. 
Parecera bastante dcil e no tomaram nenhuma precauo especial quando atravessaram o rio a dez quilmetros do moinho.
        - O idiota se atirou do cavalo na parte funda do rio - disse MacDonald, encolhendo os ombros como podia com as mos amarradas s costas. - Ns atiramos nele. 
Devemos ter acertado, porque ele no veio mais  tona. Mas o rio  rpido logo abaixo do vau, e fundo. Procuramos um pouco, mas no vimos corpo algum. Deve ter sido 
carregado pelo rio abaixo. Agora, pelo amor de Deus, senhoras, soltem-me!
        Depois que repetidas ameaas de Jenny no conseguiram extrair mais nenhum detalhe ou mudanas em sua histria, decidimos aceit-la como verdadeira. Recusando-se 
a libertar MacDonald completamente, Jenny ao menos afrouxou suas amarras, de modo que com o tempo ele pudesse se libertar. Depois, corremos.
        - Acha que ele est morto? - perguntei, arquejando, quando alcanamos os cavalos amarrados.
        - No. Jamie nada como um peixe e j o vi prender a respirao por trs minutos seguidos. Vamos. Vamos dar uma busca nas margens do rio.
        Percorremos as margens do rio para cima e para baixo, tropeando em pedras, chapinhando na gua nos lugares rasos, arranhando as mos e o rosto nos salgueiros 
que arrastavam seus galhos nas poas.
        Finalmente, Jenny deu um grito triunfante e eu sa correndo pela gua, equilibrando-me precariamente nas pedras escorregadias que forravam o leito do crrego, 
raso naquele ponto.
        Segurava uma tira de couro, ainda amarrada num crculo. Um dos lados estava manchado de sangue.
        - Desvencilhou-se disso aqui - disse, segurando o crculo de couro entre as mos. Olhou na direo de onde viramos, pelo acidentado declive de pedras, poas 
fundas e correntezas espumantes, e sacudiu a cabea.
        - Como voc conseguiu, Jamie? - perguntou, falando consigo mesma. Encontramos uma rea plana e gramada, no muito longe da borda, onde ele evidentemente 
parara para descansar. Encontrei uma pequena mancha amarronzada na casca de um lamo prximo.
        - Ele est ferido - eu disse.
        - Sim, mas est se locomovendo - Jenny retrucou, olhando para o cho enquanto andava de um lado para o outro.
        - Voc  boa em seguir rastros? - perguntei esperanosamente.
        - No sou uma grande caadora - respondeu, partindo e seguida de perto por mim -, mas se no puder seguir algo do tamanho de Jamie Fraser atravs de samambaias 
secas, ento sou idiota e cega.
        De fato, uma trilha larga de samambaias queimadas do frio e esmiga-lhadas subia a encosta do monte e desaparecia em um denso amontoado de urzes. Rodeamos 
este ponto, mas no nos deparamos com nenhuma outra pista, nem nossos chamados produziram nenhuma resposta.
        - Foi embora - Jenny disse, sentando-se em um tronco e abanando-se. Achei-a plida e compreendi que seqestrar e ameaar homens armados no eram tarefas 
para uma mulher que acabara de dar  luz h menos de uma semana.
        -Jenny - eu disse -, voc precisa voltar. Alm do mais, talvez ele volte para Lallybroch.
        Ela sacudiu a cabea.
        - No, ele no faria isso. Independente do que MacDonald tenha nos dito, eles no vo desistir to facilmente, no com uma recompensa  mo. Se ainda no 
saram  caa dele  porque no puderam. Mas devem ter mandado algum de volta para ficar de olho na fazenda, por precauo. No, esse  um lugar para onde ele no 
iria. - Ela puxou a gola do seu vestido. O dia estava frio, mas ela suava ligeiramente e eu podia ver manchas escuras crescentes no peito do seu vestido, do vazamento 
de leite.
        Ela me viu olhando e balanou a cabea.
        - Sim, vou ter que voltar logo. A sra. Crook est alimentando Maggie com leite de cabra e gua aucarada, mas ela no vai poder ficar sem mim por muito mais 
tempo, nem eu sem ela. Mas odeio ter que deix-la sozinha.
        Eu tambm no gostava da idia de andar sozinha pelas Highlands escocesas,  cata de um homem que podia estar em qualquer lugar, mas exibi um ar destemido.
        - Vou me arranjar - eu disse. - Poderia ser pior. Ao menos, ele est vivo.
        -  verdade. - Olhou para o sol, baixo no horizonte. - Ficarei com voc esta noite, ainda.
        Aconchegadas em volta do fogo  noite, no falamos muito. Jenny estava preocupada com sua filha abandonada, eu com a perspectiva de prosseguir por conta 
prpria, sozinha, sem nenhum conhecimento real da geografia da regio ou de galico.
        De repente, Jenny ergueu a cabea, ouvindo com ateno. Empertiguei-me e tambm fiquei ouvindo, mas no escutei nenhum barulho estranho. Espreitei a escurido 
da floresta na direo do olhar de Jenny, mas no vi nenhum par de olhos brilhantes na escurido, graas a Deus.
        Quando me virei para o fogo outra vez, Murtagh estava sentado do outro lado, calmamente aquecendo as mos no calor das chamas. Jenny virou-se bruscamente 
diante da minha exclamao de surpresa e deu uma pequena risada de espanto.
        - Eu poderia ter cortado a garganta de vocs duas antes que sequer olhassem na direo certa - observou o homenzinho.
        - Ah,  mesmo? - Jenny estava sentada com os joelhos puxados para cima, as mos juntas perto dos tornozelos, envolvendo as pernas. Com um movimento rpido 
como um raio, enfiou a mo sob a saia e a lmina de uma sgian dhu reluziu  luz do fogo.
        - Nada mau - Murtagh concordou, balanando a cabea com conhecimento de causa. - A Sassenach  to boa quanto voc?
        - No - Jenny respondeu, guardando a adaga na meia outra vez. -Portanto,  bom que esteja com ela. Ian mandou busc-lo, no foi?
        O homenzinho balanou a cabea.
        - Sim. J encontraram a patrulha?
        Relatamos nosso progresso at ali. Diante da notcia de que Jamie escapara, eu poderia jurar que um msculo torceu-se junto ao canto de sua boca, mas seria 
exagero chamar aquilo de um sorriso.
        Por fim, Jenny levantou-se, dobrando seu cobertor.
        - Onde vai? - perguntei, espantada.
        - Para casa. - Balanou a cabea em direo a Murtagh. - Ele vai ficar com voc; no precisa mais de mim e h outros que precisam.
        Murtagh ergueu os olhos para o cu. A lua minguante era fracamente visvel por trs das brumas e uns respingos de chuva murmuravam nos galhos do pinheiro 
acima de ns.
        - Pela manh  melhor. O vento est aumentando e ningum vai andar muito esta noite.
        Jenny sacudiu a cabea e continuou prendendo os cabelos sob o xale.
        - Conheo o caminho. E se ningum vai se mover esta noite, no haver ningum para me atrapalhar na estrada, no ?
        Murtagh suspirou com impacincia.
        - Voc  to teimosa quanto o empacado do seu irmo, se me d licena. No vejo por que a pressa. Duvido que seu homem tenha levado uma rapariga para a cama 
durante o tempo que esteve fora.
        - Voc no consegue ver alm do seu nariz, duine, e  uma viso bastante curta - Jenny respondeu rispidamente. - E se voc viveu at agora sem aprender a 
no ficar entre uma me que est amamentando e seu filho faminto, no tem juzo suficiente para caar porco-do-mato, que dir encontrar um homem no urzal.
        Murtagh ergueu os braos, rendendo-se.
        - Ah, sim, siga o seu caminho. Eu no sabia que estava tentando enfiar bom senso na cabea de uma porca selvagem. Acho que vou levar uma chifrada na perna 
por me preocupar.
        Jenny riu inesperadamente, fazendo duas covinhas no rosto.
        - Para falar a verdade, acho mesmo que vai, seu velho patife. - In-clinou-se e ergueu a pesada sela sobre os joelhos. - Tome conta da minha cunhada e mande 
avisar quando tiverem encontrado Jamie.
        Quando ela se virou para selar o cavalo, Murtagh acrescentou:
        - Alis, talvez encontre uma nova ajudante na cozinha quando chegar em casa.
        Ela parou e olhou para ele, depois colocou a sela lentamente no cho.
        - E quem ser? - perguntou.
        - A viva MacNab - ele respondeu, com clara inteno.
        Ela ficou imvel por um instante, nada se mexendo, a no ser o xale e o manto que esvoaava no vento cada vez mais forte.
        - Como? - perguntou finalmente.
        Murtagh inclinou-se para pegar a sela. Levantou-a e amarrou o cinturo com firmeza com um nico movimento e aparentemente sem nenhum esforo.
        - Incndio - disse, dando um puxo final na tira de couro do estribo. - Preste ateno quando atravessar o campo alto; as cinzas ainda devem estar quentes.
        Cruzou as mos formando um apoio para que Jenny montasse, mas ela sacudiu a cabea e pegou as rdeas, fazendo um aceno para mim.
        - Acompanhe-me at o topo da colina, Claire, por favor.
        O ar estava frio e pesado, longe da fogueira. Minhas saias estavam midas de sentar no cho e grudavam-se em minhas pernas conforme andava. A cabea de Jenny 
estava abaixada para se proteger do vento, mas eu podia ver seu perfil, os lbios plidos e cerrados de frio.
        - Foi MacNab que entregou Jamie  patrulha? - perguntei finalmente. Ela balanou a cabea devagar.
        - Sim. Ian deve ter descoberto, ou um dos outros homens; no importa quem.
        Era final de novembro, bem depois das comemoraes do Guy Fawkes Day, mas tive a viso repentina de um incndio, as labaredas galgando paredes de madeira 
e eclodindo com toda fora no teto de palha, como as lnguas do Esprito Santo, enquanto o fogo dentro da casa rugia suas preces pelos amaldioados. Dentro, a efgie 
agachada em cinzas em sua prpria lareira, pronta para desfazer-se em poeira negra com a prxima rajada de vento frio a varrer a carcaa de sua casa. s vezes, h 
uma linha fina entre a justia e a brutalidade.
        Percebi que Jenny estava me olhando de frente, questionando-me, e eu devolvi o olhar com um aceno afirmativo da cabea. Estvamos juntas, ao menos neste 
caso, do mesmo lado dessa linha sombria e arbitrria.
        Paramos no cume da colina, Murtagh apenas um ponto preto junto  fogueira l embaixo. Jenny remexeu por um instante no bolso lateral de sua saia, em seguida 
pressionou uma pequena sacola de camura em minha mo.
        - Os aluguis do trimestre - disse. - Voc pode precisar.
        Tentei devolver-lhe o dinheiro, insistindo que Jamie no iria querer ficar com o dinheiro que era necessrio  administrao da fazenda, mas ela no quis 
nem ouvir. Embora Janet Fraser tivesse a metade do tamanho do irmo, sua teimosia era to grande quanto a dele.
        Derrotada, finalmente desisti e enfiei o dinheiro em lugar seguro nos recessos da minha prpria roupa. Por insistncia de Jenny, tambm peguei a pequena 
sgian dhu que pressionou em minha mo.
        -  de Ian, mas ele tem outra - disse. - Guarde na boca de sua meia e prenda-a com sua liga. No a tire, nem quando estiver dormindo
        Parou por um instante, como se quisesse dizer mais alguma coisa. Aparentemente, queria.
        - Jamie disse - prosseguiu cautelosamente - que talvez voc pudesse me contar coisas s vezes. E disse que se voc o fizesse, eu deveria seguir suas palavras. 
H... alguma coisa que queira me dizer?
        Jamie e eu havamos discutido a necessidade de preparar Lallybroch e seus habitantes para os iminentes desastres da Rebelio. Mas, na poca achamos que ainda 
teramos bastante tempo. Agora, no havia mais tempo algum, no mximo alguns minutos, nos quais transmitir a esta nova irm que eu tanto amava informaes suficientes 
para proteger Lallybroch da tempestade que se avizinhava.
        Ser profeta era uma tarefa muito desconfortvel, pensei, no pela primeira vez. Sentia grande simpatia pelo profeta Jeremias e seu Livro das Lamentaes. 
Tambm compreendia perfeitamente por que Cassandra era to impopular. No entanto, nada podia ser feito em relao a isso. No cume de uma colina escocesa, o vento 
noturno de uma tempestade de outono aoitando meus cabelos e saias como as vestes de uma banshee, virei o rosto para os cus carregados e me preparei para profetizar.
        - Plante batatas - eu disse.
        A boca de Jenny entreabriu-se, em seguida ela firmou o maxilar e balanou a cabea energicamente.
        - Batatas. Sim. No h nenhuma antes de Edimburgo, mas mandarei buscar. Quanto?
        - O mximo que puder. No so cultivadas nas Highlands agora, mas sero.  um cultivo de raiz que pode ser guardado por bastante tempo e o rendimento  melhor 
do que o do trigo. Plante todo o terreno que puder com produtos que podem ser armazenados. Haver fome, muito grave, dentro de dois anos. Se tiver terras ou propriedades 
que no so produtivas agora, venda-as por ouro. Haver uma guerra, e massacre. Os homens sero perseguidos, aqui e em toda a regio das Highlands. - Pensei por 
um instante. - H um esconderijo secreto na casa?
        - No, foi construda bem depois da poca do Protetorado.
        - Ento, construa um lugar seguro para se esconderem. Espero que  Jamie no precise dele - engoli em seco diante do pensamento - mas algum pode precisar.
        - Est bem.  tudo? - Seu rosto estava srio e resoluto na meia-luz. Abenoei Jamie por sua previdncia em avisar Jenny e abenoei-a por sua confiana no 
irmo. Ela no me perguntou como nem por qu, apenas registrou atentamente o que eu dissera e tive certeza que minhas apressadas instrues seriam seguidas.
        - Isso  tudo. Ao menos,  tudo que consigo pensar agora. - Tentei sorrir, mas o esforo no pareceu convincente, nem mesmo para mim.
        O dela foi melhor. Tocou meu rosto rapidamente num gesto de despedida.
        - Que Deus a acompanhe, Claire. Ns nos veremos outra vez, quando voc trouxer meu irmo de volta para casa.
        
        
        
        
34 - A HISTRIA DE DOUGAL
        
        Quaisquer que fossem as desvantagens da civilizao, refleti implacavelmente, os benefcios eram inegveis. O telefone, por exemplo. E os jornais, que eram 
populares em centros metropolitanos como Edimburgo ou mesmo Perth, mas completamente desconhecidos na regio selvagem das Highlands escocesas!
        Sem nenhuma forma de comunicao de massa, as notcias espalhavam-se de boca a boca  velocidade dos passos do homem. Em geral, as pessoas acabavam sabendo 
o que precisavam saber, mas com um atraso de vrias semanas. Em conseqncia, diante do problema de descobrir exatamente onde Jamie estava, havia pouco com que contar, 
exceto a possibilidade de algum t-lo visto e mandado avisar Lallybroch. Era um processo que podia levar semanas. Alm do mais, logo o inverno se instalaria, tornando 
impossvel a viagem a Beauly. Fiquei alimentando o fogo com gravetos, enquanto considerava as possibilidades.
        Que rumo Jamie teria tomado a partir do local de sua fuga? No de volta a Lallybroch, certamente, e provavelmente tambm no para o norte, para as terras 
dos MacKenzie. Para o sul, para as terras da fronteira, onde poderia deparar-se outra vez com Hugh Munro ou algum dos seus antigos companheiros de estrada? No, 
o mais provvel  que tivesse seguido para nordeste, em direo a Beauly. Mas se eu podia chegar a essa concluso, os homens da patrulha tambm poderiam.
        Murtagh voltou de suas andanas, lanando uma braada de galhos e gravetos no cho. Sentou-se com as pernas cruzadas sobre uma ponta do seu xale, enrolando 
o restante em volta do corpo para se aquecer. Olhou para o cu onde a luz brilhava por trs de nuvens ligeiras.
        - No vai nevar ainda - disse, franzindo a testa. - Dentro de uma, talvez duas semanas. Devemos chegar a Beauly antes disso. - Bem, era bom ter confirmao 
de minhas dedues, pensei.
        - Acha que ele estar l?
        O pequeno escocs encolheu os ombros, erguendo o xale mais para cima das costas.
        - No h como saber. A viagem no ser fcil para ele, escondendo-se durante o dia e mantendo-se longe das estradas. E ele no tem um cavalo. -- Esfregou 
o queixo com a barba espetada, pensativamente. - No podemos encontr-lo;  melhor deixar que ele nos encontre.
        - Como? Lanando fogos de sinalizao? - sugeri sarcasticamente. Murtagh tinha uma caracterstica boa; por mais inslito que fosse algo que eu dissesse, 
podia esperar que ele se comportasse como se eu no tivesse dito nada.
        - Trouxe sua caixa de remdios - disse, indicando os alforjes no cho com um movimento da cabea. - E voc tem uma boa reputao nas vizinhanas de Lallybroch; 
deve ser conhecida como uma boa curandeira na maior parte das regies prximas. - Balanou a cabea para si mesmo. -Sim, isso vai servir. - E sem maiores explicaes, 
deitou-se, enrolado em seu xale, e foi dormir tranqilamente, ignorando o vento nas rvores, a chuva fina e mesmo a mim.
        Logo descobri o que ele pretendia. Viajando abertamente - e devagar - pelas estradas principais, parvamos em cada fazenda, vila e aldeia que encontrvamos. 
Ali, ele fazia uma rpida inspeo na populao local, reunia qualquer um que sofresse alguma doena ou ferimento e os trazia para mim, para que os tratasse. Os 
mdicos sendo poucos e raramente vistos naquelas paragens, sempre havia algum doente para cuidar.
        Enquanto eu me ocupava com tnicos e pomadas, ele conversava displicentemente com os amigos e parentes dos aflitos, tomando o cuidado de descrever o caminho 
de nossa jornada em direo a Beauly. Quando no havia nenhum paciente a ser tratado em um lugar, parvamos mesmo assim para passar a noite, buscando abrigo em uma 
cabana ou estalagem. Nesses lugares, Murtagh cantava para entreter nossos anfitries e pagar pelo jantar, insistindo teimosamente que eu guardasse todo o dinheiro 
que trazia comigo, no caso de precisarmos dele quando encontrssemos Jamie.
        No tendo inclinao natural para a conversa, ensinou-me algumas de suas canes, para passar o tempo conforme avanvamos devagar de um lugar para o outro.
        - Voc tem uma boa voz - observou um dia, depois de uma tentativa mais ou menos bem-sucedida com uma cano folclrica. - No  uma voz educada, mas  forte 
e melodiosa. Tente mais uma vez e cantar comigo esta noite. H uma pequena taberna em Limraigh.
        - Acha mesmo que vai funcionar? - perguntei. - Quero dizer, o que estamos fazendo?
        Ele remexeu-se na sela antes de responder. No sendo um cavaleiro nato, sempre parecia um macaco treinado para montar um cavalo, mas ainda assim conseguia 
desmontar ao fim do dia com o frescor de uma margarida, ao passo que eu mal conseguia amarrar o cavalo antes de cambalear e desmoronar no cho.
        - Ah, sim - disse finalmente. - Mais cedo ou mais tarde. Est atendendo mais doentes nestes ltimos dias, no est?
        Era verdade e eu admiti.
        - Ento - disse, provando seu argumento -, isso significa que a notcia de suas habilidades est se espalhando. E  isso que queremos. Mas talvez pudssemos 
fazer melhor. Por isso  que voc deve cantar esta noite. E talvez... - hesitou, como se relutasse em fazer uma sugesto.
        - Talvez o qu?
        - Voc sabe alguma coisa sobre previso do futuro, no? - perguntou cautelosamente. Entendi o motivo de sua hesitao; ele vira o tumulto da caa s bruxas 
em Cranesmuir.
        Sorri.
        - Um pouco. Quer que eu tente?
        - Sim. Quanto mais oferecermos, mas as pessoas viro nos ver e voltaro para contar aos outros. E a notcia se espalhar, at o rapaz ouvir falar de ns. 
Ento, ns o encontraremos. Est disposta a tentar?
        Encolhi os ombros.
        - Se pode ajudar, por que no?
        Fiz minha estria como cantora e vidente naquela noite em Limraigh, com considervel sucesso. Descobri que a sra. Graham estava certa no que me dissera - 
eram os rostos, e no as mos, que lhe davam as pistas necessrias.
        Nossa fama se espalhou, pouco a pouco, at que no final da semana seguinte as pessoas saam correndo de suas casas para nos saudar quando entrvamos em uma 
vila e nos cobriam de trocados e pequenos presentes quando partamos.
        - Sabe, podamos realmente ganhar alguma coisa com isso - observei uma noite, guardando a fria da noite. - Pena que no haja um teatro por perto. Poderamos 
fazer um nmero adequado de teatro de variedades: "O mgico Murtagh e sua encantadora assistente, Gladys."
        Murtagh tratou essa observao com sua taciturna indiferena de costume, mas era verdade; ns realmente nos saamos muito bem juntos. Talvez fosse por estarmos 
unidos em nossa busca, apesar de nossas diferenas fundamentais de personalidade.
        As condies do tempo pioraram notavelmente e nossa marcha diminuiu ainda mais. At aquele momento, entretanto, no tivemos nenhuma notcia de Jamie. Uma 
noite, perto de Belladrum, sob uma forte chuva, deparamo-nos com um bando de verdadeiros ciganos.
        Pisquei os olhos sem acreditar diante do minsculo agrupamento daqueles carroes pintados que os ciganos usavam como casa, na clareira junto  estrada. 
Era exatamente igual ao acampamento dos grupos de ciganos que iam a Hampstead Down todo ano.
        As pessoas tinham a mesma aparncia, tambm; morenas, alegres, barulhentas e expansivas. Ouvindo o tilintar de nossos arreios, uma cabea de mulher surgiu 
na janela de um dos carroes. Analisou-nos por um instante, depois deu um grito e o terreno sob as rvores animou-se de repente com rostos morenos e sorridentes.
        - Me d sua bolsa para eu guardar, por segurana - disse Murtagh, sem sorrir, observando o jovem que vinha pavoneando-se em nossa direo, com uma alegre 
indiferena em relao  chuva que encharcava sua camisa colorida. - E no d as costas para ningum.
        Procedi com cautela, mas fomos recebidos calorosamente e convidados a compartilhar do jantar cigano. Tinha um cheiro delicioso - uma espcie de cozido - 
e aceitei avidamente o convite, ignorando as sombrias especulaes de Murtagh quanto  natureza do animal que virar carne de ensopado.
        Eles falavam mal o ingls e pior ainda o galico; conversamos em grande parte atravs de gestos e uma espcie de dialeto, que devia ao francs grande parte 
de sua procedncia. O ambiente era acolhedor e amigvel no carroo onde comemos; homens, mulheres e crianas, todos comiam sem nenhuma cerimnia, diretamente de 
tigelas, sentados onde encontrassem lugar, mergulhando grandes pedaos de po no caldo do suculento ensopado. Foi a melhor comida que tivemos em semanas e comi at 
achar que iria arrebentar. Mal consegui reunir flego para cantar, mas fiz o melhor possvel, cantarolando nos trechos mais difceis e deixando a melodia a cargo 
de Murtagh.
        Nossa apresentao foi saudada com aplausos entusiasmados e os ciganos retriburam com um jovem cantando uma espcie de sofrido lamento, acompanhado por 
uma rabeca. Sua apresentao era pontuada pelo retinir de um pandeiro, seriamente manejado por uma menina de cerca de oito anos.
        Enquanto Murtagh mostrara-se circunspecto em suas indagaes nas vilas e fazendas onde paramos, com os ciganos foi completamente franco. Para minha surpresa, 
disse-lhes sem rodeios quem estvamos procurando; um homem grande, de cabelos de fogo e olhos da cor do cu de vero. Os ciganos trocaram olhares ao longo do vo 
central do carroo, mas houve um movimento unnime de cabeas pesarosas. No, no o haviam visto. Mas... e aqui o lder, o jovem de camisa roxa que nos recebera, 
disse atravs de pantomima que enviaria um mensageiro, caso cruzassem com o homem que procurvamos.
        Agradeci com um aceno de cabea e Murtagh, por sua vez, indicou por meio de gestos que daria dinheiro a quem desse alguma informao. Essa parte dos negcios 
foi recebida com sorrisos, mas tambm com olhares especulativos. Fiquei satisfeita quando Murtagh disse que no poderamos passar a noite, que devamos seguir nosso 
caminho, e agradecia mesmo assim. Retirou algumas moedas da bolsa de sua cintura, tomando o cuidado de mostrar o fato de que ela continha apenas um pequeno punhado 
de moedas de cobre. Distribuindo-as como forma de agradecimento pelo jantar, partimos, seguidos de loquazes protestos de despedida, gratido e votos de felicidades 
- ao menos, foi o que presumi que fossem.
        Podiam na verdade estar prometendo nos seguir e cortar nossas gargantas. Murtagh comportou-se como se esse fosse o caso, conduzindo os cavalos a galope em 
direo  encruzilhada a trs quilmetros dali, depois se desviando e entrando no mato para dar uma volta considervel antes de emergir na estrada outra vez.
        Murtagh deu uma olhada para cima e para baixo da estrada, vazia na penumbra crescente do anoitecer e encharcada de chuva.
        - Acha mesmo que nos seguiram? - perguntei, curiosa.
        - No sei, mas como eles so doze e ns apenas dois, achei melhor agir como se nos tivessem seguido. - Parecia bastante sensato e eu o segui sem perguntas 
por vrias outras manobras evasivas, chegando finalmente a Rossmoor, onde encontramos abrigo em um celeiro.
        Nevou no dia seguinte. Apenas o suficiente para cobrir o cho de branco como farinha no piso de um moinho, mas preocupou-me. No me agradava pensar em Jamie, 
sozinho e sem abrigo no urzal, enfrentando tempestades de inverno apenas com a camisa e o xale que usava no momento em que fora capturado pela patrulha.
        Dois dias depois, o mensageiro chegou.
        O sol ainda brilhava no horizonte, mas j era noite nos vales estreitos, cercados por paredes rochosos. As sombras eram to densas embaixo das rvores sem 
folhas que o caminho - ou o que restava dele - era quase invisvel. Com medo de perder o mensageiro na crescente escurido, andei to perto atrs dele, que uma ou 
duas vezes cheguei a pisar na barra de seu manto que se arrastava no cho. Finalmente, com um grunhido impaciente, ele virou-se e me passou para a frente dele, empurrando-me 
nas sombras do crepsculo com a mo pesada no meu ombro.
        Parecia que caminhvamos h muito tempo. H muito eu j perdera a pista de nossas voltas em meio aos altos rochedos e  vegetao rasteira densa e morta. 
Podia apenas desejar que Murtagh estivesse em algum lugar atrs de ns, mantendo-se a uma distncia em que pudesse ouvir, ou at mesmo ver. O homem que fora  estalagem 
me buscar, um cigano de meia-idade que no falava nada de ingls, recusara-se terminantemente a permitir que qualquer outra pessoa o acompanhasse a no ser eu, apontando 
enfaticamente primeiro para Murtagh e depois para o cho, indicando que ele no deveria sair dali.
        A friagem da noite caa rapidamente naquela poca do ano e meu pesado manto quase no servia de proteo suficiente contra as sbitas rajadas de vento glacial 
que nos aoitavam nos lugares abertos das clareiras.
        Eu estava dividida entre o horror diante da idia de Jamie estar enfrentando as noites frias e chuvosas do outono sem abrigo e a empolgao diante da idia 
de v-lo novamente. O calafrio que percorreu minha espinha nada tinha a ver com o ar gelado.
        Finalmente, meu guia puxou-me, obrigando-me a parar, e com um aperto em meu ombro de precauo, saiu da trilha e desapareceu. Fiquei parada, com toda a pacincia 
que conseguia reunir, as mos embaixo dos braos para aquec-las. Tinha certeza de que meu guia - ou algum - iria voltar; para comear, eu ainda no pagara pelo 
servio. Mesmo assim, o vento chocalhava os arbustos mortos como a passagem do fantasma de um veado, tomado de pnico, em fuga de seu caador. E a umidade entrava 
pelas costuras de minhas botas; a impermeabilizao com gordura de lontra desgastara-se e eu no tivera a oportunidade de reaplic-la.
        Meu guia reapareceu to repentinamente quanto havia desaparecido, fazendo-me morder a lngua ao reprimir um grunhido de surpresa. com um movimento brusco 
de cabea, mandou que o seguisse e pressionou para o lado uma cortina de amieiros mortos para que eu passasse.
        A entrada da caverna era estreita. Havia um lampio queimando em uma salincia da rocha, delineando a silhueta de uma figura alta que voltou-se para a entrada 
para vir ao meu encontro.
        Atirei-me para a frente, percebendo antes mesmo de toc-lo que no era Jamie. A decepo me atingiu como um soco no estmago e tive que dar um passo para 
trs e engolir em seco vrias vezes para conter a golfada de blis que subiu  minha garganta.
        Cerrei as mos junto ao corpo, enfiando os punhos nas coxas at sentir-me suficientemente calma para falar.
        - Um pouco fora do seu territrio, no est? - disse, numa voz que me surpreendeu pela frieza.
        Dougal MacKenzie observara meu esforo para me controlar, no sem alguma simpatia no rosto sombrio. Segurou meu cotovelo e conduziu-me mais para dentro da 
caverna. Havia vrios pacotes empilhados ao fundo, muito mais do que um nico cavalo poderia carregar. Portanto, ele no estava sozinho. E o que quer que ele e seus 
homens estivessem carregando, era algo que ele preferia no expor ao olhar curioso de donos de hotis e hospedarias.
        - Contrabando? - perguntei, com um movimento da cabea em direo  pilha. Ento, pensei melhor e respondi minha prpria pergunta. - No, no exatamente 
contrabando. Mercadorias para o prncipe Carlos, no ?
        No se deu ao trabalho de me responder, mas sentou-se numa pedra  minha frente, as mos nos joelhos.
        - Tenho notcias - disse bruscamente.
        Respirei fundo, preparando-me. Notcias, e no boas notcias, pela expresso do seu rosto. Respirei fundo novamente, engoli com fora e balancei a cabea.
        - Conte-me.
        - Ele est vivo - disse e o maior dos pedaos de gelo no meu estmago desfez-se. Dougal inclinou a cabea para o lado, observando-me intensamente. Para ver 
se eu ia desmaiar?, imaginei vagamente. No importava; eu no ia desmaiar.
        - Foi preso perto de Kiltorlity, h duas semanas - Dougal disse, ainda me observando. - No foi culpa dele; m sorte. Deparou-se cara a cara com seis soldados 
ingleses em uma curva do caminho e um deles o reconheceu.
        - Estava ferido? - Minha voz ainda era calma, mas minhas mos comeavam a tremer. Pressionei-as, abertas, contra as pernas para imobiliz-las.
        Dougal sacudiu a cabea.
        - No, pelo que ouvi. - Parou por um instante. - Est na Priso de Wentworth - disse, com relutncia.
        - Wentworth - repeti mecanicamente. Priso de Wentworth. Originalmente, uma poderosa fortaleza da fronteira, fora construda no final do sculo XVI e acrescida 
de vrios anexos a intervalos, ao longo dos cento e cinqenta anos seguintes. A extensa pilha de pedras agora cobria quase dois acres de terreno, lacrada por trs 
de slidas muralhas de granito de um metro de espessura. Mas at mesmo muralhas de granito possuam portes, pensei. Ergui os olhos para fazer uma pergunta e vi 
a relutncia ainda estampada nas feies de Dougal.
        - O que mais? - perguntei rispidamente. Os olhos cor de avel fitaram os meus, sem pestanejar.
        - Foi julgado h trs dias - Dougal disse. - E foi condenado  forca. O pedao de gelo estava de volta ao meu estmago, com companhia.
        Fechei os olhos.
        - Quanto tempo? - perguntei. Minha voz parecia distante aos meus prprios ouvidos e abri os olhos novamente, piscando para focaliz-los outra vez na luz 
bruxuleante do lampio. Dougal sacudia a cabea.
        - No sei. Mas no por muito tempo.
        Comeava a respirar com um pouco mais de facilidade agora e me senti capaz de descerrar os punhos.
        - Ento,  melhor nos apressarmos - eu disse, ainda calmamente. Quantos homens voc tem?
        Ao invs de responder, Dougal levantou-se e caminhou na minha direo. Estendendo os braos, segurou minhas mos nas suas e me ps de p. A expresso de 
simpatia estava de volta e uma profunda tristeza que assomava aos seus olhos amedrontou-me mais do que qualquer outra coisa que ele tivesse dito at ento. Ele sacudiu 
a cabea devagar.
        - No, dona - disse delicadamente. - No h nada que possamos fazer. Em pnico, arranquei minhas mos das suas.
        - Claro que h! - exclamei. - Tem que haver! Voc disse que ele ainda est vivo!
        - E eu disse "No por muito tempo"! - retorquiu incisivamente. - O rapaz est na Priso de Wentworth, no no buraco dos ladres em Cranesmuir! Podem enforc-lo 
hoje, amanh ou somente na semana que vem, pelo que sei, mas no h a menor possibilidade que dez homens possam entrar  fora na Priso de Wentworth!
        - Ah, no? - Eu tremia outra vez, mas desta vez de raiva. - Voc no sabe disso, no sabe o que deve ser feito! S no est disposto a arriscar a pele ou 
seus miserveis... lucros! - Lancei o brao acusadoramente  pilha de pacotes.
        Dougal lutou comigo, agarrando meus braos agitados. Desferi vrios socos em seu peito num acesso de raiva e dor. Ele ignorou os golpes e passou os braos 
ao redor do meu corpo, apertando-me contra ele e segurando-me at eu parar de me debater.
        - Claire. - Era a primeira vez que ele usava meu nome e isso me amedrontou ainda mais.
        - Claire - repetiu, afrouxando o abrao para que eu pudesse olhar para ele -, acha que eu no faria todo o possvel para libertar o rapaz, se achasse que 
havia a mnima chance? Droga,  meu prprio filho adotivo! Mas no h a menor chance, nenhuma! - Sacudiu-me levemente, para enfatizar suas palavras.
        - Jamie no ia querer que eu jogasse fora a vida de homens bons numa aventura v. Sabe disso tanto quanto eu.
        No consegui mais conter as lgrimas. Elas queimaram pelo meu rosto gelado enquanto eu o empurrava, procurando me libertar de suas mos. Mas ele me segurou 
com mais fora, tentando forar minha cabea a descansar no seu ombro.
        - Claire, minha querida - disse, a voz ainda mais terna. - Meu corao di pelo rapaz... e por voc. Venha comigo. Eu a levarei em segurana. Para a minha 
prpria casa - acrescentou apressadamente, sentindo meu corpo retesar-se. - No para Leoch.
        - Para a sua casa? - perguntei devagar. Uma terrvel suspeita comeava a se formar em minha mente.
        - Sim - respondeu. - Certamente no pensou que eu a levaria de volta a Cranesmuir, no ? - Esboou um sorriso antes de as feies severas relaxarem novamente 
em uma expresso sria. - No. Eu a levarei para Beannachd. Estar segura l.
        - Segura? - perguntei. - Ou indefesa? - Soltou os braos diante do tom da minha voz.
        - O que est querendo dizer? - A voz agradvel tornou-se subitamente fria.
        Eu mesma me sentia fria e fechei meu manto ao me afastar dele.
        - Voc manteve Jamie longe de casa dizendo-lhe que sua irm tinha dado  luz um filho de Randall - eu disse -, para que voc e seu precioso irmo tivessem 
a chance de atra-lo para o seu lado. Mas agora que os ingleses se apoderaram dele, voc perdeu qualquer oportunidade de controlar a propriedade atravs de Jamie. 
- Recuei mais um passo, engolindo em seco.
        - Voc arranjou o contrato de casamento de sua irm. Foi por sua insistncia, sua e de Colum, que Broch Tuarach tenha que pertencer a uma mulher. Voc acha 
que se Jamie morrer, Broch Tuarach pertencer a mim... ou a voc, se conseguir me convencer ou forar a me casar com voc.
        - O qu?! - Sua voz denotava total incredulidade. - Voc acha... acha que tudo isso faz parte de uma conspirao? Por Deus! Acha que estou mentindo para 
voc?
        Sacudi a cabea, mantendo a distncia entre ns. No confiava nem um pouco nele.
        - No, acredito em voc. Se Jamie no estivesse na priso, voc nunca ousaria me dizer que estava.  muito fcil verificar isso. Nem penso que o traiu entregando-o 
aos ingleses, nem mesmo voc faria tal coisa a algum do seu prprio sangue. Alm disso, se o fizesse, e seus homens ficassem sabendo, se voltariam contra voc no 
mesmo instante. Eles poderiam tolerar muita coisa de voc, mas no traio contra um membro de sua prpria famlia. - Enquanto falava, lembrei-me de outra coisa.
        - Foi voc que atacou Jamie perto da fronteira no ano passado? As grossas sobrancelhas ergueram-se de surpresa.
        - Eu? No! Eu encontrei o rapaz quase morto e o salvei! Isso faz parecer que eu queria lhe causar algum mal?
        Encoberta pelo meu manto, deslizei a mo pela coxa, sentindo o volume reconfortante da minha adaga.
        - Se no foi voc, quem foi?
        - No sei. - O belo rosto mostrava-se cauteloso, mas no parecia estar escondendo nada. - Foi um dos trs homens, vagabundos, marginais, homens que costumavam 
caar com Jamie na poca. Os trs acusaram-se mutuamente e no foi possvel descobrir a verdade na ocasio. - Deu de ombros, o manto de viagem caindo de um dos ombros 
largos.
        - No tem mais importncia agora; dois deles esto mortos e o terceiro na priso. Por outro crime, mas agora no faz muita diferena, no ?
        - No, suponho que no. - De certa forma, estava aliviada de descobrir que ele no era um assassino, por pior que fosse. No tinha nenhum motivo para mentir 
para mim agora; at onde ele sabia, eu estava completamente desamparada. Sozinha, podia me forar a fazer o que ele quisesse. Ou provavelmente era o que pensava. 
Segurei firmemente o cabo da minha adaga.
        A luz era fraca na caverna, mas eu o vigiava atentamente e pude notar a indeciso flutuar momentaneamente em seu rosto quando escolheu o prximo passo. Fez 
um movimento em minha direo, a mo estendida, mas parou quando me viu esquivar.
        - Claire. Minha querida Claire. - A voz era terna e deslizou a mo levemente, de modo insinuante, pelo meu brao. Ento, resolvera tentar a seduo ao invs 
da imposio.
        - Sei por que fala comigo com tanta frieza e por que pensa to mal de mim. Sabe que eu a desejo, Claire. E  verdade. Eu a quero desde a noite do Grande 
Encontro, quando beijei seus doces lbios. - Tocou meu ombro de leve com dois dedos e veio subindo em direo ao meu pescoo. - Se eu fosse um homem livre quando 
Randall a ameaou, teria casado com voc ali mesmo e mandado o sujeito para o inferno por voc. - Gradualmente, aproximava seu corpo do meu, imprensando-me contra 
a parede de pedra da caverna. As pontas dos seus dedos moveram-se para a minha garganta, percorrendo a linha do fecho do meu manto.
        Deve ter visto meu rosto nessa hora, porque interrompeu seus avanos, embora deixasse a mo onde estava, levemente pousada acima da pulsao acelerada na 
minha garganta.
        - Mesmo assim, mesmo sentindo o que sinto, e no vou mais esconder isso de voc, mesmo assim no pode imaginar que eu abandonaria Jamie se houvesse qualquer 
esperana de salv-lo, no ? Jamie Fraser  o que eu tenho que mais se aproxima de um filho!
        - No  bem verdade - eu disse. - H o seu filho de verdade. Ou talvez dois, a essa altura? - Os dedos na minha garganta apertaram a presso, apenas por 
um segundo, depois se afastaram.
        - O que est querendo dizer? - Desta vez, todos os fingimentos, todos os jogos, foram deixados de lado. Os olhos cor de avel fitavam-me intensamente e os 
lbios carnudos no passavam de uma linha cruel na barba avermelhada. Ele era muito grande e estava muito perto de mim. Mas eu j tinha ido longe demais para ter 
cautela.
        - Quero dizer que sei quem  o verdadeiro pai de Hamish - disse. Ele j parecia esperar por isso e manteve o rosto sob controle, mas o ltimo ms passado 
fazendo previses do futuro no fora em vo. Vi o minsculo lampejo de choque que arregalou seus olhos e o pnico repentino, rapidamente sufocado, que endureceu 
os cantos de sua boca.
        Na mosca. Apesar do perigo, experimentei uma feroz exultao por um breve instante. Ento, eu estava certa e o conhecimento talvez pudesse ser a arma de 
que eu precisava.
        - Sabe, ento? - murmurou.
        - Sim - eu disse - e imagino que Colum tambm saiba.
        Isso o fez parar por um instante. Os olhos castanho-dourados se estreitaram e me perguntei por um instante se ele estaria armado.
        - Acho que durante algum tempo ele pensou que fosse de Jamie - eu disse, fitando-o diretamente nos olhos. - Por causa dos boatos. Voc deve ter espalhado 
isso, atravs de Geillis Duncan. Por qu? Porque Colum suspeitou de Jamie e comeou a interrogar Letitia? Ela no iria agentar por muito tempo a presso dele. Ou 
foi Geilie que achou que voc fosse amante de Letitia e voc lhe disse que era Jamie para apaziguar suas suspeitas? Ela  uma mulher ciumenta, mas no pode ter mais 
nenhuma razo para proteg-lo agora.
        Dougal sorriu cruelmente. O gelo no desapareceu de seu olhar nem por um instante.
        - No, no pode - concordou, ainda falando suavemente. - A bruxa est morta.
        - Morta! - O choque deve ter ficado to claramente estampado em meu rosto quanto em minha voz. Seu sorriso ampliou-se.
        - Ah, sim - disse. - Queimada. Primeiro, teve os ps mergulhados num barril de piche e enfiado em um monte de turfa seca. Foi amarrada a um poste e incendiada 
como uma tocha. Enviada para o diabo em uma coluna de fogo, sob os ramos de uma sorveira-brava.
        A princpio, pensei que aquela descrio impiedosa dos detalhes tivesse a inteno de me impressionar, mas eu estava errada. Mudei de posio e a luz bateu 
em cheio em seu rosto. Pude ver as marcas de dor gravadas em torno de seus olhos. No era uma lista de horrores, portanto, mas um ataque a si mesmo. No senti nenhuma 
pena dele, nas circunstncias.
        - Ento, voc gostava dela - eu disse friamente. - Grande bem isso fez a ela. Ou  criana. O que fez com ela?
        Encolheu os ombros.
        - Fiz com que fosse para uma boa famlia. Um menino, e muito saudvel, apesar de a me ser uma bruxa e uma adltera.
        - E o pai um adltero e um traidor - retorqui. - Sua mulher, sua amante, seu sobrinho, seu irmo. H algum que no tenha trado e enganado? Seu... seu... 
- As palavras sufocaram-se na minha garganta e me senti nauseada de asco. - No sei por que estou surpresa - disse, tentando falar calmamente. - Se no tem nenhuma 
lealdade ao seu rei, suponho que no haja razo para achar que tivesse pelo sobrinho ou pelo irmo.
        Virou-se bruscamente para mim, fitando-me com raiva. Ergueu as sobrancelhas grossas e escuras, do mesmo formato das sobrancelhas de Colum, de Jamie, de Hamish. 
Os olhos fundos, as largas mas do rosto, o crnio belamente modelado. O legado do velho Jacob MacKenzie era forte.
        Sua mo grande e forte agarrou meu ombro.
        - Meu irmo? Acha que eu trairia meu irmo? - Por alguma razo aquilo o atingira; seu rosto estava sombrio de dio.
        - Voc acabou de admitir que o fez! - Ento, compreendi.
        - Vocs dois juntos - eu disse devagar. - Fizeram isso juntos, voc e Colum. Juntos, como sempre fizeram tudo. - Retirei sua mo do meu ombro com um gesto 
brusco.
        - Colum no podia ser o chefe do cl, a menos que voc fosse  guerra por ele. No podia manter o cl unido, sem voc para viajar por ele, coletar os aluguis 
e resolver as disputas. Ele no podia montar, no podia viajar. E no podia gerar um filho, que deveria herdar seu legado. E voc no teve nenhum filho homem com 
Maura. Jurou ser seus braos e suas pernas - a essa altura, eu estava comeando a me sentir um pouco histrica -, por que no poderia ser seu pau tambm?
        A raiva de Dougal se desvanecera; ficou parado, olhando-me especulativamente por um instante. Concluindo que eu no ia a parte alguma, sentou-se em um dos 
fardos de mercadorias e esperou que eu terminasse.
        - Ento voc agiu com o conhecimento de Colum. E Letitia aceitou de boa vontade? - Conhecendo agora exatamente o tipo de brutalidade que possuam, eu no 
desconsiderava a possibilidade de Letitia ter sido forada pelos irmos MacKenzie.
        Dougal balanou a cabea. Sua raiva se dissipara.
        - Ah, sim, aceitou perfeitamente. Ela no gostava de mim, mas queria um filho, o suficiente para aceitar-me em sua cama pelos trs meses que foram precisos 
para gerar Hamish. E foi uma tarefa bastante enfadonha -Dougal acrescentou pensativamente, raspando um pouco de lama seca do salto de suas botas. - Eu preferia fazer 
sexo com uma tigela morna de pudim de leite.
        - E voc disse isso a Colum? - perguntei. Ouvindo o tom cortante em minha voz, ergueu os olhos. Fitou-me diretamente por um instante, depois um leve sorriso 
iluminou seu rosto.
        - No - disse serenamente. - No, eu no disse isso a ele. - Abaixou os olhos para as mos, virando-as como se procurasse algum segredo oculto nas linhas 
das palmas.
        - Eu disse a ele - continuou, a voz baixa - que ela era doce e meiga como um pssego maduro e tudo que um homem poderia desejar numa mulher.
        Fechou as mos subitamente e ergueu os olhos para mim, aquele vislumbre momentneo do irmo de Colum submergiu mais uma vez nos olhos sarcsticos de Dougal 
MacKenzie.
        - Meiga e doce no  precisamente o que eu diria de voc - observou. - Mas tudo que um homem poderia desejar... - Os olhos fundos, cor de avel, viajaram 
de cima a baixo do meu corpo, demorando-se no volume arredondado dos seios e quadris, visveis pelo meu manto aberto. Uma das mos moveu-se inconscientemente para 
cima e para baixo nos msculos da coxa enquanto me observava.
        - Quem sabe? - disse, como se falasse consigo mesmo. - Talvez eu ainda venha a ter outro filho, legtimo, desta vez.  bem verdade - inclinou a cabea de 
forma avaliadora, olhando para o meu ventre - que ainda no aconteceu com Jamie. Talvez voc seja estril. Mas correrei o risco. A propriedade vale isso, de qualquer 
forma.
        Levantou-se de repente e deu um passo em minha direo.
        - Quem sabe? - repetiu, a voz branda*"* Se eu arasse este belo sulco de plos castanhos e semeasse bem fundo todos os dias... - As sombras nas paredes da 
caverna moveram-se subitamente quando ele deu mais um passo na minha direo.
        - Bem, voc custou a chegar - eu disse, com raiva.
        Uma expresso de choque e incredulidade espalhou-se pelas suas feies antes de perceber que eu olhava para alm dele, na direo da entrada da caverna.
        - No me pareceu educado interromper - disse Murtagh, avanando para dentro da caverna, por trs de duas pistolas carregadas. Manteve uma apontada para Dougal 
e usou a outra para gesticular.
        - A menos que voc pretenda aceitar esta ltima proposta aqui mesmo e agora, sugiro que saia. E se realmente pretender aceit-la, ento eu irei embora.
        - Ningum vai embora ainda - eu disse, sucintamente. - Sente-se -ordenei a Dougal. Ele ainda estava de p, olhando espantado para Murtagh como se visse uma 
apario.
        - Onde est Rupert? - perguntou, achando a voz.
        - Ah, Rupert. - Murtagh coou o queixo pensativamente com a boca da arma. -  provvel que j tenha chegado a Belladrum. Volta antes do nascer do dia - acrescentou 
a ttulo de informao -, com o pequeno barril de rum que ele acha que voc mandou-o buscar. O resto dos seus homens ainda est dormindo em Quinbrough.
        Dougal teve a elegncia de rir, ainda que um pouco a contragosto. Sentou-se outra vez, as mos nos joelhos, e olhou de mim para Murtagh e de novo para mim. 
Houve um silncio momentneo.
        - Bem - Dougal disse. - E agora?
        Essa era uma boa pergunta. Surpresa por ter encontrado Dougal em vez de Jamie, chocada com suas revelaes e furiosa com suas propostas subseqentes, eu 
no tivera tempo de pensar no que devia ser feito. Felizmente, Murtagh estava mais bem preparado. Bem, afinal, ele no estivera ocupado em combater avanos libidinosos.
        - Vamos precisar de dinheiro - disse imediatamente. - E de homens. Lanou um olhar avaliador aos fardos empilhados junto  parede da caverna. - No - continuou 
pensativamente. - Aqueles sero para o rei Jaime. Mas ficaremos com o que tem na sua bolsa. - Os pequenos olhos negros giraram de volta a Dougal e a boca de uma 
pistola gesticulou lentamente nas vizinhanas da bolsa do seu kilt.
        Algo a ser dito em favor da vida nas Highlands  que ela aparentemente dava a uma pessoa uma certa atitude fatalista. com um suspiro, Dougal enfiou a mo 
na bolsa e atirou uma pequena sacola aos meus ps.
        - Vinte moedas de ouro e trinta e poucos xelins - disse, erguendo uma ( das sobrancelhas para mim. - Fique com eles e faa bom proveito.
        Vendo meu olhar de ceticismo, sacudiu a cabea.
        - No, estou falando srio. Pense de mim o que quiser. Jamie  filho da minha irm e, se voc puder libert-lo, que Deus a acompanhe. Mas voc no pode. 
- O tom de sua voz era fatdico.
        Olhou para Murtagh, ainda apontando suas pistolas com firmeza.
        - Quanto aos homens, no. Se voc e a rapariga pretendem cometer suicdio, no posso impedi-los. At me proponho a enterr-los, um de cada lado de Jamie. 
Mas no vo levar nenhum homem para o inferno com vocs, com ou sem pistolas. - Cruzou os braos e apoiou-se contra a parede da caverna, observando-nos calmamente.
        As mos de Murtagh no vacilaram. Mas seus olhos hesitaram, olhando para mim. Eu queria que ele atirasse?
        - Vou fazer um acordo com voc - eu disse. Dougal ergueu uma das sobrancelhas.
        - Voc est em melhor posio de fazer acordos do que eu no momento - disse. - Qual a sua proposta?
        - Deixe-me falar com seus homens - eu disse. - E se vierem comigo por vontade prpria, deixe-os vir. Se no, iremos como viemos. E ainda lhe devolveremos 
a sacola. ""*
        Um lado de sua boca torceu-se, num sorriso enviesado. Examinou-me atentamente, como se avaliasse minha capacidade de persuaso e minhas habilidades de oradora. 
Depois, sentou-se, as mos nos joelhos. Balanou a cabea uma nica vez.
        - Combinado - disse.
        Na realidade, deixamos a ravina da caverna com a bolsa de Dougal e cinco homens, alm de Murtagh e de mim mesma: Rupert, John Whitlow, Willie MacMurtry e 
os gmeos Rufus e Geordie Coulter. Foi a deciso de Rupert que influenciou os outros; eu ainda podia ver - com uma sensao de cruel satisfao - a expresso no 
rosto de Dougal quando seu tenente troncudo, de barba negra, olhou-me especulativamente, depois bateu nas armas em sua cintura e disse: "Sim, dona, por que no?"
        A Priso de Wentworth ficava a cinqenta e seis quilmetros de distncia. Um percurso de meia hora num carro veloz por boas estradas. Uma rdua tarefa de 
dois dias a cavalo pela lama semi-congelada. No por muito tempo. As palavras de Dougal ecoavam em meus ouvidos e me mantinham na sela muito depois do ponto em que 
eu teria cado de cansao.
        Meu corpo estava sendo levado ao limite para manter-me na sela atravs de todo aquele extenuante trajeto, mas minha mente estava livre para se preocupar. 
Para mant-la livre de pensamentos a respeito de Jamie, passava o tempo lembrando da minha conversa com Dougal na caverna.
        E a ltima coisa que ele me dissera. Parado do lado de fora da pequena caverna, esperando que Rupert e seus companheiros trouxessem os cavalos de um esconderijo 
mais acima do barranco, Dougal virou-se para mim repentinamente.
        - Tenho uma mensagem para voc - dissera. - Da bruxa.
        - De Geilie? - Dizer que fiquei espantada era o mnimo.
        Eu no podia ler a expresso de seu rosto na escurido, mas vi sua cabea inclinar-se, confirmando.
        - Eu a vi uma nica vez - disse em voz baixa -, quando fui pegar a criana. - Em outras circunstncias, eu talvez tivesse sentido alguma compaixo por ele, 
separando-se definitivamente de sua amante, condenada a morrer na estaca, segurando o filho que haviam gerado juntos, um filho que ele jamais poderia reconhecer. 
Mas, na situao real, minha voz foi glacial.
        - O que ela disse?
        Ele parou; no sei se era apenas a falta de vontade de revelar informaes ou se estava tentando certificar-se de suas palavras. Aparentemente, era por esta 
ltima razo, porque ele falou com muito cuidado.
        - Disse que, se eu tornasse a v-la algum dia, deveria dizer-lhe duas coisas, exatamente como ela me dissesse. A primeira era "Acho que  possvel, mas no 
sei ao certo". E a segunda... a segunda era apenas uma srie de nmeros. Ela me fez repeti-los, para ter certeza de que eu os decorara corretamente, pois deveria 
repeti-los para voc numa determinada ordem. Os nmeros eram um, nove, seis e sete. - A figura alta virou-se para mim no escuro, curiosa.
        - Significam alguma coisa para voc?
        - No - respondi, virando-me para o meu cavalo. Mas certamente significavam algo para mim.
        "Acho que  possvel." Havia apenas um significado possvel para essa frase, Ela achava, embora no tivesse certeza, que seria possvel voltar, atravs do 
crculo de pedras,  minha poca e lugar de origem. Obviamente, ela mesma no havia tentado, mas preferira -  custa da prpria vida - permanecer. Como se tivesse 
suas prprias razes. Dougal, talvez?
        Quanto aos nmeros, tambm achei que sabia o que significavam. Ela dissera os algarismos separadamente, para manter um segredo que devia guardar a sete chaves, 
mas na realidade todos faziam parte de um nico nmero. Um, nove, seis, sete. Mil novecentos e sessenta e sete. O ano do seu desaparecimento no passado.
        Senti uma certa emoo causada pela curiosidade, alm de um profundo pesar. Que pena que eu no havia visto a marca de vacina em seu brao at j ser tarde 
demais! E no entanto, se a tivesse visto antes, teria voltado ao crculo de pedras, talvez com sua ajuda, e deixado Jamie?
        Jamie. O pensamento pesava como chumbo em minha mente, um pndulo balanando lentamente na ponta de uma corda. No por muito tempo. A estrada estendia-se 
infindvel e sombria  nossa frente, s vezes reduzindo-se completamente a pntanos congelados ou amplos lenis d'gua que um dia haviam sido prados e charnecas. 
Numa garoa congelada que logo se transformaria em neve, chegamos ao nosso objetivo no incio da noite do segundo dia.
        A construo assomava, negra, contra o cu nublado. Construda no formato de um cubo gigantesco, com cento e vinte metros de lado, com uma torre em cada 
canto, podia abrigar trezentos prisioneiros, mais os quarenta soldados da guarnio e seu comandante, o governador civil e sua equipe e os quarenta e oito cozinheiros, 
ordenanas, cavalarios e outros subalternos necessrios  administrao do estabelecimento. Priso de Wentworth.
        Ergui os olhos para as muralhas assustadoras de granito esverdeado da regio de Argyll, com sessenta centmetros de espessura na base. Pequenas janelas perfuravam 
as muralhas aqui e ali. Algumas comeavam a cintilar com luz. Outras, que presumi serem as celas dos prisioneiros, permaneciam s escuras. Engoli em seco. Vendo 
o slido edifcio, com suas muralhas intransponveis, seu porto monumental e os guardas ingleses em seus casacos vermelhos, comecei a ter dvidas.
        - E se... - Minha boca estava seca e tive que parar e umedecer os lbios com a lngua. - E se no conseguirmos?
        A expresso de Murtagh era a mesma de sempre: a boca implacvel e o queixo estreito e obstinado, retraindo-se para dentro do colarinho sujo de sua camisa. 
No se alterou quando se voltou para mim.
        - Ento, Dougal nos enterrar com ele, um de cada lado - respondeu. - Vamos, h trabalho a fazer.
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
PARTE VII
SANTURIO



35 - PRISO DE WENTWORTH
        
        Sir Fletcher Gordon era um homem baixo e corpulento, cujo colete de seda listrada caa-lhe como uma segunda pele. De ombros curvos e barriga saliente, parecia 
um grande pernil sentado na cadeira de espaldar oval do governador.
        A cabea careca e o rosado intenso de sua compleio no ajudavam a desfazer essa impresso, embora poucos pernis pudessem ostentar olhos azuis to brilhantes. 
Ele virou o mao de papis sobre sua escrivaninha com o dedo indicador, lenta e deliberadamente.
        - Sim, aqui est - disse, aps uma pausa interminvel para ler uma pgina. - Fraser, James. Culpado de assassinato. Condenado  forca. Agora, onde est a 
Autorizao de Execuo? - Fez nova pausa, remexendo os papis como um mope. Enfiei os dedos com fora no cetim da minha pequena bolsa, esforando-me para manter 
uma expresso impenetrvel.
        - Ah, sim. Data de execuo, 23 de dezembro. Sim, ainda o temos. Engoli em seco, relaxando as mos que agarravam a bolsa, dividida entre exultao e pnico. 
Ento, ele ainda estava vivo. Por mais dois dias. E estava perto, em algum lugar no mesmo prdio que eu. O conhecimento desse fato alvoroou o sangue em minhas veias 
com uma descarga de adrenalina e minhas mos tremeram.
        Sentei-me mais para a frente na cadeira de visitas, tentando parecer comoventemente suplicante.
        - Posso v-lo, sir Fletcher? S um instante, no caso de ele... ele querer mandar uma mensagem  sua famlia?
        Disfarada de uma amiga inglesa da famlia Fraser, achara razoavelmente fcil ser admitida em Wentworth e ao gabinete de sir Fletcher, governador civil da 
priso. Era perigoso pedir para ver Jamie; sem a minha histria de cobertura, ele poderia muito facilmente descobrir quem eu realmente era se eu aparecesse de repente, 
sem aviso. Na verdade, eu mesma poderia me entregar; no tinha certeza, em absoluto, que poderia manter meu precrio autocontrole se o visse. Mas o prximo passo 
era evidentemente descobrir onde ele estava; naquele enorme e superpovoado viveiro de coelhos, as chances de encontr-lo sem saber para onde se dirigir eram praticamente 
nulas.
        Sir Fletcher franziu o cenho, pensando. Obviamente, ele considerava um aborrecimento este pedido de uma mera conhecida da famlia, mas no era um homem insensvel. 
Finalmente, sacudiu a cabea com relutncia.
        - No, minha querida. No, receio que realmente no possa permitir isso. Estamos superlotados no momento e no temos instalaes adequadas para permitir 
entrevistas particulares. E o homem no momento est - consultou sua pilha de papis outra vez - em uma das celas grandes na ala oeste, com diversos outros criminosos 
condenados. Seria extremamente perigoso para a senhora visit-lo l, ou simplesmente visit-lo. O homem  um prisioneiro perigoso, sabe; estou vendo aqui que ns 
o estamos mantendo acorrentado desde que chegou.
        Agarrei minha bolsa outra vez; desta vez, para no agredi-lo. Sacudiu a cabea outra vez, o peito gordo subindo e descendo com sua respirao laboriosa.
        - No, se fosse um membro da famlia dele, talvez... - Ergueu os olhos, piscando. Cerrei o maxilar com fora, determinada a no deixar transparecer nada 
em minhas feies. Sem dvida, uma leve demonstrao de agitao seria razovel, nas circunstncias.
        - Mas talvez, minha querida... - Pareceu atingido por uma sbita inspirao. Levantou-se com dificuldade e dirigiu-se a uma porta interna, onde um soldado 
uniformizado montava guarda. Murmurou alguma coisa para o sujeito, que balanou a cabea uma nica vez e desapareceu.
        Sir Fletcher retornou  sua escrivaninha, parando no meio do caminho para retirar uma jarra de vinho e copos da parte de cima de um armrio. Aceitei sua 
oferta de clarete; estava mesmo precisando.
        Estvamos no meio do segundo copo quando o guarda retornou. Entrou sem bater, colocou uma caixa de madeira sobre a escrivaninha, junto ao cotovelo de sir 
Fletcher, e virou-se para sair marchando outra vez. Percebi seu olhar demorando-se em mim e recatadamente abaixei os olhos. Estava usando um vestido emprestado de 
uma conhecida de Rupert na cidade vizinha e, pelo perfume que saturava o vestido e pela bolsinha de seda combinando com ele, eu fazia uma boa idia de qual era a 
profisso daquela senhora em particular. Esperava que o guarda no reconhecesse o vestido.
        Esvaziando seu copo, sir Fletcher colocou-o sobre a escrivaninha e puxou a caixa para si. Era uma caixa simples e quadrada de madeira rstica, com uma tampa 
de correr. Havia letras escritas a giz na tampa. Eu podia l-las, mesmo de cabea para baixo. FRAYSER, diziam.
        Sir Fletcher deslizou a tampa, espreitou dentro da caixa por um instante, em seguida fechou-a e empurrou-a na minha direo.
        - Os objetos pessoais do prisioneiro - explicou. - Normalmente, ns a enviamos para quem o prisioneiro designar como o parente mais prximo, aps a execuo. 
Este homem, entretanto - sacudiu a cabea -, recusou-se a dizer qualquer coisa sobre sua famlia. Algum desafeto, sem dvida. No  incomum,  claro, mas lamentvel, 
nas circunstncias.
        Hesito em fazer o pedido, sra. Beauchamp, mas achei que talvez, j que conhece a famlia, poderia se encarregar de entregar os pertences dele  pessoa adequada?
        No me considerei em condies de falar, mas concordei com um aceno da cabea e enterrei o nariz no copo de clarete.
        Sir Fletcher pareceu aliviado, por conseguir livrar-se da caixa ou  idia da minha partida iminente. Recostou-se em sua cadeira, chiando levemente ao respirar, 
e sorriu abertamente para mim.
        -  muita bondade sua, sra. Beauchamp. Sei que isso s pode ser um dever doloroso para uma jovem sensvel e agradeo muito a sua bondade em aceit-lo, asseguro-lhe.
        - N-no h de qu - balbuciei. Consegui levantar-me e pegar a caixa. Media aproximadamente vinte por quinze centmetros, com dez ou doze de altura. Uma caixa 
pequena, leve, para conter os pertences da vida de um homem.
        Eu sabia o que ela continha. Trs linhas de pescar, cuidadosamente enroladas; uma cortia com anzis presos; um pedao de slex e um de metal; um caco de 
vidro, as bordas desgastadas pelo uso; diversas pedras pequenas que pareciam interessantes ou proporcionavam uma boa sensao entre os dedos; um p seco de toupeira, 
carregado como um amuleto contra reumatismo. Uma Bblia - ou talvez o tivessem deixado ficar com ela? Esperava que sim. Um anel de rubi, se no tivesse sido roubado. 
E uma pequena cobra de madeira, esculpida em cerejeira, com o nome SAWNY gravado na parte de baixo.
        Parei junto  porta, agarrando-me ao batente para me firmar.
        Sir Fletcher, que me acompanhava educadamente at a porta, numa frao de segundo estava ao meu lado.
        - Sra. Beauchamp! Est se sentindo tonta, minha querida? Guarda, uma cadeira!
        Podia sentir o suor frio aflorando nos lados do meu rosto, mas consegui sorrir e fazer um aceno descartando a necessidade de uma cadeira. O que eu mais queria 
era sair dali - precisava de ar fresco, em grandes quantidades. E precisava ficar sozinha para chorar.
        - No, estou perfeitamente bem - disse, tentando parecer convincente. -  que... est um pouco abafado aqui, eu acho. No se preocupe, vou ficar bem. Meu 
cavalario est me aguardando l fora, de qualquer modo.
        Forando-me a ficar empertigada e a sorrir, tive uma idia. Talvez no ajudasse, mas no faria mal tentar.
        - Ah, sir Fletcher...
        Ainda preocupado com minha aparncia, era todo cavalheirismo e atenes.
        - Sim, minha querida?
        - Ocorreu-me... Como  triste para um homem nesta situao estar alienado de sua famlia. Achei que talvez... se ele quisesse escrever para eles... uma carta 
de reconciliao, talvez? Eu teria prazer em entreg-la a sua me.
        - Voc  a considerao em pessoa, minha querida. - Sir Fletcher mostrava-se alegre, agora que ficou claro que, afinal de contas, eu no iria desmaiar em 
seu tapete. -  claro. Vou mandar perguntar. Onde est hospedada, minha querida? Se houver uma carta, eu a enviarei  senhora.
        - Bem - eu estava me saindo melhor com um sorriso, embora ele parecesse petrificado em meu rosto. - Isso  meio incerto no momento. Tenho vrios parentes 
e amigos na cidade, com quem receio terei que alternar minha estada, para ningum ficar ofendido, entende? - Consegui esboar um sorriso.
        - Assim, se isso no for perturb-lo demais, ser que meu cavalario poderia vir perguntar sobre a carta?
        - Claro, claro. Excelente idia, minha querida! Excelente!
        E com um olhar rpido de volta  sua jarra de vinho, segurou meu brao para me escoltar at o porto.
        - Est melhor, dona? - Rupert empurrou para trs a cortina dos meus cabelos para espreitar meu rosto. - Est parecendo uma barriga de porco mal-conservada. 
Tome,  melhor beber mais um gole.
        Sacudi a cabea ao frasco de usque oferecido e sentei-me, tirando o trapo molhado que ele colocara sobre meu rosto.
        - No, estou bem agora. - Escoltada por Murtagh, que se disfarara de meu cavalario, mal esperei ficar fora da vista da priso para deslizar de cima do 
meu cavalo e vomitar na neve. Permaneci ali, chorando, com a caixa de Jamie agarrada ao peito, at Murtagh me obrigar a me recompor fisicamente e montar, conduzindo-me 
em seguida a uma pequena hospedaria na cidade de Wentworth onde Rupert encontrara alojamentos. Estvamos num quarto no andar de cima, de onde o vulto do edifcio 
da priso mal era visvel na penumbra cada vez mais fechada.
        - Ento o rapaz est morto? - O rosto largo de Rupert, parcialmente oculto pela barba, era grave e compassivo, sem nenhum trao do seu habitual ar fanfarro.
        Sacudi a cabea e respirei fundo.
        - Ainda no.
        Depois de ouvir minha histria, Rupert ficou andando devagar pelo quarto, cerrando e descerrando os lbios, enquanto pensava. Murtagh permanecia sentado, 
imvel, como de costume, sem nenhum sinal de agitao nas feies. Ele daria um excelente jogador de pquer, pensei.
        Rupert voltou, deixando-se afundar na cama ao meu lado com um suspiro.
        - Bem, ele ainda est vivo e isso  o que importa. Mas no fao a menor idia do que devemos fazer em seguida. No temos como entrar no lugar.
        - Sim, temos - Murtagh disse, subitamente. - Graas  idia da moa sobre a carta.
        - Mmmmhum. Mas apenas um homem. E apenas at o gabinete do governador. Mas j  um comeo. - Rupert tirou sua adaga e coou a espessa barba com a ponta, 
distraidamente. -  um lugar desgraadamente grande para procurar.
        - Sei onde ele est - eu disse, sentindo-me melhor com o planejamento e com a constatao de que meus companheiros no estavam desistindo, por mais impraticvel 
que nossa operao pudesse parecer. - Ao menos sei em que ala ele est.
        - Sabe, ento? Humm. - Recolocou a adaga na bainha e retomou suas passadas pelo quarto, parando para perguntar: - Quanto dinheiro tem, dona?
        Remexi no bolso do meu vestido. Eu tinha a sacola de Dougal, o dinheiro que Jenny me obrigara a aceitar e meu colar de prolas. Rupert rejeitou as prolas, 
mas pegou a sacola, despejando uma fileira de moedas na palma da mo espaosa.
        - Ser o suficiente - disse, fazendo-as retinir experimentalmente na mo. Virou-se para os gmeos Coulter.
        - Vocs dois e Willie venham comigo. John e Murtagh podem permanecer aqui com a moa.
        - Aonde vo? - perguntei.
        Guardou as moedas na bolsa em sua cintura, conservando uma, que atirou pensativamente no ar.
        - Ah - exclamou vagamente. - Acontece que h uma outra estalagem, no outro lado da cidade. Os guardas da priso vo l quando esto de folga, porque  mais 
perto e a bebida  um centavo mais barata. - Lanou a moeda no ar para tirar cara ou coroa e, virando a mo, pegou-a entre dois ns dos dedos.
        Observei-o, com uma idia cada vez mais clara de suas intenes.
        -  mesmo? - eu disse. - Por acaso eles tambm jogam cartas l?
        - Eu no sei, dona, no sei - respondeu. Atirou a moeda no ar mais uma vez e bateu as duas mos, pegando-a, depois abriu as mos, para mostrar as palmas 
vazias. Sorriu, os dentes brancos na barba negra.
        - Mas temos que ir ver, no ? - Estalou os dedos e a moeda apareceu outra vez entre eles.
        Pouco depois de uma hora da tarde seguinte, passei novamente por baixo do porto corredio e provido de estacas afiadas que guardava a entrada de Wentworth 
desde a sua construo no final do sculo XVI. Tinha perdido muito pouco do seu aspecto ameaador nos duzentos anos seguintes e eu toquei a adaga no meu bolso para 
ganhar coragem.
        Sir Fletcher devia estar agora absorvido em sua refeio do meio do dia, segundo as informaes que Rupert e seus assistentes espies haviam extrado dos 
guardas da priso durante sua incurso  noite passada. Chegaram cambaleando, os olhos vermelhos e cheirando a cerveja, pouco antes do raiar do dia. Tudo que Rupert 
conseguiu dizer em resposta s minhas perguntas foi: "Ah, dona, para ganhar basta ter sorte. Mas para perder,  preciso habilidade!" Depois, enroscou-se no canto 
e foi dormir profundamente, deixando-me frustrada, andando de um lado para o outro no quarto, como fizera a noite inteira.
        No entanto, acordou uma hora depois, com os olhos e a mente claros, e explicou os rudimentos do plano que eu estava prestes a pr em execuo.
        - Sir Fletcher no permite que ningum ou nada perturbe suas refeies - disse. - Qualquer um que queira falar com ele tem que ficar esperando at ele acabar 
sua comida e bebida. E depois da refeio do meio-dia, tem o hbito de se retirar para seus aposentos para uma soneca.
        Murtagh, disfarado de meu cavalario, chegara quinze minutos antes e fora admitido sem dificuldade. Provavelmente, seria conduzido ao gabinete de Fletcher 
e solicitado a esperar. Enquanto estivesse l, deveria dar uma busca no escritrio, primeiro para encontrar uma planta da ala oeste e, depois, uma possibilidade 
remota, para encontrar as chaves que pudessem abrir as celas.
        Demorei-me um pouco, olhando para o cu para avaliar as condies do tempo. Se eu chegasse antes de Fletcher sentar-se para almoar, poderia ser convidada 
a juntar-me a ele para o almoo, o que seria altamente inconveniente. Mas os parceiros de jogos de Rupert entre os guardas asseguraram-lhe que os hbitos do governador 
eram imutveis; o sino para anunciar o almoo era tocado pontualmente  uma hora e a sopa servida cinco minutos depois.
        O guarda de servio na entrada era o mesmo do dia anterior. Pareceu surpreso, mas cumprimentou-me educadamente.
        - To constrangedor - eu disse -, mandei meu cavalario trazer um pequeno presente para sir Fletcher, como agradecimento pela sua gentileza comigo ontem. 
Mas descobri que o tolo veio sem ele e assim fui obrigada a segui-lo com o presente eu mesma, na esperana de alcan-lo. Ele j chegou? - Mostrei o pequeno embrulho 
que trouxera e sorri, pensando que ajudaria se eu tivesse covinhas. Como no tinha, me contentei com uma brilhante exibio de dentes.
        Pareceu o suficiente. Fui admitida e conduzida pelos corredores da priso em direo ao gabinete do governador. Embora esta parte do castelo fosse decentemente 
mobiliada, no havia como negar que se tratava de uma priso. Havia um cheiro caracterstico no lugar, que eu imaginava ser o cheiro do medo e da infelicidade, embora 
provavelmente no passasse do fedor de imundcies antigas e ausncia de canos de esgoto.
        O guarda deixou que eu o precedesse pelo corredor, seguindo-me discretamente com cuidado para no pisar no meu manto. E isso foi timo, porque virei o corredor 
em direo ao gabinete de Fletcher alguns passos  sua frente, bem a tempo de ver Murtagh pela porta aberta, arrastando a figura desacordada do guarda do gabinete 
para trs da enorme escrivaninha.
        Dei um passo para trs e deixei cair o pacote no cho de pedra. Ouviu-se um barulho de vidro estilhaado e o ar encheu-se do aroma asfixiante de conhaque 
de pssego.
        - Ah, meu Deus - exclamei -, o que foi que eu fiz?
        Enquanto o guarda chamava um criado para limpar a sujeira, diplomaticamente murmurei alguma coisa sobre aguardar por sir Fletcher em seu escritrio particular, 
deslizei para dentro e apressadamente fechei a porta atrs de mim.
        - Que diabos voc fez? - perguntei rispidamente a Murtagh. Ergueu os olhos do corpo que ele vasculhava, indiferente ao tom da minha voz.
        - Sir Fletcher no guarda chaves em seu gabinete - informou-me em voz baixa -, mas este sujeitinho aqui tem um molho. - Retirou a enorme argola do casaco 
do guarda, com cuidado para que as chaves no retinissem.
        Ca de joelhos atrs dele.
        - Ah, bom servio! - exclamei. Olhei para o soldado prostrado; ao menos, ainda respirava. - E quanto  planta da priso?
        Ele sacudiu a cabea.
        - Tambm no, mas meu amigo aqui me contou alguma coisa enquanto espervamos. As celas dos condenados ficam neste mesmo andar, na metade do corredor oeste. 
Mas h trs celas e no pude perguntar mais do que isso. Ele j estava ficando desconfiado.
        -  o suficiente, espero. Tudo bem, me d as chaves e saia.
        - Eu?  voc quem deve sair, dona, e agora mesmo. - Lanou um olhar para a porta, mas no se ouvia nenhum rudo do outro lado.
        - No, tem que ser eu - disse, estendendo as mos para as chaves outra vez. - Oua - insisti, com impacincia. - Se o encontram perambulando pela priso 
com um molho de chaves, e o guarda aqui inerte como um peixe, estamos os dois perdidos. Como vamos explicar o fato de eu no ter gritado pedindo ajuda? - Arranquei 
as chaves da mo dele e enfiei-as no bolso, com alguma dificuldade.
        Murtagh ainda parecia ctico, mas pusera-se de p.
        - E se voc for apanhada?
        - Eu desmaio - disse rispidamente. - E quando acordar, finalmente, direi que eu o vi aparentemente matando o guarda e sa correndo apavorada, sem a menor 
idia para onde estava indo. Me perdi buscando ajuda.
        Ele assentiu devagar.
        - Sim, est bem. - Dirigiu-se para a porta, depois parou.
        - Mas por que eu... ah. - Atravessou a sala rapidamente at a escrivaninha e abriu uma gaveta atrs da outra, remexendo o contedo com uma das mos e atirando 
objetos no cho com a outra.
        - Roubo - explicou, voltando para a porta. Abriu uma fresta e espreitou o corredor.
        - Se  roubo, no deveria levar alguma coisa? - sugeri, olhando  volta, em busca de alguma coisa pequena e fcil de ser levada. Peguei uma pequena caixa 
de rap esmaltada. - Isto, talvez?
        Fez um gesto impaciente para mim para que a recolocasse no lugar, ainda espreitando pela pequena abertura.
        - No, dona! Se for encontrado com algum objeto de sir Fletcher,  crime para enforcamento. Tentativa de roubo  apenas aoite ou mutilao.
        - Ah. - Devolvi a caixa apressadamente ao seu lugar e posicionei-me atrs dele, espreitando por cima de seu ombro. O corredor parecia vazio.
        - Eu vou primeiro - disse. - Se eu encontrar algum, os atrairei para fora daqui. Conte at trinta, depois v. Ns a encontraremos na pequena floresta ao 
norte. - Abriu a porta, em seguida parou e voltou.
        - Se for apanhada, lembre-se de jogar as chaves fora. - Antes que eu pudesse falar, ele passou pela porta como uma enguia e desceu o corredor, movendo-se 
silenciosamente como uma sombra.
        Pareceu uma eternidade at encontrar a ala oeste, esgueirando-me pelos corredores do velho castelo, espreitando pelos cantos e escondendo-me atrs de colunas. 
Mas vi apenas um guarda no caminho e consegui evit-lo recuando at um canto, comprimindo-me contra a parede com o corao disparado at ele passar.
        No entanto, quando encontrei a ala oeste, no tive dvidas de que estava no lugar certo. Havia trs portas grandes no corredor, cada qual com uma minscula 
janela com barras de ferro, pela qual eu no conseguia mais do que um frustrante vislumbre da cela.
        - Sem pensar dirigi-me  cela do meio. As chaves na argola no estavam identificadas, mas tinham tamanhos diferentes. Obviamente, apenas uma das trs maiores 
serviria na fechadura  minha frente. Naturalmente, era a terceira. Respirei fundo quando ouvi o clique da fechadura, depois limpei o suor das mos na saia e abri 
a porta.
        Procurei freneticamente entre a massa ftida de homens na cela, tropeando em ps e pernas estendidas, empurrando corpos pesados que se deslocavam do meu 
caminho com uma indolncia enlouquecedora. A agitao ocasionada pela minha entrada repentina espalhou-se; os que estavam dormindo em meio  imundcie no cho comearam 
a se sentar, acordados pelo ondulante murmrio de espanto. Alguns estavam algemados s paredes; as correntes rangiam e chocalhavam na semi-escurido conforme se 
moviam. Agarrei um dos homens de p, um escocs de barba castanha num tart esfarrapado, verde e amarelo. Os ossos do seu brao sob minha mo estavam assustadoramente 
junto  pele; os ingleses no desperdiavam nenhuma sobra de comida com seus prisioneiros.
        - James Fraser! Um homem grande, ruivo! Ele est nesta cela? Onde ele est?
        Ele j se deslocava para a porta com os outros que no estavam acorrentados, mas parou por um instante para me fitar. Os prisioneiros agora haviam percebido 
o que se passava e atravessavam a porta aberta num fluxo arrastado, espreitando e murmurando uns com os outros.
        - Quem? Fraser? Ah, eles o levaram hoje de manh. - O homem deu de ombros e empurrou minhas mos, tentando livrar-se de mim.
        Segurei-o pelo cinto com tal fora que o fiz parar onde estava.
        - Para onde o levaram? Quem o levou?
        - No sei para onde; foi o capito Randall que o levou, um monstro mal-encarado,  o que ele . - Com um safano impaciente, livrou-se de mim e dirigiu-se 
para a porta com passos determinados por um propsito h muito acalentado.
        Randall. Fiquei parada, perplexa, por um instante, empurrada pelos homens em fuga, surda aos gritos dos acorrentados. Finalmente, consegui sair do meu estupor 
e tentei pensar. Geordie observara o castelo desde o amanhecer. Ningum deixara o castelo de manh, a no ser um pequeno grupo da cozinha que sara em busca de suprimentos. 
Portanto ainda estavam ali, em algum lugar.
        Randall era um capito; provavelmente no havia ningum com mais autoridade na guarnio de uma priso, a no ser o prprio Fletcher. Assim, Randall certamente 
poderia usar as dependncias do castelo de modo a criar para si um local onde pudesse torturar um prisioneiro como bem lhe aprouvesse.
        E sem dvida tratava-se de tortura. Ainda que fosse terminar em enforcamento, o homem que eu vira em Fort William era um felino por natureza. Ele no resistiria 
a brincar com aquele camundongo em particular, to certo como dois e dois so quatro.
        Respirei fundo, afastando da mente com determinao qualquer pensamento do que poderia ter acontecido desde a manh e corri para a porta eu mesma, esbarrando 
violentamente em um soldado ingls que entrava apressado. O sujeito cambaleou para trs e tentou manter o equilbrio com vrios passinhos em ziguezague. Eu mesma 
perdi o equilbrio e me choquei com o batente da porta, ficando com o lado esquerdo dormente e batendo a cabea. Agarrei-me ao batente da porta para me apoiar, o 
tilintar de sinos repicando nos meus ouvidos com ecos das palavras de Rupert: Se tiver um momento de surpresa, dona, use-o!
        Era difcil dizer, pensei atordoada, quem estava mais surpreso. Tateei desvairadamente pelo bolso onde estava a adaga, amaldioando minha estupidez por no 
ter entrado na cela j armada.
        O soldado ingls, uma vez recuperado o equilbrio, fitava-me espantado com a boca aberta, mas pude sentir que meu momento de surpresa j escapara de minhas 
mos. Abandonando o bolso fugidio, inclinei-me e arranquei a adaga da minha meia em um movimento que continuou para cima com toda a fora que pude arregimentar. 
A ponta da faca atingiu o soldado bem embaixo do queixo enquanto ele levava a mo  cintura. Suas mos ergueram-se a meio caminho da garganta, depois, com um olhar 
de surpresa, cambaleou para trs at a parede e deslizou por ela em cmara lenta, conforme a vida esvaa-se de seu corpo. Como eu, ele fora investigar sem se dar 
ao trabalho de sacar a arma primeiro e esse pequeno descuido custara-lhe a vida. A graa de Deus salvara-me deste erro; no podia cometer mais nenhum. Sentindo muito 
frio, passei por cima do corpo que se contorcia, tendo o cuidado de no olhar.
        Retornei correndo pelo caminho por onde viera, at a curva junto s escadas. Havia um lugar ali junto  parede de onde eu no poderia ser vista de nenhum 
dos lados. Apoiei-me na parede e me permiti um momento de nusea e tremor.
        Limpando as mos suadas na saia, tirei a adaga do bolso. Agora, era minha nica arma; no tive nem tempo nem estmago para recuperar a faca que levava na 
meia. Talvez fosse melhor assim, pensei, esfregando os dedos no corpete; houve bem pouco sangue e encolhi-me diante da idia do jato que se seguiria se eu tivesse 
retirado a faca.
        Com a adaga firmemente segura na mo, espreitei cautelosamente o corredor. Os prisioneiros que inadvertidamente libertara haviam ido para a esquerda. No 
tinha a menor idia do que pretendiam fazer, mas certamente iriam manter os guardas ocupados. Sem nenhum motivo para preferir uma direo em relao a outra para 
a minha busca, fazia sentido me afastar de qualquer tumulto que estivessem causando.
        A luz que penetrava pela fenda da alta janela caa enviesada sobre mim; portanto, aquele era o lado oeste do castelo. Eu tinha que manter minha orientao 
enquanto me deslocava, j que Rupert estaria esperando por mim perto do porto sul.
        Escadas. Forcei minha mente entorpecida a pensar, tentando raciocinar onde deveria ficar o local que estava procurando. Se voc quisesse torturar algum, 
provavelmente iria querer privacidade e isolamento de som. Ambas as consideraes apontavam para uma masmorra isolada como o lugar mais provvel. E as masmorras 
em castelos como aquele em geral ficam no subsolo, onde toneladas de terra abafavam qualquer grito e a escurido escondia todas as crueldades dos olhos dos responsveis.
        A parede arredondava-se numa curva no final do corredor; eu alcanara uma das quatro torres do castelo - e as torres tinham escadas.
        A escada em espiral abria-se em outra curva, os degraus triangulares mergulhavam em lances que davam vertigens e enganavam os olhos, fazendo torcer os tornozelos. 
O mergulho da luz relativa do corredor para a escurido do poo das escadas tornava ainda mais difcil avaliar a distncia de um degrau para o outro e escorreguei 
vrias vezes, esfolando os ns dos dedos e arranhando as palmas das mos nas paredes de pedra quando tentava me equilibrar.
        A escadaria proporcionava uma vantagem. De uma janela estreita que impedia que o vo das escadas ficasse em total escurido, eu podia ver o ptio principal. 
Ao menos, eu agora podia me orientar. Um pequeno grupo de soldados estava alinhado em perfeitas fileiras vermelhas para inspeo, mas no, aparentemente, para testemunhar 
a execuo sumria de um rebelde escocs. Havia um cadafalso no ptio, negro e assustador, mas desocupado. A viso do cadafalso foi como um soco no estmago. Amanh 
de manh. Desci as escadas ruidosamente, indiferente aos cotovelos arranhados e aos dedos dos ps machucados.
        Alcanando o p das escadas com um farfalhar de saias, parei para ouvir. Um silncio mortal em toda a volta, mas pelo menos aquela parte do castelo estava 
sendo usada; havia tochas nos candelabros de parede, transformando os blocos de pedra em poas vermelhas e bruxuleantes, cada qual dissolvendo-se na escurido antes 
que a poa da tocha seguinte se filtrasse em luz outra vez. A fumaa desprendida pelas tochas pairava em redemoinhos cinzas ao longo do teto abobadado do corredor.
        Havia um nico caminho a tomar a partir dali. Eu o segui, a adaga pronta na mo. Era estranho caminhar silenciosamente pelo corredor. Eu j vira outras masmorras, 
como turista, visitando castelos histricos com Frank. Mas nessas ocasies os slidos blocos de granito estavam despidos do seu ar ameaador pela luz ofuscante de 
tubos fluorescentes presos aos arcos do teto. Lembrei-me de ter me esquivado dos aposentos pequenos e midos, ainda naquela poca, depois de j estarem desativados 
h mais de cem anos. Vendo os remanescentes de mtodos antigos e horripilantes, as portas grossas e as algemas enferrujadas nas paredes, pude, pensei, imaginar os 
tormentos dos que foram mantidos prisioneiros naquelas celas assustadoras.
        Eu teria rido agora da minha ingenuidade. Havia coisas, como Dougal dissera, que a imaginao simplesmente no podia alcanar.
        Passei na ponta dos ps por portas de sete centmetros de espessura, trancadas com pesados ferrolhos; eram grossas o suficiente para abafar qualquer som 
que viesse l de dentro. Agachando-me junto ao cho, procurei uma fresta de luz debaixo de cada porta. Os prisioneiros eram deixados para apodrecerem na escurido, 
mas Randall iria precisar ver o que estava fazendo. O cho era pegajoso e encardido, coberto com uma grossa camada de poeira. Tudo indicava que aquela parte da priso 
no estava em uso atualmente. Mas as tochas indicavam que algum estava ali.
        A quarta porta no corredor mostrava a luz que eu procurava. Parei para ouvir, ajoelhando-me no cho com o ouvido de encontro  fenda, mas no ouvi nada alm 
de fogo crepitando.
        A porta no estava trancada. Abri uma pequena fresta e espreitei cautelosamente para dentro. Jamie estava l, sentado no cho, encostado na parede, curvado 
sobre si mesmo com a cabea entre os joelhos. Estava sozinho.
        A cela era pequena, mas bem iluminada, com um braseiro que de certa forma dava ao lugar um ar aconchegante e onde queimava um fogo vivo. Para uma masmorra, 
era notavelmente confortvel; as lajes de pedra do assoalho estavam bastante limpas e havia um pequeno catre encostado a uma das paredes. O aposento ainda estava 
mobiliado com duas cadeiras e uma mesa, abarrotada de inmeros objetos, inclusive uma grande jarra de metal e copos de chifre. Era uma viso surpreendente, depois 
de ter visto ratos correndo de um lado para o outro e paredes midas de infiltraes. Ocorreu-me que talvez os oficiais da guarnio tivessem mobiliado aquele lugar 
quente e agradvel como um refgio onde pudessem receber as companhias femininas que conseguissem convencer a visit-los dentro da priso; obviamente, tinha a vantagem 
da privacidade que os alojamentos no ofereciam.
        - Jamie! - chamei baixinho. Ele no levantou a cabea nem me respondeu e senti um calafrio de medo. Parando apenas o tempo suficiente para fechar a porta 
atrs de mim, atravessei o aposento rapidamente at ele e toquei em seu ombro.
        - Jamie!
        Ele ergueu os olhos; seu rosto estava lvido, barbado e brilhante com uma fina camada de suor frio que ensopara seus cabelos e sua camisa. O aposento cheirava 
a vmito e medo.
        - Claire! - exclamou, falando com voz rouca entre os lbios rachados e secos. - Como voc... tem que sair daqui agora mesmo. Ele vai voltar logo.
        - No seja ridculo. - Avaliei a situao o mais rpido possvel, na esperana de que a concentrao na tarefa mais urgente diminusse a sensao de estrangulamento 
me ajudasse a desfazer a enorme bola de gelo na boca do meu estmago.
        Ele estava acorrentado  parede pelo tornozelo, mas fora isso no estava algemado ou amarrado. Mas um pedao de corda entre a miscelnea de objetos sobre 
a mesa obviamente fora usado; havia marcas em seus pulsos e cotovelos.
        Eu estava intrigada com seu estado fsico. Estava obviamente em estado de choque e cada contorno do seu corpo bradava de dor, mas eu no conseguia ver nenhum 
dano aparente. No havia sangue ou qualquer ferimento visvel. Ca de joelhos e comecei a experimentar metodicamente as chaves da minha argola no aro em tomo de 
seu tornozelo.
        - O que ele fez com voc? - perguntei, mantendo a voz baixa por medo da volta de Randall.
        Jamie oscilava ali sentado, os olhos fechados, o suor aflorando em centenas de minsculas prolas em sua pele. Ele obviamente estava prestes a desmaiar, 
mas abriu os olhos por um instante ao ouvir minha voz. Movendo-se com extremo cuidado, usou a mo esquerda para erguer o objeto que segurava no colo. Era sua mo 
direita, quase irreconhecvel como um apndice humano. Grotescamente inchada, agora era apenas uma bolsa inflada, manchada de vermelho e roxo, os dedos balanando-se 
em estranhos ngulos. Um fragmento branco de osso projetava-se da pele rasgada do dedo mdio e um fio de sangue tingia os ns dos dedos, inchados e disformes.
        A mo humana  uma delicada maravilha de engenharia, um sistema intricado de articulaes e roldanas, servido e controlado por uma rede de milhes de minsculos 
nervos extremamente sensveis ao toque. Um nico dedo quebrado  suficiente para fazer um homem forte arriar de joelhos com uma dor to forte a ponto de provocar 
nusea.
        - Pagamento - Jamie disse - pelo seu nariz. Com juros. - Fitei aquela viso por um instante, depois disse numa voz que no reconhecia como minha:
        - Vou mat-lo por isso.
        A boca de Jamie retorceu-se ligeiramente enquanto um lampejo de humor forou-se na mscara de dor e tontura.
        - Eu segurarei seu manto, Sassenach - murmurou. Seus olhos fecharam-se outra vez e seu corpo sucumbiu contra a parede, incapaz de continuar seu protesto 
contra a minha presena.
        Voltei a trabalhar na fechadura do tornozelo, contente de ver que minhas mos j no tremiam. O medo desaparecera, substitudo por uma ira gloriosa.
        Eu experimentara todas as chaves da argola duas vezes e no conseguira encontrar nenhuma que abrisse a fechadura. Minhas mos estavam ficando suadas e as 
chaves escorregavam pelos meus dedos como peixinhos quando comecei a experimentar as mais provveis outra vez. Minhas imprecaes murmuradas entre dentes acordaram 
Jamie de seu estupor e ele inclinou-se lentamente para trs para ver o que eu estava fazendo.
        - No precisa encontrar uma chave que gire na fechadura - ele disse, apoiando um ombro contra a parede para manter-se ereto.- Se uma entrar at o fim da 
haste, voc pode fazer o fecho saltar com uma boa pancada na argola da chave.
        - Voc j viu este tipo de fechadura antes? - Eu queria mant-lo acordado e falando; ele iria ter que andar se consegussemos sair dali.
        - J estive preso a uma. Quando me trouxeram para c, acorrentaram-me numa cela grande com muitos outros prisioneiros. Um rapaz chamado Reilly estava acorrentado 
ao meu lado; um irlands. Disse que j havia estado na maioria das prises da Irlanda e resolvera tentar a Esccia para mudar de cenrio. - Jamie esforava-se para 
conversar; percebia to bem quanto eu que precisava despertar. Conseguiu esboar um sorriso fraco. - Me contou muita coisa sobre trancas, fechaduras, esse tipo de 
coisas. Mostrou-me como podamos quebrar as que estvamos usando, se tivssemos um pedao reto de metal, o que no tnhamos.
        - Conte-me. - O esforo para falar estava fazendo com que ele suasse copiosamente, mas parecia mais alerta. Concentrar-se no problema da fechadura parecia 
ajudar.
        Seguindo suas instrues, encontrei uma chave apropriada e enfiei-a completamente na fechadura. Segundo Reilly, uma pancada forte sobre a chave forava a 
outra extremidade com fora contra as engrenagens, soltando-as. Olhei  minha volta, procurando um objeto adequado para bater.
        - Use a marreta que est em cima da mesa, Sassenach - Jamie disse. Percebendo um tom sinistro em sua voz, olhei do seu rosto para a mesa, onde havia uma 
marreta de tamanho mdio, de madeira, com o cabo enrolado em barbante alcatroado.
        - Foi isso que... - comecei, horrorizada.
        - Sim. Prenda o aro contra a parede antes de bater.
        Segurando o cabo cuidadosamente, peguei a marreta. Era difcil conseguir posicionar o aro de ferro corretamente, de modo que um dos lados ficasse contra 
a parede, j que isso exigia que Jamie cruzasse a perna acorrentada por baixo da outra e pressionasse o joelho contra a parede mais distante dele.
        As duas primeiras pancadas que desferi foram tmidas e fracas demais. Reunindo toda a determinao que conseguia, desfechei um golpe na ponta arredondada 
da chave com toda fora. A marreta escorregou da chave e atingiu Jamie de raspo, mas com bastante fora no tornozelo. Recuando, ele perdeu seu precrio equilbrio 
e caiu, instintivamente estendendo a mo direita para se apoiar. Emitiu um gemido sobrenatural quando seu brao direito dobrou-se em baixo do corpo e seu ombro bateu 
no cho.
        - Ah, droga - exclamei, cansada. Jamie desmaiara, no que eu pudesse censur-lo. Aproveitando sua momentnea imobilidade, virei seu tornozelo de modo que 
o aro ficasse bem firme e bati tenazmente na chave enfiada na fechadura, sem aparentemente nenhum resultado. Eu estava remoendo pensamentos sombrios sobre serralheiros 
irlandeses, quando a porta atrs de mim abriu-se subitamente de par em par.
        O rosto de Randall, como o de Frank, raramente demonstrava o que ele estava pensando, apresentando, ao invs disso, uma fachada impassvel e inescrutvel. 
No momento, entretanto a serenidade habitual do capito o abandonara e ele ficou parado na soleira da porta, com o queixo cado e uma expresso no rosto no muito 
diferente do homem que o acompanhava. Um homem muito grande, num uniforme manchado e esfarrapado, seu assistente tinha a testa inclinada sobre os olhos, o nariz 
achatado e os lbios proeminentes e flcidos, caractersticas de alguns tipos de retardamento mental. Sua expresso no se alterou enquanto olhava por cima dos ombros 
de Randall, no demonstrando nenhum interesse em particular nem em mim, nem no homem inconsciente no cho.
        Recobrando-se, Randall entrou no aposento e inspecionou o aro de metal em torno do tornozelo de Jamie.
        - Pelo que estou vendo, andou danificando propriedade da Coroa, minha jovem. Isso  crime passvel de priso por lei, como voc sabe. Sem falar na tentativa 
de ajudar um prisioneiro perigoso a escapar. - Havia uma centelha de divertimento em seus olhos cinza-plidos. - Teremos que arranjar alguma coisa adequada a voc. 
Enquanto isso... - Com um puxo, obrigou-me a levantar. Puxou meus braos para trs, amarrando meus pulsos com a corda.
        Lutar era obviamente intil, mas pisei nos seus dedos do p com toda a fora, simplesmente para dar vazo a um pouco da minha frustrao.
        - Aaai! - Virou-se e deu-me um empurro, de modo que minhas pernas bateram na cama e eu ca, parcialmente deitada no cobertor spero. Randall inspecionou-me 
com uma soturna satisfao, esfregando a ponta arranhada de sua bota com um leno de linho. Fitei- o com dio e ele soltou uma risadinha.
        - Voc no  nenhuma covarde, tenho que admitir. Na verdade, voc combina bem com ele - com um gesto da cabea, indicou Jamie, que comeava a se remexer 
um pouco - e no posso lhe fazer um elogio melhor do que este. - Apalpou cuidadosamente a garganta, onde se via uma mancha escura pelo colarinho aberto. - Ele tentou 
me matar, com uma das mos, quando eu o desamarrei. Alis, quase conseguiu. Pena que eu no tenha percebido que ele  canhoto.
        - Uma atitude despropositada da parte dele - retorqui.
        - Sem dvida - disse Randall, balanando a cabea. - No creio que voc v ser to descorts, no ? Mesmo assim, por via das dvidas... -Voltou-se para 
o enorme criado, que estava simplesmente parado na soleira da porta, os ombros arriados, aguardando ordens.
        - Marley - disse Randall. - Venha aqui e d uma busca nesta mulher para ver se encontra alguma arma. - Observou com um ar divertido, enquanto o sujeito tateava 
desajeitadamente pela minha pessoa, finalmente encontrando e retirando minha adaga.
        - No gosta do Marley? - perguntou o capito, observando-me enquanto eu tentava me esquivar dos dedos grossos que me apalpavam com intimidade demais. -  
uma pena. Tenho certeza de que ele est muito interessado em voc.
        - O pobre Marley no tem muita sorte com as mulheres - continuou o capito, um brilho malicioso nos olhos. - No , Marley? Nem as prostitutas o querem. 
- Fitou-me com um olhar significativo e um sorriso malvolo. - Grande demais,  o que dizem. - Ergueu uma das sobrancelhas. - O que  uma opinio interessante, vinda 
de uma puta, no ? - Ergueu a outra sobrancelha, deixando bem claro o que pretendia dizer.
        Marley, que comeara a arfar ruidosamente durante a busca, parou e limpou um fio de saliva do canto da boca. Afastei-me o mximo que pude, enojada.
        Randall, observando-me, acrescentou:
        - Imagino que Marley iria gostar de diverti-la em particular em seu alojamento, quando tivermos terminado nossa conversa. Claro, mais tarde talvez ele resolva 
compartilhar sua sorte com os amigos, mas isso  ele quem decide.
        - Ah, no quer assistir? - perguntei com sarcasmo. Randall riu, genuinamente se divertindo.
        - Posso ter o que chamam de "gostos depravados", como imagino que j saiba a esta altura. Mas, por favor, me d algum crdito por princpios estticos. - 
Lanou um olhar ao imenso ordenana, desengonado em suas roupas imundas, a barriga caindo por cima do cinto. Os lbios flcidos e protuberantes mastigavam e balbuciavam 
constantemente, como se buscassem algum fragmento de comida, e os dedos grossos e curtos remexiam-se nervosamente na virilha das calas manchadas. Randall estremeceu 
delicadamente.
        - No - disse. - Voc  uma mulher adorvel, apesar da lngua ferina. V-la com Marley... no, acho que no quero ver isso. Alm da aparncia, os hbitos 
pessoais de Marley deixam muito a desejar.
        - Os seus tambm - eu disse.
        - Pode ser. De qualquer forma, no ter que se preocupar com eles por muito tempo. - Parou, olhando-me desdenhosamente. - Eu ainda gostaria de saber quem 
voc , sabe. Uma jacobita,  bvio, mas de quem? Dos Marischal? Dos Seaforth? Provavelmente dos Lovat, j que est com os Fraser. - Randall cutucou Jamie delicadamente 
com a ponta bem lustrada da bota, mas ele continuou inerte. Eu podia ver seu peito erguendo-se e abaixando-se com regularidade; talvez ele tivesse simplesmente sado 
do estado de inconscincia e adormecido. As olheiras sob seus olhos evidenciavam que ele no tivera muito descanso ultimamente.
        - At ouvi dizer que voc  uma bruxa - continuou o capito. Seu tom de voz era descontrado, mas obervava-me atentamente, como se eu pudesse de repente 
transformar-me numa coruja e sair voando. - Houve um certo tumulto em Cranesmuir, no foi? Algo a ver com uma morte? Mas sem dvida tudo isso no passa de supersties 
tolas.
        Randall olhou-me especulativamente.
        - Talvez possa me convencer a fazer um acordo com voc - disse, repentinamente. Inclinou-se para trs, parcialmente sentado em cima da mesa, desafiando-me.
        Ri amargamente.
        - No posso dizer que esteja em condies ou com disposio de barganhar no momento. O que pode me oferecer?
        Randall olhou para Marley. Os olhos do idiota estavam fixos em mim e ele balbuciava baixinho.
        - Uma escolha, ao menos. Conte-me, e me convena, de quem voc  e quem a mandou para a Esccia. O que est fazendo e que informaes mandou para quem. Diga-me 
isso e eu a levarei a sir Fletcher, ao invs de entreg-la a Marley.
        Mantive os olhos firmemente desviados de Marley. Eu vira os cacos podres de dentes embutidos em gengivas pustulentas e a simples idia de ele me beijar, 
quanto mais... sufoquei o pensamento. Randall tinha razo; eu no era covarde. Mas tambm no era boba.
        - Voc no pode me levar a Fletcher - eu disse -, e eu sei disso to bem quanto voc. Levar-me a ele e arriscar-se a que eu lhe conte sobre isso? - Meu gesto 
com a cabea abrangeu o quartinho escondido, o fogo aconchegante, a cama onde eu estava sentada e Jamie deitado aos meus ps. - Quaisquer que sejam seus defeitos, 
no imagino que sir Fletcher fosse aturar, oficialmente, que seus oficiais torturassem prisioneiros. At mesmo o exrcito ingls tem que ter alguns padres de conduta.
        Randall ergueu as duas sobrancelhas.
        - Tortura? Ah, isso. - Acenou negligentemente indicando a mo de Jamie. - Um acidente. Caiu em sua cela e foi pisoteado pelos outros prisioneiros. As celas 
esto superlotadas, sabe. - Sorriu desdenhosamente.
        Permaneci em silncio. Embora Fletcher pudesse ou no acreditar que os danos  mo de Jamie tivessem sido causados por acidente, era bastante improvvel 
que ele acreditasse em qualquer coisa que eu dissesse, uma vez desmascarada como espi inglesa.
        Randall me observava, os olhos alertas a qualquer sinal de fraqueza.
        - E ento? A escolha  sua.
        Suspirei e fechei os olhos, cansada de olhar para ele. A escolha no era minha, mas dificilmente eu poderia dizer a ele a razo.
        - No importa - eu disse, cansada. - No posso lhe contar nada.
        - Pense um pouco no assunto. - Levantou-se e passou cuidadosamente por cima do corpo inerte de Jamie, tirando uma chave do bolso. - Posso precisar da ajuda 
de Marley por um instante, mas depois eu o mandarei de volta para o seu alojamento, e voc com ele, se no quiser cooperar. - Inclinou-se, abriu a argola no tornozelo 
de Jamie e levantou o corpo inconsciente com uma impressionante exibio de fora para algum de constituio to delgada. Os msculos de seus antebraos sobressaram-se 
por baixo do tecido fino da camisa imaculadamente branca ao carregar Jamie, a cabea pendente, at um banco no canto do quarto. Indicou o balde prximo com um movimento 
da cabea.
        - Acorde-o - ordenou secamente ao silencioso brutamontes. A gua fria bateu na parede de pedra do canto do quarto e espalhou-se no cho, formando uma poa 
suja. - Outra vez - Randall comandou, inspecionando Jamie, que gemia baixinho, a cabea movendo-se contra as pedras da parede. Encolheu-se e tossiu sob a segunda 
enxurrada.
        Randall deu um passo  frente e pegou Jamie pelos cabelos, puxando sua cabea para trs, sacudindo-a como um animal afogado, de modo que gotas de gua ftida 
salpicaram as paredes. Os olhos de Jamie eram apenas dois traos embaciados. Randall atirou a cabea de Jamie para trs com repugnncia, limpando a mo na lateral 
da cala ao se virar. Seus olhos devem ter percebido a tremulao de um movimento, porque ele comeou a se voltar para Jamie outra vez, mas no a tempo de se preparar 
para o bote repentino do enorme escocs.
        Os braos de Jamie envolveram o pescoo de Randall. Impossibilitado de usar a mo direita, agarrou o pulso direito com a mo esquerda hbil e puxou, o antebrao 
firmado na traquia do ingls. Quando Randall ficou roxo e comeou a afrouxar, ele soltou a mo esquerda o tempo suficiente para dar uma estocada no rim do capito. 
Mesmo enfraquecido como Jamie estava, o golpe foi suficiente para fazer os joelhos de Randall fraquejarem.
        Largando o capito lnguido, Jamie girou nos calcanhares para enfrentar o monstruoso ordenana, que at ento ficara observando os acontecimentos sem o menor 
lampejo de interesse no rosto abobalhado. Embora sua expresso se mantivesse quase inerte, ele na verdade se moveu, pegando a marreta da mesa quando Jamie comeou 
a caminhar em sua direo, segurando o banco por uma das pernas na mo esquerda. Um certo ar de aborrecimento aflorou ao rosto do ordenana quando os dois homens 
comearam a cercar um ao outro, devagar,  procura de uma oportunidade.
        Com uma arma mais adequada, Marley tentou primeiro, brandindo a marreta na direo das costelas de Jamie. Jamie desviou-se e simulou um ataque com o banco, 
forando o monstrengo para trs, em direo  porta. A prxima tentativa, um golpe assassino para baixo, teria rachado o crnio de Jamie se tivesse acertado o alvo. 
Ao invs disso, o banco se partiu, uma das pernas e o assento arrancados.
        Com impacincia, Jamie estraalhou o restante do banco contra a parede no arremesso seguinte, reduzindo-o a um porrete pequeno, porm mais manejvel; um 
taco de madeira de uns sessenta centmetros com a ponta lascada e dentada.
        O ar na cela, sufocante com a fumaa das tochas, estava parado, exceto pela respirao arquejante dos dois homens e o baque ocasional, surdo e doloroso, 
de madeira em carne humana. Com medo de falar e perturbar a precria concentrao de Jamie, coloquei os ps em cima da cama e encolhi-me contra a parede, tentando 
ficar fora do caminho.
        Era evidente para mim - e pelo leve sorriso de expectativa, tambm para o ordenana - que Jamie estava se cansando rapidamente. J era surpreendente que 
ele estivesse conseguindo ficar em p, quanto mais lutar. Estava claro para ns trs que a luta no poderia durar muito mais; se tivesse alguma chance por menor 
que fosse, teria que ser logo. Com estocadas curtas e fortes da perna do banco, avanou cautelosamente para Marley, forando o grandalho a recuar para o canto, 
onde os movimentos dele seriam restringidos e ele ficaria imprensado. Percebendo isso por algum instinto, o ordenana deu uma guinada para a frente com um violento 
arremesso horizontal da marreta, na expectativa de forar Jamie para trs.
        Ao invs de dar um passo para trs, Jamie avanou e recebeu todo o impacto do golpe no lado esquerdo, enquanto descia o porrete com toda a fora na tmpora 
de Marley. Atenta  cena que se desenrolava diante de mim, eu no prestara ateno ao corpo de Randall, deitado de barriga para baixo no cho junto  porta. Mas, 
quando o ordenana cambaleou, os olhos embaciados, ouvi o arrastar de botas no cho de pedra e uma respirao entrecortada rangeu no meu ouvido.
        - Lutou muito bem, Fraser. - A voz de Randall era rouca por causa do estrangulamento, mas controlada como de costume. - Mas custou-lhe algumas costelas, 
no ?
        Jamie apoiou-se contra a parede, respirando em grandes arfadas, ainda segurando o basto, o cotovelo apertado com fora contra o lado do corpo. Seus olhos 
abaixaram-se para o cho, medindo a distncia.
        - Nem tente, Fraser. - A voz no se alterou. - Ela estar morta antes que voc d dois passos. - A lmina fina e fria da faca deslizou pela minha orelha; 
pude sentir a ponta espetando de leve o canto do meu maxilar.
        Jamie avaliou a situao com olhos imparciais por um instante, ainda amparado pela parede. Com um esforo repentino, endireitou-se dolorosamente e ficou 
em p, oscilando. O porrete caiu com um baque surdo no cho de pedra. A ponta da faca espetou uma frao infinitesimal a mais de profundidade, mas fora isso Randall 
manteve-se imvel enquanto Jamie lentamente deu alguns passos at a mesa, inclinando-se cuidadosamente no caminho para pegar a marreta com cabo recoberto de barbante. 
Segurou-a, pendente entre dois dedos, diante dele, deixando clara sua inteno de no atacar.
        A marreta bateu com estardalhao na mesa diante de mim, o cabo girando com fora suficiente para carregar a ponta pesada at quase a borda da mesa. Ficou 
ali parada, escura e macia, no carvalho, uma ferramenta slida, simples. Um cesto de junco de pregos pequenos para serem usados com a marreta misturava-se  confuso 
de objetos no outro extremo da mesa; algo talvez esquecido pelos carpinteiros que mobiliaram o quarto. A mo ilesa de Jamie, os dedos retos e elegantes coroados 
de ouro sob a luz, agarrou a borda da mesa com fora. Com um esforo que eu podia apenas imaginar, sentou-se lentamente em uma cadeira e deliberadamente espalmou 
as duas mos diante dele na superfcie marcada da madeira, a marreta a pequena distncia.
        Seu olhar estava travado ao de Randall durante a dolorosa travessia do quarto e no hesitou agora. Balanou a cabea levemente em minha direo sem olhar 
pra mim e disse:
        - Solte-a.
        A mo que empunhava a faca pareceu relaxar um pouco. A voz de Randall era irnica e curiosa:
        - Por que o faria?
        Jamie agora parecia com total domnio de si mesmo, apesar do rosto lvido e do suor que escorria livremente pelo seu rosto como lgrimas.
        - Voc no pode segurar uma faca em duas pessoas ao mesmo tempo. Mate a mulher ou saia de perto dela e eu o mato. - Falou em voz baixa, um fio metlico sob 
o sereno sotaque escocs.
        - E o que me impediria de matar vocs dois, um de cada vez?
        Eu teria chamado a expresso no rosto de Jamie de um sorriso apenas porque seus dentes estavam  mostra.
        - E decepcionar o carrasco? Um pouco difcil de explicar quando chegar de manh, no? - Indicou o monstrengo inconsciente no cho com um movimento da cabea. 
- Deve se lembrar de que teve que mandar seu ajudante me amarrar com corda antes de voc quebrar minha mo.
        - E da? - A faca permanecia firme junto  minha orelha.
        - Seu ajudante no vai lhe ser til ainda por um bom tempo. - Isso era incontestavelmente verdadeiro; o monstruoso ordenana estava cado de cara no cho 
no canto do aposento, respirando com difceis e ruidosos roncos. Concusso grave, pensei, mecanicamente. Possvel hemorragia cerebral. Eu no podia me importar menos 
se ele morresse diante dos meus olhos.
        - Voc sozinho no pode comigo, mesmo s com uma das mos. -Jamie sacudiu a cabea devagar, avaliando o tamanho e a fora de Randall. - No. Sou maior e 
um lutador muito melhor. Se no tivesse a mulher a com voc, eu tiraria essa sua faquinha- e a enterraria em seu pescoo. E voc sabe disso.  por esse motivo que 
ainda no a machucou.
        - Mas eu a tenho. Voc mesmo poderia ir embora,  claro. H uma sada, bem perto. Isso deixaria sua mulher - voc disse mesmo que ela era sua mulher? - para 
morrer,  claro.
        Jamie encolheu os ombros.
        - E eu tambm. Eu no conseguiria ir muito longe, com toda a guar-nio no meu encalo. Levar um tiro a cu aberto deve ser melhor do que ser enforcado aqui, 
mas no o suficiente para fazer diferena. - Uma breve careta de dor atravessou seu rosto e ele prendeu a respirao por um instante. Quando voltou a respirar, foi 
em arfadas superficiais, ofegantes. Qualquer que fosse o choque que o estava protegendo do pior da dor, estava claramente se esgotando.
        - Ento, parece que chegamos a um impasse. - O tom do ingls bem-educado de Randall era descontrado. - A menos que voc tenha alguma sugesto?
        - Eu tenho. Voc me quer. - A voz fria escocesa era direta. - Deixe a mulher ir e ter a mim. - A ponta da faca moveu-se ligeiramente, dando um pequeno corte 
na minha orelha. Senti uma pontada e o fluxo quente do sangue.
        - Faa o que quiser comigo, no lutarei, embora deixe que me amarre, se achar necessrio. E no falarei sobre isso, amanh. Mas primeiro faa com que ela 
saia da priso em segurana. - Meus olhos estavam fixos na mo arruinada de Jamie. Uma pequena poa de sangue sob o dedo mdio estava aumentando e percebi com um 
choque que ele estava pressionando o dedo deliberadamente na mesa, usando a dor como um estmulo para se manter consciente. Estava barganhando para salvar a minha 
vida usando a nica coisa que lhe restava - ele prprio. Se ele desmaiasse agora, essa nica chance estaria perdida.
        Randall relaxara completamente; a faca descansava negligentemente no meu ombro direito enquanto ele analisava a oferta. Eu estava ali diante dele. Jamie 
deveria ser enforcado ao amanhecer. Mais cedo ou mais tarde, dariam pela falta dele e o castelo seria revistado. Embora uma certa dose de brutalidade fosse tolerada 
entre oficiais e cavalheiros - tenho certeza de que se estenderia a aoites e mos quebradas - as outras inclinaes de Randall provavelmente no seriam ignoradas. 
Independente da condio de Jamie como prisioneiro condenado, se ele proclamasse, do cadafalso, pela manh, que sofrera abusos e torturas nas mos de Randall, suas 
acusaes seriam investigadas. E se o exame fsico comprovasse a veracidade de suas alegaes, a carreira de Randall estaria terminada e provavelmente sua vida tambm. 
Mas com Jamie jurando silncio...
        - Me d sua palavra?
        Os olhos de Jamie pareciam duas chamas azuis no rosto macerado. Aps um instante, ele balanou a cabea lentamente:
        - Em troca da sua.
        A atrao de uma vtima ao mesmo tempo completamente avessa e completamente complacente era irresistvel.
        - Feito. - A faca saiu do meu ombro e ouvi o sussurro de metal embai-nhado. Randall passou lentamente por mim, deu a volta  mesa, pegando a marreta no caminho. 
Ergueu-a, questionando ironicamente:
        - Me permite um pequeno teste de sua sinceridade?
        - Sim. - A voz de Jamie era to firme quanto suas mos, espalmadas e imveis sobre a mesa. Tentei falar, proferir algum protesto, mas minha garganta se ressecara 
a ponto de obrigar-me ao silncio.
        Movendo-se sem pressa, Randall inclinou-se por cima de Jamie para pegar um prego delicadamente do cesto de junco. Posicionou a ponta com cuidado e bateu 
a marreta, cravando o prego na mo direita de Jamie e pregando-a na mesa com mais quatro marretadas certeiras. Os dedos quebrados torceram-se e estenderam-se, como 
as pernas de uma aranha pregada num quadro de coleo.
        Jamie urrou de dor, os olhos arregalados e inexpressivos com o choque. Randall recolocou a marreta sobre a mesa com cuidado. Segurou o queixo de Jamie na 
mo e virou sua cabea para cima.
        - Agora, beije-me - disse suavemente e abaixou a cabea para a boca de Jamie, que no ofereceu nenhuma resistncia.
        O rosto de Randall quando ergueu a cabea era sonhador, os olhos afveis e distantes, a boca longa enviesada num sorriso. Um dia eu amei um sorriso como 
aquele e aquele olhar sonhador me excitara em expectativa. Agora, me enojava. As lgrimas escorriam pelo canto da minha boca, embora eu no me lembre de ter comeado 
a chorar. Randall permaneceu por um instante em seu transe, fitando Jamie. Em seguida, estremeceu, lembrando-se, e retirou a faca mais uma vez da bainha.
        A lmina cortou descuidadamente as cordas em torno dos meus pulsos, esfolando a pele. Eu mal tive tempo de esfregar os pulsos para restabelecer a circulao 
do sangue nas mos at ele me obrigar a ficar em p segurando-me pelo cotovelo e me empurrar em direo  porta.
        - Espere! - Jamie falou atrs de ns e Randall virou-se com impacincia.
        - Podemos nos despedir? - Era uma afirmao, mais do que uma pergunta e Randall hesitou apenas um instante antes de assentir e me dar um empurro de volta 
em direo  figura imvel  mesa.
        O brao bom de Jamie rodeou com fora meus ombros e eu enterrei meu rosto molhado em seu pescoo.
        - Voc no pode fazer isso - murmurei. - No pode. Eu no vou deixar.
        Sua boca era quente no meu ouvido.
        - Claire, vou ser enforcado pela manh. O que acontecer comigo daqui at l no importa mais. - Afastei-me e fitei-o.
        - Importa para mim! - Os lbios tensos tremeram quase num sorriso e ele ergueu a mo livre e colocou-a na minha face mida.
        - Sei que importa, mo duinne. E  por isso que voc deve ir agora. Para que eu saiba que h algum que ainda se importa comigo. - Puxou-me para junto dele 
outra vez, beijou-me ternamente e sussurrou em galico: - Ele deixar voc partir porque acha que voc est sozinha e desamparada. Sei que no est. - Soltando-me, 
disse em ingls: - Eu a amo. Agora, v.
        Randall parou enquanto me apressava pela porta.
        - Voltarei logo.
        Era a voz de um homem afastando-se relutantemente de seu amante e tive uma nsia de vmito.
        Delineado em vermelho pela luz da tocha atrs dele, Jamie inclinou a cabea cortesmente em direo  mo pregada na mesa.
        - Pode ter certeza de que vai me encontrar aqui.
        Black Jack. Um apelido comum para canalhas e crpulas no sculo XVIII. Um dos principais componentes da fico romntica, o nome invocava charmosos assaltantes 
de estrada, com chapus de plumas e espadas arrojadas. A realidade caminhava ao meu lado.
        Ningum nunca pra para pensar no que se baseiam os romances. Tragdia e terror, modificados pelo tempo. Acrescente-se um pouco de arte  redao e voil!, 
um enredo emocionante, capaz de fazer o sangue correr mais rpido nas veias e as mocinhas suspirarem. Meu sangue estava correndo rpido, sem dvida, e nunca uma 
donzela suspirou como Jamie, segurando sua mo destruda.
        - Por aqui. - Era a primeira vez que Randall falava desde que deixramos a cela. Indicou uma alcova estreita na parede, sem tochas de iluminao. A sada, 
da qual falara a Jamie.
        Agora, eu j recobrara domnio suficiente de mim mesma para falar e o fiz. Dei um passo para trs, para que a luz da tocha casse em cheio sobre mim, porque 
eu queria que ele se lembrasse do meu rosto.
        - Voc me perguntou, capito, se eu era uma bruxa - eu disse, a voz baixa e firme. - Vou responder-lhe agora. Sim, sou uma bruxa. Bruxa e eu lano sobre 
voc a minha maldio. Voc se casar, capito, e sua mulher ter um filho, mas no viver o suficiente para ver seu primognito. Eu o amaldio com conhecimento, 
Jack Randall. Eu lhe dou a hora de sua morte.
        Seu rosto estava oculto nas sombras, mas o brilho em seus olhos disse-me que ele acreditava em mim. E por que no o faria? Pois eu falava a verdade e eu 
sabia. Eu podia ver as linhas do mapa genealgico de Frank como se tivessem sido desenhadas nas linhas de argamassa entre as pedras da parede, e os nomes listados 
ao lado de cada uma.
        - Jonathan Wolverton Randall - eu disse devagar, lendo nas pedras. -Nascido em 3 de setembro de 1705. Morto em... - Ele fez um movimento convulsivo em direo 
a mim, mas no rpido o suficiente para me impedir de falar.
        Uma porta estreita no fundo da alcova abriu-se com um rangido das dobradias. Esperando uma escurido ainda maior, meus olhos ficaram cegos por um lampejo 
ofuscante de luz sobre neve. Um rpido empurro por trs me lanou de cabea, aos tropees, diretamente numa espcie de montes de neve acumulada pelo vento. A porta 
fechou-se com um estampido atrs de mim.
        Eu estava cada numa vala, atrs da priso. Os monturos de neve  minha volta deviam encobrir depsitos de alguma coisa - o lixo da priso, sem dvida. Havia 
algo duro embaixo do monte de neve no qual eu havia cado; madeira, talvez. Erguendo os olhos para a muralha que se erguia verticalmente acima de mim, pude ver estrias 
e crregos de gua suja descendo pelas pedras, marcando o caminho dos refugos despejados de uma porta de correr a uns doze metros acima. Ali deviam ficar os cmodos 
da cozinha.
        Rolei sobre o prprio corpo, preparando-me para levantar e me vi fitando um par de olhos azuis. A cara era quase to azul quanto os olhos e to dura quanto 
o toco de madeira pelo qual eu o confundira. Sufocando e aos tropees, consegui ficar em p e cambaleei de volta para a muralha da priso.
        Abaixe a cabea, respire fundo, disse a mim mesma com firmeza. Voc no vai desmaiar, voc j viu pessoas mortas antes, muitas, voc no vai desmaiar - Meu 
Deus, ele tem olhos azuis como - voc no vai desmaiar, droga!
        Minha respirao finalmente desacelerou e, com ela, minha pulsao desenfreada.
        Quando o pnico cedeu, obriguei-me a voltar  pattica figura, limpando as mos convulsivamente na saia. No sei se foi compaixo, curiosidade ou simplesmente 
choque o que me fez olhar outra vez. Visto sem a brusquido da surpresa, no havia nada de assustador no homem morto; nunca h. Por pior que seja a maneira como 
um homem morre, somente a presena de um ser humano em sofrimento  aterradora; uma vez morto, o que resta  apenas um objeto.
        O estranho de olhos azuis fora enforcado. No era o nico habitante da vala. No me dei ao trabalho de escavar o monte de neve, mas agora que sabia o que 
continha, podia ver com clareza os contornos de membros congelados e as cabeas suavemente arreeedondadas sob a neve. Pelo menos uma dzia de homens jazia ali, esperando 
por um degelo que tornaria mais fcil o seu enterro ou por uma remoo mais rude pelos animais ferozes da floresta prxima.
        O pensamento me arrancou da minha imobilidade pensativa. Eu no tinha tempo a perder em meditaes  beira de sepulturas ou mais um par de olhos azuis, arregalados 
e sem viso, iria ficar olhando para cima, para a neve que caa.
        Precisava encontrar Murtagh e Rupert. Talvez aquela porta dos fundos escondida pudesse ser usada. Obviamente, no era fortificada ou protegida por guardas 
como os portes principais e outras entradas da priso. Mas eu precisava de ajuda, e rpido.
        Olhei para cima, para a borda da vala. O sol j estava bem baixo, filtrando-se por uma camada de nuvens logo acima dos topos das rvores. O ar estava pesado 
de umidade. Provavelmente iria nevar outra vez ao cair da noite; o cu estava encoberto por nuvens espessas a leste. Restava talvez uma hora de luz.
        Comecei a seguir a vala, no querendo escalar os lados rochosos e ngremes enquanto no fosse necessrio. A vala estreita e funda fazia uma curva logo depois 
da priso e dava a impresso de que descia em direo ao rio; provavelmente o escoamento da gua da neve derretida carregava o lixo da priso. Eu estava quase na 
curva da alta muralha quando ouvi um som leve atrs de mim. Girei nos calcanhares. O som fora produzido por uma pedra que cara da borda da vala, deslocada pela 
pata de um enorme lobo cinzento.
        Como alternativa aos itens soterrados na neve, eu tinha determinadas caractersticas desejveis, do ponto de vista de um lobo. Por um lado, eu me locomovia, 
era mais difcil de ser apanhada e oferecia a possibilidade de resistncia. Por outro, eu era lenta, desajeitada e, acima de tudo, no estava congelada, no oferecendo, 
assim, perigo de dentes quebrados. Eu tambm cheirava a sangue fresco, tentadoramente quente naquele esgoto enre-gelado. Se eu fosse um lobo, pensei, no hesitaria. 
O animal chegou a uma deciso ao mesmo tempo em que cheguei  minha prpria concluso quanto s nossas relaes futuras.
        Havia um americano no hospital de Pembroke chamado Charlie Marshall. Era um sujeito agradvel, amistoso como todos os americanos e muito divertido quando 
o assunto era animais de estimao. Os seus eram os cachorros. Charlie era sargento na unidade K-9. Ele fora atingido, juntamente com dois dos seus cachorros, pela 
exploso de uma mina na periferia de um vilarejo perto de Aries. Ele lamentava a perda dos cachorros e freqentemente me contava histrias sobre eles quando eu me 
sentava ao seu lado durante os escassos momentos de descontrao no meu turno.
        Mais objetivamente, ele tambm me contara uma vez o que fazer, e o que no fazer, se um dia fosse atacada por um cachorro. Era muita bondade chamar de cachorro 
a assustadora criatura que vinha escolhendo seu caminho cuidadosamente pelas pedras do barranco, mas esperava que ainda compartilhasse alguns traos bsicos de carter 
com seus descendentes domesticados.
        - Co malvado - disse com firmeza, fitando um olho amarelo. - Na verdade - disse, recuando lentamente em direo  muralha da priso -, voc  um co absolutamente 
horrvel. (Fale alto e com firmeza, ouvi Charlie dizendo.) - Provavelmente o pior que j vi - eu disse, alto e com firmeza. Continuei a recuar, subindo, uma das 
mos estendida para trs para sentir a muralha de pedras e, uma vez l, fui me deslocando de lado, em direo  curva a uns dez metros.
        Desamarrei os laos na minha garganta e comecei a apalpar o broche que prendia meu manto, ainda dizendo ao lobo, em voz alta e firme, o que pensava dele, 
de seus ancestrais e de sua famlia imediata. O animal parecia interessado na ladainha, a lngua relaxada e os dentes  mostra, como um cachorro. No parecia ter 
pressa; mancava levemente, pude notar quando se aproximou, e era magro e sarnento. Talvez tivesse dificuldade em caar e a enfermidade  que o atraa  pilha de 
lixo da priso para catar comida. Eu certamente esperava que assim fosse; quanto mais doente, melhor.
        Encontrei minhas luvas de couro no bolso do meu manto e calcei-as. Em seguida, enrolei o manto vrias vezes em torno do brao direito, abenoando a espessura 
do veludo. "Eles procuram atacar a garganta", Charlie instrura-me, "a menos que seu treinador lhes ensine de outra forma. Continue a olh-lo nos olhos; voc ver 
quando ele decidir atacar. Esse  o seu momento."
        Eu podia ver inmeras coisas naquele perigoso globo ocular amarelo, inclusive fome, curiosidade e especulao, mas ainda no uma deciso de saltar.
        - Criatura nojenta - continuei -, no ouse saltar na minha garganta! -Tive outras idias. Eu havia envolvido meu brao direito em vrias voltas frouxas do 
meu manto, deixando a maior parte pendurada, mas conseguindo um acolchoamento suficiente, eu esperava, para impedir que os dentes da fera penetrassem em meu brao.
        O lobo era magro, mas no emaciado. Calculei que devia pesar um pouco menos de quarenta quilos; menos do que eu, mas no o suficiente para me dar uma grande 
vantagem. A balana definitivamente pendia para o lado do lobo; quatro pernas contra duas proporcionavam mais equilbrio na escorregadia crosta de neve. Esperava 
que o fato de apoiar minhas costas contra a parede ajudasse.
        Uma sensao de vazio s minhas costas disse-me que eu havia chegado  curva. O lobo estava a uns seis metros de distncia. Esse era o momento. Raspei a 
neve sob os meus ps o suficiente para me dar firmeza e esperei.
        Nem cheguei a ver o lobo sair do solo. Eu podia jurar que estava vigiando seus olhos, mas se a deciso de saltar tivesse sido registrada ali, fora seguida 
depressa demais pela ao para que eu pudesse notar. Foi o instinto, e no o pensamento, que ergueu meu brao quando uma mancha cinza-esbranquiada arremessou-se 
sobre mim.
        Os dentes cravaram-se no acolchoamento com uma fora que machucou meu brao. Era mais pesado do que eu imaginara; eu no estava preparada para aquele peso 
e meu brao afrouxou-se. Planejara atirar a fera contra a parede, talvez o deixando desacordado. Ao invs disso, arremessei o corpo contra a muralha, esmagando o 
lobo entre os blocos de pedra e meu quadril. Lutei para envolv-lo com a parte solta do meu manto. Garras rasgaram minha saia e arranharam minha coxa. Arremeti o 
joelho com uma fora assassina no seu peito, extraindo um uivo estrangulado. Somente ento percebi que os queixumes vinham de mim e no do lobo.
        Estranhamente, eu j no estava nem um pouco aterrorizada, embora tivesse ficado apavorada quando o lobo estava me perseguindo. S havia espao em minha 
mente para um nico pensamento: vou matar este animal ou ele me matar. Portanto, eu iria mat-lo.
        Chega-se a um ponto, numa intensa luta fsica, em que uma pessoa se abandona ao uso desenfreado de fora e recursos corporais, ignorando os custos at a 
luta acabar. As mulheres encontram este ponto no parto; os homens na batalha.
        Passado esse ponto, voc perde todo medo da dor ou do ferimento. A vida se torna muito simples nesse ponto; voc far o que est tentando fazer ou morrer 
na tentativa e, na verdade, no importa muito o desfecho.
        Eu vira este tipo de luta durante meu treinamento nas enfermarias, mas nunca o experimentara antes. Agora, toda a minha ateno concentrava-se nas mandbulas 
agarradas ao meu antebrao e no demnio contorcendo-se e lanando as garras no meu corpo.
        Consegui bater a cabea do animal contra a muralha, mas no com fora suficiente. Eu estava cansando rapidamente; se o lobo estivesse em boas condies, 
eu no teria tido nenhuma chance. No tinha muita agora, mas tentei aproveitar o pouco que restava. Joguei-me sobre o animal, prendendo-o sob o meu corpo e extraindo 
todo o ar de seus pulmes num sopro putrefato. Ele se recobrou quase imediatamente e comeou a se contorcer sob o meu corpo, mas o segundo relaxamento me permitiu 
arranc-lo do meu brao, uma das mos grampeada por baixo de seu focinho molhado.
        Forando meus dedos nos cantos de sua boca, consegui mant-los fora dos dentes carnvoros e cortantes. A saliva escorria pelo meu brao. Eu estava deitada, 
o corpo achatado sobre o animal. A curva da muralha da priso estava a cerca de meio metro  minha frente. Tinha que dar um jeito de chegar at l, sem libertar 
a fria que empurrava e se contorcia sob mim.
        Arrastando os ps no cho, pressionando o corpo para baixo com todas as minhas foras, avancei pouco a pouco, o tempo todo me esforando para manter as presas 
do animal longe da minha garganta. No pode ter levado mais do que alguns minutos para transpor aqueles cinqenta centmetros, mas parecia que eu passara ali a maior 
parte de minha vida, lutando e presa quela fera cujas garras traseiras arranhavam minhas pernas, procurando uma boa oportunidade de rasgar minha barriga.
        Finalmente, pude ver do outro lado da curva. O ngulo rombudo da pedra estava diretamente diante do meu rosto. Agora, era a parte mais difcil. Eu tinha 
que manobrar o corpo do lobo de modo que pudesse colocar as duas mos sob o focinho; jamais teria a fora necessria com apenas uma das mos.
        Rolei bruscamente para fora e o lobo imediatamente escorregou para o pequeno espao livre entre meu corpo e a muralha. Antes que pudesse ficar de p, atingi-o 
com o joelho com todas as foras que consegui reunir. O lobo grunhiu quando meu joelho chocou-se contra o lado do seu corpo, prendendo-o, ainda que apenas por alguns 
instantes, contra a parede.
        Agora, eu tinha ambas as mos sob suas mandbulas. Os dedos de uma das mos estavam na verdade dentro de sua boca. Podia sentir a ferroada esmagadora sobre 
os dedos enluvados, mas ignorei o fato enquanto forava a cabea peluda para trs, e para trs, e novamente para trs, usando o ngulo da muralha como ponto de apoio 
de uma alavanca que era o corpo do animal. Achei que meus braos iriam se quebrar, mas essa era a nica chance.
        No houve nenhum rudo audvel, mas eu senti a reverberao pelo corpo todo quando o pescoo se quebrou. Os membros tensos - e a bexiga - imediatamente relaxaram. 
Com o esforo insuportvel nos braos agora relaxados, ca, to fraca quanto o lobo moribundo. Podia sentir o corao da fera fibrilando sob minha face, a nica 
parte do seu corpo ainda capaz de lutar contra a morte. O plo spero fedia a amnia e cabelo molhado. Queria me afastar, mas no conseguia.
        Creio que devo ter adormecido por um instante, por mais estranho que isso possa parecer, tendo um animal morto como travesseiro. Abri os olhos e vi as pedras 
esverdeadas da priso a poucos centmetros do meu nariz. Somente o pensamento do que deveria estar ocorrendo do outro lado daqueles muros me fez levantar.
        Arrastei-me com dificuldade pelo resto da vala, o manto pendurado em um dos ombros, tropeando em pedras escondidas sob a neve, batendo as pernas dolorosamente 
em galhos semi-enterrados. Subconscientemente, devia saber que lobos geralmente andam em bandos, porque no me lembro de ter ficado surpresa com os uivos que reverberavam 
da floresta atrs e acima de mim. Se tiver sentido alguma coisa, foi um dio mortal ao que parecia uma conspirao para me frustrar e me atrasar.
        Exausta, virei-me para ver de onde vinha o som. J estava em campo aberto a essa altura, longe da priso; no havia nenhuma muralha onde me apoiar, nem nenhuma 
arma  mo. A sorte me ajudara com o primeiro lobo; no havia nem uma chance em mil de que eu pudesse matar outro animal de mos vazias - e quantos mais deveria 
haver? O bando que eu vira alimentando-se ao luar no vero reunia pelo menos dez lobos. Podia ouvir na memria os rudos de seus dentes raspando e o estalido de 
ossos quebrando-se. A nica pergunta agora era se eu sequer me daria ao trabalho de lutar ou se iria apenas deitar-me na neve e desistir. Essa opo parecia extraordinariamente 
atraente, levando-se em conta todas as circunstncias.
        No entanto, Jamie abrira mo de sua vida, e consideravelmente mais do que isso, para me tirar da priso. Eu devia a ele ao menos tentar.
        Mais uma vez, procurei me afastar, continuando a descer o valo. A luz definhava; logo a ravina se encheria de sombras. Duvidava que isso me ajudasse. Os 
lobos indubitavelmente tinham uma viso noturna melhor do que a minha.
        O primeiro predador apareceu na borda da vala como seu antecessor; uma figura desgrenhada, imvel e alerta. Foi com uma espcie de choque que percebi que 
dois outros j estavam na ravina comigo, avanando devagar, os passos dos dois quase sincronizados. Eram quase da cor da neve na luz do crepsculo - cinza sujo - 
e quase invisveis, embora se movessem sem nenhuma tentativa de se esconder.
        Parei onde estava. Correr era obviamente intil. Curvando-me, retirei um galho morto de pinheiro do meio da neve. A casca estava escura da umidade e spera 
at atravs das minhas luvas. Brandi o galho acima da cabea e gritei. Os animais pararam, mas no recuaram. O que estava mais prximo abaixou as orelhas, como se 
protestasse contra o barulho.
        - No gosta? - berrei. - Dane-se! Para trs, maldito, desgraado! -Pegando uma pedra semi-enterrada, atirei-a contra o lobo. No o atingiu, mas a fera correu 
para o lado. Encorajada, comecei a atirar msseis freneticamente; pedras, galhos, bolos de neve, tudo que eu podia pegar com uma nica mo. Berrei at minha garganta 
ficar dolorida com o ar frio, uivan-do, esganiada, como os prprios lobos.
        No comeo, pensei que um dos meus projteis tivesse atingido o alvo. O lobo mais prximo ganiu e pareceu ter um espasmo. A segunda flecha passou a uns trinta 
centmetros de mim e vi a minscula mancha em movimento antes de alojar-se com um rudo surdo no peito do segundo lobo. Esse animal morreu ali mesmo onde estava. 
O primeiro, no atingido mortalmente, esperneava e debatia-se na neve, no mais do que um torro contorcendo-se na crescente escurido.
        Fiquei parada estupidamente por algum tempo, depois ergui os olhos por instinto para a margem da ravina. O terceiro lobo, sabiamente procurando passar despercebido, 
desaparecera de volta  floresta, de onde um uivo arrepiante se elevou.
        Eu ainda fitava as rvores escuras quando a mo de algum agarrou meu cotovelo. Girei nos calcanhares com um grito sufocado e deparei-me com o rosto de um 
estranho. Maxilares estreitos e um queixo pontudo, mal disfarado por uma barba rala, era realmente um estranho, mas seu xale de xadrez e sua adaga o identificavam 
como um escocs.
        - Ajude-me - eu disse, desmaiando em seus braos.
        
        
        
36 - MACRANNOCH
        
        Estava escuro na cabana e havia um urso no canto da sala. Em pnico, recuei para perto de meu acompanhante, no querendo ter mais nada a ver com animais 
ferozes. Ele me empurrou com fora para dentro da cabana. Quando cambaleei em direo ao fogo, a monstruosa figura virou-se para mim e percebi que no passava de 
um homem grandalho numa pele de urso.
        Uma capa de pele de urso, para ser exata, amarrada no pescoo com um broche de prata do tamanho da palma da minha mo. Tinha o formato de dois cervos num 
salto, as costas arqueadas e as cabeas encontrando-se para formar um crculo. O alfinete do fecho era uma espcie de leque afunilado e curto, a cabea modelada 
como a cauda de um cervo em fuga.
        Notei os detalhes do broche porque estava diretamente em frente ao meu nariz. Erguendo os olhos, considerei por um instante a possibilidade de estar errada. 
Talvez ele realmente fosse um urso.
        Ainda assim, os ursos provavelmente no usavam broches, nem tinham olhos como mirtilos: pequenos, redondos e de um azul-escuro brilhante. Estavam afundados 
em faces carnudas, cujas elevaes inferiores estavam cobertas com uma floresta de cabelos negros entremeados de prateados. Cabelos semelhantes desciam em cascata 
at os ombros fortes, misturando-se com os plos da capa, os quais, apesar de seu novo uso, ainda recendiam ao seu antigo dono.
        Os penetrantes olhinhos tremeluziram sobre mim, avaliando tanto as condies esfarrapadas do meu traje, bem como sua boa qualidade, inclusive as duas alianas 
de casamento, de ouro e de prata. O discurso do urso condizia com sua aparncia.
        - Parece ter enfrentado algumas dificuldades, madame - disse, formalmente, inclinando a cabea macia ainda salpicada de neve amolecida. -Podemos ajud-la?
        Hesitei, sem saber o que deveria dizer. Precisava desesperadamente da ajuda daquele homem, mas seria imediatamente vista com desconfiana quando minha fala 
revelasse que era inglesa. O arqueiro que me levara at ali se antecipou a mim.
        - Encontrei-a perto de Wentworth - disse laconicamente. - Lutando contra lobos. Uma inglesa - acrescentou, com uma nfase que fez os olhos de mirtilo de 
meu anfitrio fixarem-se em mim com uma especulao um tanto desagradvel em suas profundezas. Empertiguei-me na postura mais ereta possvel e arregimentei toda 
a atitude de uma respeitvel mulher casada que pude.
        - Inglesa de nascimento, escocesa pelo casamento - disse com firmeza. - Meu nome  Claire Fraser. Meu marido  prisioneiro em Wentworth.
        - Compreendo - disse o urso, devagar. - Bem, meu nome  Mac-Rannoch e no momento estamos em minhas terras. Vejo pelo seu vestido que  uma mulher de alguma 
famlia tradicional. Como pode estar sozinha na floresta de Eldridge numa noite de inverno?
        Aproveitei a abertura; ali estava uma oportunidade de estabelecer minha boa-f, bem como encontrar Murtagh e Rupert.
        - Vim para Wentworth com alguns homens do cl de meu marido. Por ser inglesa, achamos que eu conseguiria entrar na priso e talvez encontrar alguma maneira 
de retir-lo de l. Entretanto, eu... eu tive que deixar a priso de outra maneira. Estava procurando meus amigos quando fui surpreendida pelos lobos, dos quais 
este cavalheiro bondosamente me salvou. - Tentei um sorriso de agradecimento para o arqueiro de ossos angulosos, que o recebeu com um silncio tumular.
        - Sem dvida a senhora encontrou alguma coisa com dentes -MacRannoch comentou, examinando os enormes rasgos em minha saia. A suspeita cedeu temporariamente 
s exigncias da hospitalidade.
        - Est ferida, ento? Apenas um pouco arranhada? Bem, est com frio, sem dvida, e um pouco abalada, imagino. Sente-se aqui junto ao fogo. Hector lhe trar 
alguma sopa e depois poder me contar um pouco mais sobre esses seus amigos. - Com um dos ps, colocou em p um banco rstico de trs pernas e sentou-me firmemente 
nele empurrando meu ombro com a mo grande e pesada.
        Fogo de turfa no fornece muita luz, mas produz um calor agradvel. Estremeci involuntariamente quando o sangue comeou a fluir novamente nas minhas mos 
congeladas. Uns dois goles do frasco de couro fornecido de m vontade por Hector tambm fez o sangue fluir internamente.
        Expliquei minha situao da melhor maneira que pude, o que no foi muito bem. A breve descrio da minha sada da priso e subseqente luta corpo-a-corpo 
com o lobo foi recebida com particular ceticismo.
        - Considerando-se que realmente tenha conseguido entrar em Wentworth, no parece provvel que sir Fletcher fosse permitir que ficasse vagando pelo local. 
Tambm no parece provvel que, se este capito Randall a tivesse encontrado nas masmorras, fosse simplesmente empurr-la pela porta dos fundos.
        - Ele... ele tinha razes para me deixar partir.
        - E quais foram? - Os olhos de mirtilo eram implacveis.
        Desisti e coloquei a questo francamente; estava cansada demais para delicadezas ou circunlquios.
        MacRannoch parecia parcialmente convencido, mas ainda relutante em tomar alguma atitude.
        - Sim, compreendo sua preocupao - argumentou -, mas, ainda assim, isso talvez no seja to ruim.
        - No seja to ruim! - Levantei-me num salto, indignada.
        Ele sacudiu a cabea como se estivesse atormentado por insetos.
        - O que quero dizer - explicou -  que se ele est atrs do traseiro do rapaz, no deve feri-lo gravemente. E, com licena de sua presena, madame - arqueou 
uma sobrancelha peluda em minha direo -, ser sodomizado dificilmente mata uma pessoa. - Para me apaziguar, ergueu as palmas das mos do tamanho de pratos de sopa.
        - Ora, no estou dizendo que ele vai gostar, veja bem, mas digo que no vale a pena um grande desentendimento com sir Fletcher Gordon, apenas para salvar 
o rapaz de um traseiro dolorido. Tenho uma posio precria aqui, sabe, muito precria. - E ele inflou as bochechas e levantou as sobrancelhas como um besouro para 
mim.
        No pela primeira vez, arrependi-me do fato de no haver bruxas de verdade. Se fosse uma bruxa, eu o teria transformado em sapo na hora. Um sapo gordo e 
grande, com verrugas.
        Sufoquei minha raiva e tentei argumentar mais uma vez.
        - Acho que seu traseiro j no pode ser salvo a esta altura;  com seu pescoo que estou preocupada. Os ingleses pretendem enforc-lo pela manh.
        MacRannoch resmungava consigo mesmo, andando de um lado para o outro como um urso numa jaula muito pequena. Parou bruscamente diante de mim e enfiou o nariz 
a um centmetro do meu. Eu teria me encolhido, se no estivesse to cansada. No estado em que estava, apenas pisquei os olhos.
        - E se eu dissesse que a ajudaria, de que adiantaria? - rosnou. Retomou suas voltas, dois passos at a parede, meia-volta num volteio de pele de urso e mais 
dois passos at a outra parede. Falava enquanto andava, as palavras no mesmo ritmo dos passos, parando para um suspiro ao dar a volta.
        - Se eu mesmo fosse  presena de sir Fletcher, o que iria dizer? O senhor tem um capito em sua equipe que tortura prisioneiros em seu tempo livre? E quando 
ele perguntar como eu soube disso, eu lhe digo que uma inglesa perdida que meus homens encontraram vagando no escuro disse-me que o sujeito tem feito propostas indecentes 
ao seu marido, que  um malfeitor com um prmio por sua cabea e um assassino convicto, ainda por cima?
        MacRannoch parou e bateu com a pata sobre a frgil mesa.
        - E quanto a levar homens ao lugar! Se, veja bem, estou dizendo se pudssemos entrar.
        - Poderiam entrar - interrompi. - Posso mostrar-lhes o caminho.
        - Mmmmhum. Pode ser. Se pudssemos entrar, o que aconteceria quando Fletcher encontrasse meus homens vagando pela sua fortaleza? Enviaria o capito Randall 
na manh seguinte com um par de canhes e deixaria a Manso Eldridge no cho, isso  o que aconteceria! - Sacudiu a cabea outra vez, fazendo os cachos negros voarem.
        - No, moa, no vejo...
        Foi interrompido pela porta da cabana, aberta de supeto para admitir outro arqueiro, desta vez empurrando Murtagh  sua frente na ponta da faca. MacRannoch 
parou e fitou-o, estupefato.
        - O que  isso? - perguntou. - At parece que  Primeiro de Maio, com todos os rapazes e moas por a, colhendo flores nos bosques, e no o velho e ermo 
inverno se aproximando com sua neve!
        -  um dos homens do cl do meu marido - expliquei. - Como eu lhe disse.
        Murtagh, sem se deixar perturbar pela recepo nada cordial, olhava atentamente para a figura com capa de urso, como se removesse cabelos e anos mentalmente.
        - MacRannoch, no ? - disse, em tom quase acusador. - Voc esteve no Grande Encontro, eu acho, h algum tempo, no Castelo Leoch?
        MacRannoch ficou mais do que espantado.
        - H algum tempo, essa  boa! Ora, deve ter sido h mais de trinta anos. Como sabe disso?
        Murtagh balanou a cabea, satisfeito.
        - Ah, foi o que pensei. Eu estava l. E me lembro daquele Encontro, provavelmente pelo mesmo motivo que voc.
        MacRannoch analisava o homenzinho ressequido, tentando subtrair trinta anos de sua fisionomia enrugada.
        - Sim, eu me lembro de voc - disse, finalmente. - No do nome, mas de voc. Voc matou um javali ferido sozinho, com uma adaga, durante o tynchal. Um belo 
animal, na verdade. Isso mesmo, o MacKenzie deu-lhe as presas afiadas, um belo par, quase uma volta completa. Belo trabalho, rapaz. - Uma expresso perigosamente 
prxima de satisfao enrugou o rosto marcado de Murtagh por um instante.
        Sobressaltei-me, lembrando dos braceletes selvagens e magnficos que vira em Lallybroch. So da minha me - Jenny dissera -, presente de um admirador. Olhei 
para Murtagh, incrdula. Mesmo considerando a passagem de trinta anos, ele no parecia um candidato provvel a uma terna paixo.
        Pensando em Ellen MacKenzie, lembrei-me de suas prolas, que eu ainda carregava, costuradas na bainha do meu bolso. Tateei at encontrar a ponta aberta e 
puxei o colar para a luz do fogo.
        - Posso pagar-lhe - eu disse. - No espero que seus homens se arrisquem por nada.
        Movendo-se muito mais rapidamente do que eu imaginava ser possvel, ele arrancou as prolas da minha mo. Fitou-as, incrdulo.
        - Onde conseguiu isto, mulher? - perguntou. - Disse que seu nome  Fraser?
        - Sim. - Apesar de exausta, empertiguei-me. - E as prolas so minhas. Meu marido as deu para mim no dia do nosso casamento.
        - Ah, deu, hein? - A voz rouca abrandou-se repentinamente num sussurro. Virou-se para Murtagh, ainda segurando o colar.
        - O filho de Ellen? O marido desta moa  filho de Ellen?
        - Sim - Murtagh respondeu, inexpressivo como de costume. - Como voc saberia imediatamente se o visse.  a cara dela.
        Atento novamente s prolas que agarrava, MacRannoch abriu a mo e tocou delicadamente as prolas lustrosas.
        - Eu dei este colar a Ellen MacKenzie - ele disse. - Como presente de casamento. Eu o teria dado a ela como marido, mas ela preferiu outro. Bem, tenho pensado 
nele muitas vezes, em volta do seu adorvel pescoo, eu lhe disse que no poderia v-lo em nenhuma outra mulher. Assim, pedi-lhe que o guardasse e s pensasse em 
mim quando o usasse. Hum! -Resfolegou brevemente diante de alguma lembrana, em seguida devolveu as prolas cuidadosamente para mim.
        - Ento, so suas agora. Bem, use-as em boa sade, moa.
        - Terei uma chance muito melhor de faz-lo - eu disse, tentando controlar minha impacincia diante daquelas demonstraes sentimentais - se me ajudar a resgatar 
meu marido.
        A pequena boca rsea, que estivera esboando um sorriso com os prprios pensamentos de seu dono, apertou-se repentinamente.
        - Ah - disse sir Marcus, puxando a barba. - Compreendo. Mas j lhe disse, moa, no vejo como isso possa ser feito. Tenho mulher e trs filhos em casa. Sim, 
eu faria alguma coisa pelo filho de Ellen. Mas o que est pedindo  demais.
        De repente, minhas pernas cederam completamente e sentei-me com um baque, deixando meus ombros arriarem e minha cabea pender. O desespero me arrastava como 
uma ncora, puxando-me para baixo. Fechei os olhos e retirei-me para um lugar escuro no meu ntimo, onde no havia nada alm de um vazio cinzento e dolorido, e onde 
o som da voz de Murtagh, ainda argumentando, no passava de uma tagarelice indistinta.
        Foram os bramidos do gado que me tiraram do meu estupor. Ergui os olhos e vi MacRannoch girar nos calcanhares e sair s pressas da cabana. Quando abriu a 
porta, uma rajada do ar gelado do inverno entrou, carregada dos mugidos do gado e dos berros dos homens. A porta fechou-se com um estampido atrs da figura enorme 
e peluda e eu me virei para perguntar a Murtagh o que ele achava que deveramos fazer em seguida.
        A expresso de seu rosto me fez parar, muda. Eu raramente o vira com qualquer expresso alm de uma espcie de severidade paciente em suas feies, mas agora 
ele positivamente resplandecia com um entusiasmo contido.
        Agarrei-o pelo brao.
        - O que foi? Conte-me, depressa!
        Ele s teve tempo de dizer, antes de o prprio MacRannoch precipitar-se de volta na cabana, empurrando um jovem magro  sua frente:
        - As vacas! So de MacRannoch!
        Com um ltimo empurro, encostou o rapaz na parede recoberta de argamassa da cabana. Aparentemente, MacRannoch achava o confronto eficaz; tentava a mesma 
tcnica nariz a nariz que usara comigo anteriormente. Com menos autocontrole, ou menos cansado, do que eu, o jovem arqueou-se nervosamente contra a parede o mximo 
que pde.
        MacRannoch comeou mostrando-se amistosamente razovel.
        - Absalom, meu rapaz, eu o enviei h trs horas para trazer para dentro quarenta cabeas de gado. Eu lhe disse que era importante encontr-las, porque uma 
terrvel tempestade de neve est para acontecer. - A voz agra-davelmente modulada elevava-se. - E quando ouvi o barulho das vacas mugindo l fora, disse a mim mesmo, 
Ah, Marcus, Absalom foi e encontrou todo o gado, que rapaz excelente, agora todos ns podemos ir para casa e nos aquecermos junto ao fogo, com o gado a salvo em 
seus estbulos.
        Um punho forte e musculoso fechara-se no casaco de Absalom. O material, agarrado entre aqueles dedos rombudos, comeou a se deformar.
        - E, ento, eu saio para lhe dar os parabns por um excelente trabalho e comeo a contar os animais. E quantos eu conto, Absalom, meu belo rapazinho? - A 
voz elevara-se a um rugido a plenos pulmes. Embora no possusse uma voz particularmente profunda, Marcus MacRannoch tinha uma fora nos pulmes suficiente para 
trs homens de compleio normal.
        - Quinze! - gritou, erguendo o infeliz Absalom na ponta dos ps. -Ele encontra quinze animais, de quarenta! E onde esto os outros! Onde? L fora, perdidos 
na neve, para morrerem congelados!
        Murtagh desaparecera discretamente nas sombras do canto da sala enquanto a cena se desenrolava. Mas eu observava seu rosto e vi o repentino brilho de divertimento 
em seus olhos diante daquelas palavras. De repente, compreendi o que ele comeara a me dizer e eu sabia onde Rupert estava agora. Ou, se no exatamente onde ele 
estava, ao menos o que ele estava fazendo. E comecei a ter um pouco de esperana.
        Estava completamente escuro. As luzes da priso l embaixo brilhavam fracamente atravs da neve como os lampies de um navio inundado.
        Esperando sob as rvores com meus dois companheiros, revi mentalmente pela milsima vez tudo que podia dar errado.
        MacRannoch desempenharia sua parte no acordo? Teria de faz-lo, se quisesse obter de volta seu valioso gado de raa pura das Highlands. Sir Fletcher acreditaria 
em MacRannoch e ordenaria uma busca nas masmorras imediatamente? Era provvel - o baronete no era um homem que pudesse ser considerado levianamente.
        Eu vira o gado desaparecer, um animal de cada vez, pela vala que levava  oculta porta dos fundos, sob a conduo experiente de Rupert e seus homens. Mas 
conseguiriam forar o gado a entrar por aquela porta, um ou mais de cada vez? Se assim fosse, o que fariam uma vez l dentro, o gado desvairado, preso repentinamente 
num corredor de pedra iluminado com tochas ofuscantes? Bem, talvez funcionasse. O prprio corredor no seria muito diferente de seu estbulo de cho de pedras, inclusive 
as tochas e o cheiro de seres humanos. Se haviam chegado at l, o plano devia funcionar. Era pouco provvel que o prprio Randall pedisse socorro diante da invaso, 
por medo de ver seus pequenos segredos revelados.
        Os condutores do gado deveriam fugir da priso o mais depressa possvel, assim que os animais estivessem bem e verdadeiramente lanados em seu caminho catico 
e, ento, deveriam cavalgar a toda a brida para as terras dos MacKenzie. Randall no tinha importncia; o que poderia fazer sozinho naquelas circunstncias? Mas 
e se o barulho atrasse o resto da guarnio da priso cedo demais? Se Dougal relutara em tentar tirar seu sobrinho de Wentworth, eu podia imaginar sua ira se vrios 
MacKenzie fossem presos por invadirem o lugar. Eu tambm no queria ser responsvel por isso, embora Rupert tivesse se mostrado mais do que disposto a correr o risco. 
Mordi o polegar e tentei me tranqilizar, pensando nas toneladas de granito slido, capazes de abafar qualquer barulho, que separavam as masmorras das dependncias 
superiores da priso.
        O mais preocupante de tudo,  claro, era o temor de que tudo pudesse funcionar, mas j fosse tarde demais. Com um carrasco  espera ou no, Randall poderia 
ir longe demais. Eu sabia muito bem, por meio de histrias contadas pelos soldados que retornavam de campos de prisioneiros de guerra, que nada era mais fcil do 
que um prisioneiro morrer por "acidente" e o corpo ser convenientemente descartado antes que perguntas embaraosas pudessem ser feitas pelos oficiais. Ainda que 
perguntas fossem feitas, e Randall descoberto, pouco adiantaria para mim - ou para Jamie.
        Estava decidida a me impedir de imaginar os usos possveis da miscelnea de objetos que havia sobre a mesa naquele quarto. Mas no conseguia deixar de rever 
incessantemente as pontas dos ossos daquele dedo pressionado contra a mesa. Esfreguei os ns dos meus prprios dedos com fora contra o couro da sela, tentando apagar 
a imagem. Senti uma leve queimao e tirei a luva para examinar os arranhes deixados em minha mo pelos dentes do lobo. Nada muito ruim, apenas algumas esfoladuras, 
com uma nica perfurao pequena onde uma ponta aguda perfurara o couro. Lambi o ferimento distraidamente. No servia de consolo dizer a mim mesma que eu fizera 
o melhor possvel. Eu fizera apenas a nica coisa possvel, mas saber disso no tornava a espera mais fcil.
        Finalmente, ouvimos uma gritaria confusa, fraca, vinda da priso. Um dos homens de MacRannoch colocou a mo na brida do meu cavalo e indicou a proteo das 
rvores. A neve era bem mais fraca no abrigo e as rajadas de neve perdiam a fora sob os galhos entrelaados do bosque; havia apenas linhas finas de neve, duras 
e imprevistas, no solo rochoso e coberto de folhas. Embora a neve fosse menos espessa ali, a visibilidade ainda era to precria que as rvores a alguns passos de 
distncia assomavam repentinamente, os troncos surgindo subitamente, negros  luz rosada, conforme eu conduzia meu cavalo impacientemente pela pequena clareira.
        Abafado pela neve espessa, o tropel que se aproximava j estava quase junto a ns quando o ouvimos. Os dois homens MacRannoch sacaram suas pistolas e pararam 
seus cavalos junto s rvores,  espera, mas eu ouvira o mugido surdo do gado e esporeei meu cavalo para fora do bosque.
        Sir Marcus Rannoch, inconfundvel por seu cavalo malhado e sua capa de pele de urso, liderava a tropa pela encosta acima, a neve saltando em pequenas exploses 
dos cascos de sua montaria. Era seguido por vrios homens, todos de muito bom humor, ao que parecia. Outro grupo de seus homens cavalgava mais atrs, acossando pela 
retaguarda o gado que tentava se dispersar, conduzindo o rebanho desnorteado em torno do sop de um monte, em direo ao seu merecido refgio nos estbulos de MacRannoch.
        MacRannoch freou ao meu lado, rindo efusivamente.
        - Tenho que lhe agradecer, sra. Fraser - gritou atravs da neve -, por uma noite muito divertida. - Suas suspeitas anteriores haviam desaparecido e cumprimentou-me 
com fervorosa cordialidade. Com as sobrancelhas e o bigode cobertos de neve, parecia o Papai Noel em dia de festa. Segurando as rdeas do meu cavalo, conduziu-o 
de volta ao ar mais sereno do bosque. Com um aceno da mo, dispensou meus dois acompanhantes, enviando-os encosta abaixo, para ajudar com o gado. Em seguida, desmontou 
e ajudou-me a descer da sela, ainda rindo consigo mesmo.
        - Devia ter visto! - disse, gargalhando, extasiado. - Sir Fletcher ficou vermelho como o peito de um pintarroxo quando interrompi seu jantar, gritando que 
ele estava escondendo propriedade roubada em suas dependncias. Ento, quando descemos e ele ouviu os animais rugindo que nem trovo, pensei que ele tivesse sujado 
as calas. Ele... - Sacudi seu brao com impacincia.
        - No importa as calas de sir Fletcher. Encontrou meu marido? MacRannoch conteve-se um pouco, limpando os olhos na manga.
        - Ah, sim. Ns o encontramos.
        - Ele est bem? - perguntei com calma, embora tivesse vontade de gritar.
        MacRannoch balanou a cabea em direo s rvores atrs de mim. Girei nos calcanhares e vi um cavaleiro abrindo caminho cuidadosamente entre os galhos de 
rvores, uma figura volumosa envolta em um manto atravessada sobre o arco da sela,  sua frente. Sa correndo em sua direo, seguida por MacRannoch, explicando 
para tentar me tranqilizar.
        - Ele no est morto, ou pelo menos no estava quando o encontramos. Mas foi muito maltratado, o pobre rapaz. - Afastei o manto que recobria a cabea de 
Jamie e o examinei ansiosamente da melhor forma possvel, com o cavalo se remexendo, inquieto e irritado com a cavalgada glida e a carga extra. Pude ver contuses 
escuras e sentir reas de sangue coagulado no meio de seus cabelos desgrenhados, porm pouco mais alm disso na penumbra. Achei que sentia uma pulsao no pescoo 
gelado, mas no tinha certeza.
        MacRannoch segurou meu cotovelo e me afastou.
        -  melhor lev-lo para dentro depressa, moa. Venha comigo. Hector o trar para a casa.
        Na sala principal da Manso Eldridge, o lar dos MacRannoch, Hector desceu sua carga sobre o tapete em frente  lareira. Segurando uma das pontas do cobertor, 
desenrolou-o cuidadosamente, e uma figura inerte, nua, desmoronou-se sobre as flores amarelas e cor-de-rosa do tapete que era o orgulho e a alegria de lady Annabelle 
MacRannoch.
        Diga-se a favor de lady Annabelle que ela nem pareceu notar o sangue encharcando seu valioso tapete Aubusson. Uma mulher pequena e frgil como um passarinho, 
de quarenta e poucos anos, arrumada como um pintassilgo, resplandecente em seus trajes de seda amarela, enviou criados atarefados em todas as direes com um enrgico 
bater de palmas e logo cobertores, lenis de linho, gua quente e usque apareceram junto ao meu cotovelo quase antes de eu ter conseguido tirar meu manto.
        -  melhor vir-lo de bruos - avisou sir Marcus, servindo duas grandes doses de usque. - Ele teve as costas aoitadas e deve ser terrvel deitar sobre 
elas. No que ele parea conseguir sentir alguma coisa - acrescentou, examinando cuidadosamente o rosto lvido e as plpebras cerradas e azuladas de Jamie. - Tem 
certeza de que ele ainda est vivo?
        - Tenho - respondi secamente, esperando estar certa. Virei o corpo de Jamie com dificuldade. A inconscincia parecia ter triplicado seu peso. MacRannoch 
ajudou e conseguimos posicion-lo sobre um cobertor, as costas para a lareira.
        Uma triagem rpida confirmou que ele, de fato, ainda estava vivo, com todas as partes de seu corpo e sem perigo imediato de uma hemorragia mortal. Assim, 
eu podia fazer um inventrio menos apressado dos ferimentos.
        - Posso mandar buscar um mdico - disse lady Annabelle, olhando em dvida para o homem, que mais parecia um cadver, junto  lareira -, mas duvido que consiga 
chegar aqui em menos de uma hora; est nevando terrivelmente l fora. - A relutncia em seu tom de voz devia-se apenas em parte  neve, pensei. Um mdico seria apenas 
mais uma testemunha perigosa d presena de um criminoso fugitivo em sua casa.
        - No se preocupe - eu disse distraidamente. - Sou mdica. - Indiferente aos olhares de surpresa de ambos os MacRannoch, ajoelhei-me ao lado do que restava 
do meu marido, cobri-o com cobertores e comecei a aplicar compressas embebidas em gua quente s extremidades. Minha principal preocupao era aquec-lo; o sangue 
de suas costas gotejava lentamente e eu poderia lidar com aquilo mais tarde.
        Hady Annabelle desapareceu ao longe, sua voz aguda de pintassilgo convocando, chamando e tomando providncias. Seu marido agachou-se junto a mim e comeou 
a esfregar metodicamente os ps congelados entre as mos grandes e de dedos rombudos, parando de vez em quando para tomar um pequeno gole do seu usque.
        Tirando os cobertores por partes, inspecionei os danos. Ele havia sido chicoteado da nuca aos joelhos com algo que devia ser um chicote de montaria, as marcas 
cruzando-se perfeitamente como ponto de bainha. A absoluta ordenao das marcas, revelando uma deliberao que se regozijava em cada golpe aplicado, me fez sentir 
nauseada de dio.
        Alguma coisa mais pesada, talvez uma bengala, fora usada com menos moderao em seus ombros, provocando cortes to fundos em alguns pontos que se via o brilho 
do osso em uma das omoplatas. Pressionei um grosso chumao de algodo delicadamente sobre o ferimento em pior estado e continuei o exame.
        O ponto na lateral do corpo onde a marreta o atingira tinha uma aparncia feia, inchada e contundida, uma mancha roxa e negra maior do que a mo de sir Marcus. 
Costelas quebradas, sem dvida, mas elas tambm podiam esperar. Minha ateno foi atrada pelas reas lvidas no pescoo e no peito, onde a pele estava enrugada, 
vermelha e com bolhas. As bordas de uma dessas reas estavam chamuscadas, com um aro de cinza branca.
        - Diabos, o que fez isso? - Marcus terminara suas massagens e espreitava por cima do meu ombro com profundo interesse.
        - Um atiador de lareira, em brasa. - A voz era fraca e indistinta; foi necessrio um instante at eu perceber que fora Jamie quem falara. Ergueu a cabea 
com esforo, mostrando a razo para a sua dificuldade em falar; o lbio inferior estava profundamente mordido de um dos lados e inchado como uma picada de abelha.
        Com considervel presena de esprito, sir Marcus colocou a mo atrs do pescoo de Jamie e pressionou a caneca de usque em seus lbios. Jamie encolheu-se 
quando sua boca machucada ardeu com a bebida, mas bebeu todo o contedo da caneca antes de deitar a cabea outra vez. Seus olhos, apenas dois riscos ligeiramente 
embaciados de dor e usque, mas ainda assim bem-humorados, voltaram-se para mim.
        - Vacas? - perguntou. - Eram mesmo vacas ou eu estava sonhando?
        - Bem, foi tudo que consegui arranjar com o tempo que tnhamos - eu disse, radiante de alvio ao v-lo vivo e consciente. Coloquei a mo sobre sua cabea, 
virando-a para inspecionar uma grande contuso na face. - Voc est com uma aparncia horrvel. Como se sente? - perguntei, por fora do hbito h muito tempo adquirido.
        - Vivo. - Apoiou-se com dificuldade sobre um dos cotovelos para aceitar com um sinal da cabea uma segunda caneca de usque das mos de sir Marcus.
        - Acha que deve beber tanto de uma s vez? - perguntei, tentando examinar suas pupilas em busca de sinais de concusso. Ele me frustrou cerrando os olhos 
e inclinando a cabea para trs.
        - Sim - disse, devolvendo a caneca vazia a sir Marcus, que a levou de volta em direo  garrafa de usque.
        - Bom, por enquanto chega, Marcus. - Lady Annabelle, reaparecendo como o sol no Oriente, impediu seu marido com um gorjeio pleno de autoridade. - O rapaz 
precisa de um ch forte e quente, no de mais usque. - O ch vinha atrs dela, num bule de prata, carregado por uma criada cujo ar de superioridade natural no 
foi alterado pelo fato de ainda estar vestida em sua camisola de dormir.
        - Ch quente e forte, com muito acar - completei.
        - E talvez umas gotas de usque tambm - acrescentou sir Marcus, removendo cuidadosamente a tampa do bule quando passou por ele e acrescentando uma generosa 
dose de sua garrafa. Aceitando com gratido a xcara de ch fumegante, Jamie ergueu-a num tributo mudo a sir Marcus, antes de levar o lquido quente cuidadosamente 
 boca. Sua mo tremia incontrolavelmente e eu a envolvi nas minhas para guiar a xcara.
        Novos criados trouxeram uma cama de campanha, um colcho, mais cobertores, mais ataduras e gua quente, bem como uma grande arca de madeira contendo os suprimentos 
mdicos da casa.
        - Achei melhor trabalharmos aqui junto  lareira - explicou lady Annabelle em sua encantadora voz de passarinho. - H mais luz e certamente  o lugar mais 
quente da casa.
        Com uma ordem sua, dois dos criados mais robustos seguraram, cada um de um lado, as pontas do cobertor sobre o qual Jamie estava deitado e o transferiram, 
e a seu contedo, sem solavancos, para a cama de campanha, armada diante do fogo, onde outro criado atiava laboriosamente as brasas empilhadas para a noite e alimentava 
a chama crescente. A criada que trouxera o ch acendia com eficincia as velas finas de cera nos candelabros de vrios braos que havia sobre o buf. Apesar da aparncia 
de pintassilgo, Annabelle obviamente tinha a alma de um sargento.
        - Sim, agora que ele est acordado, quanto mais cedo melhor - eu disse. - Tem uma tbua reta com cerca de sessenta centmetros de comprimento - perguntei 
-, uma tira forte e talvez algumas varetas planas e retas, mais ou menos deste tamanho? - Indiquei o comprimento com a distncia de aproximadamente dez centmetros 
entre os dedos. Um dos criados desapareceu nas sombras, sumindo de vista com um estalido, como um gnio da lmpada, para atender meu pedido.
        A casa inteira parecia mgica, talvez por causa do contraste entre o frio assustador do lado de fora e o suntuoso calor ali de dentro, ou talvez apenas por 
causa do alvio de ver Jamie a salvo, aps tantas horas de medo e desespero.
        A moblia pesada e escura brilhava com o polimento  luz das velas, objetos de prata reluziam em cima do buf e uma delicada coleo de porcelanas e cristais 
ornamentava o consolo da lareira, num contraste bizarro com a figura ensangentada e suja  sua frente.
        Nenhuma pergunta foi feita. ramos hspedes de sir Marcus e lady Annabelle comportava-se como se fosse um acontecimento receber pessoas,  meia-noite, que 
sangravam no tapete. Ocorreu-me pela primeira vez que uma visita semelhante j devia ter acontecido antes.
        - Um trabalho asqueroso - disse sir Marcus, examinando a mo esmi-galhada com um conhecimento adquirido em campos de batalha. - E terrivelmente doloroso 
tambm, eu imagino. Ainda assim, isso no vai mat-lo, no ? - Empertigou-se e referiu-se a mim em tom confidencial.
        - Achei que poderia ser pior, considerando-se o que ela me disse. Fora as costelas e a mo, no h ossos quebrados e o resto logo estar curado. Eu diria 
que teve sorte, rapaz.
        A figura deitada na cama emitiu um resfolegar fraco.
        - Suponho que possa chamar a isso de sorte. Pretendiam me enforcar pela manh. - Moveu a cabea impacientemente no travesseiro, tentando olhar para sir Marcus. 
- Sabia disso... sir? - acrescentou, avistando o colete bordado de Marcus, com seu braso trabalhado em fios de prata entre pombos e rosas.
        MacRannoch sacudiu a mo, descartando esse detalhe menor.
        - Bem, se ele pretendia mant-lo apresentvel para o carrasco, foi um pouco longe demais em suas costas - observou sir Marcus, retirando o algodo ensopado 
e substituindo-o por uma nova compressa.
        - Sim. Ele perdeu um pouco a cabea quando... quando ele... - Jamie esforou-se para pronunciar as palavras, depois desistiu e virou o rosto para o fogo, 
os olhos fechados. - Meu Deus, estou cansado - disse.
        Ns o deixamos descansar at que o criado materializou-se junto ao meu cotovelo com as talas que eu solicitara. Em seguida, peguei a mo machucada de Jamie 
com todo cuidado, aproximando a luz do candelabro para examin-la.
        Teria que ser imobilizada o mais rpido possvel. Os msculos machucados j faziam os dedos dobrarem-se para dentro como uma garra. Senti-me perdida quando 
vi a extenso dos ferimentos. Mas se ele algum dia pudesse fazer uso da mo novamente tinha que ser tentado.
        Lady Annabelle no se afastara durante o exame, observando com interesse. Quando coloquei a mo sobre a cama outra vez, ela adiantou-se e abriu a pequena 
arca de suprimentos mdicos.
        - Imagino que vai precisar de eupatrio e talvez de casca de cerejeira. No sei... - Olhou pra Jamie com ar de dvida. - Sanguessugas? O que acha? - A mo 
bem cuidada pairava em cima de um pequeno recipiente tampado e cheio de um lquido escuro.
        Estremeci e sacudi a cabea.
        - No, creio que no; pelo menos, no agora. O que eu realmente precisava... por acaso tem algum tipo de entorpecente? - Ajoelhei-me ao lado dela para examinar 
o contedo da caixa.
        - Ah, tenho, sim! - Sua mo dirigiu-se sem hesitao para um pequeno frasco verde. - Flores de ludano. - Leu o rtulo. - Serve?
        - Perfeito. - Aceitei o frasco com gratido.
        - Muito bem - eu disse energicamente a Jamie, despejando uma pequena quantidade do lquido de cheiro forte em um copo -, voc s precisa ficar sentado o 
tempo suficiente para engolir isso. Depois, ir dormir e permanecer assim por bastante tempo.
        Na realidade, eu tinha dvidas sobre a prudncia de administrar ludano depois de todo aquele usque, mas a alternativa - reconstruir aquela mo enquanto 
ele estivesse consciente - era impensvel. Inclinei o frasco para despejar um pouco mais.
        A mo esquerda de Jamie no meu brao me impediu.
        - No quero drogas - disse com firmeza. - Talvez apenas mais uma pequena dose de usque - hesitou, a lngua tocando o lbio mordido. - E talvez alguma coisa 
para morder.
        Sir Marcus, ouvindo aquilo, atravessou a sala at a graciosa e brilhante escrivaninha Sheraton no canto e comeou a fazer uma busca minuciosa. Retornou em 
poucos instantes com uma pequena pea de couro envelhecido. Olhando mais de perto, pude ver as dezenas de endentaes semicirculares sobrepostas no couro grosso 
- marcas de dentes, percebi com um choque.
        - Aqui est - disse sir Marcus, prestativamente. - Eu mesmo o usei em St. Simone. Ajudou-me enquanto retiravam uma bala de mosquete cravada em minha perna.
        Continuei olhando, de boca aberta, enquanto Jamie pegava o couro com um aceno da cabea em agradecimento, passando o polegar sobre as marcas. Falei devagar, 
estupefata.
        - Voc realmente espera que eu coloque nove ossos no lugar com voc acordado?
        - Sim - respondeu laconicamente, colocando o couro entre os dentes e mordendo-o experimentalmente. Mudou-o de posio de um lado para o outro, procurando 
o jeito mais confortvel.
        Dominada pela absoluta teatralidade daquela cena, o precrio autocontrole que eu havia conseguido reunir de repente desmoronou.
        - Quer parar de bancar o maldito heri! - esbravejei, furiosa. - Todos ns sabemos o que voc fez, no tem que provar o quanto pode agentar! Ou voc acha 
que todos ns vamos nos desesperar se voc no estiver no comando, dizendo a todos o que fazer a cada minuto? Quem, com todos os diabos, voc pensa que ? John Wayne?!
        Fez-se um silncio constrangedor. Jamie olhou para mim, boquiaberto. Finalmente, falou.
        - Claire - disse suavemente -, estamos talvez a uns trs quilmetros da priso de Wentworth. Eu deveria ser enforcado pela manh. Independente do que tenha 
acontecido a Randall, os ingleses logo vo notar meu desaparecimento.
        Mordi o lbio. O que ele dizia era verdade. A inadvertida libertao de outros presos que eu provocara poderia confundir por algum tempo, mas por fim fariam 
uma contagem e a busca comearia. E graas ao espalhafatoso mtodo de fuga que eu escolhera, era de se prever que todas as atenes se voltariam para a Manso Eldridge 
imediatamente.
        - Se tivermos sorte - a voz serena continuou -, a neve retardar a busca at termos partido. Se no... - encolheu os ombros, fitando as chamas. - Claire, 
no deixarei que me peguem de novo. E ficar drogado, deitado aqui indefeso se eles vierem, e talvez acordar acorrentado em uma cela outra vez... Claire, eu no suportaria.
        Havia lgrimas nas minhas pestanas turvando a minha vista. Fitei-o com os olhos arregalados, sem querer piscar e deixar que escorressem pelo meu rosto.
        Ele cerrou os olhos por causa do calor do fogo. A incandescncia emprestava uma aparncia de saudvel rubor s suas faces plidas. Eu podia ver os longos 
msculos em sua garganta moverem-se enquanto ele engolia em seco.
        - No chore, Sassenach - disse, to suavemente que mal pude ouvi-lo. Estendeu a mo ilesa e deu uns tapinhas em minha perna, tentando me tranqilizar. - 
Acho que estamos bastante seguros, menina. Se eu achasse provvel que fssemos capturados, certamente no iria perder uma das minhas ltimas horas deixando que voc 
consertasse a minha mo, que eu no iria mais usar. V chamar Murtagh para mim. Depois, me d uma bebida e acabaremos com isso.
        Ocupada  mesa com os preparativos mdicos, no pude ouvir o que ele dizia a Murtagh, mas vi as duas cabeas juntas por um instante, depois a mo musculosa 
de Murtagh tocou delicadamente a orelha do homem mais novo - um dos poucos lugares sem ferimentos disponvel.
        Com um rpido aceno de cabea de despedida, Murtagh dirigiu-se para a porta. Como um rato, pensei, movendo-se ao longo dos painis da parede para no ser 
notado Fui atrs dele quando saiu para o vestbulo e agarrei-o pelo xale de seu kilt pouco antes de desaparecer completamente pela porta da frente
        - O que ele lhe disse - perguntei impetuosamente. - Onde est indo? O homenzinho escuro e vigoroso hesitou por um instante, mas respondeu sem se alterar:
        - Devo ir com o jovem Absalom em direo a Wentworth e ficar de vigia. Se algum soldado ingls estiver vindo para c, devo chegar aqui antes dele e, se houver 
tempo, esconder voc e ele, depois partir com trs cavalos, para atrair os perseguidores para longe da manso. H um poro; pode servir de esconderijo, se a busca 
no for muito rigorosa.
        - E se no houver tempo para nos escondermos? - Fitei-o atentamente, desafiando-o a deixar de me responder.
        - Ento, devo mat-lo e levar voc comigo - respondeu prontamente. - Mesmo contra sua vontade - acrescentou, com um sorriso maldoso, virando-se para ir embora
        - Espere um minuto - falei asperamente Ele parou. - Tem uma adaga extra?
        Suas sobrancelhas imundas ergueram-se subitamente, mas levou a mo  cintura sem hesitar.
        - Precisa de uma adaga? Aqui? - Seu olhar abrangeu a opulncia e a serenidade do vestbulo, com seu teto no estilo Adam, artisticamente pintado, e seus painis 
ornamentais na forma de dobras de tecido
        O bolso onde costumava guardar a adaga estava completamente rasgado. Peguei a adaga que ele me apresentou e enfiei-a entre a blusa e o colete nas costas, 
como vira as ciganas fazerem.
        - Nunca se sabe, no ? - respondi tranqilamente.
        Terminados os preparativos, sondei o mais delicadamente possvel, avaliando os danos, decidindo o que devia ser feito. Jamie prendeu a respirao com fora 
quando toquei um local especialmente dolorido, mas manteve os olhos cerrados enquanto eu tateava devagar ao longo de cada junta e osso separados, observando a posio 
de cada fratura e deslocamento.
        - Sinto muito - murmurei.
        Peguei sua mo intacta tambm e tateei cuidadosamente cada dedo das duas mos, fazendo comparaes. Sem raios X ou qualquer experincia para me guiar, teria 
que contar com a minha prpria sensibilidade para encontrar e realinhar os ossos esmagados.
        A primeira junta estava boa, mas achei que a segunda falange estava fraturada. Apertei com mais fora para determinar o comprimento e a direo da fratura. 
A mo ferida permaneceu imvel em meus dedos, mas a mo boa fez um pequeno gesto involuntrio de retraimento.
        - Desculpe-me - murmurei.
        A mo em perfeitas condies retraiu-se das minhas quando Jamie ergueu-se em um dos cotovelos. Cuspindo fora o pedao de couro, fitou-me com uma expresso 
entre divertimento e exasperao.
        - Sassenach - disse -, se pedir desculpas toda vez que me machucar, vai ser uma noite muito longa, e j durou bastante.
        Devo ter parecido chocada, porque ele comeou a estender o brao para mim, depois parou, contraindo-se de dor com o movimento. Entretanto, controlou o sofrimento 
e falou com firmeza:
        - Sei que no tinha inteno de me machucar. Mas no tem outra escolha, assim como eu no tenho, e no h necessidade de mais de um de ns sofrer por isso. 
Faa o que for necessrio e eu gritarei se tiver que gritar.
        Recolocando o pedao de couro entre os dentes, exibiu os dentes cerrados ferozmente para mim. Depois, devagar e deliberadamente, focalizou os olhos como 
se fosse vesgo. Isso o fez parecer tanto com um tigre aturdido que explodi numa gargalhada um tanto histrica antes que pudesse me conter.
        Tampei a boca com as mos, as faces em chama quando vi os olhares atnitos nos rostos de lady Annabelle e dos criados, que, de p atrs de Jamie, naturalmente 
no podiam ver seu rosto. Sir Marcus, que captara um vislumbre da careta de Jamie de sua cadeira ao lado da cama, exibiu um largo sorriso em sua barba avantajada.
        - Alm do mais - continuou Jamie, cuspindo o couro outra vez -, se os ingleses aparecerem depois disto, acho que vou implorar para que me levem de volta.
        Peguei o pedao de couro, coloquei-o entre seus dentes e empurrei sua cabea para baixo outra vez.
        - Palhao - eu disse. Mas ele me livrara de um peso e pude trabalhar com mais tranqilidade. Se ainda notava cada estremeo ou careta de dor, pelo menos 
j no me sentia to mal.
        Comecei a me desligar do ambiente  minha volta, concentrando-me inteiramente na tarefa, direcionando toda a minha ateno s pontas dos meus dedos, examinando 
cada ponto ferido e decidindo a melhor maneira de realinhar os ossos quebrados. Felizmente, o polegar foi o que menos sofreu; apenas uma fratura simples na primeira 
junta. Iria se recuperar inteiramente, sem seqelas. A segunda articulao do dedo anular estava completamente destruda; senti apenas um rudo de fragmentos de 
ossos quando a girei delicadamente entre o polegar e o indicador, fazendo Jamie gemer. Nada poderia ser feito em relao a isso, a no ser entalar a articulao 
e torcer pelo melhor.
        A fratura mltipla do dedo mdio era a pior. O dedo teria que ser puxado para ficar reto, recolocando o osso proeminente de volta pela carne dilacerada. 
Eu j vira isso ser feito antes - sob anestesia geral e com o auxlio de raios X.
        At ento, o procedimento no passara de um problema mais mecnico do que real, tendo que decidir como reconstruir a extremidade esmagada de um membro, desconectada 
de um corpo. Percebi de repente porque os mdicos raramente tratam pessoas de suas prprias famlias. Alguns procedimentos em medicina requerem uma dose de brutalidade 
para serem realizados com sucesso; o distanciamento  necessrio para que se possa infligir dor no processo de efetuar uma cura.
        Silenciosamente, sir Marcus trouxera um banco para junto da cama. Instalou seu corpanzil confortavelmente enquanto eu terminava de enfaixar e segurou a mo 
boa de Jamie entre as suas.
        - Pode apertar o quanto quiser, rapaz - disse.
        Desprovido de sua pele de urso e com seus cachos grisalhos cuidadosamente penteados e amarrados na nuca, MacRannoch j no parecia o selvagem assustador 
da floresta, mas um homem de meia-idade, sobriamente vestido, com uma barba bem-aparada e uma postura militar. Nervosa com o que estava prestes a tentar, achei sua 
slida presena reconfortante.
        Respirei fundo e rezei para conseguir manter o distanciamento.
        Foi um trabalho longo, horrvel, devastador, embora no destitudo de fascnio. Algumas partes, como entalar os dois dedos com fraturas simples, transcorreram 
sem dificuldades. Outras, no. Jamie realmente gritou -bem alto - quando encanei os ossos do dedo mdio, exercendo uma fora considervel, necessria para conduzir 
as pontas lascadas dos ossos atravs da carne. Hesitei por um instante, desalentada, mas sir Marcus disse energicamente: "Continue, moa!"
        Lembrei-me subitamente do que Jamie me dissera, na noite em que o beb de Jenny nasceu: Eu mesmo posso suportar a dor, mas no agentaria v-la sofrer. Est 
acima das minhas foras. Tinha razo; era necessria muita coragem; esperava que cada um de ns tivesse o suficiente.
        O rosto de Jamie estava desviado do meu, mas eu podia ver os msculos do maxilar contrarem-se quando ele fincava os dentes com mais fora no couro. Cerrei 
meus prprios dentes e continuei; a extremidade pontiaguda do osso desapareceu lentamente de volta pela pele e o dedo estendeu-se com uma agonizante relutncia, 
deixando ns dois trmulos.
        Enquanto trabalhava, comecei a perder a conscincia de qualquer outra coisa fora da tarefa  minha frente. Jamie gemia de vez em quando e teve que parar 
duas vezes com nsias de vmito, expelindo praticamente apenas usque, j que comera muito pouco na priso. No entanto, durante a maior parte do tempo, ele manteve 
um murmrio constante em galico, a testa pressionada com fora contra os joelhos de sir Marcus. Eu no sabia, atravs da mordaa de couro, se ele estava rezando 
ou xingando.
        Todos os cinco dedos por fim ficaram retos como pinos novos, rgidos como pedaos de pau em suas talas enfaixadas. Eu tinha medo de infeco, particularmente 
no dedo mdio dilacerado, mas fora isso estava bastante confiante de que a recuperao seria boa. Por sorte, somente aquela articulao em particular fora drasticamente 
danificada. Provavelmente perderia os movimentos daquele dedo, mas os outros voltariam ao seu funcionamento normal - com o tempo. No havia nada que eu pudesse fazer 
a respeito dos ossos do metacarpo fraturados ou da perfurao com prego, exceto aplicar um anti-sptico e uma cataplasma, depois rezar para que no tivesse ttano. 
Dei um passo para trs, com todos os membros tremendo com a tenso da noite, meu corpete ensopado de suor do calor do fogo s minhas costas.
        Lady Annabelle surgiu ao meu lado imediatamente, conduzindo-me a uma cadeira e pressionando em minhas mos trmulas uma xcara de ch, com um pouco de usque. 
Sir Marcus, como o melhor assistente de uma sala de operaes que um mdico poderia ter, desamarrava o brao preso de Jamie e esfregava as marcas onde as tiras haviam 
machucado os msculos retesados. Sua mo estava vermelha, notei, onde Jamie a agarrara.
        No percebi que havia cochilado, mas despertei com um solavanco, a cabea aprumando-se no pescoo. Annabelle instava-me a subir, a mo macia sob meu cotovelo.
        - Venha, querida. Voc est morta de cansao; seus prprios ferimentos precisam ser tratados e precisa dormir um pouco.
        Desvencilhei-me dela o mais delicadamente possvel.
        - No, no posso. Tenho que terminar... - Minhas palavras se perderam em meu estado de confuso mental, quando Marcus tirou suavemente de minhas mos a garrafa 
de vinagre e um pedao de pano.
        - Eu cuidarei do resto - disse. - Tenho alguma experincia em tratar feridos em campo de batalha, sabe. - Atirando os cobertores para trs, comeou a limpar 
o sangue dos cortes das chicotadas, com movimentos suaves mas eficazes, que realmente impressionavam. Vendo-me observ-lo, riu, a barba vistosamente empinada. - 
J limpei muitos cortes de chicotadas em minha poca - disse. - E apliquei algumas tambm. Isso no  nada, moa; estaro curados em poucos dias. - Sabendo que ele 
tinha razo, dirigi-me  cabeceira da cama. Jamie estava acordado, o rosto levemente contorcido numa careta de dor por causa da ardncia provocada pela soluo anti-sptica 
aplicada nos ferimentos em carne viva. No entanto, suas plpebras estavam pesadas e os olhos azuis escurecidos de dor e cansao.
        - V dormir, Sassenach.  o que vou fazer.
        Se ele conseguiria ou no, eu no sabia. Era claro, entretanto, que eu no poderia dormir, ao menos no por muito tempo. Estava cambaleando de exausto e 
os arranhes nas minhas pernas comeavam a queimar e doer. Absalom os havia limpado para mim na cabana, mas precisavam de um curativo.
        Balancei a cabea, entorpecida, e atendi  presso delicada, mas insistente, de lady Annabelle em meu cotovelo.
        No meio das escadarias, lembrei-me de ter esquecido de dizer a sir Marcus como enfaixar os cortes. Os ferimentos profundos nos ombros teriam que ser firmados 
com tiras e acolchoados, para que Jamie pudesse usar uma camisa quando fugssemos. No entanto, as marcas mais leves deveriam ser deixadas ao ar livre, para cicatrizarem. 
Dei uma rpida olhada no quarto de hspedes para onde Annabelle me conduzira, depois pedi licena e voltei aos tropees pelas escadas, dirigindo-me  sala de visitas.
        Parei na penumbra da soleira da porta, Annabelle atrs de mim. Os olhos de Jamie estavam fechados; aparentemente, ele cara numa espcie de sonolncia causada 
pelo usque e pela fadiga. Os cobertores foram atirados para trs, dispensveis pelo calor do fogo. Sir Marcus casualmente descansou a mo no quadril nu de Jamie 
ao estender-se por cima da cama para pegar um pedao de pano. O efeito foi eltrico. As costas de Jamie arquearam-se subitamente, os msculos de suas ndegas firmemente 
retesados, e ele deixou escapar um grunhido involuntrio de protesto, arre-messando-se de costas, apesar das costelas quebradas, para fitar sir Marcus com olhos 
arregalados e atordoados. Ele mesmo assustado, Marcus parou imvel por um instante, depois se inclinou para a frente, segurou Jamie pelo brao, cuidadosamente colocando-o 
de rosto para baixo outra vez. Pensativamente, passou o dedo com cuidado pela pele de Jamie. Esfregou os dedos juntos, deixando uma pelcula oleosa visvel  luz 
do fogo.
        - Ah - exclamou. O velho soldado puxou o cobertor at a cintura de Jamie e vi os ombros tensos relaxarem-se ligeiramente sob os curativos.
        Sir Marcus sentou-se de forma social e amistosa junto  cabea de Jamie e serviu mais duas doses de usque.
        - Ao menos, ele teve a considerao de unt-lo um pouco antes -observou, entregando uma caneca a Jamie, que se ergueu com dificuldade nos cotovelos para 
aceit-la.
        - Sim, bem. No acho que tenha sido pela minha convenincia - disse secamente.
        Sir Marcus tomou um gole de sua bebida e estalou os lbios, meditativo. No se ouviu nenhum som por alguns instantes, a no ser os estalidos do fogo, mas 
nem Annabelle nem eu fizemos qualquer movimento para entrar na sala.
        - Se isto lhe serve de consolo - sir Marcus disse de repente, os olhos fixos na garrafa de usque -, ele est morto.
        - Tem certeza? - o tom de voz de Jamie era indecifrvel.
        - No vejo como algum possa sobreviver depois de ser pisoteado por trinta bestas de meia tonelada cada uma. Ele surgiu no corredor para ver o que estava 
causando o barulho, depois tentou voltar quando viu o que era. Um chifre pegou-o pela manga e puxou-o para fora. Eu vi quando ele caiu junto  parede. Eu e sir Fletcher 
estvamos na escada, fora do caminho. Naturalmente, Fletcher ficou desatinado e enviou alguns homens para resgat-lo, mas no puderam nem se aproximar, com todos 
os chifres furando-o e os animais jogando-o de um lado para o outro. At as tochas caram da parede com o tumulto. Nossa, rapaz, voc devia ter visto! - Sir Marcus 
assoviou diante da lembrana, agarrando a garrafa pelo gargalo. -Sua mulher  uma jovem de fibra, no h dvida! - Resfolegando, serviu outra dose e tomou-a de uma 
s vez, engasgando-se um pouco quando o riso interferiu com o ato de engolir.
        - De qualquer forma - continuou, batendo no prprio peito -, quando conseguimos afugentar o gado dali, no restava muita coisa mais do que um boneco de trapos 
envolto em sangue. Os homens de Fletcher o levaram dali, mas se ainda estivesse vivo, no durou muito. Mais um pouco, rapaz?
        - Sim, obrigado.
        Fez-se um breve silncio, quebrado por Jamie.
        - No, no posso dizer que me sirva de grande consolo, mas obrigado por me contar.
        Sir Marcus olhou-o com sagacidade.
        - Mmmmhum. Voc no vai conseguir esquecer isso - disse, subitamente. - Nem se d ao trabalho de tentar. Se puder, deixe curar como o resto de seus ferimentos. 
No fique remexendo neles e cicatrizaro perfeitamente. - O velho guerreiro exibiu um antebrao tortuoso, do qual a manga da camisa fora puxada para cima quando 
ministrava seus cuidados mdicos, para mostrar a cicatriz de traos irregulares que ia do cotovelo ao pulso. - Cicatrizes no devem incomod-lo.
        - Sim,  verdade. Algumas cicatrizes, talvez. - Aparentemente lembrando-se de alguma coisa, Jamie esforou-se para virar-se de lado. Sir Marcus largou a 
caneca com uma exclamao.
        - Hei, rapaz, cuidado! Virando-se de lado, voc pode perfurar o pulmo com a costela quebrada. - Ajudou Jamie a equilibrar-se no cotovelo direito, calando 
seu corpo com um cobertor dobrado para mant-lo na posio.
        - Preciso de uma faca pequena -Jamie disse, ofegando. - Bem afiada, se estiver  mo.
        Sem fazer perguntas, sir Marcus caminhou pesadamente at o lustroso buf francs de imbuia e vasculhou as gavetas com um prodigioso barulho, emergindo finalmente 
com uma faca de fruta, de cabo de madreprola. Atirou-a na mo inclume de Jamie e sentou-se novamente com um gru-nhido, retomando sua bebida.
        - No acha que j tem cicatrizes suficientes? - perguntou. - Vai acrescentar mais algumas?
        - Apenas uma. - Jamie equilibrou-se precariamente em um dos cotovelos, o queixo pressionado no peito, enquanto mirava a faca afiada desajeitadamente embaixo 
do peito esquerdo. A mo de sir Marcus lanou-se para a frente, um pouco instvel, e agarrou o pulso de Jamie.
        -  melhor deixar-me ajud-lo, rapaz. Vai cair em cima dela agora mesmo. - Aps uma breve pausa, Jamie relutantemente entregou a faca e deitou-se de costas 
no cobertor acolchoado. Tocou o peito uns cinco centmetros abaixo do mamilo.
        - Aqui. - Sir Marcus pegou um lampio de cima do buf, colocando-o sobre o banco onde estivera sentado. Aquela distncia, eu no conseguia ver o que ele 
examinava; parecia uma pequena queimadura vermelha, de forma grosseiramente circular. Tomou outro gole decidido de sua caneca de usque, recolocou-a em seguida ao 
lado do lampio e pressionou a ponta da faca no peito de Jamie. Devo ter feito um movimento involuntrio, porque lady Annabelle agarrou a manga do meu vestido murmurando 
para eu ter cautela. A ponta da faca penetrou na carne e foi girada rapidamente, com o movimento enrgico que se usa para extirpar um ponto podre de um pssego maduro. 
Jamie grunhiu, uma vez, e um fino fio vermelho deslizou pela curva de sua barriga e manchou o cobertor. Ele girou o corpo sobre o estmago, estancando o ferimento 
contra o colcho.
        Sir Marcus colocou de lado a faca de fruta.
        - Assim que tiver condies, rapaz, leve sua mulher para a cama e deixe que ela o reconforte. As mulheres gostam de fazer isso - disse, rindo em direo 
 entrada da sala, mergulhada em sombras. - S Deus sabe por qu.
        Lady Annabelle disse afavelmente:
        - Venha agora, querida.  melhor deix-lo sozinho um pouco.
        Decidi que sir Marcus poderia cuidar do curativo sozinho e a segui com dificuldade pelas escadas estreitas at o meu quarto.
        Acordei com um sobressalto por causa de um pesadelo de escadarias interminveis em caracol, o horror espreitando ao final. O cansao fazia minhas costas 
e minhas pernas doerem, mas sentei-me na cama, em minha camisola emprestada, e tateei em busca da vela e da caixa de slex. Sentia-me inquieta, to distante de Jamie. 
E se ele precisasse de mim? Pior ainda, e se os ingleses viessem, enquanto ele estava sozinho l embaixo, desarmado? Pressionei o rosto contra o postigo frio, tranqilizada 
pelo chiado constante da neve contra as vidraas. Enquanto a tempestade continuasse, provavelmente estaramos a salvo. Enrolei-me numa colcha e, pegando a vela e 
a adaga, dirigi-me s escadas.
        A casa estava silenciosa, exceto pelo crepitar do fogo. Jamie dormia, ou ao menos tinha os olhos cerrados, o rosto virado para o fogo. Sentei-me no tapete 
junto  lareira, silenciosamente, para no acord-lo. Esta era a primeira vez que ficvamos sozinhos desde aqueles poucos minutos desesperadores na masmorra da priso 
de Wentworth. Parecia que fora h muitos anos. Examinei Jamie cuidadosamente, como se inspecionasse um estranho.
        No parecia muito mal fisicamente, no cmputo geral, mas ainda assim eu estava preocupada. Tomara usque suficiente durante a cirurgia para derrubar um cavalo 
de trao e uma boa parte obviamente ainda estava em seu sistema, apesar do vmito.
        Jamie no era meu primeiro heri. Os homens passavam depressa demais pelo hospital de campanha, de um modo geral, para que as enfermeiras pudessem conhec-los 
bem, mas de vez em quando se via um homem que falava pouco demais ou fazia pilhrias demais, que se mantinha mais tenso e reservado do que a dor e a solido poderiam 
explicar.
        E eu sabia, grosso modo, o que podia ser feito por eles. Se houvesse tempo, e se fossem do tipo que conversavam para manter a escurido  distncia, sentava-me 
com eles e ouvia. Caso ficassem calados, eu os tocava sempre que passava por eles e ficava  espreita do momento oportuno, quando poderia faz-los se abrir, e os 
abraava enquanto exorcizavam seus demnios. Se houvesse tempo. Se no houvesse, aplicava-lhes morfina e esperava que conseguissem encontrar algum que os ouvisse, 
enquanto seguia em frente, para atender aqueles cujos ferimentos eram visveis.
        Jamie falaria com algum, mais cedo ou mais tarde. Havia tempo. Mas eu esperava que no fosse eu.
        Ele estava descoberto at a cintura e inclinei-me para a frente para examinar suas costas. Era uma viso impressionante. Apenas alguns centmetros separavam 
os cortes dos aoites, infligidos com uma regularidade que chocava a mente. Ele devia ter permanecido imvel como uma sentinela enquanto era aoitado. Olhei seus 
pulsos - sem marcas. Ele, portanto, mantivera sua palavra de no reagir. E no se movera durante seu sofrimento, pagando o resgate combinado pela minha vida.
        Limpei os olhos na manga da camisola. No iria ficar agradecido, eu imaginava, por debulhar-me em lgrimas sobre seu corpo prostrado. Mudei de posio com 
um leve farfalhar de saias. Ele abriu os olhos com o rudo, mas no pareceu particularmente assustado. Esboou um sorriso, dbil e cansado, mas real. Abri a boca 
e repentinamente percebi que no sabia o que dizer a ele. Agradecer era impossvel. "Como se sente?" seria ridculo; obviamente, sentia-se pssimo. Enquanto pensava, 
ele falou primeiro.
        - Claire? Voc est bem, meu amor?
        - Se eu estou bem? Meu Deus, Jamie! - As lgrimas assomaram s minhas pestanas e pisquei com fora, fungando. Ele ergueu a mo boa devagar, como se estivesse 
pesada de correntes, e acariciou meus cabelos. Puxou-me para si, mas eu me afastei, consciente pela primeira vez da minha aparncia, o rosto arranhado e coberto 
de seiva de rvore, os cabelos duros, emplastados em vrios pontos de substncias impossveis de mencionar.
        - Venha c - ele disse. - Quero abra-la por um instante.
        - Mas estou coberta de sangue e vmito - protestei, fazendo um dbil esforo de arrumar os cabelos.
        Ele emitiu um som sibilante, a expirao fraca que era tudo que suas costelas quebradas permitiam em termos de risada.
        - Nossa Senhora, Sassenach,  meu sangue e meu vmito. Venha aqui. Seu brao era reconfortante em torno dos meus ombros. Descansei a cabea no travesseiro 
ao lado dele e permanecemos em silncio junto ao fogo, extraindo fora e paz um do outro. Seus dedos tocaram delicadamente o pequeno ferimento sob meu maxilar.
        - Achei que nunca mais a veria outra vez, Sassenach. - Sua voz era baixa e um pouco rouca do usque e dos gritos. - Fico feliz por voc estar aqui.
        Sentei-me.
        - No me ver outra vez! Por qu? Acha que eu no conseguiria tir-lo de l?
        Ele sorriu, um sorriso enviesado.
        - Bem, no, no esperava que conseguisse. Mas achei que se eu lhe dissesse isso, voc poderia ficar teimosa e se recusar a ir embora.
        - Eu ficar teimosa! - exclamei, indignada. - Veja s quem est falando! Houve uma pausa, que se tornou um pouco embaraosa. Havia coisas que eu deveria perguntar, 
necessrias do ponto de vista mdico, mas sensveis do aspecto pessoal. Finalmente, contentei-me em perguntar apenas:
        - Como se sente?
        Seus olhos estavam fechados, com olheiras fundas e escuras  luz da vela, mas os contornos das costas largas estavam tensos sob as ataduras. A boca larga, 
machucada, contorceu-se, algo entre um sorriso e uma careta.
        - No sei, Sassenach. Nunca me senti assim. Tenho vontade de fazer inmeras coisas, tudo de uma vez, mas minha mente luta com o meu corpo e meu corpo virou 
um traidor. Quero sair daqui imediatamente e correr o mais rpido e mais longe que puder. Quero bater em algum. Meu Deus, como eu quero bater em algum! Quero incendiar 
a priso de Wentworth e transform-la em cinzas. Quero dormir.
        - Pedras no pegam fogo - eu disse, de forma prtica. - Em vez disso, talvez fosse melhor dormir.
        A mo ilesa procurou a minha e encontrou-a, a boca relaxou um pouco, embora seus olhos permanecessem fechados.
        - Quero abra-la com fora e beij-la e nunca deix-la ir embora. Quero lev-la para a cama e us-la como uma prostituta, at esquecer que existo. E quero 
colocar a minha cabea no seu colo e chorar como uma criana.
        O canto de sua boca virou-se para cima e um olho azul abriu-se de esguelha.
        - Infelizmente - disse -, no posso fazer nada disso, exceto a ltima, sem desmaiar ou vomitar de novo.
        - Bem, ento, suponho que ter que se contentar com isso e colocar o resto sob o rtulo de providncias futuras - eu disse, rindo um pouco.
        Foram necessrias algumas acomodaes e ele quase se sentiu mal outra vez, mas finalmente eu estava sentada no catre, as costas apoiadas contra a parede 
e sua cabea descansando na minha coxa.
        - O que foi que sir Marcus extraiu de seu peito? - perguntei. - Uma marca de ferro em brasa? - perguntei delicadamente, j que ele no me respondera. A cabea 
brilhante moveu-se ligeiramente em confirmao.
        - Um selo, com as iniciais dele. -Jamie riu brevemente. - J basta ter que carregar suas marcas pelo resto da minha vida, sem ter que carregar sua assinatura 
tambm, como um maldito quadro.
        Sua cabea relaxou pesadamente na minha coxa e sua respirao acalmou-se finalmente em exalaes sonolentas. As ataduras brancas em sua mo destacavam-se 
fantasmagoricamente contra o cobertor escuro. Tracei delicadamente uma queimadura em seu ombro, brilhando debil-mente com azeite de oliva.
        - Jamie?
        - Mmm?
        - Voc est muito ferido? - Acordado, ele olhou de sua mo enfaixada para o meu rosto. Seus olhos se fecharam e ele comeou a estremecer.
        Assustada, achei ter despertado alguma lembrana insuportvel, at perceber que ele estava rindo, o suficiente para que lgrimas escorressem do canto de 
seus olhos.
        - Sassenach - disse finalmente, arquejando -, devem restar talvez uns quinze centmetros do meu corpo que no esto esfolados, queimados ou cortados. Se 
eu estou ferido? - E sacudiu-se outra vez, rindo, fazendo a cama chiar e guinchar.
        Um pouco irritada, retruquei:
        - O que eu quis dizer... - Mas ele me interrompeu colocando a mo sobre a minha e levando-a aos lbios.
        - Sei o que quis dizer, Sassenach. disse, virando a cabea para erguer os olhos para mim. - No se preocupe, os quinze centmetros que sobraram esto todos 
entre minhas pernas.
        Apreciei o esforo para fazer uma piada, por mais fraca que fosse. Bati de leve em sua boca.
        - Voc est bbado, James Fraser - eu disse. Parei por um instante. - Quinze, hein?
        - Bem, sim. Talvez uns dezoito, ento. Ah, meu Deus, Sassenach, no me faa rir outra vez, minhas costelas no vo agentar.
        Limpei seus olhos com uma ponta da minha saia e dei-lhe um pouco de gua, mantendo sua cabea alta com o joelho.
        - De qualquer forma, no foi isso que eu quis dizer. Srio, ele pegou minha mo outra vez e apertou-a.
        - Eu sei - disse. - No precisa ser delicada a respeito disso. - Respirou fundo com muito cuidado e contraiu-se de dor. - Eu tinha razo, realmente doeu 
menos do que ser aoitado. - Fechou os olhos. - Mas foi muito menos divertido. - Um rpido lampejo de humor amargo levantou o canto de sua boca. - Pelo menos, no 
ficarei constipado por algum tempo. - Esquivei-me repentinamente e ele rangeu os dentes, respirando em arfadas curtas e fracas.
        - Desculpe, Sassenach. Eu... no pensei que fosse me importar tanto. O que voc quer dizer... isso... est tudo bem. No estou ferido.
        Esforcei-me para manter a voz firme e direta.
        - No precisa me contar, se no quiser. Mas se isso o aliviar... - Minha voz perdeu-se num silncio embaraoso.
        - Eu no quero. - Sua voz soou repentinamente amarga e enftica. -Nunca mais quero pensar nisso outra vez, mas para no cortar minha prpria garganta, acho 
que no tenho escolha. No, Sassenach, no quero lhe contar, tanto quanto voc no quer ouvir... mas acho que vou ter que arrancar tudo isso para fora antes que 
me sufoque. - As palavras jorravam agora numa exploso de amargura.
        - Ele queria me fazer rastejar e suplicar e, por Deus, ele conseguiu. Eu lhe disse uma vez, Sassenach, voc pode dobrar qualquer pessoa se estiver disposto 
a feri-la o suficiente. Bem, ele estava disposto. Ele me fez rastejar e me fez suplicar; me obrigou a fazer coisas piores do que isso e, antes de terminar, me fez 
desejar muito estar morto.
        Ficou em silncio por um longo instante, fitando as chamas na lareira, depois seu peito se ergueu num suspiro profundo e seu rosto contraiu-se de dor.
        - Queria que voc pudesse me acalmar, Sassenach,  o que desejo fervorosamente, pois tenho pouca paz em mim agora. Mas no  como um espinho venenoso, que 
se voc souber como puxar, pode arrancar totalmente. - Descansou a mo boa em meu joelho. Flexionou os dedos e estendeu-os, ruivos  luz do fogo. - No  nem mesmo 
como uma fratura em alguma parte. Se pudesse consert-la aos poucos, como fez com minha mo, eu suportaria a dor com alegria. - Fechou a mo num punho cerrado e 
pousou-o em minha perna, franzindo o cenho.
        - ... difcil de explicar. ...  como... acho que  como se todo mundo tivesse um pequeno lugar no ntimo, talvez um lugar particular que guardasse para 
si mesmo.  como uma pequena fortaleza, onde vive a sua parte mais pessoal... talvez seja a sua alma, talvez apenas aquela parte que faz de voc quem voc  e ningum 
mais. - Sua lngua sondou o lbio inchado inconscientemente enquanto pensava.
        - Voc no mostra a ningum essa parte de voc, normalmente, a menos s vezes para algum que voc ame muito. - A mo relaxou, envolvendo meu joelho. Os 
olhos de Jamie fecharam-se outra vez, as plpebras cerradas contra a luz.
        - Agora,  como... como se minha fortaleza tivesse voado pelos ares com plvora. No resta mais nada, a no ser cinzas e uma viga fumegante do telhado, e 
o ser pequeno e vulnervel que viveu ali um dia est desprotegido a cu aberto, choramingando de medo, tentando esconder-se sob uma lmina de capim ou um pedacinho 
de folha, mas... mas... sem muito sucesso. - A voz embargada, virou a cabea de modo que seu rosto ficasse escondido em minha saia. Impotente, no pude fazer mais 
nada alm de afagar seus cabelos.
        Ergueu a cabea de repente, o rosto tenso como se fosse espedaar-se na juno dos ossos.
        -J estive perto da morte algumas vezes, Claire, mas na verdade nunca quis morrer. Desta vez, sim. Eu... - Sua voz falhou e ele parou de falar, agarrando 
meu joelho com fora. Quando voltou a falar, tinha a voz aguda e estranhamente ofegante, como se tivesse corrido uma longa distncia.
        - Claire, voc poderia... eu s queria... Claire, abrace-me com fora. Se eu comear a tremer de novo agora, no vou conseguir parar. Claire, abrace-me! 
- Ele estava, de fato, comeando a tremer violentamente, o tremor fazendo-o gemer quando alcanava as costelas quebradas. Eu tinha medo de machuc-lo, porm mais 
medo ainda de deixar que continuasse a tremer.
        Inclinei-me sobre ele, envolvi seus ombros com meus braos e segurei-o o mais ternamente que pude, balanando para a frente e para trs, como se o ritmo 
reconfortante pudesse estancar os violentos espasmos. Coloquei uma das mos na sua nuca e cravei meus dedos bem fundo nos msculos do seu pescoo, massageando o 
sulco profundo na base do crnio, desejando que os movimentos o relaxassem. Finalmente, os tremores cessaram e ele deixou a cabea pender para a frente, sobre a 
minha coxa, exausto.
        - Perdo - disse um minuto depois, em sua voz normal. - No pretendia me descontrolar. A verdade  que estou realmente sofrendo muito e alm do mais terrivelmente 
bbado. No estou com muito controle de mim mesmo. - Para um escocs admitir, ainda que em particular, que est bbado, era uma indicao, pensei, do quanto ele 
realmente estava sofrendo.
        - Voc precisa dormir - eu disse suavemente, ainda esfregando sua nuca. - Precisa muito dormir. - Usei os dedos o melhor que pude, pressionando e esfregando, 
como o Velho Alec me ensinara, e consegui faz-lo relaxar at a sonolncia outra vez.
        - Estou com frio - murmurou. O fogo estava forte e havia vrios cobertores na cama, mas seus dedos estavam gelados.
        - Voc est em choque - eu disse, de maneira prtica. - Voc perdeu muito sangue. - Olhei  minha volta, mas os MacRannoch, assim como os criados, haviam 
todos desaparecido para as suas prprias camas. Murtagh, eu presumia, ainda devia estar l fora na neve, mantendo a vigilncia na direo de Wentworth no caso de 
uma busca. Descartando mentalmente a opinio de qualquer pessoa sobre decncia e decoro, levantei-me, tirei a camisola e deslizei para baixo dos cobertores.
        O mais delicadamente possvel, ajeitei-me junto ao seu corpo, dando-lhe meu calor. Ele enfiou a cabea no meu ombro como um menino. Acariciei seus cabelos, 
acalmando-o, esfregando os tendes e msculos rgidos em sua nuca, evitando os locais feridos.
        - Deite sua cabea aqui, rapaz - eu disse, lembrando-me de Jenny e seu filho.
        Jamie deu um grunhido, achando graa.
        - Minha me costumava fazer isso comigo - murmurou -, quando eu era criana.
        - Sassenach - ele disse, o rosto enterrado em meu ombro, um minuto depois.
        -Hum?
        - Quem diabos  John Wayne?
        -  voc - respondi. - Durma agora.
        
        
        
37 - FUGA
        
        Pela manh, Jamie estava com uma cor mais saudvel, embora as contuses tivessem escurecido durante a noite e agora cobrissem grande parte do seu rosto. 
Suspirou fundo, depois se enrijeceu com um gemido e soltou a respirao com muito mais cuidado.
        - Como se sente? - Coloquei a mo em sua cabea. Fria e mida. Nenhuma febre, graas a Deus.
        Ele fez uma careta, os olhos ainda fechados.
        - Sassenach, meu corpo inteiro di. - Estendeu a mo boa, tateando. -Ajude-me a levantar, estou todo rgido.
        A neve parou no meio da manh. O cu continuava cinzento como l, ameaando novas tempestades de neve, mas a ameaa de busca dos soldados de Wentworth era 
ainda maior. Assim, partimos da Manso Eldridge pouco antes de meio-dia, bem agasalhados em mantos pesados. Murtagh e Jamie estavam cobertos de armas por baixo de 
seus mantos. Eu no levava nada alm de minha adaga e, ainda assim, muito bem escondida. Contra a minha prpria vontade, eu deveria me fingir de uma refm inglesa 
de um seqestro, se o pior viesse a acontecer.
        - Mas eles me viram na priso - eu argumentara. - Sir Fletcher j sabe quem sou eu.
        - Sim. - Murtagh carregava as pistolas cuidadosamente, uma fileira de balas, buchas, plvora, varetas e sacolas cuidadosamente espalhadas sobre a lustrosa 
mesa de lady Annabelle, mas ergueu os olhos para me focalizar com um olhar negro. - Essa  a idia, moa. Temos que mant-la longe de Wentworth, a qualquer custo. 
No vai adiantar nada ficar presa l junto conosco.
        Calcou uma vareta curta pela boca da arma, socando a bucha no lugar com golpes fortes e econmicos.
        - O prprio Fletcher no vai sair  caa de fugitivos, no num dia como este. Qualquer soldado ingls que encontrarmos provavelmente no a conhecer. Se 
formos descobertos, voc deve dizer que ns a obrigamos a nos acompanhar contra a vontade e convencer os ingleses de que voc no tem nada a ver com a dupla de patifes 
escoceses como eu e esse seu vagabundo. - E apontou para Jamie, que equilibrava-se desajeitadamente em um banco com uma tigela de po e leite quente.
        Sir Marcus e eu havamos acolchoado os quadris e as coxas de Jamie o mximo possvel com ataduras por baixo de uma ceroula e de calas de cor escura para 
esconder qualquer mancha de sangue incriminadora que pudesse vazar. Lady Annabelle rasgara as costas de uma das camisas do marido para acomodar a largura dos ombros 
de Jamie e a espessura das bandagens que os envolviam. Mesmo assim, a camisa no fechava na frente e as pontas das tiras que enfaixavam seu tronco podiam ser entrevistas. 
Ele se recusara a pentear os cabelos, alegando que at seu couro cabeludo estava dolorido e era uma figura selvagem e desgrenhada de se ver, as mechas duras e vermelhas 
espetadas em volta de um rosto roxo e intumescido, com um dos olhos fechados pelo feio inchao.
        - Se forem presos - sir Marcus acrescentou -, diga-lhes que  minha hspede, seqestrada quando cavalgava pelas proximidades da minha propriedade. Faa com 
que a tragam a Eldridge para eu identific-la. Isso dever convenc-los. Diremos a eles que  uma amiga de Annabelle, de Londres.
        - E agora saiam daqui em segurana antes que Fletcher aparea para uma visita de cortesia - Annabelle acrescentou, com senso prtico.
        Sir Marcus nos oferecera a escolta de Hector e Absalom, mas Murtagh salientou que isso certamente iria incriminar Eldridge, caso encontrssemos soldados 
ingleses. Assim, havia apenas ns trs, agasalhados contra o frio, na estrada em direo a Dingwall. Eu carregava uma bolsa recheada e um bilhete do Senhor de Eldridge, 
um dos quais, ou ambos, garantiriam nossa travessia do canal.
        Era difcil atravessar a neve. Com menos de trinta centmetros de profundidade, a camada branca e traioeira escondia pedras, buracos e outros obstculos, 
tornando o piso escorregadio e perigoso para os cavalos. Torres de neve e lama voavam a cada passo, respingando as barrigas e os jarretes, e nuvens da respirao 
dos cavalos desapareciam como fumaa no ar glido.
        Murtagh ia  frente, seguindo a leve depresso que marcava a estrada. Eu cavalgava ao lado de Jamie, para ajud-lo caso perdesse a conscincia, embora estivesse, 
por sua prpria insistncia, amarrado ao cavalo. Somente sua mo esquerda estava livre, pousada na pistola amarrada  sela e oculta sob seu manto. Passamos por algumas 
cabanas dispersas, a fumaa erguendo-se dos tetos de sap, mas os habitantes e seus animais pareciam todos recolhidos, abrigados contra o frio. Aqui e ali, um homem 
solitrio passava da cabana para o barraco, carregando baldes ou feno, mas a estrada era quase sempre deserta.
        A trs quilmetros de Eldridge, passamos sob a sombra do Castelo de Wentworth, um vulto cinzento incrustado na encosta do morro. A estrada era acidentada 
naquele trecho; o trfego dentro e fora do castelo era incessante, mesmo nas piores condies de tempo.
        Nossa passagem fora programada para coincidir com a refeio de meio-dia, na esperana de que as sentinelas estivessem imersas em pasteles e cerveja. Avanando 
penosamente, passamos pela estrada curta que levava aos portes, apenas um grupo de viajantes com a m sorte de estar longe de casa num dia como aquele.
        Uma vez longe da priso, paramos por um instante para descansar os cavalos, abrigados em um pequeno bosque de pinheiros. Murtagh inclinou-se para olhar por 
baixo do chapu desengonado que disfarava os cabelos reveladores de Jamie.
        - Tudo bem, rapaz? Voc est calado.
        Jamie ergueu a cabea. Seu rosto estava plido e o suor escorria pelo seu pescoo apesar do vento glacial, mas ele conseguiu esboar um meio-sorriso desolado.
        - Vou conseguir.
        - Como se sente? - perguntei, ansiosa. Ele estava desmoronado na sela, sem resqucio de sua postura graciosa e ereta de costume. Fui presenteada com a outra 
metade do sorriso.
        - Venho tentando decidir o que di mais: minhas costelas, minha mo ou meu traseiro. Enquanto tento escolher entre eles, afasto a mente das minhas costas. 
- Tomou um grande gole do frasco que sir Marcus oportunamente lhe oferecera, estremeceu e passou-o para mim. Era bem melhor do que a bebida nada refinada que eu 
bebera a caminho de Leoch, mas igualmente forte. Continuamos a viagem, um calor alegre queimando em meu estmago.
        Os cavalos esforavam-se para subir uma encosta modesta, a neve esguichando de seus cascos, quando vi a cabea de Murtagh erguer-se com uma guinada. Seguindo 
a direo de seu olhar, vi soldados ingleses, quatro ao todo, montados, no topo da encosta.
        No havia sada. Framos vistos e um grito de desafio ecoou pelo monte abaixo. No havia para onde fugir. Teramos que tentar engan-los. Sem um olhar para 
trs, Murtagh esporeou o cavalo e partiu ao encontro do grupo.
        O cabo que fazia parte do grupo era um soldado de carreira, de meia-idade, empertigado em seu sobretudo de inverno. Inclinou-se educadamente para mim, depois 
voltou sua ateno para Jamie.
        - Com sua licena, senhor, madame. Temos ordens para interceptar qualquer grupo que esteja viajando por esta estrada, para indagar sobre detalhes de prisioneiros 
que fugiram recentemente da priso de Went-worth.
        Prisioneiros. Ento, eu conseguira libertar outros alm de Jamie ontem. Fiquei satisfeita, por vrias razes. Para comear, teriam que diluir um pouco a 
busca. Quatro contra trs era melhor do que poderamos esperar.
        Jamie no respondeu, mas arriou o corpo ainda mais para a frente em sua sela e deixou a cabea pender. Eu podia ver o brilho de seus olhos sob a aba do chapu; 
ele no estava inconsciente. Ele devia conhecer aqueles homens; sua voz seria reconhecida. Murtagh conduziu o cavalo mais para a frente, colocando-se entre mim e 
os soldados.
        - Sim, o patro est muito doente, senhor, como pode ver - disse, servilmente puxando as rdeas. - Talvez pudesse me indicar a estrada para Ballagh? No 
estou convencido de que estamos no caminho certo.
        Perguntava-me o que ele estaria pretendendo fazer, at que nossos olhos se encontraram. Seu olhar adejou para cima e para baixo, depois de volta ao soldado, 
to rpido que oSoldado presumiria que ele estava ouvindo com toda ateno o tempo inteiro. Jamie estaria correndo o risco de cair da sela? Fingindo ajeitar meu 
gorro, lancei um olhar de esguelha, dis-traidamente, por cima do ombro, na direo que ele indicara e quase fiquei paralisada com o choque.
        Jamie estava sentado ereto, a cabea abaixada para encobrir o rosto. Mas o sangue pingava devagar da ponta do estribo sob seus ps, salpicando a neve com 
pontos vermelhos desprendendo um leve vapor.
        Murtagh, fingindo grande ignorncia, conseguira atrair os soldados para o alto do morro, para que pudessem mostrar que a estrada para Dingwall era a nica 
estrada  vista e que descia pelo outro lado da colina. Ela atravessava Ballagh e seguia direto para a costa, ainda a uns cinco quilmetros de distncia.
        Desmontei apressadamente, puxando febrilmente a tira do cinturo do meu cavalo. Patinando pelos montes de neve, consegui chutar bastante neve para baixo 
do cavalo de Jamie, o suficiente para encobrir os pingos reveladores. Um olhar rpido mostrou que os soldados aparentemente ainda estavam ocupados com Murtagh, embora 
um deles tenha olhado para baixo da encosta, diretamente para ns, como se quisesse se certificar de que no estvamos fugindo. Acenei alegremente e, em seguida, 
assim que o soldado virou a cabea, inclinei-me e arranquei uma das trs anguas que estava vestindo. Afastei o manto de Jamie e enfiei a angua embolada sob sua 
coxa, ignorando sua exclamao de dor. Com um movimento rpido, o manto voltou para o lugar, bem a tempo de eu retornar depressa para o meu prprio cavalo e ser 
descoberta remexendo no cinturo da sela, quando Murtagh e os ingleses chegaram.
        - Parece que se soltou com o movimento - expliquei com ingenuidade, pestanejando para o soldado mais prximo.
        - Ah, ? E por que voc no est ajudando a senhora? - perguntou a Jamie.
        - Meu marido no est bem - eu disse. - Eu mesma posso resolver isso, obrigada.
        O cabo pareceu interessado.
        - Doente, hein? O que h com voc? - Impeliu o cavalo para a frente, olhando atentamente o rosto plido de Jamie sob o chapu inclinado. -No parece nada 
bem,  verdade. Tire o chapu, rapaz. O que h com seu rosto?
        Jamie atirou nele atravs das dobras do manto. O ingls no estava a menos de dois metros de distncia e caiu da sela antes que a mancha em seu peito ficasse 
maior do que minha mo.
        Murtagh tinha uma pistola em cada mo antes que o cabo atingisse o solo. Uma bala errou o alvo quando seu cavalo esgueirou-se do barulho e do alvoroo repentino. 
A segunda acertou em cheio, rasgando a parte superior do brao de um soldado e deixando um tufo de tecido retalhado ondulando de uma manga que rapidamente tingia-se 
de vermelho. No entanto, o homem manteve-se na sela e tentava sacar seu sabre com uma nica mo, enquanto Murtagh mergulhava embaixo do seu manto para pegar novas 
armas.
        Um dos dois soldados restantes virou seu cavalo, escorregando na neve, e partiu em disparada, na direo da priso, provavelmente para buscar ajuda.
        - Claire! - O grito veio de cima. Ergui os olhos, espantada, e vi Jamie acenando na direo da figura em fuga. - Faa-o parar! - Ele teve tempo de me atirar 
uma segunda pistola, depois se virou, arrancando a espada para se defender do ataque do quarto soldado.
        Meu cavalo era treinado para batalhas; suas orelhas estavam abaixadas junto  cabea e ele batia e arrastava os cascos com o barulho, mas no fugira com 
os tiros e ficou firme onde estava enquanto eu tateava para agarrar o aro da sela. Feliz em abandonar o campo de batalha, lanou-se para a frente assim que montei 
e partimos em disparada atrs da figura que batia em retirada.
        A neve atrapalhava nossa marcha tanto quanto a dele, mas meu cavalo era melhor e tnhamos a vantagem de um caminho menos escorregadio, sulcado na neve fofa 
pelo soldado em fuga. Aos poucos, adquiramos vantagem sobre eles, mas eu podia ver que isso no seria suficiente. No entanto, ele tinha uma subida  sua frente; 
se eu cortasse pela direita, talvez pudesse ganhar tempo no terreno plano e encontr-lo na descida do outro lado. Dei um puxo na rdea e me inclinei para a frente, 
agarrando-me com fora, para me manter na sela, enquanto o cavalo resvalava numa atrapalhada mudana de direo, equilibrava-se e precipitava-se para a frente.
        No o alcancei totalmente, mas conseguira reduzir a distncia entre ns para no mais do que dez metros. Se prossegussemos indefinidamente, provavelmente 
eu o alcanaria, mas no podia me dar a esse luxo; a muralha da priso assomava a menos de dois quilmetros  frente. Se nos aproximssemos muito, seramos vistos 
das torres.
        Freei e desci do cavalo. Treinado para batalhas ou no, eu no sabia o que o cavalo faria se eu disparasse a pistola de cima da sela. Ainda que ele ficasse 
parado como uma esttua, no acreditava que minha mira fosse to boa. Ajoelhei-me na neve, firmando o cotovelo no joelho, a arma apoiada no antebrao como Jamie 
me mostrara. "Apoie aqui, mire l, dispare aqui", ele dissera. Foi o que fiz.
        Para minha grande surpresa, atingi o cavalo em disparada. Ele escorregou, caiu sobre um joelho e rolou numa confuso de neve e pernas. Meu brao ficou dormente 
com o coice da pistola; fiquei parada, esfregando-o, observando o soldado cado.
        Ele estava ferido; levantou-se com dificuldade, depois caiu de novo na neve. Seu cavalo, sangrando na espdua, fugiu aos tropees, as rdeas penduradas.
        No percebi seno mais tarde o que estivera pensando, mas sabia, quando me aproximei dele, que no poderia deix-lo vivo. Perto como estvamos da priso, 
e com outras patrulhas perseguindo fugitivos, ele certamente seria encontrado em pouco tempo. E se fosse encontrado com vida, no s nos descreveria - nesse caso, 
podamos dar adeus  nossa histria de seqestro! -, como diria para onde viajvamos. Ainda tnhamos cinco quilmetros de percurso at a costa; duas horas de viagem 
na neve intensa. E um barco a encontrar, quando chegssemos l. Eu simplesmente no podia correr o risco de permitir que ele contasse a ningum a nosso respeito.
        Ele esforou-se para se levantar sobre os cotovelos quando me aproximei. Seus olhos arregalaram-se de surpresa ao me ver, depois relaxaram. Eu era uma mulher. 
No tinha medo de mim.
        Um homem mais experiente teria ficado apreensivo mesmo assim, mas ele era um garoto. No mais do que dezesseis anos, pensei, nauseada de choque. Suas faces 
pontilhadas de espinhas ainda retinham as ltimas curvas arredondadas da infncia, embora o lbio superior exibisse a penugem de um desejado bigode.
        Ele abriu a boca, mas apenas gemeu de dor. Apertou a mo contra o lado do corpo e pude ver o sangue encharcando sua tnica e seu casaco. Portanto, ferimentos 
internos; o cavalo deve ter rolado por cima dele.
        Era possvel, pensei, que ele fosse morrer de qualquer modo. Mas eu no podia contar com isso.
        A adaga em minha mo direita estava escondida sob meu manto. Coloquei a mo esquerda em sua testa. Exatamente como eu havia tocado a cabea de centenas de 
homens, confortando, examinando, preparando-os para o pior. E eles erguiam os olhos para mim exatamente como aquele garoto; com esperana e confiana.
        No poderia cortar sua garganta. Deixei-me cair de joelhos ao seu lado e virei sua cabea delicadamente para o outro lado. Todas as tcnicas de Rupert para 
uma morte rpida presumiam resistncia. No houve nenhuma resistncia quando curvei sua cabea para a frente, o mximo possvel, e mergulhei a adaga em seu pescoo, 
na base do crnio.
        Deixei-o com o rosto para baixo, enterrado na neve, e fui me juntar aos outros.
        Com nossa pesada carga embarcada clandestinamente e escondida sob cobertores em um banco no poro, Murtagh e eu nos encontramos no convs do Cristabel para 
inspecionar os cus agitados por uma tormenta.
        - Parece um vento moderado, estvel - eu disse, esperanosa, mantendo um dedo molhado erguido no ar.
        Com um ar sombrio, Murtagh examinou as nuvens que pairavam, negras e ameaadoras, acima do porto, a carga de neve que arremessavam perdendo-se ao se desmancharem 
nas ondas geladas.
        - Ah, bem. Vamos torcer por uma travessia sem sobressaltos. Caso contrrio, talvez cheguemos l com um cadver em nossas mos.
        Meia hora depois, lanados nas guas turbulentas do Canal da Mancha, descobri o que ele queria dizer com essa observao.
        - Com enjos? - perguntei, incrdula. - Os escoceses no ficam enjoados no mar!
        Murtagh ficou irritado.
        - Bom, ento talvez ele seja um hotentote de cabelos vermelhos. Tudo que sei  que ele est verde como um peixe podre e vomitando as tripas. Vai descer e 
me ajudar a impedir que suas costelas saiam pelo peito?
        - Droga! - exclamei para Murtagh, enquanto nos debruvamos sobre a balaustrada pegando um pouco de ar fresco durante um breve intervalo na atmosfera desagradvel 
do poro. - Se ele sabia que ficava enjoado no mar, em nome de Deus, por que insistiu em um barco?
        O olhar de basilisco permaneceu fixo, sem piscar.
        - Porque ele sabe muito bem que nunca conseguiramos viajar por terra, no estado em que se encontra. Alm disso, no queria permanecer em Eldridge para no 
comprometer a segurana dos MacRannoch.
        - Ento, em vez disso, ele vai se matar silenciosamente no mar - eu disse, com amargura.
        - Sim. Ele acha que dessa forma apenas matar a si mesmo e no levar ningum com ele. Magnnimo, sabe. Mas no h nada de silencioso nisso - Murtagh acrescentou, 
dirigindo-se  escada de tombadilho em resposta aos sons inconfundveis que vinham l de baixo.
        - Parabns - eu disse a Jamie uma ou duas horas mais tarde, afastando uns fios de cabelos midos do rosto. - Acredito que voc vai entrar para os anais da 
medicina como a nica pessoa de que se tem notcia a morrer no mar por causa de enjo.
        - Ah, bom - balbuciou na confuso de travesseiros e cobertores. -Detestaria pensar que todo esse esforo foi em vo. - Ergueu-se repentinamente para um lado. 
- Meu Deus, l vem de novo.
        Murtagh e eu saltamos mais uma vez para as nossas posies. A tarefa de segurar um homem corpulento imvel enquanto ele sucumbe a implacveis espasmos de 
vmito no  para uma pessoa fraca.
        Mais tarde, tomei seu pulso novamente e coloquei a mo em sua testa pegajosa. Murtagh leu meu rosto e seguiu-me sem falar pelo passadio at o convs superior.
        - Ele no est indo muito bem, no ? - perguntou serenamente.
        - No sei - respondi, impotente, sacudindo meus cabelos molhados de suor no vento frio. - Eu sinceramente nunca ouvi falar de algum que tivesse morrido 
de enjo por causa do mar, mas agora ele comeou a vomitar sangue tambm. - A mo do homenzinho apertou a balaustrada com fora, as articulaes dos dedos projetando-se 
pela pele curtida de sol. - No sei se ele se feriu internamente com as pontas afiadas das costelas ou se  apenas seu estmago, irritado com os vmitos. Seja como 
for, no  um bom sinal. E seu pulso est bem mais fraco, e irregular.  muito esforo para o corao, sabe.
        - Ele tem o corao de um leo - falou baixinho e, a princpio, no tive certeza de ter entendido bem. Podia ser apenas o vento salgado que mantinha as lgrimas 
em seus olhos. Voltou-se bruscamente para mim. - E uma cabea de boi. Voc ainda tem um pouco daquele ludano que lady Annabelle lhe deu?
        - Sim, todo ele. Ele no quis tomar; disse que no queria dormir.
        - Ah, bem. Para a maioria das pessoas, o que elas querem e o que elas obtm no so a mesma coisa; no vejo por que ele deva ser diferente. Vamos.
        Segui-o ansiosamente de volta ao poro.
        - No creio que possa parar no estmago.
        - Deixe isso comigo. Pegue o frasco e ajude-me a levant-lo.
        Jamie estava semi-inconsciente, um fardo incmodo que protestava por estar sendo forado a sentar-se, encostado ao tabique.
        - Eu vou morrer - disse com voz fraca, mas clara - e quanto mais cedo, melhor. Vo embora e me deixem morrer em paz.
        Segurando com fora os cabelos flamejantes de Jamie, Murtagh forou sua cabea para cima e levou o frasco aos seus lbios.
        - Engula isso, cabea-dura, ou vou quebrar seu pescoo. E trate de manter isso a dentro. Vou manter sua boca e seu nariz fechados; se vier para cima, vai 
sair pelos ouvidos.
        Pela fora conjunta de nossa determinao, transferimos o contedo do frasco lenta, mas inexoravelmente para dentro do jovem senhor de
        Lallybroch. Engasgando e sufocando, Jamie corajosamente bebeu o mximo que pde antes de deixar-se cair, esverdeado e arquejando, contra o tabi-que. Murtagh 
impedia cada ameaa de exploso de nusea apertando cruelmente o nariz do paciente, um recurso nem sempre bem-sucedido, mas que permitiu o acmulo gradual do entorpecente 
na corrente sangnea. Finalmente, deitamos seu corpo lnguido na cama, as chamas vivas dos cabelos, das pestanas e dos clios formando a nica cor sobre o travesseiro. 
Murtagh surgiu ao meu lado no convs pouco depois.
        - Olhe - eu disse, apontando. A luz turva do crepsculo, brilhando em raios fugidios sob as nuvens, dourava os rochedos da costa francesa adiante. - O capito 
disse que estaremos em terra dentro de trs ou quatro horas.
        - J no  sem tempo - disse meu companheiro, afastando os cabelos castanhos e lisos dos olhos. Virou-se para mim com a expresso mais prxima de um sorriso 
que eu j vira em seu semblante circunspecto.
        Assim, finalmente, acompanhando o corpo inerte de nossa carga, deitado em uma prancha entre dois monges robustos, atravessamos os altos portes do Mosteiro 
de Ste. Anne de Beaupr.
        
        
        
38 - O MOSTEIRO
        
        O mosteiro era uma gigantesca construo do sculo XII, fortificado com muralhas para resistir tanto  fora de tempestades martimas quanto aos ataques 
de invasores por terra. Agora, em pocas mais tranqilas, seus portes permaneciam abertos para facilitar o trfego com a aldeia vizinha e as pequenas celas de lajes 
de pedra da ala destinada aos hspedes foram suavizadas pelo acrscimo de tapearias e mobilirio confortvel.
        Levantei-me da cadeira acolchoada do meu prprio quarto, sem saber ao certo como se cumprimenta um abade; deveria ajoelhar-me, beijar seu anel ou isso era 
apenas para o papa? Decidi-me por uma reverncia respeitosa.
        Os olhos de gato ligeiramente puxados de Jamie realmente vinham do lado dos Fraser. Da mesma forma o seu slido maxilar, embora aquele diante de mim estivesse 
um pouco obscurecido pela barba preta.
        O abade Alexander tinha a mesma boca larga de seu sobrinho, embora parecesse sorrir menos com ela. Os olhos azuis rasgados continuaram frios e especulativos 
ao me cumprimentar com um sorriso caloroso e agradvel. Era bem mais baixo do que Jamie, mais ou menos da minha altura, e troncudo. Usava a batina de um sacerdote, 
mas caminhava como um guerreiro. Achei que tivesse sido ambos em sua poca.
        - Seja bem-vinda, ma nice - disse, inclinando a cabea. Fiquei um pouco surpresa com a saudao, mas fiz uma reverncia em resposta.
        - Obrigada por sua hospitalidade - eu disse, sinceramente. -J... j viu Jamie?
        Os monges haviam levado Jamie para ser banhado, um processo do qual achei melhor no participar. O abade balanou a cabea.
        - Ah, sim - disse, um leve sotaque escocs transparecendo no ingls culto. - Eu o vi. Pedi ao irmo Ambrose que cuide de seus ferimentos. -Devo ter externado 
um ar de dvida diante dessa informao, porque ele disse: - No se preocupe, madame; o irmo Ambrose  muito competente. - Olhou-me de alto a baixo com um ar de 
franca avaliao, surpreendentemente semelhante ao de seu sobrinho.
        - Murtagh disse que a senhora  uma mdica consumada.
        - Sou, sim - respondi com simplicidade. Isso provocou um sorriso de verdade.
        - Vejo que a senhora no sofre do pecado da falsa modstia - observou.
        - Tenho outros - respondi, devolvendo o sorriso.
        - Como todos ns - disse. - Tenho certeza de que o irmo Ambrose est ansioso para conversar com a senhora.
        - Murtagh contou-lhe... o que aconteceu? - perguntei, hesitante. A boca larga retesou-se.
        - Contou. At onde ele sabe que aconteceu. - Fez uma pausa, como se esperasse uma contribuio da minha parte, mas permaneci em silncio.
        Era bvio que ele gostaria de fazer perguntas, mas foi suficientemente gentil para no me pressionar. Ao invs disso, ergueu a mo num gesto de bno e 
despedida.
        - Seja bem-vinda - disse mais uma vez. - Vou mandar um irmo servir-lhe alguma comida. - Examinou-me novamente. - E o necessrio para sua higiene pessoal. 
- Fez o sinal-da-cruz sobre mim, como adeus ou talvez como um exorcismo da imundcie, e saiu num redemoinho de vestes marrons.
        Sentindo repentinamente o quanto estava cansada, deixei-me afundar na cama, imaginando se conseguiria ficar acordada o suficiente para comer e me lavar. 
Ainda estava imaginando quando minha cabea atingiu o travesseiro.
        Tive um terrvel pesadelo. Jamie estava do outro lado de uma slida parede de pedra sem porta. Podia ouvi-lo gritar, sem parar, mas no conseguia chegar 
at ele. Eu batia desesperadamente na parede, mas minhas mos afundavam na pedra como se fosse gua.
        - Aaaaai! - Sentei-me no catre estreito, agarrando a mo que batera na parede dura ao lado de minha cama. Balancei o corpo para frente e para trs, apertando 
a mo latejante entre as coxas, depois percebi que os gritos continuavam.
        Parei bruscamente quando corri para o corredor. A porta do quarto de Jamie estava aberta, a luz bruxuleante de um lampio inundando o corredor.
        Um monge que eu no vira antes estava com Jamie, segurando-o com fora. Uma infiltrao de sangue vivo manchava as ataduras nas costas de Jamie e seus ombros 
sacudiam como se estivesse com calafrios.
        - Um pesadelo - o monge disse como explicao, vendo-me na soleira da porta. Entregou Jamie em meus braos e dirigiu-se  mesa para pegar um pano e a jarra 
de gua.
        Jamie ainda tremia e seu rosto brilhava de suor. Seus olhos estavam fechados e ele respirava pesadamente, com um som arquejante e spero. O monge sentou-se 
ao meu lado e comeou a limpar seu rosto delicadamente, afastando os cabelos midos e pesados da fronte.
        - Deve ser a esposa dele,  claro - disse-me. - Acho que logo ele estar melhor.
        Os tremores realmente comearam a diminuir em dois ou trs minutos e Jamie abriu os olhos com um suspiro.
        - Estou bem - disse. - Claire, estou bem agora. Mas pelo amor de Deus, livre-se desse cheiro!
        Somente ento percebi conscientemente o perfume no quarto - um aroma floral, picante e suave, um perfume to comum que nem me chamou a ateno. Lavanda. 
Uma fragrncia para sabonetes e guas-de-colnia. A ltima vez que senti aquele cheiro foi nas masmorras da priso de Wentworth, perfumando as roupas ou a prpria 
pessoa do capito Jonathan Randall.
        A fonte do aroma era um pequeno recipiente de metal cheio de leo perfumado com essncia de ervas, suspenso de uma base de ferro pesada, com rosas em relevo 
e pendurada acima da chama de uma vela.
        Destinada a aplacar a mente, seus efeitos evidentemente no eram os pretendidos. Jamie respirava com mais facilidade, sentando-se sozinho e segurando a caneca 
de gua que o monge lhe dera. Seu rosto, entretanto, continuava lvido e o canto de sua boca retorcia-se nervosamente.
        Fiz sinal com a cabea para que o franciscano atendesse o pedido de Jamie e o monge rapidamente abafou o recipiente quente de leo em uma toalha dobrada 
e levou-a para longe pelo corredor.
        O peito de Jamie ergueu-se num profundo suspiro de alvio, depois se contraiu de dor nas costelas.
        - Voc abriu um pouco os ferimentos das costas - eu disse, virando-o um pouco para ter acesso s ataduras. - Mas nada de mais.
        - Eu sei. Devo ter rolado sobre as costas durante o sono. - O grosso de cobertor destinado a escorar seu corpo na posio de lado havia escorregado para 
o cho. Peguei-o e ajeitei-o novamente na cama.
        - Acho que foi esse cheiro que me fez ter pesadelos. Sonhei que estava sendo aoitado. - Estremeceu, tomou um gole de gua, entregando-me a caneca em seguida. 
- Preciso de algo mais forte, se estiver  mo.
        No momento certo, nosso prestativo ajudante atravessou a porta com uma jarra de vinho em uma das mos e um pequeno frasco de xarope de papoula na outra.
        - lcool ou entorpecente? - perguntou a Jamie com um sorriso, erguendo os dois recipientes. - Pode escolher sua forma de esquecimento.
        - Ficarei com o vinho, por favor. J tive sonhos suficientes para uma noite - Jamie disse, com um sorriso enviesado. Bebeu o vinho devagar, enquanto o franciscano 
ajudava-me a trocar as ataduras ensangentadas, passando uma nova camada de pomada de cravo-da-ndia nos ferimentos. Somente quando eu j havia acomodado Jamie para 
dormir, firmemente escorado e coberto,  que o monge voltou-se para sair.
        Passando pela cama, inclinou-se sobre Jamie e fez o sinal-da-cruz acima de sua cabea.
        - Descanse bem - disse.
        - Obrigado, padre. -Jamie respondeu sonolentamente, obviamente j meio adormecido. Vendo que Jamie provavelmente no iria precisar de mim at o amanhecer, 
toquei em seu ombro como despedida e segui o monge para o corredor.
        - Muito obrigada - eu disse. - Sou muito grata por sua ajuda.
        - Foi um prazer ajud-la - disse, e percebi que falava ingls muito bem, embora com um ligeiro sotaque francs. - Eu passava pela ala dos hspedes a caminho 
da capela de St. Giles quando ouvi os gritos.
        Encolhi-me diante da lembrana daqueles gritos, roucos e horripilantes, e desejei nunca mais ouvi-los. Olhando para a janela ao fim do corredor, no vi nenhum 
sinal da alvorada por trs das persianas.
        - Para a capela? - perguntei, surpresa. - Mas pensei que as preces matinais fossem cantadas na igreja principal. E certamente ainda  um pouco cedo, de qualquer 
forma.
        O franciscano sorriu. Era bastante jovem, talvez trinta e poucos anos, mas seus sedosos cabelos castanhos estavam entremeados de fios brancos. Usava-os curtos 
e a barba castanha fora elegantemente aparada a ponto de apenas roar a gola enrolada de seu hbito.
        - Muito cedo para as oraes matinais - concordou. - Eu estava a caminho da capela porque  a minha vez da adorao perptua do Santssimo Sacramento a esta 
hora. - Olhou para trs, para o quarto de Jamie, onde uma vela-relgio marcava a hora como duas e meia.
        - Estou muito atrasado - disse. - O irmo Bartolomeu deve estar querendo ir para sua cama. - Erguendo a mo, abenoou-me rapidamente, girou nos calcanhares 
de seus ps calados em sandlias e atravessou a porta de vaivm no final do corredor antes que eu pudesse ter a presena de esprito de perguntar seu nome.
        Entrei de novo no quarto e inclinei-me para ver como Jamie estava. Adormecera outra vez, respirando superficialmente, com o cenho levemente franzido. Passei 
a mo de leve pelos seus cabelos. A testa relaxou um pouco e depois retomou a expresso preocupada. Suspirei e ajeitei os cobertores ao seu redor.
        Sentia-me bem melhor pela manh, mas Jamie estava com olheiras profundas e irritado depois da noite maldormida. Rejeitou enfaticamente minha sugesto de 
um mingau ou uma sopa para desjejum e falou rispida-mente comigo quando tentei verificar os curativos de sua mo.
        - Pelo amor de Deus, Claire, me deixe em paz! No quero mais ser cutucado!
        Arrancou a mo das minhas, com uma expresso mal-humorada. Desviei o rosto sem dizer nada e fui me ocupar em ajeitar os pequenos potes e saquinhos de remdios 
sobre a mesinha de cabeceira. Arrumei-os em pequenos grupos, por funo: pomada de cravo-da-ndia e blsamo de lamo para aliviar, casca de salgueiro, casca de cerejeira 
e camomila para chs, erva-de-so-joo, alho e mileflio para desinfeco.
        - Claire. - Virei-me outra vez e o vi sentado na cama, olhando-me com um sorriso envergonhado.
        - Desculpe, Sassenach. Estou com dor de barriga e terrivelmente mal-humorado esta manh. Mas no tenho nenhuma razo de gritar com voc. Pode me perdoar?
        Atravessei o quarto rapidamente e abracei-o de leve.
        - Voc sabe que no h nada para perdoar. Mas o que quer dizer com estar sentindo dor de barriga? - No pela primeira vez, refleti que intimidade e romance 
no so sinnimos.
        Ele fez uma careta, inclinando ligeiramente para a frente e cruzando os braos sobre o abdmen.
        - Quero dizer que gostaria que me deixasse sozinho por um instante. Por favor? - Atendi seu pedido apressadamente e fui fazer meu prprio desjejum.
        Quando retornava do refeitrio pouco depois, avistei uma figura delgada no hbito preto dos franciscanos atravessando o ptio em direo ao claustro. Corri 
para alcan-lo.
        - Padre! - chamei e ele se virou, sorrindo ao me ver.
        - Bom dia - disse. - Sra. Fraser;  este o nome? E como vai o seu marido esta manh?
        - Melhor - respondi, esperando que fosse verdade. - Queria agradecer-lhe outra vez por ontem  noite. O senhor saiu antes que eu pudesse perguntar seu nome.
        Os olhos claros, cor de avel, brilharam quando se inclinou numa reverncia, a mo sobre o corao.
        - Franois Anselm Mericoeur d'Armagnac, madame. - Ou este  meu nome de batismo. Conhecido agora apenas como padre Anselmo.
        - Anselmo do Corao Feliz? - perguntei, sorrindo. Ele encolheu os ombros, um gesto completamente gauls, imutvel h sculos.
        - Eu tento - disse, com um sorriso irnico nos lbios.
        - No quero atras-lo - eu disse, olhando na direo do claustro. - S queria agradecer por sua ajuda.
        - No est me atrasando nem um pouco, madame. Na realidade, eu estava protelando minha ida para o trabalho; entregando-me  ociosidade de forma muito pecaminosa.
        - Qual  o seu trabalho? - perguntei, intrigada. Obviamente, aquele homem era um visitante no mosteiro, seu hbito preto franciscano ressaltando-se como 
uma mancha de tinta entre as vestes marrons dos beneditinos. Havia vrios visitantes como esse, ou assim o irmo Polydore, um dos que serviam  mesa, me dissera. 
A maioria era de estudiosos, ali para consultar as obras guardadas na famosa biblioteca da abadia. Anselmo, ao que parecia, era um deles. Dedicava-se, como vinha 
fazendo h vrios meses,  traduo de diversas obras de Herdoto.
        -J conhece a biblioteca? - perguntou. - Venha, ento - disse, quando sacudi a cabea. -  realmente impressionante e tenho certeza de que o abade, seu tio, 
no faria nenhuma objeo.
        Estava curiosa para ver a biblioteca e ao mesmo tempo relutante em voltar imediatamente para o isolamento da ala dos hspedes, de modo que o segui sem hesitao.
        A biblioteca era esplndida, de p-direito muito alto, com elevadas colunas gticas que se uniam em ogivas no teto em abbada. Janelas do cho ao teto enchiam 
os espaos entre as colunas, inundando a biblioteca de luz. A maioria era de vidro transparente, mas algumas ostentavam vitrais de aparncia enganadoramente simples. 
Passando silenciosamente pelas figuras curvadas dos monges que estavam ali estudando, parei para admirar um vitral da Fuga do Egito.
        Algumas das prateleiras pareciam-se com as que eu estava acostumada, os livros lado a lado. Em outras, os livros ficavam deitados, para proteger as capas 
antigas. Havia at uma prateleira fechada com vidro, guardando inmeros rolos de pergaminhos. No geral, a biblioteca possua um jbilo silencioso, como se os preciosos 
volumes cantassem sem voz dentro de suas capas. Deixei a biblioteca sentindo-me apaziguada e atravessei devagar o ptio principal na companhia de padre Anselmo.
        Tentei agradecer-lhe outra vez por sua ajuda na noite anterior, mas ele encolheu os ombros, descartando meus agradecimentos.
        - No foi nada demais, minha filha. Espero que ele esteja melhor hoje.
        - Eu tambm - disse. No querendo insistir nesse assunto, perguntei: - O que exatamente  adorao perptua? Disse que era para l que estava indo ontem 
 noite.
        - A senhora no  catlica? - perguntou, surpreso. - Ah, eu me esqueci, a senhora  inglesa. Assim, portanto, suponho que seja protestante.
        - No sei ao certo se sou uma coisa ou outra, em termos de f - eu disse. - Mas tecnicamente, ao menos, suponho que seja catlica.
        - Tecnicamente? - As sobrancelhas lisas ergueram-se de espanto. Hesitei, cautelosa depois de minhas experincias com padre Bain, mas aquele homem no parecia 
do tipo que comearia a brandir crucifixos no meu rosto.
        - Bem - disse, inclinando-me para arrancar uma pequena erva daninha do meio das pedras do calamento -, fui batizada como catlica.
        Entretanto, meus pais morreram quando eu tinha cinco anos e fui viver com um tio. Tio Lambert era... - parei, lembrando-me do apetite voraz por conhecimento 
de tio Lambert e aquele cinismo objetivo e jovial que considerava todas as religies simplesmente como uma das marcas de identificao pelas quais uma cultura podia 
ser catalogada. - Bem, ele era tudo e nada, eu acho, em termos de f - conclu. - Conhecia todas as religies, no acreditava em nenhuma. Assim, nada mais foi feito 
a respeito de minha educao religiosa. E meu... primeiro marido era catlico, mas receio que no muito praticante. Assim, acho que na verdade sou meio pag.
        Olhei-o cautelosamente, mas em vez de ficar chocado com minhas revelaes, ele riu com grande entusiasmo.
        - Tudo e nada - disse, saboreando a frase. - Gosto muito disso. Mas quanto  senhora, acho que no. Uma vez membro da Santa Igreja Catlica,  considerada 
eternamente sua filha. Por menos que saiba a respeito de sua f,  to catlica quanto o Santo Padre, o papa. - Fitou o cu. Estava nublado, mas as folhas das moitas 
de amieiro perto da igreja permaneciam imveis.
        - O vento amainou. Eu ia dar uma volta para clarear meus pensamentos ao ar livre. Por que no me acompanha? Precisa de ar e de exerccio, e talvez eu possa 
tornar a ocasio espiritualmente proveitosa tambm, esclarecendo-a quanto ao ritual da Adorao Perptua enquanto caminhamos.
        - Trs coelhos de uma s cajadada, hein? - eu disse secamente. Mas a perspectiva de tomar ar, ainda que pesado, era atraente e fui buscar meu manto sem hesitao.
        Lanando um olhar  figura l dentro, a cabea inclinada em orao, Anselmo conduziu-me pela escurido tranqila da entrada da capela e pelo claustro, saindo 
na extremidade do jardim.
        Longe da possibilidade de perturbar os monges na capela, ele disse:
        -  uma idia muito simples. Voc se lembra, na Bblia, da histria de Getsemni, onde Nosso Senhor aguardava seu julgamento e crucificao e seus amigos, 
que deveriam lhe fazer companhia, todos adormeceram?
        - Ah - disse, compreendendo imediatamente. - E ele disse: "No podem fazer viglia comigo por uma hora?" Ento, isso  o que est fazendo, permanecendo em 
viglia com Ele por aquela hora, para compensar. - Gostei da idia e a escurido da capela de repente pareceu-me habitada e reconfortante.
        - Oui, madame - concordou. - Muito simples. Ns nos alternamos na viglia e o Santssimo Sacramento no altar aqui nunca fica sozinho.
        - No  difcil, permanecer acordado? - perguntei, curiosa. - Ou sempre faz viglia  noite?
        Ele balanou a cabea, uma brisa leve levantando os sedosos cabelos castanhos. A rea de sua tonsura precisava ser raspada; cabelos curtos e espetados cobriam-na 
como musgo.
        - Cada um escolhe a sua melhor hora para a viglia. Para mim,  s duas da madrugada. - Olhou para mim, hesitante, como se imaginasse como eu iria receber 
o que estava prestes a me dizer.
        - Para mim, nessa hora... - Parou. -  como se o tempo parasse. Todos os humores do corpo, todo o sangue, a blis e os vapores que constituem um homem;  
como se todos eles, apenas nessa hora, estivessem trabalhando em perfeita harmonia. - Sorriu. Seus dentes eram ligeiramente tortos, o nico defeito em seu semblante 
perfeito.
        - Ou como se parassem completamente. Eu sempre imagino se este momento  o mesmo do nascimento, ou da morte. Sei que seu compasso  diferente para cada homem... 
ou mulher, suponho - acrescentou, com um sinal corts da cabea para mim.
        - Mas naquele instante, naquela frao de tempo, parece que tudo  possvel. Voc pode olhar atravs das limitaes da sua prpria vida e ver que no significam 
nada. Nesse momento, quando o tempo pra,  como se voc soubesse que poderia embarcar em qualquer aventura, termin-la e voltar para si mesmo, para encontrar o 
mundo da mesma forma, e tudo exatamente como voc deixou um momento antes. E  como se... - hesitou por um instante, escolhendo cuidadosamente as palavras.
        - Como se, sabendo que tudo  possvel, de repente nada seja necessrio.
        - Mas... o senhor realmente faz alguma coisa? - perguntei. - H, rezar, quero dizer?
        - Eu? Bem - disse devagar -, eu me sento e olho para Ele. - Um largo sorriso estendeu os lbios bem desenhados. - E Ele olha para mim.
        Jamie estava sentado quando retornei ao quarto e ensaiou uma pequena caminhada para cima e para baixo no corredor, apoiado em meu ombro. Entretanto, o esforo 
o deixou plido e suado. Deitou-se sem protestar quando puxei a coberta sobre ele.
        Ofereci-lhe um caldo leve com leite, mas ele sacudiu a cabea, cansado.
        - No tenho nenhum apetite, Sassenach. Se comer ou beber alguma coisa, acho que vou ficar enjoado outra vez.
        No o forcei, mas levei o caldo de volta em silncio.
        No jantar, fui mais insistente e consegui persuadi-lo a experimentar algumas colheradas de sopa. Ele conseguiu tomar bastante, mas no conseguiu mant-la 
no estmago.
        - Desculpe, Sassenach - disse, depois. - Sou insuportvel.
        - No tem importncia, Jamie, e voc no  repugnante. - Coloquei a tigela do lado de fora da porta e sentei-me a seu lado, alisando os cabelos desalinhados 
para trs.
        - No se preocupe.  que seu estmago ainda est irritado dos enjos no mar. Talvez eu tenha insistido cedo demais para que comesse. Deixe-o descansar e 
curar-se.
        Ele fechou os olhos, suspirando sob a minha mo.
        - Vou ficar bem - ele disse, sem interesse. - O que fez hoje, Sassenach? Ele obviamente estava irrequieto e desconfortvel, mas acalmou-se um pouco quando 
lhe contei sobre as minhas exploraes do dia; a biblioteca, a capela, a prensa de vinho e, por fim, o herbrio, onde finalmente conheci o famoso irmo Ambrose.
        - Ele  incrvel - eu disse, com entusiasmo. - Ah, mas eu me esqueci, voc j o conhece. - Irmo Ambros era alto, at mais alto do que Jamie, e cadavrico, 
com o rosto comprido e cado de um co bass. E tinha uma boa mo para plantas.
        - Ele parece conseguir fazer qualquer coisa crescer - eu disse. - Tem todas as ervas normais l e uma estufa to minscula que ele nem consegue ficar em 
p l dentro, com plantas que normalmente no cresceriam nesta estao do ano ou que no crescem nesta regio ou que simplesmente no deveriam crescer. Sem mencionar 
especiarias importadas e drogas.
        A meno de drogas me fez lembrar a noite anterior e olhei para fora da janela. A luz turva do inverno desaparecia cedo e j estava completamente escuro 
l fora, os lampies dos monges que cuidavam das cavalarias e do trabalho externo balanando-se para frente e para trs, conforme passavam em suas andanas.
        - J est escuro. Acha que consegue dormir sozinho? O irmo Ambrose tem algumas coisas que podem ajudar.
        Seus olhos estavam turvos de cansao, mas ele sacudiu a cabea.
        - No, Sassenach. No quero nada. Se eu adormecer... no, acho que vou ler um pouco. - Anselmo lhe trouxera uma seleo de obras filosficas e histricas 
da biblioteca e ele estendeu a mo para pegar um exemplar de Tcito que estava sobre a mesa.
        - Voc precisa dormir, Jamie - eu disse suavemente, observando-o. Ele abriu o livro  sua frente, recostado em um travesseiro, mas continuou a fitar a parede 
acima.
        - Eu no lhe contei o que sonhei - disse repentinamente.
        - Voc disse que sonhou que estava sendo aoitado. - Eu no estava gostando da aparncia de seu rosto; j plido sob as manchas roxas, estava ligeiramente 
luzidio de suor.
        - Isso mesmo. Eu podia olhar para cima e ver as cordas, cortando meus pulsos. Minhas mos haviam ficado quase negras e a corda raspava o osso quando eu me 
movia. Eu pressionava o rosto contra o poste. Podia sentir as pontas de chumbo das tiras do chicote cortando a carne dos meus ombros.
        - Os golpes continuaram, muito tempo depois de quando j deveriam ter parado e eu percebi que ele no pretendia parar. As pontas das tiras arrancavam pequenos 
pedaos da minha carne. O sangue... o sangue escorria pelas minhas costas e pelos lados do corpo, ensopando meu kilt. Eu sentia muito frio.
        - Ento, ergui os olhos outra vez e vi que a carne comeava a se desprender das minhas mos e os ossos dos meus dedos arranhavam a madeira do piso, deixando 
marcas longas e fundas para trs. Os ossos dos meus braos estavam visveis, sem carne e sem pele, e somente as cordas os mantinham unidos. Acho que foi quando comecei 
a gritar.
        - Eu podia ouvir um estranho som chocalhante toda vez que ele me atingia e depois de algum tempo compreendi o que era. Ele havia arrancado toda a carne dos 
meus ossos e os pesos de chumbo do chicote batiam nas costelas secas. E eu sabia que estava morto, mas no importava. Ele continuava implacavelmente e nunca iria 
parar, continuaria at eu me desfazer em pequenos pedaos e desmoronar pelo poste, e mesmo assim no pararia e...
        Aproximei-me para abra-lo e faz-lo se acalmar, mas ele j parara, agarrando a borda do livro com a mo intacta. Os dentes estavam cravados com fora na 
pele dilacerada de seu lbio inferior.
        - Jamie, vou ficar com voc esta noite - eu disse. - Posso colocar um colcho de palha no cho.
        - No. - Apesar de estar muito fraco, no havia dvidas quanto  sua teimosia. - Vou ficar melhor sozinho. E no estou com sono agora. V jantar, Sassenach. 
Eu... vou ficar lendo um pouco. - Inclinou a cabea sobre o livro. Aps um minuto observando-o e sentindo-me impotente, atendi seu pedido e sa.
        Eu estava ficando cada vez mais preocupada com o estado de Jamie. A nusea continuava; ele no comia quase nada e o que ele conseguia engolir raramente permanecia 
em seu estmago. Estava cada vez mais plido e irrequieto, no mostrando interesse por nada. Dormia bastante durante o dia, porque dormia muito pouco  noite. Ainda 
assim, apesar do medo dos pesadelos, no permitia que eu compartilhasse seu quarto, para que sua insnia no perturbasse meu prprio descanso.
        No querendo ficar rondando-o, ainda que ele permitisse, eu passava a maior parte do meu tempo no herbrio ou no barraco de secagem com o irmo Ambrose 
ou andando a esmo pelo mosteiro, em longas conversas com padre Anselmo. Ele aproveitou a oportunidade para se dedicar a uma branda catequese, tentando me instruir 
nos fundamentos do catolicismo, embora eu reiterasse muitas vezes minha condio de agnstica.
        - Ma chre - disse, finalmente -, lembra-se das condies necessrias para a perpetrao do pecado de que lhe falei ontem?
        No havia nada de errado com a minha memria, quaisquer que fossem minhas falhas morais.
        - Primeiro, que seja errado e, segundo, que voc d pleno consentimento a isso - repeti o que ele dissera.
        - Que d pleno consentimento a isso - ele repetiu. - E essa, ma chre, tambm  a condio para que a graa ocorra. - Apoivamo-nos na cerca do chiqueiro 
da abadia, observando vrios porcos grandes e marrons aconchegados no fraco sol de inverno. Ele virou a cabea, descansando o rosto nos antebraos, dobrados sobre 
a cerca.
        - No sei como posso fazer isso - protestei. - Certamente a graa  algo que voc tem ou no tem. Quero dizer - hesitei, no querendo ser rude -, para voc 
o que est no altar da capela  Deus. Para mim,  um pedao de po, por mais belo que seja o invlucro em que esteja.
        Ele suspirou com impacincia e empertigou-se, espreguiando-se.
        - Tenho observado, a caminho da minha viglia noturna, que seu marido no dorme bem - ele disse. - E conseqentemente, voc tambm no. Como no est dormindo 
de qualquer forma, eu a convido para vir comigo esta noite. Junte-se a mim na capela por uma hora.
        Olhei-o, estreitando os olhos.
        - Por qu?
        - Por que no?
        No tive a menor dificuldade em acordar para meu compromisso com Anselmo, principalmente porque no tinha conseguido dormir at ento. Nem Jamie. Sempre 
que eu espreitava o corredor, podia ver a luz bruxuleante de uma vela pela fresta da sua porta semi-aberta e ouvir o barulho das pginas folheadas e um ou outro 
gemido de desconforto, conforme ele mudava de posio.
        Incapaz de descansar, no me dei ao trabalho de trocar de roupa e, assim, estava pronta quando uma batida na minha porta anunciou a presena de Anselmo.
        O mosteiro estava silencioso, como todas as grandes instituies ficam silenciosas  noite; o ritmo intenso das atividades diurnas diminura, mas o pulsar 
continuava, mais lento, mais suave, porm incessante. Sempre h algum acordado, caminhando em silncio pelos corredores, fazendo viglia, mantendo a instituio 
viva. E agora era a minha vez de me juntar  viglia.
        A capela estava s escuras, exceto pela luz vermelha do santurio e algumas velas votivas brancas, as chamas erguendo-se retas no ar parado diante dos santurios 
escuros dos santos.
        Segui Anselmo pela curta nave central, ajoelhando-me quando ele o fez. A figura delgada do irmo Bartolomeu estava ajoelhada na frente do altar, a cabea 
baixa. No se voltou ao leve rudo de nossa entrada, mas continuou imvel, em adorao.
        O prprio Sacramento estava quase oculto pela magnificncia de seu recipiente. O enorme ostensrio, um sol irradiante de ouro de mais de trinta centmetros 
de dimetro, estava serenamente pousado no altar, guardando o humilde pedao de po em seu centro.
        Sentindo-me meio deslocada, sentei-me onde Anselmo indicou, perto da frente da capela. Os assentos, ornamentados com esculturas de anjos, flores e demnios, 
dobravam-se contra os painis de madeira dos recostos para facilitar a passagem. Ouvi o rangido leve de um assento abaixado atrs de mim, quando Anselmo ocupou seu 
lugar.
        - Mas o que devo fazer? - eu lhe perguntara, a voz baixa em respeito  noite e ao silncio, quando nos aproximvamos da capela.
        - Nada, ma chre - ele respondera simplesmente. - Apenas esteja l. Assim, sentei-me, ouvindo minha prpria respirao e os minsculos sons de um lugar silencioso; 
as coisas inaudveis normalmente ocultas em outros sons. A acomodao de uma pedra, o estalido de madeira. O chiado das chamas minsculas e inextinguveis. O leve 
agitar de alguma diminuta criatura, desgarrada de seu lugar e perdida na casa do poder supremo.
        Era um lugar tranqilo, tinha que admitir. Apesar da minha prpria fadiga e da preocupao com Jamie, gradualmente me senti relaxar, a tenso em minha mente 
cedendo aos poucos, como o relaxamento da mola de um relgio. Estranhamente, no me sentia nem um pouco sonolenta, apesar da hora tardia e das dificuldades dos ltimos 
dias e semanas.
        Afinal, pensei, o que eram dias e semanas na presena da eternidade? E  isso que era, para Anselmo e Bartolomeu, para Ambrose, para todos os monges, at 
e inclusive para o temvel abade Alexander.
        Era, de certa forma, uma idia reconfortante; se havia todo o tempo do mundo, ento os acontecimentos de um determinado momento tornavam-se menos importantes. 
Podia compreender, talvez, como uma pessoa buscava se retrair um pouco, buscar algum alvio na contemplao de um Ser infinito, qualquer que fosse a Sua natureza.
        O vermelho do lampio do santurio ardia firmemente, refletido no ouro polido. As chamas das velas brancas diante das imagens de St. Giles e de Nossa Senhora 
bruxuleavam e saltavam de vez em quando, conforme os pavios cediam a uma imperfeio ocasional, um crepitar momentneo de cera ou umidade. Mas o lampio vermelho 
ardia serenamente, sem nenhuma oscilao inconveniente para trair sua luz.
        E se havia eternidade, ou mesmo a idia de eternidade, talvez Anselmo tivesse razo; tudo era possvel. E todo amor?, perguntei-me. Eu amara Frank; ainda 
o amava. E amava Jamie, mais do que a minha prpria vida.
        Mas cerceada pelos limites da carne e do tempo, no podia ter ambos. No alm, talvez? Haveria um lugar onde o tempo no mais existisse ou onde ele parasse? 
Anselmo achava que sim. Um lugar onde tudo era possvel. E nada era necessrio.
        E haveria amor nesse lugar? Alm dos limites da carne e do tempo, todo amor seria possvel? Seria necessrio?
        A voz dos meus pensamentos parecia a de tio Lamb. Minha famlia e tudo que eu conheci como amor quando criana. Um homem que nunca me falara de amor, que 
nunca precisara, porque eu sabia que ele me amava, to certo como eu sabia que estava viva. Porque onde todo o amor existe, no h necessidade de palavras.  reao. 
 imortal. E se basta.
        O tempo passou sem que eu percebesse e surpreendi-me com a repentina apario de Anselmo diante de mim, entrando pela pequena porta junto ao altar. Mas ele 
no estava sentado atrs de mim? Olhei para trs e vi um dos monges jovens cujo nome eu desconhecia ajoelhando-se perto da entrada dos fundos. Anselmo fez uma profunda 
reverncia diante do altar, depois fez um sinal com a cabea para mim, indicando a porta.
        - Voc saiu? - perguntei, uma vez fora da capela. - Mas eu pensei que voc no poderia deixar, h, o Sacramento sozinho.
        Ele respondeu serenamente.
        - No deixei, ma chre. Voc estava l.
        Contive a necessidade de argumentar que eu no contava. Afinal, suponho, no existia tal coisa como um Adorador Oficial Qualificado. Bastava ser humano e 
eu imaginava que ainda era um ser humano, embora s vezes mal o sentisse.
        A vela de Jamie ainda queimava quando passei por sua porta e ouvi o farfalhar de pginas sendo manuseadas. Eu teria parado, mas Anselmo seguiu em frente, 
para deixar-me  porta do meu prprio quarto. Parei ali para desejar-lhe boa-noite e agradecer por me ter levado  capela.
        - Foi... repousante - eu disse, buscando a palavra certa. Ele balanou a cabea, observando-me.
        - Oui, madame. Realmente, . - Quando me virei para entrar, ele disse: - Eu lhe disse que o Santssimo Sacramento no estava sozinho, porque voc estava 
l. Mas, e quanto a voc, ma chorri? Estava sozinha?
        Parei e olhei para ele por um instante, antes de responder.
        - No, no estava.
        
        
        
39 - O RESGATE DA ALMA DE UM HOMEM
        
        De manh, como de costume, fui verificar como Jamie estava, esperando que ele tivesse conseguido comer alguma coisa. A poucos passos de seu quarto, Murtagh 
saiu de uma alcova na parede, barrando meu caminho.
        - O que foi? - perguntei, assustada. - O que est acontecendo? - Meu corao disparou e as palmas da minha mo ficaram midas de repente.
        Meu pnico deve ter sido bvio, porque Murtagh sacudiu a cabea para me tranqilizar.
        - No, ele est bem. - Encolheu os ombros. - Ou to bem quanto tem estado. - Me fez dar meia-volta segurando delicadamente meu cotovelo e comeou a me levar 
novamente pelo corredor. Pensei com um instante de choque que essa era a primeira vez que Murtagh deliberadamente me tocava; sua mo em meu brao era leve e forte 
como a asa de um pelicano.
        - O que h com ele? - perguntei. O rosto marcado do homenzinho permaneceu inexpressivo como sempre, mas as plpebras enrugadas tremeram nos cantos.
        - Ele no quer v-la no momento - disse.
        Parei onde estava e retirei bruscamente o brao de sua mo.
        - Por que no? - quis saber.
        Murtagh hesitou, como se escolhesse as palavras cuidadosamente.
        - Bem,  que... ele decidiu que seria melhor para voc deix-lo aqui e voltar para a Esccia. Ele...
        O resto de suas palavras perdeu-se no corredor quando passei bruscamente por ele.
        A porta pesada fechou-se com um leve baque atrs de mim. Jamie cochilava, de bruos na cama. Estava descoberto, vestido apenas com uma tnica curta dos novios; 
o braseiro de carvo no canto deixava o aposento confortavelmente aquecido, embora enfumaado.
        Ele deu um salto quando o toquei. Os olhos, ainda embaciados de sono, estavam fundos e seu rosto assombrado por pesadelos. Tomei sua mo entre as minhas, 
mas ele retirou-a violentamente. Com um olhar quase de desespero, fechou os olhos e enterrou o rosto no travesseiro.
        Procurando no demonstrar nenhum sinal de minha prpria perturbao, puxei um banco silenciosamente e sentei-me perto de sua cabea.
        - No vou toc-lo - eu disse -, mas voc precisa conversar comigo. - Esperei vrios minutos enquanto ele permaneceu imvel, os ombros encolhidos defensivamente. 
Finalmente, suspirou e sentou-se, movendo-se devagar e penosamente, lanando as pernas para fora da cama.
        - Sim - disse sem rodeios, sem olhar para mim. - Sim, creio que precisamos. J devia ter feito isso antes... mas fui covarde o suficiente para esperar que 
no precisasse. - Sua voz era amarga e ele mantinha a cabea abaixada, as mos entrelaadas frouxamente em volta dos joelhos. - No me achava um covarde, mas sou. 
Devia ter feito Randall me matar, mas no o fiz. Eu no tinha nenhuma razo para viver, mas no fui corajoso o suficiente para morrer. - Sua voz definhou e falou 
to baixo que eu mal podia ouvi-lo. - E eu sabia que teria que v-la uma ltima vez... contar-lhe... mas... Claire, meu amor... meu amor.
        Pegou o travesseiro da cama e abraou-o como se quisesse se proteger, um substituto pelo conforto que no podia buscar em mim. Descansou a fronte sobre ele 
por um instante, reunindo foras.
        - Depois que voc me deixou em Wentworth, Claire - ele disse em voz baixa, a cabea ainda abaixada -, ouvi seus passos, distanciando-se nas pedras do lado 
de fora e disse a mim mesmo, vou pensar nela agora. Vou me lembrar dela; do toque de sua pele, do perfume de seus cabelos e da sensao de seus lbios nos meus. 
Pensarei nela at aquela porta se abrir outra vez. E pensarei nela amanh, quando estiver no cadafalso, para me dar coragem no fim. Entre o momento em que a porta 
se abrir e o momento em que deixar este lugar para morrer simplesmente no pensarei em nada - ele concluiu num sussurro, as mos se fechando e depois relaxando.
        Na pequena masmorra, fechara os olhos e ficara  espera. A dor no era insuportvel, desde que ele permanecesse quieto, mas ele sabia que logo iria piorar. 
Temendo a dor, ainda assim ele j lidara com ela muitas vezes antes. Ele a conhecia, como conhecia sua prpria reao a ela, e estava resignado a suport-la, esperando 
apenas que ela no excedesse suas foras muito cedo. A perspectiva de violao fsica, tambm, era apenas uma questo de leve repugnncia agora. O desespero era, 
a seu prprio modo, tambm um anestsico.
        No havia nenhuma janela no quarto pela qual julgar a hora do dia. Era fim de tarde quando ele foi levado para a masmorra, mas no podia confiar em sua noo 
do tempo. Quantas horas ainda se passariam at o alvorecer? Seis, oito, dez? At o fim de tudo. Pensou com um humor sombrio que Randall ao menos lhe fizera o favor 
de desejar a morte.
        Quando a porta se abriu, erguera os olhos, esperando - o qu? Havia apenas um homem, de constituio esbelta, bonito e um pouco desarrumado, a camisa de 
linho rasgada e descabelado, apoiado contra a porta de madeira, observando-o.
        Aps uns instantes, Randall atravessou o quarto sem falar e ficou parado ao lado dele. Encostou a mo por um momento no pescoo de Jamie, depois se inclinou 
e libertou a mo presa  mesa com um puxo no prego que deixou Jamie  beira do desmaio. Um copo de conhaque foi colocado diante dele e a mo firme de Randall ergueu 
sua cabea e ajudou-o a beb-lo.
        - Ele ergueu meu rosto depois, entre suas mos, e lambeu as gotas de conhaque dos meus lbios. Quis esquivar-me dele, mas eu dera minha palavra, de modo 
que apenas fiquei imvel.
        Randall segurou a cabea de Jamie por um instante, olhando especulativamente dentro de seus olhos, depois o largou e sentou-se em cima da mesa, ao seu lado.
        - Ficou ali sentado por um bom tempo, sem dizer nada, apenas balanando uma perna para a frente e para trs. Eu no fazia a menor idia do que ele queria 
e no estava disposto a imaginar. Estava cansado e um pouco nauseado da dor em minha mo. Assim, aps algum tempo, apenas descansei a cabea nos meus braos e desviei 
o rosto. - Ele suspirou pesadamente.
        - Depois de um instante, pude sentir sua mo em minha cabea, mas no me movi. Ele comeou a acariciar meus cabelos, muito delicadamente, sem parar. No 
havia nenhum som a no ser a pesada respirao do sujeito e o estalido do fogo no braseiro, e eu acho... acho que adormeci por alguns instantes.
        Quando acordou, Randall estava em p diante dele.
        - Est se sentindo um pouco melhor? - Randall perguntou num tom longnquo, gentil.
        Sem dizer nada, Jamie assentiu e levantou-se. Randall o havia despido, tendo cuidado com a mo ferida, e levado-o para a cama.
        - Eu dera a minha palavra de que no iria resistir a ele, mas tambm no pretendia ajudar, de modo que apenas fiquei ali parado, como se fosse feito de madeira. 
Pensei em deixar que ele fizesse o que quisesse, mas eu no teria nenhuma participao naquilo. Manteria uma distncia dele, ao menos mentalmente. - Randall sorriu 
e segurou a mo direita de Jamie, apertando-a o suficiente para faz-lo cair na cama, sentindo-se enjoado e tonto com a sbita pontada de dor. Randall ajoelhou-se 
no cho ao seu lado e ensinou-lhe, em alguns minutos arrasadores, que a distncia  uma iluso.
        - Quando se ergueu, pegou a faca e passou-a pelo meu peito, de um lado ao outro. No foi um corte profundo, mas sangrou um pouco. Observou meu rosto por 
um instante, depois estendeu o dedo e molhou-o no sangue. - A voz de Jamie era instvel, tropeando e gaguejando de vez em quando. - Lambeu o meu sangue do seu dedo, 
com pequenas lambidas com a lngua, como um gato se limpando. Sorriu um pouco, depois, muito delicadamente, inclinou a cabea para o meu peito. Eu no estava amarrado, 
mas no poderia me mexer. Eu apenas... fiquei ali, enquanto ele usava sua lngua para... No doeu, mas era uma sensao muito estranha. Aps algum tempo, levantou-se 
e limpou-se cuidadosamente com uma toalha.
        Observei a mo de Jamie. O rosto virado, era o melhor indicador de seus sentimentos. Ele cerrava-a convulsivamente na beirada da cama enquanto falava.
        - Ele... ele me disse que eu... eu era delicioso. O corte havia praticamente parado de sangrar, mas ele pegou a toalha e esfregou-a com fora em meu peito 
para abrir o ferimento outra vez. - As articulaes da mo apertada no catre eram ns de ossos exangues. - Ele desabotoou as calas, espalhou o sangue vivo sobre 
si mesmo e disse que agora era a minha vez.
        Depois, Randall segurou sua cabea e ajudou-o a vomitar, limpou seu rosto delicadamente com uma toalha e lhe deu um pouco de conhaque para ajudar a tirar 
o mau cheiro da boca. Assim, alternando crueldade e delicadeza, pouco a pouco, usando a dor como arma, ele destruiu todas as barreiras da mente e do corpo.
        Eu queria fazer Jamie parar de falar, dizer-lhe que ele no precisava continuar, no devia continuar, mas mordi o lbio com fora para me calar e apertei 
minhas prprias mos, com fora, para me impedir de toc-lo.
        Ento, ele me contou o resto da histria; os lentos e deliberados aoites, entremeados de beijos. A dor aguda das queimaduras, administradas para arranc-lo 
de uma inconscincia desesperadamente desejada para enfrentar novas humilhaes. Contou-me tudo, com hesitaes, s vezes com lgrimas, muito mais do que eu poderia 
suportar ouvir, mas eu o ouvi at o fim, silenciosa como um confessor. Erguia os olhos rapidamente para mim, depois os desviava.
        - Eu poderia ter agentado ser ferido, por pior que fosse. Eu esperava ser... usado e achei que poderia agentar isso tambm. Mas eu no podia... Ele no 
apenas me machucou, ou me usou. Ele fez amor comigo, Claire. E me machucou muito enquanto o fazia, porque para ele isso era amor. E ele me fez corresponder... maldito 
seja! Ele fez com que eu me excitasse com ele! - Sua mo agarrou-se  cama, sacudindo-a com fria.
        - Na primeira vez, ele foi muito cuidadoso comigo. Usou um leo e levou muito tempo esfregando-o por todo o meu corpo... pelas minhas partes, suavemente. 
Eu no podia deixar de ficar excitado assim como no pude deixar de sangrar quando ele me cortou. - A voz de Jamie estava cansada e cheia de desespero. Ele ficou 
em silncio e me olhou pela primeira vez desde que entrei no quarto.
        - Claire, eu no queria pensar em voc. Eu no suportava ficar ali nu e... daquele jeito... e me lembrar de que eu a amava. Era blasfmia. Quis varr-la 
da minha mente e apenas... existir, enquanto tivesse que viver.
        Mas ele no permitiria. - Seu rosto estava molhado, mas ele no estava chorando agora.
        - Ele falava. Durante todo o tempo, ele falava comigo. Em parte, eram ameaas e, em parte, palavras de amor, mas em geral ele falava de voc.
        - De mim? - Silenciosa h algum tempo, minha voz saiu da garganta tensa, parecendo um grasnido. Ele balanou a cabea, olhando para o travesseiro outra vez.
        - Sim. Ele tinha muito cime de voc, sabe.
        - No, eu no sabia.
        Ele balanou a cabea outra vez.
        - Ah, sim. Perguntava-me... enquanto me tocava... perguntava-me: "Ela faz isso com voc? Sua mulher pode excit-lo assim?" - Sua voz tremia. - Eu no respondia... 
nem poderia. Ento, ele perguntava como eu achava que voc se sentiria de me ver... de me ver... - Mordeu o lbio com fora, sem conseguir continuar.
        - Ele me feria um pouco, depois parava e me amava at eu comear a ficar excitado... ento, me machucava com fora e me possua enquanto me feria. E o tempo 
todo falava de voc e a mantinha diante dos meus olhos. Eu resisti, mentalmente... tentei me manter longe dele, manter minha mente separada do meu corpo, mas a dor 
atravessava, sem cessar, toda barreira que eu erguia. Eu tentei, Claire... Deus, como eu tentei, mas...
        Ele afundou a cabea entre as mos, os dedos pressionando as tmporas com fora. Falou bruscamente.
        - Eu sei por que Alex MacGregor se enforcou. Eu faria o mesmo, se no soubesse que  um pecado mortal. Se ele me condenou em vida, no far o mesmo comigo 
no cu. - Houve um instante de silncio enquanto ele lutava para se controlar. Notei automaticamente que o travesseiro em seus joelhos estava manchado de suor e 
quis me levantar para troc-lo para ele. Ele sacudiu a cabea devagar, ainda olhando fixamente para os ps.
        - O... tudo est interligado para mim agora. No posso pensar em voc, Claire, nem mesmo em beij-la ou tocar sua mo, sem sentir o medo e a dor e a nusea 
voltarem. Fico aqui deitado sentindo que vou morrer sem o toque de suas mos, mas quando voc me toca, acho que vou vomitar de vergonha e nojo de mim mesmo. No 
posso nem mesmo v-la agora sem... - Pousou a testa nos punhos cerrados, os ns dos dedos enfiados com fora nas rbitas. Os tendes de seu pescoo estavam retesados 
de tenso e sua voz veio abafada.
        - Claire, quero que voc me deixe. Volte para a Esccia, para Craigh na Dun. Volte para o seu lugar, para seu... marido. Murtagh a levar em segurana, eu 
contei a ele. - Ficou em silncio por um instante e eu no me movi.
        Ergueu os olhos novamente com uma coragem desesperadora e falou de maneira muito simples.
        - Eu a amarei enquanto viver, mas no posso mais ser seu marido. E no serei menos que isso para voc. - Seu rosto comeou a desmoronar. - Claire, eu a desejo 
tanto que meus ossos tremem em meu corpo, mas Deus me ajude, tenho medo de tocar em voc!
        Comecei a me levantar para ir at ele, mas ele me fez parar com um sinal repentino da mo. Seu corpo estava dobrado, o rosto contorcido com a luta interior, 
e sua voz era sufocada e arquejante.
        - Claire... por favor. Por favor, v. Vou ficar muito enjoado e no quero que voc veja. Por favor.
        Ouvi a splica em sua voz e compreendi que precisava poupar-lhe mais esta indignidade, ao menos. Levantei-me e, pela primeira vez em minha vida profissional, 
deixei um homem doente entregue a si mesmo, indefeso e sozinho.
        Deixei seu quarto, entorpecida, e encostei-me na parede branca de pedra do lado de fora, refrescando o rosto afogueado contra os blocos macios, ignorando 
os olhares fixos de Murtagh e do irmo William. Deus me ajude, ele dissera. Deus me ajude, tenho medo de tocar em voc.
        Empertiguei-me e fiquei parada. Bem, por que no? Certamente no havia mais ningum.
        Na hora em que o tempo comea a passar lentamente, ajoelhei-me na nave da capela de St. Giles. Anselmo estava l, os ombros retos e elegantes sob o hbito, 
porm ningum mais. Ele no se moveu nem olhou ao redor, mas o silncio vivo da capela me envolveu.
        Permaneci de joelhos por um instante, tentando absorver a silenciosa escurido, acalmando o turbilho em minha mente. Somente quando senti meu corao desacelerar 
e comear a bater ao ritmo da noite  que deslizei para um banco nos fundos da capela.
        Fiquei sentada rgida, no conhecendo a forma e o ritual, as cortesias litrgicas que facilitavam aos irmos o acesso s profundezas de sua conversa sagrada. 
Eu no sabia como comear. Por fim, eu disse, silenciosamente, sem rodeios, que eu precisava de ajuda. Por favor.
        Ento, deixei que o silncio jorrasse em ondas  minha volta, envolvendo-me como as dobras de um manto, confortando-me contra o frio. E esperei, como Anselmo 
me ensinara, e os minutos transcorreram, incontveis.
        Havia uma mesinha no fundo da capela, coberta com uma toalha de linho, onde estava a pia de gua benta, e ao lado uma Bblia e outras duas ou trs obras 
de inspirao. Para serem usadas por fiis para quem o silncio era insuportvel, creio eu.
        O silncio estava se tornando insuportvel para mim e eu me levantei e peguei a Bblia, levando-a de volta para o genuflexrio comigo. Dificilmente eu seria 
a primeira pessoa a recorrer as sortes Virgilianae em momentos de confuso e dificuldades. Havia luz suficiente das velas para eu ler, virando as pginas delgadas 
cuidadosamente e esforando-me para discernir as linhas de letras pretas e minsculas.
        "...e ele os flagelou com o azorrague e eles ficaram muito feridos." No era de admirar que tivessem ficado, pensei. O que afinal seria azorrague? Em vez 
disso, tentei os Salmos.
        "Mas eu sou um verme e nenhum homem... meu corpo est desfeito como gua e todos os meus ossos esto desconjuntados; meu corao parece de cera; est derretido 
e misturado s minhas entranhas." Bem, sim, um diagnstico competente, pensei, com alguma impacincia. Mas haveria algum tratamento?
        "Mas no te afastes de mim,  Deus; Senhor, apressa-te para me socorrer. Livra minha alma da espada; meu amado das garras do co." Hum.
        Voltei-me para o Livro de J, o preferido de Jamie. Certamente, se algum estava em posio de oferecer um conselho til...
        "Mas a carne em seu corpo sofrer e a alma dentro dele se lamentar." Mmm, sim, pensei, e virei a pgina.
        "Ele est prostrado de sofrimento em sua cama e todos os seus ossos clamam de dor... A carne  consumida de seus ossos e desaparece; e seus ossos que no 
eram visveis, projetam-se para fora." Exatamente, pensei. E depois?
        "Sim, sua alma se aproxima do tmulo e sua vida dos seus destruidores." No to bom, mas o prximo trecho era mais alentador. "Se houver um mensageiro com 
ele, um intrprete, um entre mil, para mostrar sua honradez, ento, ele tem piedade e diz: Livre-o do abismo, eu encontrei um resgate. Sua carne ser mais viosa 
do que a de uma criana; ele retornar aos dias de sua juventude." E qual seria o resgate, ento, que recuperaria a alma de um homem e livraria meu amado das garras 
do co?
        Fechei o livro e os meus olhos. As palavras se confundiam, toldando-se com minha necessidade urgente. Uma tristeza avassaladora apoderou-se de mim quando 
pronunciei o nome de Jamie. E no entanto havia um pouco de paz ali, um abrandamento da tenso quando disse, inmeras vezes, "O Senhor, em tuas mos confio a alma 
de seu servo Jamie".
        Ocorreu-me o pensamento de que talvez fosse melhor para Jamie que estivesse morto; ele dissera que queria morrer. Eu estava moralmente certa de que se eu 
o deixasse entregue  prpria sorte, logo estaria morto, quer pelas conseqncias da tortura e da doena, na forca ou em alguma batalha.
        E eu no tinha a menor dvida de que ele tambm sabia disso. Deveria fazer o que ele pedira? De jeito nenhum, disse a mim mesma. De jeito nenhum, disse com 
raiva ao sol irradiante no altar e abri o livro outra vez. Passou-se algum tempo at eu perceber que a minha splica j no era um monlogo. Na realidade, s soube 
disso quando compreendi que havia respondido uma pergunta que no me lembrava de ter formulado. Em meu transe de insone tristeza, algo me fora solicitado, e eu no 
sabia exatamente o qu, e eu respondera sem hesitar:
        - Sim, eu o farei.
        Parei bruscamente de pensar, ouvindo o silncio palpvel. Ento, mais cautelosamente, repeti, sem voz:
        - Sim. Sim, eu o farei. - E um pensamento fugaz atravessou minha mente: As condies do pecado so as seguintes: primeiro, voc tem que dar seu consentimento 
completo a isso... E as condies da graa tambm, veio em eco a voz tranqila de Anselmo.
        Havia um sentimento, no repentino, mas completo, como se tivessem me dado um pequeno objeto para esconder em minhas mos. Precioso como a opala, liso como 
o jade, pesado como um cascalho do rio, mais frgil do que o ovo de um pssaro. Infinitamente imvel, vivo como a raiz da Criao. No um presente, mas um depsito 
em confiana. Para amar febrilmente, para guardar carinhosamente. As palavras falaram por si mesmas e desapareceram nas sombras dos arcos do teto.
        Ajoelhei-me diante da Sua presena e deixei a capela, sem duvidar nem por um instante, na eternidade do momento em que o tempo pra, que eu tinha uma resposta, 
mas no fazia a menor idia do que era. Sabia apenas que aquilo que eu guardava nas mos era a alma de um ser humano; a minha prpria alma ou a de outra pessoa, 
isso eu no sabia.
        No parecia ser a resposta a uma prece, quando acordei para a retomada do tempo comum pela manh e encontrei um irmo laico de p junto  minha cama, dizendo 
que Jamie estava ardendo em febre.
        - H quanto tempo ele est assim? - perguntei, colocando a mo experiente na fronte e na nuca, na axila e na virilha. Nenhum sinal de suor aliviando a febre; 
apenas a pele seca e distendida do persistente ressecamento, ardente de calor. Ele estava consciente, mas tonto e com as plpebras pesadas. A origem da febre era 
evidente. A mo direita ferida estava inchada, com uma secreo malcheirosa ensopando as ataduras. Veios vermelhos sinistros subiam do pulso. Uma grave infeco, 
pensei comigo mesma. Uma terrvel infeco, supurada, envenenando seu sangue, ameaando sua vida.
        - Eu o encontrei assim quando vim dar uma olhada nele depois das preces matinais - respondeu o irmo servente que fora me buscar. - Dei-lhe gua, mas ele 
comeou a vomitar logo depois do amanhecer.
        - Deveria ter me chamado imediatamente - eu disse. - Bem, no importa. Traga-me gua quente, folhas de framboesa e chame o irmo Polydore, o mais rpido 
possvel. - Saiu assegurando-me de que iria providenciar um desjejum para mim tambm, mas descartei a oferta com um gesto da mo, enquanto pegava a jarra de gua.
        Em seguida, mergulhei a mo infeccionada em gua recm-fervida, o mais quente que seria possvel agentar sem queimar a pele. No dispondo de remdios  
base de sulfa ou dos modernos antibiticos, o calor era a nica arma contra infeco bacteriana. O corpo do paciente estava fazendo o melhor possvel para fornecer 
este calor por meio da febre alta, mas a febre em si colocava um grave problema, desgastando os msculos e danificando as clulas cerebrais. O truque era aplicar 
bastante calor local para destruir a infeco, enquanto mantinha o resto do corpo suficientemente frio para evitar danos e suficientemente hidratado para manter 
as funes normais. Um maldito ato de equilbrio de trs vrtices, pensei desoladamente.
        Nem o estado de esprito de Jamie nem seu desconforto fsico eram mais relevantes. Era uma luta direta para mant-lo vivo at que a infeco e a febre fossem 
debeladas; nada mais importava.
        Na tarde do segundo dia, ele comeou a delirar. Ns o amarramos  cama com tiras macias para evitar que se arremessasse ao cho. Finalmente, como uma medida 
desesperada para reduzir a febre, pedi a um dos irmos que me trouxesse l de fora um grande cesto de neve, que arrumamos ao seu redor. Isso resultou em violentos 
tremores que o deixaram exaurido, mas que logo fez sua temperatura abaixar.
        Infelizmente, o tratamento tinha que ser repetido de hora em hora. Ao pr-do-sol, o quarto parecia um pntano, com poas de neve derretida pelo cho, pilhas 
de panos encharcados amontoados entre elas e vapores como os de gs de pntano erguendo-se do braseiro no canto. O irmo Polydore e eu mesma estvamos encharcados 
tambm, de suor, enregelados de gua da neve e  beira da exausto, apesar da ajuda de Anselmo e dos irmos laicos. Antitrmicos como margarida-amarela, hidraste, 
gatria e hissopo haviam sido experimentados, sem resultado. O ch de casca de salgueiro, que poderia ajudar com seu componente de cido saliclico, no podia ser 
consumido em quantidades suficientes para produzir o efeito desejado.
        Em um de seus intervalos de lucidez cada vez mais raros, Jamie pediu-me para deix-lo morrer. Respondi concisamente, como na noite anterior, continuando 
com o que estava fazendo:
        - De jeito nenhum.
        Quando o sol se ps, ouviu-se o rudo de homens aproximando-se pelo corredor. A porta abriu-se e o abade, o tio Alex de Jamie, entrou, acompanhado do irmo 
Anselmo e de trs outros monges, um deles carregando uma pequena caixa de cedro. O abade aproximou-se de mim e abenoou-me rapidamente, em seguida tomou minha mo 
nas suas.
        - Ns vamos ungir o rapaz - disse, a voz grave e gentil. - No tenha medo.
        Virou-se para a cama e olhei desesperada e transtornada para Anselmo, em busca de uma explicao.
        - A extrema-uno - explicou, aproximando-se de modo que sua voz baixa no perturbasse os monges reunidos em volta da cama. - Os ltimos sacramentos.
        - Extrema-uno! Mas  para pessoas que esto  morte!
        - Sssh. - Afastou-me da cama. - Deveria ser chamado mais adequadamente de uno do doente, embora na verdade geralmente seja reservada para os que correm 
risco de vida. - Os monges haviam girado Jamie delicadamente de costas, acomodando-o cuidadosamente para que pudesse ficar deitado naquela posio com o mnimo de 
dor nos ombros feridos.
        - O sacramento tem um duplo propsito - Anselmo continuou, murmurando em meu ouvido conforme os preparativos continuavam. - Primeiro,  um sacramento de 
cura; rezamos para que a sade do sofredor seja restaurada, se este for o desejo de Deus para ele. A crisma, o leo consagrado,  usada como um smbolo de vida e 
de cura.
        - E o segundo propsito? - perguntei, j sabendo a resposta. Anselmo confirmou, balanando a cabea.
        - Se no for a vontade de Deus que ele se recupere, ento ele  absolvido de seus pecados e ns o encomendamos a Deus, para que sua alma parta em paz. - 
Ele percebeu que eu me retesava em protesto e colocou a mo em meu brao, em sinal de advertncia.
        - Estas so as ltimas cerimnias da Igreja. Ele tem direito a elas e toda paz que possam lhe trazer.
        Os preparativos foram concludos. Jamie continuava de costas, um lenol cobrindo recatadamente seus quadris, com velas acesas  cabeceira e ao p da cama, 
que me faziam lembrar de forma extremamente desagradvel de velas de defunto. O abade Alexander sentou-se ao lado da cama, acompanhado por um monge que segurava 
uma bandeja com um cibrio coberto, dois pequenos frascos de prata contendo gua benta e leo perfumado, e uma toalha branca dobrada sobre cada brao. Como um maldito 
garom de vinhos, pensei com raiva. O procedimento todo me enervava.
        Os ritos foram conduzidos em latim, os versculos cantados pelo celebrante eram murmrios suaves e tranqilizadores aos ouvidos, embora eu no entendesse 
o significado. Anselmo murmurava em voz baixa para mim o significado de algumas partes da cerimnia; outras eram auto-explicativas. Em determinado momento, o abade 
fez um sinal a Polydore, que deu um passo  frente e segurou um pequeno frasco sob o nariz de Jamie.
        Devia conter uma soluo de amnia ou algum outro estimulante, porque ele fez um movimento brusco e virou a cabea, os olhos ainda fechados.
        - Por que esto tentando acord-lo? - sussurrei.
        - Se possvel, a pessoa deve estar consciente a fim de concordar com a declarao de que ele se arrepende dos pecados que cometeu em sua vida. Alm disso, 
se for capaz de receb-lo, o abade lhe dar o sacramento da Eucaristia.
        O abade tocou de leve o rosto de Jamie, virando sua cabea para o frasco, falando-lhe em voz baixa. Deixara de lado do latim e falava no forte sotaque escocs 
de sua famlia, suavemente.
        - Jamie! Jamie, meu rapaz!  Alex, rapaz. Estou aqui com voc. Precisa acordar um pouco agora, apenas por um instante. Vou lhe dar a absolvio agora e depois 
a hstia sagrada. Tome um pequeno gole agora, para que possa me responder quando for necessrio. - O monge de nome Polydore segurou a caneca junto aos lbios de 
Jamie, cuidadosamente entornando umas gotas de cada vez, at que a lngua e a garganta ressecadas pudessem aceitar mais. Seus olhos estavam abertos, ainda pesados 
de febre, mas agora suficientemente alertas.
        O abade continuou, as perguntas em ingls, mas to baixas que eu mal conseguia compreend-las. "Renuncia ao diabo e a todos os seus atos?", "Acredita na 
Ressurreio de Nosso Senhor Jesus Cristo?" e assim por diante. A cada uma, Jamie respondia "Sim", num murmrio rouco.
        Uma vez consagrado o sacramento, Jamie relaxou com um suspiro, fechando os olhos mais uma vez. Eu podia ver suas costelas conforme o peito saltado movia-se 
com a respirao. Ele havia se consumido terrivelmente com a doena e a febre. O abade, pegando os frascos de gua benta e de leo sagrado, um de cada vez, fez o 
sinal-da-cruz sobre seu corpo, ungindo a testa, os lbios, o nariz, as orelhas e as plpebras. Em seguida, ele fez o sinal-da-cruz com o leo sagrado na cavidade 
do peito sobre o corao, na palma de cada um das mos e no arco de cada p. Ergueu a mo ferida com infinito cuidado, passando o leo de leve sobre os ferimentos 
e recolocando-a sobre o peito de Jamie. Onde descansou sobre o talho lvi-do da cicatriz da faca.
        A uno foi rpida e extremamente delicada, um toque de pena com o polegar rpido do abade. "Magia supersticiosa", dizia o lado racional do meu crebro, 
mas estava profundamente emocionada pelo amor visvel nos rostos dos monges enquanto rezavam. Os olhos de Jamie abriram-se mais uma vez, mas estavam muito calmos 
e seu rosto estava em paz pela primeira vez desde que deixramos Lallybroch.
        A cerimnia foi encerrada com uma curta prece em latim. Colocando a mo na cabea de Jamie, o abade disse em ingls:
        - Senhor, em Vossas mos encomendamos a alma de Vosso servo, James. Curai-o, rogamos, se esta for a Vossa vontade, e fortalecei sua alma, para que ele seja 
pleno de graa e conhea a Vossa paz por toda a eternidade.
        - Amm - responderam os outros monges. E eu tambm.
         noite, o paciente havia cado num estado de semiconscincia outra vez.  medida que as foras de Jamie se exauriam, tudo que podamos fazer era acord-lo 
para os goles dgua que o mantinham vivo. Seus lbios estavam rachados e descascados, de modo que no conseguia falar, embora ainda abrisse os olhos embaciados quando 
sacudido com firmeza. J no nos reconhecia; seus olhos fitavam o vazio, depois gradualmente se fechavam enquanto ele virava a cabea, gemendo.
        Permaneci junto ao seu leito, olhando-o, to exausta com os rigores do dia que no sentia nada alm de um desespero entorpecido. O irmo Polydore tocou-me 
devagar, tirando-me do meu torpor.
        - No pode fazer nada mais por ele agora - disse, afastando-me dali com firmeza. - Tem que ir descansar.
        - Mas - comecei a dizer, depois parei. Ele tinha razo, conclu. Havamos feito tudo que era possvel. Ou a febre cedia por si mesma dentro de pouco tempo 
ou Jamie morreria. Nem mesmo um corpo extremamente forte podia agentar a devastao consumidora da febre alta por mais de um ou dois dias e restavam poucas foras 
a Jamie para sustent-lo durante esta provao.
        - Eu ficarei com ele - disse Polydore. - V para sua cama. Eu a chamarei se... - No terminou a frase, mas fez sinal delicadamente para que eu seguisse na 
direo de meu prprio quarto.
        Fiquei deitada, insone, na minha cama, fitando a viga do teto. Meus olhos estavam secos e febris, minha garganta doa, como se estivesse com febre tambm. 
Seria esta a resposta  minha prece, de que morrssemos juntos ali?
        Finalmente, levantei-me e peguei a jarra e a bacia da mesa junto  porta. Coloquei a pesada bacia de loua no centro do quarto, no cho, e enchi-a cuidadosamente, 
deixando a gua transbordar e se transformar numa bolha trepidante.
        Eu passara rapidamente pelo herbanrio do irmo Ambrose antes de ir para o meu quarto. Desfiz os pequenos pacotes de ervas e espalhei o contedo no meu braseiro, 
onde as folhas de mirra exalavam uma fumaa aro-mtica e nacos de cnfora queimavam em pequenas chamas azuis entre a incandescncia vermelha dos pedaos de carvo.
        Coloquei a vela atrs da superfcie refletora da gua, tomei posio  sua frente e preparei-me para evocar um fantasma.
        O corredor de pedras estava frio e escuro, iluminado a intervalos pela luz fraca de lamparinas de leo penduradas do teto. Minha sombra alongava-se  minha 
frente, sob os meus ps, quando passava embaixo de cada uma delas, estendendo-se at parecer mergulhar de cabea e desaparecer na escurido adiante.
        Apesar do frio, eu estava descala e usando apenas uma camisola de algodo rstico branco. Um pequeno invlucro de calor movia-se comigo por baixo da camisola, 
mas o frio das pedras subia pelos meus ps e pernas.
        Bati uma vez, de leve, e abri a porta pesada sem esperar resposta.
        O irmo Roger estava com ele, sentado ao lado da cama, rezando o tero com a cabea baixa. O rosrio de madeira chocalhou quando ele ergueu a cabea, mas 
seus lbios continuaram a se mover silenciosamente por alguns segundos, terminando a ave-maria antes de reagir  minha presena.
        Veio ao meu encontro junto  porta, falando em voz baixa, embora fosse bvio que ele podia gritar que no iria perturbar a figura imvel sobre a cama.
        - Nenhuma alterao. Acabo de trocar a gua do banho da mo. -Algumas gotas brilhavam nas laterais da pequena chaleira cheia outra vez e recolocada sobre 
o braseiro.
        Fiz um sinal afirmativo com a cabea e coloquei a mo em seu brao em agradecimento. Era surpreendentemente slido e clido depois das fantasias da ltima 
hora e, de certa forma, reconfortante.
        - Gostaria de ficar sozinha com ele, se no se importar.
        - Claro. Vou para a capela. Ou deveria ficar por perto caso... - sua voz definhou, hesitante.
        - No - tentei sorrir de maneira tranqilizadora. - V para a capela. Ou melhor ainda, v para a cama. Eu no consigo dormir; ficarei aqui at o amanhecer. 
Se precisar de ajuda, mandarei cham-lo.
        Ainda em dvida, virou-se para olhar para a cama. Mas era muito tarde e ele estava cansado; havia olheiras sob seus meigos olhos castanhos.
        A pesada porta rangeu nas dobradias e eu fiquei sozinha com Jamie. Sozinha e com medo, e com muita, muita dvida em relao ao que eu pretendia fazer.
        Parei ao p da cama, observando-o por um instante. O quarto estava fracamente iluminado pelo braseiro e dois crios, cada um com cerca de um metro de altura, 
sobre a mesa em um canto do aposento. Ele estava despido e a luz minguada parecia acentuar as cavidades deixadas pela febre debilitante. A contuso multicor sobre 
suas costelas manchava a pele como um fungo que se propagava.
        Um homem  beira da morte adquire uma tonalidade levemente esverdeada. No comeo, apenas um pouco no maxilar, essa palidez vai se espalhando gradualmente 
pelo rosto e descendo para o peito, conforme a fora da vida comea a se esvair. J a vira inmeras vezes. Bem poucas vezes, eu vira esse avano mortal parar e reverter, 
a pele ficar rosada de sangue outra vez e o sujeito viver. Mais freqentemente, porm... sacudi-me vigorosamente e me afastei da cama.
        Tirei a mo das dobras da minha camisola e coloquei sobre a mesa os objetos que eu reunira na visita clandestina que fizera  oficina s escuras do irmo 
Ambrose. Um frasco de amnia. Um pacote de lavanda seca. Outro de valeriana. Um pequeno queimador de incenso de metal, no formato de uma flor aberta. Duas pelotas 
de pio, de cheiro adocicado e pegajosas de resina. E uma faca.
        O quarto estava fechado e abafado com a fumaa do braseiro. A nica janela estava coberta com uma tapearia pesada, retratando a execuo de So Sebastio. 
Olhei para o rosto do santo, voltado para cima, o peito cravado de flechas, perguntando-me uma vez mais o que levaria uma pessoa a escolher aquela decorao em particular 
para o quarto de um doente.
        Apesar da maneira indiferente como fora colocada ali, a pesada tapearia de l e seda barrava todas as correntes de ar, a no ser as muito fortes. Levantei 
sua parte inferior e sacudi-a, fazendo a fumaa do carvo sair pelo arco de pedra. O ar mido e frio que entrou era revigorante e acalmou um pouco minhas tmporas 
que comearam a latejar quando eu fitava o espelho de gua, recordando-me.
        Ouvi um fraco gemido atrs de mim e Jamie remexeu-se na corrente de ar. timo. Portanto, no estava profundamente inconsciente.
        Deixando a tapearia voltar  sua posio na janela, peguei o queimador de incenso. Fixei uma das pelotas de pio no pino do queimador e acendi-o com uma 
vela fina usada para acender as velas maiores nos castiais. Coloquei-o na mesinha-de-cabeceira de Jamie, tomando cuidado para eu mesma no inalar os vapores enjoativos.
        No havia muito tempo. Precisava terminar meus preparativos rapidamente, antes que a fumaa do pio o deixasse drogado demais para despertar.
        Desatei o lao da frente da minha camisola e esfreguei rapidamente grandes pores da lavanda e da valeriana no meu corpo. Era um cheiro picante, agradvel, 
peculiar e carregado de lembranas. Um aroma que, para mim, invocava a sombra do homem que usava este perfume e a sombra do homem atrs dele; sombras que traziam 
de volta imagens confusas de terror atual e amor perdido. Um aroma que, para Jamie, devia trazer de volta as horas de dor e raiva passadas em meio a suas ondas. 
Esfreguei o resto vigorosamente entre as palmas das mos e espalhei os pequenos fragmentos pelo cho.
        Inspirando profundamente para reunir coragem, peguei o frasco de amnia. Fiquei parada junto  cama por um instante, segurando-o, olhando para o rosto macilento, 
a barba espetada. No mximo, duraria mais um dia; no mnimo, apenas mais algumas horas.
        - Muito bem, seu maldito escocs filho-da-me - eu disse baixinho. - Vamos ver at onde vai sua teimosia. - Levantei a mo machucada, escorrendo gua, e 
coloquei de lado a vasilha onde estava mergulhada.
        Abri o frasco e passei-o bem junto ao seu nariz. Ele resfolegou e tentou desviar a cabea, mas no abriu os olhos. Enfiei os dedos nos cabelos na parte de 
trs de sua cabea para impedir que desviasse o rosto e levei o frasco de novo ao seu nariz. Ele sacudiu a cabea devagar, balanando-a de um lado para o outro como 
um boi acordado de seu repouso. Seus olhos abriram apenas uma estreita fenda.
        - Ainda no acabei, Fraser - sussurrei em seu ouvido, tentando da melhor forma possvel reproduzir o ritmo das consoantes reduzidas do modo de falar de Randall.
        Jamie gemeu e encolheu-se. Agarrei-o pelos ombros e sacudi-o vigorosamente. Sua pele estava to quente que quase o soltei.
        - Acorde, escocs filho-da-me! Ainda no acabei com voc! - Ele comeou a lutar para apoiar-se nos cotovelos, num lamentvel esforo de obedincia que quase 
partiu meu corao. Sua cabea ainda balanava para a frente e para trs e os lbios rachados murmuravam alguma coisa que soava como "por favor, agora no", incessantemente.
        Sem foras, rolou para o lado e caiu de rosto no travesseiro outra vez. O quarto comeava a se encher de fumaa de pio e me senti ligeiramente tonta.
        Cerrei os dentes e enfiei a mo entre suas ndegas, agarrando uma parte redonda. Ele gritou, um grito agudo e sem ar, e rolou dolorosamente de lado, curvando-se 
numa bola com as mos juntas entre as pernas.
        Eu passara a ltima hora em meu quarto, pairando acima do reflexo na gua, evocando lembranas. De Black Jack Randall e de Frank, seu descendente. Homens 
to diferentes, mas com semelhanas fsicas to surpreendentes.
        Dilacerava meu corao pensar em Frank, lembrar de seu rosto e de sua voz, seus maneirismos, seu modo de fazer amor. Eu tentara apag-lo de minha lembrana, 
quando fiz minha escolha no crculo de pedras, mas ele estava sempre l, uma sombra nos recessos de minha mente.
        Sentia-me nauseada por t-lo trado, mas por fim forara minha mente a livrar-se dele como Geilie me ensinara, concentrando-me na chama da vela, respirando 
a adstringncia das ervas, acalmando-me at conseguir traz-los da escurido, ver as linhas de seu rosto, sentir outra vez o toque de sua mo sem chorar.
        Havia um outro homem nas sombras, com as mesmas mos, o mesmo rosto. Os olhos iluminados pela chama da vela, eu o trouxera para a luz tambm, ouvindo, observando, 
vendo a semelhana e as diferenas, construindo - o qu? Um simulacro, uma persona, uma impresso, uma pantomima. Um rosto sombreado, uma voz sussurrada e um toque 
amoroso que eu pudesse usar para enganar uma mente levada pelo delrio. E finalmente eu deixara meu quarto, com uma prece pela alma da bruxa Geillis Duncan.
        Jamie estava deitado de costas agora, contorcendo-se levemente com a dor de seus ferimentos. Seus olhos estavam fixos e arregalados, sem nenhum sinal de 
reconhecimento.
        Acariciei-o da maneira que to bem conhecia, delineando a linha de suas costelas do esterno at as costas, de leve, como Frank teria feito, pressionando 
com fora sobre a mancha dolorida, como tinha certeza que o outro faria. Inclinei-me e passei a lngua devagar em volta de sua orelha, lambendo e sondando, e sussurrei:
        - Lute contra mim! Revide, seu desgraado!
        Seus msculos retesaram-se e seu maxilar trincou-se, mas ele continuou olhando fixamente para o teto. Ento, eu no tinha escolha. Teria que usar a faca. 
Eu sabia o risco que estava correndo, mas era melhor que eu mesma o matasse, pensei, do que ficar sentada ao seu lado, deixando-o morrer.
        Peguei a faca que estava em cima da mesa e passei-a com firmeza de um lado ao outro de seu peito, ao longo da cicatriz recm-fechada. Ele arquejou com o 
choque e arqueou as costas. Pegando uma toalha, esfreguei-a asperamente no ferimento. Antes que eu pudesse fraquejar, forcei-me a correr os dedos pelo seu peito, 
lambuzando-os no sangue, que passei em seus lbios. Havia uma frase que eu no tive que inventar, tendo eu mesma ouvido dos seus lbios. Inclinando-me sobre ele, 
murmurei:
        - Agora, beije-me.
        Eu no estava absolutamente preparada para o que sobreveio. Ele me lanou do outro lado do quarto ao sair da cama. Cambaleei e ca contra a mesa, fazendo 
os crios oscilarem. As sombras correram e balanaram-se quando os pavios flamejaram e apagaram-se.
        Eu havia batido as costas com fora contra a borda da mesa, mas recuperei-me a tempo de me esquivar quando ele se arremessou sobre mim. Com um rosnado desarticulado, 
veio ao meu encalo, as mos estendidas.
        Ele era mais rpido e mais forte do que eu esperara, embora cambaleasse atabalhoadamente, batendo nos mveis. Encurralou-me por um instante entre o braseiro 
e a mesa e pude ouvir sua respirao arranhando sua garganta enquanto tentava me agarrar. Arremessou a mo esquerda sobre meu rosto; se suas foras e reflexos estivessem 
normais, o golpe teria me matado. Ao invs disso, dei um salto para o lado e seu punho cerrado raspou minha testa, derrubando-me no cho, atordoada.
        Engatinhei para baixo da mesa. Tentando me alcanar, ele perdeu o equilbrio e caiu sobre o braseiro. Brasas incandescentes espalharam-se pelo cho de pedra. 
Ele uivou quando seu joelho triturou pesadamente um pedao de carvo em brasa. Peguei um travesseiro da cama e bati at apagar um punhado de fagulhas chamejantes 
que cara sobre a coberta de cama que se arrastava pelo cho. Preocupada com isso, no notei sua aproximao, at que um golpe em cheio na minha cabea me estatelou 
no cho.
        O catre virou quando tentei me erguer, apoiando-me em sua estrutura com uma das mos. Fiquei abrigada embaixo dele por um instante, tentando recuperar os 
sentidos. Podia ouvir Jamie caando-me na penumbra, a respirao spera e arquejante entre imprecaes incoerentes em galico. De repente, avistou-me e atirou-se 
sobre a cama, os olhos enlouquecidos  luz turva.
         difcil descrever detalhadamente o que aconteceu em seguida, principalmente porque aconteceu vrias vezes e todas as vezes se sobrepem em minha lembrana. 
Parece que as mos ardentes de Jamie fecharam-se em meu pescoo apenas uma vez, mas essa nica vez continuou indefinidamente. Na realidade, aconteceu inmeras vezes. 
Toda vez eu conseguia livrar-me de suas mos e empurr-lo, recuava novamente, esquivando-me e agachando-me em volta da moblia destruda. E de novo ele vinha em 
meu encalo, um homem arrancado das garras da morte pela fria, praguejando e soluando, cambaleando e chocando-se violentamente contra tudo  sua volta.
        Privadas da proteo do braseiro, as brasas apagaram-se rapidamente, deixando o aposento negro como breu e povoado de demnios. Nos ltimos estertores de 
luz, eu o vi agachado contra a parede, com uma juba de fogo e coberto de sangue, o pnis rgido contra os plos de sua barriga, os olhos azuis vidrados com um brilho 
assassino no rosto lvido e encovado. Um viking furioso. Como os demnios nrdicos que irromperam de seus navios ornados de carrancas de drages na nvoa da antiga 
costa escocesa, para matar, saquear e incendiar. Homens que matariam ainda que estivessem no fim de suas foras. Que usariam estas ltimas foras para estuprar e 
semear sua violenta semente nos ventres dos conquistados. O minsculo queimador de incenso no emitia nenhuma luz, mas o enjoativo cheiro de pio entupia meus pulmes. 
Embora as brasas estivessem extintas, eu via luzes na escurido, luzes coloridas que flutuavam nos cantos da minha viso.
        Estava cada vez mais difcil me mover; parecia que estava tentando atravessar o mar e era perseguida por um peixe monstruoso. Erguia meus joelhos bem alto, 
correndo em cmara lenta, sentindo a gua respingar no meu rosto.
        Sacudi a cabea, tentando livrar-me do pesadelo, e percebi que na realidade havia algo mido em meu rosto e nas mos. No lgrimas, mas o sangue e o suor 
da criatura do pesadelo com quem me atraquei no escuro.
        Suor. Havia algo de que eu devia me lembrar a respeito de suor, mas no conseguia. A mo do monstro agarrou meu brao, eu me desvencilhei e ela deixou uma 
pelcula escorregadia na minha pele.
        Girando e girando, a caa e o caador. Mas havia algo errado, eu era a caa, perseguida por um animal de dentes brancos e afiados que se cravaram no meu 
antebrao. Golpeei-o e ele me soltou, mas as garras... girando e girando...
        O demnio me imprensou contra a parede; podia sentir pedra atrs de minha cabea e pedra embaixo dos meus dedos que tentavam se agarrar a ela. E um corpo 
duro como pedra pressionando-se com fora contra o meu, o joelho pontudo entre os meus, pedra e osso, entre minhas prprias... pernas, mais rigidez de pedra... ah. 
Uma suavidade entre as dificuldades da vida, um frescor agradvel em meio ao calor, conforto em meio  desgraa...
        Camos entrelaados no cho, rolando sem parar, enredados nas dobras da tapearia que despencara, banhados nas correntes de ar frio que entravam pela janela. 
As nvoas da loucura comearam a recuar.
        Batemos contra alguma pea do mobilirio e ambos permanecemos imveis. As mos de Jamie estavam agarradas aos meus seios, os dedos dolorosamente cravados 
na carne. Senti gotas caindo no meu rosto, de suor ou lgrimas, eu no sabia, mas abri os olhos para ver. Jamie me olhava, o rosto impenetrvel  luz da lua, os 
olhos arregalados, desfocados. Suas mos relaxaram. Um dos dedos traou o contorno do meu seio delicadamente, da curva ao mamilo, incessantemente. Sua mo moveu-se 
e segurou meu seio por inteiro, os dedos abertos como uma estrela-do-mar, macia como a mo de uma criana que est sendo amamentada.
        - M-mame? - ele disse. Os cabelos da minha nuca eriaram-se. Era a voz aguda, lmpida, de um menino. - Mame?
        O ar frio nos banhou, levando a fumaa doentia num redemoinho de flocos de neve. Estendi o brao e coloquei a palma da minha mo em sua face fria.
        - Jamie, meu amor - eu disse, sussurrando atravs da garganta dolorida. - Venha, deite sua cabea aqui, rapazinho. - A mscara estremeceu e desmoronou e 
eu abracei o corpo imenso com fora contra o meu, ns dois tremendo com a fora dos seus soluos.
        Para nossa grande sorte, foi o inabalvel irmo William quem nos achou pela manh. Acordei zonza com o rudo da porta se abrindo e despertei inteiramente 
quando o ouvi pigarrear enfaticamente antes de dizer, com seu suave sotaque de Yorkshire:
        - Bom dia para vocs.
        O pesado fardo sobre mim era o corpo de Jamie. Seu cabelo secara em mechas de bronze e caa em caracis sobre meus seios como as ptalas de um crisntemo 
chins. A face pressionada contra meu esterno estava quente e ligeiramente pegajosa de suor, mas as costas e os braos que eu podia tocar estavam to frios quanto 
minhas coxas, resfriados pelo ar de inverno que soprava sobre ns.
        A luz do dia que penetrava pela janela sem cortina revelava toda a extenso da destruio que eu apenas percebera indistintamente na noite anterior; mveis 
e louas quebrados entulhavam o quarto e as duas velas macias estavam atiradas ao cho como troncos cados em meio a uma confuso de cortinas rasgadas e roupas 
de cama espalhadas. Pelo padro das marcas dolorosamente impressas nas minhas costas, eu devia estar deitada sobre a tapearia de So Sebastio, a almofada de alfinetes 
humana; no era uma grande perda para o mosteiro.
        O irmo William ficou parado, imvel, na soleira da porta, jarra e bacia na mo. Com grande preciso, fixou os olhos na sobrancelha esquerda de Jamie e perguntou:
        - E como se sente nesta manh?
        Houve uma pausa um tanto longa, durante a qual Jamie, com grande considerao, permaneceu onde estava, cobrindo a maior parte do meu corpo. Finalmente, no 
tom rouco de algum ao qual fora concedida uma revelao, ele respondeu:
        - Com fome.
        - Ah, que bom - disse o irmo William, ainda fitando intensamente a sobrancelha. - Vou dizer ao irmo Josef. - A porta fechou-se silenciosamente atrs dele.
        - Obrigada por no se mexer - observei. - No gostaria que fssemos responsveis por dar pensamentos impuros ao irmo William.
        Densos olhos azuis fitaram-me de cima.
        - Ah, bem - disse criteriosamente. - Uma viso do meu traseiro no vai corromper os votos sagrados de ningum; no nas condies atuais. J o seu... - Parou 
para limpar a garganta.
        - O que tem o meu? - perguntei.
        A cabea ruiva abaixou-se devagar para plantar um beijo em meu ombro.
        - O seu colocaria um bispo em perigo.
        - Mmmmhum. - Eu mesma, pensei, estava ficando boa em sons escoceses. - Seja como for,  melhor se mover agora. Acho que nem mesmo o tato do irmo William 
 infinito.
        Jamie deitou a cabea ao lado da minha com cuidado, em uma dobra da tapearia, de onde me olhou de vis.
        - No sei quanto da noite passada eu sonhei e quanto foi real. - Sua mo inconscientemente deslizou sobre o arranho que atravessava seu peito. - Mas se 
metade do que acho que aconteceu tiver realmente acontecido, eu devia estar morto agora.
        - No est. Eu verifiquei. - Com alguma hesitao, perguntei: - Voc desejaria estar?
        Ele sorriu devagar, os olhos semicerrados:
        - No, Sassenach.
        Seu rosto estava macilento e sombrio da doena e do cansao, mas estava em paz, as linhas em volta da boca haviam desaparecido e seus olhos azuis estavam 
lmpidos.
        - Mas estou bem perto disso, queira ou no. A nica razo para eu achar que no estou morrendo agora  porque estou com fome. No estaria faminto se estivesse 
prestes a morrer, no acha? Parece um desperdcio. - Um dos olhos fechou-se totalmente, mas o outro permaneceu semi-aberto, fixo em meu rosto com uma expresso cmica.
        - No consegue se levantar?
        Ele pensou cuidadosamente na pergunta.
        - Se minha vida dependesse disso, eu talvez conseguisse erguer a cabea outra vez. Mas levantar-me? No.
        Com um suspiro, esgueirei-me de baixo dele e ajeitei a cama antes de tentar alavanc-lo para a posio vertical. Ele conseguiu ficar em p apenas alguns 
segundos antes de seus olhos se revirarem para trs e ele cair atravessado na cama. Tateei freneticamente em seu pescoo para achar a pulsao e a encontrei, lenta 
e forte, logo abaixo da cicatriz de trs pontas na base de sua garganta. Pura exausto. Aps um ms aprisionado e uma semana de intenso estresse fsico e mental, 
fome, ferimentos, doena e febre alta, at mesmo aquela compleio vigorosa havia finalmente chegado ao fim de suas foras.
        - O corao de um leo - eu disse, sacudindo a cabea - e a cabea de um boi. Pena que no tenha tambm o couro de um rinoceronte. - Toquei um vergo em 
seu ombro que se abrira e comeara a sangrar de novo.
        Ele abriu um olho.
        - O que  um rinoceronte?
        - Pensei que estivesse inconsciente!
        - Estava. Estou. Minha cabea est girando como um pio. Cobri-o com um cobertor.
        - O que voc precisa agora  de comida e descanso.
        - O que voc precisa agora - ele disse -  de roupas. - E fechando os olhos outra vez, adormeceu imediatamente.
        
        
        
40 - ABSOLVIO
        
        No me lembro de ter encontrado o caminho para a minha cama, mas devo t-lo feito porque acordei ali. Anselmo estava sentado junto  janela, lendo. Sentei-me 
na cama com um salto.
        - Jamie? - perguntei com a voz rouca.
        - Dormindo - ele disse, deixando o livro de lado. Olhou para a vela de marcar horas sobre a mesa. - Como voc. Esteve com os anjos nas ltimas trinta e seis 
horas, ma belle. - Encheu uma caneca de uma jarra de cermica e segurou-a junto aos meus lbios.
        Em outra poca, eu teria considerado o fato de beber vinho na cama antes de escovar os dentes como a ltima palavra em decadncia. Quando realizado num mosteiro, 
na companhia de um franciscano em seu hbito, o ato parecia menos degenerado. E o vinho realmente cortou a sensao musgosa em minha boca.
        Lancei os ps para fora da cama e fiquei sentada, oscilando. Anselmo segurou-me pelo brao e me ajudou a deitar outra vez. De repente, ele parecia ter quatro 
olhos e mais narizes e bocas do que o estritamente necessrio.
        - Estou um pouco tonta - eu disse, fechando os olhos. Abri um deles. Um pouco melhor. Pelo menos, havia apenas um Anselmo, ainda que um pouco embaado nos 
contornos.
        Anselmo inclinou-se sobre mim, preocupado.
        - Quer que eu v buscar o irmo Ambrose ou o irmo Polydore, madame? Tenho pouca habilidade em medicina, infelizmente.
        - No, no preciso de nada.  que me levantei rpido demais. - Tentei novamente, mais devagar. Desta vez, o quarto e tudo que havia nele permaneceram relativamente 
imveis. Notei inmeras manchas roxas e contuses antes submersas na minha tontura. Tentei limpar a garganta e senti que doa. Fiz uma careta de dor.
        - Realmente, ma chre, acho que talvez... - Anselmo estava parado junto  porta, pronto para sair em busca de ajuda. Parecia bastante assustado. Estendi 
a mo para o espelho sobre a mesa e depois mudei de idia. No estava realmente pronta para o que veria. Em vez disso, agarrei a jarra de vinho.
        Anselmo voltou devagar para dentro do quarto e ficou observando-me. Uma vez convencido de que afinal eu no ia desmaiar, sentou-se outra vez. Tomei o vinho 
em pequenos goles enquanto minha mente clareava, tentando livrar-me dos efeitos colaterais dos sonhos induzidos pelo pio. Ento, estvamos vivos, afinal. Ns dois.
        Meus sonhos foram caticos, repletos de violncia e sangue. Sonhei inmeras vezes que Jamie estava morto ou morrendo. E em algum lugar na neblina havia a 
imagem do garoto na neve, seu rosto redondo e surpreso sobrepondo-se  imagem do rosto ferido e espancado de Jamie. s vezes, a penugem pattica do bigode parecia 
surgir no rosto de Frank. Lembrei-me distintamente de ter matado todos os trs. Sentia como se tivesse passado a noite num massacre e todos os meus msculos doam 
com uma espcie de depresso aptica.
        Anselmo ainda estava ali, observando-me pacientemente, as mos nos joelhos.
        - H uma coisa que poderia fazer por mim, padre - eu disse.
        Ele levantou-se imediatamente, ansioso para ajudar, estendendo a mo para a jarra.
        - Claro. Mais vinho? Sorri debilmente.
        - Sim, porm mais tarde. No momento, quero que oua minha confisso.
        Ele ficou surpreso, mas rapidamente recomps o ar profissional como se fosse o hbito que vestia.
        - Mas,  claro, chre madame, se assim o deseja. Mas no seria melhor se eu fosse buscar o padre Gerard? Ele  famoso como confessor, ao passo que eu - encolheu 
os ombros do jeito gauls - tenho permisso para ouvir confisses,  claro, mas na verdade raramente o fao, sendo apenas um pobre estudioso.
        - Eu quero o senhor - eu disse com firmeza. - E quero fazer isso agora.
        Ele suspirou, resignado, e saiu para pegar sua estola. Arrumando-a em volta do pescoo de modo que a seda roxa ficasse reta e lustrosa sobre a frente preta 
do hbito, sentou-se no banco, abenoou-me rapidamente e recostou-se, aguardando.
        E eu lhe contei. Tudo. Quem eu era e como fora parar ali. Sobre Frank e sobre Jamie. E sobre o jovem soldado ingls dos drages com o rosto plido, cheio 
de espinhas, morrendo sobre a neve.
        Ele no mostrou nenhuma mudana de expresso enquanto eu falava, exceto que os olhos castanhos e arredondados ficaram ainda mais redondos. Quando terminei, 
ele piscou uma ou duas vezes, abriu a boca para falar, fechou-a outra vez e sacudiu a cabea como se quisesse desanuvi-la.
        - No - eu disse, pacientemente. Limpei minha garganta outra vez; grasnei como um sapo grande. - No esteve ouvindo coisas. E no as est imaginando, tampouco. 
Entende agora por que eu queria que ouvisse sob o sigilo da confisso?
        Assentiu, um pouco distrado.
        - Sim. Sim, claro. Se... mas, sim. Claro, no queria que eu contasse a ningum. Alm disso, como falou comigo sob o sigilo do sacramento, espera que eu acredite. 
Mas... - Coou a cabea, depois ergueu os olhos para mim. Um amplo sorriso espalhou-se lentamente pelo seu semblante.
        - Mas que maravilha! - exclamou em voz baixa. - Que extraordinrio! Maravilhoso!
        - "Maravilhoso" no  exatamente a palavra que eu teria escolhido -eu disse secamente -, mas "extraordinrio" certamente. - Tossi e peguei a caneca para 
tomar mais um gole de vinho.
        - Mas ...  um milagre - ele disse, como se falasse consigo mesmo.
        - Se prefere assim - eu disse, com um suspiro. - Mas o que eu quero saber  o que devo fazer. Sou culpada de assassinato? Ou de adultrio? No que haja muita 
coisa a ser feita em nenhum dos dois casos, mas eu gostaria de saber. E j que estou aqui, como devo agir? Posso... quero dizer, devo... usar o que sei para... mudar 
os acontecimentos? Nem sei se isso  possvel. Mas se for, tenho esse direito?
        Ele balanou-se no banco, para a frente e para trs, pensando. Lentamente, ergueu os dois dedos indicadores, uniu suas pontas e fitou-os por um longo tempo. 
Finalmente, sacudiu a cabea e sorriu para mim.
        - No sei, ma bonne amie. No , deve compreender, uma situao que uma pessoa esteja preparada para encontrar em um confessionrio. Vou ter que pensar e 
rezar. Sim, certamente rezar. Esta noite meditarei sobre sua situao quando fizer minha viglia junto ao Santssimo Sacramento. E talvez amanh eu possa aconselh-la.
        Indicou-me gentilmente que ajoelhasse.
        - Mas por enquanto, minha filha, eu a absolvo. Quaisquer que tenham sido seus pecados, tenha f que sero perdoados.
        Ergueu uma das mos para a bno, colocando a outra sobre minha cabea.
        - Te absolvo, in nomine Patri, et Filii... Erguendo-se, ajudou-me a levantar.
        - Obrigada, padre - eu disse. No sendo uma crente, usei a confisso apenas para for-lo a me levar a srio e fiquei um pouco surpresa ao sentir que o fardo 
em meu esprito tornara-se mais leve. Talvez fosse apenas o alvio de contar a verdade a algum.
        Ele fez um aceno com a mo, em despedida.
        - Eu a verei amanh, chre madame. Por enquanto, devia descansar mais, se puder.
        Dirigiu-se para a porta, dobrando sua estola cuidadosamente. Na soleira, parou um instante, voltando-se para sorrir para mim. Uma animao infantil iluminava 
seus olhos.
        - E talvez amanh... - disse - talvez possa... contar-me como foi essa experincia?
        Devolvi o sorriso.
        - Sim, padre. Eu lhe contarei.
        Depois que ele saiu, fui arrastando-me com dificuldade at o quarto de Jamie. Eu j vira inmeros cadveres em condies muito melhores, mas seu peito levantava-se 
e abaixava-se regularmente e o sinistro tom esver-deado havia desaparecido de sua pele.
        - Eu o acordo a um intervalo de algumas horas, apenas o suficiente para ele engolir algumas colheradas de sopa. - O irmo Roger estava junto a mim, falando 
em voz baixa. Seu olhar moveu-se do paciente para mim e horrorizou-se perceptivelmente com a minha aparncia. Eu deveria ter penteado o cabelo. - Ha, talvez a senhora 
aceitasse... um pouco?
        - No, obrigada. Acho... acho que vou dormir mais um pouco. -J no me sentia sobrecarregada de culpa e depresso, mas uma sensao de tranqilidade e sonolncia 
espalhava-se pelo meu corpo, deixando minhas pernas e braos pesados. Se eram os efeitos da confisso ou do vinho, descobri, para minha surpresa, que estava ansiando 
pela cama e pelo esquecimento.
        Inclinei-me para tocar em Jamie. Sua temperatura era tpida, mas sem nenhum resqucio de febre. Acariciei sua cabea suavemente, alisando os cabelos ruivos 
desgrenhados. O canto de sua boca moveu-se ligeiramente e voltou ao normal. Mas ele esboara um sorriso. Eu tinha certeza.
        O cu estava frio e mido, enchendo o horizonte com um vazio cinzento que se misturava  nvoa cinza das colinas e  neve enlameada da semana anterior, de 
tal modo que o mosteiro parecia envolto em uma bola de algodo sujo. Mesmo no interior do claustro, o silncio do inverno pesava sobre os habitantes. Os cnticos 
das Horas de Louvor na capela quase no eram ouvidos e as grossas paredes de pedra pareciam absorver todos os sons, abafando a agitao da atividade diria.
        Jamie dormiu durante quase dois dias, acordando apenas para tomar um pouco de sopa ou de vinho. Uma vez acordado, comeou a se recuperar  maneira normal 
de um homem jovem e saudvel, repentinamente privado da fora e da independncia a que est acostumado. Em outras palavras, ele aproveitou os mimos e excessos de 
ateno por aproximadamente vinte e quatro horas e depois passou a ficar alternadamente nervoso, irrequieto, impaciente, irritado, irascvel, rebelde e extremamente 
mal-humorado.
        Os cortes nos ombros doam. As cicatrizes nas pernas coavam. Estava cansado de deitar de bruos. O quarto estava quente demais. Sua mo doa. A fumaa do 
braseiro fazia seus olhos arderem tanto que no conseguia ler. No agentava mais sopas, mingaus e leite. Queria carne.
        Reconheci os sintomas da recuperao da sade e fiquei contente com eles, mas s estava preparada para aturar uma frao de tudo aquilo. Abri a janela, troquei 
os lenis, apliquei pomada de cravo-da-ndia em suas costas e esfreguei suas pernas com seiva de babosa. Depois, chamei um irmo e pedi mais sopa.
        - No quero mais este caldo ralo! Quero comida! - empurrou a bandeja com irritao, fazendo a sopa derramar-se no guardanapo junto  tigela.
        Cruzei os braos e o fitei. Olhos azuis arrogantes encararam-me sem pestanejar. Estava magro como um palito, os contornos do maxilar e das mas do rosto 
sobressaindo-se na pele. Embora estivesse se recuperando bem, os nervos sensveis de seu estmago levariam um pouco mais para ficarem curados. s vezes, ainda no 
conseguia manter no estmago a sopa e o leite.
        - Vai ter comida quando eu disser que pode - informei-o - e no antes.
        - Vou comer agora! Acha que pode me dizer o que vou comer?
        - Sim, pode apostar que sim! Sou a mdica aqui, caso j tenha esquecido.
        Ele jogou as pernas para fora da cama, obviamente pretendendo sair andando. Coloquei a mo em seu peito e o empurrei de volta.
        - Seu dever  ficar nessa cama e fazer o que mandam, ao menos uma vez na vida - disse rispidamente. - No est em condies de sair da cama e no est pronto 
para alimentos slidos ainda. O irmo Roger disse que vomitou outra vez hoje de manh.
        - O irmo Roger tem que cuidar da vida dele e voc tambm - falou entre os dentes, esforando-se para ficar em p outra vez. Estendeu o brao e agarrou a 
borda da mesa. Com considervel esforo, ps-se de p e ficou ali parado, cambaleando.
        - Volte para a cama! Voc vai cair! - Estava assustadoramente plido e mesmo o pequeno esforo de ficar em p fez com que comeasse a suar frio.
        - No, no vou - disse. - E se cair,  problema meu. Dessa vez, fiquei realmente furiosa.
        - Ah,  mesmo? E quem voc acha que salvou sua maldita vida para voc? Fez tudo sozinho, hein? - Agarrei-o pelo brao para faz-lo voltar para a cama, mas 
ele desvencilhou-se com um safano.
        - Eu no lhe pedi isso, pedi? Disse que me deixasse, no foi? E, alis, no sei por que se deu ao trabalho de salvar minha vida, se  para me matar de fome, 
a menos que goste de ficar olhando!
        Aquilo j era demais.
        - Seu ingrato desgraado!
        - Vbora!
        Empertiguei-me o mais que pude e apontei ameaadoramente para a cama. Com toda a autoridade adquirida em anos de prtica de enfermagem, eu disse:
        - Volte para a cama agora mesmo, seu teimoso, cabeudo, maldito...
        - Escocs - ele concluiu para mim, sucintamente. Deu um passo em direo  porta e teria cado se no tivesse se apoiado num banco. Desmoronou pesadamente 
sobre ele e ficou sentado, oscilando, os olhos um pouco desfocados de tontura. Cerrei os punhos e fitei-o com raiva.
        - Tudo bem - disse. - Parabns! Vou pedir po e carne para voc e, depois que vomitar no cho, pode ficar de quatro e limpar o cho voc mesmo! Eu no vou 
limpar e se o irmo Roger fizer isso, eu o esfolo vivo!
        Sa intempestivamente para o corredor e bati a porta atrs de mim, no exato instante em que a bacia de porcelana espatifou-se no lado de dentro. Virei-me 
e me deparei com uma platia curiosa parada no corredor, sem dvida atrada pela algazarra. O irmo Roger e Murtagh estavam lado a lado, fitando meu rosto afogueado 
e peito arquejante. Roger parecia desconcertado, mas um leve sorriso espalhou-se pelo semblante enrugado de Murtagh quando ouviu a srie de obscenidades em galico 
proferidas do outro lado da porta.
        - Ele j est melhor - disse com satisfao. Recostei-me na parede do corredor e senti um sorriso espalhar-se lentamente pelo meu prprio rosto.
        - Bem, sim - eu disse. - Ele est.
        No caminho de volta ao prdio principal depois de uma manh inteira passada no canteiro de ervas medicinais, encontrei-me com Anselmo, vindo do claustro 
ao lado da biblioteca. Seu rosto se iluminou ao me ver e apressou-se ao meu encontro no ptio. Caminhamos juntos pelas instalaes do mosteiro, conversando.
        - O seu problema  muito interessante, sem dvida - ele disse, quebrando um galho fino de um arbusto junto  parede. Examinou os botes ainda bem fechados 
com ar crtico, depois atirou o galho fora e ergueu os olhos para o cu, onde um sol fraco procurava infiltrar-se pela leve camada de nuvens.
        - Est mais quente, mas ainda falta muito para a primavera - observou. Ainda assim, as carpas devem estar alegres hoje. Vamos descer at os lagos de peixes.
        Longe de serem as delicadas estruturas ornamentais que eu imaginara, os lagos de peixes eram uma espcie de reservatrios utilitrios, forrados de pedra, 
convenientemente localizados junto s cozinhas. Recheados de carpas, forneciam o alimento necessrio para as sextas-feiras e os dias de jejum, quando as condies 
do tempo eram ruins demais para a pesca no mar de hadoques, arenques e linguados, mais comuns  mesa.
        Confirmando as palavras de Anselmo, as carpas estavam alegres e cheias de vida, os corpos gordos e afunilados deslizando uns pelos outros, as escamas brancas 
refletindo as nuvens acima, o vigor de seus movimentos ocasionalmente agitando pequenas ondas que espirravam nas bordas de sua priso de pedras. Quando nossas sombras 
recaram sobre a gua, as carpas viraram-se para ns como agulhas de bssola atradas para o norte.
        - Esperam ser alimentadas quando vem pessoas - Anselmo explicou. - Seria uma vergonha decepcion-las. Um momento, chre madame.
        Lanou-se em direo s cozinhas, retornando logo depois com dois pes dormidos. Ficamos parados na beira do lago, jogando migalhas de po para as bocas 
insaciavelmente famintas abaixo.
        - Sabe, h dois aspectos curiosos em sua situao - ele disse, absorto em cortar migalhas do po. Olhou-me de relance, um sorriso sbito iluminando seu rosto. 
Sacudiu a cabea, admirado. - Eu ainda mal posso acreditar, sabe. Que maravilha!  verdade, Deus foi muito bom em me mostrar tudo isso.
        - Bem, isso  bom - eu disse, um pouco secamente. - No sei se Ele foi to bom assim comigo.
        -  mesmo? Eu acho que foi. - Anselmo agachou-se, esfarelando po entre os dedos. -  bem verdade que a situao no lhe causou poucas inconvenincias pessoais...
        - Essa  uma das maneiras de colocar a questo - murmurei.
        - Mas tambm pode ser encarada como um sinal da graa de Deus - continuou, indiferente  minha interrupo. Os brilhantes olhos castanhos olharam-me especulativamente.
        - Eu rezei para que Deus me iluminasse, de joelhos diante do Santssimo Sacramento e, enquanto estava ali no silncio da capela, eu parecia v-la como uma 
sobrevivente de um naufrgio. E me parece que este  um bom paralelo para a sua situao atual, no acha? Imagine uma alma de repente atirada numa terra estranha, 
sem amigos ou familiares, sem nenhum recurso, a no ser os que a nova terra possam oferecer. Tal acontecimento  um desastre, sem dvida, e no entanto pode significar 
a abertura para grandes oportunidades e bnos. E se a nova terra for rica? Novos amigos a conquistar e uma nova vida a iniciar.
        - Sim, mas... - comecei a protestar.
        - Portanto - continuou com autoridade, erguendo um dedo para que eu me calasse -, se voc foi privada de sua vida anterior, talvez Deus tenha achado melhor 
abeno-la com outra, que pode ser mais rica e mais completa.
        - Ah,  mais completa, sem dvida - concordei. - Mas...
        - Agora, do ponto de vista da lei cannica - disse, franzindo a testa -, no h nenhum problema em relao a seus casamentos. Ambos foram vlidos, consagrados 
pela Igreja. E estritamente falando, seu casamento com o jovem cavalheiro que est l dentro antecedeu seu casamento com monsieur Randall.
        - Sim, "estritamente falando" - concordei, pretendendo desta vez terminar ao menos uma frase. - Mas no na minha poca. No creio que a lei cannica tenha 
sido criada com tais contingncias em mente.
        Anselmo riu, a barba pontuda agitando-se na brisa leve.
        -  bem verdade, ma chre,  bem verdade. Tudo que quis dizer foi que, do ponto de vista estritamente legal, voc no cometeu nem pecado nem crime naquilo 
que fez com respeito a esses dois homens. Esses eram os dois aspectos de sua situao que mencionei antes: o que voc fez e o que voc far. - Tomou minha mo nas 
suas, puxando-me para que me sentasse ao seu lado, de modo que nossos olhos estivessem no mesmo nvel.
        - Foi isso que me perguntou quando ouvi sua confisso, no foi? O que eu fiz? E o que devo fazer?
        - Sim, foi. E est me dizendo que no fiz nada de errado? Mas eu... Ele era, pensei, quase to propenso a interromper a fala dos outros quanto Dougal MacKenzie.
        - No, no fez - disse com firmeza. -  possvel agir em absoluto acordo com as leis de Deus e com a prpria conscincia, e ainda assim deparar-se com dificuldades 
e tragdia.  a dolorosa verdade que ns ainda no sabemos por que le bon Dieu permite que o mal exista, mas temos a Sua palavra de que isso  verdade. "Eu criei 
o bem", Ele diz na Bblia, "e Eu criei o mal". Conseqentemente, at mesmo pessoas boas, eu acho, especialmente as boas - acrescentou pensativamente -, podem deparar-se 
com grande confuso e dificuldades em suas vidas. Por exemplo, veja o rapaz que voc teve que matar. No - disse, erguendo a mo para que eu no o interrompesse 
-, no se engane. Voc foi obrigada a mat-lo, por exigncia de sua situao. At a Santa Igreja, que prega a santidade da vida, reconhece a necessidade de uma pessoa 
defender a si e  sua famlia. E tendo visto a condio em que seu marido estava - lanou um olhar na direo da ala dos hspedes -, no tenho dvidas de que foi 
obrigada a tomar o caminho da violncia. Assim sendo, no tem nada com que se reprovar. Certamente, sente pena e lamenta o ato extremo, porque , madame, uma pessoa 
de grande compaixo e sentimentos. - Bateu delicadamente na minha mo, pousada sobre meus joelhos.
        - s vezes, nossas melhores aes resultam em acontecimentos lamentveis. No entanto, voc no poderia ter agido de outra forma. No sabemos qual era o plano 
de Deus para o rapaz, talvez fosse Sua vontade que o rapaz se juntasse a Ele no cu naquela ocasio. Mas voc no  Deus e h limites para o que pode esperar de 
si mesma.
        Estremeci ligeiramente quando um vento frio nos envolveu e me enrolei mais no meu xale. Anselmo viu e fez um gesto indicando o lago.
        - A gua est morna, madame. Talvez queira mergulhar os ps?
        - Morna? - Fiquei boquiaberta, olhando incrdula para a gua. Eu no havia notado, mas no havia camadas de gelo quebradas nos cantos dos reservatrios, 
como havia nas fontes de gua benta do lado de fora da igreja. Alm disso, pequenas plantas verdes flutuavam na gua, brotando das fendas entre as rochas que forravam 
o lago.
        Como ilustrao, Anselmo retirou suas prprias sandlias de couro. Apesar do rosto e da voz cultos, possua mos e ps robustos, vigorosos, de um campons 
da Normandia. Erguendo a saia de seu hbito at os joelhos, enfiou os ps no lago. As carpas bateram em retirada, voltando quase em seguida para investigar com curiosidade 
aquela nova intruso.
        - No mordem, no ? - perguntei, vendo a mirade de bocas vorazes com desconfiana.
        - No, carne, no - assegurou-me. - No tm dentes para isso. Tirei minhas prprias sandlias e cuidadosamente enfiei os ps na gua.
        Para minha surpresa, estava agradavelmente morna. No quente, mas um delicioso contraste com o ar mido e frio.
        - Ah, que bom! - Retorci os dedos com satisfao, causando grande consternao entre as carpas.
        - H vrias fontes de gua mineral perto do mosteiro - Anselmo explicou. - As guas saem quentes e borbulhantes da terra, e tm grandes poderes curativos. 
- Apontou para a outra extremidade do lago, onde se podia ver uma pequena abertura nas pedras, parcialmente obscurecida pelas plantas aquticas em movimento.
        - Uma pequena quantidade da gua mineral quente  canalizada para cda fonte mais prxima.  isso que permite ao cozinheiro manter peixes vivos para a mesa 
em todas as estaes; normalmente, o inverno seria frio demais para eles.
        Patinhamos nossos ps na gua por algum tempo num agradvel silncio, os corpos pesados dos peixes passando de raspo, s vezes batendo em nossas pernas 
com um impacto surpreendentemente forte. O sol saiu outra vez, banhando-nos com um calor fraco, mas perceptvel. Anselmo fechou os olhos, deixando que a luz lavasse 
seu rosto. Falou novamente, sem abri-los.
        - Seu primeiro marido... O nome dele era Frank, no? Ele tambm, eu acho, deve ser recomendado a Deus como uma das coisas lamentveis sobre a qual voc nada 
pode fazer.
        - Mas eu podia ter feito alguma coisa - argumentei. - Eu poderia ter voltado... talvez.
        Ele abriu um dos olhos e olhou-me com ceticismo.
        - Sim, "talvez" - concordou. - E talvez no. No deve se censurar por hesitar em arriscar sua vida.
        - No foi o risco - eu disse, agitando meus dedos para uma enorme carpa pintada de branco e preto. - Ou ao menos no inteiramente. Foi... bem, em parte foi 
medo, mas principalmente foi porque eu... eu no pude abandonar Jamie. - Encolhi os ombros, desamparada. - Eu... simplesmente no pude.
        Anselmo sorriu, arregalando os olhos.
        - Um bom casamento  uma das ddivas mais preciosas de Deus -observou. - Se teve o bom senso de reconhecer e aceitar a ddiva, no pode se condenar por isso. 
E pense bem... - Inclinou a cabea para o lado, como um pardal marrom.
        - Est longe de sua poca h quase um ano. Seu primeiro marido j deve ter comeado a aceitar sua perda. Por mais que a tenha amado, a perda  comum a todos 
os seres humanos e temos meios de super-la para nosso prprio bem. Talvez ele tenha comeado uma nova vida. Seria bom para voc deixar o homem que precisa tanto 
de voc e a quem voc ama, a quem est ligada pelos laos do sagrado matrimnio, para retornar e perturbar essa nova vida? E, em particular, se voltasse por um sentimento 
de dever, mas sentindo que seu corao ficara em outra parte... no. - Sacudiu a cabea decididamente.
        - Nenhum homem pode servir a dois patres, assim como uma mulher tambm no. Agora, se aquele fosse seu nico casamento vlido e este - sacudiu a cabea 
novamente em direo  ala dos hspedes - um simples arranjo irregular, ento seu dever poderia estar longe daqui. Mas vocs foram unidos por Deus e acho que pode 
honrar seu compromisso com o chevalier.
        - Agora, quanto ao outro aspecto: o que deve fazer. Isso requer alguma discusso. - Tirou os ps da gua e secou-os no seu hbito.
        - Vamos transferir esta conversa para a cozinha do mosteiro, onde talvez o irmo Eulogius possa ser persuadido a nos fornecer uma bebida quente.
        Achando um pedacinho de po no cho, atirei-o s carpas e parei para calar as minhas sandlias.
        - Nem sei lhe dizer o alvio que representa para mim poder conversar com algum sobre isso - eu disse. - E ainda no consigo me convencer do fato de que 
realmente acredita em mim.
        Ele encolheu os ombros, oferecendo-me educadamente o brao para eu me segurar, enquanto passava as tiras das minhas sandlias por cima do peito do p.
        - Ma chre, sirvo a um homem que multiplicou os pes e peixes - sorriu, balanando a cabea para o lago, onde os redemoinhos causados pelos movimentos das 
carpas se alimentando ainda se diluam -, que curou o doente e ergueu o morto. Devo ficar espantado que o mestre da eternidade tenha trazido uma jovem mulher pelas 
pedras da terra para cumprir Sua vontade?
        Bem, refleti, era melhor do que ser denunciada como a meretriz da Babilnia.
        As cozinhas do mosteiro eram quentes e assemelhavam-se a cavernas, o teto abobadado enegrecido por sculos de fumaa engordurada. O irmo Eulogius, at os 
cotovelos num tonel de massa de po, balanou a cabea em forma de cumprimento para Anselmo e chamou, em francs, um dos irmos laicos para vir nos servir. Encontramos 
um lugar longe da azfama e nos sentamos com duas canecas de cerveja e uma travessa com uma espcie de bolinhos quentes. Empurrei a travessa para Anselmo, preocupada 
demais para me interessar por comida.
        - Deixe-me colocar a questo da seguinte forma - eu disse, escolhendo cuidadosamente as palavras. - Se eu soubesse que algum mal seria causado a um grupo 
de pessoas, deveria me sentir obrigada a tentar evitar isso?
        Anselmo esfregou o nariz na manga do hbito, refletindo; o calor da cozinha estava comeando a fazer seu nariz escorrer.
        - Em princpio, sim - concordou. - Mas iria depender tambm de inmeros outros fatores: qual o risco para si mesma e quais so suas outras obrigaes? E 
quais as chances de ser bem-sucedida?
        - No fao a menor idia. De nada disso. Exceto obrigao,  claro. Quero dizer, h Jamie. Mas ele pertence ao grupo que dever sofrer reveses.
        Ele partiu um pedao de um bolinho e passou-o para mim, fumegan-do. Eu o ignorei, estudando a superfcie da minha cerveja. - Os dois homens que matei - eu 
disse - deveriam, cada um deles, ter tido filhos, se eu no os tivesse matado. Poderiam ter feito... - fiz um gesto de impotncia com a caneca -, quem sabe o que 
poderiam ter feito? Eu posso ter afetado o futuro... no, eu realmente afetei o futuro. E no sei de que maneira e isso  o que tanto me assusta.
        - Hum. - Anselmo grunhiu pensativamente e fez sinal para um irmo laico que passava, o qual se apressou a trazer mais bolinhos e cerveja. Ele encheu novamente 
as duas canecas antes de prosseguir.
        - Se voc tirou a vida, por outro lado tambm a preservou. Quantos dos doentes de quem tratou teriam morrido sem a sua interveno? Eles tambm afetaro 
o futuro. E se uma das pessoas a quem salvou cometer um ato de extrema crueldade? Seria culpa sua? Deveria, por causa disso, deixar essa pessoa morrer? Claro que 
no. - Bateu com a caneca de cerveja na mesa para dar mais nfase.
        - Voc diz que tem medo de realizar uma ao aqui por medo de afetar o futuro. Isso  ilgico. Todas as aes afetam o futuro. Se tivesse permanecido em 
seu prprio lugar e poca, suas aes, ainda assim, afetariam o que viesse a acontecer, exatamente como agora. Ainda tem as mesmas responsabilidades que teria l, 
que qualquer ser humano tem em qualquer poca. A nica diferena  que pode estar em condies de ver mais exatamente as conseqncias dos seus atos. E, novamente, 
talvez no. -Sacudiu a cabea, olhando diretamente para mim por cima da mesa.
        - Ns desconhecemos os desgnios do Senhor e sem dvida por um bom motivo. Tem razo, ma chre; as leis da Igreja no foram formuladas com situaes como 
a sua em mente, e portanto voc dispe de pouca orientao, alm de sua prpria conscincia e da mo divina. No posso lhe dizer o que deve ou o que no deve fazer.
        - Voc tem livre-arbtrio, assim como todas as outras pessoas neste mundo. E a histria, acredito,  a soma de todas essas aes. Alguns indivduos so escolhidos 
por Deus para afetar os destinos de muitas pessoas. Talvez voc seja uma delas. Talvez no. No sei por que voc est aqui. Voc no sabe. Provavelmente nenhum de 
ns jamais saber. - Revirou os olhos, de maneira cmica. - s vezes, nem eu mesmo sei por que estou aqui! - Eu ri e ele devolveu um sorriso. Inclinou-se para mim 
por cima das tbuas rsticas da mesa, fitando-me intensamente.
        - O seu conhecimento do futuro  um instrumento que lhe foi concedido, como um nufrago de posse de uma faca ou de uma linha de pescar. No  imoral us-lo, 
desde que o faa de acordo com os ditames da lei de Deus, da melhor forma possvel.
        Parou, respirou fundo, e soltou o ar num explosivo suspiro que agitou o bigode sedoso. Sorriu.
        - E isso, ma chre madame,  tudo que posso lhe dizer. No mais do que posso dizer a qualquer alma transtornada que vem a mim em busca de conselho: confie 
em Deus e reze para que Ele a oriente.
        Empurrou os bolinhos quentes em minha direo.
        - Mas o que quer que resolva fazer, vai precisar de foras para isso. Portanto, aceite um ltimo conselho: quando em dvida, coma.
        Quando entrei no quarto de Jamie  noite, ele dormia, a cabea sobre os antebraos. A tigela de sopa vazia cuidadosamente colocada na bandeja, o prato de 
po e carne intocado ao lado. Olhei do rosto sonhador e inocente para o prato e novamente para ele. Toquei o po. Meu dedo deixou uma depresso na superfcie mida. 
Fresco.
        Deixei-o dormindo e sa  procura do irmo Roger, que encontrei na despensa.
        - Ele comeu o po e a carne? - perguntei, sem preliminares.
        O irmo Roger sorriu em sua barba fofa.
        - Sim.
        - Manteve no estmago?
        - No.
        Eu o fitei com os olhos apertados.
        - Voc no limpou o quarto depois, espero.
        Ele divertia-se, as bochechas rechonchudas e rosadas acima da barba.
        - E eu ousaria? No, ele tomou a precauo de deixar a bacia  mo.
        - Maldito escocs astuto - eu disse, rindo mesmo contra a minha vontade. Voltei ao seu quarto e o beijei de leve na testa. Ele se mexeu, mas no acordou. 
Seguindo o conselho do padre Anselmo, levei o prato de carne e po fresco para o meu prprio quarto para o meu jantar.
        Pensando em dar a Jamie tempo para se recuperar, tanto do mau humor quando da indigesto, permaneci em meu prprio quarto a maior parte do dia seguinte, 
lendo um livro sobre ervas que o irmo Ambrose me emprestara. Depois do almoo, fui verificar como estava meu recalcitrante paciente. Ao invs de Jamie, entretanto, 
encontrei Murtagh, sentado em um banco inclinado contra a parede e com uma expresso divertida no rosto.
        - Onde ele est? - perguntei, olhando  minha volta.
        Murtagh sacudiu o polegar indicando a janela. Era um dia frio e cinzento e as lamparinas estavam acesas. A janela estava descoberta e a corrente de ar frio 
fazia a pequena chama bruxulear em seu recipiente.
        - Ele saiu, - perguntei, incrdula. - Para onde? Por qu? E o que est vestindo? -Jamie passara a maior parte do tempo despido nos ltimos dias, j que o 
aposento estava aquecido e qualquer presso sobre seus ferimentos era dolorosa. Usava a tnica externa de um monge quando deixava o quarto em curtas incurses necessrias, 
com o apoio do padre Roger, mas a tnica ainda estava ali, cuidadosamente dobrada aos ps da cama.
        Murtagh balanou seu banco para a frente e olhou-me com ar grave.
        - Quantas perguntas so essas? Quatro? - Ergueu uma das mos, o dedo indicador apontando para cima.
        - Uma: sim, ele saiu. - O dedo mdio se levantou. - Duas: para onde? Quisera saber. - O dedo anular juntou-se aos outros dois. - Trs: por qu? Ele disse 
que estava cansado de ficar preso aqui dentro. - O dedo mnimo mexeu-se brevemente. - Quatro: tambm quisera saber. No estava usando nada da ltima vez que eu o 
vi.
        Murtagh dobrou os quatro dedos e esticou o polegar.
        - Voc no me perguntou, mas ele ja saiu h mais de uma hora. Fiquei furiosa, sem saber o que deveria fazer. J que o criminoso no estava presente, voltei 
minha raiva contra Murtagh.
        - No sabe que est quase congelando l fora e j comea a nevar? Por que no o impediu? E como ele no est vestindo nada?
        O homenzinho no se abalou.
        - Sim, eu sei. Acho que ele sabe tambm, j que no  cego. Quanto a impedi-lo, eu tentei. - Indicou a tnica sobre a cama com um sinal da cabea.
        - Quando disse que ia sair, eu falei que ele no estava em condies de fazer isso e que voc iria cortar minha cabea, se eu o deixasse ir. Peguei sua tnica, 
barrei a porta e lhe disse que ele no ia sair, a menos que passasse por cima de mim.
        Murtagh parou, depois disse aleatoriamente:
        - Ellen MacKenzie tinha o sorriso mais doce que j vi; aquecia um homem at a medula s de ver.
        - Assim, deixou o filho cabeudo dela sair e morrer congelado - eu disse com impacincia. - O que tem o sorriso da me dele a ver com tudo isso?
        Murtagh esfregou o nariz, pensativamente.
        - Bem, quando eu disse que no o deixaria passar, Jamie apenas olhou para mim por um instante. Depois, me deu um sorriso igual ao de sua me e saiu pela 
janela completamente pelado. Quando cheguei  janela, j havia desaparecido.
        Revirei os olhos para cima.
        - Imagino que devia lhe dizer para onde ele foi - Murtagh continuou - para que no ficasse preocupada com ele.
        - Para que no ficasse preocupada com ele! - murmurei entre dentes enquanto caminhava a passos largos para a estrebaria. -  melhor que ele fique preocupado 
quando eu o pegar!
        Havia apenas a estrada principal saindo da costa para o interior. Cavalguei ao longo dela a uma boa velocidade, perscrutando os campos que atravessava. Aquela 
parte da Frana era uma rica rea cultivada e felizmente a maior parte da floresta fora abatida; lobos e ursos no deviam representar um grande perigo, j que deviam 
ter se refugiado mais para o interior.
        Acabei encontrando-o a quase dois quilmetros alm dos portes do mosteiro, sentado em um dos antigos marcos romanos de distncia que pontilhavam as estradas.
        Estava descalo, mas vestia um casaco curto e calas finas, de propriedade de um dos cavalarios, a julgar pelas manchas nos tecidos.
        Freei o cavalo e fitei-o por um instante, apoiando-me no aro da sela.
        - Seu nariz est azul - observei em tom casual. Olhei para baixo. - E seus ps tambm.
        Ele riu e limpou o nariz nas costas da mo.
        - Minhas bolas tambm. Quer aquec-las para mim? - Com ou sem frio, ele obviamente estava de bom humor. Desci do cavalo e parei diante dele, sacudindo a 
cabea.
        - No adianta nada, no ? - perguntei.
        - O qu? - Esfregou a mo nas calas rasgadas.
        - Ficar zangada com voc. No se importa nem um pouco se pegar pneumonia ou for devorado por ursos ou me matar de preocupao, no ?
        - Bem, no estou muito preocupado com ursos. Eles dormem no inverno, sabe.
        Perdi o controle e ergui minha mo para ele, pretendendo dar um tapa em sua orelha. Ele agarrou meu pulso e segurou-o sem dificuldade, rindo de mim. Aps 
um instante de luta intil, desisti e ri tambm.
        - Vai voltar agora? - perguntei. - Ou tem mais alguma coisa a provar? Indicou a estrada com o queixo.
        - Leve o cavalo de volta at aquele carvalho grande e espere por mim l. Vou andar at l. Sozinho.
        Mordi a lngua para reprimir os diversos comentrios que efervesciam  superfcie e montei. Junto ao carvalho, apeei e olhei para a estrada. Aps um instante, 
entretanto, vi que no suportava observar seu difcil avano. Quando caiu da primeira vez, segurei as rdeas com fora em minhas mos enluvadas, depois virei as 
costas resolutamente e esperei.
        Mal conseguimos retornar  ala dos hspedes, arrastando-nos pelo corredor, seu brao por cima do meu ombro para se apoiar. Avistei o irmo Roger, espreitando 
ansiosamente o corredor, e o mandei ir correndo buscar uma panela de gua quente, enquanto eu conduzia meu desajeitado fardo para o quarto e o largava na cama. Ele 
gemeu com o impacto, mas permaneceu imvel, os olhos cerrados, enquanto eu retirava as roupas imundas e esfarrapadas.
        - Muito bem; entre debaixo das cobertas.
        Ele rolou obedientemente para baixo dos cobertores que eu segurava para ele. Enfiei a panela de gua quente apressadamente entre as cobertas ao p da cama 
e empurrei-a de um lado para o outro. Quando a retirei, ele esticou as longas pernas e relaxou com um suspiro de felicidade quando seus ps alcanaram o bolso quente.
        Andei silenciosamente pelo quarto, pegando as roupas sujas, arrumando os pequenos objetos sobre a mesa, colocando mais carvo no braseiro, acrescentando 
uma pitada de nula para adocicar a fumaa. Achei que ele adormecera e surpreendi-me quando ouvi sua voz atrs de mim.
        - Claire?
        - Sim?
        - Eu a amo.
        - Ah. - Fiquei ligeiramente surpreendida, mas inegavelmente satisfeita. - Eu tambm o amo.
        Ele suspirou e abriu parcialmente os olhos.
        - Randall - ele disse. - Quase no final. Era isso que ele queria. - Fiquei ainda mais surpresa com aquilo e retruquei cautelosamente:
        - Ah, ?
        - Sim. - Seus olhos estavam fixos na janela aberta, onde as nuvens de neve preenchiam o espao com um cinza uniforme e escuro.
        - Eu estava deitado no cho e ele estava deitado ao meu lado. A essa altura, ele tambm estava nu e ns dois estvamos sujos de sangue... e de outras coisas. 
Lembro-me de tentar erguer a cabea e sentir meu rosto grudado na pedra do cho com sangue seco. - Franziu a testa, um olhar distante enquanto evocava a imagem.
        - Eu estava quase inconsciente a essa altura; a ponto de quase nem sentir mais dor. Estava apenas terrivelmente cansado e tudo parecia muito distante e no 
muito real.
        - Ainda bem - eu disse, com alguma aspereza, e ele deu um breve sorriso.
        - Sim, ainda bem. Eu estava quase sem sentidos, meio inconsciente, eu acho, de modo que no sei por quanto tempo ficamos deitados ali, mas acordei com ele 
me abraando e aconchegando-se contra mim. - Hesitou, como se a parte seguinte fosse difcil de expressar em palavras.
        - Eu no lutara contra ele at ento. Mas estava to cansado e achei que no conseguiria suportar mais nada... De qualquer modo, comecei a me esquivar, a 
me arrastar para longe dele, no lutando realmente, mas tentando me afastar. Seus braos envolviam meu pescoo e ele me puxava, enterrando o rosto em meu ombro. 
Pude sentir que ele chorava. Por alguns instantes, no consegui entender o que ele dizia, mas depois entendi. Ele dizia: "Eu o amo, eu o amo", sem cessar, com suas 
lgrimas e saliva escorrendo pelo meu peito. - Jamie estremeceu ligeiramente, com o frio e a lembrana. Soltou um longo suspiro, perturbando a nuvem de fumaa aromtica 
que volteava junto ao teto.
        - No posso imaginar por que fiz aquilo. Mas eu passei os braos em torno dele e apenas ficamos ali deitados por uns instantes. Finalmente, ele parou de 
chorar, me beijou e me acariciou. Depois, sussurrou: "Diga que me ama". - Parou no meio da narrao, sorrindo debilmente.
        - Eu me recusei. No sei por qu. Mas, por outro lado, eu teria lambido suas botas e o chamado de rei da Esccia, se ele quisesse. Mas isso eu no podia 
dizer. Nem me lembro de ter pensado no assunto; eu simplesmente no diria. - Suspirou e a mo s contorceu-se, agarrando a coberta.
        - Ele me usou outra vez... violentamente. E repetia sem parar: "Diga que me ama, Alex. Diga que me ama."
        - Ele o chamou de Alex? - interrompi, sem conseguir me conter.
        - Sim. Lembro-me de ter ficado intrigado com o fato de ele saber meu segundo nome. No me ocorreu imaginar por que o usara, ainda que sabendo. - Deu de ombros.
        - De qualquer modo, no me mexi nem disse uma palavra e, quando ele terminou, ps-se de p, como se tivesse enlouquecido, e comeou a me bater com alguma 
coisa, no sei o qu, xingando e gritando comigo, dizendo:"Voc sabe que me ama! Diga que me ama! Eu sei que  verdade!" Ergui os braos acima da cabea para proteger-me 
e depois de uns instantes devo ter desmaiado outra vez, porque a dor em meus ombros foi a ltima coisa de que me lembrava, exceto por uma espcie de pesadelo com 
gado urrando. Ento, acordei por alguns instantes, oscilando de barriga para baixo sobre a sela de um cavalo, e perdi a conscincia outra vez, at despertar junto 
 lareira em Eldridge, com voc me olhando. - Cerrou os olhos novamente. Seu tom de voz era sonhador, quase aptico.
        - Eu acho... que se eu tivesse dito a ele o que ele queria... ele teria me matado.
        Algumas pessoas tm pesadelos povoados por monstros. Eu sonhava com rvores genealgicas, ramos finos e negros, carregando pencas de datas em cada haste. 
As linhas semelhantes a cobras, com morte entre as mandbulas. Ouvi a voz de Frank mais uma vez, dizendo: Ele se tornou um soldado, uma boa escolha para um segundo 
filho. Houve um terceiro irmo que se tornou padre, mas no sei muita coisa a seu respeito... Eu tambm no sabia muito a seu respeito. Apenas seu nome. L estavam 
os trs filhos registrados na rvore, os filhos de Joseph e Mary Randall. Eu os vira inmeras vezes; o mais velho, William; o segundo, Jonathan; e o terceiro, Alexander.
        Jamie voltou a falar, arrancando-me de meus pensamentos.
        - Sassenach?
        - Sim?
        - Lembra-se da fortaleza de que lhe falei, a que tenho dentro de mim?
        - Lembro.
        Sorriu sem abrir os olhos e estendeu a mo para mim.
        - Bem, ao menos tenho uma estrutura na qual me apoiar. E um teto para me guardar da chuva.
        Fui para a cama cansada, mas em paz, e pensando. Jamie se recuperaria. Quando isso estava em dvida, eu no pensava alm da prxima hora, da prxima refeio, 
da prxima administrao de remdio. Mas agora eu precisava olhar mais para a frente.
        O mosteiro era um santurio, mas apenas temporrio. No podamos ficar ali indefinidamente, por mais hospitaleiros que fossem os monges. A Esccia e a Inglaterra 
eram perigosas demais; a menos que lorde Lovat pudesse ajudar - uma contingncia remota, nas circunstncias. Nosso futuro devia estar naquele lado do canal. Sabendo 
o que eu sabia agora sobre o enjo de Jamie no mar, compreendi sua relutncia em considerar uma imigrao para a Amrica - trs meses de nusea era uma perspectiva 
assustadora para qualquer um. Ento, o que restava?
        A Frana era o mais provvel. Ns dois falvamos francs fluentemente. Enquanto Jamie podia sair-se igualmente bem em espanhol, alemo ou italiano, eu no 
era to abenoada em termos de idiomas. Alm disso, a famlia Fraser tinha muitas conexes na Frana; talvez pudssemos encontrar um lugar na propriedade de um parente 
ou amigo. A idia parecia bastante atraente.
        Mas restava, como sempre, a questo do tempo. Era comeo de 1744
        - o Ano Novo fora h apenas duas semanas. E em 1745, o prncipe Carlos Eduardo partiria da Frana para a Esccia, o Jovem Pretendente iria reivindicar o 
trono de seu pai. Com ele, viria o desastre; guerra e massacres, a eliminao dos cls das Higlands, o extermnio de tudo que Jamie - e eu - amvamos.
        E entre agora e esse momento, restava um ano. Um ano, quando tudo deveria acontecer. Quando os passos certos deveriam ser dados para evitar o desastre. Como? 
E por que meios? Eu no fazia a menor idia, mas tambm no tinha a menor dvida sobre as conseqncias da inrcia.
        Os acontecimentos poderiam ser alterados? Talvez. Meus dedos buscaram minha mo esquerda e acariciaram lentamente a aliana de ouro no dedo anular. Pensei 
no que eu disse a Jonathan Randall, fervendo de dio e pavor nas masmorras da priso de Wentworth.
        "Eu o amaldio com a hora de sua morte." E lhe contara quando ele iria morrer. Disse-lhe a data inscrita no mapa genealgico, na caligrafia preta e elegante 
de Frank - 16 de abril de 1745. Jonathan Randall deveria morrer na batalha de Culloden, envolvido no massacre que os ingleses iriam causar. Mas, no. Em vez disso, 
morreu algumas horas mais tarde, pisoteado, sob os cascos da minha vingana.
        E morreu solteiro e sem filhos. Ou ao menos, assim eu acreditava. O mapa - o maldito mapa! - dava a data de seu casamento, em algum momento de 1744. E o 
nascimento de seu filho, o ascendente de Frank, pouco depois. Se Jack Randall estava morto e sem filhos, como Frank nasceria? E, no entanto, sua aliana ainda estava 
em meu dedo. Ele existia, iria existir. Reconfortei-me com o pensamento, esfregando sua aliana no escuro, como se contivesse um gnio que pudesse me aconselhar.
        Acordei de um sono pesado algum tempo depois, com um pequeno grito.
        - Sssh. Sou eu. - A mo enorme ergueu-se de minha boca. Com a vela apagada, o quarto estava escuro como breu. Tateei s cegas, at minha mo bater em algo 
slido.
        - No devia estar fora da cama! - exclamei, ainda sonolenta. Meus dedos deslizaram por uma pele lisa e fria. - Est gelado!
        - Bem, claro que estou - disse, um tanto irritado. - Estou sem roupas e est terrivelmente frio no corredor. Posso entrar a com voc?
        Esgueirei-me o mais que pude no catre estreito e ele deitou-se ao meu lado, nu, agarrando-se a mim para se esquentar. Sua respirao era irregular e achei 
que seu tremor era tanto de fraqueza quanto de frio.
        - Meu Deus, como voc est quente. - Aconchegou-se ainda mais, suspirando. - Ah,  bom abra-la assim, Sassenach.
        No me dei ao trabalho de perguntar o que ele estava fazendo ali; isso estava ficando perfeitamente claro. Nem perguntei se ele tinha certeza. Eu tinha minhas 
prprias dvidas, mas no iria proclam-las, por medo de fazer profecias que acabavam se cumprindo. Virei-me de frente para ele, tomando cuidado com a mo ferida.
        Houve aquele repentino e surpreendente momento de unio, aquela rpida e escorregadia estranheza que imediatamente se torna familiar. Jamie suspirou profundamente, 
com satisfao e, talvez, alvio. Permanecemos imveis por um instante, como se tivssemos medo de perturbar nossa frgil ligao. A mo esquerda de Jamie acariciou-me 
devagar, tateando seu caminho no escuro, os dedos abertos como o bigode de um gato, sensveis  vibrao. Investiu uma vez, como se fizesse uma pergunta, e eu respondi 
na mesma linguagem.
        Comeamos o delicado jogo de movimentos lentos, um ato de equilbrio entre seu desejo e sua fraqueza, entre a dor e o prazer crescente do corpo. Em algum 
lugar na escurido, pensei comigo mesma que eu devia contar a Anselmo que havia outra maneira de fazer o tempo parar, mas depois achei melhor no contar, j que 
no era um caminho aberto a um sacerdote.
        Segurei Jamie, apoiando-o com a mo pousada de leve em suas costas marcadas. Ele estabeleceu o nosso ritmo, mas deixou que eu carregasse a fora de nosso 
movimento. Ficamos ambos em silncio, a no ser pela nossa respirao, at o fim. Sentindo que ele se cansava, agarrei-o com firmeza e puxei-o para mim, mexendo 
meus quadris para receb-lo ainda mais fundo, forando-o ao clmax.
        - Agora - eu disse suavemente -, goze comigo. Agora! - Ele apoiou sua testa com fora na minha e rendeu-se a mim com um suspiro trmulo.
        Os vitorianos chamavam a isso de "pequena morte", e no sem razo. Ele deixou-se ficar, to relaxado e pesado, que teria achado que estava morto, se no 
fosse pelas batidas surdas de seu corao contra as minhas costelas. Pareceu que um longo tempo havia se passado at ele se mexer e murmurar alguma coisa contra 
meu ombro.
        - O que foi que disse?
        Ele virou a cabea de modo que sua boca ficasse logo abaixo de minha orelha. Senti seu hlito quente em meu pescoo.
        - Eu disse - respondeu baixinho - que minha mo no di nem um pouco agora.
        A mo intacta explorou ternamente meu rosto, limpando o suor das minhas faces.
        - Voc temeu por mim? - perguntou.
        - Sim - respondi. - Achei que era cedo demais. Ele riu baixinho na escurido.
        - E era; quase morri. Sim, eu tambm tive medo. Mas acordei com a mo doendo e no conseguia voltar a dormir. Fiquei virando de um lado para o outro na cama, 
sentindo sua falta. Quanto mais eu pensava em voc, mais a desejava e j estava no meio do corredor antes de me preocupar com o que eu iria fazer quando chegasse 
aqui. E quando pensei... - parou, acariciando meu rosto. - Bem, no sou grande coisa, Sassenach, mas talvez no seja um covarde, afinal de contas.
        Virei a cabea para ir ao encontro de seu beijo. Seu estmago roncou alto.
        - No ria - resmungou. - A culpa  sua, por me deixar faminto.  de se admirar que eu tenha tido foras, sem nada alm de caldo de carne e cerveja.
        - Est bem - eu disse, ainda rindo. - Voc venceu. Pode comer um ovo no desjejum amanh.
        - Ah! - exclamou, em tom de profunda satisfao. - Sabia que voc iria me alimentar se eu lhe oferecesse um incentivo adequado.
        Adormecemos nos braos um do outro, os rostos colados.
        
        41 - NO VENTRE DA TERRA
        
        Nas duas semanas seguintes, Jamie continuou sua recuperao e eu continuei a pensar. Em alguns dias, eu sentia que devamos ir para Roma, onde a corte do 
Pretendente imperava, e fazer... o qu? Em outras ocasies, desejava de todo o corao simplesmente encontrar um lugar seguro e isolado, para vivermos nossas vidas 
em paz.
        Era um dia quente e luminoso e os pingentes de gelo que pendiam dos narizes das grgulas no cessavam de pingar, cavando buracos na neve sob as calhas. A 
porta do quarto de Jamie fora deixada aberta de par em par e a janela descoberta, para arejar o aposento e livr-lo dos resqucios de fumaa e doena.
        Enfiei a cabea cautelosamente pelo umbral da porta, no querendo acord-lo caso estivesse dormindo, mas o catre estreito estava vazio. Ele estava sentado 
junto  janela aberta, parcialmente de costas para a porta, de modo que seu rosto estava praticamente escondido.
        Ele ainda estava extremamente magro, mas os ombros eram largos e retos sob o tecido rstico do hbito de novio. Alm disso, o encanto de sua fora aos poucos 
retornava; estava firmemente sentado, sem nenhum tremor, as costas empertigadas e as pernas dobradas para trs embaixo do banco, os contornos de seu corpo firmes 
e harmoniosos. Segurava o pulso direito com a mo esquerda, girando a mo direita devagar ao sol.
        Havia uma pequena pilha de tiras de pano sobre a mesa. Ele removera as ataduras da mo machucada e examinava-a detidamente. Fiquei parada na entrada do quarto, 
imvel. Dali, podia ver a mo com clareza, conforme ele a movia para a frente e para trs, sondando atentamente.
        A marca do ferimento do prego na palma da mo era bem pequena e a ferida, fiquei feliz de ver, estava bem cicatrizada; no passava de um pequeno ponto rosado 
de tecido de cicatriz que desapareceria gradualmente. Nas costas da mo, a situao no era to favorvel. Corrodo pela infeco, o ferimento ali cobria uma rea 
do tamanho de uma moeda, ainda recoberto com uma crosta e a pele fina de uma nova cicatrizao.
        O dedo mdio tambm exibia uma cicatriz alta e irregular de tecido rosado, estendendo-se da primeira junta at quase o n do dedo. Libertados de suas talas, 
o polegar e o dedo indicador estavam retos, mas o dedo mnimo estava bastante torto. Ele sofrera trs fraturas distintas, eu me lembrava, e aparentemente eu no 
conseguira encaixar todas elas adequadamente.
        O dedo anular estava estranho, j que se projetava levemente para cima quando ele espalmava a mo aberta sobre a mesa, como fazia agora.
        Virando a palma da mo para cima, ele comeou a manipular os dedos delicadamente. Nenhum deles dobrava-se mais do que trs ou quatro centmetros; o dedo 
anular no se dobrava de jeito nenhum. como eu temia, era provvel que a segunda articulao ficasse irremediavelmente paralisada.
        Ele virou a mo de um lado para o outro, erguendo-a diante do rosto, observando os dedos rgidos e tortos, as horrveis cicatrizes, cruelmente vvidas  
luz do sol. Ento, abaixou a cabea repentinamente, agarrando a mo ferida junto ao peito, cobrindo-a protetoramente com a mo perfeita. No emitiu nenhum som.Apenas 
seus ombros largos sacudiram-se ligeiramente.
        - Jamie. - Atravessei o quarto rapidamente e ajoelhei-me ao lado dele, colocando a mo de leve em seu joelho.
        - Jamie, sinto muito - eu disse. - Fiz o melhor que pude.
        Ele olhou para mim, surpreso. As pestanas, espessas e ruivas, cintilavam de lgrimas  luz do sol e ele as limpou apressadamente com as costas da mo.
        - O qu? - exclamou, engolindo em seco, claramente desconcertado com a minha sbita apario. - Sente muito? Por qu, Sassenach?
        - Sua mo. - Tomei-a nas minhas, traando de leve as linhas tortas de seus dedos, tocando a cicatriz funda nas costas da mo.
        - Vai melhorar - assegurei-lhe ansiosamente. -  verdade. Sei que parece rgida e intil agora, mas  s porque ficou imobilizada tanto tempo e os ossos 
ainda no se emendaram completamente. Posso lhe mostrar como se exercitar e massagear. Voc vai conseguir a maior parte de seus movimentos com ela, sinceramente...
        Ele me fez calar deslizando a mo esquerda pelo meu rosto.
        - Voc quis dizer...? - comeou, depois parou, sacudindo a cabea sem poder acreditar. - Voc pensou...? - parou outra vez e comeou de novo.
        - Sassenach, voc no pensou que eu estava me lamentando por causa de um dedo paralisado e mais algumas cicatrizes, no ? - Sorriu, meio de vis. - Sou 
vaidoso, talvez, mas no tanto assim, espero.
        - Mas voc... - comecei. Ele segurou minhas mos nas suas e levantou-se, fazendo-me ficar de p tambm. Estendi o brao e limpei a nica lgrima que rolara 
pelo seu rosto. Senti o calor da minscula gota em meu polegar.
        - Eu estava chorando de alegria, Sassenach - disse suavemente. Estendeu os braos devagar e segurou meu rosto entre as mos. - E agradecendo a Deus por ter 
duas mos. Por ter duas mos para segurar voc. Para acarici-la, para am-la. Agradecendo a Deus por ainda ser um homem completo, por voc.
        Ergui minhas prprias mos, colocando-as sobre as dele.
        - Mas por que no seria? - perguntei. E ento me lembrei da parafernlia de aougueiro, entre serras e facas, que eu vira entre os instrumentos de Beaton 
em Leoch, e compreendi. Compreendi o que eu havia esquecido diante da emergncia. Que antes dos antibiticos, a cura comum - a nica - para um membro infeccionado 
era a amputao.
        - Ah, Jamie - exclamei. Meus joelhos ficaram fracos diante da idia e me sentei no banco repentinamente. - Nunca pensei nisso - eu disse, ainda perplexa. 
- Sinceramente, nunca pensei nisso. - Ergui os olhos para ele. - Jamie. Se eu tivesse pensado nisso, provavelmente o teria feito. Para salvar sua vida.
        - No  assim... eles no fazem isso desse modo, ento, na... sua poca? Sacudi a cabea.
        - No. H remdios para combater a infeco. Ento, eu nem considerei essa possibilidade - disse, admirada. Ergui os olhos de repente. - E voc? Considerou?
        Ele balanou a cabea, confirmando.
        - Eu esperava por isso. Foi por isso que lhe pedi que me deixasse morrer, naquela vez. Estava pensando nisso, entre os acessos de confuso mental, e naquele 
nico momento eu achei que no seria capaz de suportar viver assim.  o que aconteceu com Ian, sabe.
        - No, foi mesmo? - Estava chocada. Ele disse-me que a havia perdido com um tiro de canho, mas no pensei em perguntar os detalhes.
        - Sim, o ferimento em sua perna piorou. Os mdicos a cortaram para evitar que envenenasse seu sangue. - Fez uma pausa.
        - Ian se sai muito bem, no geral. Mas - hesitou, puxando o dedo anular paralisado - eu o conheci antes. Ele s est to bem como o vimos por causa da Jenny. 
Ela... o mantm inteiro. - Sorriu timidamente para mim. -Como voc fez por mim. No consigo imaginar por que as mulheres se do ao trabalho.
        - Bem - eu disse suavemente -, as mulheres gostam de fazer isso. Ele riu baixinho e me puxou para junto de si.
        - Sim. S Deus sabe por qu.
        Permanecemos abraados por algum tempo, sem nos mover. Minha cabea descansava em seu peito, meus braos em volta de suas costas e eu podia ouvir seu corao 
batendo, devagar e com fora. Finalmente, ele se mexeu e me soltou.
        - Tenho algo para lhe mostrar - disse. Virou-se e abriu a pequena gaveta da mesa, retirando dali uma carta dobrada que me entregou.
        Era uma carta de apresentao, do abade Alexander, recomendando seu sobrinho, James Fraser,  ateno do Chevalier-St. George - tambm conhecido como Sua 
Majestade o rei Jaime da Esccia - como um lingista e tradutor muito apto.
        -  um lugar - Jamie disse, observando-me enquanto eu dobrava a carta. - E logo vamos precisar de um lugar para onde ir. Mas o que voc me disse na colina 
de Craigh na Dun era verdade, no?
        Respirei fundo e balancei a cabea.
        -  verdade.
        Ele pegou a carta da minha mo e bateu-a de leve no joelho, pensativamente.
        - Ento isto - agitou a carta - implica algum risco.
        - Pode ser.
        Atirou o pergaminho na gaveta e ficou sentado fitando-o por alguns instantes. Em seguida, levantou a cabea e os olhos azuis encontraram-se com os meus. 
Passou a mo em meu rosto.
        - Falo srio, Claire - disse serenamente. - Minha vida lhe pertence. E voc pode decidir o que devemos fazer, para onde devemos ir. Para a Frana, para a 
Itlia, at mesmo de volta  Esccia. Meu corao  seu desde a primeira vez em que a vi e voc teve a minha alma e meu corpo em suas mos aqui e os salvou. Faremos 
o que voc disser.
        Ouviu-se uma leve batida na porta e nos afastamos como amantes culpados. Ajeitei meus cabelos apressadamente, pensando que um mosteiro, embora um excelente 
lugar de convalescena, no era um retiro romntico apropriado.
        Um irmo laico entrou ao comando de Jamie e colocou um pesado alforje sobre a mesa.
        - De MacRannoch da Manso Eldridge - disse com um largo sorriso. - Para a senhora de Broch Tuarach. - Fez uma reverncia e saiu, deixando para trs um leve 
sopro de maresia e ar gelado.
        Desatei as fivelas das tiras de couro, curiosa para ver o que MacRannoch teria mandado. Dentro, havia trs coisas: um bilhete, sem endereo e sem assinatura, 
um pequeno pacote endereado a Jamie e a pele curtida de um lobo, com um cheiro forte dos produtos usados pelo curtidor.
        O bilhete dizia: "Porque uma mulher virtuosa  uma prola de alto preo e seu valor  maior do que o de rubis."
        Jamie abrira o outro pacote. Segurava um objeto pequeno e brilhante em uma das mos e olhava, intrigado, para o couro de lobo.
        -  um pouco estranho. Sir Marcus enviou-lhe uma pele de lobo, Sassenach, e para mim uma pulseira de prolas. Ser que ele trocou as etiquetas?
        A pulseira era uma bela jia, uma nica fileira de grandes prolas barrocas, unidas por elos de ouro.
        - No - eu disse, admirada. - Est certo. A pulseira combina com o colar que voc me deu quando nos casamos. Foi ele quem deu o colar de prolas  sua me, 
sabia?
        - No, no sabia - ele respondeu em voz baixa, tocando as prolas. - Meu pai o deu para mim para que eu desse  minha esposa, quem ela viesse a ser - e um 
rpido sorriso torceu seus lbios -, mas ele no me disse de onde elas vieram.
        Lembrei-me da ajuda de sir Marcus na noite em que irrompemos to bruscamente em sua casa e a expresso em seu rosto quando o deixamos no dia seguinte. Eu 
podia ver pelo rosto de Jamie que ele tambm estava se lembrando do baronete que poderia ter sido seu pai. Estendeu o brao e segurou minha mo, prendendo a pulseira 
em torno do meu pulso.
        - Mas no  para mim! - protestei.
        - , sim - ele disse com firmeza. - No  adequado que um homem envie uma jia para uma respeitvel mulher casada, ento ele a deu para mim. Mas  claro 
que  para voc. - Olhou para mim e sorriu. - Para comear, no d no meu pulso, mesmo magro como estou.
        Virou-se para a pele de lobo embolada sobre a mesa e sacudiu-a.
        - Mas por que MacRannoch lhe enviou isto? - Envolveu os ombros com o couro peludo do animal e eu me encolhi com um grito agudo. A cabea, tambm cuidadosamente 
raspada e curtida, bem como dotada com um par de olhos de vidro amarelos, olhava desagradavelmente para mim com os olhos arregalados de sua posio no ombro esquerdo 
de Jamie.
        - Ugh! - exclamei. - Tem a mesma aparncia de quando estava vivo!
        Jamie, seguindo a direo do meu olhar, virou a cabea e viu-se de repente cara a cara com a fera de dentes arreganhados. Com uma exclamao de espanto, 
deu um puxo na pele de lobo e atirou-a do outro lado do quarto.
        - Meu Deus - exclamou, fazendo o sinal-da-cruz. A pele ficou esparramada no cho, brilhando ameaadoramente  luz da vela.
        - O que quer dizer com "quando estava vivo", Sassenach? Era um amigo pessoal? -Jamie perguntou, olhando de vis a cara do animal.
        Contei-lhe, ento, tudo que no tivera a chance de lhe contar; sobre o lobo e os outros lobos, sobre Hector, a neve, a cabana com o urso e a discusso com 
sir Marcus, a entrada de Murtagh, o gado e a longa espera na encosta do monte em meio  neblina rosada do crepsculo varrido pela neve, esperando para saber se ele 
estava vivo ou morto.
        Mesmo magro, seu peito era largo e seus braos quentes e fortes. Apertou meu rosto contra seu ombro e embalou-me enquanto eu soluava. Tentei me controlar, 
mas ele apenas abraou-me com mais fora, dizendo palavras ternas e amorosas em meus cabelos. Finalmente, eu no resisti e chorei com o completo abandono de uma 
criana, at chegar  completa exausto, fraca e soluante.
        - Por falar nisso, eu tambm tenho um presentinho para voc, Sassenach - ele disse, alisando meus cabelos. Limpei meu nariz na saia, no tendo mais nada 
 mo.
        - Desculpe no ter nada para lhe dar - eu disse, olhando-o enquanto se levantava e comeava a procurar alguma coisa embaixo das cobertas desfeitas. Provavelmente, 
procurando um leno, pensei, fungando um pouco mais.
        - Fora alguns presentinhos como minha vida, minha masculinidade e minha mo direita? - perguntou secamente. - Basta isso, no, mo duinne? - Endireitou-se 
com a tnica de um novio na mo.
        - Dispa-se. 
        Fiquei boquiaberta.
        - O qu?
        - Dispa-se, Sassenach, e vista isso. - Entregou-me a tnica, rindo. - Ou quer que eu vire de costas primeiro?
        Apertando a tnica de pano rstico ao redor do corpo, segui Jamie por mais um lance de escadas escuras. Era o terceiro e o mais estreito; o lampio que ele 
segurava iluminava as paredes de pedra distantes uma da outra no mais do que quarenta centmetros. Parecia que estvamos sendo engolidos para dentro da Terra,  
medida que penetrvamos cada vez mais fundo no poo escuro das escadas.
        - Tem certeza de que sabe aonde est indo? - perguntei. Minha voz ecoou no vo da escada, mas com um curioso som abafado, como se falssemos embaixo d'gua.
        - Bem, no h muita chance de pegar o caminho errado, no ? Alcanramos outro patamar, mas, de fato, o caminho  frente seguia em uma nica direo - para 
baixo.
        Entretanto, no p desse lance de escadas, chegamos a uma porta. Havia um pequeno patamar, escavado na prpria rocha da encosta de uma montanha, ao que parecia, 
e uma porta larga e baixa, feita de tbuas de carvalho e dobradias de lato. As tbuas de carvalho eram cinzentas de to antigas, mas slidas, e o patamar estava 
limpo e varrido. Obviamente, aquela parte do monastrio ainda era usada. Seria a adega?
        Havia um candeeiro preso  parede junto  porta servindo de suporte a uma tocha, parcialmente consumida pelo uso anterior. Jamie parou para acend-la com 
um pedao de papel torcido da pilha j pronta embaixo do candeeiro, em seguida empurrou a porta, que no estava trancada, e agachou-se para passar por baixo do umbral, 
sinalizando para que o seguisse.
        No comeo, no conseguia ver nada alm da claridade do lampio de Jamie. Tudo estava s escuras. O lampio balanava-se, afastando-se de mim. Fiquei parada, 
seguindo a bolha de luz com os olhos. A intervalos de alguns passos, ele parava, depois continuava, e uma pequena chama erguia-se em seu rastro, queimando com um 
pequeno claro vermelho.  medida que meus olhos se acostumavam, as chamas tornavam-se uma fileira de lamparinas, instaladas em pilastras de pedra, brilhando no 
escuro como faris.
        Era uma caverna. A princpio, pensei que fosse uma caverna de cristais, por causa da estranha cintilao negra alm das lamparinas. Mas avancei at a primeira 
pilastra e olhei mais  frente, ento eu vi.
        Um lago lmpido e escuro. gua transparente, brilhando como vidro sobre areia vulcnica, negra e fina, lanando reflexos vermelhos  luz das lamparinas. 
O ar era mido e quente, pesado com o vapor que se condensava nas paredes frias da caverna, escorrendo pelas speras colunas de pedra.
        Uma fonte de gua quente. O leve cheiro de enxofre penetrou em minhas narinas. Portanto, uma fonte de gua mineral quente. Lembrei-me de ter ouvido Anselmo 
mencionar as fontes que borbulhavam do cho perto do mosteiro, famosas por seus poderes curativos.
        Jamie ficou parado atrs de mim, admirando o lago de rubis e azeviches de onde se elevava um leve vapor.
        - Um banho quente - ele disse orgulhosamente. - Gostou?
        - Jesus Cristo! - exclamei.
        - Ah, ento gostou - ele disse, rindo diante do sucesso da surpresa. - Vamos entrar, ento.
        Tirou sua prpria tnica e ficou parado, reluzindo indistintamente no escuro, malhado de vermelho nos reflexos cintilantes da gua. O teto abo-badado da 
caverna parecia engolir a luz das lamparinas, de modo que a claridade atingia apenas uma certa altura, antes de ser engolfada pela escurido.
        Com uma certa hesitao, deixei a tnica escorregar dos meus ombros.
        -  quente demais? - perguntei.
        - O suficiente - respondeu. - No se preocupe, no vai queim-la. Mas se ficar mais ou menos uma hora, ela vai cozinhar sua carne at soltar-se dos ossos 
como num ensopado.
        - Que idia agradvel - eu disse, livrando-me totalmente da tnica. Seguindo sua figura esbelta e empertigada, entrei cautelosamente na gua. Havia degraus 
escavados na pedra, levando ao fundo do lago, com uma corda com ns presa ao longo da parede para servir de apoio.
        A gua atingiu meus quadris e a carne em minha barriga estremeceu de prazer quando o calor me envolveu. No final dos degraus, fiquei de p em areia fina 
e escura, a gua pouco abaixo dos meus ombros, meus seios flutuando como bias de vidro de pescadores. Minha pele ficou avermelhada com o calor e gotculas de suor 
comearam a surgir na minha nuca, sob os cabelos pesados. Era pura felicidade.
        A superfcie da fonte era lisa e sem ondas, mas a gua no era parada; eu podia sentir pequenas agitaes, correntes percorrendo a massa d'gua como impulsos 
nervosos. Foi isso, suponho, acrescentado do calor incrivelmente relaxante, que me deu a iluso momentnea de que a fonte estivesse viva - uma entidade calorosa 
e receptiva que abria os braos para tranqilizar e consolar. Anselmo dissera que as fontes tinham poderes curativos e eu no podia duvidar.
        Jamie surgiu atrs de mim, ondulaes mnimas marcando sua passagem pela gua. Segurou meus seios por trs, delicadamente banhando as elevaes superiores 
com a gua quente.
        - Gosta, mo duinne? - Inclinou-se e beijou meu ombro. Deixei meus ps flutuarem, apoiando-me nele.
        -  maravilhoso!  a primeira vez que me sinto inteiramente aquecida desde agosto. - Ele comeou a me puxar, recuando lentamente pela gua; minhas pernas 
estendiam-se no rastro de nossa passagem, o surpreendente calor correndo pelos membros do meu corpo como mos acariciadoras.
        Ele parou, virou-me de frente e colocou-me delicadamente sobre uma madeira rgida. Parcialmente visveis  luz turva, sob a gua, pude ver pranchas assentadas 
em um nicho da rocha. Sentou-se no banco ao meu lado, estendendo os braos para a salincia da rocha atrs de ns.
        - O irmo Ambrose me trouxe aqui no outro dia para mergulhar na gua - ele disse. - Para amaciar um pouco as cicatrizes. D uma tima sensao, no ?
        - Mais do que tima. - A gua flua to agradavelmente que eu senti que poderia sair flutuando se soltasse a mo com que me segurava ao banco. Olhei para 
cima, para a escurido do teto.
        - Alguma coisa vive nesta caverna? Morcegos, por exemplo? Ou peixes? Ele sacudiu a cabea.
        - Nada alm do esprito da fonte, Sassenach. As bolhas de gua saem da terra atravs de uma pequena fenda l atrs - indicou a escurido inviolvel do fundo 
da caverna com um movimento da cabea - e escorre para fora atravs de uma dezena de pequenas aberturas na rocha. Mas no h nenhuma abertura verdadeira para o lado 
de fora, a no ser a porta que d para o mosteiro.
        - O esprito da fonte? - perguntei, achando graa. - Soa um pouco pago, esconder-se sob um mosteiro.
        Ele espreguiou-se com vontade, as longas pernas oscilando sob a superfcie vtrea como os caules de plantas aquticas.
        - Bem, seja como for que voc queira cham-lo, est aqui h muito mais tempo do que o mosteiro.
        - Sim, compreendo.
        As paredes da caverna eram de rocha vulcnica lisa e escura, quase como vidro preto, escorregadias com a umidade da fonte. A cmara inteira parecia uma bolha 
gigantesca, parcialmente cheia daquela gua curiosamente viva, mas estril. Senti-me como se estivssemos embalados no ventre da Terra e que, se encostasse meu ouvido 
na rocha, ouviria o batimento infinitamente vagaroso de um grande corao no muito longe dali.
        Ficamos em silncio por um longo tempo, em parte flutuando, em parte sonhando, esbarrando de vez em quando um no outro, conforme ramos levados pelas correntes 
invisveis da caverna.
        Quando finalmente falei, minha voz parecia lenta e arrastada.
        - J decidi.
        - Ah. Vai ser Roma, ento? - A voz de Jamie parecia vir de uma grande distncia.
        - Sim. Uma vez l, no sei...
        - No importa. Faremos o que for possvel. - Estendeu a mo para mim, com movimentos to lentos que pensei que nunca me tocaria.
        Puxou-me para junto dele, at que as pontas sensveis dos meus seios roassem o seu peito. A gua no era apenas quente, mas tambm pesada, quase oleosa 
ao tato, e suas mos flutuaram pelas minhas costas, seguraram-me pelas ndegas e me ergueram.
        A penetrao foi surpreendente. Quente e escorregadia como nossa pele estava, deslizamos por cima um do outro apenas com uma leve sensao de toque ou presso, 
mas sua presena em mim era slida e ntima, um ponto fixo num mundo aqutico, como um cordo umbilical aleatoriamente levado pelos lquidos no tero. Emiti um pequeno 
som de surpresa com o pequeno influxo de gua quente que acompanhou sua entrada, depois me agarrei com firmeza ao meu ponto fixo de referncia com um pequeno gemido 
de prazer.
        - Ah, gostei desse - ele disse, de modo apreciativo.
        - Gostou de qu?
        - Desse som que voc acabou de fazer. Esse gritinho.
        No era possvel ficar ruborizada; minha pele j estava to vermelha quanto era possvel. Deixei meus cabelos ondularem para a frente para encobrir meu rosto, 
os cachos relaxando-se ao arrastarem a superfcie da gua.
        - Desculpe; no pretendia fazer barulho.
        Ele riu, o som profundo ecoando suavemente nas colunas do teto.
        - Eu disse que gostei. E  verdade. E uma das coisas que eu mais gosto em me deitar com voc, Sassenach, os pequenos rudos que voc faz.
        Puxou-me para mais perto, para que minha fronte descansasse em seu pescoo. Nossos corpos deslizaram um contra o outro, escorregadios como a gua carregada 
de enxofre. Ele fez um ligeiro movimento com os quadris e eu prendi a respirao, arquejando.
        - Assim... - ele disse num sussurro. - Ou... assim?
        - Hum - exclamei. Ele riu outra vez, mas no parou.
        - Isso era tudo em que eu pensava - ele disse, acariciando minhas costas, apalpando, traando as curvas dos meus quadris. - Na priso  noite, acorrentado 
em uma cela com uma dezena de outros homens, ouvindo os roncos, as ventosidades, os gemidos. Pensava nesses pequenos e meigos sons que voc faz quando eu fao amor 
com voc e podia senti-la ali comigo no escuro, respirando devagar e depois mais depressa, e o pequeno gemido que voc d assim que eu a possuo, como se estivesse 
preparando-se para fazer sua parte.
        Minha respirao estava definitivamente se acelerando. Sustentada pela gua densa, saturada de minerais, boiava como uma pena oleosa, que s no era levada 
pela corrente porque se agarrava nos msculos curvilneos de seus ombros e por estarmos firmemente presos mais embaixo.
        - E ainda melhor - sua voz murmurava quente em meu ouvido - quando eu a procuro com sofreguido e ardor e voc choraminga sob mim, e luta como se quisesse 
escapar e eu sei que est apenas lutando para ficar mais perto, e eu tambm estou travando a mesma batalha.
        - Jamie - eu disse em voz rouca, seu nome ecoando da gua. - Jamie, por favor.
        - Ainda no, mo duinne. - Suas mos agarraram-me com fora pela cintura, movendo-me devagar, pressionando-me para baixo, at eu realmente gemer.
        - Ainda no. Temos tempo. E pretendo ouvi-la gemer assim outra vez. E gemer e soluar, mesmo que no queira, porque no pode se conter. Quero faz-la suspirar 
como se seu corao fosse se despedaar e gritar de desejo e finalmente berrar em meus braos e eu saberei que realmente lhe dei muito prazer.
        A precipitao comeou entre minhas coxas, disparando como um dardo nas profundezas do meu ventre, fazendo minhas articulaes amolecerem, minhas mos afrouxaram-se 
e languidamente abandonaram seus ombros. Minhas costas se arquearam e meus seios firmes e escorregadios pressionaram-se com fora contra seu peito. Estremeci na 
escurido quente, as mos firmes de Jamie eram tudo que me impedia de submergir.
        Descansando em seu peito, sentia-me mole como uma gua-viva. No me importava com os rudos que andei fazendo, mas sentia-me incapaz de dizer uma frase coerente. 
At ele comear a se mexer outra vez, com a fora de um tubaro sob as guas escuras.
        - No - eu disse. - Jamie, no. No vou agentar desta forma outra vez. - O sangue ainda latejava nas pontas dos meus dedos e seu movimento dentro de mim 
era uma deliciosa tortura.
        - Agenta, sim, porque eu a amo. - Sua voz chegava at mim abafada pelos meus cabelos encharcados. - E agentar, porque eu a desejo. Mas desta vez, eu vou 
com voc.
        Segurou meus quadris firmemente contra ele, arrastando-me com a fora de uma contracorrente. Meu corpo amorfo bateu de encontro ao dele, como as ondas da 
arrebentao em um rochedo, e ele me recebeu com a fora brutal do granito, minha ncora no caos das guas agitadas.
        Lnguida e mole como as guas ao nosso redor, contida apenas pelo apoio de suas mos, eu gritei, o grito engasgado, borbulhante, fraco, de um marinheiro 
tragado pelas ondas. Ento, ouvi seu prprio grito, em resposta, e vi que havia lhe dado muito prazer.
        Lutamos para subir  superfcie, para sair do ventre da Terra, molhados e fumegantes, com as pernas frouxas de vinho e calor. Ca de joelhos no primeiro 
patamar e Jamie, ao tentar me ajudar, caiu ao meu lado num amontoado de tnicas e pernas nuas. Rindo baixinho, sem conseguir parar, mais embriagados de amor do que 
de vinho, subimos lado a lado o segundo lance de escadas, mutuamente nos atrapalhando mais do que ajudando, empurrando-nos e tropeando no espao estreito, at desmoronarmos 
finalmente nos braos um do outro no segundo patamar.
        Ali, uma antiga janela envidraada abria-se, sem vidraas, para o cu e o claro da lua cheia banhou-nos de prata. Ficamos deitados, abraados, a pele mida 
esfriando-se ao ar de inverno,  espera de que nossos coraes acelerados voltassem ao normal e o flego retornasse aos nossos corpos arfantes.
        A lua sobre ns era uma lua de Natal, to grande que quase preenchia o vo da janela. No era de admirar que as mars do oceano e as mulheres fossem sujeitas 
 influncia daquela esfera majestosa, to prxima e to dominante.
        As minhas prprias mars, entretanto, j no se moviam segundo aqueles comandos estreis e castos e o conhecimento da minha liberdade corria perigosamente 
pelas minhas veias.
        - Eu tambm tenho um presente para voc - disse repentinamente a Jamie. Voltou-se para mim e sua mo deslizou, grande e firme, sobre meu ventre ainda plano.
        -  mesmo? - ele disse.
        E o mundo nos envolveu, pleno de novas possibilidades.
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
AGRADECIMENTOS
        
        A autora gostaria de agradecer a:
        Jackie Cantor, editor por excelncia, cujo permanente entusiasmo contribuiu para a concretizao deste projeto. Perry Knowlton, agente literrio de discernimento 
impecvel, que disse: "V em frente e conte a histria do jeito que deve ser contada; ns nos preocuparemos em edit-la depois." Meu marido, Doug Watkins, que apesar 
de ocasionalmente ficar por trs da minha cadeira, dizendo: "Se  ambientada na Esccia, por que ningum diz "Hoot monv", tambm passou boa parte do tempo correndo 
atrs das crianas e dizendo: "Mame est trabalhando! Deixem-na em paz!". Minha filha Laura, por informar com orgulho a uma amiga: "Minha me escreve livros". Meu 
filho Samuel que, ao ser perguntado em que sua me trabalhava, respondeu cautelosamente: "Bem, ela passa um bocado de tempo olhando para o computador." Minha filha 
Jennifer, que diz: "Chegue pra l, mame;  a minha vez de digitar!" Jerry O'Neill, o leitor-mor e chefe de torcida, e o resto da minha gangue fiel de amigos - Janet 
McConnaughey, Margaret J. Campbell e John L. Myers - que lem tudo que escrevo e, assim, me mantm escrevendo. Dr. Gary Hoff, por verificar os detalhes mdicos e 
gentilmente explicar a maneira correta de recolocar um ombro deslocado. T. Lawrence Tuohy, pelos detalhes sobre figurinos e histria militar. Robert Rifrle, por 
explicar a diferena entre betnica e brinia, por listar todos os tipos de miosotis conhecidos pelo homem e por constatar que alamos realmente crescem na Esccia. 
Virginia Kidd, por ler os primeiros captulos do manuscrito e encorajar-me a continuar. Alex Krislov, por hospedar, juntamente com outros operadores de sistemas, 
a mais extraordinria incubadora eletrnica de escritores literrios do mundo, o CompuServe Literary Frum; e aos numerosos membros do LitForum -John Stith, John 
Simpson, John L. Myers, Judsonjerome, Angelia Dorman, Zilgia Quafay e outros - pelas canes folclricas escocesas, poesia romntica em latim e por rirem (e chorarem) 
nas passagens certas.
        
        
        
        
        
        
        
  
        
        http://groups-beta.google.com/group/digitalsource
        http://groups-beta.google.com/group/Viciados_em_Livros
